domingo, 15 de agosto de 2010

Me vado lontano

   Finalmente...

   Un piculo apuntamento: vacanza (Milano, Firenze, Roma, Génova, Napoli), de preferenza sin Berlusconi.
   Si me tornero (piú felice) no lo so, ma io bisogno de un nuovo aire.
   La bella Itália!

   Até ao meu regresso (assim as asas do avião me tragam).

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

História(s) que a língua nos dá.

   Provas de que, na língua, o tempo faz diferença.

   A propósito de conquistas do século XII, aparece, num documento do século XVII, um dado descrito nos seguintes termos:

"Ganharão-se as Villas de Abrãtes e Torres Novas, ambas muyto fortes em o sitio, fermeza de muros e castellos (...)."

 (Frei António Brandão, in Monarquia Lusitana, 1632)

   Para além de questões ortográficas e da representação mais ou menos próxima de realizações fónicas, destaco a colocação pronominal clítica na primeira forma verbal: no contexto actual da mesóclise ('ganhar-se-ão'), há registo escrito de que há quase quatro séculos se fazia (dizia?) o que os alunos hoje em dia teimam em usar nos seus discursos orais / escritos.
   Tratando-se de um caso crítico a privilegiar no trabalho de língua, o que hoje se explica como uma evidência de composição histórica na língua portuguesa, com repercussões morfossintácticas (aproximando a conjugação pronominal de verbos no futuro e no condicional), parecia mais natural, menos complexo em estádios linguísticos anteriores.

     Quantos alunos não gostariam que retomássemos esse tempo (pelo que dizem e pelo que escrevem).

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Quando a solução está ao alcance dos nossos olhos

    Já lá vai algum tempo, quando um grupo de alunos apresentou o seu contrato de leitura baseado n' O Símbolo Perdido, de Dan Brown.

     Terminei hoje a leitura deste livro.
     As férias dão para pôr em dia o que nem sempre se consegue fazer ao longo de todo um ano de trabalho (com muitas escritas e muitas leituras... de outro tipo). Do ano lectivo findo e do contrato ficaram um ponto de motivação e uma pista de interesse para ir ao encontro deste romance.
    Não deixei de ficar "agarrado" pela história e pelas curiosidades que nela fui (re)encontrando:

. a maçonaria aborda a crença num ser superior: o Ser Supremo ou Grande Arquitecto do Universo (designação mais hiperonímica para Deus, Alá, Buda ou Jesus);
. os símbolos maçónicos associam-se a uma linha interpretativa: a da transformação (caveira, enxofre e sal, ampulheta, vela);
. 'symbolon' era o termo grego para uma tábua de argila onde se registava informação secreta - tábua que, depois de partida em pedaços, era espalhada por diferentes locais (só a junção das diferentes partes permitira acesso à informação - tal como nos 'símbolos'); 'lenda' e 'legenda' provêm do mesmo étimo latino ('legenda'); o termo 'álcool' tem origem no árabe 'al-kuhl'; 'talismã' provém do grego 'telesma', a significar 'completo'; a palavra 'noética' deriva do grego antigo 'nous', normalmente traduzido por 'conhecimento interior' ou 'consciência intuitiva' (embora de intuição me pareça que tem muito pouco);
. na formação da palavra 'sacrifício' há quem leia o jogo 'sacra-sagrado' e 'facere-fazer'; 'sincera' era a obra que escultores (desde os tempos de Miguel Ângelo) não dissimulavam com cera - 'sin cera' - e pó de pedra (nas rachas ou falhas); a palavra mágica 'abracadabra' remonta a um antigo misticismo aramaico ('avrah KaDabra') que significa 'eu crio, enquanto falo'; 'apocalipse' significa, literalmente e conforme o apontavam os antigos, 'revelação' (não necessariamente com o actual sentido interpretativo do fim cataclísmico do mundo); 'Elohim' é a palavra hebraica para Deus no Antigo Testamento (ser plural - e pluribus unum -, ou seja, "De muitos um só", numa convergência de forças);
. o número '33' era considerado, no tempo de Pitágoras, o mais elevado de todos os Números Mestres, o mais sagrado, o símbolo da Verdade Divina (tal como os maçons escolheram o trigésimo terceiro como o grau mais elevado); o 8 é o símbolo do infinito, após uma rotação, e o número da destruição em numerologia;
. "a mente senta-se no cimo do corpo físico como uma pedra de fecho de ouro. A Pedra Filosofal. Através da escadaria da coluna vertebral, a energia ascende e descende, circulando, ligando a mente celeste ao corpo físico" (pág. 482) - será este um mistério antigo?

    Mais do que se lê na epígrafe ("Viver no mundo sem ter a consciência do significado desse mesmo mundo é como deambular por uma enorme biblioteca sem tocar nos livros" - in The Secret Teachings of All Ages), o poder da linguagem pressente-se e ressalta numa obra cuja intriga é feita de ingredientes como a vingança, a evolução e a mudança retomando o passado, as escolhas e os dilemas que condicionam a acção humana, os sentidos de poder (antigos e contemporâneos) em confronto, os laços familiares que se atam e desatam, as redescobertas no percurso da vida e da História do Conhecimento, o entendimento do símbolo a convidar continuamente à junção de peças que trazem "luz" e significado àquele que "lê" sinais. Como também se lê no romance, "A língua pode ser bastante hábil a esconder a verdade" (pág. 232).
    Depois de ter lido O Código Da Vinci e Anjos e Demónios, não se pode dizer que este livro seja uma grande novidade na construção narrativa. Lê-se bem em tempo de descanso e aguarda-se sempre pela novidade que cada capítulo traz, pela(s) mudança(s) de rumo que se impõe(m).
   Em tempo de reconstrução e retoma de velhos mitos, coloca-se Washington no caminho da "The Promissed Land", com a tónica da esperança e da afirmação do Homem como fonte de poder, de saber e de (re)criação / transformação de ideais. Nisso se revê a própria personagem principal (Robert Langdon), pela (re)descoberta do que conhece e pela oportunidade que lhe é dada para mais aprender.

    Como o próprio livro o assume, na voz de Trish (personagem cooperante de Katherine Solomon), "O conhecimento é uma ferramenta e, como todas as ferramentas, o seu impacto está nas mãos do utilizador" (pág. 96).

sábado, 7 de agosto de 2010

Represas sem espinhos

   Ao vivo se revelam os verdadeiros artistas, sem os efeitos especiais e milagrosos de alguns arranjos tecnológicos..

   Numa programação / animação de férias que trouxe muitos nomes sonantes da música a Espinho, Luís Represas foi sensação.
   Um palco em plena Alameda 8, muita gente a assistir, para duas horas de espectáculo em que luz, música e voz(es) deram para ver quem sabe cantar e tocar, em directo, ao vivo e a cores.
    E cá vai uma do repertório ('Entre mim e eu') - entre tantas outras dos tempos dos Trovante ou do já longo percurso a solo do cantor -, que saiu bem mais animada com a força dos instrumentais e do coro de vozes que se fez ouvir à volta do palco.


    Poucos são aqueles que se revelam melhores e mais fortes naquilo que já fazem bem. Luís Represas é, sem dúvida, um desses exemplos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Melancolia e alquimia linguística

       Assim se intitula uma pintura de Albrecht Dürer (séc. XVI): Melancolia I.
  
    Encarado como o supremo espírito renascentista - artista, filósofo, alquimista e um estudante dos mistérios antigos -, Dürer concluiu a pintura apresentada em 1514, tendo esta sido considerada a obra seminal do renascimento no Norte da Europa.


       A figura de asas, a representar o génio humano, está rodeada de sinais e símbolos marcados pela estranheza lógica; simboliza a tentativa falhada de a humanidade transformar o intelecto humano em poder divino, visível pela dificuldade de compreender todos os símbolos de que o génio dispõe (objectos de ciência, matemática, filosofia, natureza, geometria, carpintaria,...).
      Está mesmo difícil a relação entre cada um dos objectos. Fico-me pelo quadrado mágico (por baixo do sino), com 1514 na última linha. Por que razão(ões) será, para além dos números e cálculos perfeitos?

   Se por trás de Melancolia há uma alquimia linguística, que os estados de tristeza e depressão se transformem em palavras e actos de felicidade no desvelamento dos enigmas e da simbologia que o quadro encerra.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Se o tamanho interessa...

    Não há estética que melhore, por mais manicure ou pedicure que se faça.

    Um passeio pela cidade, até que uma montra chama a atenção:

   
    E pronto: se o tamanho interessa, o melhor que se pode fazer é 'Extensão' (plural 'extensões), enquanto sinónimo de ampliação ou aumento no comprimento.

    Já lá o dizia o latim ('extensiōne-'), pela escrita com 's'. E nisto não há acordo ortográfico que valha, pelo que a etimologia não deixará de ser critério a considerar, a par da consciência morfológica a trabalhar na escrita.
   

domingo, 1 de agosto de 2010

Poesia, voz e fado

   Para lembrar que "Há palavras que nos beijam".
  
    Nos versos de Alexandre O'Neill combinam-se os sons e a voz que Mariza faz chegar aos nossos ouvidos, na composição musical de Mário Pacheco. Assim se casa poesia, voz e fado.


          Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca (1958)

      A mesma composição com um outro casamento vocálico e rítmico podem ser encontrados neste fado de Cristina Branco:


         Mais uma razão para se passar "Das palavras aos actos" (que, feitos de palavras que nos beijam, são menos moralistas e mais afectivos).

O açúcar está mesmo a dar...

   Pode ser coincidência, mas os pacotes de açúcar andam muito sábios.

   O pensamento citado é do autor de O Principezinho e tem muito que se lhe diga.


   Traduzindo isto, em termos de consciência e de conhecimento, só se compreende o que se interestrutura (daí a transformação que se opera naquele que integra o saber, passando-o a dominar, a compreender).

   Desconfiar, então, de todos aqueles que dizem que compreendem, mas não se transformam.