quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Provérbios...!

      São tão cultural e experiencialmente relativos quanto, às vezes, se desdizerem no que significam.

     Que o diga o "Quem espera...", a dar tanto para o "... sempre alcança" (na visão positiva) como para o "... desespera" (na versão negativa).
      Hoje apetece-me desconstruir o que a tradição impôs. Houve já quem dissesse / escrevesse que "Deus escreve torto em / por linhas direitas" (que heresia, santo Deus!) ou que "As mulheres não se medem aos palmos" (a bem de que não seja sempre o homem a representar a humanidade). Eu, por exemplo, já escrevi que "Mais vale mal acompanhado" (por razões óbvias)!
     Um pouco à semelhança de Chico Buarque, talvez o "Bom Conselho" esteja em ir contra a corrente que a nada conduz:

Chico Buarque, "Bom Conselho (1972)

BOM CONSELHO

Ouça um bom conselho 
Que eu lhe dou de graça 
Inútil dormir, que a dor não passa 
Espere sentado 
Ou você se cansa 
Está provado, quem espera nunca alcança 

Venha, meu amigo 
Deixe esse regaço 
Brinque com meu fogo, Venha se queimar 
Faça como eu digo 
Faça como eu faço 
Aja duas vezes antes de pensar 

Corro atrás do tempo 
Vim de não sei onde 
Devagar é que não se vai longe 
Eu semeio o vento 
Na minha cidade 
Vou pra rua e bebo a tempestade

      Inconformismo, cansaço, desilusão, alguma noção de perda de tempo (que não traz felicidade a ninguém) e alguma desistência, para ainda poder agir em função daquilo em que se acredita - e não do que a "ditadura da democracia" quer. Eis alguns motivos para que o silêncio se instale (ainda que este último às vezes signifique mais do que muitos discursos ou palavras, tornados ocos). Por isso é que (perdoe-me o graffiter!) tenho de reformular o provérbio:

Graffiti nas ruas de Alfama (Lisboa)

       Quem cala não deixa de querer mudar (e, por isso, nem sempre consente). E, assim, se vai construindo uma revolução silenciosa, nem que seja a de recriar a própria língua (afastando-a da sua zona de conforto ou de rotineira comunicação).

   Tenho dito, escrito e, quiçá, passado das palavras aos atos (silenciosos, antes que sejam silenciados)!