Mostrar mensagens com a etiqueta Ensino-aprendizagem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ensino-aprendizagem. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Publicação com mais de dez anos

     Retomo-a, por vezes, mas hoje revi-a no Facebook.

   Já lá vão mais de dez anos. No tempo, e em coautoria com quem também dava contributos significativos para a área da educação, esta publicação surgia como conjunto de sugestões orientado para o que eram as "aulas de substituição". Mais do que cem guiões destinados a dar algum sentido a uma dinâmica que também se podia cruzar com as áreas da Formação Cívica, do Estudo Acompanhado ou na complementaridade com atividades letivas.
     Lia-se, na "Introdução", que 

   "Desde o ano lectivo 2005-2006, o tempo escolar transformou-se num dos principais problemas que os professores têm de enfrentar. Todos passam entre 24 e 30 horas semanais na escola. Todos realizam actividades para as quais não tiveram condições de se preparar. Todos (ou quase todos) são obrigados a ocupar os alunos na ausência prevista ou imprevista de um professor. Mas não é só uma maior permanência forçada na escola. É também uma intensificação e complexificação desse tempo. Ser imprevistamente obrigado a ir dar uma aula de substituição a uma turma que não se conhece, de uma disciplina que não se domina; ou mesmo cumprir um plano de aula que um colega deixou no conselho executivo; ou ocupar um grupo mais ou menos numeroso de alunos em diferentes contextos são actividades de enorme pressão psicológica, de grande desgaste, nalguns casos até de grande sofrimento.
       O professor tende hoje a ser tratado como um faz-tudo, a ser obrigado a ensinar, a estimular e a socializar - ao fim e ao cabo as três funções verdadeiramente profissionais. Mas, para além da missão profissional, é empurrado para ser tomador de conta, guardador de crianças e jovens, para fazer o papel de auxiliar da acção educativa, de contínuo, de vigilante e de prefeito. Para fazer face a este problema plurifacetado, as escolas foram procurando e encontrando soluções diversas: a nível da organização escolar (estimulando e organizando permutas docentes dentro do mesmo conselho de turma, à semelhança do que sempre se fez no ensino profissional; distribuindo a turma por vários professores, que trabalham com pequenos grupos em diferentes locais ... ); a nível departamental (organizando um sistema de disponibilização de substituições entre os professores do mesmo departamento, disponibilizando baterias de fichas e actividades por níveis de ensino e por competências-chave); a nível individual (tendo sempre à mão vários planos de aula transversais, passíveis de serem executados em qualquer contexto educativo ).
       Mas qualquer que seja o esquema organizacional, é sempre necessário o recurso a conteúdos e estratégias com intuito pedagógico. A conteúdos que dêem sentido à acção que os alunos e os professores vão realizar. A conteúdos e actividades que possam interessar os alunos e que possam fazer deste difícil tempo de encontro forçado factor de satisfação comum. 
      E é neste contexto que surge este livro-ficheiro. Um banco de recursos da mais variada espécie e natureza, em suporte papel e em suporte digital, que será, estamos certos, um auxiliar valiosíssimo para todas as actividades de substituição.
      Acreditamos que esta publicação vai assim ao encontro de uma necessidade premente. E vai, com a inteligência e a sensibilidade dos professores, ser um instrumento ao serviço das aprendizagens dos alunos e da gratificação profissional.
      São estas as nossas convicções e os nossos votos."

     Trago o texto citado da obra em questão; trago a revisitação do Facebook e do blogue do Professor Matias Alves (um dos coautores) - Terrear.
      Pelo índice da publicação, há atividades para muitos gostos e múltiplas funcionalidades: treino da atenção, abordagem da escrita, escrita criativa, indução e gestão de conflitos, observação e visionamento, narração de histórias maravilhosas para encanto e aprendizagem. Assim se pensava e construía o trabalho para alunos do ensino básico e do secundário - cenários ensaiados, testados, implementados. Experiências práticas efetiva(da)s.
      Parece que querem usar a obra em Timor, aplicando algumas das sugestões / propostas.

    Muitas das ideias permanecem válidas, para uma publicação que, hoje, podia ser intitulada Aulas de implicação e construção de aprendizagens. Obra feita!

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Tempo(s) de muito(s) trabalho(s)

      Fecha-se mais um ciclo formativo.

     Hoje foi tempo para concluir mais uma oficina de formação. O balanço é mais do que positivo quando se veem evidências de trabalho com os alunos, dinâmicas e práticas enformadas pelos pressupostos abordados / focados nesta formação específica.
      Houve demonstrações para todos os gostos: oficinas de escrita como projeto, oficinas de escrita na prática letiva, abordagem da escrita com algumas orientações e processos oficinais na revisão e reescrita,... 


    Foi ótimo ouvir que os alunos gostaram, que se sentiram implicados; que querem repetir a experiência, que avaliaram as práticas das aulas como oportunidade de melhorar, de aperfeiçoar, de consciencializar,...
    Não foi menor a satisfação e o espírito demonstrados, não obstante as dificuldades / os constragimentos, nessas conquistas que aconteceram em aulas de várias escolas, com professores motivados no(s) trabalho(s) desenvolvido(s) e apresentado(s). E, para além de tudo, verificaram-se sentidos de ação colaborativa na planificação, na execução e no acompanhamento, na avaliação produzidos...
      No fim, resultou a partilha, a construção de uma identidade profissional que se define pelos desempenhos atentos aos problemas e orientados para a superação de algumas das múltiplas dificuldades que o processo de ensino-aprendizagem naturalmente implica.

         Passadas trinta horas, ficam o reconhecimento e o agradecimento por a mensagem ter passado das palavras aos atos.
         

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Ando muito oficinal

     Hoje foi dado mais um passo para a formação específica.

     Um grupo de vinte profissionais está para trabalhar comigo na oficina de formação "Da oficina de escrita à escrita com alguma oficina: processualidade e dinâmicas", em curso na Escola Secundária com EB2,3 Manuel Laranjeira e no âmbito do plano de formação do Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis.

Diapositivo de apresentação da oficina de formação

     Em dia de apresentação (do formador, dos formandos, da ação e da avaliação a promover), houve tempo para se falar de algumas representações profissionais acerca do domínio da escrita (constrangimentos, potencialidades, operacionalizações, níveis de desempenho), se contemplar plataformas de competências / domínios (da oralidade / da leitura para a escrita), partilhar algumas experiências, considerar alguns desafios e algumas oportunidades.
    Neste sentido, a oficina de escrita configura-se como um dispositivo estratégico ajustado a um conjunto de princípios orientadores na ativação / aquisição e desenvolvimento de uma competência fulcral para o contexto escolar (e não só), a saber: planificação estratégica e aberta às contingências de ação, processual e sequencial; interação cooperativa / colaborativa, acompanhamento do processo e do produto, explicitação e aplicação de processos / mecanismos, dimensão prática construtiva e formativamente avaliada.
     Muitas das estratégias implicadas nas oficinas de escrita não são exclusivas deste dispositivo. São válidas também para ocorrências / dinâmicas de trabalho mais pontuais na sala de aula, constitutivas de momentos de ensino-aprendizagem focados em objetivos precisos como os de comparação de modelos, de revisão, reescrita e melhoria de textos.
      Assim foi projetado o percurso:
I – Representações profissionais acerca da competência escrita
II – Referenciais pedagógico-didáticos relativos à Escrita
III – A Escrita nos programas de ensino e nas aprendizagens essenciais
IV – Dispositivos estratégicos no domínio da escrita
a)      O caso da oficina de escrita
b)      A escrita com alguma perspetivação oficinal
V – Planificação de uma Oficina de Escrita
a)      nível de ensino / ano de escolaridade
b)      conteúdos programáticos / metas de aprendizagem / aprendizagens essenciais
c)      âmbito da escrita
d)     materiais a utilizar / construir
e)      procedimentos a contemplar
 VI – Implementação da Oficina de Escrita ou da Escrita Oficinal em contexto de sala de aula
VII – Apresentação e avaliação da implementação (vantagens / constrangimentos)
a)      demonstração(ões) / evidência(s)
b)      perspetivação crítica
     A seu tempo (ao final de quinze horas de trabalho presencial, mais quinze de trabalho autónomo), ver-se-ão as implicações e reflexões associadas às práticas / aos materiais / aos procedimentos adotados.

    Uma oportunidade de colaboração, de partilha, de (re)construção de uma identidade profissional. 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Mau... muito mau mesmo!

       Jornalismos...

      A quantificação do plural vale por dois: pelo bom jornalismo que vale por muitos, na seriedade, na responsabilidade e na qualidade de escrita que “agarram" qualquer leitor; pelo que, na falta das virtudes anteriores, cai no erro, no mínimo, e induz quem lê a opinar sobre dados falsos. Em vez de informação, propaga-se a ignorância da fonte, multiplicada pelas vozes que, do assunto, pouco ou nada sabem.
     O furo jornalístico de que Os Maias deixam de ser leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário sai tão “furado" e falso quanto a obra não ter sido tal desde a implementação dos então novos programas de 2010/2011. Agora, na discussão pública das “Aprendizagens Essenciais” para o 11° ano, mantém-se como possibilidade, conforme os programas em vigor desde 2015-16 (leia-se Os Maias ou, sublinhe-se 'ou', A Ilustre Casa de Ramires).
       Perante o absurdo da conclusão jornalística, não será de esperar que tivesse havido leitura do documento nem sequer uma investigação que fundamentasse a posição de muitos professores que optam pela abordagem do primeiro romance face a qualquer outro queirosiano, em termos de lecionação. Também não sei se haveria capacidade para reconhecer que uma obra tão madura e excecionalmente construída por Eça seja uma mais-valia acumulada de sensibilidades estéticas, muito para lá da expressão realista-naturalista a que o autor tem andado associado; uma produção romanesca que tanto retrata criticamente a sociedade da segunda metade do século XIX como reflete comportamentos e percursos de desilusão tão comuns ao século XXI; uma narrativa que ensina mais pelo que dá a ler (no conteúdo e na língua) do que por qualquer análise mais estrutural ou estilística que dela se faça.
       Sendo assim, quase como Eça criticamente o aponta nas primeiras páginas de Uma Campanha Alegre, assumo que, a exemplo de notícias como a identificada, e repetida por congéneres, a imprensa está longe de cumprir o seu papel. Se nos finais de oitocentos, cito, "A imprensa é composta de duas ordens de periódicos: os noticiosos e os políticos", nas primeiras décadas do século XXI persistem as mesmas (talvez acompanhadas por uma terceira ordem, mais desportiva), na generalidade com a inegável falta de qualidade seja de escrita seja de informação. Será este um caso de noticioso (sensacionalismo inútil) ou de político (talvez politiqueiro)? Seja qual for, muito terá a aprender com as raríssimas exceções de jornalismo de qualidade (para as quais, obviamente, estas palavras não são destinadas), por talvez se terem inspirado em Os Maias e/ou, definitivamente, terem descoberto como afastar-se do mau exemplo que o jornal "A Tarde" ou "A Corneta do Diabo" representam. 
     Casos como os destas notícias, divulgando e fomentando conclusões contrárias às "Aprendizagens Essenciais", só podem resultar de jornalistas que ou não leram a obra queirosiana (nem o documento educativo em discussão pública) ou, se o fizeram, não conseguiram ver nela mais do que uma simples história de incesto (nem as implicações educativas que ousaram noticiar). E de língua, nada aprenderam, a ponto de não saberem o significado de um 'ou'. Diria, uma aprendizagem essencial.

       "Alguns jornais contaram este mês, com uma indignação ingénua, que na devota cidade Braga alguns missionários vendiam aos fiéis cartas inéditas da Virgem Maria" (Uma Campanha Alegre - XXXVII, pág. 223) - escreveu Eça. Um jornal contou hoje, entre o espanto e a indignação ingénuos, que Os Maias iam deixar de ser leitura obrigatória no ensino secundário - escrevo eu. Heresias (quando não são mentiras declaradas)!


terça-feira, 15 de maio de 2018

Estratégias eficazes

      A propósito de um artigo que serve para reflexão na formação docente.

     Refiro-me a uma recensão sobre uma vasta literatura acerca do ensino da leitura, da escrita e do cálculo matemático: "Quelles sont les stratégies d'enseignement efficaces favorisant les apprentissages fondamentaux auprès des élèves en difficulté de niveau élémentaire? Résultats d'une méga-analyse". 
     Publicado em 2010, na Revue de Recherche Apliquée Sur l'Apprentissage, vol. 3, artigo 1 (páginas 1 a 35), é o resultado de uma pesquisa e investigação desenvolvidas com base em onze meta-análises editadas na década inicial do século XXI, sobre o tema. Steve Bissonnette, professor do Departamento de Psicoeducação e Psicologia da Universidade do Québec; Mario Richard, professor da Tele-universidade do Québec; Clermont Gauthier, titular da cadeira de investigação no Canadá sobre a formação no ensino, na Universidade de Laval; Carl Bouchard, doutorado em Psicologia  na Universidade de Montréal são nomes com obra sustentada no campo da psicologia, da educação, da psicologia orientados para o estudo da eficácia e acabaram por concentrar um variedade de dados relevante para a análise do contexto educativo do Canadá, em particular, e da América do Norte, em geral (dadas as similitudes atestadas e citadas por relatórios consultados), no encalço de estratégias eficazes para o ensino de matérias essenciais para um grupo-foco (alunos com dificuldades no nível primário).
      Entre as várias conclusões - centradas em métodos de ensino diferenciados (instrução direta, ensino de estratégias, combinação dos dois modelos anteriores, outros), em estratégias ou intervenções diversificadas (ensino explícito de conteúdos, conceitos / procedimentos; ensino recíproco, com estratégias de grupo ou entre pares; percurso de aprendizagem apoiado na autoquestionação, aprendizagem mediada orientada, ensino assistido por computador, comunicação de indicadores específicos de desempenho aos professores e aos alunos; comunicação de informações específicas aos pais sobre informações precisas associadas ao sucesso dos educandos) -, sublinham-se algumas das mais significativas e concordantes, independentemente das três competências visadas:

. o ensino direto e o centrado na autoquestionação são os que se revelam mais eficazes no contexto de ensino-aprendizagem em estudo, mais do que a aprendizagem mediada e guiada;
. o ensino apoiado pelo computador revela-se menos eficaz do que o de tipo presencial;
. as novas abordagens pedagógicas como a aprendizagem guiada não apontam para estratégias de ensino que melhorem o rendimento dos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem;
. o ensino recíproco é moderadamente eficaz, no caso do cálculo matemático, quando se tem em vista a melhoria dos desempenhos dos alunos em dificuldade;
. o ensino explícito favorece a aprendizagem de diferentes componentes implicadas no processo de leitura (estratégias metacognitivas, consciência fonémica, reconhecimento lexical, compreensão de textos, decifração da mensagem), bem como as relacionadas com o processo de escrita (planificação, textualização, revisão e tipologia textual);
. as modalidades pedagógicas que mais influenciam o rendimento dos alunos são o ensino explícito e o ensino recíproco.

      Quando paradoxalmente muitas reformas educativas privilegiam ou apontam para abordagens pedagógicas bem distintas do concluído por estes investigadores, os mais de trezentos trabalhos de investigação levados a cabo num período de dez anos - num contexto de diferenciação e multiculturalidade evidentes -, cruzam-se convergentemente com cerca de quarenta anos de literatura a espelhar um estado de coisas com constâncias muito representativas.


     Retirar-se-ão daqui ilações para as práticas e os desempenhos profissionais docentes, por certo, nomeadamente quando um relatório canadiano publicado em 2001 se posiciona favoravelmente face à universalidade de conclusões: «Les pratiques employées dans les écoles efficaces canadiennes sont semblables à celles répertoriées dans la littérature internationale sur l’efficacité des écoles» (Henchey, N., Dunnigan, M., Gardner, A., Lessard, C., Muhtadi, N., Raham, H. et Violoto, C. (2001 - p. ii) - Schools that make a difference: Final report twelve canadian secondary schools in low-income settings. Kelowna, B.C.: Society for the Advancement of Excellence in Education, (SAee)).
         Sem excluir a posição de que, na educação, para situações excecionais uma resposta excecional pode conduzir para a solução de um problema, não nego que algumas constâncias, regularidades são necessárias, seja para um docente poder agir perante a diversidade com que se depara seja para os próprios alunos poderem integrar-se, socializar-se com conhecimentos e competências reconhecidos como fulcrais pela sociedade. Uma generalização, por certo, não pode resultar daqui: os alunos que não são contemplados pelo estudo focado podem já ter uma estruturação que não requeira modalidades pedagógicas tão diretivas e explícitas.

       Entre "Todos iguais, todos diferentes", cabe ao professor avaliar a situação que terá de ajustar às condições que lhe são facultadas para trabalhar. E estas últimas nem sempre se coadunam com os requisitos que os modelos pedagógicas, os métodos de ensino, as estratégias e as formas de intervenção preconizam.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

De novo a Morfologia

       Ainda a formação de professores de Português.

     São doze profissionais a trabalhar comigo ao longo de quinze horas, começando hoje na Escola EB2,3 de Gondomar, a pedido do Centro de Formação de Escolas Júlio Resende.
      Quase apetece dizer que vou "morfologizar", à semelhança do ocorrido há cerca de dois anos, na Escola Secundária com EB2,3 Dr. Manuel Laranjeira. No início do ano foi mesmo por Valadares, na Escola Secundária Joaquim Ferreira Alves. Como não há duas sem três, chegou a vez de Gondomar:

Diapositivo de apresentação do curso de formação

       Trata-se de um curso de formação que procura contribuir para a aquisição de saberes atualizados, enformados por princípios metodológicos e/ou pedagógico-didáticos; o desenvolvimento de conhecimentos e competências numa rentabilização e/ou problematização do objeto de formação segundo os programas de ensino e documentos referenciais reguladores das práticas; a exploração de competências pedagógicas nos professores de Português, do ensino básico e secundário, de modo a integrar saberes e reflexões promotores de transposições e aplicações didáticas; a sensibilização e tomada de conhecimento - implicada, sustentada e fundamentada - de referenciais de trabalho que assentam em contributos das áreas da Linguística, da Literatura, da Didática e da Organização e Desenvolvimento Curricular; a discussão e a consciencialização de áreas ou pontos críticos no domínio linguístico da Morfologia e na sua interrelação com os programas de ensino, as metas de aprendizagem e o discurso pedagógico-didático.

       Numa área que parece ser fácil, muito há a estudar e a refletir, porque há generalizações e falsas aparências, à espera de uma maior cuidado (no mínimo, um dicionário com informação etimológica e morfológica. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A nova velha... e as mudanças!

     Quando se anuncia a novidade de um documento que enformará a vida da escola,...

      ... é bom que o documento traga algo de novo (de novidade) e não algo de novo (outra vez). 
   Tudo a propósito de uma conferência a que assisti hoje e da divulgação do "Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória" (através do Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho), encarado como referência para as escolas e para a sua organização (bem como de todo o sistema educativo), visando a convergência e a articulação das decisões curriculares com as práticas docentes e as aprendizagens do futuro (próximo).
      Quando a anunciada mudança se compagina com um conjunto de valores e princípios - os do humanismo, da responsabilização, da liberdade e da autonomia, das áreas de competências e de integração de projetos -, poder-se-á perguntar onde reside a novidade. De Dewey aos fundamentos da pedagogia moderna explicitados por Carl Rogers, pode dizer-se que o novo já tem praticamente um século. Muita formação docente (inicial, contínua e continuada) se apoiou nessa abordagem / equação tão propagada, no mínimo (senão antes), desde os anos oitenta do século passado. 
      Que a gestão / organização das escolas deve ser outra para se compatibilizar com esses princípios, não há dúvida - dos espaços, tempos e recursos materiais à perspetivação dos profissionais que nelas trabalham. Mudanças substantivas, não episódicas ou conjunturais, são requeridas na forma como as escolas públicas e os sistemas escolares são concebidos e no modo como são geridos, na consciência de como o público  (jovem e adulto, ou com espírito sempre jovem) que os frequenta irá ter uma palavra a dizer no que deles quer, em termos de integração, partilha, utilização de recursos, colaboração e, nomeadamente, distribuição de poderes. Também isto não é novo, pelo menos na literatura especializada sobre a administração escolar e as estruturas de gestão / participação da vida escolar.
    Talvez passar das palavras aos atos seja o passo que muitos veem como gigante, para os pés ainda sentirem o chão ou para que os voos não se façam desasados. Não pode é entender-se tais posturas de reserva como a recusa do novo (que já não o é) nem justificar-se alguma desconfiança como sinónima da apologia de práticas rotineiras ou do passado, tomadas como gerais, assentes na mera reprodução acrítica, em tecnicismos prolixos ou em disposições não participativas ou não interativas. Como se todos os docentes não fizessem mais do que isto. Muitos dos constrangimentos para a mudança passam por condições que, frequentemente, nem externa nem internamente, são garantidas para que ela aconteça além da letra ou da orientação discursiva. Nem sempre o espírito do texto se compatibiliza com os investimentos (de vária ordem, não só financeiros) que se impõem. Desfasamentos entre as orientações para a ação e a ação propriamente dita sempre os houve e sempre haverá, não sendo um documento ou decreto que os fará desaparecer. Daí que o futuro não se construa apenas pelo que se dá a ler ou a saber.
     A disponibilidade e a motivação para a sua concretização passarão, por certo, pela articulação entre palavras e atos, focando uma maior integração e coerência (vertical e horizontal) dos documentos curriculares, programáticos e organizacionais, nomeadamente na estruturação das aprendizagens a desenvolver ao longo da escolaridade. Daí também a necessária promoção de uma gestão mais articulada e integradora, nomeadamente flexível no que à concretização do currículo diz respeito (contrariando, definitivamente, essa ideia que alguns ainda têm de que todos a fazer o mesmo, ao mesmo tempo e, se possível do mesmo modo faz ensinar / aprender melhor). Neste sentido, a atuação política e a das organizações escolares / educativas serão fulcrais para a orientação e concretização da ação docente, atualmente limitada pelos currícula, pelos programas e metas definidos, pela forma como os espaços e tempos são geridos pelas escolas, pela distribuição de serviço docente e pelo modo de constituir turmas. Não menos importantes são as formas de liderança nas escolas (mais ou menos centralizadoras), a formação docente (tanto a inicial como a contínua) e a construção de equipas educativas mais focadas na colaboração, partilha e conjugação para a construção e consecução de projetos.
     Das implicações apontadas e das orientações preconizadas se faz a mudança pretendida, talvez nova na ação; não tanto nos pressupostos teóricos do texto ou documento em divulgação. Impõe-se a sensibilização para a primeira, com os sinais necessários da ação política e da gestão das escolas, de forma a fazer perceber que ela seja possível, para que não se caia exatamente na posição oposta: a de que a mudança não é (foi) possível nem necessária. Cair-se-ia numa quase reprodução de um discurso que se vai ouvindo e que parece legitimar o que não faz (muito) sentido para lá das palavras:

Excerto do programa televisivo "Melhor do que falecer" (episódio 10), na TVI (2014)

      (Bom seria que o cómico deste sketch fosse um sintoma do ridículo do que é dito; por vezes, creio que se torna mais do que isso, pelo que se ouve de apologia, por vezes, do passado e de um sentido de liberdade em que alguém se [re]vê como não tendo "serventia para ela").

     Com um bom comunicador e um espírito interessante (não obstante algumas generalizações dispensáveis e redutoras), pode dizer-se que o momento da conferência inicial sobre "Biblioteca Escolar / Perfil do aluno do século XXI" permitiu esquecer alguns cansaços acumulados, embora a perspetiva do futuro preconizado não deixe de se revelar, por ora, incerta e nebulosa. A ver vamos se não será canseira a redundar em novo cansaço.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Um julgamento com muito que se lhe diga.

       Depois do apontamento de há dias, a reflexão regressa.

     Desta feita, ela é revista a partir de um vídeo (com tradução em português do Brasil) que me fizeram chegar e que está na linha de alguns dos pressupostos que mencionei nesse apontamento:

Vídeo publicado no Grupo de Mentoria "Humana" 
(projeto de investigação da Escola-de-Redes)

    A parte da valorização do professor é significativa (e aplaudo-a). A de como chegar ao futuro é pouco sustentada, até porque dependente de muitas condicionantes que nem sempre se controlam e/ou anteveem no presente e no contexto de ação escolar. Muito do percurso a cumprir passa por uma cultura de empenho, de esforço, de persistência no trabalho, tão válidos na escola como na vida que existe para lá das paredes e dos muros das escolas. Todavia, são muitas as resistências e as culturas que algumas estruturas sociais educativas (nomeadamente algumas famílias que não convergem com tais valores) optam por contrariar, nomeadamente não ensinando o que é autoridade. Frequentemente é a escola a ter de o fazer, com um reconhecimento que muitas vezes se revela tardio.
    Uma dinâmica interativa, participada e colaborativa contribuirá para um estado de coisas bem distinto do que é julgado. E, por certo, não é sobrecarregando, fazendo mais do mesmo, apostando em inutilidades e "chicoespertismo" que o caminho se faz.
     Entre os aspetos que reconheço (a diferenciação desejada, a visão crítica da organização da escola, a relativização necessária à influência partidária na construção do currículo e de muitas orientações da escola, a adoção de múltiplos dispositivos estratégicos na avaliação, o reconhecimento dos diferentes dons e das múltiplas inteligências) e os que critico (as generalizações, o preconceito do conformismo da escola, a afirmação de imagens de escolas distintas como sendo iguais, a consideração de que nada mudou num século e de que tudo não passa de reprodução do passado, a redução da escola à dominante da costumização e do "costumer", a defesa de modelos de escola transpostos e desajustados dos contextos), fica o registo para memória futura - seja ela lá qual vier a ser. 

      Não se pode ser crítico sem o sustento do saber. Muito do progresso social e muita da evolução dos tempos também passaram e foram conseguidos pelos que andaram na escola. Não é possível fechar um caso que requer uma análise multifocada no(s) objeto(s) e objetivo(s) que o definem.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Lembrança(s)...

     Seja um exercício mental seja um ato ou gesto de dádiva.

     É, por certo, um registo de memória, por dois anos que foram de trabalho, de cumplicidades e de momentos também de convívio que o tempo não apagará. Dizem alguns que foi período de transformação: dos medos provocados nos primeiros dias às experiências comuns dentro e fora da escola; às leituras que foram sendo desveladas; às partilhas de saber, que foram libertando o sentir; às alegrias e ousadias que fizeram dos tampos das secretárias o palco (de evocação cinéfila) para o reconhecimento, para o agradecimento mútuo pelo bem que soubemos fazer (par)a todos.
      É, ainda, depois de um ano afastados, a prova de que algures, no imaginário conjunto, há lugar para as proximidades que a afetividade faz perdurar. O que foi ensinado ficou seguramente matizado pela compreensão e pelo colorido dos sorrisos, muitas vezes surgidos no meio do cansaço, do sono e da vontade de buscar o sol (que as palavras, as frases, os longos parágrafos e as páginas dos livros nem sempre deixavam brilhar). O que se aprendeu, o tempo dirá para que servirá.
   É o sinal repetido da generosidade que sempre existiu, porque também alguém a soube alimentar, para que se tornasse marcante nas pessoas que estes jovens têm sido.
    É a oferta desinteressada de um grupo de alunos que, entusiasticamente, recebeu um professor e o fez sentir brilhante, numa noite e num espaço que o fizeram sentir-se em casa (como se nunca a tivesse deixado).

      Ao 12º 8, meu no 10º e no 11º anos. Mais uma turma especial para o meu currículo dos afetos. Muito obrigado pela companhia, pelos abraços e pela(s) lembrança(s) - também coloridos com o azul das "letras", tão próprio às humanidades, às línguas e literaturas.
     

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Notas, chumbos e o mais que estará para vir

     A nova ou notícia de hoje é a recomendação do Conselho Nacional da Educação sobre os chumbos a evitar.


    Segundo David Justino, antigo Ministro da Educação e atual presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a avaliação baseada nas notas dos exames assume "um efeito de influência" na avaliação dos alunos ao longo do ano, dado que "é necessário evitar". Até aqui, tudo pacífico. Para quem vê as práticas como a exclusiva preparação para os exames é bom que se leia estas palavras; para quem não saiba que as escolas são induzidas, por variadas formas, a comportar-se dessa forma, estas são sementes lançadas a terreno estéril.
     Junto com isto, volta a velha discussão entre as diferenças da avaliação contínua e da avaliação sumativa externa, questão mais do que conhecida, mas a todo o tempo retomada (quando não distorcida). E depois, de novo, as tabelas, as estatísticas, os gráficos e as comparações, numa espécie de agenda subliminar que pelos meses de fevereiro a abril volta à crista de uma onda revista lá pelas marés de setembro-novembro. A par disto, ressoam pelos corredores das escolas discursos (entre outros ruidos que em nada favorecem o clima e o ambiente de estudo e trabalho) a sublinhar o interesse de, cada vez mais, haver quem tudo faça para que as leituras de duas modalidades avaliativas coincidam: são os testes feitos à moda dos exames (muitos dos quais aplicados em 90 minutos, quando seriam de prever 120+30); são as médias de exame discutidas e misturadas com as médias de ano e/ou de períodos; são as práticas reduzidas ao que "interessa para exame" (se sai ou não sai, para não falar nas apostas feitas quanto às certezas do que este venha a contemplar). Tanto esbracejar em areia movediça e tanta discussão para colocar muito e diferenciado assunto num só saco! (Uma estratégia para nada ser feito foi sempre a de fazer divergir a discussão para múltiplos pontos, de modo a que nenhum seja tratado, pela consciência da pequenez humana face à grandeza e à grandiosidade dos problemas).
    Atrofiados por questões de gabinete(s), lá vão os professores (eu) trabalhando o melhor que podem (posso) no meio de tanta poeira e vento lançados à / na escola, numa consciência crescente de que estão (estou) cada vez mais sozinhos (só, mesmo) face a autoridades máximas, organismos centrais que parecem deleitar-se com convicções por vezes tão infundadas na realidade escolar comum concreta quanto assentes em modelos teóricos que tão pouco têm de generalizáveis. Aos que aqui descobriram o filão de ouro respondem outros países - considerados modelo para algumas coisas, outras não - que, tendo já passado pela experiência, já só nela veem o ouro dos tolos, composto de embaraços e impedimentos quer ao estímulo quer ao sucesso.  
    E os alunos lá estão, longe de tudo isto e tão mais do que isto; muito para além dos números e das percentagens, com tanto do que ainda vão dando ou querendo (felicidade, talvez, a minha por ainda os ver assim e ter muitos que assim são, por ainda verem algum sentido naquilo que fazem e naquilo que lhes é dado a fazer); à espera de ter indicações precisas do que fazer; com as interrogações  e as reações e papéis típicos dos adolescentes que os professores (eu) também foram (fui); numa postura entre a convergência e o desafio (quando não é de desautorização, à semelhança do que acontece com outros poderes que o deixaram de ser, por terem perdido os meios de o ser) à autoridade que têm à frente.
     Leio nos escaparates, nas primeiras páginas, nos títulos, nas citações (admito que descontextualizadas) que a «'Cultura da nota' desvaloriza processos que promovem aprendizagem». Nem sei que pense: a frase tanto dá para a má nota - que rotula, que estigmatiza, que inviabiliza a possibilidade ou a motivação para participar noutra oportunidade - como para a melhor de todas elas - nem sempre a refletir o rigor e a exigência (ou o mérito e a excelência) tantas vezes aflorada - porque literalmente feita apenas de "flores" superficiais e não apoiada ou alicerçada na "terra" - em situações, formações, alternativas, certificações apressadas, discursos de sucesso educativo (como se este fosse apenas um, particularmente o da aprovação e o do diploma conseguidos de qualquer modo). Depois o fim dos "chumbos", das "retenções", das "reprovações", das "não aprovações" são designações que também podem significar a banalização, a indiferenciação, a falta de necessidade e de brio para se ultrapassar falhas, dificuldades, disfunções, desafios que nem só o tempo ajuda a resolver. Um autêntico "laissez faire laissez passer", educando para uma vida em que só ilusoriamente não há constrangimentos, entraves, dificuldades, adversidades - muitos deles a motivar um real e reconhecido esforço, a superação, sem que tenha de chegar necessariamente à transcendência.
       Tempos de caricatura, tão próximos da realidade:


     A novidade não é nenhuma - é uma nova velhíssima e grotesca. A preocupação é mesmo a do dinheiro, a do custo que representa a retenção (numa versão mais material e culpabilizadora) ou a do investimento que uma formação alternativa possa representar (noutra versão, politicamente mais correta). A pessoa, o aluno - na sua individualidade, singularidade - é uma outra perspetiva. Só que esta fica nas mãos do docente que terá outros tantos para encarar, numa heterogeneidade e diversidade (quando não de inconsistente inclusão) muito além de qualquer percentagem que alguém quererá atingir na massa anónima mais internacional(izada) possível.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Em modo de formação...

      Dia de encontro formativo para falar de... oralidade.

     O encontro resultou de um convite para dinamizar uma sessão de formação sobre a oralidade, o papel deste domínio nas aulas de línguas e a algumas formas de a(tua)ção para o seu ensino e a sua avaliação.
      Assim, desloquei-me até à Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa do Varzim. A imponência do edifício faz-se sentir, a do nome referencial da cultura e literatura oitocentista também. A impressão foi francamente positiva, num edifício que não sofreu intervenção da Parque Escolar E. P. E.; que tem aspeto para dar e durar (contrariamente às que foram objeto de remodelação e/ou reconstrução); que deixa transparecer uma organização, um clima profissional e uma atenção à formação dignos de apontamento, até pela iniciativa desenvolvida (em termos tanto de departamento como de divulgação junto de outros docentes de escolas circundantes).

Imagem da fachada da Escola Secundária Eça de Queirós (no diploma de participação / dinamização da ação)

    Ao longo de duas horas, procurei cumprir o que anunciei como a articulação de um domínio ao serviço de outros saberes, explorando pontes que, sem descon-siderar especifici-dades do oral, contribuem para práticas de ensino-aprendizagem mais integradas (para que não se encare este último como algo mais a trabalhar e ao qual ora se resiste, pela inevitável argumentação da falta de tempo, ora se toma como menos indispensável face às exigências dominantemente escritas nas avaliações interna e externa).
    Na sequência de outras experiências formativas, de reflexões partilhadas com vários docentes, não deixaram de ser facultados materiais e instrumentos que põem em relevo a necessária atitude analítica, avaliativa das realizações fa-cultadas; a cons-trução de critérios e indicadores de de-sempenho na orien-tação dos processos de ensino-aprendizagem; a consideração de que o oral admite áreas de convergência com o escrito, de modo a que as oportunidades de trabalho criadas perspetivem ambos os domínios como as duas faces de uma mesma moeda que é a língua.
   Ainda que o encontro formativo tenha sido reduzido e pontual no tempo dispensado, fica a expectativa de que ele venha a multiplicar-se nas reflexões e nas orientações capazes de enformar futuras opções práticas. 

      Depois de ter dinamizado uma experiência com vinte horas de formação sobre este mesmo tema, senti-me, neste par de horas, como que a meter o Rossio numa betesga; ainda assim, pode ser que esta última fique sempre mais povoada com os rumores da praça.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

"Branca Flor a mim basta basta"

      Assim se repetiram as palavras ouvidas de um pequeno grande livro da literatura infanto-juvenil.

     No Centro de Recursos-Biblioteca da Escola Secundária de Gondomar, os alunos do 8º ano turma 2 tiveram a oportunidade de ouvir, na voz da própria Clementina Sousa, a história de Branca Flor. Um momento de partilha - com a magia da palavra (f)alada - é sempre uma oportunidade para encantamento e imaginário feitos de fantasia e melodia.
    Entre provas, pedras negras, viagens, duelos, fugas e reencontros, um caminho para a salvação e felicidade é conquistado pela personagem Manuel - um jovem que, ao conhecer Branca Flor, constrói a sua própria vida numa possibilidade de realização pessoal e afetiva.
       Bem diziam os clássicos "Palavras, leva-as o vento" - não pelo sentido de fugacidade e volatilidade que hoje se atribui à expressão, mas pela qualidade e pelo prazer que a oralidade introduz nesse fluir fónico, nessa modulação de âmbito oratório e retórico trazida pelas horas do conto.
     Refere a escritora, na introdução ao livro produzido (algures também numa prateleira da biblioteca), que aprendeu esta narrativa da boca de Diamantino, moço de profissão que dedicava a hora do descanso e almoço a contar histórias. O mesmo viria a fazer Clementina aos seus alunos, enquanto professora; ainda o faz junto de jovens e de todos aqueles que, já não o sendo na idade, se deixam levar pelo melhor que o espírito dessa juventude ainda lhes dá.

 Clementina Sousa enquanto contava Branca Flor, a alunos e a professores  (Foto VO)

     Ora entregues ao registo de alguns pormenores da história ora rendidos ao fantástico que o conto anuncia e desvela, para os alunos envolvidos na atividade não houve tempo senão o que, sem data e sem hora, culminou numa espécie de mil e uma noites vividas no final de uma manhã, também com flores e a doçura do reconhecido e grato encontro.

Alunos e professores à escuta da Branca Flor, na voz de Clementina Sousa (Foto VO)

      Exemplares, sorridentes e à espera da resolução da história, os ouvintes não deixaram de fazer ouvir a sua voz, no final, colocando o dedo no ar ora para fazer algumas perguntas mais ora para deslindar alguns passos de uma narrativa recuperada desse cavalo do pensamento (em que Manuel e Branca Flor também galoparam), para memória de todos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Do cão que não fala e da luz que falta por dentro

     Entre Vieira e Santos Guerra, há sempre espaço para se refletir sobre o papel do professor.
       
    No Coração da Escola (2003) é título para o professor de Organização e Desenvolvimento Curricular Miguel Santos Guerra citar uma história que muito faz refletir sobre as relações do ensino-aprendizagem e das vantagens que uma plataforma interrelacional dos polos comunicativo-educativos oriente o que o autismo de cada um deles, exclusivamente em si mesmos, nunca permitirá. Reza então a história citada o seguinte:
  
     Num congresso internacional sobre a linguagem, um famoso linguista americano disse em plena conferência que, com o recurso às novas teorias de ensino das línguas, havia ensinado o próprio cão a falar. Pelo auditório ouviu-se um intenso burburinho, mas o conferencista insistiu:
    - Sim, ensinei o meu cão a falar. Tenho-o ali fora, posso mostrar-vos. 
     Fez então um sinal para que lhe trouxessem o animal.
    A agitação na sala cresceu quando viram o cachorro sobre a mesa de conferência. Dezenas de flashes dispararam e audiência esperava então pela demonstração da eficácia do ensino.
    Passou um minuto, dois minutos … e o cão agitava-se inquieto sem se ouvir qualquer sinal de fala.
    A audiência lançou o olhar para o conferencista, num ar de censura e este, então, disse:
    - Bem, eu ensinar, ensinei. Ele é que não aprendeu.

     Uns séculos antes (quatro, mais precisamente), nos seus Sermões, Padre António Vieira já havia também produzido reflexão na mesma ordem de ideias, salientando, contudo, a importância de orientar e criar as condições favoráveis à aprendizagem - esta, aliás, era grande preocupação jesuítica no processo de evangelização, também muito focada na eficácia do ensino. Atualmente, nos circuitos de processamento da informação construídos entre quem ensina e quem aprende, muito se tem falado das teorias de receção e de input, mais as de ativação e (re)produção pautadas pelo ensejo e desejo do output. E quando muito se discute entre os desfasamentos ou desníveis que elas revelam (ou a falta de linearidade ou correspondência direta e imediata entre ambas), importa centrar a reflexão na noção de intake. Interessa abordar esse ponto intermédio, de apropriação, integração e interestruturação das aprendizagens pretendidas. Neste sentido é que o ato de compreender adquire sustentabilidade cognitiva significativa, implicação na aprendizagem - afastando-se, portanto, do que é a mera produção imitativa, sem grande ou nenhum sentido.
       Muito disto pode ser revisto no pensamento de Vieira:
Imagem alusiva a Santo António, pregando aos peixes
     “O Mestre na Cadeira diz para todos; mas não ensina a todos. Diz para todos porque todos ouvem; mas não ensina a todos, porque uns aprendem e outros não. E qual é a razão desta diversidade se o Mestre é o mesmo e a doutrina a mesma? Porque para aprender não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro. Se a luz de dentro é muita, aprende-se muito; se pouca, pouca; se nenhuma, nada.” 

     Hans G. Furth, numa obra de 1981 intitulada Piaget and Knowledge. Theoretical foundations (Chicago/London, The University of Chicago Press, p. 232) e cujo registo original data de 1969 (Prentice-Hall, Universidade de Michigan), aponta para o facto de a compreensão ser "much more than to transmit outside information. To understand means to restructure the situation and transform a given problem in terms of one's internal equilibrated structure". Assim, tanto a exposição como a externalização de um dado não significam necessariamente a sua aprendizagem; representam, antes, uma condição mais ou menos neutra de contacto com esse dado, o qual requer uma outra etapa, estrategicamente preparada, de modo a se tornar conhecimento, aprendizagem significativa e sustentada.
     Richard Schmidt, por exemplo, no artigo "The Role of Consciousness in Second Language Learning" (publicado na revista Applied Linguistics, vol. 11, nº 2, Oxford University Press, 1990, pp. 129-158), depois de se referir à controversa questão da consciência / inconsciência na aprendizagem das línguas, reconhece na primeira as vantagens de conjugação de fatores como a atenção, a memória a curto prazo, controlo e automatismo, processamento em série e com paralelismo analógico. Estão aqui pontos fulcrais para qualquer aprendizagem, linguística ou não (como se nesta última não estivesse também a primeira).
       Falar de intake focaliza a questão dos efeitos do input, o instante em que os dados são integrados na base da memória (mais ou menos temporária) do aprendente, a ponto de a educação a que se encontra exposto se moldar à sua própria aprendizagem.

      Talvez não fosse mau que alguns responsáveis da educação revisitassem a literatura clássica, concluindo que respostas rápidas, imediatas e económicas não são as que alicerçam esse "entender por dentro", para não dizer que nem sempre a "luz" se encontra "ligada" (ou que frequentemente se encontra "fundida").

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Exames: o que estará para vir...

     Depois da correção da segunda fase, e comparando com a primeira, não prevejo alterações substanciais nos resultados de exame de 12º ano.

     Não posso dizer que tenha atribuído resultados substancialmente diferentes. De novo, a média ficou-se pela negativa nas cerca de quarenta provas que me foram destinadas.
     A melhor classificação esteve acima dos resultados atingidos na primeira fase, mas o contrário também foi verdade: resultado inferior para a pior nota.
     No enunciado constava, no grupo I-A, um excerto do canto VII de Os Lusíadas (numa das invocações que o poeta formula ao longo da epopeia). Trata-se de um conteúdo recorrentemente selecionado nas provas de exame dos últimos anos letivos. Não obstante tal frequência, há muita relatividade a considerar na familiarização com a obra e o escritor implicados: primeiro, porque do 9º ano (quando os alunos abordaram, com alguma sistematicidade, a epopeia camoniana) até ao 12º há um hiato temporal coincidente com a ausência programática do épico quinhentista, apenas retomado no final do secundário e numa perspetiva (a do plano do poeta) distinta da anterior e dominantemente focalizada (a dos plano da viagem, da mitologia e da História de Portugal); segundo, por a cosmovisão e as linhas contextuais de produção da obra serem fraca ou dificilmente reconhecidas pela contemporaneidade de vivências dos alunos; terceiro, por o léxico do excerto / da obra não ser convenientemente descodificado, para mal das linhas interpretativas solicitadas para o discurso lido (basta pensar na dificuldade que grande parte das respostas revelava no entendimento da "fúria" camoniana, tão distante da força e da intensidade da criação poética).
     A representatividade distintiva das orientações programáticas, em termos das obras de leitura integral, é assegurada no grupo I-B, convocando-se uma produção escrita compositiva restrita / limitada para a abordagem de uma das personagens de Felizmente Há Luar! - dado que, por ora, apontaria como melhor conseguido do que na prova da primeira fase (com cem pontos do exame centrados na heteronímia pessoana).
     Os restantes grupos - II (leitura e conhecimento explícito) e III (composição escrita extensa) - estão na linha do expectável, do habitualmente avaliado em exames.
    O balanço geral negativo justifica-se pelo exposto a propósito do grupo I-A, a par do que possa ser apontado como a ditadura do transcrito, do superficial e do literal, a ponto de quem resolve a prova não evidenciar inferências a partir do que é lido. Estando aqui parte do problema (a título concetual), não menos relevante é a deficiente produção escrita, com penalização sistemática nos aspetos formais (estruturação discursiva, correção gramatical). A maior parte das cotações atribuídas é conseguida por uma componente de conteúdo que quase nunca atinge a totalidade prevista e que é, por sua vez, acompanhada do (quase) vazio da forma de expressão.
     Persistem, nesta última e de modo acentuado, fragilidades ao nível:
a) da excessiva extensão / composição da frase (imensas linhas para um só período, ampliado ao ponto de se conectar tópicos sucessivos com um recorrente 'e' e/ou a familiar vírgula);
b) da indiferenciação de estruturas de coordenação e de subordinação e, neste último caso, do irreconhecimento do que seja subordinante face ao que é subordinado (muitas vezes com a ausência do primeiro);
c) da ausência de pontuação forte (para segmentar sequências completas de sentido);
d) da inequívoca má utilização de vírgula (presente nos casos em que nunca deverá acontecer);
e) da utilização repetitiva de palavras, numa evidente falta de léxico sinonímico ou de falha no recurso de processos anafóricos (sejam gramaticais sejam lexicais);
f) da falta de concordância (no número e no género), tanto em casos comuns como em cenários de construção problemática;
g) da inconsciência ortográfica associada à utilização distintiva da acentuação ou às questões de homofonia;
h) da indeterminação na utilização de maiúsculas / minúsculas.
     Em síntese, o ato de escrever aparece numa aproximação / identificação completa com o de falar, numa oralidade mal produzida / constuída, na base do discurso familiarmente comum e irrefletido; na fala produzida aquando da construção fluida e fluente do pensamento, transposta para o papel sem receber o tratamento refletido e reflexivo ou a formalização requerida a um modo mediado, sujeito a distanciamento e a recontextualização.

    Fica, assim, o registo do balanço de uma experiência (a da correção de exames) por certo à espera de dias melhores e melhores resultados.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Avaliação: sentidos, oportunidades e práticas

     A convite de uma colega e de uma instituição de ensino privado, a avaliação foi motivo e objeto para um encontro de formação profissional.

     Durante duas manhãs, num total de seis horas, o tema para uma formação de professores (de vários grupos disciplinares) vai orientar-se para questões de avaliação. Começando hoje e terminando amanhã, cerca de vinte docentes do Colégio Dom Dinis (Porto) irão trabalhar comigo numa temática focada ora em desempenhos associados à recolha de informações necessárias à tomada de decisões ora numa das dimensões fulcrais do processo educativo (nos seus mais diversos níveis de análise).
      Com o título "Avaliação: sentidos, oportunidades e práticas", tratar-se-á de  refletir sobre o papel da avaliação enquanto fase fundamental do desenvolvimento curricular; exigência social relacionada com desempenhos institucionais, docentes e discentes; construção de pontos de referência; abordagem sistémica e processual; forma de estruturar o ensino-aprendizagem (ao nível mínimo, essencial e de mestria); práticas e testagens focadas na norma / em critérios; domínio reflexivo dominantemente formativo e alternativo, no que às práticas docentes mais exigentes, diversificadas, interativas e atentas à diferenciação diz respeito.
       Nesta formação, parte-se com a perspetivação dos seguintes objetivos:


        Visa-se a abordagem dos seguintes conteúdos:


    E, para começo de trabalho, nada como partir das representações docentes relativamente ao que é entendido por avaliação, num jogo de papéis mais abrangente e situando a reflexão em termos de avaliadores e avaliados - o que permitirá sempre partir de questões como "Quem avalia?", "O que é avaliado?" e "Quem é avaliado?"
    Depois, será bom antever o que se quer ver tratado neste encontro formativo - entre as palavras / expressões que se associa ou se nega, não se deixa de refletir sobre o(s) sentido(s) que a avaliação tem para cada profissional.
  Independentemente dos que aqui forem encontrados, outros haverá, por certo, segundo os níveis de análise associados às organizações educativas; a rede de conceitos dos esquemas, das estratégias e dos expedientes; a lógica das orientações para a ação e a das a(tua)ções propriamente ditas. Destas últimas e da contextualização específica e contingencial que as marca, há espaço suficiente para o que a modalidade de avaliação formativa alternativa admite - globalmente, na conceção do que seja uma avaliação para ou focada na aprendizagem; especificamente, na abordagem avaliativa orientada para dinâmicas e formações não regulares e/ou implicadas na diferenciação.

     Mais do que encarar o tema como domínio problemático ou crítico, é o sentido de instrumento para o desenvolvimento pessoal, interpessoal e organizacional que se procurará relevar nesta formação, preocupada em dar resposta a um desafio: toma a avaliação como oportunidade de regulação, monitorização do ensino e da aprendizagem em práticas pedagógicas de natureza interativa e a todo o tempo adaptadas ou adaptáveis.
      

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Exame de Língua Portuguesa - 3º Ciclo

      Depois da primeira impressão de ontem, as certezas de hoje. Quem está a ser avaliado na prova de Língua Portuguesa de 3º Ciclo?

    Mal me confrontei com a prova de exame do 9º ano de Língua Portuguesa (da primeira fase), dei imediatamente a minha avaliação: tratava-se de um exemplar de resolução difícil, pela adoção de um texto poético fortemente metafórico, pela seleção de casos críticos (diria muito críticos) e pela complexidade de processamento exigida para os exemplos e exercícios do conhecimento explícito. A tudo isto acresce a proposta de produção escrita extensa (pela maturidade informacional que se requer na fundamentação e pela tipologia textual muito próxima de estratégias discursivas típicas de textos argumentativos).
    Presentemente a corrigir provas de Português de 12º ano, questiono-me mesmo quanto ao grau de complexidade de ambos os enunciados. Acho que preferia ter alunos de 9º ano a produzir um texto de opinião sobre o eixo temático sugerido no secundário (por ser mais acessível, claro e com progressão subtemática simples e linear, em termos de tratamento e desenvoltura informacional); daria dissertação mais consistente e problematizadora a produção apoiada na linha temática do terceiro ciclo (pela ambivalência proposta nas posições a defender e na síntese a construir).
    É já do conhecimento público que a Associação de Professores de Português (APP) se posicionou criticamente quanto à prova de exame em questão, mostrando perplexidade face às questões de gramática propostas (por o grau de exigência ser “mais elevado” do que o pedido no exame de 12.º ano); estranhando o excerto selecionado para a parte A do I grupo (por conter vários estrangeirismos); tomando o poema escolhido para a parte B - "Mar", de Miguel Torga - como exemplo textual com “um carácter metafórico elevado”; encarando a parte C como não apresentando informação suficiente sobre o episódio, a propósito do qual os alunos têm de produzir um texto restrito.
    Pela leitura feita da prova e pela tentativa de resolução que adiantei, não antecipo grande problema quanto à parte A, ainda que se requeira alguma concentração na leitura do texto e/ou no cumprimento de algumas instruções (como seja a de selecionar, contra as expectativas mais comuns, a única afirmação falsa).
     A parte B, de leitura e interpretação literária, apoia-se num poema de Miguel Torga, cuja complexidade se baseia essencialmente na associação de duas áreas conceptuais: a do mar e a do campo, transferindo de uma para outra propriedades similares, metaforicamente identificáveis. Até aqui nada de questionável, ainda que haja associações a convocar conhecimentos de mundo e/ou enciclopédicos que desconfio seriamente que alguns alunos tenham, para me situar numa representação média (não de excelência) dos estudantes do 3º Ciclo. Já a questão oito, na relação intertextual proposta com os dois versos finais de "Mar Português" (de Fernando Pessoa), satura definitivamente a complexidade exigida, a ponto de se induzir a associação 'céu' - sedução / atração / encantamento numa isotopia que considero algo inconsistente com o próprio poema pessoano (mais consentâneo com os tópicos da glorificação, do reconhecimento do esforço, da heroicização humana).
     Da C, refira-se a dificuldade de concentrar em 70-120 palavras, e num texto tripartidamente estruturado, sete tópicos relativos a uma experiência de leitura que se pretende transposta para uma exposição escrita, na qual se deverão abordar referências não só ao episódio contemplado mas também a conhecimentos intratextuais de Os Lusíadas (nomeadamente a Proposição, para não adiantar mesmo a caracterização do herói numa dimensão profética, não ajustada aos episódios programaticamente definidos para trabalhar no 9º ano).
        A nível do conhecimento gramatical, os exercícios 3, 4 e 6 apontam para resoluções de processamento complexo; de aspetos gramaticais de natureza assistemática e com elevado fator crítico para grande parte dos falantes da língua. Em 3, está em questão o reconhecimento do tempo e do modo verbal solicitado, além de uma evidente relação sintática com o processo de concordância a manter com os pronomes relativos 'quem' e 'que' (para não me referir ao domínio ortográfico implicado). Em 4, ativa-se um processo de pronominalização pouco habitual na utilização corrente da língua: mais associado a paradigmas sistemáticos de terminação verbal, o caso da prova envereda por conhecimentos ligados a uma sequencialização pronominal (a habitual referência à queda de '-r', '-s' ou '-z' finais nos verbos, quando acompanhados dos pronomes pessoais '-lo/-la/-los/-las' na forma de complemento direto, é preterida face ao que acontece com formas pronominais de complemento indireto, quando estas últimas terminam em'-s', e são seguidas dos alomorfes já mencionados). Em 6, pretende-se a transcrição de uma subordinada relativa (não restritiva) em posicionamento medial e integrada numa frase triplamente complexa (ainda mais intrincada no processamento, pela existência de dois 'que' completamente distintos). Tudo exemplos para evidenciar o necessário e sistemático trabalho do conhecimento explícito que interessa desenvolver, de modo a impedir  qualquer resposta que possa resultar de uma abordagem mais intuitiva e/ou induzida pelo contexto dos enunciados.
       Por fim, o grupo III, sob a etiqueta de 'texto de opinião', mais não é do que uma produção escrita cuja desenvoltura necessária ao escrevente passa por uma estruturação textual que requer gestão e sustentação informacional consistentes, competências lógicas de natureza argumentativa (com posicionamentos ambivalentes quanto ao tema) com estratégias discursivas muito diversificadas: entre sequências justificativas, concessivas, argumentativas e contra-argumentativas evidentes; com componentes típicas de raciocínio e progressão organizadas segundo uma tese, uma antítese e a construção de uma síntese final. Ou seja, um cenário interessante de construção de uma dissertação típica de 12º ano, não de produção textual para 9º ano (a não ser que se tenha como referência apenas turmas de qualidade).
       Como balanço final, registo o natural desequilíbrio na construção da prova, a complexidade assumida nas instruções e nas competências produtivas ativadas, bem como nos exemplos propostos para análise em termos gramaticais.

        Como popularmente se diz, por estas e por outras antevejo o regresso à onda dos maus resultados nas provas de Português / Língua Portuguesa. Nada que possa espantar e por motivo consabido (não por causa dos professores corretores nem necessariamente pelos alunos, com certeza). Mais um caso em que deve ser assumida a claríssima distinção entre o que é, por um lado, a avaliação contínua e a avaliação sumativa interna e, por outro, a avaliação sumativa externa (feita em gabinete, no abstrato e com base em referenciais que não se moldam aos contextos nem ao público a que são destinados). É esta a prova para a grande consideração que o Ministério da Educação revela por todos os alunos. A resposta à questão inicial é, portanto, a seguinte: que seja avaliado quem elaborou esta prova, não quem a resolveu ou a corrigiu.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Já não há nobreza como antigamente!

      Por estas e por outras é que convém fazer o molho em casa.

  Quem vai à procura de certos produtos, no supermercado, e depara com erros como o da direita devia reclamar; dizer que o produto tem defeito ou que está impróprio para consumo. 
    Nem a forma de tratamento, típica da nobreza, salva a situação (para o 'dom', há um 'com' muito pouco nobre ou grato aos olhos de quem lê o slogan publicitário).
  O molho até pode ser português, mas é COM CERTEZA de má qualidade no português.
    Destinado a uma francesinha, chega a ser imperdoável que esta venha a ser regada com líquido tão mal anunciado / escrito.
   Se 'sem certeza' é expressão, por que motivo 'com certeza' não o é?
   Também por já ter encontrado este mesmo erro em produções dos alunos acabei por o introduzir numa das interações que passo a reproduzir:

"- André, importas-te de ir pedir o comando do projetor à senhora funcionária?
 - Com certeza, professor.
 - Tudo junto ou separado?

 - Como?! Ah!... Tudo junto.
 - Não, André! Separado!"

   O autor do rótulo para o "dom molho" precisava de uma interação oral destas para se consciencializar da escrita e não incorrer em erro tão escusado.

   O que um professor tem de fazer para os levar a aprender...

terça-feira, 12 de março de 2013

Fumo cinzento

      Em dia de primeira votação para a eleição de um novo Papa, foi dinamizada uma ação de formação sobre avaliação externa. Se para a primeira houve fumo negro, na segunda a coisa ficou pelo cinzento.

       A velha questão entre o que é o plano de orientação para ação e a ação propriamente dita é a visão díptica que Licínio Lima desenha para explicar o que é o funcionamento da organização escolar a diferentes níveis de análise (entre o mais centralizador e o mais contingencial), onde algumas infidelidades normativas não deixam de ter lugar.
       No âmbito da avaliação docente, pode concretizar-se esse funcionamento díptico: entre o espírito da letra de um normativo e a sua concretização, interpõem-se representações, esquemas de ação, concetualizações tão variáveis quanto redutores à medida que se pretende operacionalizar um mecanismo avaliativo que não pode esquecer os participantes nele implicados (sob pena de tornar retórico e vão tudo o que sejam enquadramentos, preâmbulos, orientações genéricas para a avaliação).
       Isso mesmo pôde ser constatado ao longo de um dia de trabalho que procurou orientar para uma reflexão da avaliação docente, segundo um discurso, uma atitude, uma processualidade e uma metodologia assentes em tudo o que são pressupostos supervisivos (pré-observação, observação, pós-observação; dimensão pré-ativa, ativa e pós-ativa; contacto prévio, planificação de aula, execução, reflexão e análise). Entrecortava-se esta visão com ressalvas que comprometiam, de alguma forma, esta orientação inicial: ora constatando uma dimensão quase inspetiva dos avaliadores externos ora admitindo possibilidades que um exercício de sensatez, compromisso e equilíbrio no desenvolvimento profissional não pode evitar.
       Na discussão do que é distintivo entre supervisão e avaliação docente, evitavam-se frequentemente as relações que podem e devem ser mantidas entre os processos de construção da profissionalidade docente e a supervisão. Este é um desafio a perspetivar, tendo como referência as mais recentes contribuições investigativas e o horizonte das novas tarefas de âmbito supervisivo, nomeadamente a que diz respeito à avaliação do desempenho docente.
      Ainda que a saliência da avaliação externa configure uma vertente que culmina num peso significativo da modalidade sumativa na avaliação, este aspeto não colide com uma componente formativa necessária ao objetivo do desenvolvimento pessoal, profissional e organizacional docente. Assim se exploram oportunidades de ação, intervenção, orientação focadas nas práticas e na observação de aulas, nas quais a supervisão ocorre ainda que de uma forma mais restrita (comparativamente a uma avaliação interna, por exemplo).
     Melhor do que eu o possa dizer, cito Isabel Alarcão e Maria do Céu Roldão, na obra Supervisão. Um contexto de desenvolvimento profissional dos professores (2ªed., Edições Pedago, 2010, pág. 19):

      “No caso dos professores que se encontram já em contexto de trabalho, esta supervisão [a dos estudantes / futuros professores em situação de estágio], a que poderíamos chamar vertical, dá (ou devia dar) lugar à supervisão interpares, colaborativa, horizontal, que, aliás, deve acompanhar, e acompanha muitas vezes, a supervisão vertical. Nenhuma delas exclui a importância da auto-supervisão, de natureza intrapessoal. As novas tendências supervisivas apontam para uma concepção democrática de supervisão e estratégias que valorizam a reflexão, a aprendizagem em colaboração, o desenvolvimento de mecanismos de auto-supervisão e auto-aprendizagem, a capacidade de gerar, gerir e partilhar o conhecimento, a assunção da escola como comunidade reflexiva e aprendente, capaz de criar para todos os que nela trabalham (incluindo os que nela estagiam) condições de desenvolvimento e de aprendizagem"

     Antevejo aqui um desafio para a supervisão na avaliação do desempenho docente, a julgar que o princípio do desenvolvimento profissional não é retórico; que a avaliação entre pares faz sentido numa perspetiva eminentemente cooperativa, colaborativa, intersubjetiva; que os valores de participação democrática e compromissiva são mais convergentes e orientados para desempenhos integrados, integrantes e integrativos.

      No que haverá a construir para a claridade em todo este processo, seria bom que as oportunidades de desenvolvimento não se perdessem em favor de uma lógica fechada, voltada para produtos acabados em que a excelência se construísse apenas na base do que é apriorístico, tecnicista, exclusivamente racional e de uma pretensa objetividade. Naquelas creio haver um reconhecimento de a(tua)ção mais alargado do que nesta. Porque a escola é uma organização feita por pessoas e para pessoas que se "formam".

segunda-feira, 4 de março de 2013

Supervisão - em autorreflexão

    Devem ser reflexos ainda da formação vivida - era bom poder ver "sobre" muita coisa.

    Hoje uma colega dizia-me, ao entrar numa sala que bem conhece e com uma turma que também lhe é mais do que familiar, "Olha que lindos que eles agora estão!"
    Concluí de imediato que antes não deviam ter estado assim. E percebi-o bem, porque momentos há comigo em que também não estão "lindos". Não é que sejam feios (porque não o são), mas às vezes precisam de um controlo que tira qualquer professor do sério: conversam paralelamente, depositam energias no que não interessa, riem-se por tudo e por nada, comentam o que não foi pedido, pedem para se repetir o que nem há um minuto foi indicado, dizem ao contrário aquilo que ainda está registado e visível no quadro...
     Hoje, contudo, o tema da conversa era a designação dos meses e de como já tinha havido só dez meses, num outro calendário, tudo começando em março. Descobriram que dezembro vinha de dez; novembro, de nove; outubro, de oito; setembro, de sete... Depois quiseram saber de janeiro (e lá veio Jano), mais dos restantes meses (uns com nomes de deuses; outros de imperadores). 
     E vieram os dias da semana, e perguntaram de onde vinha o sábado e o domingo, e depois não percebiam como é que eu sabia aquilo tudo ("Oh! Não vês que o professor já leu a Bíblia toda!"... É preciso ser crente! E não reparar que já me está a chamar velho!)...
     Ainda que não tivesse sido matéria planificada para a sessão de hoje, a conversa foi cultural o suficiente para ser interrompida quando todos estavam em escuta sossegada.

    À despedida, a colega pedia-me a solução para o sossego e eu respondia "Também eu a queria!" (pensando naquelas outras aulas tão desassossegadas). Olhando para trás, nem sempre foram eles a perguntar ou a pedir informação; nem sempre tudo dizia diretamente respeito à vida comum de qualquer humano; nem sempre pude dar tempo e/ou espaço a uma dimensão que a língua também tem (a da sua história e cultura). Chegará isto para justificar a diferença?