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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Da esquerda à direita, os particípios da desgraça!

    Nos tempos de antena política, com os debates em curso, as figuras representantes dos partidos deixam muito a desejar (também) na língua.

     Para começar, antes do confronto Costa (PS) - Ventura (CHEGA), na RTP1, a receção feita a António Costa dá lugar a uma pequena entrevista, na qual o ainda primeiro-ministro produz a primeira das falhas:

Fotomontagem a partir da imagem difundida na RTP Play (com citação das palavras de António Costa)
     
     Na SIC, com Catarina Martins (BE) e João Cotrim de Figueiredo (INICIATIVA LIBERAL) é a vez de chegar a segunda:

Fotomontagem a partir da imagem difundida na SIC (com citação das palavras de João Cotrim de Figueiredo)

      Digamos que os verbos com duplo particípio são questão crítica no uso da língua, com o costume de se indiferenciar muitas vezes a forma fraca e a forma forte do particípio. Numa perspetiva de gramática normativa, está identificada a primeira como sendo a utilizada com os verbos auxiliares 'ter' e 'haver'; a segunda, com 'ser' e 'estar'.
    Ora, no caso da réplica de Costa, o verbo 'eleger' (com os particípios elegido / eleito), há que reconhecer a predicação 'SER ELEITO' (e não 'ser elegido', considerada agramatical) - daí a correção que se impõe: ter sido eleito. Poderíamos sempre abordar também a escolha do verbo 'eleger' (por se referir uma situação que não deu lugar a eleição, mas, sim, a consideração / julgamento / avaliação), mas isso seria outra questão que, por ora, não é para aqui chamada.
      Já a fala do líder da Iniciativa Liberal é reveladora da clássica confusão entre, por um lado, os verbos 'morrer' e 'matar', ambos com admissão do particípio passado 'morto'; por outro, do contraste 'matado / morto' no que toca ao verbo 'matar'. Pragmaticamente reagindo à insinuação de que o seu partido estaria a 'matar' portugueses com as opções defendidas no passado,  João Cotrim de Figueiredo profere a frase que deveria ter a seguinte configuração final: "teria matado". É o verbo auxiliar 'ter' que está em questão, o qual seleciona a forma fraca ou regular de matar (matado). 'Morto' seria para a construção com auxiliar 'ser' ou 'estar'.

     Portanto, independentemente dos programas políticos que nem sempre são claros, a língua está a revelar alguns pontos muito escuros e escusos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Rubricas de (avaliação para) aprendizagem : domínio da oralidade (produção oral formal)

       Fica a sugestão de um trabalho para a avaliação da oralidade (produção oral).

     Vem este apontamento a propósito da preparação de uma atividade de oralidade (produção oral formal), na disciplina de Português (nível secundário), planificada segundo a matriz de uma rubrica de aprendizagem. Contempla esta última: (i) indicação da tarefa; (ii) condições de operacionalização; (iii) critérios de sucesso a considerar; (iv) associação dos critérios a descritores e níveis de desempenho; (v) práticas de auto e heteroavaliação. 
      Perante o propósito de levar uma turma de 12º ano a produzir um discurso autónomo, completo, planificado e estruturado para um público (ainda que familiar), orienta-se a tarefa para um projeto de trabalho assente em pensamentos do semi-heterónimo pessoano e, na base do Livro do Desassossego, na formulação de um posicionamento concordante ou discordante sobre um pensamento / uma frase de Bernardo Soares. Em vez de se indicar mais um livro, para além das obras já propostas no programa, propõe-se que cada aluno se posicione face a um pensamento selecionado, relacionando-o com a vida, a leitura, a arte, os conhecimentos do mundo, entre outros. 
     Ainda que no cruzamento de vários domínios (nomeadamente, a leitura e educação literária e, eventualmente, a escrita), sai destacado o da oralidade, cujo processo de recolha de informação estará centrado na própria produção oral (a ser observada por professores e alunos).

     Planificação de uma rubrica de avaliação para aprendizagem na oralidade

     Explicitada a tarefa (pela sua instrução), os passos e as condições da sua operacionalização, encaminha-se a turma para a definição dos critérios específicos da atividade, enquadrados pelos que dizem respeito às Aprendizagens Essenciais do Perfil à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO).

Critérios e níveis de desempenho associados ao domínio da oralidade (formal), 
a partir das Aprendizagens Essenciais do PASEO

       Dado estarem já considerados níveis globais de desempenho (N1 a N4), segundo decisão do agrupamento escolar, aplicam-se estes últimos aos critérios específicos associados à tarefa, configurados em descritores que permitem ora preparar desempenhos mediante o explicitado (no âmbito das expectativas) ora proceder à avaliação do processo segundo esses mesmos (no âmbito da consecução), sem fechar um cenário de negociação / reformulação de algum aspeto, à medida que a atividade decorre.

Critérios específicos para a rubrica construída 
(com descritores e níveis de desempenho)

     Planificada e estabilizada a rubrica (instrução, procedimentos no processo, critérios e níveis de desempenho), podem os alunos orientar-se progressivamente na concretização das etapas que conduzirão à produção / expressão oral frente à turma.
      Na consciência e na transparência da avaliação a fazer, podem os discentes, a todo o momento, ser confrontados com o caminho feito e o planificado, mais os critérios considerados. Com ou sem ajustamento destes últimos, a mensagem de que a produção oral será avaliada em função deles é sempre a oportunidade de exemplificar o que deve ou não fazer-se nesse momento. Será também a ocasião para a negociação de alguma reformulação e, mesmo, a preparação do que virá a ser a auto e heteroavaliação, funda(menta)da nos critérios / descritores / níveis de desempenho definidos.
      A rubrica aqui desenhada tende, naturalmente, para uma conceção de avaliação pedagógica orientada para a aprendizagem, pelo que ela tem de explicitação da tarefa e do que esta implica, em termos de conhecimentos, procedimentos e atitudes / valores previstos ou planificados. A etapa final, na súmula do processo levado a cabo e do produto apresentado, constituirá um momento de registo mais focado em indicadores precisos, dados decorrentes dos critérios, a que não escapa também a consideração de atitudes e valores - desde logo os que decorrem do cumprimento ou não da tarefa (com os passos intermédios e/ou finais); da atenção e da persistência no tratamento informativo; da adequação ou não do discurso; da disponibilidade e da colaboração para com o auditório; da autonomia maior ou menor face ao processo produzido e/ou face a outros suportes; do respeito pelo tempo destinado ao trabalho e/ou pelo auditório para o qual se discursa. A integração é natural na avaliação pedagógica, em suma.

       E sublinho o sentido da palavra 'avaliação'. Quanto à classificação final, o assunto é já outro - mais focado no produto, nos indicadores colhidos no momento da execução / produção oral, numa quantificação, nota que não deverá deixar de contemplar as diferentes etapas associadas à tarefa.

sábado, 21 de novembro de 2020

Do grave ao muito grave (ou como tudo está crítico)

       É o caso da acumulação de situações graves!

       A situação do Covid-19 no país está grave (para não dizer muito grave), dizem alguns por causa do comportamento das pessoas que não foram educadas ou instruídas para viver com limites ou contenção; com deveres ou obrigações (apenas com direitos).
      Até pode ser. Não tenho dados absolutos para o confirmar. Provas há, porém, de que o crédito de algumas informações / conselhos não é do mais educativo que há. Cai por terra, quando se lê o seguinte:

Excerto de uma nota para a saúde pública com "doença ortográfica" (agradecimento à AC)

      Nem parece verdade! Mesmo quando duas linhas antes pode ser lida a construção correta! Entre responsáveis do Centro de Contactos (sublinhe-se!) do Serviço Nacional de Saúde (SNS), não houve um elemento que prestasse atenção ao texto e no que aprovou para divulgação pública? Pergunta retórica, diria, a julgar por alguns ofícios já aqui mencionados.
      Trouxe, hoje, a foto de uma amiga, que, sabendo do meu interesse por estas questões, me endereçou logo um apontamento apenas com o meu nome e um emoji entre o assustadoramente espantado e o azulado de doença / desfalecimento. Tive de comentar, visto o destaque do erro ortográfico (decorrente da falta de reconhecimento da integridade morfológica do verbo 'estar'). Bem visível é a pequena diferença, muito reveladora de mais um sintoma dessa doença ortográfica que grassa nalgumas mentes deste país, nomeadamente nas que produzam ofícios para a Saúde 24: perda de sílabas. Confundem 'ter' com '(es)tar, por influência do oral informal, e dá nisto! Um 'estiver' passa erradamente a 'tiver' com toda a rapidez crónica.
      Para os que acham que é chique dizer que '*tá tudo (bem)!' ou que era bom que '*tivessem mais atentos', aí vai a consequência do mal falar: mal escrevem. '*Tão a ver o mal que fazem?' Bom era que estivessem.

       Sei que há casos bem mais graves para resolver no momento no Centro de Contacto do SNS - Saúde 24, mas cometer na língua erro crónico não ajudará, por certo, a salvar a educação / instrução deste país. Torna a situação bem mais crítica, quando se trata de uma iniciativa associada a uma instituição ligada à ação governativa.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Coisas do oral (ou de homofonias nos discursos)

      Porque nem sempre o que se diz é o imediatamente entendido.

     Aquele momento em que o enfermeiro pergunta quando aconteceu a última refeição e, com a minha resposta, ele põe aquele ar de quem começa a fazer contas.
    O momento do diálogo aconteceu cerca das 9 horas da manhã. Respondi que tinha bebido o último copo de água à hora e meia da manhã. O olhar e o ato de registo parados eram a razão do cálculo a processar-se: "Ora... seis, sete horas, certo? Foi quando bebeu."
   Nego, mas insisto: "À hora e meia, mesmo. A partir daí não ingeri mais nada".
    Veio, então, o "Ah! Ótimo. Foi à hora e meia do relógio".
    Confirmei. Agora, sim, o tempo certo! Não tinha bebido água há hora e meia, mas sim à hora e meia
   Entre a expressão de duração / intervalo de tempo e a da hora precisa do relógio, a diferença é substancial. Que o digam o enfermeiro e a anestesista, mais o paciente; na oralidade, a distinção não se faz. 

     Valha a ortografia para marcar diferenças semânticas e sentidos pragmáticos que viabilizem uma intervenção cirúrgica. Um dia para a história (não da linguística, mas da pessoa operada).

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Como se dúvidas houvesse

      As imagens são muito significativas da irracionalidade reinante nestes dias

      O que víamos há tempos em território americano chegou à Europa,... a Portugal,... a Matosinhos - corre o povo em cardume, direitinho ao anzol (que não vê), pensando no retalho de pano lindo que, vaidosamente, vai poder mostrar a todos:

Black Friday em Matosinhos (à moda de USA)

     Ainda há dias falava, nas aulas, sobre o Black Friday (que mais deve ser Black Days, já que nem de Friday nem de um só dia se trata), tudo a propósito de Vieira e do Sermão de Santo António. As semelhanças com a atualidade são inevitáveis, não fossem os peixes (seduzidos por um retalho de pano) metáfora dos homens (que se iludem com as falsas promoções).


     Outra coisa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima em muitos de vós, é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida?!
     Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca na ponta desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que chama de Cristo e de Santiago; e os homens por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois disso que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros.
     Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem esta ambição de hábitos.
     Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignorantemente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhe passou a era e não têm gasto e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano.
     Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a vida por dois retalhos de pano, quem tem obrigação de se vestir, vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e douradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com as modas; não é maior ignorância e maior cegueira deixarde-vos enganar ou deixarde-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano?
     Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cónego regrante; e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com aquela corda e com aquele pano, pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e foram sisudos.

Declamação e representação (adaptada) do sermão vieirino
por Marcelo Lafontana

       A atualidade e contemporaneidade da reflexão, com as devidas adaptações, impõem-se. Não se tratando de canibalismo puro, pouco falta. Talvez uma antropofagia social. Só porque há mais uns tostões, matam-se nas filas e nas multidões.

      O que foi escrito para o século XVII é visionário para os nossos tempos. Apetece dizer com Vieira que, ao Homem, parece ter sido dada a razão sem o uso; há animais que parecem ter mais o uso sem a razão. "Não é isto verdade? Ainda mal!"

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Relações... de risco homofónico

     Algumas podem resultar em ralações.

    Tudo depende do que um diz e o outro representa. No caso da homofonia, a situação pode ser crítica:

Um diálogo de risco homofónico

      Se o diálogo fosse escrito, não haveria tanta variedade de representação. As relações têm desta coisas, ainda mais quando, na língua, elas são mantidas entre a grafia (escrita) e a fonia (som, oralidade). Bem distinta na escrita e no significado, a homofonia pode acarretar expectativas bem diferenciadas no (n)amor(o).

      Para a próxima, é melhor pedir a resposta por escrito. Tudo por causa de piadas homofónicas.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Payassu - o Verbo do Pai Grande

      Na qualidade da oratória, da palavra dita, (ou como o verbo fez a diferença)!

      Hoje, cerca de duzentos alunos puderam experimentar a força do verbo, da palavra, um pouco à semelhança do que Vieira  (o Payassu, ou Pai Grande, para os indígenas brasileiros) terá produzido, em S. Luís de Maranhão, a 13 de junho de 1654. Em dia de Santo António, nunca melhor exemplo: o de um português que, falando aos homens, por estes foi renegado e perseguido no século XIII. Não muito diferente de Vieira, no século XVII.
     Pela Companhia de Teatro Lafontana, chegou esta adaptação do Sermão de Santo António, na encenação e representação de Marcelo Lafontana: um ator em andas, na posição superior que um púlpito lhe daria (caso o houvesse hoje, como no período barroco, para a arte prédica). Numa comunicação e interação plenas com o público, desvendou-se e transmitiu-se o texto vieirino no que tem de oralidade, tal como na sua génese. A Igreja da Anta, em Espinho, foi o local da dramatização - dir-se-ia o melhor espaço para os ouvintes, dispostos em anfiteatro, assistirem a um pregador, a um orador que, à semelhança de Vieira, procura o efeito acústico; a estratégia persuasiva transmitida pelo olhar, pelo gesto, pela sonoridade, pela entoação ora irónica ora séria; pela intensidade e pela versatilidade que a língua admite na sua realização oral.

"Exórdio" do Sermão de Santo António, de Padre António Vieira (pelo ator Marcelo Lafontana)

      O Sermão de Santo António, no seu furor e fúria, parte do conceito predicável bíblico "Vos estis sal terrae (Vós sois o sal da terra)"; glosa-o e cumpre a denúncia, a crítica de como a terra se encontra corrupta. Perante este dado, a argumentação surge, com os peixes a representarem alegoricamente as virtudes (louvadas) e os vícios (repreendidos) que, afinal, são os dos homens.
       A dimensão paraverbal (dos gestos, da tonalidade da voz, dos movimentos no seio dos ouvintes) ressalta neste espetáculo performativo pluridisciplinar (numa fusão entre teatro e recursos multimédia).

     Ao final de cerca de hora e meia de discurso, de sentido tão metafórica quanto alegoricamente intemporal, os "peixinhos" regressaram ao espaço escolar. Da palavra, do Verbo, trouxeram a mensagem que, no âmbito do verbal e do não verbal, se tornou plena, viva, mais natural aos sentidos visual e auditivo.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Palavras para quê?!

      Nos últimos tempos, tem circulado no Facebook, com elevado número de visualizações, o exemplo identificado como do melhor dos(as) nossos(as) representantes municipais.

      É isto o que se chama defender uma causa, uma ideia, um princípio. Enfim, persuadir... para o riso ou para o choro, conforme se ache isto (des)construção ou (ir)realidade:

Um discurso clarividente - à falta de melhores palavras! Enfim...!

      Identificada como Margarida Bentes Penedo, deputada municipal do CDS por Lisboa, resta saber que o tema da "preleção" é o da "ideologia de género".
     Que mais dizer / escrever? Discurso fluido, coerente, bem fundamentado, numa clareza de ideias e progressão informativa inexcedíveis. O melhor exemplo de oratória, digno dos modelos mais ciceronianos do discurso. A prova categórica de que ser deputado(a) é o reconhecimento de qualidades superiores - no mínimo, a do falar bem.

       Começo a crer que, com tudo isto a ser verdade, o CDS escolhe cada vez melhor! Outro partido que fosse não lhe ficava atrás.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Refugiados, migrações... em debate

      Em modo de produção de materiais.

      Porque antes de debater, há que apresentar exemplos; porque antes de se falar, há que ver modelos e articulá-los com conteúdos que vão ser transversais às aprendizagens (lógica argumentativa e conhecimentos de mundo). A compreensão do oral assim se constrói, em articulação com outras exigências pedagógico-didáticas sublinhadas pelo novo enquadramento legal dos ensinos básico e secundário.
       O tema é atual, a reflexão impõe-se em termos de cidadania e desenvolvimento, a sensibilização é premente para que se mantenham características que nos definem culturalmente, enquanto povo que abre os braços ao mundo.

Montagem de excertos do programa televisivo Prós e Contras (18 de junho, 2018)

      Orientado o visionamento para um conjunto de tarefas (ficha de trabalho), prepara-se uma escuta / um visionamento ativo, reflexivo e formativo, articulado com discursos políticos, e sempre com a língua à mistura.

     Quando feito em colaboração, fica sempre melhor. Obrigado, ARS. Estamos imparáveis.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Verbo 'tar' (só na oralidade com bastante informalidade)

     Lê-se (está escrito) no Expresso Curto, de hoje!

     Já escrevi sobre esta minha embirração: a do verbo 'tar'. Já também sobre ela falei a muitos alunos. E antes que me digam que têm razão, que podem escrever 'tou, tá(s), tamos, tais, tão' ou 'tive, tiveste, teve, tivemos, tivestes, tiveram' na conjugação do verbo 'estar', é bom que se lembrem que na oralidade informal, em casa ou com os amigos muita coisa pode acontecer; com o professor de Português é que não (só em jeito de brincadeira)! Como as aulas e os exames não são para brincar, faça-se a devida chamada de atenção, para que não haja surpresas na avaliação / classificação.
     Todo o excurso surge a propósito da imagem à esquerda e do título lido. Tudo ficaria mais simples se a jornalista em questão colocasse um apóstrofo no início da palavra ('tão), sugerindo que algo (uma sílaba) estaria elidido; ou, então, as aspas convenientes para dar conta de uma citação, de um verso transcrito de uma letra de canção. Não que, neste último caso, não seja de se escrever 'estão'; porém, no contexto de uma letra que sugere uma conversa com um "amigo", com vocabulário e expressões conjugadas com o destinatário e a situação (familiar, cúmplice), tudo se torna mais aceitável. Basta ouvir a canção e, em particular, a letra de Chico Buarque:

Chico Buarque, do álbum Meus Caros Amigos (1976)

         MEU CARO AMIGO

Meu caro amigo, me perdoe, por favor 
Se eu não lhe faço uma visita 
Mas como agora apareceu um portador 
Mando notícias nessa fita 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
Muita mutreta pra levar a situação 
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça 
E a gente vai tomando que também sem a cachaça 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar 
Nem atiçar suas saudades 
Mas acontece que não posso me furtar 
A lhe contar as novidades 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
É pirueta pra cavar o ganha-pão 
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro 
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu quis até telefonar 
Mas a tarifa não tem graça 
Eu ando aflito pra fazer você ficar 
A par de tudo que se passa 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
Muita careta pra engolir a transação 
Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho 
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever 
Mas o correio andou arisco 
Se me permitem, vou tentar lhe remeter 
Notícias frescas nesse disco 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
A Marieta manda um beijo para os seus 
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças 
O Francis aproveita pra também mandar lembranças 
A todo o pessoal 
Adeus!

    Com esta modinha brasileira 'tão' e 'tá' fazem todo o sentido, nas palavras (ousadas) dirigidas ao "meu caro amigo", aquele confidente com quem se desabafa, numa intimidade que se pauta pela amizade, pela cumplicidade e pela confiança (mas que não convém a uma ditadura militar brasileira, criticada e denunciada como "esse rojão", para não falar em qualquer outro contexto político brasileiro coincidentemente crítico e adverso). Fora dela, fiquemo-nos pela adequação de uma norma a situações mais regradas e formais - para que a coisa não fique "preta!" As variedades da língua devem ser consideradas no pluriformismo e na versatilidade que os falantes dela revelam, não esquecendo a avaliação, a adequação e o ajustamento que nelas se impõem.

     A bem de quem está em contexto de avaliação e de classificações (internas ou externas) que podem marcar uma vida. (Es)tá?

domingo, 26 de março de 2017

Pensamento do dia (com frio e chuva)

     E para hoje,...

     ... nada como passear pelo Facebook e encontrar a imagem seguinte na página "O Sexo e a Idade":


     Concordo com o conteúdo.
     Quanto à forma, resta-me responder à letra:


     Não é embirração, mas a impressão de que, amanhã, vou voltar ao mesmo (isto porque 'água mole em pedra dura muito dá e pouco fura'). 

     Parece que a única coisa que mudou hoje foi mesmo a hora, para tornar a luz dos dias mais longa.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Partilhas...

     Na sequência da sessão de formação de hoje, uma colega fez-me chegar um vídeo (que agradeço, pelo momento e pela boa disposição criada).

    Claro que estas coisas, por mais cómicas que sejam, podem tornar-se sérias - nomeadamente quando são tão publicitadas e divulgadas, a ponto de serem imitadas por muitos falantes.
     Vejamos: um empresário quer cantar uma música gospel, gravar um disco e sai uma frase muito 'sui generis'. Ei-la:

Vídeo recolhido do Youtube - com agradecimento, pela lembrança, à DB.

     O atropelo fonético é mais do que audível e a consciência morfológica é muito reduzida, se não for comprometida. Não é, por certo, nenhuma realização normalizada ou padronizada; mas, a verdade, é que estas produções singulares não deixam de introduzir fatores de instabilidade que podem traduzir-se em fenómenos evolutivos. Espero que daqui a uns séculos não se esteja a dizer / escrever 'árveres', 'árbiris' ou 'árberes', nem 'nozis' em qualquer das variedades do português, de tão popular que a produção se tornou.
      Veio isto a propósito de quê? Da perda da consciência morfo(fono)lógica de alguns termos, como 'dióspiro' (que já ninguém praticamente diz de modo correto, nem assim escreve), bem como de fenómenos morfológicos típicos de algumas regiões ou variedades do português que muitos desconhecem. Não sendo realizações-padrão hoje (tal como o gerúndio flexionado - que problematiza a classificação de forma verbal não finita), quem sabe o que estas poderão vir a ser nos próximos séculos. À maneira de Probo, quero registar 'árvores' não ''árbis'; 'nós' não 'nozis'.

      Discussões que surgem de dúvidas, questões, esclarecimentos que vão surgindo nas horas que se vão dedicando à formação - sobre morfologia (mas com 'cãibras' na língua, 'fuga' da palavra ou  quando 'tá enrolando tudo'). Calma! Devagarinho!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Fruto económico, com novas qualidades... até no nome.

      As novidades deste(s) tempo(s)!

    Ouvi há poucos dias alguém falar de umas bolachas que tinham "uvas pássaras" (devem ter sido uvas tão debicadas pelas ditas cujas que até lhes ganharam o nome). Pouco tempo depois, falou-se de outra comida mais substancial: os "rijões" (diga-se, pedaços de carne de porco que deviam ser tão duros, tão duros que não chegava dizer "rijos").
     Hoje, dá-se a ler novo produto, económico para não provocar nervosismo:

   
     O efeito deve ser de tal forma relaxante que se recomenda como sedativo, a julgar pelo nome atribuído: as clementinas que dão calma passam a ser as "calmantinas".
     Não bastava haver "ovelhas ranhosas" (deixaram de ser 'ronhosas' - por ter 'ronha' - e passaram a ter 'ranho' - salvo seja!) que até a fruta ganha novas qualidades! 

      O que faz uma oralidade tão pouco instruída ou cuidada? Evolui para uma escrita que fica à vista de todos. Calma, muita calma! Coma calmantina que é melhor do que tangerina!

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Tempo deles...

       ... dos dióspiros, pois então.

O fruto da discórdia linguística (foto VO), com agradecimento à VS.
    E, antes que digam que é erro, convém alertar para o facto de a palavra estar bem escrita. DIÓSPIROS, sim senhor, com acento gráfico no primeiro 'o', é verdade.
   Verdade, verdadinha é que ninguém o diz tal como deve ser - que é como quem diz, tal como se escreve: a palavra é esdrúxula (assim o dita o dicionário), mas toda a gente a pronuncia como se fosse grave (com a sílaba tónica no 'pi'). Não é de admirar, portanto, que, por influência da fala (incorreta), também quase todos escrevam (erradamente) o termo, sem o acento gráfico que se impõe.
     Ainda hoje falei do caso aos meus alunos, até para que ganhem a noção de como a língua se encontra em mudança no estádio sincrónico em que nos encontramos, a ponto de atualmente já ninguém ter consciência de que deve escrever-se 'dióspiro' e não 'diospiro'; de que deve dizer-se a palavra como proparoxítona (acento fónico esdrúxulo) e não paroxítona (grave).
       
       Ofertaram-me seis dióspiros. Um (dióspiro) já foi! Quando acabarem (os dióspiros), posso comprar mais (dióspiros), mas vou preparar-me para falar de forma errada (não vá a vendedora pensar 'Olha, olha... Professor de Português e a falar tão mal). Ironias da evolução da língua (viva).

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Precisa-se de explicações a Português

      A mais mediática fonte de erros do Português, na sua produção oral.

      Falasse o homem como ganha a treinar futebol, e seria um bom exemplo da retórica e da oratória. Ganhasse o treinador conforme fala, e a pobreza seria extrema.
      Só a título de exemplo, nada como ler o que terá sido dito pela figura - pérola atrás de pérola, cada qual a mais brilhante:

Uma citação escusada - Ai, Jesus!

      É só somar pontos: a péssima combinação do 'a gente' com a primeira pessoa do plural (quando deveria ser a terceira do singular) e a consequente desconexão ou discordância do singular e do plural; a utilização do presente do conjuntivo (estejamos) numa sequencialidade e temporalidade mais associada ao futuro do conjuntivo (estivermos), este último combinado com lógicas de proporcionalidade. (E não falo do 'tamos', porque quero crer que seja mera gralha gráfica de quem registou a citação, pensando que escrevia 'temos').
     Perante alguns casos críticos da oralidade da nossa língua, caso para dizer (metaforicamente) que assim não se marca golos. Só pontapés na gramática.

      A par disto só a máxima proferida numa das suas conferências de imprensa desta semana: "Os titulares é todo o plantel". Do melhor! (Ou, como dizem os nossos jovens, "Ai JASUS!").

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quarta-feira de cinzas...

      Porque nas cinzas é possível encontrar o renascimento, na fénix da palavra.

      Na arte prédica de Vieira há muito de reflexivo e exemplar a superar o tempo da produção (barroco) - qualquer semelhança com a realidade não é pura ficção.
      A intemporalidade dos sermões é tão evidente quanto o excerto seguinte, na voz de Luís Miguel Cintra, outrora oralmente produzido pelo próprio Padre António Vieira, no ano de 1672, em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses.

Registo Áudio do Sermão de Quarta-feira de Cinzas 
(dito por Luís Miguel Cintra, na Igreja de São Roque)

      Reflexão sobre (o triunfo d)a morte, a transitoriedade e a efemeridade da vida, mais da vanidade humana, parte-se do mote bíblico "Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris" (Génesis, 3:19) para dar lugar à glosa oratória, tornada discurso de intervenção política face à acusação e à acumulação de riquezas; às desigualdades sociais, numa violenta advertência ao poder, nomeadamente o da Igreja.

      No ritmo da voz e da palavra, nestes tempos críticos que nos fazem sentir mais mortos do que vivos, fica o pensamento de Vieira: "Se levantados, vivos; se caídos, mortos; mas ou caídos ou levantados, ou mortos, ou vivos, pó: os levantados pó da vida, os mortos pó da morte" (cap. IV). Bom era que quem tem poder se visse pó presente, para que não nos tornasse já em futuro pó da morte nesta vida.