domingo, 30 de novembro de 2014

No dia da morte...


   Nesse dia (corria o ano de 1935), por certo a morte chegou cedo ("Pois breve é toda a vida"), para citar algumas das palavras do autor da Geração de Orpheu.
    Antes do momento final, houve ainda tempo para escrever sobre ela:




       Por mim, continuo a preferir outra imagem:


Montagem da pintura de Xico Fran com um excerto da obra pessoana
 
     No caminho feito, chegou a curva. A pergunta mantém-se à espera de resposta. Prefiro fazer as malas, para a viagem.

sábado, 29 de novembro de 2014

Exemplos...

    O que é verdadeiramente triste é saber que alguns animais dão o exemplo.

    Lamentavelmente, são poucos os humanos que seguem o testemunho dado por estes dois:

Colhido do Facebook e da página KQ105

   A prova de que os mais pequenos e os menos fortes são os que mais frequentemente se mostram solidários (e sem receio de o fazerem ou de se magoarem!) está à vista.
   Pode sempre problematizar-se se o maior e o mais forte não está apenas a aproveitar-se de uma situação que facilmente poderia ver resolvida. Todavia, isso só abona em favor da tese de que realmente este último não faz (ou não quer) fazer nenhum; ou de que a ave é verdadeira ou ingenuamente altruísta. Talvez por isso consiga "voar mais alto".
    O pensamento é demasiado generalista, eu sei. Resulta dalguma descrença no que se passa neste mundo, por certo neste país, com os maiores e mais fortes a quererem que os menos fortes e mais pequenos sejam pequeninos... mínimos... nada.

     Fica a esperança de que o canino descubra a melhor forma de agradecer ao columbiforme. Quanto aos humanos, era bem melhor que fizessem jus ao nome que têm.
     

domingo, 23 de novembro de 2014

Podia ser 'beautiful', mas é 'let me be'

      Portuguesinha, sim. E portuense.

     Há quem diga que se trata da Alicia Keys portuguesa, nessa mania de que as grandes vozes são estrangeiras. Depois de muito se ter dedicado à dança e de ter participado como vocalista no grupo musical 'Mesa', ouve-se aí pela rádio, numa experiência a solo. 
      A canção "Let me be" é o single de apresentação do álbum 'Love' (depois de 'Start Stop'), o segundo trabalho lançado, por setembro, com o nome Mónica Ferraz:


       LET ME BE

I’m out of place, I’m out of time
I’m out of love, I’m out of rhymes
I’m out of pain, I dried my eyes
You were my partner in crime

Could it be I’m out of my mind
To leave it all behind
Just like the river flows
Tonight anything goes

Beautiful, you’re beautiful
Oh you, you’re beautiful
Tell me what you see
When you look at me
That is all I need
Just let me be
Just let me be

Some other time, some other place
I’ll put a smile upon your face
And we’ll be walking at the same pace
But could it be I’m out of my mind
To leave it all behind
Just like the river flows
Tonight anything goes

     A progressão do piano para orquestração e a sonoridade final a lembrar jazz não ficam nada mal, não senhor. É "beautiful"! Caso para dizer que deixem a rapariga brilhar, que ela merece.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Em tempo de "Folhas Caídas"

      É verdade que estamos em pleno outono...

    A polissemia da expressão "Folhas Caídas" pode ser explorada na evocação desta estação; na desorganização de registos em papéis dispersos (espalhados pelo chão); na metáfora e no anúncio do ciclo final de uma vida. De tudo isto se compõe o título da coletânea poética de Almeida Garrett, enquanto obra associada à expressão outoniça, serôdia do sentimento e vivência românticos.

Uma outra forma de ler Folhas Caídas, de Garrett, segundo a (cerc)ARTE

     Perante um "Ignoto Deo" (poema de abertura) a funcionar como prólogo de toda a compilação, prenuncia-se a temática de uma idealidade, de um misticismo e um pendor religioso a todo o tempo pautados pela referência a termos maiusculizados (Deus, Nada, Beleza, Verdade, Essência, Existência > Ignoto Deo), sugerindo a dimensão abstrata, ideal, perfeita. 
    Contrariamente a esta linha, há que considerar a menção à beleza, ao amor e ao prazer (minúsculos e com a adjetivação "real beleza", "puro amor"), a par da referência a um ser marcado por um "espírito agitado", que "Só vive do eterno ardor", a "olho nu", a enganar e a errar. Estes são conceitos-chave para traduzir uma experiência relacional do 'eu' com um 'tu', em tudo semelhante à vivência homem-mulher. Assim, a noção de um amor eterno, moral e idealmente equacionado dá lugar a uma realidade e experiência mais terrenas do que celestiais, naquilo que se resume como uma "combatida / Existência".
    Em síntese, encontra-se aqui a trajetória, o percurso do herói romântico: dramaticamente dilacerado pelos conflitos e pelas oposições entre o céu / a terra, a idealização / a realidade, o tu / o eu, o encontro / a despedida. Ao encontrar um amor, o sujeito romântico vivencia e alimenta a instabilidade, o desequilíbrio que colocam o sentimento na iminência de uma despedida ("Adeus"). Esta é a ironia romântica revista em poemas construídos com a narratividade própria de um "eu" que experiencia situações e sentimentos feitos de estados antitéticos (sonho / ausência de amor; realidade / presença do amor, acompanhados de dor). Leia-se "Quando eu sonhava", "Aquela noite" e "Anjo Caído" - três poemas feitos de uma narratividade que mostra o sujeito poético nessa condição conflituante.
    Surge, então, o ciclo dramático de toda uma sequência de outras composições líricas que sublinham a contínua inquietação do "eu", a mover-se no terreno da contradição, da tensão e da constante procura. E porque no percurso feito há perigo e sedução, fica essa nota com o poema e a canção:


     BARCA BELA

Pescador da barca bela, 
Onde vás pescar com ela? 
      Que é tão bela, 
      Ó pescador!

Não vês que a última estrela 
No céu nublado se vela? 
      Colhe a vela, 
      Ó pescador! 

Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela... 
      Mas cautela, 
      Ó pescador! 

Não se enrede a rede nela, 
Que perdido é remo e vela, 
      Só de vê-la, 
      Ó pescador!

Pescador da barca bela, 
Inda é tempo, foge dela 
      Foge dela 
      Ó pescador!

      Depois da composição romântica, a evocação da memória e da experiência de leitura com as cantigas de amigo é inevitável, numa aproximação ao cenário das barcarolas ou marinhas, à estrutura de refrão e ao gosto romântico pelo imaginário medieval.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Confusão nos dentes... e ficar pelos cabelos.

        Já não basta haver quem confunda fio dental com fio dentário?!

    Ter o adjetivo 'dental' e 'dentário' na língua portuguesa já não é uma questão de moda: para não criar confusões, deixemos o primeiro para os fios que certas peças de roupa íntima sugerem (de tão finas que são, escondem-se entre algumas partes do corpo) e o segundo para tudo o que seja respeitante ao tratamento médico da dentição. Por mais que os dicionários ainda apontem 'dental' nos usos de 'higiene dental', a moda acabou por marcar a diferença, recuperando-se o étimo latino 'dentarius' para o contexto da medicina, do estudo ou do tratamento dos dentes. Daí a clínica dentária, a medicina dentária, a cárie dentária, a erupção dentária, a placa dentária. 
    Chegados ao fio dentário, resolvamos um problema na publicidade que grassa por aí nos supermercados da nossa praça, onde parece existir produtos muito originais e alternativos:


      Isto de criar um creme... pasta... dental!!! A não ser 'dentário' que seja 'dentífrico'. Melhor seria por certo, dado tratar-se ora do nome ora do adjetivo relativo aos produtos destinados à limpeza e ao tratamento dos dentes. Neste sentido, talvez também não fosse mau falar no 'fio dentífrico' ou na 'fita dentífrica' - mais sílabas, mas etimológico também.

       Todavia, isto de ter nos dentes uma proteção anticaspa será uma situação demasiado criativa (digo eu)! Talvez ainda venhamos a ter de tratar da cárie nos fios de cabelo. Santa paciência!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ontem foi dia "interestelar"

      Mais um filme para abordar a questão apocalíptica da terra...

      Este é o assunto de apresentação para "Interstellar", filme de Christopher Nolan, que encontrou no cenário da ficção científica e no contexto apocalíptico do planeta terra (dominada por pragas, nuvens de poeira, doenças, fugas de habitantes) mais um pretexto para ir em busca da esperança; construir a base de uma crença humana capaz de se afirmar além do material visível; compor um hino à vida e à(s) possibilidade(s) ilimitada(s) do(s) saber(es) e do(s) afeto(s).
     Numa história de amor, de família - onde os laços mais estáveis dos sentimentos permitem ir além do tempo e do espaço alcançados pela nossa consciência -, os limites, por mais que estes existam, nunca são um fim em si. Constroem-se pontes entre o perigo e a salvação; um planeta devastado e uma estação (Cooper), construída à imagem e semelhança do paraíso que ele podia ter sido; a distância e a proximidade; a crença e a realidade.


    Na força da crença e da potencialidade que pode evitar a extinção da Humanidade, bem como na busca de um mundo onde a vida possa ter continuidade, um engenheiro viúvo (Cooper, interpretado por Matthew McConaughey) vive o difícil dilema de participar numa viagem perigosa (de retorno mais do que duvidoso) ou de permanecer junto dos dois filhos.
   A inevitabilidade do fim é um desafio, com fortes motivações para que este último possa ser superado.
     Vai no mesmo sentido o poema do escritor galês Dylan Thomas: "Odeia, odeia a luz que começa a morrer". Citado pelo professor John Brand (interpretado por Michael Caine), um físico da NASA, fica o convite para se viver com intensidade, na crença que permite esgotar as possibilidades e encontrar respostas para o projeto de uma vida (no caso, a resolução do mistério último da gravidade, viabilizador dessa esperança de salvar a Humanidade de uma iminente ameaça).
    Os testemunhos que abrem o filme permitem, pela técnica de flashback, constatar os problemas que existiram; o final sugere a possibilidade de vida numa outra dimensão, mesmo que esta possa estar ao alcance do conhecimento de uma estante - a que separa um pai de uma filha, mas que pode resultar no elo de ligação que um relógio (também) pode criar: o do tempo feito de afetos.
   À medida que ia vendo o filme, ia-me lembrando de A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos, e dos diálogos entre a personagem Tomás de Noronha e o pai deste; ou das interações criadas com uma mulher iraniana. Em ambos havia explicações para as grandes teorias científicas do tempos contemporâneos - como a Teoria da Relatividade Restrita de Einstein, que assume uma ligação entre o espaço e o tempo encarados como relativos; a Teoria da Relatividade Geral, que resolve as questões da gravidade e estabelece o espaço como sendo curvado, encarando que a massa dos objetos distorce o espaço e o tempo; a Teoria do Tudo, unificadora de abordagens e entendimentos acerca das forças da natureza, inspirada também na Teoria Quântica, apostada na reconstrução dessas forças e dos movimentos associados a partículas invisíveis aos olhos comuns; a Teoria do Caos, enquanto modelo matemático evidenciador de como pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar, numa espécie de progressiva onda, alterações substanciais nas condições finais - num efeito equiparado ao bater de asas da borboleta que provoca a imprevisibilidade num ponto mais distante.
       Muitos saberes, muita inteligência à espera de que a vida lhes dê oportunidade de vingar, para a construção de uma maior consciência de tudo. E na continuidade das gerações está a possibilidade de se progredir.

     Ver a vida não como um fim em si mesmo, mas como o meio para permitir aproximações, acessos a outras formas de desenvolvimento de inteligência e consciência é um sentido de leitura para uma existência que possa manter continuidade com a seguinte, numa espécie de cadeia ininterrupta que ganha maior sentido pela energia emotiva e afetiva que a una. Neste sentido, a vida é "interestelar".

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

E já que estamos na formação de palavras...

     Isto nem sempre é como as marés - há aquelas que dão para tratar sempre do mesmo assunto.

     Desta feita é uma questão de relevo, tanto no interesse como no assunto em causa.

     Q: No manual com que estou a trabalhar no oitavo ano, aparece 'montanha' como exemplo de palavra derivada por sufixação. Está certo? Existe o sufixo 'anha'?

    R: Cara colega, não aconselho que siga esse exemplo nem a resposta da autoria do manual. Basta consultar um dicionário para atestar esta minha posição.
    Na verdade, a palavra montanha já entrou no léxico português (à semelhança de 'alugar', 'beleza',  'encarnado', '(im)possibilidade', 'prematuro') formada na própria língua latina. tendo ocorrido apenas evolução fonética.
      Assim, 'montanha' vem da forma latina 'montanea' (feminino de 'montaneus'), que evoluiu para o português através de um processo comum de palatalização do [ni] em [η].

    Caso para dizer que 'quem muito alto sobe' muito corre o risco de, a todo o tempo, cair. Lamentável para quem ainda confia nessa ideia vendida por alguns de que manuais "certificados" contêm a "verdade da ciência". Enfim! Antes se caminhasse pela ou junto à montanha e a qualidade (de vida) seria bem melhor.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Gerúndio...forma não finita?

       A questão é levantada por um colega interessado em distinguir formas finitas de não finitas.

      Tudo por causa de formas verbais e sua implicação nas orações.

     Q: Não consigo perceber por que razão o infinitivo é uma forma não finita. Consigo conjugá-lo. O gerúndio tem mais razão de ser para uma forma não finita. Se puderes, esclarece-me. Obrigado.

    R: Ainda que, classicamente e na gramática tradicional, o infinitivo (a par do gerúndio e do particípio passado) seja considerado uma forma verbal sem conjugação, efetivamente há um infinitivo flexionado em termos da categoria pessoa (infinitivo pessoal - ex.: 'para eu fazer > tu fazeres > ele fazer > nós fazermos > vós fazerdes > eles fazerem). Esta flexão não se compagina, contudo, com a possibilidade de a forma verbal infinitiva ser exclusiva numa frase simples nem se projetar numa conjugação em termos de tempo  (contrariamente às formas finitas do indicativo, conjuntivo, condicional, imperativo).
       Em termos de realização padronizada da língua, é verdade que o gerúndio é mais limitativo neste aspeto (e, por isso, a maior aceitação enquanto forma não finita).  Contudo, também já se encontram estudadas algumas realizações de conjugação pessoal do gerúndio em variedades do português do Brasil e mesmo do europeu (no sul de Portugal). É o caso de enunciados como “Em querendos isso, trabalha” ou “Em comendem a sopa, podes pensar na sobremesa”, com uma espécie de flexão evidenciada na segunda pessoa do singular e na terceira do plural, numa aproximação a expressões gerundivas como "Em acabando o dinheiro, não se compra mais nada" (sinónima de "Quando acabar o dinheiro, não se compra mais nada") adaptadas à pessoa em causa ("Em tendos dinheiro..." ou "Quando tiveres…"; "Em tendem dinheiro..." ou "Quando tiverem...").

       Não sendo uma construção da norma padrão, estas realizações estão aí tanto na boca do falante comum quanto na de utilizadores instruídos e cultos, nem que seja numa adequação ou adaptação ao discurso de pares convivas, no dia-a-dia. Ainda assim, a projeção da flexão fica-se  pela pessoa; não pelo tempo. Daí o gerúndio ser uma forma não finita.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Formar palavras em português... e não só.

     Nem de propósito, a questão surge prematuramente face ao calendário.

    Diz-se que o dia dos prematuros celebra-se a 17 de novembro. Falta menos de uma semana, mas a dúvida instala-se e não é, por certo, por ocorrer antes do tempo.
   Em contexto de sala de aula, a palavra em estudo é 'prematuramente' e quer saber-se qual o processo de formação a ela associado. A orientação vai no sentido de ser uma derivada por sufixação, até que alguém insiste que também vê lá o prefixo 'pre' e, assim, quer ver o cenário da derivação por prefixação e sufixação.
  Não sendo incompreensível a situação e compreendendo o interesse do raciocínio revelado, não pode ser dada razão a quem não a tem e por vários motivos:
. primeiro, a palavra que dá origem a 'prematuramente' é 'prematuro' e não 'maturo', pelo que é o termo do meio que se constitui como a base derivacional, à qual se acrescenta o sufixo 'mente';
. segundo, a consideração do prefixo faria sentido quando se quisesse abordar a formação de 'prematuro' (a partir de 'maturo', base a que se acrescentaria o prefixo 'pre');
. terceiro, o reconhecimento da origem latina do termo 'prematuro' (praemātūrus, praemātūrum) permite afirmar que, a haver alguma formação prefixada, esta aconteceu no próprio latim, não no português.
. quarto, qualquer dicionário com informação etimológica e descrição morfológica dará conta da construção 'prematuro + mente'.
    Se 'prematuro' pode ser lido como o que não está maduro, é de registar ainda a própria presença do som [t] na palavra em estudo, uma pequena pista da origem de tudo (mais um dado comprovativo da origem latina do português), na qual já aparecia incorporado o prefixo (que, a sê-lo, só pode ser entendido na formação da palavra no próprio latim).

      Assim, fiquemo-nos pela derivação por sufixação recorrentemente presente no português para a  formação de advérbios a partir de adjetivos (deadjetivais).

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

No caso de alguém querer...

     Há quem circule pela cidade a oferecer abraços gratuitamente. Houve já quem oferecesse beijos.

      Aqui ficam uns em verso. São mais poéticos!


                               BEIJOS

«Beijar!» linda palavra!… Um verbo regular
Que é muito irregular
Nos tempos e nos modos…


Conheço tanto beijo e tão dif’rentes todos!…


Um beijo pode ser amor ou amizade
                        Ou mera cortesia.
E muita vez até, dizê-lo é crueldade,
                       É só hipocrisia.

O doce beijo de mãe
É o mais nobre dos beijos,
Não é beijo de desejos,
Valor maior ele tem:
É o beijo cuja fragrância
Nos faz secar na infância
Muita lágrima… feliz;
Na vida esse beijo puro
É o refúgio seguro
Onde é feliz o infeliz.

Entre as damas o beijo é praxe estab’lecida,
Cumprimento banal – ridículos da vida:


(Imitando o encontro de 2 senhoras na rua)


– Como passou, está bem? (Um beijo.) O seu marido?
(Mais beijos.) – De saúde. E o seu, Dona Mafalda?
– Agora menos mal. Faz um calor que escalda,
Não acha? – Ai Jesus! Que tempo aborrecido!…


Beijos dados assim, já um poeta o disse,
Beijos perdidos são.


(Perder beijos! que tolice!
Porque é que a mim os não dão?)


O osculum pacis dos cardeais
É outro beijo de civ’lidade;
Beijos paternos ou fraternais
São castos beijos, só amizade.
As flores também se beijam
Em beijos incandescidos,
Muito embora se não vejam
Os ternos beijos das flores.
Há outros beijos perdidos:
Aqui mesmo,
Há aqueles que os atores
Dão a esmo,
Dão a esmo e a granel…
Porque lhes marca o papel.


– Mas o beijo d’amor?


Sossegue o espectador,
Não fica no tinteiro;
Guardei-o para o fim por ser o «verdadeiro».
Com ele agora arremeto
E como é o principal,
Vai apanhar um soneto
Magistral:


Um beijo d’amor é delicioso instante
Que vale muito mais do que um milhão de vidas,
É bálsamo que sara as mais cruéis feridas,
É turbilhão de fogo, é espasmo delirante!


Não é um beijo puro. É beijo estonteante,
Pecado que abre o céu às almas doloridas.
Ah! Como é bom pecar co’as bocas confundidas
Num desejo brutal da carne palpitante!


Os lábios sensuais duma mulher amada
Dão vida e dão calor. É vida desgraçada
A do feliz que nunca um beijo neles deu;


É vida venturosa a vida de tortura
Daquele que co’a boca unida à boca impura
Da sua amante qu’rida, amou, penou, morreu.


(Pausa – Mudando de tom)

'O Beijo', de Gustav Klimt (1907-1908)
Desejava terminar
A beijar a minha amada,
Mas como não tenho amada,
(A uma espectadora)
Vossência é que vai pagar…
Não se zangue. A sua face
Consinta que eu vá beijar…

……………………. 

(atira-lhe um beijo)

Um beijo pede-se e dá-se,
Não vale a pena corar…


                                                       in Poesia - Mário de Sá-Carneiro
                                                            organização de Fernando Paixão,
                                                            São Paulo, Editora Iluminuras, 2001

      Por aqui me fico, não sem lembrar esse saber popular que diz que "À honra dos santos se beijam as pedras".

      E para os menos "santos", deixo a versão mais secular e profana: "À boca que se beijou nunca mal se desejou".

sábado, 8 de novembro de 2014

A passiva a fazer-me ativo...

      Depois de um apontamento a uma falsa passiva (sem hipótese de reconstituição da frase ativa), regresso à ação da escrita.

      Os passeios de "Carruagem" dão nisto - com a vantagem de não haver cobrança de bilhete.

      Q: Olá, Vítor,
       Estive a “passear” pela tua “Carruagem 23” e, quando li a tua explicação para aquela situação (absurda, na minha opinião) do complemento agente da passiva, em 'Estive apaixonado por ela […]', lembrei-me de algo que me aconteceu há uns dias. Quando resolvia uma atividade do vosso Com Textos, do 10º ano, aquando da análise de uns excertos de regulamentos (pp. 62-63), dei como exemplo de um enunciado marcado pela construção da voz passiva o seguinte: “O nome do visitante fica registado (…)”. Na verdade, o verbo auxiliar não é o ‘ser’; no entanto, creio que, neste caso, a realização é semelhante. Que te parece? Quando puderes, esclarece-me, por favor.
        Obrigada.

      R: Olá.
        A questão da diátese ou voz passiva apresenta, em português, diferentes formas configurativas, com orações de diferentes tipos.
      A mais comum ou típica é precisamente a que diz respeito a orações passivas verbais, que apresentam o verbo auxiliar 'ser' seguido de um particípio passado (correspondente ao verbo pleno da frase ativa), acompanhados ou não do complemento agente da passiva - daí o contraste de orações passivas longas e curtas, respetivamente.
       As orações passivas que recorrem ao verbo 'ficar' são as que descrevem uma situação consequente / resultante da mudança de estado, de lugar ou de posse (orações resultativas), como as abaixo escritas:

i) O correio entregou a encomenda > A encomenda foi entregue (pelo correio) > A encomenda ficou entregue.
ii) O meliante fere a vítima > A vítima é ferida (pelo meliante) > A vítima fica ferida.
iii) O autor escreverá o livro > O livro será escrito (pelo autor) > O livro ficará escrito.

    É no âmbito destas últimas (iii) que o enunciado "O nome do visitante fica registado" pode ser perspetivado como marcado pela construção da voz passiva (resultativa), geralmente sem a realização do complemento agente da passiva. Trata-se de uma versão oracional e aspetualmente convergente com as construções passívas típicas (as configuradas com o verbo auxiliar 'ser': 'O nome do visitante é registado' < 'O visitante regista o próprio nome' OU 'Alguém regista o nome do visitante'), sendo estas últimas recuperáveis em termos da aplicação geral das regras de transformação passiva / ativa. Abordaria cenários destes, por exemplo, quando focasse diferenciações aspetuais na construção de enunciados passivos.

                       Configurações da passiva em Português
  Ainda assim, e particularmente ao nível do ensino básico (o contexto que me motivou no apontamento citado), creio que devem ser tratados os casos mais típicos, generalizáveis no que aos exercícios de transformação ativa / passiva diz respeito. No ensino secundário, faz sentido que progressivamente se equacionem outras formas de construção, nomeadamente as passivas resultativas (com o auxiliar 'ficar') e as passivas pronominais (do tipo 'Discute-se o orçamento em todo o sítio' < 'O orçamento é discutido em todo o sítio).
                     
      E depois da ação, volto à condição de passivo (menos cansativo ou, por certo, permitindo despromover, colocar em segundo plano temático, ocultar os agentes da ação). Até porque hoje é domingo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Uma questão de 'ques'

      Com palavras tão elogiosas, como é possível não dar andamento à "Carruagem"?

      De regresso aos "que", com muito que se lhes diga.

      Q: Boa tarde, Vítor.
       Em primeiro lugar, começo por lhe pedir desculpa por, mais uma vez, o incomodar, mas a página Carruagem 23 é, de facto, um dos locais que prefiro para tirar dúvidas e aprender. 
          E as dúvidas de hoje são as seguintes:
        Gostaria que me confirmasse qual a classe de palavras a que pertence o "que" nas seguintes frases: "Se no tempo de Fernando Pessoa houvesse Facebook, então é que a arca nunca mais acabava." e "O especialista, se quiser, que continue a buscar as suas interpretações". Pronome relativo nas duas? Na segunda frase, parece-me, mas na primeira estou com muitas dúvidas.
       Já agora, e ainda em relação à última frase, como dividir e classificar as orações? Penso que "se quiser" é subordinada adverbial condicional e podemos considerar "O especialista que continue a buscar as suas interpretações" subordinante.
      Devemos ainda dividi-la em "O especialista que continue" subordinante e "a buscar as suas interpretações" substantiva completiva? " dado que a podemos substituir por "O especialista que continue isso". 
        Grata pela atenção, assim como pelo verdadeiro serviço público prestado à língua portuguesa.

     R: Boa tarde, colega.
          Primeiro de tudo, muito obrigado pelas suas palavras e pela confiança. Fico muito satisfeito por saber que esta "carruagem" tem público no seu andamento e que, pelos vistos, aprecia as "viagens" realizadas.
          Quanto à classificação dos 'que' indicados, registo o seguinte:

i) "Se no tempo de Fernando Pessoa houvesse Facebook, então é que a arca nunca mais acabava"
                                                                      Partícula de foco / operador de construção clivada

ii) "O especialista, se quiser, que continue a buscar as suas interpretações"
                                                                                     Conjunção completiva

      Em ii), a colocação dos elementos da frase na que seria a ordem canónica ( > que o especialista continue a buscar as suas interpretações, se quiser) permite verificar a presença de uma oração superordenada ('que o especialista continue a buscar as suas interpretações') com uma forma verbal no conjuntivo (continue), com valor seja diretivo seja optativo. Por sua vez, esta oração tem por base uma outra pressuposta / subentendida. Assim, é de admitir uma construção plena do tipo '[Peço / Permito / Espero / Desejo / Pretendo / Tenciono / Quero] que o especialista continue a buscar as suas interpretações'; daí o entendimento do 'que' enquanto conjunção subordinativa completiva ou integrante, introdutora de um argumento interno (complemento direto) ao núcleo verbal sugerido no sublinhado.


        Em i), 'que' integra um segmento locucional ('é que') responsável pelo realce / destaque atribuído à oração consequente a uma condição inicialmente criada. A construção 'é que' (enquanto unidade) proporciona uma funcionalidade discursiva própria, específica ao 'que', tomado como um operador do que os estudos linguísticos designam estruturas ou construções clivadas. Atendendo ao exemplo em concreto, 'é que' funciona como apresentador de uma oração (segunda), enfatizando o seu conteúdo na sequência da condição (contrafactual) pressuposta e na base de um raciocínio também pressuposto ( < [a coleção de documentos d]a arca nunca mais acaba). Em suma, a classificação deste 'que' situa-se mais no plano de análise discursivo-textual, da gramática de texto, do que no da tradicional gramática da frase. Daí não o equacionar enquanto pronome relativo.
     Quanto à divisão e classificação oracional na segunda frase, "se quiser" constitui uma subordinada adverbial condicional de uma frase matriz configurada por um núcleo verbal principal elidido (um dos acima propostos, no esquema, à esquerda). A este último sucede um complemento direto ('que o especialista continue a buscar as suas interpretações'); por sua vez, e a um outro nível de análise, na subordinada completiva terá de considerar-se (internamente) a existência de um sujeito subordinado (o especialista) para um predicado subordinado ('continue a buscar as suas interpretações') com um verbo ('continue') e uma oração não finita infinitiva como complemento direto.

       Na complexidade dos 'que' propostos e da análise oracional solicitada, fica o registo de que nem tudo o que parece é e, no que toca aos exemplos considerados, o ser tem razões muito além das frases que se podem ler.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Tanta paixão e tão pouca razão!

     A questão de hoje é tão preocupante como ser o cenário de uma resposta que nunca podia ser dado.

     Q: Professor, diga-me, por favor qual é a função sintática de "por ela" em "Estive apaixonado por ela durante vários anos". É complemento agente de passiva? Na correção do teste foi essa a resposta, mas não percebo porquê.

      R: Meu caro, por ingrata que seja a minha posição face a quem deu essa resposta, tenho que apontar que houve seguramente um engano. Os tempos são de cansaço, de desgaste e qualquer humano erra. Com mais tempo e maior reflexão, terá que ser revista e retificada essa mesma "correção".
          Primeiro de tudo, a frase apresentada não é passiva, para poder contemplar um complemento agente da passiva.
        Segundo, as passivas têm tipicamente o verbo auxiliar 'ser' - que não comparece no enunciado proposto -, e não 'estar' (que, no caso, nem auxiliar é).
         Terceiro, a recomposição da suposta ativa, a partir da (errada) passiva, não é possível, conforme se pode depreender pela colocação do suposto (e errado) complemento agente da passiva em sujeito (o que daria a impossível construção "????Ela apaixonou-se...."). Além disso, esta sequência não daria lugar à existência de um complemento direto (ativo) que pudesse ser transformado no sujeito da passiva.
          Para fechar o raciocínio, há que assumir, na frase indicada, um sujeito subentendido (Eu) para um predicado ("Estive apaixonado por ela durante vários anos"); dentro do predicado, existe um verbo copulativo ("Estive"), mais um predicativo do sujeito ("apaixonado por ela") e um modificador do grupo verbal ("durante vários anos"). Acontece que o predicativo do sujeito aparece configurado por um núcleo adjetival ("apaixonado") seguido de um complemento desse mesmo núcleo ("por ela"). Portanto, este último segmento é um complemento do adjetivo, função sintática interna (de nível dependente) ao próprio predicativo do sujeito.

        E por aqui ficamos, para que o sentimento não tolde a razão e impeça de ver o que uma reflexão mais atenta sobre a língua revelará. Há que ter muito cuidado com a seleção dos exemplos a fornecer aos estudantes, para que estes mesmos percebam (por reflexão) o que se lhes ensina. Impõe-se, portanto, a revisão da resposta facultada - é preferível isso a persistir no erro.

domingo, 2 de novembro de 2014

Primeiro estranha-se...

     ... depois entranha-se.

     O pensamento até pode ter sido pessoano para o anúncio publicitário da Coca-Cola em Portugal; a questão, contudo, é bem mais atual e tem a ver com a receção da canção "True Love" dos Coldplay.
    Ouvido o 'Ghost Stories' (o sexto álbum de estúdio do grupo, lançado no mês de maio deste ano) e os 'hits' que já daí saíram ('Magic' e 'A Sky Full of Stars'), sempre colhi o 'True Love' como grande música, à espera de sucesso. Reconheço que, às primeiras audições, havia algo de estranho no solo da guitarra; hoje, adoro-o. O mesmo para toda a canção, que sempre me soou verdadeiramente à Coldplay e com a intervenção crítica / pedagógica das grandes melodias do grupo:


        TRUE LOVE

For a second I was in control 
I had it once I lost it though 
And all along the fire below 
would rise

And I wish you could have let me know
What's really going on below 
I've lost you now, you let me go 
But one last time 

Tell me you love me 
If you don't then lie 
Oh lie to me 

Remember once upon a time 
When I was yours and you were blind 
A fire would sparkle in your eyes 
And mine 

So tell me you love me 
If you don't then lie 
Oh lie to me 

Just tell me you love me 
If you don't then lie 
Oh lie to me 

If you don't then lie 
Oh lie to me 

Call it true, call it true love 
Call it true, call it true love 

      De novo, uma mensagem de fundo, significativa: ser diferente não impede a felicidade, desde que se mantenha a esperança, o espírito do encontro, de quem se aceite e possa partilhar o que há ou tem de melhor. Há tanta ficção na realidade quanto o real poder ser possível (mesmo que entre o real e o possível tenha de se dar espaço a alguma ficção, também presente na mentira: "then lie / Oh lie to me").

       Na música o insólito, a aparente diferença resultam, como se no desarmónico e estridente grito não deixasse de haver a harmónica e melódica sintonia.