quinta-feira, 17 de março de 2011

Memória(s) de ouvido

       Dos tempos da adolescência, ficou uma grande voz...

      Elis Regina (ou a mais familiar "Pimentinha"), cujo nascimento a 17 de Março de 1945 hoje lembro, era a voz de "Fascinação", "Eu sei que vou te amar", "Águas de Março", "Alô, Alô, Marciano", "Madalena" - melodias que passavam na rádio e na televisão; que rodavam no gira-discos lá de casa, ainda em vinis de 45 rotações.
      De tanto uso, um ou outro ficou inutilizado; mas ficou gravado na memória auditiva: "Os sonhos mais lindos sonhei. / De quimeras mil um castelo ergui...", "Eu sei que vou te amar / Por toda a minha vida eu vou-te amar / Em cada despedida eu vou-te amar / Desesperadamente eu sei que vou-te amar...", "Alô, Alô, Marciano / Aqui quem fala é da terra / P'ra variar estamos em guerra...", "Ó Madalena, o meu peito percebeu / que o mar é uma gota / comparado ao pranto meu...".



É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
é peroba do campo, o nó da madeira
caingá, candeia, é o Matita Pereira


É madeira de vento, tombo da ribanceira
é o mistério profundo
é o queira ou não queira
é o vento ventando, é o fim da ladeira
é a viga, é o vão, festa da cumeeira
é a chuva chovendo, é conversa ribeira
das águas de março, é o fim da canseira
é o pé, é o chão, é a marcha estradeira
passarinho na mão, pedra de atiradeira

Uma ave no céu, uma ave no chão
é um regato, é uma fonte
é um pedaço de pão
é o fundo do poço, é o fim do caminho
no rosto o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego
é uma ponta, é um ponto
é um pingo pingando
é uma conta, é um conto
é um peixe, é um gesto
é uma prata brilhando
é a luz da manhã, é o tijolo chegando
é a lenha, é o dia, é o fim da picada
é a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
é o projeto da casa, é o corpo na cama
é o carro enguiçado, é a lama, é a lama
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um resto de mato, na luz da manhã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é uma cobra, é um pau, é João, é José
é um espinho na mão, é um corte no pé
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um belo horizonte, é uma febre terçã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho

Pau, pedra, fim do caminho
resto de toco, pouco sozinho

Pedra, caminho
Pouco sozinho

Pedra, caminho
É o toco


      Registos de um tempo revivido num tristonho Março, que bem podia ser Janeiro - o mês da morte da cantora (17 de Janeiro de 1982) -, entre o frio e o molhado, com "águas são de Março", mas "não fecham o verão". Grande música, grande voz, grande canção.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Camilo: o que preferiu os ladrões às bestas?

      No dia do nascimento de um dos maiores novelistas da Literatura Portuguesa.

     O tempo vai apagando alguns sinais da memória. De figura proeminente nos programas de ensino do Português, no século passado, hoje Camilo Castelo Branco é figura praticamente residual no conhecimento que os alunos detêm sobre um dos maiores românticos nacionais. E, no entanto, quando alguns deles se cruzam com narrativas camilianas, a reacção não deixa de ser positiva, por vezes até intensa. O mesmo aconteceu com grandes escritores.
     Há 186 anos nascia quem viria a ficar órfão de mãe e de pai, aos dois e nove anos, respectivamente. As letras adoptaram-no, depois de um curso de Medicina abandonado no segundo ano, bem como outro de Teologia no Seminário Principal. Na poesia, no teatro, no jornalismo, nos romances ou nas novelas, Camilo não deixou de se afirmar como um exemplo, sem esquecer o polemista que, nas décadas de cinquenta e sessenta do século XIX, revelou um exercício de escrita e um domínio da palavra notáveis.
    Considerado por alguns como o primeiro escritor profissional, o autor de Amor de Perdição (1862) foi um retratista de costumes, de linguagens, de vivências, sendo capaz de os transpor para o escrito com matizes de uma oralidade que Alexandre Herculano e Eça de Queirós não deixaram de explorar, em tendências literárias (romantismo e realismo-naturalismo) que se confrontaram.
    A cegueira viria a limitar Camilo, a ponto de este pôr termo à sua vida, pintada do aventureirismo, do inconformismo, da boémia, da intensidade passional e da consciência do conflito de forças que grassa no ser romântico. Sentiu-se sem a íris que o ligava à vida ou a janela que lhe alimentava a alma; sem os amigos que o abandonaram, como o registou num dos seus últimos poemas.
    Assim se revelou "um Homem do Norte":

  
     Não admira, portanto, que numa das suas cartas tenha testamentado o seu desejo de sepultura no Cemitério da Lapa (conforme o testemunha carta a um amigo).

  
    Se, com a imagem da morte, cumpre o romântico o tópico da fuga ao seu infortúnio, Camilo Castelo Branco assim o fez para a vida que hoje é lembrada.

     Talvez na mente do autor primasse o provérbio "Antes a morte que a má sorte"; mas, para muitos dos seus leitores do tempo, talvez fosse mais adequado um sentido possível para "O que a vida nos dá a morte nos tira".

terça-feira, 8 de março de 2011

Um "criativo", um criador, um criado...

        Há dias cuja criação é mais humana que divina, e talvez por trás do homem não deixe de estar uma força que o transcende.

      Este é o sentido das palavras que Pessoa escreveu a Adolfo Casais Monteiro, a propósito da criação heteronímica:

      "Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
       Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro. (…)
      Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
         Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve."

Fernando Pessoa, in Obra Poética e em Prosa, ed. António Quadros,
Porto, Lello & Irmão, 1986


     Também nos dias em que nos sentimos muito produtivos nada parece poder deter-nos. E quantas vezes assim começamos o dia para, no fim, desejarmos um pouco de terra, um instante sem ter que pensar, um repouso que nos comande até ao son(h)o, um balanço que relativize o excesso a que nos obrigaram ou a que nos demos.

      Coisas de tanta(s) pessoa(s) / Pessoa(s), e que também alimentam a arte do Homem Moderno.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Quando parece igual...

     Apetecia-me dizer "Atrás de mim virá quem te ensinará", mas é melhor justificar o que eu ganho. E a questão é irrecusável (pela questão e por quem a formula).

     Por isso, vou-me e dou-me ao trabalho (... trabalho e mais trabalho). Por que razão me lembrei eu disto?!

  Q: Olá, professor! Tenho uma dúvida... Qual a diferença, se houver, entre "experienciar" e "experimentar"? Segundo o dicionário online da Língua Portuguesa, pelo que percebi, não há grande diferença. Obrigada! Continuação de umas óptimas "férias" !

      R: Prezadíssima aluna, que felicidade! Uma dúvida! Eu tenho tantas... Vamos lá ver se (me) saio bem desta.
      No geral, diria que o que foi concluído da consulta faz sentido. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa assume mesmo que 'experienciar' é o mesmo que 'experimentar'; outros tomam o primeiro termo como uma das acepções a contemplar no segundo.
      Todavia, no que toca à sinonímia, esta última não é perfeita nem total. Há frases em que a permuta dos vocábulos resulta bem:
      i) Experienciei uma sensação única na viagem a Itália.      
      ii) Experimentei uma sensação única na viagem a Itália.
         O mesmo não sucede noutros casos:
     iii) Experimentei um fato novo [mas * Experienciei um fato novo]
     iv) Experimentei as chaves todas e a porta não abriu [mas *Experienciei as chaves...]
     Assim, parece que 'experienciar' é um termo que combina melhor com palavras tendencialmente abstractas (ex.: sensação), enquanto 'experimentar' apresenta um leque mais abrangente de sentidos, combinatórias (nomeadamente com vocábulos de significado mais concreto).
     Outras diferenças residem mais em aspectos etimológicos e morfológicos. 'Experimentar' provém do termo latino 'experimentāre' (que sofreu evoluções, ainda que poucas, em termos sonoros e articulatórios), enquanto 'experienciar' é um verbo formado a partir de 'experiência' (por derivação com sufixação).
      Em suma, digo que se 'experimenta' um prato, uma comida e se 'experiencia' a sensação (agradável ou não) desse prato, dessa comida. 'Experienciar' está para o abstracto como para a vida, as sensações, os sentimentos; 'experimentar' cabe em situações de testagem, experiência, uso, ensaio, prova, comida e bebida, passagem, com noções tanto concretas como abstractas.
     (E deseja-me "boas férias" - e óptimas! Porquê? Onde? Quando? Como? Quem? Que eu saiba, só houve pausa lectiva - expressão, aliás, ambígua, porque a pausa que houve na actividade lectiva - o que me fez não ter de ir à escola - não deixou de ser uma pausa lectiva; ou seja, pausa para continuar a ensinar. Eis a prova - aqui está ela.)
      Espero ter sido esclarecedor.

     Qualquer dia começo a dar razão a quem já defendeu que não era necessário haver salas de aulas (Cala-te boca, para não dares ideias, e acabarem por descobrir que as escolas novas que estão a construir não são precisas. Ai! Não penses, não fales, não escrevas!). 

domingo, 6 de março de 2011

Entre Bibliotecas e Florestas

     De comum, a tela da representação, na conjugação de traços e imagens, quais livros ou árvores à espera de leitores e pássaros.

     O nome é português, a mulher é lisboeta e francesa, a arte é universal, na conjugação dos pontos, dos círculos, dos quadrados, da luz, do emaranhado de tons, linhas e figurações que evocam heranças culturais e vivências que entrecruzam Portugal, Brasil e França.

Criado em 28/11/2008 por jomarvaz

     Maria Helena Vieira da Silva faleceu a 6 de Março de 1992, com 84 anos por fazer.

   E porque a morte é também figuração da arte, fica a reminiscência de uma portuguesa que se deu ao mundo. 

sábado, 5 de março de 2011

Será o mito do eterno retorno?

     Talvez nunca se tenha falado tanto do Festival da Canção da RTP1, nos últimos tempos. Ainda bem!

     As reacções são de todo o tipo. 
    Já viste quem ganhou? O que é isto? Que figura é esta? Eles não desafinam? As interrogações dos mais velhos..., isto para não dar conta de outras apreciações que diziam não haver juízo, não ser assim que vamos ganhar (ainda há crentes!).
    As mensagens dos mais jovens - entre a ironia, a inconsciência e o espírito do inconformismo - vão desde o simples "Que lindo!", "Palhaços" e "Reis!" ao registo que marca uma vitória. 
    A minha teoria vai mais no sentido de todo um cenário recriado (o da manifestação que nunca é, por certo, afinada, ainda que todos pareçam ir na mesma direcção); de um espírito de luta (que é alegria); de um grito disfarçado de chalaça; de uma "pedrada no charco"; da queirosiana revolução de mentalidades, para reagir a uma "choldra ignóbil" que persiste (ou se reafirma) desde os finais do século XIX.
   A letra da canção tem de tudo, menos da inocência dos incautos. A par de uns famosos e conhecidos 'Deolinda', nos últimos tempos (de Geração Parva ou À Rasca), os 'Homens da Luta' em tudo me fizeram pensar e lembrar as cantigas de intervenção.
    Ecoaram, na minha mente, as palavras do Principal Sousa (um dos "reis do Rossio", do poder instituído que se vê ameaçado em Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro):   "... o povo canta pelas ruas canções subversivas". Ou as de Miguel Forjaz (outro dos "reis"): "Os estados emotivos... dependem da música que se tem nos ouvidos". Até as do antigo soldado (um dos populares oprimidos): "Estas cantigas são inventadas / no regimento de Freire d'Andrade / São cantadas com o estilo / De lá ré ó liberdade".
    A "cantiga é uma arma", disse-o José Mário Branco. Para um contexto de ditadura (noite), a reacção melódica fez-se com várias canções e a várias vozes: a de Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo e tantos outros que convocaram o espírito crítico, a liberdade e a "Madrugada" que um Duarte Mendes (um dos soldados de Abril) viria a celebrar. Para um contexto democrático (dia), outras vozes se fazem ouvir, no desconcerto que o presente faz (re)viver. Jel, na letra, e Vasco Duarte, na música, evocam o tempo dos cravos que trazem ao peito.

Final do Festival RTP da Canção - 2011

     A LUTA É ALEGRIA

Por vezes dás contigo desanimado
Por vezes dás contigo a desconfiar
Por vezes dás contigo sobressaltado
Por vezes dás contigo a desesperar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

De pouco vale o cinto sempre apertado
De pouco vale andar a lamuriar
De pouco vale um ar sempre carregado
De pouco vale a raiva para te ajudar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino

Não falta quem te avise «toma cuidado»
Não falta quem te queira mandar calar
Não falta quem te deixe ressabiado
Não falta quem te venda o próprio ar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino

Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
A luta continua


    Não me espanto se, daqui a uns tempos, alguém disser que este ritmo (entre o folclore, a marcha revolucionária e o corridinho de toque popular) foi o de uma canção que inspirou a mudança por muitos desejada (estão lá as figuras do campesinato, do soldado, do revolucionário, de um sugestivo "Zeca Afonso", de uma artista da moda que "dá nas vistas", do metalúrgico); que fez da luta alegria e um convite à acção - e que, para o bem e para o mal, se fará ouvir na Eurovisão.

     Mudar... sem rodar. Porque de rotativismo político também os finais do século XIX se marcaram. E o resultado não foi dos mais famosos para um país que "se perdeu".

sexta-feira, 4 de março de 2011

De um exercício que de duvidoso tem pouco

      É bom discutir as certezas e as incertezas que se tem.

     Desta feita, a dúvida nasce de um exercício e das suspeitas que ele levanta.

    Q: Colega, gostaria que se pronunciasse sobre a seguinte frase, mais o exercício construído para uma turma de 12º ano. Suponho que a resposta correcta seja a c), mas não se trata de uma solução pacífica no meu grupo de trabalho. Podia dar-me conta da sua opinião e da devida justificação? 
        Agradecida.
__________________________________


FRASE: Descobriu-se recentemente que as células estaminais têm o poder de curar doenças mortais, que são "semente" de tecido e órgãos nobres, que podem dar vida a quem perspectivava sofrimento e morte.


Na frase proposta, os três "que" lá presentes são...
a) completivos os dois primeiros e relativo o segundo.
b) todos relativos.
c) todos completivos.
d) causais os dois primeiros e relativo o último.
___________________________________

      R: Considerando a frase e o exercício facultados, concordo com a solução c). Vejo uma construção apoiada numa enumeração sintáctica, a qual contempla três complementos directos para o verbo 'descobrir'. Esquematicamente, apresentaria os constituintes sintácticos do enunciado da seguinte forma:
    . Descobriu-se recentemente [três coisas]
        a) que as células estaminais têm o poder de curar doenças mortais,
        b) que (as células estaminais) são "semente" de tecido e órgãos nobres,
        c) que (as células estaminais) podem dar vida a quem perspectivava sofrimento e morte.
     Assim, em jeito de conclusão, diria que:
  i) o predicado apresenta três subordinadas completivas (enumeradas, segundo um mecanismo de coordenação assindética);
    ii) as segunda e terceira subordinadas completivas evidenciam um mecanismo de elipse do grupo nominal 'as células estaminais' (que configura o sujeito sintáctico das três subordinadas);
   iii) não existe co-referência entre o segundo 'que' e 'doenças mortais' (as quais, naturalmente, não são 'semente de tecido e órgãos nobres') nem entre o terceiro 'que' e 'semente de tecido e órgãos nobres' (pela incompatibilidade de concordância sintáctica entre singular e plural: '*semente de tecido e órgãos nobres podem dar vida...').
    Espero ter sido esclarecedor na explicitação. A complexidade da frase (com seis orações distintas) e a sua extensão requerem, de facto, um exercício de desmontagem e a consciência de um paralelismo sintáctico visível nas alíneas a) a c).

    Trata-se de um caso que, naturalmente, exige manipulação, treino e uma abordagem progressiva na extensão frásica.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Quando o verbo comanda...

     Voltando ao governo do verbo e dos seus governados.

     As dúvidas persistem, relativamente ao que é modificador ou complemento em determinadas frases.

     Q: Na frase "Os alunos chegaram tarde às aulas", 'tarde' e 'às aulas' são ambos modificadores ou complementos?


    R: Nem uma nem outra hipótese ou, então, uma mistura de ambas. Ou seja, há um modificador e um complemento.
    O ponto de partida é o da consideração da estrutura argumental do verbo 'chegar'. Em termos lógicos, este é um verbo bivalente: selecciona um argumento na posição de sujeito sintáctico, mais outro na de complemento (Alguém / Algo [X] CHEGA a algum sítio [Y]). Independentemente da realização frásica os contemplar ou não, esta é a valência básica seleccionada, a qual satura a dimensão lógico-semântica do verbo em questão, com os papéis semânticos implicados (o agente, por um lado; o alvo ou ponto de destino, por outro).
   Assim, [Y] é configurado por um constituinte na forma de grupo preposicional, com a função de complemento oblíquo (conforme o atestam a interrogação: 'Aonde chegam os alunos? > Às aulas; a pronominalização ou anaforização: 'Os alunos chegam lá / aí' > Às aulas).
   Quanto a 'tarde', trata-se do advérbio que modifica o verbo 'chegar', na função de modificador do predicado. Prova-o não só o facto de não figurar na estrutura argumental mas também o de admitir o teste do pró-verbo 'fazer' (Os alunos chegaram às aulas e fizeram-no tarde).

    E para alguém governar, têm os outros que se deixar subordinar, mesmo que não participem activamente na cena representada. Não é política aquilo de que falo, mas bem que podia ser, no jogo de dependências criado, no teatro composto por protagonistas, actores secundários e meros figurantes.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Camões, grande Camões...

     Há um "tópos" literário cuja ficcionalidade é tão real que faz da vida fonte (mais do que) inspiradora.

       É clássico, com tudo o que isto possa significar.

Hieronymus Bosch, A Nave dos Loucos

ESPARSA

sua ao desconcerto do mundo


    Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m’espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.


     "Camões, grande Camões", assim o disse Bocage em soneto de cariz autobiográfico, cerca de três séculos depois da escrita camoniana.

     Não é semelhante seu destino ao meu; contudo, no pensamento há grande identidade. Assim o motiva a intemporalidade do mundo (às avessas).

ADD: entre o consistente e o elevado

       Há uma canção de Sérgio Godinho com o título "Pode alguém ser quem não é?"... cada vez a entendo melhor.

     Ao ler uma grelha de avaliação do desempenho docente (ADD), deparei com uns "designados" descritores / evidências que me causaram alguma perplexidade. Ei-los:

  
    Entendo que as duas formulações cimeiras não servem o propósito para que foram produzidas. Falta-lhes luz, claridade, evidência (isto se entender que um descritor de desempenho - para não ser linguagem de moda - se define por um enunciado sintético, preciso e objectivo, indicando o que se espera que o avaliado seja capaz de fazer, no cruzamento de conhecimentos e competências evidenciados em operações de natureza diferenciada, ao nível do saber-fazer, do saber-ser / estar do saber-aprender / formar-se).
    Ora, entre os sinónimos de "consistente", registam-se: sólido, resistente, firme, estável, válido, seguro, coerente (cf. Dicionário de Língua Portuguesa, da Verbo); no mesmo sentido vai o Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de Cândido de Figueiredo, publicado pela Bertrand Editora). Acrescenta o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (da Academia das Ciências de Lisboa) que é a propriedade do que subsiste ou tem duração; que está bem estruturado, que tem uma base bem fundamentada - no fundo, o significado de duradouro previsto no Dicionário Houaiss. Em fonte mais vulgarizada, como o Dicionário de Língua Portuguesa (Porto Editora), o próprio sentido figurado aponta para algo que é credível, constante, estável. Mesmo ao nível do saber popular e coloquial, toma-se tal adjectivo como sendo aquilo que alimenta, que é substancial.
     Torna-se, portanto, dúbio que, num registo de avaliação de desempenho docente, se aponte um 'descritor / evidência', no ponto da realização das actividades lectivas, que inferioriza o 'consistente' ("o docente evidencia consistente conhecimento científico, pedagógico e didáctico inerente à disciplina / área curricular" - patamar 4) face a 'elevado' ("o docente evidencia elevado conhecimento científico, pedagógico e didáctico inerente à disciplina / área curricular" - patamar 5).
   Novamente a consulta de dicionários (na ordem das fontes atrás consideradas) permite concluir que 'elevado' significa aquilo que tem lugar alto, elevação; que é sublime, nobre (isto até me fez lembrar o Peri Hupsous, esse tratado de Pseudo-Longino, descoberto no século XVI, no qual se procurava abordar as origens, as fontes dessa qualidade inefável que é o sublime - princípio tão clássico na abordagem do fenómeno literário); que é superior moral ou intelectualmente (senti a ascese platónica); que tem intensidade, que subiu e atingiu um alto grau; que é forte, excessivo (disto não gostei, por me parecer barroco), subido (não sei até onde, mas por certo não chego lá).
    Em suma, sempre na procura de algum respeito, rigor no sentido das palavras, bem como no que elas reflectem quando de avaliação se trata, deparo com um terreno instável. Devia ser o contrário, até pela necessidade de a avaliação ter de ser o mais transparente possível, para bem dos avaliados e dos próprios avaliadores que necessitam de uma tarefa menos impressiva e pouco clarificada. Qualquer professor entende isto, até pela obrigação e pelo exemplo a dar aos alunos com quem trabalha e avalia; mais ainda, quando está em causa algo que marca um percurso profissional dos seus pares.
    Assim sendo, é de questionar se a pontualidade de um 'elevado' (que possa ser atingido) pode ser preferido relativamente à sistematicidade, à duração implicada no significado de 'consistente'. Voltando ao caso dos alunos, quantos não terão atingido um resultado 'elevado' sem que tenham sido consistentes em resultados posteriores? Não acontecerá o mesmo com professores e com outros profissionais?
     A bem da verdade, é de considerar que um avaliado aprecie bem mais a observação de que desenvolve um trabalho consistente do que a indicação de que teve um desempenho 'elevado' - é, assim, preterido o patamar 5 em favor do 4. Como profissional consciente, atento, preocupado e interessado em avaliar criteriosamente, seria este último patamar (o 4) que gostaria de atingir, sempre na esperança de que não me associassem a um desempenho elevado, o qual significaria que numa, duas, três aulas poderia atingir tal grau (e, possivelmente, não noutras... porque a máquina - que não sou - também falha e avaria); que poderia ser qualificado, no desempenho, de 'sublime', superior moral ou intelectualmente (será esta a elevação que pretendem?) ou mesmo excessivo (eu não queria nada ser assim). De novo, sem qualquer pretensão para tal (a não ser que me achem merecedor disso, o que me honraria) desde já, preferiria o patamar 4. Este garantir-me-ia, pelo menos, que as qualidades seriam duradouras, constantes, credíveis. E que além dos avaliadores, os meus alunos me achariam merecedor de ensinar alguma coisa de uma forma mais contínua e continuada.
     Face ao exposto, e com nova consulta de dicionário, sublinho que matematicamente se diz que algo é consistente quando se apresenta isento de contradição interna (cf. Dicionário de Língua Portuguesa, da Porto Editora). Não é possível entender isto, face ao arrazoado construído. Quando a aprendizagem e a formação são consistentes apontam para uma qualidade que perpassa e até ultrapassa o tempo (que dizer dos velhinhos mestres que tanto nos ensinaram e que nos legaram um saber que a morte não quebrou?). Isso permite construir referenciais. O mesmo não se dirá de um desempenho elevado por si só.
      Apoiado em traços de significado distintos, em critérios heterogéneos, em parâmetros não uniformes, não é evidente (por mais que o descritor se encontre associado a evidências) por que motivo esta grelha de avaliação pretere o 'consistente' ao 'elevado'.
     Conclusão: diz uma expressão popular que a sabedoria da vida está em suportar coisas sem importância (como é o caso desta avaliação de 'faz de conta', proposta por quem quer definitivamente viver de uma imagem pintada com um verniz que estala: a de que tudo se faz, mas sem consistência alguma, e sob a bandeira de uma pretensa qualidade).

     E logo eu tenho que dizer isto, quando sou a favor da avaliação do desempenho docente. Retomo uma expressão do pensamento deste blogue: "luz de fantasia". Resta-me, decididamente, aspirar a mais do que oferece este mundo.