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quinta-feira, 7 de março de 2019

O empréstimo e o imposto (ou vice-versa)

      Assim que revejo a minissérie Os Maias, de João Botelho (2014), lembro o presente.

     Talvez fosse de lembrar o passado. Porém, este tem características tão comuns com o presente que das duas uma: ou Eça era um visionário (antecipando no século XIX os vindouros) ou a realidade atual não consegue escapar ao que o outrora já ditou. E um pouco das duas também não é hipótese a descurar:

Excerto do 'Hotel Central' na minissérie Os Maias
de João Botelho (2014)

     Entre o empréstimo e o imposto se constrói a conversa ficcionada do Hotel Central, onde Cohen (político) é um dos mascarados e ridicularizados queirosianos; entre um e outro tem ainda e factualmente vivido muito português (se não for de dizer todo um país). Talvez desde sempre e por certo a continuar. É o que se me afigura pensar quando ouço um ministro dizer que o empréstimo feito por um banco da nossa praça não será pago com um cêntimo dos contribuintes; que serão os juros e dividendos da banca a fazê-lo daqui a trinta anos, também graças a um fundo de resolução bancária que mais parece um remédio milagreiro capaz de multiplicar milhões.
    Não sei se cá estarei para o ver nessa altura, mas creio que, muito antes, haverá um novo imposto ou uma outra forma sinónima de "contribuir" para este empréstimo bancário. Não dá para acreditar nas certezas ou afirmações de alguns governantes, quando o (des)governo se evidencia, por exemplo, no apagamento de tempo na carreira de profissionais (refiro-me, claro, a nove anos, quatro meses e dois dias - no mínimo; ao tempo de serviço docente que, por ter existido, não se quer ver como tal, a pretexto de uma dádiva de dois anos, nove meses e dezoito dias ou sob o argumento de que outros congelaram o que, agora, os "benfeitores" repõem, em versão compacta).
     O descrédito na palavra e nos atos é uma evidência presente, quanto mais no que venha a suceder daqui a três décadas (talvez não pelos mesmos, mas por outros afins na cor política ou na falta da verdade que, manifesta e retoricamente, é manipulada em detrimento de quem efetivamente trabalha e se vê espoliado de um tempo trabalhado, pago, descontado e que parece ser tratado como se virtual ou ficcionado fosse). 

     Triste de um país que se vê (des)governado assim - não há seguramente crédito no que se diz nem no que se faz (fez e se fará).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

'Amor de Perdição' em versão muda

      Na procura de materiais que se cruzam com a educação literária.

    Abordar Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, em excertos e na escolha de capítulos avulsos é do pior que um programa de ensino possa propor. Ainda assim, permite uma liberdade (relativa) de ação, confinada apenas por uma gestão que se impõe na articulação / planificação de outros conteúdos.
    A noção da globalidade da intriga desta narrativa passional romântica pode ser conseguida através do visionamento de uma versão fílmica, entre as várias que a obra em particular já inspirou - a de 1943, de António Lopes Ribeiro, a preto e branco, ainda consegue provocar alguns (sor)risos à juventude. Depois virão os propósitos da escrita e do estilo, bem como o foco de análise no registo epistolográfico (citado e marcadamente deítico, nas condições do ato de escrita) que tão relevante se torna para a comunicação dos amantes.
    Foi precisamente na busca de uma dessas versões que me cruzei com um pequeno registo de cinema mudo. Não resisti a estes cerca de dois minutos e meio! Os efeitos expressivos, no mínimo, tornam o drama camiliano numa encenação cómica:

Excerto do programa "Os Anos de Ouro do Cinema Português" 
RTP2

   É verdade que o dramalhão romântico se ajusta a alguma comicidade para os espíritos leitores mais contemporâneos. Pode mesmo dizer-se que esta versão cinematográfica atinge o pleno, com a representação das personagens entre o fantasmagórico e o draconiano.
      Imagino o que seria a totalidade desta película.

     "Adeus! Amor de Perdição. Até à eternidade!"

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Abrir um buraco no céu

       À falta de teto no local do espetáculo, o céu podia ter sido o limite.

Rami Malek numa interpretação grandiosa de Freddie Mercury
     Na versão fílmica de Bohemian Rhapsody, (dirigida por Bryan Singer), Freddie Mercury assim definiu os efeitos da sua participação, com os Queen, no Live Aid do estádio de Wembley (concerto realizado a 13 de julho de 1985, para obter fundos em favor dos famintos de África, precisamente da Etiópia). Não fosse o facto de a ovação dos espectadores ter sido extraordinária (tanto no estádio como em diferentes pontos do mundo, dada a transmissão do espectáculo por satélite), também não foi menor essa partilha de vozes que público e músicos concertaram ao som de 'We are the Champions', 'Radio Ga Ga' ou 'We Will Rock You'. Abriu-se um buraco no céu, mas também se fez que este descesse à terra.
     Com as sonoridades de 'Love of my life', 'Bohemian Rhapsody', 'Hammer to Fall' ou 'Under Pressure' (em dueto com David Bowie), além de muitos outros êxitos do grupo, veem-se, no filme, "quatro desajustados" que dizem "não se encaixar", mas a tocar para o mundo (que não é feito apenas de desajustados e que os "encaixou" para sempre):

Montagem com os trailers oficiais de Bohemian Rhapsody (2018)

     Entre experimentalismos musicais, fusões de géneros, excentricidades versáteis do vocalista, cumplicidades interativas com um público numeroso e diverso, Queen tornou-se numa das melhores bandas de rock do século XX e teve em Freddie Mercury o cantor, pianista, compositor - o criativo que se ofereceu para o grupo nos anos setenta e definitivamente o abandonou em 1991 (com a sua morte, um dia depois de ter assumido publicamente que havia contraído SIDA).
     A associação fílmica do concerto a uma espécie de canto do cisne do vocalista, não sendo facto por ainda ter havido muita produção musical após o Live Aid, resulta numa abordagem emotiva distanciada face às vivências factuais do também conhecido Larry Lurex - aliás, muitos outros momentos da trilha cinematográfica configuram essa emotividade construída, nomeadamente, o da relação com a namorada Mary Austin (surgido muito depois de Mercury já se ter celebrizado); o do conhecimento do companheiro John Hutton (ocorrido numa boate e não num festa doméstica); o da suposta separação dos Queen (não tão assumida quanto o filme faz parecer, nem sequer por Mercury ter sido o primeiro do grupo a ingressar em projetos a solo, pois já o baterista Roger Tylor o havia feito primeiro).
     Numa projeção dos êxitos musicais da banda e num registo semibiográfico de Farrokh Bulsara (Mercury), há também na tela apontamentos do tipo documentário (como os do Live Aid), o que faz de Bohemian Rhapsody uma obra interessante, momento de entretenimento e de revisão do percurso ficcionado dos Queen (desde o enraizamento no grupo Smile, quando um operador de malas do aeroporto de Heathrow conhece o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor) até à construção do álbum de estreia 'Queen' (1973), bem como à gravação do emblemático 'A Night at the Opera' (1975). A par das conquistas e sucessos obtidos pelo mundo, vêm as intrigas na banda entrecruzadas com os dramas de Mercury, pautados entre a excentricidade e a redenção no final da história.

    Um tributo aos Queen e uma homenagem ao percurso de vida desse jovem que, nascido na Tanzânia, contribuiu, nos anos setenta a noventa do século XX, para que fusão de géneros e a criação de sonoridades experimentais fizessem da música expressão nova de uma (outra)"Royal Highness".

sábado, 3 de novembro de 2018

Tristão e Isolda - da lenda ao filme

      Diz-se lenda medieval de origem céltica; firmou-se como uma das histórias universais de amor trágico.

    Surge pelo século IX. As primeiras versões escritas são do século XII, no formato de narrativa em verso, tendo sido história difundida por trovadores e pela realeza francesa (rainha Leonor de Aquitânia) na Europa. Um século depois, foi incorporada no Ciclo Arturiano, com Tristão a assumir-se como um cavaleiro da Távola Redonda. 
    Tristão (James Franco) assiste à destruição da sua família por invasores oriundos da Irlanda, até que um nobre da Cornualha (Lord Marke, interpretado por Rufus Sewell) o protege. O reino é constantemente ameaçado pelo rei irlandês, como forma de impedir o nobre bretão de obter uma união de pares e de reinos capaz de o enfrentar (assegurar a paz das fronteiras irlandesas era um objetivo a cumprir, desde os tempos da expansão romana).
     Entre a Irlanda e a Cornualha, há, contudo, um mar que deu em amar, ou não o cruzasse Tristão, acabando por conhecer Isolda (Sophia Myles), a ela se unindo e dela se afastando até dela se separar com a morte.

Tristão e Isolda - trailer do filme de Kevin Reynolds (2006)

    A intriga fílmica, dirigida por Kevin Reynolds (2006), espelha várias questões da literatura do tempo: a herança, os vestígios e a influência romanas; a questão das relações feudais, dos códigos de honra e de lealdade, bem como da vassalagem e do amor cortês; a condição da mulher no casamento (essencialmente entendido como contrato, negócio); o adultério como consequência ou realidade associada à distorção das regras de casamento; a relação da arte com a vida cortesã (literatura, dança e música), entre outros.
     Se a versão cinéfila é ou não fiel às origens narrativas celtas é questão que, não sendo de menor interesse, não apaga o destaque temático a dar ao herói (homem sem terra, na busca e no distanciamento face ao que mais deseja - Isolda; ser em constante conflito, entre o foro público e o privado, mas sempre fiel tanto ao "senhor" que serve como à "senhor" que ama) e à heroína (mulher entregue a um amor que vai ultrapassar convenções familiares e sociais, para não falar da própria vida).

   Segundo as palavras de uma personagem do filme, o amor de Tristão não destruiu um reino (contrariamente ao assumido no momento da denúncia amorosa), não diminuiu ninguém. É expressão de elevação, de idealização; de amor mais forte do que a vida ou do que a morte.

domingo, 14 de outubro de 2018

Não há três sem quatro

     A contar pelas versões do filme, já não chega dizer que não há duas sem três.

    2018 é o ano para o 'remake' em terceira versão de "A Star is Born", depois do original datado de 1937. Mais de oito décadas passadas, Janet Gaynor dá lugar a Lady Gaga (depois de Judy Garland e Barbra Streisand). Um tanto de musical com um outro tanto de romantismo são ingredientes para misturar e derivar numa receita a ver na tela.

Trailer Oficial de 'A Star Is Born' (remake de 2018)

     A história consabida do músico, em final de carreira, que estimula e vê ascender artisticamente a mulher amada é o pano de fundo melodramático comum para um enredo quase secular, desta feita composto também pelo protagonismo que a música dá a ouvir na banda sonora. Os planos de 'backstage' de alguns dos concertos ou os preparativos para os shows conjugam-se nesse propósito de representar o percurso regressivo de Jack(son) e a ascensão de Ally (essa 'aliada' que se afirmou e se singularizou como estrela). Se a versão de 1976, com o par Barbra Streisand-Kris Kristofferson, tornou Evergreen melodia oscarizada, o mesmo se prenuncia com muitas das canções agora interpretadas pela dupla Lady Gaga-Bradley Cooper. 
      Talvez o dueto de "Shallow" seja um dos casos a considerar:

Montagem imagem-música (VO) para "Shallow" de 'A Star Is Born' (2008)

      SHALLOW

Tell me something, girl
Are you happy in this modern world?
Or do you need more?
Is there something else you’re searching for?

I’m falling
In all the good times
I find myself longing for change
And in the bad times I fear myself

Tell me something, boy
Aren’t you tired trying to fill that void?
Or do you need more?
Ain’t it hard keeping it so hardcore?

I’m off the deep end, watch as I dive in
I’ll never meet the ground
Crash through the surface
Where they can’t hurt us
We’re far from the shallow now

In the sha-ha- sha-ha-ha -llow,
In the sha-ha- sha-ha-ha- llow,
In the sha-ha- sha-ha-llow,
We’re far from the shallow now


    Também a cantiga final da película - "I'll never love again", numa homenagem a Jack(son) Maine (Bradley Cooper) e na interpretação de Ally Maine (Lady Gaga) - cumpre a marca de um fecho arrasador, para uma narrativa emocionalmente crescente, com a dupla romântica a afirmar-se para lá do que a morte possa impor. Uma breve analepse final traduz essa declaração de amor de Jack, num sentimento que se vê ameaçado pela doença, por um ciúme mitigado de incapacidade e perda progressivas, por jogos de interesse colaterais, por (pres)supostas experiências ou representações que o passado não deixa(ou) apagar.
     A música aproximou Jack de Ally (mesmo quando a necessidade do álcool parecia ser maior); pela música ambos sofreram, vivendo (na composição e na voz) numa entrega que nem sempre se revelou harmoniosa, mas fez vingar o que os uniu. O sonho, tornado real,  revelou-se duro, intenso, sofrido, com a "luz" a incandescer o que de mais doloroso e irónico a vida (também) tem.

      Assim nasce(u) uma estrela, dando brilho também a uma outra que a morte não conseguiu apagar.

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, a Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

quarta-feira, 14 de março de 2018

"A vida seria trágica se não fosse engraçada"

     Pensamento tão certo para quem, melhor do que ninguém, sabia do que falava.

     Talvez tivesse razões para pensar ou dizer o contrário, mas optou por desfrutar do pouco que a vida lhe deu e do muito que conquistou. Aos dois ou três anos que resistiria juntou mais de cinquenta. Foi uma equação de conquista, na qual o poder da mente se impôs seja pela vontade de sobreviver seja pelos segredos que desvendou para a Humanidade, nos domínios da física, em particular, e da ciência, em geral.
    No mesmo dia em que Stephen Hawking morre, Albert Einstein celebraria 139 anos; na data em que nasceu (8 de janeiro de 1942) tinham passado 300 anos da morte de Galileu Galilei - coincidências ou intervalos de tempo que não deixam de juntar grandes nomes da ciência, para não falar de factos como os da celebração do dia do (3,141592653589793238462643383...).
     Reconhecido pelo trabalho desenvolvido e pela luta na sobrevivência, Stephen William Hawking procurou uma explicação para o Universo; também para a vida, quando lhe foi diagnosticada esclerose lateral amiotrófica (doença incurável e degenerativa motora que o aprisionou a um corpo que progressivamente deixou de controlar). 
     No filme "A Teoria de Tudo" (2014), com a excelente interpretação de Eddie Redmayne no papel do cientista britânico (o que lhe valeu o óscar de melhor ator em 2015), é possível contactar com esse surpreende percurso, simultaneamente de degenerescência e de superação:

Trailer de 'A Teoria de Tudo', filme de James Marsh (2014)

      Em cerca de duas horas, o espectador, através do papel de uma personagem de ficção, encara o modo como uma personalidade real dos nossos tempos explorou o seu trabalho científico, focando o estudo daquilo que, cada vez mais, lhe restava menos: o tempo. Limitado no corpo, mas com a cabeça no universo, o nada e o tudo se conjugaram até hoje.


    Aos 76 anos, com a mesma idade de Einstein, Hawking deixa-nos com o seu contributo acerca da natureza da gravidade e da origem do universo; da teoria da singularidade do espaço-tempo, aplicando a lógica dos buracos negros a todo o universo; do seu best-seller Uma breve história do tempo (1988); do seu exemplo de vida, inspirador para todos aqueles que reclamam do que a vida lhes não dá ou lhes tira.

     Alguém que quis ser matemático e se tornou um génio da física. RIP.

sábado, 3 de março de 2018

"Sempre é uma companhia"

      Citando o título de um conto de Manuel da Fonseca, publicado em O Fogo e as Cinzas (1951) ou o discurso de uma personagem.

      Em qualquer uma das circunstâncias, a referência à telefonia é um dado, para além da pressuposta inexistência dela à data do seu aparecimento. Centra-se neste facto narrativo o núcleo de uma intriga que, uma vez lida no conto mencionado, sempre me fez lembrar um episódio do filme 'O Costa do Castelo' (1943), dirigido por Arthur Duarte. A velhinha película a preto e branco traz, em registo cómico, o que oito anos depois o conto sugere, num contexto mais marcado pela visão neorealista e pelo retrato de uma ambiência de desesperança a evoluir para a expectativa da mudança e para a construção da esperança possível.
  Nesta exploração interartística (cinema e literatura), há coincidências a rever, paralelismos a construir, referências culturais a traduzir para qualquer momento que se reveja como crítico face à ausência de sinais de alegria ou de felicidade no seio dos homens.
       Assim, (re)vê-se o segmento fílmico, tomando como pré-tarefa do visionamento a construção de aproximações entre o conto e o que a tela / monitor dão a perceber:

Excerto fílmico de 'O Costa do Castelo' (versão de 1943)

        Entre os tópicos possíveis de abordagem / aproximação, registam-se os seguintes:

      a) centralidade da telefonia na alteração de comportamento das personagens (a partir do jantar de aniversário familiar a dar lugar ao baile / animação / prazer);
    b) o portador da telefonia como introdutor do fator de mudança (apologista da mudança e da tecnologia), num contacto com o mundo e na sugestão da música como fuga harmoniosa para uma realidade alternativa ao vivido;
     c) o ato explicativo associado ao funcionamento do aparelho;
    d) um contexto persecutório (associado à personagem do jovem masculino) numa aproximação, ainda que por razões diferenciadas, ao contexto de produção de O Fogo e as Cinzas (a fuga de alguém a um controlo equiparável à ditadura de Salazar, tal como no ambiente de desfavorecidos tomados pela desesperança, a dar lugar a uma esperança possível);
    e) a data da realização fílmica e a da publicação de O Fogo e as Cinzas (onde se insere "Sempre é uma companhia") compreendidas numa época associada à ditadura e ao controlo despótico de Salazar;
     f) a leitura sociopolítica do excerto fílmico equiparada à abordagem sociopolítica de uma narrativa neorrealista (com foco na questão social, na procura de uma saída feliz para uma realidade adversa).

        Mais haverá por certo, numa sugestão convocada por sinais que um tempo propõe à luz do que um par de obras dispõe e o leitor / espectador (re)compõe.

     Um caso de como as memórias do passado (vivido) se redefinem a cada momento que a motivação (da leitura e das aulas associadas) se impõe.
    

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Da poesia fílmica ao filme poético

      É neste círculo fechado (e mágico) que o espectador se mantém até que a realidade (demasiado real) volta.

      Aos primeiros acordes da banda sonora, há como que uma nota de encantamento a conduzir-nos para um universo de que a música é uma das portas entreabertas (diria mesmo que ela evoca a identidade com um filme a ser recordado e relembrado por uma melodia que, mal se faz ouvir, nos transporta para a presença de "uma princesa sem voz" e de um ente com tanto de feérico como de selvagem, mas bem mais sensível no olhar e no toque do que alguns dos humanos representados).
     Recuada até aos anos sessenta do século XX e ao contexto da guerra fria, a intriga narrativa convoca o registo do fantástico, no qual uma relação amorosa entre uma empregada de limpeza (de um laboratório militar) e um anfíbio (na luta pela sobrevivência) cresce na base do silêncio, do sorriso, do olhar, do toque. É no seio da água que a aproximação se constrói, alimentando essa outra vida que paira sobre a realidade e se afirma como alternativa sensível, sentida e poética, culminando na citação dos versos "Unable to perceive the shape of you, I find you all around me. Your presence fills my eyes with your love".

Trailer do filme de Guillermo del Toro 

     Se "The Shape of the Water" (2017), realizado pelo mexicano Guillermo del Toro, é uma forma de (re)encontro com o universo do fantástico, do mágico e do poético na tela cinematográfica - para fugir à vida, por vezes, dura e crua (diria, demasiado real) -, não deixa de espelhar o que esta nossa vida tem de mais preconceituoso e tomado como marginal: a jovem muda, Elisa Esposito, homónima dessa outra personagem do "My Fair Lady"(Sally Hawkins); o ser (Doug Jones) que, na sua diferença física, se mostra mais homem do que alguns outros que nem merecem ser chamados de tal; o vizinho homossexual Giles (Richard Jenkins), pintor sem sucesso e vítima da vaidade, tornado cúmplice na proteção dada por Elisa à criatura fantástica; o casal negro, com a mulher vítima (Octavia Spencer) de um marido desdenhado e inútil. Não menos marginal é o monstruoso e sádico agente policial Strickland (Michael Shannon), ainda que representativo de uma das forças sociais marcadas por um poder tirano e impiedoso que vemos derrotado às mãos de uma figura estranha e monstruosa com a qual o espectador se identifica pela justiça e pela sensibilidade por ela trazidos à história - afinal, duas condições essenciais de sobrevivência na vida. Aos primeiros dá-se o sentido virtuoso dos que buscam a felicidade, o prazer, a beleza interior e o valor dos justos; ao último, o que há de mais maléfico, para não dizer abjeto.
    Na perspetiva de um narrador que se identifica com a personagem Giles, o universo de fantasia e magia constrói-se na afirmação do amor; na apologia das minorias ou dos desajustados da sociedade, no direito que têm de fazer o seu caminho; na valorização do espetáculo da dança e do cinema musical; na afirmação de que há "guerras frias" bem contemporâneas que não permitem a felicidade ou que sublinham a ideia de que qualquer monstro é mais justo e sensível diante de uma vida composta por perversões.

   Um exemplo de como uma muda e uma criatura-monstro se tornam heróis por aquilo que conseguem conquistar: sentir, amar, viver fora de uma realidade escura, à vista de todos, sem princípios ou valores sociais que dignifiquem o ser humano. Um filme belo sem deixar de ser um belo filme.

sábado, 13 de janeiro de 2018

A História do Porquinho

        Não se trata da história dos três porquinhos para a hora de deitar...

      É antes uma narrativa para acordar e lembrar “A Hora Mais Negra”, com um Porquinho só, como familiar e afetivamente a esposa o tratava. É também assim que Winston Churchill surge aos olhos e ouvidos do espectador cinéfilo, tudo porque um filme dirigido por Joe Wright tanto mostra a personalidade deste líder histórico do século XX como expõe as fragilidades desse homem forte, porque imperfeito, e poderoso, porque soube ser só.

Trailer do filme "A Hora Mais Negra", de Joe Wright (2017)

      É com estes atributos – força, imperfeição, poder, solidão – que o primeiro-ministro inglês de Jorge VI nos é dado a conhecer no contexto da II Guerra Mundial, enfrentando um Hitler e um Mussolini, mais todos aqueles que, no seu país (Reino Unido), o viam como indesejado, irrefletido e tempestuosamente irascível. Além disto, tinha apenas para oferecer sangue, trabalho, lágrimas e suor (o que, seguramente, muitos não queriam), quando um caminho mais fácil (por aparente e enganador que fosse) era percebido como menos penoso.
  Na interpretação de Gary Oldman (recentemente galar-doado com um Globo de Ouro pelo papel desempenhado), a personagem Churchill é secundada por Lily James (a secretária Elizabeth Layton) e Kristin Scott Thomas (no papel da esposa Clementine – Clemmie -, que aceita a figura pública que o marido sempre quis ser), também relevantes na solidificação dos pilares e dos princípios de um homem que se torna uma referência do século XX. Nomeadamente, foi-o para a História enquanto figura de liderança que adotou princípios, defendeu convicções válidas e se revelou grande na ação, estando ao lado e do lado das mudanças que afasta(ra)m o despotismo, o poder autocrático, a tirania e tudo o que desvia a Humanidade de um caminho integrador, inclusivo e tolerante. Em suma, um exemplo para alguns dos que contemporaneamente se encontram no poder.
     Há imperfeições que são menores face à grandiosidade dos valores e princípios por que se luta. Neste sentido, a frase “Quando a juventude nos falha que a sabedoria nos valha” acompanha bem uma personagem que se revela sábia, mesmo quando o medo se impõe ou quando poucos apoios tem para o que há a fazer. Assim se cumpriram os tempos; assim se revê um homem que mudou, porque só os que não mudam é que não fazem nem trazem mudanças.
    Este é um filme largamente argumentativo (até pelos exemplos retóricos de Cícero e Horácio que inspiravam Churchill); persuasivo na construção de identidades e de condução de mentalidades. 

     Um filme educativo, a explorar e com lições de vida merecedoras de discussão - na consciência de que há movimentos de força conjuntos, impositivos, que nem sempre fazem sentido perante o que mais deve dignificar o Homem; na constatação de que um homem pode fazer a diferença por aquilo em que acredita e que, mais cedo ou mais tarde, sai legitimado.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Silêncio

    Não é ordem nem convite; antes constatação ou necessidade.

   Inspirado na obra do escritor católico japonês Shusaku Endo (1966), Silêncio é um filme a não perder pelas imagens, pela representação e pela referência cultural, mais os dilemas e desafios desconcertantes que propõe. Realizado por Martin Scorsese, retrata a epopeia nessa diáspora de jesuítas portugueses pelas missões no Oriente (nomeadamente no Japão) no século XVII. 
    No contexto da apostasia (negação da fé) e do inquietante reencontro de dois padres (Rodrigues e Garupe) com um terceiro (Ferreira) - que havia sido mentor na formação cristã deles e de muitos outros e que parecia ter renegado tudo o que ensinara -, o espectador confronta-se com os limites da fé e a necessidade (mais ou menos forçada) de abdicar de tudo aquilo em que se acredita quando o martírio (próprio ou dos outros) surge:

Trailer legendado do filme "Silence", de Martin Scorsese

     O silêncio de quem assiste às atrocidades, ao martírio e ao sacrifício pode ser expressão de impotência; o silêncio, por não haver resposta ou por se instalar a dúvida, constitui-se mais como um desafio, uma oportunidade de (re)construção para o bem comum, se não der lugar à espera do que apenas está para além de cada um de nós.
     Voltados para a educação, a catequização, a divulgação da palavra de Deus em terras nipónicas, o silêncio marca o percurso dos jesuítas representados, colocando-os sob o dilema surgido entre a crença, a fidelidade à fé e a sobrevivência dos próprios e dos que os seguem. A procura da resposta implica a questionação, a reflexão, inclusive alguma adaptação às situações. Isto é particularmente demonstrado no caminho feito pelos padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), tornados testemunhos de uma resposta para uma realidade que, por norma, se revela incompreensível, estranha, "estrangeira" diferente.
      Procurar apenas no exterior a resposta para os dilemas vividos não é a solução. Esta passa pela interioridade, pelo silêncio, pela consciencialização de que o bem ao próprio e aos outros admite ir ao encontro de algo / de alguém; afastar de modelos / exemplos de partida; estar atento a fatores contingenciais e a processos de enculturação, de tradução de práticas e crenças que não podem deixar de se focar no bem do outro e do que ele tem de distinto.
     A articulação de Silêncio e A Missão (1986), de Rolland Joffé, são inevitáveis, no que ao missionarismo diz respeito, bem como à posição frágil a que os jesuítas missionários acabaram por ficar votados quando confrontados com o poder, nomeadamente o da própria Igreja; Silêncio vai ao ponto de explorar as forças e as fragilidades que o Homem vive na sua fé. A missão aqui é a do próprio ser humano, que necessita de procurar, encontrar em si mesmo, no silêncio e na ausência, a resposta e a presença do bem. A fé por nós acolhida é em nós que se (re)constrói, sem que ela acabe negada - e, assim, a luz brilha na escuridão.

    À entrada, o título do filme até podia convergir com o pedido do silêncio; no final, não há a banda sonora usual, nem a necessidade de se saber quem canta o tema principal. Há o silêncio que diz e significa muito mais do que qualquer outro som, ruído.

domingo, 23 de outubro de 2016

De novo o "Inferno"

       Já sobre ele escrevi várias vezes - antes, do livro; hoje, do filme.

     A leitura de "Inferno" de Dan Brown foi hoje complementada pelo visionamento da adaptação fílmica do livro à tela. Protagonizado por Tom Hanks, o enredo fílmico traduz algum do caos ameaçador que contribui para uma visão dantesca do mundo:

Trailer do filme para a obra homónima de Dan Brown

       Não é negada - se é que alguma vez o será - a constatação clássica de que o ritmo da sétima arte - com percursos bem mais curtos, para não mencionar os eliminados - em nada condiz com o do tempo de leitura. Assim se marca a produção de Ron Howard, em mais um episódio - digamos assim - da série de aventuras do simbologista Robert Langdon. Depois de O Código Da Vinci (2006) e Anjos e Demónios (2009), chega a versão cinematográfica de Inferno (2016), numa rede de relações muito próxima à referência cultural que Dante representou nessa descida literária aos infernos de A Divina Comédia - obra trecentista constituída por três partes ('Inferno', 'Purgatório' e 'Paraíso').
       Langdon acorda num hospital italiano em estado amnésico. A recuperação da memória faz-se à medida que a parceria com Sienna Brooks (Felicity Jones) dá lugar à constatação de que é preciso correr contra o relógio, de modo a desvendar os segredos que podem transformar-se numa crise global fatal. O mau da fita (sê-lo-á?!), Bertrand Zobrist, sustenta que a superpopulação conduzirá ao fim da humanidade, pelo que a sobrevivência passa por diminuir o número de habitantes planetários. Se, no livro, um vírus provoca uma mutação genética - causando esterilidade a um terço da população mundial, numa estratégia de controlo da natalidade -, na tela o perigo da exterminação da humanidade mantém-se, ao evitar-se que o vírus esterelizador se propague.
      As diferenças da escrita face às do registo cinésico da arte do cinema não se esgotam neste aspeto temático final: a descrição física das três figuras femininas da história não é coincidente; há personagens nas páginas do livro que não têm lugar na tela (caso de Christoph Brüder, um agente ao serviço da Organização Mundial da Saúde com a missão de capturar Robert Langdon e que, no fim, colabora na resolução da trama), bem como o contrário (o agente Christoph Bouchard persegue Langdon e Sienna, aliando-se a estes para obter o vírus que pretende vender no mercado negro); no liveo, o conhecimento recente de Robert Langdon relativamente à Dr.ª Elisabeth Sinksey - chefe da Organização Mundial de Saúde -, no filme, redunda num passado amoroso resolvido em favor dos percursos profissionais e em detrimento da relação sentimental.

     E nas distinções que compõem as duas expressões artísticas (o que, aliás, já se havia verificado com Anjos e Demónios), um dado ressalta: as viagens por Florença (Giardino di Boboli, Corridoro Vasari, Ponte Vecchio, Galeria Uffizi, Catedral Santa Maria del Fiore), Veneza (o Grande Canal, a Praça de S. Marcos, o Palácio do Doge) e Istambul (Hagia Sophia e a Cisterna da Basílica de Istambul) são itinerários que preenchem a visão e a imaginação tanto de quem lê como de quem vê.

domingo, 10 de julho de 2016

História(s) que se repete(m)

     No final do filme, o desconcerto... porque há lutas que parecem inglórias.

    Tudo a propósito de "Estado Livre de Jones", película realizada por Gary Ross e protagonizada por Matthew McConaughey (no papel de Newt Knight).
    O contexto da intriga fílmica é o da guerra civil americana (tão larga e cinefilamente retratada nos últimos tempos), ainda que, com as devidas diferenças, não pareça andar muito longe dos dias de hoje. 

Trailer legendado de "Estado Livre de Jones" (2016)

    Newt Knight surge como uma espécie de Zé do Telhado americano, um "cavaleiro" numa luta épica, digna, humana e socialmente dignificante, enquanto agricultor pobre do Mississipi que deserta do exército dos confederados (por uma causa humanizadora e desafiadora de lideranças hipócritas), encabeça um movimento revolucionário apoiado por pequenos proprietários e escravos do sul, culminando na separação do condado de Jones dos restantes territórios confederados. Daí o título.
    As conquistas conseguidas (um amor liberto de condicionalismos sociais, de cores ou raças; uma sociedade de homens plural e interracial, empenhada no trabalho da terra e em recolher desta o que nela é semeado; uma comunidade de iguais, de partilha sem ricos a tornar os outros cada vez mais pobres; um conjunto de leis ou emendas inspiradoras e simples para a sobrevivência humana) refletem uma utopia a todo o tempo em construção e ameaçada, numa espécie de encruzilhada de dilemas, de poderes e de homens interessados em fazer reverter todo um processo / percurso, que teima regressar ao ponto de partida.
   Intercalando momentos da narrativa nuclear (relativos ao período 1862-76) com os do julgamento de um descendente de Knight no estado do Mississippi (referentes a meados do século XX), abordam-se temas tão estruturantes como o das forças bélicas e dos interesses / traições a elas associados, do regime de escravatura e da libertação racial, dos conflitos originais das ideologias de republicanos e democratas, da manipulação de resultados eleitorais em função de lógicas de poder, da impotência humana relativamente ao rumo a dar aos ideais que mais devem orientar e preservar a (sobre)vivência.
     Inspirado numa situação histórica documentada, o enredo é a prova de que se mudam os tempos, mas mantêm-se algumas vontades e algumas questões críticas - apesar de configurações distintas -, num jogo em que "the free" e "the unfree" parecem ser duas faces para uma mesma moeda.

    Nestes tempos pré-eleitorais americanos, com republicanos a deixarem-se representar por um candidato tão grotescamente prepotente, há certamente um desafio democrata a considerar (um pouco ao contrário do que a história rezou para os tempos da guerra civil e da Secessão), sob pena de também se retroceder na visão mais humana a dar ao mundo.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Voltando ao beijo

    De novo, o Dia Mundial do Beijo.

   Entre várias cenas fílmicas que hoje passam na televisão para exemplificar o grande beijo (do mais clássico ao mais alternativo), foram tantos os exemplos e os estilos que fiquei surpreendido com o facto de não se terem lembrado do mais saboroso... à bolonhesa:

Excerto de A Dama e o Vagabundo (1997)

    De A Dama e o Vagabundo (na versão relançada em 1997, pela Walt Disney Records), este é um dos mais românticos beijos do filme animado. Talvez não tenha a duração do recorde mundial (que dizem estar contabilizado com mais de 58 horas, no Guinness World Records), mas são cerca de uns segundos em que um cão de rua (eu diria 'um Street Dog' para ser mais chique) e uma Cocker Spaniel roçagam apaixonadamente os focinhos no mais singular, famoso e cinéfilo beijo canino.
    Ainda assim, não é só destes beijos que reza o dia; outros há, para e em múltiplas situações, como o poema de Mário de Sá-Carneiro o traduz.

    E por mais que também exista o 'beijo de Judas', este é cá escusado, porque de traição e falsidade se trata.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Leão (que não o é) da Estrela (que era Branca)

    Depois de O Pátio das Cantigas, chegou O Leão da Estrela, com a Canção de Lisboa já anunciada.

   Por mais que se ouça no filme que tudo o que é inusitado se parece com um filme de 1947, o remake de Leonel Vieira pouco tem a ver com o original, tal como já havia acontecido com O Pátio das Cantigas (1942).
    A comédia de enganos portuguesa, a preto e branco, de Arthur Duarte, ressurge quase setenta anos depois, não com António Silva - Anastácio, administrativo adepto do Sporting a preparar-se para um 3 a 1 contra o Porto (que se fica por 2-1) no estádio do Lima, mas, desta feita, a cores, com Miguel Guilherme - Anastácio funcionário das finanças, adepto dos Leões de Alcochete a sofrer a derrota por 2-1 contra o Inferno Futebol Club num estádio alentejano.


Um dos trailers de 'O Leão da Estrela' - Novos Clássicos (2015)

    Na deslocação para assistir ao jogo (num estádio "lindo" de um pequeno clube local), Anastácio leva a sua família para terras alentejanas, ficando esta alojada na casa de uma família rica (ironicamente, Barata) cujo filho (André Nunes) é "amigo" de Facebook de Jujú (Sara Matos). Realidades para um tempo novo, moderno, afastado da década de quarenta do século passado e das tradicionais rivalidades (clubísticas e de sotaque) entre Lisboa-Porto.
    O fim interrompido do filme atual (sabe-se lá como correrá a vinda dos Barata a Alcochete, para dar o aval ao casamento do filho com Branca, que foi Estrela) é uma revisão da sugestão de pedido de casamento não pronunciado do comandante aos pais de Jujú no final do clássico português (dado que não comparece na versão atual, para além de os papagaios de outrora terem sido substituídos por um peixinho laranja, que acaba por morrer). Filipinho permanece motivo de riso em ambas as películas. A comédia instala-se nalgumas (poucas) cenas, nalgum (previsível) nonsense e nalguns (repetidos) tiques de personagens, nomeadamente os de registos de língua cruzados com pronúncias muito marcadas, seja a dos alentejanos seja a do novo-riquismo afetado (de que a forma de tratamento "você" é mero exemplo).

Pormenor do cartaz 'Novos Clássicos' (com réplicas do filme)

      É verdade que é comédia (embora, para mim, os bloopers finais tenham resultado melhor do que o sorrisos surgidos ao longo do filme); usa-se e abusa-se dos enganos, tal como no original (desta feita mais deslocados para a influência do par Anastácio - Jujú), mas não posso dizer que o resultado seja extraordinário, mesmo por comparação com o resultado da adaptação de O Pátio das Cantigas. Valham as interpretações de Miguel Guilherme (Anastácio), José Raposo (Barata), o mecânico Miguel e a "criada" Rosa (Aldo Lima e Dânia Neto), mais Alexandra Lencastre e Manuela Couto (Srª. Barata e Carlota) num contraste tão concertado (e sem concerto) que se constrói no seio de tanto logro a saltar à vista (e ao ouvido) do espectador entre as máscaras (re)criadas.

   Conclusão: como diria Anastácio, "isto das mentiras é uma coisa lixada. Um gajo perde-se nisto"! Venha o terceiro (que, pelos vistos, antigamente, foi o primeiro de todos).

sábado, 26 de dezembro de 2015

No coração do mar

    Título de filme atual baseado numa obra que retrata um facto inspirador para um épico da literatura oitocentista norte-americana.

   Aquela obra que Nathaniel Hawthorne considerou ser um exemplo moderno da epopeia homérica aplicada à literatura norte-americana nasceu a partir do sucedido e relatado neste filme.
    Não se trata propriamente de uma adaptação cinematográfica de Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891), mas, antes, das condições de produção desse romance pelo escritor norte-americano. Daí este aparecer, na intriga da película, como personagem, pesquisando os motivos que viriam associar-se à construção desse mito literário identificado com uma baleia branca (ou albina) - verdadeira metáfora do poder animal e natural contra o interesse humano da altura (aproveitar-se da gordura animal para um sinal da modernidade do mundo de então: a iluminação a óleo das cidades e o comércio associado à caça baleeira). 
   O filme adapta a obra homónima de Nathaniel Philbrick (publicada no ano 2000), que narra a verdadeira história dramática vivenciada pela tripulação do navio Essex, em 1820 - facto que também resultou na realidade inspiradora do romance Moby Dick (1851).

Trailer do filme (2015)

      Sob a realização de Ron Howard (o mesmo de “O Código Da Vinci”), assiste-se a uma história na perspetiva do velho Thomas Nickerson (Brandan Gleeson), traumatizado com o que vivera como jovem navegador (Tom Holland) do baleeiro Essex. Em analepse, é ele que dá a conhecer a Melville (Ben Whishaw) o vivido e por longos anos silenciado, por os acontecimentos se pautarem pelo que há de mais terrífico, trágico e simultaneamente heroico. Quer o escritor quer o espectador ficam a saber como sucedeu o naufrágio do Essex, a par do confronto da fúria animal em alto mar com o interesse dos homens; do conflito aceso entre o capitão George Pollard Jr. (Benjamin Walker) e o imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), que aspira a ser comandante de um baleeiro; da questionação que os sobreviventes revelam acerca de tudo aquilo em que acreditavam (desde a dignidade e honra pessoais ao verdadeiro sentido e valor da vida humana) mal se veem à deriva durante meses em pleno mar, aflitivamente lutando contra forças que os dominam. Impõem-se a experiência marítima e um instinto de sobrevivência que supera os limites de qualquer código moral, ético ou pessoal. Se uma tempestade não destruiu por completo a embarcação, viria a fazê-lo uma baleia, numa resposta à teimosa ousadia do Homem. Quando este para, também aquela deixa de atacar.
     No final do filme, a crença na palavra de Chase e na lealdade (ainda que infrutífera) para com o amigo que deixa numa ilha à espera da salvação; o reconhecimento de Pollard face aos acontecimentos vividos e não aos que comerciantes e companhias de seguro queriam fazer crer por imperativos financeiros; os silêncios que são ultrapassados para se viabilizar uma ficção inspirada na realidade são a constatação de que Moby Dick é uma possibilidade apenas para a certeza de que o Homem tem nas suas mãos o cumprimento das promessas que faz, a afirmação da verdade vivida e a vontade de não querer repetir aquilo que aconteceu e se aviltou.
     Esperando mais dos efeitos fílmicos (nomeadamente no que aos conflitos com a baleia diz respeito), não nego a qualidade dos grandes planos (essencialmente focados nas forças naturais) e os picados que minimizam o poder dos homens. Ainda assim, o drama da vida parece estar mais nos conflitos criados pelos humanos do que nos confrontos propostos pela natureza (e que, mais cedo ou mais tarde, desaparecem).

      A baleia albina é uma força; os homens são outra. Por mais que estes se queiram sobrepor, é aquela que sobrevive para se tornar mito. A humanidade tem, porém, sempre a hipótese de se recompor, caso não se renda àquilo que não quer ou à mentira declarada. Nisso, o filme apresenta uma mensagem de esperança, por mais que esta se situe no plano da ficção.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Há cem anos...

     Um século passado e a voz não se apagou.

    Considerado por muitos como "The Voice", Frank (Francis Albert) Sinatra nasceu em 1915. Foi caso de sucesso pela década de 40 desse século, popularizando géneros musicais como o swing, o blues, o jazz, saídos dos salões, bares e locais em que habitualmente se ouviam para os espaços de espetáculo mais abrangentes, menos seletivos. Hoje poucos são os ouvidos que não tenham escutado algumas notas dos seus êxitos.
    "Night and Day" (1932), "Let it Snow" (1945), "Fly me to the moon" (ou "In other words", 1954), "Moon river" (1961), "My way"(1967), "New York, New York" (1977) são muitos entre os variadíssimos títulos musicais que frequentemente se lhe associam, mesmo tratando-se (apenas) de versões que o "mister blue eyes" acabou por celebrizar (mais do que os cantores originais). 


Música de Henry Mancini e letra de Johnny Mercer
(óscar para a melhor canção do filme Breakfast at Tiffany's, interpretada por Audrey Hepburn)

       MOON RIVER

Moon river, wider than a mile
I'm crossing you in style some day
Oh, dream maker, you heart breaker
Wherever you're going
I'm going your way

Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after the same rainbow's end
waiting, round the bend
My Huckleberry friend
Moon River, and me

     "Come Fly with Me" (1958), "Strangers in the Night" e "Something Stupid" (1966) são outros êxitos de uma lista infinda que coube na voz dessa estrela (ainda) à vista dos transeuntes no Passeio da Fama. Aí se lembra não só o que Sinatra cantou mas também o que representou (na vasta filmografia que compõe a sua carreira).

    "The best is yet to come" (1959) foi a última melodia cantada em público - de novo uma versão. Figura esse título-pensamento na lápide do cantor (falecido em 1998), como se a morte não impedisse o anúncio do futuro.

sábado, 22 de agosto de 2015

Entre o 'dejá vu' e o vale a pena

    Este é o balanço final do "A família Bélier", filme dirigido por Éric Lartigau.

    Há uma história tão comum, banal até, que não propõe atrativo nenhum para levar alguém a ver o filme: uma jovem camponesa é incentivada, pelo professor de canto, a apostar no talento e dom que, de repente, revela; a saída de casa e a ida para a capital tornam-se um problema, nomeadamente pelo que significa sair do "ninho" familiar e da vida local.
  Há um parzinho amoroso, umas relações de adolescentes em contexto escolar (e não só), um professor entre o desiludido e o (pouco) inspirado ou empático, uns políticos que fazem lembrar os que vemos praticamente todos os dias na televisão (sem se saber muito bem porquê) e uma família com as preocupações do quotidiano, seja no trabalho seja na vida comunitária.
    Há um ou outro toque de comédia a permitir alguns sorrisos.
    Há alguma música interessante, até pelo espírito revivalista da música francesa e de compositores / cantores das décadas de 60/70 do século XX, como é o caso de Michel Sardou. Ao longo da película, surgem as composições ("La maladie d'amour", "Je vais t'aimer", "En chantant"). Há quem não as reconheça; outros, como eu, sim e acompanham-nas na surdina, de boca fechada e com as ligeiras vibrações na garganta, como se participassem nos ensaios e nos espetáculos dados a ouvir na película. Uma se destaca, naturalmente, por ser a que a protagonista (Louane Emera, no papel de Paula Bélier) canta - "Je Vole" (da década de 80).

 "Je vole" (de Michel Sardou), interpretada por Louane Emera

Mes chers parents, je pars
je vous aime mais je pars
vous n'aurez plus d'enfant
ce soir

je n'm'enfuis pas, je vole
comprenez bien: Je vole
sans fumée, sans alcool
je vole. Je vole

elle m'observait hier
soucieuse troublée, ma mère
comme si elle sentait, en fait elle se doutait
entendait

j'ai dit que j'étais bien, tout à fait l'air serien
elle a fait comme de rien, et mon père dèmuni
a souri
ne pas se retourner, s'éloigner un peu plus
il y a la gare, un autre gare et enfim, l'atlantique

je me demande sur ma route
si mes parents se doutent
que mes larmes ont coulé
mes promesses et l'envie
d'avancer

seulement croire en ma vie
tout ce qui m'est promis
pourquoi, où et comment
dans ce train que s'éloigne
chaque instant

c'est bizarre, cette cage
qui me bloque la poitrine
je ne peux plus respirer
ça m'empêche de chanter

    Acima de tudo, há uma língua que ganha pelo poder comunicacional que tem - a língua gestual de uma família (pai, mãe, filho) que "fala" na condição de surdez a que está forçosamente votada. Só Paula Bélier (a filha) nasce a ouvir, ainda que tenha sido educada para que vivesse na condição dos progenitores - quase numa espécie de preconceito ao contrário. Ela é a intérprete dos pais e do irmão para o universo verbal.
    No jogo de interação e comunicação vividos, no seio da família e dos que com ela convivem, é interessante ver como as diferentes personagens reagem antes de saber da condição dos Bélier. Quase se pode perguntar quem sofre mais por não se fazer entender. 

Trailer do filme de Éric Lartigau

     Por fim, há três momentos fundamentais do filme: quando os pais e o irmão de Paula a vão ver ao espetáculo da escola, impondo-se o silêncio que os Bélier vivem e deixando os espectadores apenas ver os gestos, os movimentos, as reações das personagens como as únicas linguagens do mundo; quando o pai se aproxima ao mundo da filha, pedindo-lhe que cante e, ele, vai sentindo as vibrações da melodia (que não ouve, mas sente, a ponto de reconhecer o dom da filha e de a apoiar no sonho a seguir); quando a jovem canta para o júri do concurso de canto e traduz, em língua gestual, a letra para os familiares. "Je vole" é simultaneamente o voo da protagonista e uma declaração de amor aos pais.

      Vale a pena ver o filme nesta última perspetiva - numa relação entre língua e afetos; nas limitações físicas que a comunicação parece não ter ou procura efetivamente ultrapassar, quando se faz na base e na partilha das emoções. Uma possível defesa ou contribuição para uma língua emocional ou para a importância da emoção da/na língua.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

E vai um...

      É o que se pode dizer do primeiro, pensando na trilogia que vai surgir.

     Vem o título a propósito da nova versão (ou remake, na linguagem cinéfila mais internacional) de O Pátio das Cantigas, realizado por Leonel Vieira. Depois de mais de setenta anos do original, dirigido por Francisco Ribeiro (Ribeirinho), a popularidade de atores como António Silva, Vasco Santana e Maria das Neves talvez venha a refletir-se em nomes como Miguel Guilherme, César Mourão, Dânia Neto - só para, respetivamente, mencionar os protagonistas correspondentes às duas produções. O tempo o dirá. Para já, o projeto de 'atualização' terá continuidade com mais duas iniciativas: uma já anunciada para o sucesso de 1947, "O Leão da Estrela", realizado por Arthur Duarte; outra para o de 1933, "A Canção de Lisboa", de Cotinelli Telmo.
     Em O Pátio das Cantigas, a comparação entre o ponto de partida e o de chegada é inevitável, particularmente para quem está habituado a ver e a rever múltiplas vezes o primeiro (de modo a já citar instintivamente réplicas inteiras do Evaristo, do Narciso ou até da Dona Rosa - personagens marcantes de um tempo e de um regime bem diferentes dos de hoje). Ainda assim, é de convir que a linguagem, a situação, os tipos sociais e as personagens individualmente consideradas precisavam de uma outra roupagem, para dar ao cómico de outrora um sentido e um riso outros, adaptados a circunstâncias mais familiares e contemporâneas. Não deixa de ser uma estratégia para fazer chegar, do próximo, ao mais distante e desconhecido. "Compreendi-te!" (como diria o Narciso-Vasco Santana)
       A comédia acontece. O reconhecimento de elementos originais também (pontos de ancoragem como o ambiente bairrista e popular lisboeta, os amores e as querelas entre as personagens de maior relevo, a fidelidade ou a sugestiva aproximação a expressões / réplicas do século passado), por mais que haja um distanciamento imposto pelo realizador e pela realidade face ao clássico português. Do operador de rádio ao DJ, da leitaria à empresa turística dos tuk-tuk, das marchas populares à chamada música pimba, do merceeiro tradicional ao dono de uma loja gourmet com empregados a falar francês, dos princípios da rádio ao tempo da internet e do hifi, da Dona Rosa vendedora de flores à Linda Rosa balconista num hostel, da Maria da Graça cantora à artista de novela, muitos são os motivos e/ou desvios para deixar algum público "dessincronizado" (ou também... "turbinado", numa versão mais à Malhoa).
       Para os que preferem o filme a preto e branco e o querem encontrar na cor de 2015, talvez fosse de relembrar as palavras de Narciso de 1942, assim que fala com o candeeiro (que o "guia" até casa, graças ao elevador cúmplice de um amigo do bairro):

" - Onde estás tu? Fugiste?
   - Ah! Estás aí! Apareces e desapareces... (Ri-se) Também és um ilusionista!
    Já vi tudo! Queres ir para cama. Assim como assim, vamos lá embora! (Assobia à medida que sobe os degraus da escada)"

      Semelhanças com o antigo também aparecem e desaparecem, num ilusionismo que não deixou de me manter atento. Sem a magia do antigo (que só o tempo vai alimentando), a novidade mantém algum interesse.
      Se antes era assim...

Cena fílmica de O Pátio das Cantigas original (1942)

        ... agora a cor é outra - seja local seja epocal, para não falar a das impressões e dos efeitos de luz e tonalidades coloridas bem distintos, mais a dos retratos humanos que vemos na tela / na rua a qualquer instante.

 
Um dos trailers oficiais da nova versão de O Pátio das Cantigas (2015)

        Como não fui propriamente à procura do antigo, estava de espírito aberto, disponível para o pudesse surgir na tela. É verdade que a expectativa também não era muito grande, até por saber que iria encontrar atores que não estão entre os meus preferidos (por mais fama que tenham - ou se achem ter - na comédia da atualidade). O certo é que não dei o dinheiro por mal empregue, não deixando de rir particularmente com algumas situações e piadas bem construídas (tanto pelo nonsense como pelos jogos, pelas recriações e pelos contrastes de registo e de linguagem conseguidos).

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O captain, my captain...

     Palavras de alunos: ficção ou realidade?

    Inicialmente, a expressão faz parte da metáfora construída por Walt Whitman para, num dos seus poemas ("O Captain! My captain!", 1865), se referir à morte do presidente Abraham Lincoln, no contexto da Guerra Civil americana (essa 'trip', viagem por que os EUA tiveram de passar na sua história):


    Este mesmo poema é citado no filme Clube dos Poetas Mortos (1989), realizado por Peter Weir, particularmente quando o professor de inglês John Keating (interpretado por Robin Williams) diz aos seus alunos que estes o podem tratar por "O Captain! My Captain!", sempre que se sentirem ousadamente inspirados. Se assim o disse no início da relação, assim o recebeu no final: demitido por desafiar os princípios da prestigiada academia onde lecionava, Keating vê os seus alunos revelarem o apoio e a admiração que sentem, ao subirem para os tampos das respetivas carteiras e ao declamarem / dedicarem a expressão whitmaniana a quem os ensinou a aproveitar o dia e a sugar o "tutano da vida" (carpe diem).
    Se qualquer semelhança entre a ficção e a realidade for uma mera coincidência, a verdade é que hoje vivi estas palavras literárias / fílmicas como reais. Ao fim de dois anos e na última aula (oficial) de Literatura Portuguesa, nos minutos derradeiros de um discurso meu interrompido sobre A Sibila (de Agustina Bessa-Luís), vejo uma aluna subir para a carteira citando-me os famosos versos; e logo todos os restantes elementos da turma a repetirem o ato, numa recriação do episódio cinematográfico:

Cena final do filme Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir (1989)

    Entre a incredulidade e a emoção, o sorriso da cena reconhecida e a contenção que se impunha (para não chorar no momento da despedida), estrategicamente comecei por reagir qual Mr. Nolan, o diretor da Academia Welton, com o incisivo "Sit down"; ainda cheguei ao "You hear me, sit down", dada a desobediência estudantil; porém, não pude assumir o "This is my final warning! How dare you!". Sensibilizado, só pude responder de uma forma: subir para o tampo da minha secretária e, colocando-me ao nível da turma, agradecer por me ter deixado viver momentos e experiências felizes de leitura, de comentário, de análise e de reflexão. Fomos cúmplices no trabalho, no espírito e nas relações que se construíram.

      Ficção e realidade. Se alguém, no corredor, tivesse olhado pelo vidro da porta e visse o que se passava na sala de aula, pensaria que não era possível estar a ver bem! E foi tanta a realidade!