terça-feira, 19 de julho de 2011

Na teia das sensações e dos sentimentos

      A questão não é nova, nem creio que seja produtiva para avaliar seja o que for, em termos de um exame de Português. Mas é assim que os alunos também não tiram bons resultados.

      Um dado crítico ou uma situação problemática esta que põe os examinandos em posição frágil. Já assim aconteceu há uns anos quando, a propósito de um excerto de uma outra obra, se formulavam instruções sobre sensações e se recusava qualquer cenário de resposta que tocasse o plano do sentimento.
     Este ano, repete-se a instrução, desta feita na base de um poema de Álvaro de Campos. Fosse este o caso para um texto da fase sensacionista e não haveria tanto problema; contudo, com uma composição marcada pela angústia, pela dimensão do tédio e da força da consciência que enleia o sujeito poético, a questão é mais complexa.
    Questiono-me se a avaliação, testagem e classificação de alunos, em Português, se situe no reconhecimento e numa instrução apoiada na referência a sensações (questão 1 do Grupo I do exame da 1ª fase do exame 639 - Português, 12º ano), restringindo-a a um sentido físico (conforme se configura em cenário de resposta previsto e sublinhado pelo GAVE); duvido que ela seja objectivo prioritário (da disciplina), meta (do ciclo) ou finalidade (do currículo) no que toca à avaliação / classificação de alunos em exames do ensino secundário. É verdade que a propriedade lexical e a adequação de registos são áreas de relevado interesse nas competências produtivas de uma língua; sei qual o grau de penalização a atribuir a quem não as respeita; contudo, no que toca à precisão e distintividade de palavras como ‘sensação’ e ‘sentimento’, a questão é mais delicada do que estabilizada. 
    A verdade é que, pela consulta de vários dicionários, deparo com outras possibilidades de resposta sustentadas no que qualquer falante pode encontrar em entradas de dicionário (confronte-se o comentário que hoje mesmo produzi, para uma aluna, a este propósito). Qualquer falante assumiria que há também sensação de movimento, de paz, de tranquilidade, de angústia, apoiada em sentimento - o que, aliás, é palavra-chave para o trabalho poético de um Álvaro de Campos menos sensacionista, mais angustiada e existencialmente dominado pelo sentimento e pela consciência singular e diferenciadora face 'ao outro' que vive na inconsciência desejada.
      Há, por certo, quem contra-argumente esta posição, numa perspectiva que, até certo nível, faz sentido o contraste de termos; há quem imponha a diferenciação, quase numa atitude tão dogmática quanto discutível.
      É óbvio que os diferentes significados e acepções de uma palavra não têm o mesmo valor, mantendo-se a posição de que são pouquíssimos os sinónimos directos (se é que os chega a haver) numa língua. E precisamente por isto, encontro aqui mais uma razão suficiente para uma atitude moderada, capaz de integrar o que não possa chocar o comum dos falantes ou associar o que não impeça o sentido último de uma comunicação, seja ela oral seja escrita.
      Sensação e sentimentos já são há muito discutidos, pelo menos há três séculos (se não for há mais). Se no domínio da percepção, a primeira se prende a um processo de captação da realidade física apoiada num ou vários sentidos (pergunto-me, mesmo, por que motivo não se utiliza a expressão ‘sentido físico’ – o que realmente se pretende – para bem do sucesso dos alunos e para a eliminação de algum factor de ambiguidade que os expõe a uma complexidade e objectividade dúbias), resta-me saber se possa, deva ou tenha que ficar apenas com esse entendimento a ponto de considerar derivação inusitada ou extrapolação tudo o que vá no sentido do sentimento. Que sincronização é essa que permite falar na fronteira de uma etapa para outra, numa distinção tão rigorosa?
    Poderia apoiar-me em experiências de vida tão sintomáticas e familiares quanto as de alguém ter a sensação de ‘cócegas’ num membro que já não possui (nem realidade física nem sentido); as de alguém ver e ouvir coisas que não pode ou que o não são (quantas vezes o grito é de imediato associado ao perigo e nada tem a ver com isso); as de se aplicar o termo sensação a uma realidade que não o é (poderá ter sido, quando muito) por ser evocada e /ou pertencer ao plano do ficcional. Ora, aqui cabe o poema de Álvaro de Campos, no qual o sujeito poético diz ver e ouvir algo junto a uma casa que se encontra “defronte de si” e “dos seus sonhos” (conclusão: será que ela existe?).
    Certo ainda é o dado de, físico ou não, a própria sensação não deixar de ser uma construção. Na confluência dos sentidos e da apreensão do real vivido ou do real evocado, é curioso que António Damásio (para me situar num português) fale da sensação somática e de como esta e os sentidos (mais individual ou confluentemente) permitem a criação de imagens. O mesmo cientista define os sentimentos como uma variedade de imagem que produz estados corporais sentidos, mesmo que não conscientes. Na criação da mente e na interacção do corpo e do cérebro, reconhece o estudioso a interconectividade, a intersecção do que designa como “sentimentos primordiais”, ou expressões espontâneas do estado do corpo vivo, que antecedem qualquer outro tipo de sentimentos. Admito que possa estar a ver mal, mas situo aqui as sensações, nomeadamente as de medo, de prazer, de dor, de sofrimento. Qual a fronteira face aos sentimentos? Damásio aponta mesmo a metáfora da “arena do corpo vivo” como a fonte de um conhecimento em que sensações, emoções e sentimentos são processos distinguíveis (e lá vem a concessiva), embora façam parte de um ciclo muito apertado. Tão apertado, digo eu (ousadia a minha), que não justifica penalizar os alunos face a uma fronteira tão ténue, a mesma que o autor assume como uma passagem da percepção ao desencadear da emoção numa interposição de etapas que pode ser muito breve e não consciente.
       Um pequeno excerto de um programa televisivo intitulado "El cerebro, teatro de las emociones" (TVE) dá conta de como o cientista português une o que se tende a dividir:


     Neste sentido, entendo esta questão distintiva das palavras como filosófica: como uma possibilidade de, no seio das várias ciências e numa perspectiva epistemológica, reflectir, discutir, encontrar caminhos para uma estabilização (se é que ela é necessária, neste caso) de conceitos. Por certo não será ao nível do que, neste momento, é o meu campo de interesse: o da avaliação dos alunos de secundário. A minha “guerra”, se assim a posso metaforicamente designar, é a de continuar a não perceber por que motivo, entre tanta coisa a poder ser testada, se consideram minudências que, à partida, servem para declaradamente pôr professores e alunos socialmente em jogo.

    Este é um exemplo de uma teia que talvez um texto teça, na qual muitos alunos e professores ficaram enredados. Tudo tão escusado, não fosse um aranhiço propósito que desencadeia a reflexão seguinte: "A quem irá servir, dar proveito ou privilegiar?" Tenho a sensação de que esta interrogação pode trazer alguma incomodidade (ou será sentimento?!).

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