sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Um acordo (muito sério) a brincar

     Nas vésperas de abertura de mais um ano lectivo, o Acordo Ortográfico impõe-se.

    Ora com posições críticas (e por vezes com alguma nota de revanchismo) ora com espírito de tolerância, o Acordo Ortográfico tem vindo a ser discutido, nalguns casos já implementado.
    No contexto escolar, o mesmo tem sucedido; mas o novo ano lectivo traz a novidades dos manuais de 7º e 11º anos já com a grafia actualizada. O Ministério da Educação assume que "O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa será aplicado no sistema educativo e nas escolas portuguesas, em todas as disciplinas de todos os anos de escolaridade, a partir do início do ano lectivo de 2011/2012, em Setembro de 2011" (lá vou eu ter que passar a grafar à moda moderna - o que tenho vindo a evitar, diga-se).
     Para ajudar, a revista Visão (no seu número 964), lança umas pistas sérias, em tom leve e cómico, sobre algumas das mudanças:


     . em jeito de corrida (como nós todos andamos contra o tempo), ganha o K por ser o primeiro a ser introduzido;


       . passando à indumentária, chega a notícia de que os masculinos não vão gostar;


      . fecha-se a informação com nova peça indumentária (e o acento circunflexo, decididamente, tende a ficar 'chapéu' - já não bastava eu ter de dar nas orelhas aos alunos sempre que dizem "falta o chapéu". É este e o "tracinho", mais "a letra grande / pequena", quando se querem referir, respectivamente, ao hífen e à maiúscula / minúscula. Haja paciência!)

     Estratégia interessante, cativante, despreocupada (às vezes de mais), mas que até pode ser motivadora para práticas lectivas de articulação do Português com Educação Visual, por exemplo. Podem surgir cartazes interessantes para espalhar pela escola.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Questões do outro lado do oceano (II)

    Mantendo o diálogo, em diferido, no espaço e no tempo.

   Uma nova questão para uma nova resposta (com muito que se lhe diga).

   Q: 2) Em "Eram assim teus cabelos; / tuas pestanas eram assim, finas e curvas" (Cecília Meireles), qual é a classificação morfossintática do 'assim' e do 'finas e curvas'?

   R: Os versos transcritos do poema 'Recordações', de Cecília Meireles, fazem parte das duas primeiras estrofes (dísticos) de uma composição poética, nas quais se lê o seguinte: "Agora, o cheiro áspero das flores / leva-me os olhos por dentro de suas pétalas. / Eram assim teus cabelos; / tuas pestanas eram assim, finas e curvas."
     O recurso ao texto-fonte revela-se-me uma necessidade, por não crer que seja ao nível morfossintáctico que a questão fica resolvida. Há uma dimensão textual a considerar para a funcionalidade do termo ‘assim’. Não bastasse o facto de a classe dos advérbios ser já de si heterogénea, o que convoca já por si alguma complexidade de análise, e logo a primeira questão colocada aponta para uma dimensão textual no uso desse 'assim'.
    Na verdade, este advérbio adquire um estatuto semelhante ao de um pronome, dada a sua funcionalidade no texto em termos de construção de cadeias de referência discursivo-textual.
    O título do poema remete para o enquadramento significativo de base: a recordação, a reminiscência, a evocação que certos elementos convocam na mente do sujeito poético. As coordenadas do 'agora' (tempo), do 'me' (pessoa) remetem para um presente enunciativo-discursivo associado a uma visão transfiguradora - a do sujeito poético que, a partir do cheiro das flores, evoca alguém que, num tempo alternativo, detinha o estatuto de destinatário; alguém cujos cabelos e cujas pestanas tinham a propriedade de sedução / atracção  / condução semelhante às flores. Ou seja, o enunciado 'Eram assim teus cabelos' (na ordem directa da frase > 'Teus cabelos eram assim') configura o advérbio 'assim' na posição sintáctica de um predicativo do sujeito e com a funcionalidade textual de um anafórico (retomando uma propriedade análoga à do cheiro áspero das flores, que atrai o sujeito poético para uma das partes das flores: as pétalas).
     Na mesma linha pode ser lido o segundo 'assim', relativo às 'pestanas'. Há, contudo, um matiz interessante em termos de configuração textual neste último caso: em termos de construção poética, o segundo advérbio 'assim' pode esbater fronteiras entre o que são elementos anafóricos / catafóricos, conforme se pode evidenciar na esquematização seguinte:


   Quanto a 'finas e curvas', adjectivos coordenados na predicação de ‘tuas pestanas’, é também admissível uma dupla leitura, em termos sintácticos (uma situação que apresenta uma correlação com o atrás explanado, quase a conduzir para uma leitura topográfica da gramática). Tudo depende do entendimento a dar ao segundo 'assim': ou este último é um anafórico que remete para um antecedente relacionado com uma propriedade seguida de mais outras duas (numa sequência enumerativa que constitui um predicativo do sujeito [composto]: 'assim, finas e curvas') ou, então, trata-se de um elemento catafórico a funcionar como predicativo do sujeito, prenunciador do que vai passar a ser explicitado numa sequência apositiva ou explicativa (sintacticamente a funcionar como um modificador não restritivo).
     No que toca à construção poética, os efeitos de redundância, contraste e ambiguidade podem ser de tal ordem motivados que não creio dever haver uma só leitura ou configuração. A exploração significativa desta ambiguidade, na rede de motivações poéticas e estéticas suscitadas pelo poema, poderá convocar interpretações que outros códigos literários possam corroborar. 

   Talvez o jogo de espelhos que a recordação possa representar, na combinação e construção quiasmática dos versos, seja o significante para um significado que só o texto completo e a interacção ou o encontro deste com o leitor podem construir.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

É fado!

   Em tempos de candidatura do fado a património imaterial da UNESCO, apresentada pela Câmara Municipal de Lisboa em 2010, muito se discute a origem dele.

    Quanto à origem da palavra, fado tem a força do destino (do latim 'fatum'); quando à composição musical, diz o povo que vem dos cânticos dos Mouros, dos que se ficaram na Mouraria. 
    A sonoridade da dolência e da melancolia parece não ter registo musical anterior ao século XVIII, o que faz deste saber popular um dado a comprovar.Todavia, quem ouve um cântico muçulmano - na plangência, no trinar, no torneado sonoro e na intensidade agudamente sofrida da voz que se arrasta na melodia - não pode deixar de sentir a aproximação a um passado, a uma herança que pode (na influência recebida e no 'melting pot' histórico e cultural de que também somos feitos) ter alimentado uma plataforma para a novidade e a criatividade de um género musical tão português.
    Esta foi a sensação com que fiquei depois de ouvir um fado cantado por Raquel Tavares (grande voz portuguesa), acabado de chegar de Marrocos, onde me cruzei com alguns registos desses cânticos.
    A beleza deste fado (na letra de Eduardo Olímpio, na música de Paco Bandeira, na interpretação de Raquel Tavares) é inegável.


FALA DA MULHER SOZINHA
(no álbum Bairro, de 2008)

Já estou farta de estar só
Acompanhada de nada
Já estou louca de ser rua
Tão corrida tão pisada
Já estou prenhe de amizade
Tão barriga de saudade

Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar
O olhar de uma canção
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto
Mais longe e mais além
Mas a saber que sou alguém

Na cidade sou loucura
Sou begónia sou ciúme
E eu que sonhava ser rua
Caminho atalho lonjura
Não tenho assento na festa
Sou a migalha que resta.


   Cântico ao sabor da voz sofrida, saudosa da mulher, qual cantiga de amigo que, na tese arábica, via nas 'hardjas' muçulmanas uma das suas fontes culturais comuns, de raiz indo-europeia.

sábado, 20 de agosto de 2011

Artigo (não notícia) de última hora!

       Este é o resultado de quem vai às compras e vê as prendas embrulhadas num jornal.

      É então que, no acto de desembrulhar para tudo emalar, os olhos pousam na página de jornal (é que nem tempo tive para comprar uma revista).
       É favor ler!


      Se não perceberem não há problema. Bem-vindos ao clube! É assim que um professor se torna um iletrado (valha-me Deus!, ou melhor, Alá! Se em terra de Roma sê romano, em terra de mouro sê muçulmano). Tudo é tão relativo.
      Há pormenores que, contudo, não deixam de se fazer marcar:
     1) a atenção dada a um artigo sobre educação, escola, professores, conforme o sugerido pela imagem (mas por que motivo não fui buscar outra? Espero que, ao menos, falem bem dos professores e do esforço que fazem para partilhar o que sabem);
      2) a grafia é espantosa, nos contornos consonânticos que apresenta (porque, diz o guia, os pontinhos correspondem a vogais - se ele o diz, para já dou por certo; contudo, hei-de confirmar, dado também ter ouvido dizer que os portugueses conquistaram Ceuta no século XIV... pronto também um seculozito a mais ou a menos... o senhor só confundiu os algarismos da data - 1415 - com os do século... nada que os alunos também não façam, na melhor das hipóteses), todos eles em variedade gráfica conforme se coloquem no início, no meio ou no final da palavra;
      3) o espaço de parágrafo à direita, então, é um primor (é como na televisão ter o travessão do discurso directo à direita, também...), prova de que a orientação da escrita e da leitura é contrária à nossa no que toca às letras (porque, quanto aos números, é tal qual nós lemos, da esquerda para a direita - não fossem os nossos algarismos árabes).

      Digamos que estas compras até foram muito culturais.
   

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sinais de outra cultura (que também nos fez)

      Para quem quiser conhecer ou render-se ao Ramadão...

   No nono mês do calendário muçulmano festeja-se o Ramadão (que este ano, em Marrocos, é precisamente o do presente Agosto, dadas as discrepâncias entre o calendário gregoriano e o lunar). É tido como o mês sagrado da revelação do Alcorão, no qual os praticantes adultos devem deixar de comer e de beber, da alvorada ao pôr-do-sol (sinal de um dos cinco pilares muçulmanos: o jejum), como forma de sensibilização para a fome dos pobres (sem esquecer que o quarto pilar é o da contribuição da purificação: doação feita em segredo e sem ser movido pela vaidade); de fumar e de ter relações sexuais. 
    Diz o guia que devemos ter em atenção o período pós 17:00, em que os muçulmanos se mostram muito irritadiços (por causa de tanta abstinência).
   Em pleno mercado da medina de Oujda, há uma loja com a entrada interrompida. De outro ponto do mercado, observo discretamente o vendedor dessa loja, um homem a abrir um tapete, a colocar-se sobre ele com os dois joelhos, a colocar uma bacia de água em frente. Molha as mãos e passa-as por cinco vezes na cabeça. Ergue as mãos aos céus e, depois, baixando-as em reza junto ao peito, põe-nas no chão. O homem fica na posição de quatro, até que a testa toca no chão. Repete este ritual por cinco vezes até que se reabre loja.
    É o horário de uma das orações (o Salat). 









    E, se dúvidas houvesse, cá está o horário para quem quiser render-se ao Ramadão.



   
   Entre as 21:03 e as 04:33 é tempo de festa, de comer e de beber, de tocar e de dançar, e sabe-se lá o que mais... Os turistas tiram fotografias, fazem filmes e compras. Observam, mas também se sentem observados, pelos nativos que, por baixo de tendas colocadas na rua (quais cafés ou pontos de convívio muçulmano ao ar livre), devem achar estranho por que tanta gente os olha por aquilo que fazem todos os dias.


    Depois das 04:33 regressa-se ao jejum e às cinco orações.

    Práticas do povo de Marrakesh (e não só) que assim deu nome ao país até que, segundo se diz, por superstrato da língua portuguesa, se tornou Marrocos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sinto-me um cadastrado...

     Como é possível acontecer isto? Mal chego a Saïdia dão-me uma pulseira (para não largar).

    Eu já tinha ouvido falar de pulseiras electrónicas, mas uma de plástico, com furinhos...
    Sinto-me como alguém a dar entrada no presídio, a ser punido (e só estou a ser protegido), condicionado (qual João Vale e Azevedo, só que em Marrocos e sem roubos), lançado para o meio de tantos outros a viverem a mesma condição: a da pulseira roxa (que dizem só ser retirada no check-out!).
   Em fase inicial desta estada, lá vou ter que me habituar a um corpo estranho colado à pele (não bastasse já sentir a poeira e o calor pegajosos) que só dão vontade de estar dentro de água.
   Assim seja!
    É o que me resta para o tempo que vou ficar neste enclave turístico, em continente africano. No meio de tanta terra-pó com a cor e o bafo quente do deserto, de contrabando de gasolina e de petróleo, de vendedores ambulantes de figos da Índia (nascidos em cactos rasteiros e espinhudos), de povoações deprimentes e casas abandonadas, de círculos de homens escuros sentados à sombra das árvores à espera do fim do horário do Ramadão (...E as mulheres? Onde estão?), de ruas movimentadas por motas e carros empoeirados, sujos, enferrujados e amassados (de modelos que já lá vão), eis que me aparece um paraíso protegido de tudo o resto: com direito a piscina, a restaurantes e saída autorizada (vigiada) para o mar.
     Como é possível fazerem-me isto! 
     Que é que eu fiz!
   At last... but not the least..., eis senão quando só falam árabe marrocci (magrebe, que eu entendo perfeitamente! Se ainda fosse árabe clássico, punha as frasezinhas da Fúria Divina em acção) ou, então, espanhol ou francês.
   


   Et voilá! Tout ce que je voulais... aller en vacances pour parler français. Hélas! C' est l'enfer! 
       Lá vou eu ter de falar à Monsieur Sarko. Prefiro à la Bruni.

sábado, 13 de agosto de 2011

Estou de saída para Saïdia (o nome pelo menos é lindo!)

    Não é um mero jogo de palavras. É o destino das férias deste ano.

   As imagens do catálogo eram espectaculares, no momento da compra. Também o são sempre, quando apresentam hotéis de amplas piscinas com meia dúzia de turistas (que se transformam em centenas / milhares) e um brilho tão atraente que, por vezes, fazem esquecer o verdadeiro calor da região.
   Para já, conforme as pesquisas que fiz, sei que é costa do nordeste africano, mediterrânica, ali próximo da fronteira da Argélia, numa designada 'pérola azul' do turismo marroquino.
   Há uma marina, para a qual os turistas são atraídos pelos espectáculos de música popular tradicional e por uma feira diária com programas de animação.
   Com temperaturas a rondar os 30-40 graus, as férias prometem: se já em Portugal o calor dos 28-35  é sufocante, não sei que diga dos 30-40 de Marrocos. Se não for dentro de água, pelo menos os quartos devem ter ar condicionado.

  Se não voltar, é porque fui trocado por um camelo (mais sorte de quem se livra de mim do que propriamente para o camelo, que ficará mais longe do seu habitat natural).

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Quando nem tudo está dito ou feito

      Este é um bom exemplo do que não é uma notícia completa, na qual nem tudo é dito (sabe-se lá por que motivo).

      Hoje, lia-se numa notícia do jornal Público (página 7) o seguinte (leia-se a notícia):
   A subida da média dos alunos autopropostos (em cinco disciplinas) parece ser apontado como um sinal de estranheza, quase a significar que mais vale nem ser aluno interno. E a orientação argumentativa não anda muito longe disso quando, no segundo parágrafo do texto, se lê explicitamente o que cabe na designação de autoproposto: alunos externos que anularam a matrícula devido a excesso de faltas ou a falta de aproveitamento; alunos oriundos dos cursos profissionais.
      Pena é que este parágrafo não tenha sido mais desenvolvido, contemplando um exercício de pesquisa e de recolha de dados que reflectisse mais correcta e completamente esta tipologia de alunos. Na verdade, muitos outros cenários cabem aqui, mas admito que só quem trabalhe numa escola possa contemplá-los. 
     Não vou falar aqui de alunos que, frequentando o ensino particular ou privado, acabam por se autopropor a exame(s) em escolas oficiais públicas - aliás, esta distinção, para este caso, não é deveras relevante. Centro-me no contexto da escola pública, por si só, visando exemplificar várias situações que vão além do que se lê na notícia para "autopropostos".
      É o caso dos alunos que se inscrevem em exame depois de terem frequentado (como assistentes) todo um ano lectivo de aulas (trabalhando como se fossem internos), na esperança de verem melhorada uma prestação que não lhes permitia obter uma boa classificação pela média de dois /três anos numa disciplina - lembro-me de uma aluna que, no décimo ano, tinha um resultado suficiente numa disciplina; no décimo primeiro começou a revelar uma proficiência e um desempenho crescentes que a levaram a anular a matrícula no 12º, para conseguir uma nota superior em exame àquela que pudesse vir a obter com a média final da classificação interna e a de exame.
     É o caso dos que, tendo ficado com disciplinas por concluir, nelas se inscrevem como internos e acabam por assistir a todo um ano de aulas de outra(s) disciplina(s) e, depois, candidatam-se como externos ao exame desta(s) última(s), para melhoria de nota - mais uns casos conhecidos.
    É também o caso dos alunos que, com sucesso relativo, preferem esperar um ano na entrada para o ensino superior, investindo exclusivamente numa disciplina específica que lhes permita o acesso ao curso pretendido como primeira prioridade (e não de segunda escolha) na universidade. Isto para não falar daqueles que, já no superior, voltam aos bancos da sala de exame de 12º ano, para subir a média a uma disciplina que lhes permita redefinir o percurso ou fazer transferência no ensino superior - mais uns quantos casos. 
      Como acredito que estes três cenários conhecidos não sejam tão pontuais nem tão exclusivos da escola em que lecciono, não me espanto com o título "Média dos autopropostos foi superior à dos alunos (em cinco exames)". Admiro-me é que não seja dito tudo o que há a dizer. É que os autopropostos cada vez mais são alunos (a tempo inteiro) e, por vezes, bons, tentando atingir o patamar do muito bom. E, assim, as médias sobem, naturalmente. E ainda bem.

      Talvez assim a leitura fosse mais consistente e conclusiva, menos redutora e imperfeita. Quase apetece dizer que é mais um caso de uma notícia para "o povo ler" (e eu sou do povo; por isso, li).

Superior, mas insuficiente

      Saídos os resultados de exame da segunda fase, há subida a Português dentro da média negativa.

      De novo, a nota de alguma previsibilidade nos resultados, não obstante o reconhecimento de que a prova da segunda fase ia mais ao encontro do que se costuma ver conjugado entre programas - práticas - expectativas dos alunos.
     Da segunda dose de correcção distribuída ao grupo de trabalho de que fiz parte, o balanço era claro: eram mais pontuais os resultados francamente maus (abaixo de cinco valores); havia uma grande percentagem de classificações entre os 6-12 valores, com maior tendência para o intervalo 6-9 (não obstante os resultados de 9,5, tantas vezes conquistados ao território 'inimigo' das classificações negativas).
      A euforia não surgiu, seja porque os resultados de topo também não apareciam sejam por se sentir que ainda havia condições pouco propícias ao sucesso dos alunos.
      Em síntese, ficam aqui alguns apontamentos que, na linha do já formulado para a primeira fase, decorrem da experiência de correcção:
I - ao nível da elaboração dos exames: 
a) a construção de escolhas múltiplas que podem constituir situações dúbias e com algum fundamento para a admissão de duas hipóteses de resposta (refiro-me à instrução 1.7 do grupo II, na qual o cenário pretendido da hipótese está mais para o de uma dúvida em nada incompatível com a lógica da concessão - o recurso ao futuro perfeito 'terá sido' é uma marca de modalidade enunciativo-discursiva articulável com uma estratégia argumentativa de natureza concessiva (numa entrevista levada a cabo pela Oceanos a Sophia de Mello Breyner Andresen, lê-se a factualidade de uma viagem a Macau e de como Sophia toma uma posição apreciativa face ao que viu; de seguida, numa estratégia de aproximação à época dos Descobrimentos, a entrevistada não se compromete, nem pode, com a certeza do que foi vivido pelos descobridores e, assim, modaliza o discurso, admitindo [AINDA QUE que não tenha vivido 'o maravilhamento e o espanto dos homens que chegaram aqui'] o que terá sido esse encontro e essa descoberta); 
b) a formulação de uma instrução tão vaga quanto o ter sido interpretada com vários sentidos de 'valor' (o valor referencial, o valor estilístico, o valor de modalidade, a que se podia acrescentar o valor aspectual, o valor temporal) - a instrução a ser formulada para o cenário de resposta pretendido tem de convocar o critério de 'valor' pretendido, que, no caso, é o valor referencial; 
II - ao nível dos critérios facultados para correcção das provas: 
a) a tipificação de cenários de resposta, sempre que questionada para poder abranger outros tópicos / outros dados / outros conhecimentos (por vezes relacionáveis e ajustáveis), é novamente entendida pelas estruturas de controlo numa atitude de pouca abertura e e de quase ausência de ajustamento, preterindo-se hipóteses que se revelam válidas (por inferências, por associações, por analogias, por falta de explicitação / orientação na instrução);
III - ao nível da resolução das provas, a reflectir abordagens redutoras: 
a) a constatação de um problema maior que, a não ser subjectivo, evidencia um grande conjunto de respostas de alunos com dificuldades em termos de estruturação discursiva, lógica, coerente e coesa; de extensão frásica; de descodificação de metalinguagem específica ao nível do conhecimento explícito da língua e dos tecnicismos literários; de regras básicas de pontuação, acentuação e ortografia; de selecção vocabular; 
b) o desconhecimento claro de níveis de análise distintos em termos da língua e das suas realizações literárias; c) o reconhecimento crescente de uma selecção de informações acríticas, listadas em respostas que se revelam desajustadas, sem qualquer tipo de relação ou implicação lógica face ao que é lido no texto (a título de exemplo, a questão do mito sebastianista é frequentemente abordada em termos de se narrar um 'acontecimento histórico', 'uma crença quinhentista / seiscentista, e não de se projectar no que é a reconfiguração cultural do mito do Encoberto).
      Não repito o que já antes registei a propósito de outros níveis, e, igualmente, desejava que as situações aí apontadas não se repetissem, para bem de todos os implicados.
      Para melhor prova, melhores resultados.
      Dois casos, de uma mesma escola e uma mesma docente, e que valem apenas o que se quiser ver:
    . uma aluna a repetir o 12º ano para melhoria de nota, como externa: 1ª fase, resultado bom; 2ª fase, resultado muito bom (e lamentando que não tenha percebido o 'valor', porque poderia ter tido mais ainda);
   . um aluno interno do 12º ano: 1ª fase, resultado muito negativo (reprovado); 2ª fase, resultado negativo (aprovado).
     O que substancialmente faz a diferença é um trabalho que, a desenvolver-se ao longo de todo um ano lectivo (com a consciência das implicações prioritárias associadas à processualidade da leitura e da escrita, do conhecimento explícito da língua, da leitura de obras integrais e da dimensão cultural associada ao trabalho da língua e das obras a ler) num ritmo e num tempo bem aproveitados, não se compagina com dois blocos de noventa minutos, onde também devem caber o trabalho e a avaliação do oral (formal).

     Depois disto, saber que, no ensino secundário, há disciplinas que têm carga horária de três blocos de noventa minutos, com programas / sequências modulares (sem implicações directas umas com as outras em termos de ensino-aprendizagem), com desdobramento de turma e sem exame nacional é no mínimo questionável e passível de reflexão sobre o papel e a projecção social que se quer para certas disciplinas. Também gostava de fazer bolos sem ovos, sem farinha, nem fermento.
   

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Já não me sinto tão sozinho!

    Ontem, uma amiga fez-me chegar um texto que gostei de ler. Citando, "comme il faut", a fonte (para quem [re]conhece um argumento de autoridade), partilho-o pelo saber que evidencia.

     Não posso deixar de o transcrever - admitindo que se trate do texto original, pelo confronto feito com outros três pontos de referência com a mesma orientação / identificação argumentativa -, por se entrecruzar com outros registos / apontamentos que já figuram neste espaço.

Comentário ao Grupo I da Prova de Exame Português do 12º ano, 
Fase 1 - 2011,
 por Teresa Rita Lopes, especialista da obra de Fernando Pessoa

   «Pediram-me a minha opinião sobre a “Prova Escrita de Português”, a que os alunos do 12º ano de escolaridade foram recentemente submetidos. Hesitei em pronunciar-me publicamente mas a minha antiga costela de militante (sem Partido), obrigou-me a aceitar fazê-lo, perante a constatação de que os resultados obtidos foram catastróficos: alunos que tinham tido altas classificações durante o ano lectivo saíram do exame com negativa. O pior é que isso, para muitos deles, representa a impossibilidade de se habilitarem a entrar nos cursos para que se sentem vocacionados por ficarem, com essa nota a Português, com uma classificação inferior à requerida para o seu acesso. E isso é grave, porque está em jogo o futuro desses jovens. Por isso, arregacei as mangas e pus-me a analisar (como aliás sempre gostei de fazer com os meus alunos e espero que os professores o façam com os seus) o poema de Álvaro de Campos que lhes coube em sorte: um do penúltimo ano de vida, de 16.6.1934, que começa “Na casa defronte de mim e dos meus sonhos”.
    A escolha do poema foi infeliz: o seu bom entendimento implicaria um conhecimento aprofundado da poesia de Campos que não pode ser exigido a alunos deste nível. Além do mais, as perguntas não estão bem formuladas nem são as que conduziriam ao entendimento do poema que se quer averiguar se o aluno teve (e que duvido os próprios examinadores tenham tido, perante tais perguntas e os “cenários de resposta” que apresentaram).
    A primeira pergunta, sobre “as duas sensações representadas nas quatro primeiras estrofes”, distrai da verdadeira compreensão do poema, que é, do princípio ao fim, a taquigrafia de um monólogo a que Campos se entrega, como em muitos dos seus outros poemas. Através dele, vamos assistindo à marcha do pensamento do Poeta e ao desfilar dos sentimentos que desencadeia. Porque é de sentir sentimentos e não “sensações” que o poema essencialmente trata. Quer o examinador, nesta primeira pergunta, que o aluno fale “das sensações visuais e auditivas” presentes nas quatro primeiras estrofes do poema. É ter em pouca conta a sua inteligência querer apenas fazê-lo provar que o Poeta não é cego nem surdo, porque diz “que viu mas não viu” e que ouve vozes no interior da casa (como se explicita no “cenário da resposta”). Nada nos diz que o Poeta não está à sua secretária, a evocar apenas o que habitualmente vê e ouve: não assistimos a uma verdadeira reacção a um estímulo sensorial. Das pessoas que moram em frente diz, com um verbo no passado (portanto, evocando uma visão, não vendo): “vi mas não vi”. Também as ouve, aparentemente da mesma forma: das “vozes que sobem do interior doméstico” diz que “cantam sempre, sem dúvida”, o que mostra que não as está a ouvir mas a imaginar (logo, é imaginação, não sensação). O verso seguinte “Sim, devem cantar”, reforça a suposição. Seria preciso, ao formular as perguntas, respeitar o facto indesmentível do poema ser um monólogo que o Poeta murmura por escrito enquanto contempla, talvez só com a imaginação, “os outros”– esses vizinhos que vê sem ver porque lhe são inteiramente estranhos.
    O que seria preciso entender – e sobre isso sim, questionar o aluno – é que o Poeta olha (ou se imagina olhando) para a casa fronteira à sua como um menino pobre para uma montra de brinquedos: tudo o que aí vê e ouve é uma manifestação dessa “felicidade” que ele não sabe o que é mas cobiça: crianças, flores, cantos, festas. “Que felicidade não ser eu!” Falando várias vezes o Poeta de “felicidade”, seria pertinente questionar o examinando sobre o sentido desse sentimento (bem mais importante do que as sensações ver e ouvir que querem que ele referencie).
   Pedir para caracterizar o tempo da infância tal como é apresentado na terceira estrofe do poema, e esperar, como se vê no “cenário da resposta”, que o aluno apenas fale “do ambiente de despreocupação feliz, sugerido pelo acto de brincar”é de uma profunda superficialidade …
     Quanto à pergunta seguinte sobre “a relação que o sujeito poético estabelece com os outros” percebe-se, pelo “cenário da resposta”, que o examinador quer que o aluno fale apenas da “diferença”que o Poeta sente que o separa dos “outros”, porque «os “outros” são felizes». O facto do Poeta exclamar “São felizes porque não são eu” mostra que essa “felicidade” é, não um verdadeiro sentimento que os outros experimentem mas o sentimento que o Poeta tem de que é uma sorte ser outra pessoa qualquer, que o verso seguinte “Que grande felicidade não ser eu!” exprime plenamente.
    Seria interessante, isso sim, fazer o aluno falar sobre o papel e o significado das interrogações súbitas, nomeadamente “Quais outros?” porque são elas que traduzem e nos fazem assistir ao evoluir do pensamento do Poeta, que se põe em causa a si próprio, isto é, ao que está pensando no decurso do seu monólogo interior. Assistimos, assim, à transição, desencadeada por essas perguntas, de um “eu” para um “nós”: do sentimento inicial de solidão total, de ser apenas um “eu”, uma ilha de solidão, ao de pertencer a um “nós” – a humanidade: “Quem sente somos nós, /Sim, todos nós” – embora cada um a sós consigo. Cada um sente e sofre sozinho mas isso não o impede de fazer parte de um “nós”. Seria demais esperar que o aluno soubesse dizer que é esta uma característica da atitude de Campos: o sentimento de que é uma ilha de solidão, quando diz “eu”, mas de que pertence a um arquipélago, quando pronuncia “nós”. Mas não seria excessivo esperá-lo do examinador.
    A última questão presta-se a muitas respostas, não apenas à que é indicada no “cenário de resposta”, que espera referências à “dor” e ao “vazio” “expressos na última estrofe, particularmente no verso «Um nada que dói…»”. Os examinadores não perceberam a sua subtilíssima ironia: depois de afirmar que “já” não está sentindo nada, o Poeta corrige-se, com um sorriso de vaga ironia triste: “um nada que dói”. Se o aluno conhecesse razoavelmente Campos – o que seria demais exigir-lhe mas não ao examinador– referiria que esse incómodo, essa vaga dor é o que, noutro poema, o Poeta chama “o espinho essencial de ser consciente”.
     Só uma nota: não estou a querer pôr ninguém em causa: não sei nem quero saber quem elaborou esta “prova”. Estou apenas a obedecer ao meu velho tropismo de querer ser útil. (Que, diga-se de passagem, muitos dissabores me tem trazido ao longo da minha já longa vida.)
Teresa Rita Lopes

   A sensação (ou será que é sentimento?) de estar sozinho é triste. Talvez não o tenha sido tanto, por se ter conseguido trabalhar com "alguns amigos críticos" que, no processo de correcção, partilhavam as mesmas angústias. Começa a ser menos, pelo que foi possível hoje descobrir e pelo que se pode aqui ler.
   No caso do texto citado, quem com tanta autoridade reconhecida assim se pronuncia pode não fazer coro; faz, por certo, aliviar-me (nos) a alma.

     Só espero que, dentro de pouco tempo, não haja necessidade de voltar a este sentido de registos, face a resultados que estão a revelar-se indesejados e indesejáveis, com uma visão redutora das causas que lhes possam estar associadas.
(com agradecimento à Zazá)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dar lugar aos novos... com clássicos

      Ella será sempre... Ella,... ela... a Fitzgerald... a voz negra do jazz.

    Para um tempo que foi o seu sempre haverá aquele outro que fará parte da memória de todos e da história da música.
     Mas, tal como o tempo se renova, também há que fazer sobreviver as boas melodias para os gostos e as versões de novas épocas. É o que se pode dizer da versão de uma jovem vencedora: Fantasia Barrino.

      
     Pelo dia que foi hoje - o primeiro depois de ter trabalhado para a 'nação' -, cheira a tempo de verão. Foi tempo para relembrar Gershwin e uma das suas grandes melodias de sempre.

      SUMMERTIME

Summertime and the livin’ is easy
Fish are jumpin’ and the cotton is high 
Oh your daddy’s rich and your ma' is good lookin’
So hush little baby, don’t you cry
One of these mornings
You’re gonna to rise up singing
Then you’ll spread your wings
And you’ll fly to the sky
But till that morning
There’s nothin’ can harm you
With mammy and daddy standin’ by

      Summertime na vontade; porque, no clima, ainda falta um bocadinho para o ser.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Século XII no XXI (ou o presente a reviver o passado)

    Dizia-se que era o tempo de D. Afonso Henriques (século XII) para os olhos do século XXI.

Cartaz de divulgação da XV edição da Viagem Medieval - 2011
  Foi neste enquadramento que se conviveu na feira / viagem medieval de Stª. Maria da Feira. 
   Entre comes e bebes (na Corte dos Bobos), muita animação e cor, a noite foi iluminada pelas luzes das tendas dos vendedores ambulantes; pelo fogo dos jogos e das tochas, archotes e fachos; pelo espectáculo dos saltimbancos que animam o bosque; pelos arraiais estabelecidos
    Assim se apresenta um evento, que se iniciou a 28 de Julho e com final programado para o próximo dia 7 do corrente mês.
   Santa Maria da Feira, a conhecida terra da fogaça, vê o seu centro urbano preenchido por uma multidão plurilingue, geracional e socialmente diversificada a assistir a vários espectáculos, com múltiplos pontos de animação, retratando situações, acontecimentos e personagens que revivem uma época histórica. Desta feita, trata-se daquela que se constituiu como a era da afirmação do poder do nosso primeiro rei, para tornar Portugal independente de Castela.
    Numa espécie de peregrinação e escalada ao ponto central do evento - o castelo da Vila da Feira -, o cruzamento com pajens, soldados, monges e donzelas vestidas à cor epocal não deixou dúvidas: este é o tempo (com algumas notas musicais sugestivas, com toques de mistério e de magia, com cheiros e sabores festivos) em que os santamarianos acolhem os visitantes, mostrando a paixão com que se entregam a este projecto que já vai na sua XV edição.
      Este o vídeo de divulgação do evento, na memória do muito que já nos tem oferecido.


"A vida é a identidade da História. (...) 
Somos o que construímos. (...)
No fio frio da espada mora a identidade dos que acreditam no futuro."

   Onze dias de recriação e animação circulante, para que a História se viva e se reconstrua a identidade de um povo.