quinta-feira, 2 de julho de 2020

Função sintática do 'que'

         E na base do estudo vem a dúvida: o 'que' tem função sintática!!! Como chegar a ela?

       São necessárias algumas dicas, para garantir alguma eficácia de resposta. "Gostava de acertar", dizem alguns. Outros dizem que não acertam mesmo, já na desistência. Há mesmo quem diga "Não percebo!"

      Q: Não percebo muito bem como é que um 'que' pode ter função de sujeito. A de complemento direto ainda entendo, mas a de sujeito...!!!

       R: Primeiro de tudo, interessa saber o seguinte: o 'que' tem função sintática enquanto pronome relativo, não como conjunção. Esta última pode fazer parte de uma oração subordinada que, toda ela, assume essa função:

         i) Penso que esta matéria é fácil
           ('que': conjunção subordinativa completiva > 'que esta matéria é fácil': função de complemento direto)

    Quando se está perante o pronome relativo (a retomar um antecedente), ele sozinho desempenha uma função na oração subordinada.
    Para chegar a tal função, interessa fazer o seguinte percurso: (i) assinalar a subordinada, (ii) verificar o elemento retomado pelo 'que', (iii) reconstruir a oração subordinada com princípio-meio-fim, mais o elemento retomado, (iv) identificar a função do elemento retomado pelo 'que' nessa reconstrução (é essa a função sintática do 'que').
       Veja-se o raciocínio para um primeiro caso:

     (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O miúdo aproximou-se do cão que ladrou.'
      (ii) 'que' retoma 'o cão'
      (iii) A oração subordinada, com o elemento retomado, ficaria 'O cão ladrou'
      (iv) Como 'O cão' é o sujeito da oração subordinada, então o 'que' desempenha a função de sujeito.

      Repare-se, agora, noutro exemplo:

      (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O exame que os alunos vão resolver pode ser fácil.'
       (ii) 'que' retoma 'O exame'
      (iii) A subordinada com o elemento retomado, ficaria 'Os alunos vão resolver o exame'
      (iv) Como 'o exame' é o complemento direto da oração subordinada' o 'que' tem essa mesma função.

     Deve, portanto, considerar-se que, neste tipo de questão, está em jogo um segundo nível de análise das funções - não ao nível da oração subordinante, mas, sim, da subordinada. Por sua vez, e porque o 'que' é um pronome (relativo), este desempenha uma função nessa subordinada (objeto de reconstrução com elemento por ele retomado).

      Ler a instrução do que vai ser resolvido é demasiado importante, para todas as situações e neste caso em particular. Não se trata de classificar a oração subordinada (toda), mas apenas de uma palavra nela incluída. Caso para dizer que um 'que' (pronome relativo) pode fazer a diferença.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Um céu redemoinhado

    Entre flocos e redemoinho...

    Caminhando junto ao mar, hoje o olhar dirigiu-se ao céu. A saturação começa a apertar e é preciso algum conforto buscar. O céu é uma espécie de amparo para os ânimos.

Um azul à espera da dissipação das nuvens

    Há flocos, que não são de neve; há um fosso, um poço levado ao alto na forma de um coração, feito de luz; há um concentrado de sombras, que se alarga e dispersa querendo impedir o azul que, por cima, anuncia tranquilidade, serenidade e harmonia (para esquecer a frieza, monotonia e depressão). Melhor lembrar a água, o céu e o infinito e esquecer o dia que se foi.
    Dizem que é cor favorecedora do exercício intelectual. Estou cansado dele! 
    Prefiro o efeito calmante que esse colorido sugere. Associa-se-lhe os aquarianos. Seja!
   As nuvens têm de ser dissipadas e, assim, o azul celeste me possa envolver e trazer algum do prazer que começo a perder.

     ... assim se faz o céu à saída de um dia de trabalho.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Vir ou ver?

       Com 'intervir', não há confusão!... Ou melhor, parece que sim!

      Se não é uma questão de ver (viu), mas sim de vir (veio), por que razão os meios de comunicação social não conseguem ver mais longe?
     Tudo por causa de uma breve da SIC-Notícias, que mais parece o uso de pessoas pouco instruídas:

Maltratados o centro de apoio mais a língua portuguesa (SIC Notícias)

    É erro morfológico comum, a julgar por apontamentos anteriores nesta "carruagem". Num canal de comunicação social, mais crítico é, por ser órgão que deve primar pelo bom uso da língua.

    Quando se ler ou ouvir falar da qualidade excecional do canal, é bom que se relativize a pretensão. InterVEIO, senhores, interVEIO! (Isto para não focar o espaço, que é mais evacuado do que despejado).

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Em 'Desafios'

       Formulado o convite, não podia dizer que não. A consideração por quem convida é mais forte.

      Solicitado um texto para fazer parte de uma publicação-conjunta online de vários autores (dirigida pela Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa - Porto), resultou o processo de escrita numa extensão considerada mais válida para uma publicação autónoma.    
      Honrado o compromisso, maior foi a honra por ter sido conduzida a publicitação do artigo para um caderno intitulado Desafios - Cadernos de Trans_Formação (número 29). O mote era: como se tece a ação pedagógica em tempos de COVID 19; eu glosei os "(Des)encontros e (re)aprendizagens (à distância de um clique, com toque humano)".

Um artigo disponível para leitura em

      Melhor ainda foi ver o meu contributo antecedido de um editorial com as palavras generosas do Professor Matias Alves, contextualizando, destacando pontos fulcrais da minha reflexão, citando algumas das minhas palavras, reconhecendo-lhes qualidade(s).
   Entre muitas respostas, surgiram algumas perguntas; e, no fundo, procurei reafirmar o sentido nevralgicamente pedagógico de uma situação, preferindo ver nas dificuldades oportunidades; procurando manter jovens na "rede" do trabalho, do estudo, do compromisso para que a vida apela.
     Contei ainda com a solidariedade e colaboração de alguns dos meus alunos, que se podem rever na(s) ação(ões) em que participa(ra)m. Pela cumplicidade e pela aceitação do trabalho (trabalho e mais trabalho), também muito lhes agradeço.

       Pela consideração mútua, pelo trabalho que desenvolvemos juntos e pelas identidades que fomos e vamos construindo, restam-me a gratidão e o reconhecimento pela aposta feita. Obrigado, Matias Alves.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Proibição crítica

    E o erro prolifera! Até nos placas de sinalização de (não) estacionamento!

    Depois da televisão, vem a proibição num sinal recentemente colocado numa zona em que se quer ver o estacionamento automóvel condicionado a certos dias e a determinadas horas:

Um mau exemplo de placa / sinal de (não) estacionamento - (Foto VO)

    Um sinal defeituoso na proibição. Quem o produziu não deve marcar bem as sílabas fortes das palavras, a ponto de intensificar uma ao lado. O certo é que a palavra (por ser de sílaba tónica grave, em [bi]) nem acento gráfico deve ter.

    Enfim, sinais que convidam ao desrespeito ou, no mínimo, à desconsideração da sua orientação (pelo defeito que apresentam).

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Tudo muda... "todo cambia"


    O registo é o resultado da mudança de cores numa paisagem que, passado um dia, se mostra versátil na volatilidade do tempo e na volubilidade das cores.

Paisagem a preto e branco e muitos cinzas (Foto VO)

   Numa só localidade, vinte e quatro horas fazem a diferença; ainda assim, há beleza nessa inconstância, toda ela feita de preto e branco, com muitos cinzas. Do mais escuro ao mais claro, tanto lá cabe do mundo.

     Novo retrato: mais cinzento e cinzelado por um tempo que nos faz sentir pequenos, "fracos humanos" à mercê de forças que nos suplantam.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Depois de trabalhar e antes de trabalhar

      Eis um intervalo, no retrato de um fim de tarde...

      Qual tela que não precisa de tintas ou pincel, a paisagem dá-se a ver colorida e inspiradora.

Retrato pintado pela Natureza (Foto VO)

      Há camadas de cor
      Há barcos no horizonte
      À espera de entrada no porto

      Há tons de céu e de rocha
      Há olhos de sono e de sonho
      À espera de um café tónico

      Há um empregado a vir e a ir
      Há regresso e, de novo, partir 
      À imagem da ondulação do mar

      Quero a cor, o horizonte
      o porto, o céu, o sonho, o café

      Há um novo dia a preparar
      Há tempo para descansar
      À hora do dia a findar

     Tomado o café, tira-se a foto, tão feita de cores novas e revigorantes, e há que regressar a casa para, de novo e ainda, trabalhar.

     Um momento para apreciar e deixar-me levar pelo retrato, partilhando-o com quem não o possa ter.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Sombras no "mamarracho"

       O horário de verão tem das suas maravilhas.

       Pelas 20:30 ainda há sol (a pôr-se), fazendo jogos de sombras.
     Umas mostram-se minúsculas no cinzentão do betão do novo edifício para concertos (de futuro incerto) ao ar livre:

"Mamarracho" - I (Foto VO)

       Outras fazem deste último um teatro de sombras, trazendo alguma beleza à tela de cimento:

"Mamarracho" - II (Foto VO)

       Assim, nalguns dias, a variedade surge, com a natureza a embelezar parte de um "mamarracho" tão cinza e tão murado qual "bunker" à superfície.

       Mais um motivo para suspirar por dias de sol. Os milhares empregues para se conseguir (por vezes) a beleza de umas sombras!

sábado, 9 de maio de 2020

"Enquanto houver ventos e mar"


       Também podia ser "Enquanto houver estrada para andar".

       Nestes tempos, há sempre um momento para dar atenção a belíssimas letras de canção.
       E quando delas se fazem ótimas interpretações, repete-se a audição.

Jorge Palma ao vivo - Coliseu dos Recreios (20.11.2007)

A GENTE VAI CONTINUAR

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso 
o que lá vai já deu o que tinha a dar 
quem ganhou, ganhou e usou-se disso 
quem perdeu há-de ter mais cartas para dar 
e enquanto alguns fazem figura 
outros sucumbem à batota 
chega aonde tu quiseres 
mas goza bem a tua rota 

Enquanto houver estrada para andar 
a gente vai continuar 
enquanto houver estrada para andar 
enquanto houver ventos e mar 
a gente não vai parar 
enquanto houver ventos e mar 

Todos nós pagamos por tudo o que usamos 
o sistema é antigo e não poupa ninguém 
somos todos escravos do que precisamos 
reduz as necessidades se queres passar bem 
que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo 
e a liberdade é uma maluca 
que sabe quanto vale um beijo 

Jorge Palma (letra e música)

Versão de Mafalda Veiga, acompanhada ao piano por Jorge Palma.

       Esta é uma canção de momento, de poesia a responder à realidade; a ensinar-nos a sobreviver.

       Isso mesmo - entre o poder ser e o ser fica o título: "A gente vai continuar".

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Jogar às cartas?!

      A notícia do dia é a do regresso às aulas (para alguns alunos do ensino secundário).

     Os canais televisivos abordam a questão a toda a hora. A RTP-1 não faz diferente no anúncio; fá-lo na escrita dele.
     A abrir o Jornal da Tarde, um sumário é apresentado com os tópicos da emissão. E até aqui tudo perfeito. Eis senão quando, mais à frente, ao apresentar as medidas / orientações facultadas pelo Ministério da Educação, surge na "tela televisiva", em grande plano, o registo (infeliz) do momento:

Um regresso indesejado (Foto de AC), anunciado na RTP-1

     Nem uma semana passou desde que fiz um apontamento corretivo à escrita da RTP-1, e cá estou eu, de novo, a sublinhar como alguma coisa corre mal no canal. A propensão para o erro começa a ser demasiado crítica; a exposição deste último ao público (na sua recorrência) é bem pior. Isto de confundir uma carta de jogo (o 'ás') com a contração da preposição com o determinante (às) não é aceitável na difusão informativa que este (ou outro) canal promove. 

      Afinal, os alunos não regressam para jogar às cartas, mas bom era que houvesse um ás na escrita dos títulos e legendas televisivas. (E pensar que ontem foi celebrado, pela primeira vez, o dia da Língua Portuguesa! Bela forma de continuar a celebrá-lo, RTP-1!)

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa - Língua-Mar

     Enquanto idioma dos mais falados no planeta, já merecia a consagração de um dia.

   Hoje, por iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura (UNESCO), celebra-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa. A partir daqui, o 5 de maio consagra o nosso idioma no panorama dos calendários internacionais, projetando-o numa comunhão e comemoração a todo o tempo renovadas, enquanto símbolo maior da comunicação e cooperação entre a comunidade lusófona. 

Imagem colhida do Portal de Promoção da Língua Portuguesa 
(Reitoria da Universidade do Porto)

     De origem no hemisfério norte, é a língua mais falada do hemisfério Sul; é uma das que, no mundo global criado desde os Descobrimentos, tem deixado marcas e palavras em línguas de outros países e povos; é uma das que se renova no conjunto de interações promovidas à escala mundial, no campo político, económico-social, educativo, cultural; é a que regista o tom da saudade com as cores da fraternidade, tanto voltados da terra para o mar como acolhidos dos que por este e por ela a nós venham.

A lusa fraternidade linguística nos quatro cantos do mundo

       É som, é fala, é ato, em prosa ou em verso, banhado por mar e a espelhar o céu. É língua-mar:

Fotomontagem (VO) com poema de Adriano Espínola

     Também a minha; também uma voz plural que comunica, comunga, constrói as pontes e os laços necessários ao entendimento da humanidade.

      Que este seja o primeiro de muitos outros dias a celebrar, inclusive aqueles que vão fazer a cada novo ano chegar.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A força da proibição! Do pior!

     Quando toda a gente queria saber sobre a mudança do estado de emergência para o de situação de calamidade,...

      ... eis que chegam alguma orientações para regular e proteger a população do pior. Televisivamente, passo a passo surgem as prioridades definidas, até que é dado o passo em falso:

Telejornal emitido hoje às 20 horas, na RTP1 (Foto VO)

       Deve ser a força da proibição. De tão proibidos os ajuntamentos, a sílaba mais forte até se deslocou, a julgar pelo acento gráfico colocado, e que não existe. Nem a sílaba tónica é [í] nem a representação gráfica da palavra está correta. "Proibidos" (sublinhe-se a incidência tónica) é um exemplo de palavra grave, que, por norma, não é acentuada na língua portuguesa.
       Tão constantes têm sido estes exemplos críticos que só me resta rezar:

Oração pela escrita da língua portuguesa.

   Assim anda a nossa língua, assim anda a comunicação e o serviço público no uso delas. Fica o alerta. É calamitoso e emergente o contexto, a necessitar de intervenção e formação no trabalho televisivo da escrita. 

sábado, 25 de abril de 2020

Celebrar a liberdade (ansiando pela libertação)

       Há sempre razões para celebrar a liberdade surgida da ditadura.

       Para que não se esqueça o passado mal vivido e se tenha presente as conquistas conseguidas, faz sentido celebrar este dia, aquele que "acordou" sem o peso dos grilhões do autoritarismo e do despotismo; do controlo e do poder ditatoriais que não dão felicidade nem permitem afirmar a dignidade humana; do medo da perseguição.
       Hoje, sem a liberdade de movimentos desejada, persiste a liberdade da democracia. Confinados, sim, mas livres do jugo político que alguma ideologia possa representar - aspirando à libertação, porém, com a liberdade garantida.
       Este é o 25 de abril dos tempos da pandemia. Ainda assim, 25 de abril: aquele que precisou de vítimas, de heróis, de canções e de poemas "de guerra" em "vozes de rebate" (com o diria Antero de Quental, em "A um Poeta"); de luta contra a resignação; de espírito de resistência.
      A poesia e o canto, comprometidos com a revolução (seja esta qual for), fazem ainda sentido. Hoje também é preciso "acordar" as mentalidades para a mudança de comportamentos; para os cuidados que trarão o desconfinamento necessário a uma vida com mais cor, dando-nos maior liberdade. 
   Por isso, relembro "Acordai", canção heroica, um dos hinos nacionais de resistência, que contribuíram para exaltar a liberdade e motivar quem lutava contra o salazarismo. Inicialmente publicada em 1946, foi silenciada pela Censura; contudo, muitos resistentes a divulgaram, de forma subreptícia, em encontros clandestinos ou em países de exílio. Hoje partilho-a sem "a dor / dos silêncios vis" de outrora; antes com a distância dos que, limitados, não são servis:

ACORDAI

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

A voz de Teresa Salgueiro 
com os versos de José Gomes Ferreira e a música de Fernando Lopes Graça

       Acordai ou a cor dai a este dia (sem frenesins), pelo que foi, pelo que é e pelo que poderá e deverá continuar a ser, sem que nada acinzente a democracia.

       Outro dia poderá ser mais feliz, mas tem este a liberdade há quarenta e seis anos conquistada.
        

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Mais do mesmo

       Depois do nabo, continua a luta (falta saber se com nabos se com nabiças).

       Dizem que não há tempo mais oportuno do que este, a julgar pelo texto seguinte:

A oportunidade do ato de 'desinfetar'

    Concordo que desinfeção é palavra de ordem, nos dias de hoje. Todavia, no que à expressão popular e regional diz respeito, entenda-se 'desinfetar' como sinónimo de 'desaparecer'. E que bom seria que o Corona vírus desinfetasse da nossa vida. Melhor ainda se, na escrita, a vírgula do vocativo não fosse esquecida.

         Assim tem de ser!
   
     Deve haver um vírus na memória de quem escreve estas coisas. Chama e não virgula! Santa paciência!

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Nada de misturas!

        Anda por aí muita gente confundida com as interjeições.

       Entre 'chamar' e 'exclamar' há algumas diferenças e, na escrita, as interjeições são bem distintas. Enquanto palavra invariável pertencente a uma classe aberta, a interjeição traduz, exterioriza emoções. O sentido ou o valor que se lhe associa está estritamente depende do contexto de enunciação e corresponde a uma atitude, a um sentimento expressos pelo falante ou enunciador.
       Quando de chamamento / invocação se trata, o caso é claro (para quem não é nabo):

A incomodidade do repolho por ter um nabo à frente

      Nada de confundir com "Oh!", que admite vários valores interpretativos (alegria, desejo, espanto, saturação, receio, dor,...), os quais, na oralidade, aparecem marcados por traços entoacionais diferenciados.

    Para complicar a frase da imagem, sempre poderia iniciar o texto com um "Oh", típico da contrariedade sentida pelo repolho face ao que um nabo lhe esteja a causar. Porém, para chamar nabo (a alguém), tem que ser com a interjeição interpelativa "Ó".

segunda-feira, 20 de abril de 2020

A meio dos acontecimentos

     Tudo o que se faça para combater o vazio criado por este Covid-19 é bem-vindo.

     Quem está na frente da batalha ou quem se mantém na retaguarda são tão necessários como os que estão a meio. O efeito de onda, de trás para a frente ou vice-versa, é muitas vezes a fonte da persistência e da resiliência de todos. 
      Ao nível da educação, o contributo das aulas televisivas é um dado significativo para que o vazio não reine; para que haja algum sentido de oportunidade para divulgar, aprofundar, enriquecer quem nada tinha. Neste sentido, o #EstudoEmCasa (RTP Memória) e o #EstudarComAutonomia (RTP Madeira, para o ensino secundário) são apostas válidas.  Não pelo que faz lembrar do passado (a Telescola), mas pelo que pode ser uma iniciativa de resposta ao presente e de desafio para o futuro. É serviço mais do que público, porque centrado na educação, no ensino e nalguma aprendizagem. Talvez não a mais estruturante ou estruturadora, mas sempre aprendizagem... e para todos os que a ela queiram assistir.
     Há aspetos a melhorar, por certo, como em tudo na vida.
     Hoje assisti a uma aula sobre Os Lusíadas (9º ano) - uma variedade de materiais, suportes, a todo o tempo ativada para uma suposta motivação à obra camoniana e, quem sabe, para a exposição de um conjunto de conhecimentos referenciais a aproveitar, num breve momento, para o que venha a ser uma fase posterior de recuperação e sustentação de informação. A rapidez e o imediatismo televisivos não garantem a efetiva aprendizagem de uma só vez. O milagre não é tão grande assim. No processamento que se faça por input não há output linear. E no que diz respeito ao intake, a história é bem outra. A quem defende que o que interessa são as aprendizagens, é bom que se tenha em atenção o nível de aprendizagem a que se está a referir, porque o conceito é bem diverso, cobrindo o que se consegue a curto prazo e o que passa a constituir memória de médio e longo prazo.
    Valha o contributo face ao nada que existia. Melhorias podem seguramente ser feitas e estas só poderão surgir a partir do que se faz. É preciso trabalho e quem está nele tem o mérito de o agenciar.
   Bom seria que o deslumbramento pelos materiais / instrumentos fosse evitado, particularmente quando eles introduzem ruído. Foi o que sucedeu com a aula de Português em questão. Ora um vídeo a tratar a estrutura interna da epopeia lusa, ora um powerpoint com o mesmo e alguma coisa mais e, no entretanto, o primeiro refere-se à narrativa "in media res" enquanto o segundo mostra a versão "in medias res":

Português (9º ano) em #EstudoEmCasa (RTP Memória)

Português (9º ano) em #EstudoEmCasa (RTP Memória)

       Um 's' faz a diferença.
      A técnica que se pretende ilustrar é clássica, vem de Homero, que, nas suas epopeias, escolhia o ponto por onde começar a narrativa: já a meio dos acontecimentos. Horácio, na sua Arte Poética, ao teorizar a abordagem épica das narrativas homéricas, referia-se a "in mediās rēs", ou seja, as "ações que vão a meio". Com isto se defendia a arte de Homero captar a atenção dos leitores. No caso de Camões, a técnica passa pela opção de colocar os marinheiros (e Vasco da Gama) em ação a partir do momento em que são verdadeiramente descobridores no caminho marítimo para a Índia (o percurso do Atlântico já era conhecido e a passagem do Cabo das Tormentas já tinha sido cumprida, por Bartolomeu Dias). No final, a mesma técnica imitada pelo épico português, atento à influência grega (e, mais tarde, à latina de Virgílio).

    "In medias res", portanto, e não "in media res" (simplificando o registo latino, retirando o acento gráfico da vogal longa - ā -, por contraposição à breve - ǎ -, que também tinha um acento identificativo). Uma melhoria, digo eu, para o bem que se fez.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Voou deste mundo? Voa com quem o lê.

         A notícia do dia veio inesperada!

       Já se sabia que se encontrava doente, infetado pelo Covid-19, pouco depois de ter participado, em Portugal, num evento literário. Entre informação e desinformação, deu-se conta do estado crítico, da melhoria, de como regrediu, voltou a melhorar... E, agora, a morte.
      A de qualquer humano tem de ser pesarosa, particularmente a que resulta da luta contra um vírus desconhecido e ameaçador, capaz de afetar subrepticiamente o mundo. A do chileno Luis Sepúlveda (1949-2020) é-o seguramente para quem o leu, lê ou tem vindo a ler.
    Escritor ecologista, que cronicou e contou histórias de quem esteve neste mundo (marginais ou não); de quem existiu enquanto houve luz; de quem alimentou sonhos ansiados em qualquer lugar da terra, do ar ou do mar. Escritor que produziu obra na apologia da vida, da dignidade humana, da justiça social, de exotismos que sublinham sentidos múltiplos de viagem, de amor e de guerra, de utopias e mistérios que se cruzam com o Ser Humano, para não dizer com o Ser Vivo. Escritor que viu na diferença o complemento necessário à união e ao projeto da vontade.
     Qual "gaivota", não pode lançar-se mais em novo voo, apanhado que foi por uma maré, uma "peste negra" que assolou a Humanidade.

Leitura de um excerto de 
História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar (2008)

    Outros, contudo, o farão voar, porque, como bem o escreveu em As Rosas de Atacama (no original, Historias Marginales, 2000), “As feridas dos heróis da literatura são rapidamente curadas com o bálsamo da leitura.”
      A morte será suplantada por qualquer leitor que recupere a sua obra e lhe dê vida.

     Há que voar, pois ainda há gatos que ensinem; há que aceitar que “Em todo o lado se vive e se morre – como diz o tango morir es una costumbre” (Patagónia Express, 1995).

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Preferências

       Agora tenho tempo para ir à varanda.

      Consigo até tirar fotografias, apontando o foco para o alto. 

Um alto-baixo de cinza a partir de uma varanda (Foto VO)

      Captada a natureza, importa dizer que prefiro o cinza do céu, por mais sombrio que seja, ao betão do "mamarracho" que me plantaram em frente. O cimo ainda se aproveita; de resto, há milhares desnecessariamente gastos na amplitude de um espaço ostensiva e escusadamente ocupado. Prova de que quem (muito) para o alto olha não vê a desgraça que vai por baixo.
     E para quem achar que é a melhor das obras artísticas, pode sempre reclamá-la para a frente da sua porta ou janela. Por mim, é todo de quem o quiser.

       Era tão bela a fachada azulejada do edifício recuperado da antiga fábrica Progresso! Era!

segunda-feira, 13 de abril de 2020

História de um agente entre a gente

     Em tempos de confinamento, nem sempre as paredes aguentam comigo.

    Poupo-as, por uns instantes, ora dando uma caminhada no meio de ninguém (e em horas de pouco movimento) ora indo de carro ver o mar. Estaciono, mantenho-me dentro, fazendo dele uma casa móvel e abrindo os vidros para um mundo maior. Leio ou trabalho; vou vendo o mar, contemplando algumas gaivotas passageiras, observando nuvens deslizantes a acinzentar o céu ou o torná-lo aqui e além manchado de flocos cotonosos.
    Por vezes, passa um camião carregando um painel publicitário, no qual se lê o convite para todos ficarem em casa, a bem de muitos. Um altifalante complementa a mensagem estampada no painel: "Fique em casa. É tempo de confinamento, por causa do Covid-19. Fique em casa, pela sua saúde e pela de todos". Compassadamente, circulam ainda agentes policiais, a pé ou de carro, dissuadindo aqueles que pretendem chegar ao areal interdito ou correr pelos passadiços bloqueados, fitados com uma cruz impeditiva de circulação. Mesmo os que, como eu, estão fechados no habitáculo do automóvel não estão livres de abordagem persuasiva da autoridade.
    Aconteceu-me hoje que, estando a trabalhar com o computador, fui abeirado, com o distanciamento social devido, por um agente que, simpaticamente, me perguntou se estava tudo bem e se pretendia ficar naquele local (aprazível) por muito tempo. Pelo suspiro que soltei e pelo meu ar de desagrado, de saturação face à previsível sugestão de voltar para as minhas paredes, o polícia apercebeu-se da minha necessidade de respirar outros ares e, com toda a compreensão, justificou a sua atuação: sensibilizar para os cuidados a ter e para evitar que muita gente se concentrasse junto ao mar (evitando os ajuntamentos críticos). Agradeci a atitude e o serviço que estava a ser cumprido. E talvez por isso, de seguida, veio a concessão: assim que concluísse o trabalho e fizesse uma possível caminhada solitária, solicitava o recolhimento a casa. Voltei a agradecer, pelo cuidado e pela compreensão, ao que assentiu que tínhamos ambos de ser compreensivos e reconhecidos nas palavras e nos bons atos.
     Apreciei bastante a postura e o exercício compassivo da autoridade. Solicitei apenas uns minutos mais. Respondeu que não havia problema, desde que não infringisse as interdições visíveis a todos na praia. Sosseguei-o quanto a isso, pois não pretendia sair da "minha concha". Disse-me, então, para eu estar à vontade e, por fim, acrescentou que "Se todos cumprirmos, quando contermos o vírus, vamos poder mais rapidamente aproveitar a vida em conjunto". A ideia era perfeita, mas o "contermos"...
    O futuro do conjuntivo do verbo 'conter', na primeira pessoa do plural, é 'contivermos', senhor agente - isto foi o que pensei; o que gostava de ter dito. No entanto, achei por bem fazer igualmente uma concessão. Valorizei mais a atitude do que a correção do discurso. Eu podia ter concordado, repetindo a mensagem com a forma correta, como normalmente o faço em situações análogas ("Sim, se CONTIVERMOS o vírus, vamos todos ser mais felizes"). Não o fiz, porém, atendendo à qualidade da interação, na qual uma falha gramatical não comprometeu o interesse e o foco da comunicação.

       Lá diz o provérbio que "No melhor pano cai a nódoa" - acidentes que acontecem a todos os que também usam "boas palavras" (mesmo que estas não sejam as gramaticalmente mais corretas).

domingo, 12 de abril de 2020

Páscoa com ovos cracovianos

     Em tempos próximos de clausura, vive-se uma Páscoa diferente.

    O confinamento e o distanciamento social não são muito compatíveis com o espírito da celebração. Agradeça-se, porém, a condição salutar em tempos de doença e anseie-se por um novo dia. Será esta, por ora, a "passagem" mais esperada e desejada.
Mais um "Grande Ovo do Coração"
     Ficam os votos da melhor Páscoa possível, com tudo o que de bom se possa lembrar dos bons velhos tempos, inclusive daqueles quando, na infância, a diversão era pintar simples ovos cozidos, com sóis, estrelas, caretas, flores, cores, linhas e pintas tão festivas! Talvez seja, hoje, mais uma atividade para "ocupar" os dias; mais uma oportunidade para manusear o renascimento da vida - afinal, aquilo de que o ovo é símbolo desde épocas bem anteriores ao Cristianismo (a troca de ovos no Equinócio da primavera, a 21 de março, era tradição para marcar o fim do inverno ou o início da primavera, para não mencionar que alguns deles eram enterrados, na crença de que, assim, se assegurava bons cultivos e boas colheitas).
    Chegada a Páscoa cristã, a cultura pagã foi integrada na celebração da Semana Santa, passando o ovo a simbolizar o renascimento, a ressurreição de Cristo.
     Em tempo de ovuladas amêndoas e adoçados ovos,  interessa deixar, de momento e à semelhança do ano passado, um outro ovo cracoviano, trazido da praça principal de Cracóvia (Rynek Główny); um "Grande Ovo do Coração", para, com afeto, colorir estes dias muito cinzentos.

    Uma boa Páscoa para todos e que se cultive a paz, a segurança, a saúde, para se poder colher, de novo, a vida e fazer a passagem para felicidade(s) maior(es).

sábado, 11 de abril de 2020

Nem sempre quem vence é o vencedor.

        Ontem foi tempo de ver Maria, Rainha dos Escoceses.

    Na TV-Cabo, no canal NOS Studios, foi hoje exibido o filme "Mary, Queen of Scots", da realizadora Josie Rourke (2018). Nele se aborda, em paralelo, dois percursos reais: o de Mary Stuart, chegada de França, depois de enviuvar do rei Francis II; o da imperiosa Isabel I de Inglaterra. 
       No meio do poder e do jogo político-religioso dos finais do século XVI, duas mulheres assumem protagonismo carismático, com Mary (Saoirse Ronan) a reivindicar o seu direito ao trono inglês (enquanto bisneta do rei Tudor Henry VII) e Isabel (Margot Robbie) a ver a sua soberania ameaçada. De forma diplomática, entre a admiração pela rival e a afirmação do seu poder, ambas gerem uma autoridade a todo o tempo cuidada até que a segunda acaba por decretar a decapitação da primeira.

Maria, Rainha dos Escoceses (2018) - Trailer oficial legendado

       Mary Stuart acaba por ser um exemplo de vítima dos jogos políticos.
     É na situação de condenada que arranca o filme, até que, por analepse, se dá conta do regresso dela à Escócia. Representante de uma linha católica que se vira algo afastada da corte isabelina, Mary assume, na Escócia, uma postura de tolerância quanto à religião, mas não deixa de enfrentar a resistência crescente de movimentos protestantes, encabeçados por John Knox e por grande parte da nobreza escocesa. Num convívio contínuo com a influência francesa, numa política de casamentos que não é muito favorável à sua imagem pública, a filha de James V da Escócia acaba por ter de abdicar do trono e de se exilar junto da prima Isabel I. Esta última vai ser, a um só tempo, não só protetora da sua maior ameaça como também juíza do destino final. Protege-a, por forma a não acicatar os apoiantes da causa católica (de que a sua predecessora e irmã, Mary Tudor, fora representante maior), evitando uma revolução; acusa-a de traição, ao final de anos de auxílio, por causa de uma pretensa carta (assinada pela rival, mas que muitos assumem ter sido artimanha de conselheiros ingleses), na qual se conspirava e se propunha o termo da vida da rainha inglesa.
     Na luta dos interesses matrimoniais e na consolidação da independência de ação, estas duas rainhas foram, contudo, peças de um jogo maior: o da vida. Se Isabel I consolida o seu poder e afirma uma era de florescimento cultural durante o seu reinado, à hora da morte e sem sucessão declarada (algo que Mary repetidamente tentou obter), é James I, VI da Escócia, fruto do casamento de Mary com Henry Stuart (Lord Darnley, interpretado no filme por Jack Lowden), quem vem legitimamente a tornar-se Rei da Escócia e de Inglaterra. 
     Num circuito de intrigas palacianas, traições, revoltas e conspirações cortesãs, um trono e uma dinastia impõem-se (dos Tudor), mas o futuro rumo da história inglesa será ditado por uma outra linhagem soberana (dos Stuart).

      Um filme, inspirado na obra homónima de John Guy (Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart, de 2014), mostra como os vencedores nem sempre são os que detêm o poder ou os que vencem momentaneamente causas discutíveis.

terça-feira, 7 de abril de 2020

A praia, o mar, o céu, o sol... e um farol

      Um dia de sol espreita entre os que foram de chuva.

      Não há vírus que me prenda em casa. Confinado, sim, mas com rasgos de recusa e de liberdade. 
    A caminhada fez-se e foi marulhada. Os tempos são críticos; graves, agudos, alguns dirão, para uma sobrevivência que muitas centenas humanas já não conseguirão.
     A Aguda oferece aos fugazes visitantes um quadro marinho em movimento, com alguns batéis estacionados na praia; outros vogando nas ondas que invadem a orla, o areal, numa baía sem sossego. Um ou outro pescador mantém-se ao largo, assistindo impotente ao espetáculo hercúleo que a natureza lhe dá a ver.
       Um farol permanece no limite de um paredão (nome tão aumentado para força tão mais superior) continuamente banhado. De vez em quando, parece que sobre este circula um comboio a vapor, correndo, a fumo branco.

Pedaço de dia temperado de sol e de sal (Vídeo VO)

       Não há locomotiva, rodas ou carris. Apenas água a espelhar o céu e um ribombar forte que deixa sentir a pequenez de tudo diante da força do mar. Até aquela torre de luz apagada se sente minúscula, ameaçada e desorientada, sempre que a vaga surge, embate na barreira e termina num foguetear de névoa alva, salinadamente difusa, erguida ao céu, até ao salpicar e remolhar das pedras. 

       Tempo de maresia e de uma energia inspiradoras, incompatíveis, na força e na beleza, com a lembrança de um desgraçado vírus. Regresso a casa e revejo um momento que tempera a vida.

domingo, 5 de abril de 2020

Em modo quarentena... sem poder ir ao cinema.

      Agora que temos de ficar por casa (pelo menos os que têm), há que ocupar o tempo.

     A televisão (que dizem vir a ser a solução para tudo, até para o ensino-aprendizagem) lá vai cumprindo o seu papel... repetindo as mesmas notícias, os mesmos filmes, os programas em que há público a assistir, todo ele juntinho... aos saltinhos ou em bailarico, agarradinho aos apresentadores. Enfim!
      Agora que se aproxima a Páscoa, pouco ou nada diferente do Natal, talvez ainda se lembrem de passar, pela ésima vez, o Música no Coração. Bem... é melhor não!

Julie Andrews (ou a irmã Maria) não viu a fitinha de bloqueio

      Já não fui a tempo de avisar! As montanhas estavam bloqueadas com a fitinha colocada entre duas árvores. A irmã Maria e as crianças Von Trapp entraram pelo lado errado.

       Canta, canta,... mas EM CASA.   

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Revendo 'A Lista de Schindler'

     Foi dos filmes mais marcantes do final do século XX, obra-prima de Steven Spielberg.

    Já há um tempo andava com vontade de rever este filme. As interpretações de Liam Neeson (Oskar Schindler), Ben Kingsley (o contabilista judeu Itzhak Stern) e Ralph Fiennes (o comandante alemão Amon Goeth) são marcantes, bem como a direção de um filme feito a preto e branco maioritariamente (só aqui e ali com uma nota de cor). De 1939 a 1945, revê-se a Polónia nazi, o genocídio dos judeus, a Checoslováquia da fábrica e do campo de concentração de Schlinder (Brünnlitz). Em mais de três horas, retratam-se, de forma mais ou menos ficcionada, episódios de vida de um Justo entre as Nações mais o périplo de um povo que, na II Grande Guerra, viveu mais uma etapa trágica na sua diáspora.

Compacto de A Lista de Schindler (1993)


    Inspirado no livro homónimo de Thomas Keneally, é seguramente um dos filmes da minha vida, desde que há mais de vinte e cinco anos ficaram imagens fortes como a da criança loura que assiste ao desfile de judeus nas ruas polacas e grita "Goodbye, Jews!"; a do professor de História e Literatura que não é considerado "trabalhador essencial", mas acaba por o ser quando diz ser "polidor de metais"; a dos soldados alemães que discutem se a música tocada por um outro é da autoria de Bach ou de Mozart, quando ocorre o fuzilamento de vários judeus; a da criança vestida de vermelho, que se esconde do exército nazi, mas acaba junto de outros corpos; a do comandante Amon Goeth a fazer "tiro ao alvo" da sua varanda para alguns judeus que se encontram no campo de concentração de Płaszów; a de crianças que se escondem nas sanitas conspurcadas; a de uma outra criança a simular, com a mão, o corte de pescoço para as mulheres que chegam ao campo de Auschwitz-Birkenau; a do banho das mulheres numa câmara que bem podia ter sido de Zyclon B; a de Schindler a chorar por não ter conseguido salvar mais judeus. O percurso deste povo é representado na pior das agonias.
     Mais significado ganha o filme quando se contacta com os locais nele retratados: a fábrica de Schindler e a judiaria, em Cracóvia; o campo de Auschwitz-Birkenau.

Praça Bohatérow Getta (ou dos Heróis do Gueto), no distrito de Podgorze, 
no gueto judaico de Cracóvia, com Monumento das Cadeiras, diz-se, pago por Roman Polanski
 (local onde eram selecionados os judeus para os campos de concentração) - Foto VO

Fachada da fábrica de Schindler, em Cracóvia - Foto VO

Janela à entrada da Fábrica de Schindler 
(com fotos e nomes dos trabalhadores judeus) - Foto VO 

Monumento Judeu junto ao bairro Kazimierz, onde este povo vivia na cidade, antes da II Guerra
(colocação de pedras como prática nas sepulturas judaicas, lembrando a época do Antigo Testamento) - Foto VO

Pórtico da Sinagoga Remuh, ao fundo do bairro Kazimierz 
(nome associado ao rei Casimiro, fundador do espaço judaico na Baixa Idade Média) - Foto VO

   O bairro Kazimierz foi local da gravação cinematográfica, tendo-se, a partir desta última, conseguido a recuperação do espaço (dado o interesse turístico que o tem marcado). Quem por ele passeia não deixa de sentir o peso da História, os sinais da tragédia, o espírito de uma revolta contra quem pôde alguma vez defender o genocídio judeu, o holocausto.
      Na confluência de sentimentos, quando percorri estes locais, dizia para comigo que tinha de rever A Lista de Schindler. Entre a revolta do vivenciado com as políticas antissemitas e a admiração por um homem, no meio de outros iguais, dominou um sentido de gratidão muito forte. A cena final do filme (homenagem dos judeus salvos por Schindler junto à campa, em Jerusalém, no Monte Sião) é a representação maior da figura dessa gratidão, uma espécie de pacto ou princípio que, aliás, atravessa toda a película, ainda que numa multiplicidade de sentidos bem difusos: a de Schindler para com Stern, no reconhecimento do trabalho deste; a de Amon para com Schindler, enquanto parceiros de negócios pautados por suborno e contrabando; a de Schindler para com uma judia, beijando-a num dos aniversários dele, quando lhe é ofertado um bolo; a dos judeus para com Schindler, à hora da rendição alemã incondicional, oferecendo-lhe um anel a partir de um dente de ouro fundido e trabalhado à hora do final da guerra.
        Hoje o Ser Humano não pode deixar de estar agradecido a um partidário nazi, o único que tem sepultura em território judeu, pelos mais de mil que ajudou a salvar.

      De oportunista interessado em ganhar dinheiro a herói tomado pela humanidade (sem escolha) ao salvar judeus, Oskar Schindler fica para a memória de muitos como um dos protagonistas da Sétima Arte, num filme que recebeu sete óscares, um deles o de Melhor Filme (1994). 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

E não é engano!

     Em pleno dia das mentiras, das petas, dos tolos ou bobos, da gafe ou dos enganos.

    Neste 1 de abril, foi o tempo que nos pregou uma partida: depois de dias nebulosos e cinzentos, trouxe um final de tarde cheio de cor:

     Uma só árvore, um só mar, um só pôr-do-sol, um só caminho (Foto I - VO)


   
 























Uma só árvore, um só mar, um só pôr-do-sol, um só caminho (Foto II - VO)


       Esta é brincadeira boa, em tempos tão críticos. 
    É verdade que a celebração tem tudo a ver com o tempo, mas numa outra dimensão. Diz-se que esta celebração surgiu em França, onde, desde os inícios do século XVI, o Ano Novo era festejado a 25 de março (a chegada da primavera) e durava até ao dia 1 de abril.
     Com a adoção do calendário gregoriano (1564), o rei francês Carlos IX oficializou o ano novo a ser comemorado no dia 1 de janeiro. Houve quem resistisse a tal determinação e alguns franceses mantiveram os costumes do calendário juliano. Assim se conservava o dia 1 de abril, por engano, por trapaça, por resistência ou por mentira. Houve também quem ridicularizasse a situação, enviando presentes estranhos e convites para festas inexistentes (atitudes conhecidas como "plaisanteries").

     O prazer de um final de tarde como o de hoje deu lugar a fotografia, junto ao mar, numa espécie de, à italiana ou à francesa, celebrar a(o) "pesce d'aprile" ou "poisson d'avril".

terça-feira, 31 de março de 2020

E vão passando os dias

       As línguas têm destas coisas associadas aos dias.

      Com a nova rotina dos dias, ao final de mais de uma quinzena, prossegue o tempo da quarenta.
      Na língua inglesa, há já quem conte os dias naquilo que têm de mais indiferenciado:

A indiferenciação dos dias - só com 'day' (by day)

      É todos os dias o mesmo!
    Já na língua portuguesa, excetuam-se o sábado e o domingo. De resto, fica tudo "feira" (sem segunda, nem terça, quarta, quinta ou sexta). Talvez por isso algumas pessoas teimem no passeio e nos encontros, sem distanciamentos.

      Fica a "feira" e perdem-se as horas da oração. Os nossos dias da semana parecem mais divertidos, mesmo em tempos de contenção.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Contributo para a vida

       Em dia de pesar para a Linguística em Portugal.

       Maria Helena Mira Mateus é nome incontornável. Sempre o será.
      Nunca foi minha professora, senão em duas ocasiões (encontros de formação linguística, um no Porto, outro em Coimbra) que deram para concluir do entusiasmo, da delicadeza e afabilidade com que tratava de assuntos complexos da língua, do trabalho que levava a cabo no campo linguístico, numa partilha serena e acessível, sempre acompanhada de olhos sorridentes.
    Enquanto uma das autoras da publicação da Gramática da Língua Portuguesa (da editorial Caminho), tanto na versão original (1983) como nas posteriormente revistas e ampliadas (1989, 2003), é decisivamente uma figura que me tem acompanhado no caminho profissional. Sempre que consulto a obra, o nome sobressai à cabeça da capa. A "Gramática da Mira Mateus" (et al.), ou o familiar "tijolo", tem sido fonte de resolução de algumas dúvidas, algumas questões, alguns problemas no funcionamento e na descrição do Português.
      É daqueles nomes, como o de Óscar Lopes e outros, que marcam a identidade dos profissionais que os leem. Citei-a algumas vezes quando planifiquei aulas, quando investiguei, quando escrevi alguns apontamentos nesta "Carruagem". Essencialmente, li-a e voltarei, por certo, a (re)ler. Nessa medida ensinou-me e também aprendi.
  Um dos seus textos, com o qual trabalhei mais aprofundadamente, resultou da comunicação "A contribuição do estudo dos sons para a aprendizagem da língua". Foi produzida no 7º Encontro Nacional da Associação de Professores de Português e nela se exploram relações da fonética e da fonologia tanto com a aprendizagem da ortografia (que, no caso do português, é essencialmente fonológica) como com a compreensão e produção oral, para não mencionar questões associadas à leitura em voz alta ou ao discurso oral adequado / apropriado às circunstâncias de produção. 
      Destacando aspetos fonético-fonológicos, não deixou de abordar efeitos pragmáticos, discursivos, de face exposta do comunicador, relevantes, como se pode ler na comunicação da investigadora, também com inserções no campo pedagógico-didático:

     "... a identificação de características rítmicas, entoacionais e acentuais do Português pode ser utilizada para mostrar aos alunos que, ao servirem-se desses meios quando falam, podem tornar o seu discurso oral persuasivo, interrogativo, agressivo ou agradável conforme o desejarem, podem chamar a atenção para certos aspectos que consideram necessários e podem interessar e convencer os seus ouvintes. É inegável que o estudo da fala em que se considera a interligação de todos os factos prosódicos é um estudo aliciante e torna a aprendizagem da língua mais colorida, ao mesmo tempo que se apresenta como um domínio cheio de interrogações e de mistérios."
in art. cit (2007: 18)

       Não a podendo mais rever presencialmente, será sempre alguém que me acompanhará no futuro. Estou certo do seu contributo para a vida e para as "cores" da língua portuguesa.

        Que descanse em paz, numa altura em que a homenagem que lhe é devida fica condicionada por tempos de agonia entre os vivos.