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domingo, 15 de março de 2026

Por terras de Viriato

      Foi dia de os professores passearem, soltarem risos e conviverem.

     Apesar de alguns pingos de chuva, foi um dia bem vivido e bem "regado", com pequeno-almoço em Vouzela; visita ao Museu do Quartzo, idealizado pelo prestigiado geólogo Galopim de Carvalho e instalado num antigo local de extração de quartzo (Monte de Santa Luzia, na zona de Viseu-Dão-Lafões); almoço no familiar restaurante Zé Pataco (onde não faltaram as encomendas das morcelas, dos queijos e chouriços, mais os tupperwares das migas de entrada); prova e degustação de vinhos na Quinta de Santa Maria; passagem pelo exterior do palácio-museu Aristides Sousa Mendes.

Cartaz de divulgação da atividade promovida

As evidências do vivido: de Vouzela, Viseu, Cabanas de Viriato (Fotomontagem VO)

    Foi um roteiro diferente do traçado no ano passado, ainda que em espaços comuns, numa consolidação e expansão de aprendizagens, com focos em biologia, física, geologia, química, história. No âmbito da plantação, produção e degustação vinícola - com champanhe, branco ou tinto -, ficou o apontamento do "Ribeiro Santo" da região do Dão, com aromas de fruta e rusticidade, mais o apuramento do paladar. A apologia vinícola do norte foi mais do que sublinhada pelo guia, em detrimento daqueles outros que continuam a afirmar que o Alentejo tem mais do que se lhe diga. Um ou outro, o certo é que o nacional (é que) é bom.
    Com muita foto a evidenciar os momentos vivenciados, concretizou-se mais um convívio para criar laços, aproximar nos risos e viver aprendizagens / experiências a recordar.

    Entre referências a famílias brasonadas, percursos a recuperar traços entre o medieval e o barroco, aromas e sabores báquicos da ancestralidade à contemporaneidade, ficou um sábado bem passado, na intenção de prosseguir com viagens e (re)encontros de grupo inter e transdisciplinar para lá dos tempos de escola.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Mont Saint-Michel

      Qual peregrino, em terras gaulesas, mais precisamente na Normandia.

      Em local fortemente marcado pela espiritualidade, a abadia do Mont Saint-Michel é um exemplo de arquitetura medieval excecional, prova de edificação prolongada ao longo dos tempos (dos séculos XI e XII à construção do claustro e refeitório dos séculos XIII ao XVI).
     A muralha do século XIV configura uma fortificação que, outrora, protegia a ilha das marés e, durante a Guerra dos Cem Anos, das incursões inglesas que atravessavam o canal da Mancha - daí também representar um forte símbolo de identidade nacional.

Vídeo com apontamentos fotográficos do passeio escolar do AEML (Vídeo VO)

    Aclamado local de peregrinação, juntamente com Roma e o Caminho de São Tiago, o Mont Saint-Michel foi percurso das romagens mais significativas do oeste medieval, a ponto de ser considerado uma das mais importantes cidades-santuário europeias.
    Crê-se que os mil e trezentos anos de história do local iniciaram em 708, quando Aubert, bispo de Avranches, mandou construir no monte Tombe um santuário em honra de São Miguel Arcanjo (Saint-Michel).

   Hoje o monumento beneditino recebeu mais um admirador - inclusive da caixinha de bolachas salgadas comprada na Grande Rue. Motivo para regressar um outro dia?

sábado, 27 de abril de 2019

Tudo por causa do sal e das lembranças

       Alguém dizia há dias que outro alguém era um pãozinho sem sal.

      Assim se expressa o desinteresse por pessoas e coisas. O idiomatismo recupera a importância do sal, ou a falta dele, sem que necessariamente se esteja a falar de salário (que chegou a ser pago com dito).
       Pensar que há dias estive rodeado dele (do sal, não do salário, porque este tende a desaparecer rapidamente), na sua expressão mais monumental nas minas de Wieliczka, na Polónia:

Apontamento da visita às Minas de Wieliczka (Polónia)

    A grandiosidade turística do espaço visitado está na proporção desse condimento tão necessário à culinária quanto indesejado à saúde, sempre que usado em excesso.

     Nada excessivo na visita. Antes pelo contrário: deslumbramento, sim, partilhado com boas pessoas. Fica o registo para memória do vivido.
       

domingo, 20 de janeiro de 2019

Pelo andar da carruagem

       Pelo jeito que a coisa vai...

     Expressões sinónimas, por certo; mas com o termo "carruagem" há uma identidade da primeira com este blogue que a segunda expressão não tem. 
      Por mais impressiva que seja a situação, deve ser o resultado de uma visita ao Museu Nacional dos Coches (em Belém), depois de ter visto tanta carruagem, coche, berlinda, coupé, sege, liteira, cadeirinha, vitória, phaeton, landau, clarence, charabã, milords, caleça, carrinha, mala-posta... uma vasta coleção de viaturas hipomóveis usada em cortejos de gala ou eventos sociais relacionados com a arte da cavalaria e jogos equestres.
     Muitos foram os exemplares observados neste novo edifício aberto ao público há cerca de três anos, segundo o projeto arquitetado pelo brasileiro Paulo Mendes da Rocha (prémio Pritzker em 2006) em parceria com o arquiteto português Ricardo Bak Gordon.
      Enquanto a guia explicava, apaixonadamente, as características de cada um dos coches expostos e a evolução ocorrida nos transportes ao longo dos séculos, surgia a indicação do significado original da expressão "Pelo andar da carruagem": à medida que a carruagem se aproximava, os observadores locais deduziam acerca da importância, da posição ou da origem social de quem ia dentro dessa carruagem. Seja pelos materiais de construção seja pela quantidade de cavalos que a puxavam, a carruagem era um indicador de quem nela se transportava (rei, rainha, príncipes, nobre, patriarca,...).

Dos sécs. XVI ao XVIII - coches para todo o gosto (Foto VO)

      O acervo museológico contempla dos coches mais antigos do mundo, como o de Filipe II (III de Espanha) ao fundo da foto, aquando da sua viagem de Madrid para Lisboa, em 1619. A designação do transporte ('kocsi' ou 'koci') está relacionada com a cidade húngara de Kotze, origem da construção dos primeiros modelos, posteriormente exportados para Itália, bem como para todas as cortes europeias.
     O nome do Mâgnimo associa-se a vários modelos aparatosos, um dos quais no primeiro plano da foto supra à direita (Coche da Coroa). Este meio de transporte, embora destinado à realeza e às classes aristocratas, teve os seus exemplares mais faustosos usados em momentos solenes da corte, como casamentos reais, batismos de príncipes, aclamação de novos monarcas, embaixadas ao estrangeiro, deslocação de altos dignitários eclesiásticos, receção de soberanos ou figuras de alto prestígio no estrangeiro. Alguns serviram mesmo para um evento singular.

     Coche dos Oceanos - ao centro da foto, 
ladeado à esquerda pelo Coche do Embaixador 
e à direita pelo Coche da Coroação de Lisboa (Foto VO)

    O Coche dos Oceanos é uma das coqueluches do museu, pela espetacularidade ostentatória e faustosa joanina. Restaurado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, é um dos três coches do conjunto de quinze que compunham a embaixada enviada por D. João V ao Papa Clemente XI, em Roma (um pouco à imitação do que D. Manuel I fizera ao Papa Leão X, em 1514). A oito de julho de 1716, D. Rodrigo Anes de Sá e Menezes (Marquês de Fontes) fez a sua entrada pública em Roma, antecedido de um magnífico cortejo que espantou não só a população romana como os reis da Europa, que não se atreveram, nos anos seguintes, a repetir o feito. O próprio D. João V mandou que os três coches, construídos em Itália, viessem de barco para Portugal, de forma a que os olhos reais pudessem confirmar a magnificência dos veículos tão comentada em Roma.

Coche da Mesa ou da Troca das Princesas (Foto VO)

    Também dos tempos joaninos é o Coche da Mesa ou o da célebre troca das princesas, junto à fronteira do Caia, a 19 de Janeiro 1729 (de Portugal saía, para Espanha, a princesa Maria Bárbara de Bragança, filha de D. João V, para casar com o príncipe D. Fernando, futuro rei Fernando VI, de Espanha; chegava a Portugal a princesa Mariana Vitoria, filha de Filipe V, para casar com aquele que viria a ser o nosso rei D. José I) - episódio de que se faz uma narração caricatural no segmento XXII de Memorial do Convento, de José Saramago (MC, 17ª ed., Lisboa, Ed. Caminho):

     «Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra. Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles vem Mariana Vitória, da banda nossa vai Maria Bárbara, os noivos são o José de cá e o Fernando de lá, respetivamente, como se costuma dizer. Não são combinações do pé para a mão, os casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Maria Bárbara tem dezassete anos feitos, cara de lua cheia, bexigosa como foi dito, mas é uma boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa, pelo menos não caíram em cesto roto as lições do seu mestre Domenico Scarlatti, que com ela seguirá para Madrid, donde não volta. […] virá Mariana Vitória, uma garotinha de onze anos, que, apesar de pouca idade, já tem uma dolorosa experiência de vida, basta dizer que esteve para casar-se com Luís XV de França e foi por ele repudiada, palavra que parece excessiva e nada diplomática, mas que outra se há de usar se uma criança, na tenra idade de quatro anos, vai viver para a corte francesa a fim de se educar para o dito casamento, e dois anos depois é mandada para casa porque de repente deu a febre ao prometido, ou aos interesses de quem o orientava, de ter rapidamente herdeiros a coroa, necessidade que a pobrezinha, por inabilitação fisiológica, não poderia satisfazer antes de decorridos uns oito anos. Veio devolvida a coitada, magrinha e delicada, um pisco a comer, com o mal inventado pretexto de visitar os pais, rei Filipe, rainha Isabel, e pronto, ficou em Madrid, à espera de que lhe arranjassem noivo menos apressado, calhou ser o nosso José, agora com quinze anos, a fazer.» (pág. 297)
...


     «... quando D. João V atravessou o rio, no dia oito de Janeiro, para principiar a sua grande viagem, havia em Aldegalega, à sua espera, para cima de duzentas viaturas, entre estufas, caleças, seges de campo, galeras, carromatos, andas, uns que tinham vindo de Paris, outros feitos de propósito em Lisboa para a ocasião, sem falar nos coches reais, com as douradas frescas, os veludos renovados, as borlas e sanefas penteadas. Da real cavalariça, só em bestas, eram quase duas mil, não se incluindo nelas os cavalos da guarda do corpo e os dos regimentos da tropa que acompanham o cortejo. (...) João Elvas só vê cavalos, gente e viaturas, não sabe quem está dentro ou quem vai fora, mas a nós não nos custa nada imaginar que ao lado dele se foi sentar um fidalgo caridoso e amigo de bem~fazer, que os há e como esse fidalgo é daqueles que tudo sabem de corte e cargo ouçamo-lo com atenção, Olha, João Elvas, depois do tenente e dos trombetas e atabaleiros que já passaram, (...) vem agora o aposentador da corte com os seus subalternos, é ele quem tem a responsabilidade dos cómodos, aqueles seis a cavalo são correios de gabinete, levam e trazem as informações e as ordens, agora passa a berlinda com os confessores do rei, do príncipe e do infante, (...) depois aparece a berlinda com os moços do guarda-roupa (...) e outra vez não te espantes com essas duas berlindas cheias de clérigos e padres da Companhia de Jesus (...), aí tens a berlinda do estribeiro-mor, as três que vêm atrás são do corregedor da corte e dos fidalgos da casa de el-rei, segue-se a estufa do estribeiro-mor, depois os coches dos camaristas dos infantes, e agora atenção, agora é que começa a valer a pena, estes coches e estufas vazios que passam são os coches e estufas de respeito das reais pessoas, a seguir, a cavalo aparece o estribeiro-mor, enfim, chegou o momento, põe o joelho em terra, João Elvas, que estão passando el-rei e o príncipe D. José, e o infante D. António (...), e agora podes-te levantar, já passaram, já lá vão, iam também seis moços de estribeira, a cavalo, estas quatro estufas, aqui, levam a câmara de sua majestade, depois vem a sege do cirurgião (...), daí para trás é que já não há muito que ver, seis seges de reserva, sete cavalos de mão, a guarda de cavalaria com o seu capitão, e mais vinte e cinco seges que são do barbeiro de el-rei, dos copeiros, dos moços de câmara, dos arquitectos, dos capelães, dos médicos, dos boticários, dos oficiais de secretaria, dos reposteiros, dos alfaiates, das lavadeiras, do cozinheiro-mor, e do menor, e mais e mais, duas galeras que levam o guarda-roupa de el-rei e do príncipe, e, a fechar, vinte e seis cavalos de mão (...)» (pág. 300-303)

...

     «Caía a noite quando as primeiras viaturas da comitiva de D. Maria Ana começaram a entrar em Vendas Novas, mais parecendo um exército em debandada do que um cortejo real. As cavalgaduras, derreadas, mal podiam arrastar as berlindas e os coches, algumas iam-se abaixo das mãos e morriam ali mesmo, presas aos arreios. (...) Foi uma noite de grande desastre. Quisera a rainha seguir para Évora nessa mesma madrugada, mas foi-lhe representado o perigo da empresa, além de virem atrasadas muitas carruagens, o que resultaria em prejuízo da dignidade do cortejo.» (pág. 306-7)

    Depois, com o século XIX, são tantas as variedades de transporte urbano (basta lembrar a diversidade representada nos romances queirosianos, cruzando as ruas lisboetas) que uma ala do museu é praticamente ocupada com os modelos que a aristocracia, os burgueses e classe média mostravam à sociedade. Fico-me pela malaposta (dos inícios do século XIX), a poder dizer que é o transporte público mais remoto, dado o limite de transporte de dezasseis pessoas, entre a primeira e a segunda classes. Ao povo, restava-lhe o tejadilho, junto com as malas do correio (sem cinto de segurança e sem seguro, não obstante as quedas frequentes no trajeto).

     Num quatro rodas, com motor a gasóleo e muitos cavalos, fez-se o regresso a casa em cerca de quatro horas (saber que há pouco mais de um século, sem a hipótese do comboio, a viagem Lisboa-Porto ocupava mais de dia e meio).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Andar / estar na berlinda

        Hoje cruzei-me com esta expressão, mais concretamente com uma das suas explicações.

     A guia da visita ao Museu Nacional dos Coches (Lisboa), depois de ter apresentado vários exemplares desse que foi ou tem sido (desde há séculos) o meio de transporte da realeza ou da aristocracia nobiliárquica, e também eclesiástica, chegou à demonstração do que era uma berlinda ou, do alemão, uma 'Berline':

Berlinda da Casa Real - Museu Nacional dos Coches (Foto VO)

     Comparativamente ao acervo de viaturas que havia sido anteriormente apresentado (faustoso e destinado a usos muito específicos e, por vezes, singulares), esta era uma carruagem de quatro rodas, leve e, por isso, mais rápida. Distinta do coche pelo tipo de suspensão, a caixa de transporte deixa de estar suspensa, mais comodamente assentando sobre duas fortes correias de couro (que dão maior estabilidade). Construída nas décadas finais do século XVII para Frederico Guilherme I de Brandemburgo, recebeu a designação da capital de Brandemburgo - actualmente capital da Alemanha: Berlim.
    Neste caso, estar ou andar na berlinda significaria dar nas vistas, chamar a atenção, estar em destaque, numa relação sinonímica de ostentação, luxo, riqueza. 
   Há, contudo, uma outra versão para a origem desta expressão: 'berlinda' é também palavra proveniente do italiano para referir um poste de madeira que, em praça pública, servia para expor a cabeça dos condenados ou para executar / açoitar criminosos, expondo-os a escárnio público.

     Em qualquer dos casos seria uma forma de chamar atenção, de evidenciar algo - razões, porém, bem diferentes, por certo, a ponto de se justificar a preferência pela versão do meio de transporte.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um espaço... na capital do "reino"

      Na sequência de uma visita de estudo, entrei no que se diz ser o espaço do povo ou do cidadão.

     No circuito de visitantes ao Palácio de S. Bento - antigo convento da Ordem Beneditina para os monges negros de Tibães -, muitos foram os espaços dados a conhecer. O hemiciclo das sessões plenárias tem sempre a magia que um pequeno aparelho televisivo não dá (por mais que este último o mostre quase diariamente). A guia responsável pela visita insistia (e bem) no sentido simbólico de muitos dos sinais da História e da Cultura Política nele presentes.
      As curiosidades do espaço são muitas:             Salão Parlamentar da Assembleia da República (Foto VO)
. de mosteiro a prisão, foi ainda aqui mantido durante muito tempo o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, na sequência do Terramoto de 1755;
. a forma semicircular da sala de sessões plenárias resulta de uma reconstrução feita num espaço retangular anterior a um incêndio dos finais do século XIX (1895);
. a sala das sessões parlamentares atual apresenta uma luneta a encimar a estátua da República, com uma ilustração da primeira sessão das Cortes Constituintes (pintada por Veloso Salgado), tendo esta ocorrido não no Palácio de São Bento, mas no Convento das Necessidades, em 1821, de onde resultou o primeiro documento constitucional português: a Constituição de 1822;
. em torno da luneta, encontram-se escudos / brasões dos distritos e das antigas províncias ultramarinas, em lembrança das circunscrições eleitorais representadas pelos deputados da I República;
. a bancada do governo, inexistente no tempo do Estado Novo (por o governo ditatorial não comparecer no parlamento), foi colocada na sala em 1976 (estando localizada entre a tribuna dos oradores e a assembleia dos deputados);
. junto às galerias do público, encontram-se seis estátuas em gesso, representando a Constituição, a Diplomacia, a Lei, a Jurisprudência, a Justiça e a Eloquência;
. na antecâmara à sala das sessões - na Sala dos Passos Perdidos -, é possível ver telas pintadas por Columbano Bordalo Pinheiro, evocando grandes figuras estadistas nacionais; a encimar as portas deste espaço, encontram-se leões em gesso patinado, representando a Força.

Estátua da 'Eloquência' no Salão Parlamentar (de Júlio Vaz Júnior) - Foto VO

     A sala foi dos visitantes. Ainda bem, porque assim houve condições para apreciar o lugar e não ficar distraído por alguns "famosos" (por vezes de razão mais do que discutível). Deputados, nem sombra deles. Estavam a trabalhar noutros espaços, disse-se. Seja. Que trabalhem bem e muito, para contrariar a imagem pública que se vai tendo de muitos e que, nos últimos tempos, em nada é abonatória dos bons serviços prestados - particularmente, quando há cartas de jovens (tão coincidentes com outros registos de quem já se cruzou com representantes da nação) a denunciar como neste salão parlamentar também se faz muito do que não é devido nem esperado:

Excerto televisivo do Jornal das 8, do passado dia 1 de dezembro, na TVI

       Tantas situações... tanto bom exemplo em local errado! Depois venham dizer que somos pouco produtivos e que não podemos gozar tantos feriados (só para lembrar o que ontem foi absurdamente retirado do calendário)!
      A julgar pelos exemplos mencionados, até os que pretendem e tudo fazem para cumprir ficam sem chão.

    Na sequência da atividade (extra)letiva levada a cabo, fica o apontamento respeitoso e agradecido para os dinamizadores e participantes na visita; para quem tão simpática e eficientemente os guiou; para a dignidade de um espaço político de relevo - do espaço, sublinho, porque por certas pessoas (nomeadamente algumas que nele circulam e se mostram a representar - mal - o cidadão) nem sempre grassa a admiração nem o respeito dos representados. Como diria Padre António Vieira: "Não é isto verdade? Ainda mal."


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Chuva com música

      Podia ser Vivaldi mais 'As Quatro Estações' (bem adequada ao clima vivido), mas a música foi outra.

    Em plena tarde chuvosa de inverno, os alunos de oitavo ano deslocaram-se até à Casa da Música, na Boavista (Porto). A visita de estudo foi organizada no âmbito da disciplina de Ciências Físico-Químicas e contou com o acompanhamento de vários outros professores de diferentes disciplinas. 
      Cinco turmas puderam assistir a um concerto ("Via Verdi"), no qual se procurava, através de uma encenação simples, aproximar os jovens não só de alguns conceitos (ária, dueto, libreto, allegro, adágio) mas também de algumas referências musicais. Basicamente, o escultor e pianista João Fígaro propõe-se concluir um busto inacabado de Giuseppe Verdi, mais a estátua de um pensador. O trio apresenta, assim, peças cantadas e inscritas nas óperas do compositor oitocentista,  explorando algumas situações de cómico.
    Cumprida esta etapa, prosseguiu-se com uma visita guiada à "Casa" projetada pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas para o evento Porto - Capital Europeia da Cultura, em 2001 (ainda que a construção só ficasse concluída quatro anos depois). A forma e a estrutura singular do edifício são apelativas e desafiadoras; os mate-riais e os pormenores de construção, marcantes; as visões da cidade, fantásticas.
     A sala Suggia, dedicada à violoncelista portuense Guilhermina Suggia (mais conhecida internacionalmente do que no país ou na sua própria cidade), é o cartão de visita-mor do edifício: uma sala de concerto toda revestida a pinho e com pormenores de folha dourada; com duas grandes janelas de vidro ondulado, a norte e a sul; com um órgão de tubos a replicar a arte barroca e um segundo de traçado romântico. Impressionante é a preocupação acústica do espaço, nomeadamente nos pormenores do tecido das cadeiras, no suporte de braços em silicone, na ondulação do vidro que se compagina com a propagação sonora em múltiplos sentidos.
      Todos os participantes deram a tarde por recompensadora, tanto pela qualidade da visita guiada como pelo que foi dado a observar, a experimentar, a concluir.

     Na condição climatérica que tudo tinha para não dar certo, a tarde foi musical, harmoniosa com o toque agradável de uma despedida também feita dos parabéns recebidos pelo comportamento dos alunos. Palmas para eles, que deixaram os professores orgulhosos.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

'Auto da Barca do Inferno' encenado por António Feio

      Uma manhã no Teatro do Campo Alegre, com um texto vicentino de grande actualidade.

     Numa adaptação de Patrícia Castanheira e com a produção de Cultural Kids, Gil Vicente regressa, em palco, a um público que bem o conhece: alunos de 9º ano que lêem o Auto da Barca do Inferno (1517).
Imagem alusiva à corte vicentina
     Um texto de passado é tornado bem presente, captando-se a atenção dos jovens pelo recurso às novas tecnologias. Com elas se funde a representação, numa exploração da noção de perspectiva, de captação de diferentes planos - inclusive o dos bastidores, dados a conhecer numa espécie de visita virtual guiada por um diálogo ficcionado entre o dramaturgo e o filho, Luís Vicente.
   Dos conceitos associados à abordagem do texto dramá-tico, do percurso biobibliográfico vicentino, dos adereços, dos ensaios, dos actores e das actrizes, tudo se fala numa espécie de introdução à peça.
   Depois, o texto em acção: do quadro inicial do Diabo e do companheiro ao final com os Quatro Cavaleiros, sucedem-se as várias personagens julgadas após a morte. Fidalgo, Onzeneiro, Joane, Sapateiro... todos desfilam num balanço de vida a castigar (muitos) ou a premiar (poucos, e alguns de forma politicamente correcta).
      Interessante é o enquadramento que antecede o julgamento no juízo final: a passagem da vida para morte. Aos olhos do espectador uma simples movimentação de estrados, jogos de música e de luz permitem visionar a transição entre o que motivou a morte e o julgamento que se impõe na presença ora do diabo (alegoria do mal) ora do anjo (alegoria do bem).


Imagem alusiva à vida terrena do Onzeneiro
(colhendo a onzena)
  
Imagem alusiva à morte do Onzeneiro  
  Uns simples estrados, dispostos diferentemente para cada quadro, permitem ainda a sugestão do cais, a separação entre o plano da vida terrena (inferior) e o da vida após a morte. Sem barcas, está lá o rio (símbolo da passagem) e os espaços laterais cénicos destinados a cada um dos avaliadores.
    O cómico existe (no cumprimento dessa máxima vicentina do 'ridendo castigat mores'), sem que se caia no excesso, no ridículo, no inusitado.



      O aproveitamento pedagógico-didáctico da representação é evidente, sem que se coloque em desprimor o texto de autor e o espírito moralizador que a ele preside.

     Um momento bem passado, pela qualidade de representação e da encenação de António Feio (que vem ao nosso encontro num registo vídeo que testemunha a sua vontade de, ainda, 'mudar uma cena'). Um óptimo exemplo de equilíbrio entre a (re)criação artística e a fidelidade ao espírito intemporal da obra. Mesmo quando se assume que Gil Vicente é o 'pai do teatro português' (asserção questionável, tendo em conta as realizações teatrais que o antecederam), o mal torna-se menor, dada a qualidade literária que este autor quinhentista conseguiu impor aos textos produzidos para uma corte que não deixava de ser alvo de algumas das suas críticas.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Barroco: entre a pérola e o irregular

        O tempo esteve a jeito, num dia que de tudo teve...

        É prática comum esta visita ao Porto Barroco, que faz com que muitos alunos de 11º ano contactem com uma cidade frequentemente conhecida apenas pelo que tem de centro, de comercial e de centro(s) comercial(is).
        No percurso calcorreado entre a zona do Carmo e a de S. Francisco, muito houve para ouvir e registar a propósito:
Interior da Igreja dos Clérigos: um dos pontos altos da visita
(Janeiro, 2011)   VO
  • da Igreja das Carmelitas e da Igreja do Carmo;
  • da Torre e da Igreja dos Clérigos;
  • da Igreja e da Santa Casa da Misericórdia;
  • da Igreja de S. Francisco e das Catacumbas.
  • do Freixo e do seu Palácio.
      Nicolau Nasoni foi nome de destaque: entre o supostamente feito (desenho da fachada da Igreja das Carmelitas) e o assumidamente construído (Igreja e Torre dos Clérigos, onde se encontra sepultado algures por baixo de um dos dois púlpitos; fachada da Igreja da Misericórdia; Palácio do Freixo).
    Em alternativa às "viagens" de anos anteriores (que contemplavam o percurso da Igreja de S. Francisco, a Igreja da Misericórdia e a de S. Lourenço ou dos Grilos, a Sé e a Igreja de Santa Clara), desta feita cumpriu-se orientação contrária na cidade.
      Nela se observaram as memórias de pedra para um período artístico que evoluiu do barroco nacional para o do período joanino (coetâneo ao reinado de D. João V) e o designado movimento rococó (já com influências do barroco francês e alemão).
      Entre a manhã cumprida a rigor (com cerca de setenta alunos) e a tarde interrompida por força maior (com mais cem), viveu-se a satisfação e a tensão, dissimetria tão ao gosto do contexto epocal evocado.

      Com coisas para lembrar e outras para esquecer, também o dia se definiu pelos contrastes, pelos extremos, numa exibição espectacular de sensações, de exploração de sentidos; de vivência de "conflitos", de "oposições"; em torno da reflexão sobre o tempo e a mudança (numa prova de que o tempo passa e há coisas que têm necessariamente de mudar, como evidência do próprio acto de crescer).

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sol e sombra em Serralves

     Foi tempo soalheiro, uma tarde como não se via há muito. Uma luz irradiava nos jardins; no museu, havia sombras...

       Hoje foi dia para acompanhar os 10º anos numa visita de estudo. Destino: Serralves.
    Ao verde e ao brilho convidativos do exterior corresponderam o dominante branco e a pesquisada sombra do interior.
Grand Herbier D'Ombre
Lourdes Castro
     Sob o título "À luz da sombra", os alunos foram guiados na descoberta da obra de Lourdes Castro e Manuel Zimbro (colaboradores na vida e no trabalho, desde a década de 70). Entre a exposição visual e os apontamentos videográficos, houve materiais e projectos diversos a observar e comentar, todos na exploração, na redescoberta de um 'eu' projectado e revisto nos reflexos e nas sombras, consciencializando-se da volatilidade também do acto criativo. Inclusive, a arte apoiada na acção, na performance, foi um dos conceitos explorados e explicitados, numa aproximação ao teatro de sombras chinês.
     À sombra da mensagem de Lourdes Castro, a da norte-americana e contemporânea Dara Birnbaum desmonta o brilho que os diferentes media propõem. A crítica impõe-se relativamente ao tratamento que subsiste numa visão feminina - captada em séries como Wonder Woman ou Love Boat - que perpassa subtilmente no seio do consumismo mediático (e que, eventualmente, perpetua preconceitos).

     A descoberta da estética, a dimensão da arte representada e a busca de sentidos foram o exercício para uma tarde planificada pelo grupo de Filosofia da Escola Secundária de Gondomar, acompanhada por professores de Português e Directores de Turma associados. E, depois, os sentidos do jardim não deixaram de ser também explorados.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

De Camilo a Régio, para literatura feita de viagem

      Para isto servem as pausas: ver, ler, ouvir e sentir a literatura que vai oficialmente escapando aos nossos sentidos.

      A viagem teve como destino, na manhã, S. Miguel de ... ora Seide ora Ceide (indicações para diferentes gostos gráficos, sempre em comunhão homofónica). Momento para recordar Camilo Castelo-Branco, o seu tom sarcástico e irónico de escrita; um percurso de vida entre o aventureiro, o crítico e ousado, o sofrido; um homem que enfrentou o próprio tempo.
     Da casa onde pôs termo à vida ao Centro de Estudos Camilianos... um atravessar de rua para se acompanhar uma exposição sobre as mulheres do escritor (da mãe, das diferentes companheiras, àquela que lhe seguiu os passos na literatura - ainda que, assim se diz, ele a preferisse na cozinha).
     À tarde, foi a vez de José Régio, um homem plural para (ou em) um escritor singular. 68 anos de vida para o defensor da "Literatura Viva": "Em arte, é vivo tudo o que é original. É original, tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística". Haja personalidade na obra, mas quanto a obedecer-lhe... assim o entenda o leitor.
     Entre a formação em línguas românicas, a docência de Português, a produção escrita e as colecções de arte popular antiga mais as de pendor sacro, José Régio impôs-se como figura de intervenção cívica e intelectual na primeira metade do século XX, sendo um dos fundadores do segundo modernismo português e da revista Presença.

Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira,
neto de ourives e filho de homem dedicado às artes e letras,
rendido à necessidade de trabalhar na ourivesaria
     




             Vila do Conde aqueceu os caminheiros com o sol que abrilhantou o dia, num contraste assumido com o espírito suicida do autor de Onde está a Felicidade? (1856); com a ambiência sofrida, vitimizadora e dominada pela arte sacra com que o criador de Confissão de um Homem Religioso (póstumo) traçou as divisões de uma casa herdada da tia-avó e madrinha, ao lado daquela em que havia nascido.

     De uma tertúlia andante se fez resumo, para o que da crónica a produzir muito haveria a escrever; mas, perante dois exemplos de escritores fisicamente pequenos (embora intelectualmente grandes na literatura e cultura portuguesas), tudo ficaria a esmo face ao que "doze apóstolos" puderam vivenciar.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Um calvário de peregrinos

     Em pleno dia de sol entalado entre dois dias chuvosos (qual dádiva divina), nova visita de estudo, com professores e alunos de 11º ano da ESG, pelas ruas do Porto.

    Eram cerca de 220 à procura dos sinais desse tempo barroco e de uma mentalidade que se plasmaram na arte prédica / sermonária de Padre António Vieira.

Torre dos Clérigos, arquitectada por Nicolau Nasoni,
com um nicho dedicado a S. Paulo no 1º andar.

Nas ruas e ruelas da cidade invicta
é bem visível uma arquitectura diferente,
marcada pelo tempo e pelo estilo
de uma mentalidade rebuscada,
em que a utilização da talha dourada,
dos azulejos e da policromia
revelam a vivacidade
e o dinamismo próprios
de uma sensibilidade barroca.

     Entre a Igreja de S. Francisco, a da Misericórdia, a de Santa Clara; a Sé do Porto; a Igreja de S. Lourenço - foram estas as cinco referências, entre as muitas da cidade, para uma manhã feita de peregrinos (quais carmelitas descalços e clarissas).

Pérola imperfeita, mas bela – tal como a cidade do Porto
Oculta está muita riqueza artística que é preciso redescobrir
Requinte na decoração e no pormenor
Talha dourada e azulejos abundantes: ouro sobre azul
Ostentação e saturação das sensações: festa dos sentidos

Barroco: embelezamento de espaços que são de todos
Arte e cultura significativas ainda no nosso século XXI
Renovação: entre o teatro da vida e a inevitabilidade da morte
Rococó, Maneirismo: afectação com todos os afectos
Ouro nas paredes das Igrejas: recolhimento talhado de exuberância
Criatividade nas artes - para a vida ser mais viva
Outrora de desequilíbrios, numa cidade que anseia ser mundo

Dos professores organizadores da visita

     Mais um tempo para alunos e professores sentirem que há muito mais vivências e mundos do que aqueles de que se fala dentro de uma sala de aula.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Morto, Assado, Fundido, Roubado, Arrastado... MAFRA

    Nova visita de estudo ao Palácio, Basílica e Convento de Mafra, com o 12º ano.

    Nunca o topónimo foi tão certeiro quanto ao sentido que um abade beneditino propôs para a palavra: morto (digo eu: de cansaço), assado (digo eu: pelo calor humano), fundido (digo eu: felizmente, com e num grupo de gente boa), roubado (digo eu: do descanso merecido), arrastado (digo eu: pela vontade de rever um espaço feito romance).

Fachada da Basílica e do Palácio de Mafra, ou o "Elefante branco" (Foto VO)

Capa da primeira edição da obra (1982)
    Certo de que não foi este o sentido para cada palavra nos tempos beneditinos, surge ele reinventado pela motivação que nos conduziu ao encontro com essa "brutidão de mármore", mandada construir pelo freirático rei (D. João V); um edifício setecentista que ecoa as palavras e as ideias contemporâneas de um autor, de um narrador, de um homem "levantado do chão" à qualidade de um Nobel.
   Uma visita excepcionalmente guiada, seguida da encenação de Memorial do Convento, ambas a convocar a leitura das páginas do livro de Saramago, pela extensão que o oral tem aí de representado.
    Tudo se faz da vontade e do sonho que alimentam a intriga da obra, numa mensagem universal. À data da publicação (1982), Bartolomeu Lourenço diz a Blimunda que serão necessárias duas mil vontades para a passarola voar; à data da leitura que compõe os nossos dias, diria que são precisas três mil.
   Cumpram-se as megalomanias de um homem; sacrifiquem-se os homens; inaugurem-se as obras por concluir; divorcie-se o amor natural e puro, a vida feliz e o progresso da ciência, por um lado, da absolutização do poder de um pequeno grupo, da cegueira da fé, da máscara ou farsa cortesãs, por outro. Assim se recria e questiona a História, o ciclo da vida.
   Houvesse vontade e sonho e os universos alternativos seriam possíveis: as passarolas voariam, as mãos e as pedras seriam o infinito um, o amor seria tocado pelo espírito da naturalidade e da sinceridade.

      Um dia que muitos tiveram a vontade de que tivesse sido mais (o infinito). Fica o registo para memória do tempo e das pessoas que partilharam esta experiência. Fica o sonho de um tempo diferente - condição natural a que o Homem aspira.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Constância vai sendo uma constante

      Uma visita de estudo que começa a ser uma tradição da escola, para os 10º anos de escolaridade da ESG.

     Lembro-me de, no ano lectivo 2007-2008, ter havido a feliz ideia de um conjunto de professores da Escola Secundária de Gondomar programar uma visita de estudo interdisciplinar (Biologia, Físico-Química, Português) para os 10º anos de escolaridade. Este ano lectivo, juntou-se Matemática.

       Regressámos a Constância - terra que, em tempo de Primavera, faz compreender a razão de o nosso épico quinhentista a ela se ter referido, se é que nela não viveu.

         Lá nos esperava a estátua da autoria de Lagoa Henriques, com os sinais de um homem-poeta que ainda não havia sofrido as agruras de África (preserva os dois olhos); que oferece a sua obra a quem a queira ler; que se encontra sob arcos sugestivos, a relembrar a praticamente certa vivência na Casa dos Arcos; que mantém o contacto directo com a natureza, num amor declarado a tudo o que se compagina com o "vi claramente visto".

Camões (Lagoa Henriques)

      O Jardim-Horto é espantosamente apresentado por uma colega de ofício, conhecedora da história (misturada com alguma lenda) de vida do poeta, bem como da poesia, por ela declamada a ponto de arrancar palmas do auditório. Para cada planta, há a citação de alguns versos da obra poética.

Ilha dos Amores (Lagoa Henriques)
       Junto à Casa dos Arcos, outra obra do mestre Lagoa Henriques: alusão à Ilha dos Amores. Bem foi dito aos alunos que preservassem os púdicos olhos de cenas que os pudessem chocar; mas, à semelhança da proibição de leitura do canto IX de Os Lusíadas nos tempos de Salazar, acabou por ser das peças artísticas mais observadas e com a maior atenção! Provada ficou a estratégia do fruto proibido como a que dá lugar ao que é mais apetecido. Faz lembrar o poeta, quando, nesse mesmo canto, assumia que "Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo."
       Tudo se conjugou para a busca de sentidos.
      Nem mesmo a visão geocêntrica do mundo, apresentada aos nossos olhos de herdeiros heliocêntricos, menorizou a estada numa terra que teve em José Coelho a generosidade e a dádiva reconhecidas em diferentes pontos da localidade. Mesmo junto ao Centro da Ciência Viva, lá se encontra o monumento que "espelha" a Máquina do Mundo camoniana, com os seus sete céus ou as sete esferas em torno da Terra:

A Grande Máquina do Mundo (José Coelho)

"Debaxo deste grande Firmamento,
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
Júpiter logo faz o movimento,
E Marte abaxo, bélico inimigo;
O claro Olho do Céu, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo,
Mercúrio, de eloquência soberana;
Com três rostos, debaxo vai Diana.

Em todos estes orbes, diferente
Curso verás, nuns grave e noutros leve;
Ora fogem do Centro longamente,
Ora da Terra estão caminho breve,
Bem como quis o Padre omnipotente,
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
Os quais verás que jazem mais a dentro
E tem co Mar a Terra por seu centro".
in Os Lusíadas, de Luís de Camões
(Canto X - est. 89-90)

      Se é certo que a Literatura não é cópia da realidade, muito dela tem vivido. Um homem culto como Camões não deixou de apresentar poeticamente essa cosmovisão geocêntrica, ptolomaica que vigorou ao longo de cerca de quinze séculos (sécs. II - XVII). Nem Philolau (séc. V a. C.) nem Hicetas de Siracusa (séc. IV a. C.) veriam as suas teses (da Terra enquanto esfera girando em torno de um "fogo central", a que faltava dar o nome de "sol") reconhecidas senão nos séculos XVI, com Copérnico, e XVII, com Kepler e Galileu.

     Assim se fazem as revoluções do conhecimento, sem que se desmereça o valor heróico dos que (ainda) o desconhecem. Neste sentido, a literatura acaba por ver mais longe... numa atitude modelar.