terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Tretas do 'Bom Português'

     Quando se fala do que não se sabe dá nisto!

    Uma coisa é a brincadeira ou a comédia, num registo em que quase tudo vale (mesmo que nem sempre se aceite):

Excerto do trailer "O Leão da Estrela" (remake de 2015)

Imagem do "Bom Português" (programa difundido hoje na RTP1, às 07:23)
   Outra bem dife-rente é a situação objetivada na informação e no ensino de alguma coisa. Caso para dizer que, assim, é preciso ter "cuidado com a língua" (só para citar um título de um outro programa televisivo preocupado com o uso correto da mesma). Isto de a repórter / entrevistadora ir perguntando aos transeuntes se 'antissocial' é uma ou são duas palavras nem ao diabo lembra. E já nem falo de o hífen (sinal gráfico) ser designado como "um traço". Pior ainda é quando, por indução de quem lhes faz a pergunta, quase todos os entrevistados repetem "duas palavras" (veja-se os dois dedinhos da interlocutora, na imagem, a evidenciar o dito). Lamentável, em toda a ordem!
     Se o cómico do excerto fílmico resulta pelo facto de todos saberem que 'im' não é uma palavra (por mais que a personagem a apresente como tal), é triste que alguém ligado a um programa orientado (pretensamente) para o "bom português" esteja a pensar (e a dizer) que 'anti' é uma palavra. Por mais variáveis que sejam os critérios para a definição desta última, não é aceitável o desconhecimento de que 'anti' é um afixo, constituinte morfológico tipicamente usado no processo de derivação e colocado à esquerda de uma base derivante. Não se trata de uma palavra composta, definitivamente.
     Antissocial é, efetivamente, uma palavra complexa derivada de uma base ('social') à qual se adicionou o prefixo ('anti').

    É impressionante (uma palavra complexa derivada por sufixação, registe-se, já agora) como a televisão contradiz tanto professor de Português. Logo, não é serviço público de bom exemplo para ninguém. E não se pode dizer que seja a primeira vez!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Leão (que não o é) da Estrela (que era Branca)

    Depois de O Pátio das Cantigas, chegou O Leão da Estrela, com a Canção de Lisboa já anunciada.

   Por mais que se ouça no filme que tudo o que é inusitado se parece com um filme de 1947, o remake de Leonel Vieira pouco tem a ver com o original, tal como já havia acontecido com O Pátio das Cantigas (1942).
    A comédia de enganos portuguesa, a preto e branco, de Arthur Duarte, ressurge quase setenta anos depois, não com António Silva - Anastácio, administrativo adepto do Sporting a preparar-se para um 3 a 1 contra o Porto (que se fica por 2-1) no estádio do Lima, mas, desta feita, a cores, com Miguel Guilherme - Anastácio funcionário das finanças, adepto dos Leões de Alcochete a sofrer a derrota por 2-1 contra o Inferno Futebol Club num estádio alentejano.


Um dos trailers de 'O Leão da Estrela' - Novos Clássicos (2015)

    Na deslocação para assistir ao jogo (num estádio "lindo" de um pequeno clube local), Anastácio leva a sua família para terras alentejanas, ficando esta alojada na casa de uma família rica (ironicamente, Barata) cujo filho (André Nunes) é "amigo" de Facebook de Jujú (Sara Matos). Realidades para um tempo novo, moderno, afastado da década de quarenta do século passado e das tradicionais rivalidades (clubísticas e de sotaque) entre Lisboa-Porto.
    O fim interrompido do filme atual (sabe-se lá como correrá a vinda dos Barata a Alcochete, para dar o aval ao casamento do filho com Branca, que foi Estrela) é uma revisão da sugestão de pedido de casamento não pronunciado do comandante aos pais de Jujú no final do clássico português (dado que não comparece na versão atual, para além de os papagaios de outrora terem sido substituídos por um peixinho laranja, que acaba por morrer). Filipinho permanece motivo de riso em ambas as películas. A comédia instala-se nalgumas (poucas) cenas, nalgum (previsível) nonsense e nalguns (repetidos) tiques de personagens, nomeadamente os de registos de língua cruzados com pronúncias muito marcadas, seja a dos alentejanos seja a do novo-riquismo afetado (de que a forma de tratamento "você" é mero exemplo).

Pormenor do cartaz 'Novos Clássicos' (com réplicas do filme)

      É verdade que é comédia (embora, para mim, os bloopers finais tenham resultado melhor do que o sorrisos surgidos ao longo do filme); usa-se e abusa-se dos enganos, tal como no original (desta feita mais deslocados para a influência do par Anastácio - Jujú), mas não posso dizer que o resultado seja extraordinário, mesmo por comparação com o resultado da adaptação de O Pátio das Cantigas. Valham as interpretações de Miguel Guilherme (Anastácio), José Raposo (Barata), o mecânico Miguel e a "criada" Rosa (Aldo Lima e Dânia Neto), mais Alexandra Lencastre e Manuela Couto (Srª. Barata e Carlota) num contraste tão concertado (e sem concerto) que se constrói no seio de tanto logro a saltar à vista (e ao ouvido) do espectador entre as máscaras (re)criadas.

   Conclusão: como diria Anastácio, "isto das mentiras é uma coisa lixada. Um gajo perde-se nisto"! Venha o terceiro (que, pelos vistos, antigamente, foi o primeiro de todos).

sábado, 26 de dezembro de 2015

No coração do mar

    Título de filme atual baseado numa obra que retrata um facto inspirador para um épico da literatura oitocentista norte-americana.

   Aquela obra que Nathaniel Hawthorne considerou ser um exemplo moderno da epopeia homérica aplicada à literatura norte-americana nasceu a partir do sucedido e relatado neste filme.
    Não se trata propriamente de uma adaptação cinematográfica de Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891), mas, antes, das condições de produção desse romance pelo escritor norte-americano. Daí este aparecer, na intriga da película, como personagem, pesquisando os motivos que viriam associar-se à construção desse mito literário identificado com uma baleia branca (ou albina) - verdadeira metáfora do poder animal e natural contra o interesse humano da altura (aproveitar-se da gordura animal para um sinal da modernidade do mundo de então: a iluminação a óleo das cidades e o comércio associado à caça baleeira). 
   O filme adapta a obra homónima de Nathaniel Philbrick (publicada no ano 2000), que narra a verdadeira história dramática vivenciada pela tripulação do navio Essex, em 1820 - facto que também resultou na realidade inspiradora do romance Moby Dick (1851).

Trailer do filme (2015)

      Sob a realização de Ron Howard (o mesmo de “O Código Da Vinci”), assiste-se a uma história na perspetiva do velho Thomas Nickerson (Brandan Gleeson), traumatizado com o que vivera como jovem navegador (Tom Holland) do baleeiro Essex. Em analepse, é ele que dá a conhecer a Melville (Ben Whishaw) o vivido e por longos anos silenciado, por os acontecimentos se pautarem pelo que há de mais terrífico, trágico e simultaneamente heroico. Quer o escritor quer o espectador ficam a saber como sucedeu o naufrágio do Essex, a par do confronto da fúria animal em alto mar com o interesse dos homens; do conflito aceso entre o capitão George Pollard Jr. (Benjamin Walker) e o imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), que aspira a ser comandante de um baleeiro; da questionação que os sobreviventes revelam acerca de tudo aquilo em que acreditavam (desde a dignidade e honra pessoais ao verdadeiro sentido e valor da vida humana) mal se veem à deriva durante meses em pleno mar, aflitivamente lutando contra forças que os dominam. Impõem-se a experiência marítima e um instinto de sobrevivência que supera os limites de qualquer código moral, ético ou pessoal. Se uma tempestade não destruiu por completo a embarcação, viria a fazê-lo uma baleia, numa resposta à teimosa ousadia do Homem. Quando este para, também aquela deixa de atacar.
     No final do filme, a crença na palavra de Chase e na lealdade (ainda que infrutífera) para com o amigo que deixa numa ilha à espera da salvação; o reconhecimento de Pollard face aos acontecimentos vividos e não aos que comerciantes e companhias de seguro queriam fazer crer por imperativos financeiros; os silêncios que são ultrapassados para se viabilizar uma ficção inspirada na realidade são a constatação de que Moby Dick é uma possibilidade apenas para a certeza de que o Homem tem nas suas mãos o cumprimento das promessas que faz, a afirmação da verdade vivida e a vontade de não querer repetir aquilo que aconteceu e se aviltou.
     Esperando mais dos efeitos fílmicos (nomeadamente no que aos conflitos com a baleia diz respeito), não nego a qualidade dos grandes planos (essencialmente focados nas forças naturais) e os picados que minimizam o poder dos homens. Ainda assim, o drama da vida parece estar mais nos conflitos criados pelos humanos do que nos confrontos propostos pela natureza (e que, mais cedo ou mais tarde, desaparecem).

      A baleia albina é uma força; os homens são outra. Por mais que estes se queiram sobrepor, é aquela que sobrevive para se tornar mito. A humanidade tem, porém, sempre a hipótese de se recompor, caso não se renda àquilo que não quer ou à mentira declarada. Nisso, o filme apresenta uma mensagem de esperança, por mais que esta se situe no plano da ficção.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

P'ra cima!

    No dia de Natal, há que elevar o espírito.

    Para isso, nada melhor do que uma música positiva, com energia em crescendo e uma mensagem estimulante.
     Assim o diz o título, a letra e o fecho da canção.

Montagem com compacto de 'Up&Up' dos Coldplay 
(a partir da reprodução de Tito TiVi)

    Up&Up

fixing up a car to drive in it again
searching for the water hoping for the rain
up and up, up and up
down upon the canvas, working meal to meal
waiting for a chance to pick your orange field
up and up, up and up
see a pearl form, a diamond in the rough
see a bird soaring high above the flood
it’s in your blood, it’s in your blood
underneath the storm an umbrella is saying
sitting with the poison takes away the pain
up and up, up and up it’s saying

we’re going to get it get it together right now
going to get it get it together somehow
going to get it get it together and flower
oh oh oh oh oh oh
we’re going to get it get it together I know
going to get it get it together and flow
going to get it get it together and go
up and up and up

lying in the gutter, aiming for the moon
trying to empty out the ocean with a spoon
up and up, up and up
how come people suffer how come people part?
how come people struggle how come people break your heart?
break your heart
yes I want to grow yes I want to feel
yes I want to know show me how to heal it up
heal it up
see the forest there in every seed
angels in the marble waiting to be freed
just need love just need love
when the going is rough saying

we’re going to get it get it together right now
going to get it get it together somehow
going to get it get it together and flower
oh oh oh oh oh oh
we’re going to get it get it together I know
going to get it get it together and flow
going to get it get it together and go
up and up and up

and you can say what is, or fight for it
close your mind or take a risk
you can say it’s mine and clench your fist
or see each sunrise as a gift

we’re going to get it get it together right now
going to get it get it together somehow
going to get it get it together and flower
oh oh oh oh oh oh
we’re going to get it get it together I know
going to get it get it together and flow
going to get it get it together and go
up and up and up

oh-oh oh, oh-oh oh oh oh oh

fixing up a car to drive in it again
when you’re in pain
when you think you’ve had enough
don’t ever give up
don’t ever give up

    Com músicas destas até o dia fica melhor, na evocação do espírito resistente, resiliente. Não é preciso uma típica cantiga de Natal, por mais que também as haja ao estilo do grupo.

   É por estas e muitas outras (canções) que Coldplay (banda que tem estado à altura dos acontecimentos) anda comigo no carro, até para manter "A Head Full of Dreams" (título da sétima compilação de músicas recentemente editada). Dá para esquecer alguns pesadelos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Uma história de natal... muito "frozen".

      Em época natalícia, quando o espírito é outro...


     No meio de tantos votos, mensagens e motivos de Natal, rendi-me à partilha de um pequeno filme com o boneco de neve Olaf (de Frozen), para que a quadra não passe em branco - por mais branco que o frio cenário do evento convoque:

Funny Frozen Xmas
(in https://www.youtube.com/watch?v=jwrHom-Wepw)

     Com a nota de algum cómico, formulo, portanto, os votos de um Natal feliz para todos os que passeiem nesta carruagem e nela encontrem algum calor e espaço / tempo de viagem nesta vida.

      ..., talvez seja melhor rir, para alguma alegria mostrar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Aproxima-se o Natal ou o natal

      Este é o natal que eu não queria.

     Vendo os que correm atrás da(s) última(s) compra(s), são também visíveis os que não saem à rua nem vão atrás dela(s); os que não correm porque permanecem deitados sobre um cartão (talvez de uma caixa de encomendas desses bens que outros compram numa loja qualquer), na melhor das hipóteses sob um cobertor, a esconder o frio, a fome e a vergonha.
     Então recordo a voz de Paulo de Carvalho, a música de Fernando Tordo e os versos de Ary dos Santos:

 
Vídeo de Fernando Filipe, para uma versão de "(Natal) Quando o Homem Quiser"

       QUANDO UM HOMEM QUISER

Tu que dormes à noite na calçada do relento 
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento 
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme 
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume 
e sofres o Natal da solidão sem um queixume 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

Natal é em Dezembro 
mas em Maio pode ser 
Natal é em Setembro 
é quando um homem quiser 
Natal é quando nasce 
uma vida a amanhecer 
Natal é sempre o fruto 
que há no ventre da mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar 
tu que inventas bonecas e comboios de luar 
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei 
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei 
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

Ary dos Santos, in As Palavras das Cantigas
([1989] 1995)

     Outras versões (e outras vozes) noutros tempos... e permanece o natal que já antes existia:

Versão do projeto musical 'Rua da Saudade'
(Gentes da Gente, numa montagem de César Azeitona)

     E, afinal, este natal persiste (há muito)...

     E não devia.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Complemento... qual?

    Mesmo a fechar o período letivo, a sintaxe ainda é preocupação de alguém.

    A questão surge na pertinente constatação de que há realizações linguísticas que ultrapassam as situações mais comuns.

    Q: Professor, no conto "A Aia", de Eça de Queirós, aparece a seguinte frase: "A leal escrava a ambos cercava de carinho igual". Podia dizer-me a função sintática do sublinhado?

Capa do conto queirosiano (ilustração de E. T. Coelho)
  R: Trata-se de um complemento direto (CD), conforme se pode detetar pelo teste de pronominalização (> A leal escrava cercava-os de carinho igual), numa realização do verbo 'cercar' próxima de 'cobrir' (> cobria-os de carinho igual) e com a preposição 'a' - de "a ambos" - numa ocorrência facultativa.
   Por estranha que possa parecer a identificação desta função sintática, é de relembrar que o complemento direto admite contextos preposicionados. Além disso, é de sublinhar que um desses contextos vai ao encontro da própria caracterização da personagem 'aia' - marcada por uma perceção ou um entendimento sagrados quer relativamente aos seus senhores quer no que respeita ao próprio filho. O príncipe por ela salvo e o filho dela são as duas entidades referenciadas pelo pronome indefinido (correspondente ao uso pronominal de um quantificador) 'ambos', numa articulação clara do enunciado e do CD com um sentido religioso do tipo "Amar a Deus" (com "a Deus" igualmente a funcionar como complemento direto).
     Acresce ainda o facto de o teste da interrogação ([A] Quem é que a leal escrava cercava / cobria de carinho igual? > [A] Ambos) apontar para a conclusão atrás considerada (com a pronominalização), tal como a construção passiva viabilizar a colocação do complemento direto da frase ativa no sujeito da passiva (Ambos eram cercados / cobertos de igual carinho pela leal escrava).

     Na base deste esclarecimento, espero que esteja afastada a previsível noção de um complemento (o indireto), por, no caso, o sublinhado não poder ser substituído por "lhes" (na ocorrência de terceira pessoa).

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Regressões, regressos e algo mais.

     Praticamente a fechar o período letivo, tudo acontece.

     A motivação foi dada por uma turma de artes que deixou o seu registo no quadro, entusiasmada com a pausa que se anuncia. Ocupada a esquerda do quadro duplo branco, os alunos de humanidades não quiseram ficar atrás. Preencheram então a direita com a inspiração do momento, um tanto ou quanto influenciada pela sensibilidade que a leitura de um Ricardo Reis impôs.
     No final, ficou a fotografia para memória futura:

Era uma vez um quadro branco... (foto VO)

   O gozo de escrevinhar e desenhar, quais meninos a marcar a sua presença no quadro, surgiu tão instintivamente que, por momentos, nem dava para acreditar que a sala era ocupada por finalistas ou pré-universitários. Eram, por certo, seres feitos de vontade, (re)nascidos num momento libertador colorido de verdade e de realidade.
    Captado o breve instante (quatro minutos), ...

                                                                                                       Aos alunos do 12ºF

     Vi um foco de luz num embrião.
     Anuncia o nascimento. Razão
     Para neste mundo vivo lembrar
     Que a volátil vida, ao passar,

     Urde passado e presente num fio
     com amanhã de um mar feito de rio.

     Depois disto, a aula (porque o lema é "trabalho, trabalho e mais trabalho"), até ao toque da campainha.

    Assim se regressou, por momentos, ao tempo de infância (numa nostalgia que lembrou Pessoa ortónimo). Até pode ser uma regressão, mas foi uma forma de libertar sorrisos e caminhar para uma  atenção feita de inconsciência, de um ideal renovado, de uma utopia com um toque de recreação e (re)criação.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Tanto se fala... e o que se acerta?

    É um dado que, mal são publicados os rankings das escolas, não se fala de outro assunto.

    Seja para dizer quem está à frente ou atrás seja para discutir a (in)utilidade dos dados divulgados, há muita conversa e quase nenhuma decisão que permita alterar o estado de coisas.
   Pior do que isto é chegar-se à conclusão de que este instrumento (entendido por muitos como avaliador da qualidade e das práticas das escolas pelos desempenhos dos alunos nos exames nacionais) vale o que vale.
     Neste sentido, sorrio por causa da imagem seguinte:


    O sentido de justiça é questionado, por certo, pelo que se dá a ver; a lógica do "quase-mercado educativo" parece instalar-se no que às escolas diz respeito. Competem entre si, induzindo e/ou construindo mecanismos de seleção de alunos (pelo que, mais do que estes ou os respetivos EE poderem escolher as escolas, parece que são estas últimas - ou pelo menos as que têm condições para tal - a definir critérios ou procedimentos seletivos para os estudantes que as querem frequentar); assumem nos projetos educativos conceitos-chave como os de eficiência, eficácia, performance e produtividade, como se de uma empresa voltada para o produto se tratasse; algumas sentem a vulnerabilidade inevitável face à localização geográfica, às políticas locais, ao contexto social e económico, para além da(s) ideologia(s) subjacente(s) às orientações dos diretores de escola; outras dizem-se muito exigentes e rigorosas; muitas colocam a ênfase nos resultados, particularmente nos de exame.         
   Não longe deste retrato, antevê-se, um pouco na linha de Lawrence Berg e Michael Roche ("Market metaphors, neo‐liberalism and the construction of academic landscapes in Aotearoa/New Zealand", in Journal of Geography in Higher EducationVolume 21, Issue 2, 1997, pp. 147-161), como a educação é perspetivada segundo um discurso típico da racionalidade económica, produzindo vencedores e vencidos, numa aceitação de que interessa investir nos que oferecem mais garantias de sucesso.
     Quero acreditar que a ação da escola está muito para além disto, até pelo sentido educativo de integração, formação que procura desenvolver junto dos alunos em geral. Por isso, relativizo estes rankings que nada dizem das contingências que marcam as escolas, procurando apenas ver a ação delas espelhada num instrumento que não é sequer nela construído nem atenta na diversidade de aprendizagens e de sucesso(s) muitas vezes conquistado(s) ao longo de vários meses e anos - e que não cabem numas horas de exame. É neste momento que não desejo ver as organizações escolares a resultar em ações para uns poucos desprezando a qualidade de muitos e/ou para todos. E as diferenças que existirem entre critérios / instrumentos / atividades / avaliações contínuas e formativas / práticas endógenas ao processo de ensino-aprendizagem de algumas instituições  que sejam assumidas como tal, pois não podem compaginar-se com discussões entre aproximações e distâncias face a critérios / instrumentos / avaliações sumativas externas ou exógenas às condições em que o ensino-aprendizagem se processa, não individualizando nenhum projeto de ação.

    Estar certo ou corrigir o que não interessa (para harmonizar e pôr bem o que não esteja como tal), por vezes, são situações que interessaria compatibilizar (até pela polissemia associada no verbo 'acertar'), não fosse haver enviesamentos que fazem com que frequentemente nem uma nem outra ocorram. Parece mesmo que, todos os anos, vemos uma montanha a parir um rato. Também este podia figurar na imagem (já agora)!
       

sábado, 12 de dezembro de 2015

Há cem anos...

     Um século passado e a voz não se apagou.

    Considerado por muitos como "The Voice", Frank (Francis Albert) Sinatra nasceu em 1915. Foi caso de sucesso pela década de 40 desse século, popularizando géneros musicais como o swing, o blues, o jazz, saídos dos salões, bares e locais em que habitualmente se ouviam para os espaços de espetáculo mais abrangentes, menos seletivos. Hoje poucos são os ouvidos que não tenham escutado algumas notas dos seus êxitos.
    "Night and Day" (1932), "Let it Snow" (1945), "Fly me to the moon" (ou "In other words", 1954), "Moon river" (1961), "My way"(1967), "New York, New York" (1977) são muitos entre os variadíssimos títulos musicais que frequentemente se lhe associam, mesmo tratando-se (apenas) de versões que o "mister blue eyes" acabou por celebrizar (mais do que os cantores originais). 


Música de Henry Mancini e letra de Johnny Mercer
(óscar para a melhor canção do filme Breakfast at Tiffany's, interpretada por Audrey Hepburn)

       MOON RIVER

Moon river, wider than a mile
I'm crossing you in style some day
Oh, dream maker, you heart breaker
Wherever you're going
I'm going your way

Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after the same rainbow's end
waiting, round the bend
My Huckleberry friend
Moon River, and me

     "Come Fly with Me" (1958), "Strangers in the Night" e "Something Stupid" (1966) são outros êxitos de uma lista infinda que coube na voz dessa estrela (ainda) à vista dos transeuntes no Passeio da Fama. Aí se lembra não só o que Sinatra cantou mas também o que representou (na vasta filmografia que compõe a sua carreira).

    "The best is yet to come" (1959) foi a última melodia cantada em público - de novo uma versão. Figura esse título-pensamento na lápide do cantor (falecido em 1998), como se a morte não impedisse o anúncio do futuro.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Toca a andar!

        Em tempos em que apetece parar, ainda há quem esteja preocupado com 'andar'.

        Para a pergunta vinda, ponho já a resposta a andar.

        Q: Há alguma hipótese de considerar o verbo 'andar' como um verbo copulativo?

        R: Naturalmente que sim.
        Trata-se de um verbo com grande versatilidade em termos de classificação. Desde logo, a oposição verbo auxiliar / verbo pleno é um dado a considerar. No primeiro caso, 'andar' antecede o verbo principal (mediado por preposição) e associa-se a uma natureza temporal-aspetual evidente, encarada pela sua iteratividade ou duração num dado intervalo de tempo:

     i) Ultimamente, os jovens andam a ver muitos filmes violentos.

        No segundo, o de verbo pleno, está em causa um verbo com o traço semântico de movimento:

       ii) Andei cerca de três quilómetros, hoje.

       A realização enquanto verbo copulativo faz com que 'andar' associe ao sujeito sintático uma propriedade / caracterização (sintaticamente tomada como predicativo do sujeito):

      iii) Os alunos andam distraídos com coisas que não interessam para nada.

          De referir que o sentido durativo e repetitivo (num intervalo temporal) é um traço aspetual comum às três realizações (auxiliar, pleno, copulativo), até pelo que se implica no sentido do verbo pleno (ii), enquanto atividade levada a cabo em diferentes fases / etapas / passos (que não só apenas dados com os pés).

        Assim sendo, faz-se caminho ao andar (verbo pleno); mas para quem anda cansado (copulativo) parece que se anda a fazer tudo (auxiliar) para retardar o descanso. Toca a andar para lá chegar o mais depressa possível! Onde? Ao descanso, claro está!

sábado, 5 de dezembro de 2015

Do rio para o mar: no caminho dos modernos

     Por várias vezes me cruzei com ele, mais propriamente com o que escreveu, para não falar da estátua-homenagem que, na Foz, vê o casamento do rio e do mar.
Monumento na Foz do Douro a Raul Brandão,
de Henrique Moreira e Rogério Azevedo (pelo centenário do nascimento) -  Foto VO
       Assim o li ou revi noutras formas de expressão artís-tica nele inspiradas.
   Há oitenta e cinco anos morria Raul Germano Brandão. Quase ninguém dele fala, até por causa dos oitenta anos de um outro contem-porâneo do autor de Húmus (1917) ou O Pobre de Pedir (1931) - refiro-me, naturalmente, a um Fernando Pessoa, que não apaga os demais, mas se impõe pela grandiosidade que deles também colheu.
     Do prosador, dramaturgo e pintor nascido na Foz do Douro (a 12 de março de 1867) ficaram soberbas páginas plenas de uma paisagem geográfica, física e humana que respeita e resiste ao mar (ou não fosse ele descendente de quem com este conviveu). Subscritor do manifesto "Nefelibatas" (que sai no Porto, no findar de 1891), "andou nas nuvens" pela idealização e reflexão construídas, numa alternativa a um contexto finissecular e a uma sensibilidade pessimista e decadente que se impunham no período da sua existência.
     Num pensamento focado sobre a condição humana, o sofrimento, a angústia, o mistério e a morte, várias são as personagens traçadas pelo negrume dos ofendidos e humilhados, de uns miseráveis que (de humildes e espezinhados) se revelam num grito de sensibilidade ferida pelo espetáculo degradante do mundo; pelo gosto literário novo da apreensão dos matizes da vida psicológica, na sua complexidade e evanescência.
      Aproximando a escrita poética e filosófica, muita da prosa brandoniana coloca em causa os modos de representação do real, sublinhando, preferencialmente, uma meditação sobre a metafísica da dor, o absurdo da condição humana. As categorias narrativas do tempo, do espaço, da ação / intriga e das personagens esboçam simbolicamente um universo mais abstrato do que concreto, como pano de fundo para o drama secular da luta do homem entre o sonho e a desgraça. Assim a vila / vida de Húmus se apresenta; a árvore, enquanto símbolo simultâneo de prisão terrena e ascensão celestial, se mostra sustentada de desgraça ("As suas raízes alimentaram-se deste húmus - a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos", in Os Pobres, de 1906); o discurso fragmentado se compõe e recompõe, refletindo o reconhecimento da densidade psicológica, divagante e divagadora no(s) tema(s) pensado(s); o pluricódigo literário, artístico se afirma, numa combinação de reflexão, sensibilidade e produção escrita orientadas para um discurso coerentemente sincopado, fragmentado, típico de uma existência (e por que razão não já dizer de um existencialismo avant la lettre) em crise, para um gosto estético do tempo.

      Na sua obra poética, Verlaine escreveu "Il pleure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville
"; na vila / vida de Raul Brandão, "O Homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte. De dor também". Eis uma visão e conceção modernas, prenunciadas num tempo ligeiramente anterior ao Primeiro Modernismo português.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Predicações semelhantes em construções diferentes

     A questão vem na sequência de um apontamento sobre completivas, com funções oblíquas.

     Pergunta uma colega, já com uma afirmação em mente:

    Q: Já agora, que estamos no mundo das completivas, na frase "Considero que o jovem está correto", apesar de o verbo ser transitivo-predicativo, a oração completiva configura apenas um complemento direto, não é? (E já agora, para quando uma publicação - escrita - com estas dúvidas e esclarecimentos?)

     R: O exemplo proposto dá conta de uma realização do verbo 'considerar' num enunciado com a seguinte configuração semântico-sintática: X CONSIDERAR que F (sendo X o argumento externo, identificado com o sujeito sintático, e F o argumento interno, com a frase / oração subordinada introduzida pela conjunção completiva 'que'). 
      "Que o jovem está correto" é, efetivamente, o complemento direto de um predicado que tem como núcleo um verbo transitivo (e não transitivo-direto). O que acontece é que há um mesmo significante léxico para realizações sintático-semântica distintas: uma com complemento direto (CD); outra com CD e predicativo do CD. É neste último caso que se fala de um verbo transitivo-predicativo.
          Comparando as duas construções em análise (I e II) -


- , é possível concluir que a segunda (transitiva-predicativa) é uma versão condensada da primeira (a qual apresenta explicitamente em F a estrutura predicativa 'Nome + SER / ESTAR + Predicativo' integrada numa substantiva completiva). A redução desta última em II é o que faz dizer que a construção transitiva-predicativa integra uma oração curta (sem explicitação do verbo copulativo 'estar').

     E, já agora, quanto à publicação, se houver uma editora interessada em publicar estes contributos (e não tanto em formatar a cabeça de professores com exercícios e respostas / soluções já prontinhos, de modo a não terem que pensar muito - como se para ensinar e aprender tal não fosse necessário), até pode ser uma hipótese a considerar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

É bom que nos comportemos!

     Chegou a hora de nos comportarmos. Se bem se mal, logo se verá!

     Não se pretende que este seja um apontamento de etiqueta ou de regras de comportamento. Ainda assim, convirá que seja tido em mente.
       
   Q: Vítor Oliveira, por favor diz-me que "portar-se bem" ou "portar-se mal" se encaixa na classificação perífrase factitiva, sendo que não devemos analisar a função dos elementos separadamente. Obrigada.


     R: Digo que sim. Ainda assim, é preciso fazer alguns reparos.
      Desde logo, a questão do termo 'factitiva'. Este designa um mecanismo de redução sintática, redução da transitividade, com apagamento do agente / instrumento / causador e a apresentação da marca 'se' a configurar esse mecanismo. Assim se obtém uma construção incausativa (ex.: 'A chave abriu a fechadura' > 'A fechadura abriu-se'). Não vejo como 'portar-se bem / mal' possa ser representativo disso.
      Percebo o uso da 'perífrase', embora não entenda como a expressão pode dar lugar a uma só palavra (no cumprimento de que a perífrase é o recurso a uma expressão longa ou de várias palavras que podem ser substituídas por uma só).
     De resto, é de assumir que o verbo '(com)portar-se' é um exemplo de lexema complexo, pertencente ao conjunto dos chamados verbos intrinsecamente pronominais, tal como 'abster-se', 'apaixonar-se', arrepender-se', 'condoer-se', 'queixar-se' e 'suicidar-se'. Numa composição do verbo com o pronome, este último não desempenha qualquer função sintática; é usado com uma forma de pronome pessoal concordante em pessoa e número com o sujeito, mas sem qualquer valor semântico ou sem possibilidade de substituição por um complemento direto lexical ou pronominal (ex.: *'O José apaixonou o António / -o pela Carla').
       A unidade da expressão '(com)portar-se bem / mal' é ainda justificada pelo facto de '(com)portar-se' remeter para um predicado com um só argumento, não dois - isto é, em termos semânticos, não se denota uma relação binária entre entidades, mas um “predicado complexo”, de valor claramente intransitivo (só com um argumento externo). Numa frase do tipo 'A jovem portou-se bem / mal', não se relaciona a entidade designada por 'a jovem' com uma outra designada por 'mal'; o advérbio reflete uma das modalidades possíveis do predicador '(com)portar-se', numa interdependência entre o verbo e o termo ou a expressão de maneira nele implicado, mas sem valor referencial (de entidade, de localização temporal ou espacial). 
     Assim, à semelhança de 'cheirar bem / mal', 'vestir bem / mal', 'saber bem / mal' (no sentido percetivo, gustativo), 'sair-se bem / mal' e 'sentir-se bem / mal', o verbo contém uma dimensão do modo / da maneira que surge explicitamente transmitida no advérbio. O mesmo pode ser revisto em combinações do tipo 'bater certo', 'deitar fora', 'fazer bem / mal', 'ir longe', cujos 'predicados complexos' são representativos de lexicalizações associadas a algumas derivas semânticas.

       Dito isto, "não devemos analisar a função dos elementos separadamente". Agora, vou 'vestir-me elegantemente' (cá está mais uma situação), perfumar-me para 'cheirar bem' (mais outra), para 'me sair bem' (não há duas sem três) e 'me sentir feliz' (afinal havia outra).

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Voltando à transitividade indireta

     De volta à sintaxe e às funções sintáticas. Assim seja!

     Porque há construções que trazem algumas particularidades à análise, aqui vem nova questão, para mais uma resposta.

      Q: Na frase "Não gosto que saias sozinho à noite", a oração subordinada completiva desempenha a função sintática de complemento direto ou oblíquo? Quando faço os testes de questionação ou de substituição, inevitavelmente, faço-os acompanhar da preposição "de" - "De que (é que) não gosto?"; "Não gosto disso".

       R. Precisamente pelos testes de veri-ficação apontados, trata-se de um complemento oblí-quo.
      Contrariamente a outros verbos que admitem variação na transitividade e na construção que configura esta última (nomeadamente com a aplicação de testes que reconhecem essa possibilidade de variação), o mesmo não sucede com a frase proposta, por causa do verbo na frase matriz (GOSTAR). Este implica uma estrutura argumental apoiada no uso de um complemento oblíquo, independentemente da sua configuração. Trata-se, pois, de um verbo transitivo indireto, com a possibilidade de a preposição surgir ou não:

    Isto de gostar ou não (seja lá DO que for) não tem variação, por mais que seja omitida a preposição (com ou sem contração).

sábado, 28 de novembro de 2015

Nem tudo o que parece é!

      Alguém se queixava há pouco tempo de já não saber em quem acreditar...

     É fruto dos tempos, cada vez mais relativizados em referências, até porque muitas destas acabam por se desacreditar. Fica-se tudo por uma questão de publicidade, de imagem que interessa passar para um público que, não tendo muitas vezes tempo nem condições para fazer o que deve, se limita a aceitar o que lhe dão (por razões frequentemente muito discutíveis).
     Tudo isto por causa de uma pergunta que me faz lembrar algo a que já respondi há cerca de cinco anos.

      Q: Na frase "A determinada altura, o Mestre de Avis parecia que estava a desanimar", consideras 'que estava a desanimar' um predicativo do sujeito? No meu manual aparece esse exemplo numa sistematização de funções sintáticas, na sequência do verbo copulativo 'parecer'. Este 'parecer' é um verbo copulativo? Quando puderes... Obrigada.

        R: Ora cá está um caso bem claro (a propósito do próprio verbo) de que nem tudo o que 'parece' é. Nem o verbo parecer é copulativo nem o segmento em causa é predicativo do sujeito. A preocupação em dar etiquetas, sem testar o que se pretenda ensinar, ou mesmo em colocar num mesmo saco elementos bem distintos resulta numa inconsistência evidente (para não lhe dar outro nome).
         Primeiro de tudo, considere-se a seguinte comparação:

         i) O Mestre de Avis parecia que estava a desanimar.
         ii) Parecia que o Mestre de Avis estava a desanimar.

       O verbo sublinhado em ambas as situações equivale a 'dar a impressão de', sem permuta possível com um outro copulativo. Dizer 'O Mestre de Avis parecia desanimado / estava desanimado / continuava desanimado / ficava desanimado' convoca configurações típicas de predicados com verbos copulativos seguidos de predicativo do sujeito; todavia, o mesmo não sucede com as frases i) e ii):

         i') * O Mestre de Avis estava / continuava / ficava que estava a desanimar.
         ii') * Estava / Continuava / Ficava que o Mestre de Avis estava a desanimar.

      Se, por um lado, não há aproximação de 'parecer' a um verbo copulativo, a subordinada completiva finita 'que estava desanimado' remete, por outro lado, para um sujeito subordinado colocado na sua posição típica (anterior ao predicado subordinado, como em ii) ou numa posição invertida (situado, por uma estrutura de elevação, antes do predicado subordinante, como em i).
        Ou seja, "O Mestre de Avis" em i) não é sujeito sintático do verbo ´parecer', mas sim de 'estava a desanimar', conforme se verifica em ii). Nessa medida, o predicado subordi-nante ('parecia X') tem como sujeito um lugar vazio, correspondente a um sujeito nulo expletivo (que, por exemplo, no francês correspon-deria ao pronome 'il' - 'il semble que...' - e no inglês ao 'it' - 'It seems that...'). Mais uma razão para, neste contexto, não se classificar 'parecer' como verbo copulativo, por não manter ligação entre sujeito (nulo) e uma propriedade deste último (predicativo do sujeito).
         Em suma, estamos perante uma realização de 'parecer' como verbo pleno, transitivo, seguido de um complemento direto ('que [o Mestre de Avis] estava a desanimar'). O facto de a frase matriz apresentar um sujeito nulo expletivo é razão para se viabilizar a elevação do sujeito subordinado ('o Mestre de Avis') para a posição do primeiro.

      E para que não julguem que isto é complicação ou novidade minha, basta ler o que João Andrade Peres e Telmo Móia referem a este propósito nas Áreas Críticas da Língua Portuguesa (Lisboa, Caminho, 1995, pp. 253 e seguintes). Já tem alguns anos, pelo que não é nova dos últimos tempos - já vai com vinte anos. Depois, se alguém certificou cientificamente o manual em causa, que responda publicamente pelo que fez (mal).
     

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Um "clássico" que é novo

       Não é contradição, não!

     "Clássico" é o título para uma nova canção do grupo português The Gift, banda de Alcobaça a celebrar 20 anos de carreira.
      A voz de Sónia Tavares junta-se aos nomes de Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro para dar continuidade a um projeto do género pop / rock / alternativo. Já com vários sucessos na sua discografia, este será, por certo mais um:

Vídeo Oficial de "Clássico", dos The Gift

          CLÁSSICO

Fecho a porta oiço um vazio
vou querer sobreviver ao dia de amanhã
olhos, cenas que não vou lembrar 
hei de encontrar, dignificar, 
o sol de uma manhã 

E agora, fraco ou forte, 
só me resta ir 
e acredito que no mundo 
há flores por abrir 
mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu 
Juntos sou eu, 
só eu 
E existe um só céu, uma febre pagã 
e depois de um sim ou não 
há sempre um amanhã 
e agora sinto que algo em mim aqui morreu 
juntos sou eu, 
só eu 
juntos sou eu, 
só eu 
juntos sou eu 

Fecho a porta oiço um vazio 
vou querer sobreviver ao dia de amanhã 

e o mar e o sol e a chuva 
só me fazem ir 
e acredito que no mundo 
há flores por abrir 
eu vou 

e agora, fraco ou forte, 
só me resta ir 
e acredito que no mundo 
há flores por abrir 
mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu 
juntos sou eu, 
só eu 

e o mar e o sol e a chuva 
só me fazem ir 
e no fim da grande estrada 
há sempre um partir 
mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu 
juntos sou eu 
só eu, só eu 
juntos sou eu, 
juntos sou eu 
só eu 

eu vou 
e sinto que algo em mim aqui morreu 
juntos sou eu, 
só eu 

e agora, fraco ou forte, 
só me resta ir 
e acredito que no mundo há flores por abrir 
e agora sinto que algo em mim aqui morreu 
juntos sou eu, 
só eu 
juntos sou eu, 
só eu 
juntos sou eu

      Na música de Nuno Gonçalves e na letra deste último com Sónia Tavares, os The Gift dão-nos uma canção para futuro (por mais que seja um "clássico"), com um caminho, uma partida (feita de algo que morre, mas que segue junto de um 'eu' a buscar amanhã). Melodia de eleição, numa fantástica interpretação. Bela mensagem e canção.

      Interessa fazer caminho. Ir em frente, fraco ou forte (por mais que seja o que apenas resta). É o clássico da existência humana (para que se mantenha como existência).

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Escolher é preciso!

      Já o indiquei por várias vezes. Volto a dizê-lo. E não cansarei de o repetir.

      Tudo surge na sequência de um pedido de esclarecimento.

     Q: Na frase "Leu a mensagem inscrita nos vitrais da igreja", qual é a função do sublinhado? Complemento ou Modificador? Obrigada.

       R: Antes de responder diretamente, começo por um pequeno alerta: a resposta a dar vai estar ao nível de uma função sintática interna e não de um primeiro nível de análise.
          A um primeiro nível há um sujeito nulo subentendido (Ele), um predicado ("Leu a mensagem inscrita nos vitrais da igreja") e um complemento direto ("a mensagem inscrita nos vitrais da igreja"). Este último encontra-se expandido por um modificador restritivo do nome ("inscrita nos vitrais da igreja"). Portanto, "nos vitrais da igreja" não é um modificador do grupo verbal / predicado nem se situa ao nível de análise implicado no processo de 'leu'.
          Considerando apenas o modificador restritivo do nome, verifica-se que este é configurado por um adjetivo ('inscrita'). Só que este adjetivo advém do verbo 'inscrever' (pela forma de um particípio passado), o qual seleciona complementos para saturar o seu significado, na estrutura argumental. Nesta medida, tal como o verbo selecionaria um complemento, o mesmo faz o adjetivo a ele associado, pelo que 'nos vitrais da igreja' é um complemento do adjetivo - função sintática interna, a um nível de análise já bem distante das funções nucleares (do sujeito, do predicado e respetivo complemento direto).


         Em suma, o sublinhado é um complemento, mas não de um verbo - sim, de um adjetivo.

       A complexidade na classificação do sublinhado assenta numa lógica de dependências (resultante da expansão dos grupos de palavras representados, entre os superordenados e os neles radicados). Espero que a consideração do complemento do adjetivo seja inclusivamente entendida segu(i)ndo a analogia que se estabelece com o verbo que lhe subjaz. Por certo, trata-se de um exemplo de análise para níveis de ensino mais complexos. Há que escolher bem os casos a trabalhar em aula.

      

domingo, 22 de novembro de 2015

Gravidade

     Por ser grave? Por haver atração? Eis a questão.

    Há palavras que, de tão polissémicas, combinam uma comunhão de sentidos tão estreita quanto a que os sentimentos permitem. 
     Assim o parece dizer a canção interpretada pela cantora-compositora americana Sara Bareilles:

Vídeo 'Gravity', cantiga interpretada por Sara Bareilles

                     GRAVITY

Something always brings me back to you.
It never takes too long.
No matter what I say or do
I'll still feel you here 'til the moment I'm gone.

You hold me without touch.
You keep me without chains.
I never wanted anything so much
Than to drown in your love and not feel your rain.

Set me free,
Leave me be.
I don't wanna fall another moment into your gravity
Here I am and I stand so tall, just the way I'm supposed to be.
But you're on to me and all over me.

Oh, you loved me 'cause I'm fragile
When I thought that I was strong.
But you touch me for a little while
And all my fragile strength is gone.

I live here on my knees
As I try to make you see
That you're everything I think I need here on the ground.
But you're neither friend nor foe
Though I can't seem to let you go.
The one thing that I still know is that you're keeping me down.

You're keeping me down, yeah, yeah, yeah, yeah
You're on to me, on to me, and all over...

Something always brings me back to you.
It never takes too long.

     No seio da polissemia, talvez haja alguma gravidade nessa outra que une dois seres que se ama(ra)m; contudo, bom é que a primeira deixe de existir por a segunda a relativizar ou tudo fazer para ela não se faça sentir.

     No ponto em que se concentram os corpos há a gravidade consentida, não a gravidade (que se quer) impedida, e preventivamente evitada (tudo uma questão de "to drown in your love and not feel your rain").

sábado, 21 de novembro de 2015

Complemento... qual, afinal?!

       E depois da formação, lá veio uma questão - com toda a razão!

     É que nem sempre a formação é suficientemente clara, particularmente quando ela ocorre num contexto nem sempre oportuno e/ou ajustado às experiências e às práticas profissionais destes tempos tão sobrecarregados (mas que alguém gosta de sobrecarregar mais ainda). Deve ser prova de resistência!     

      Q: Olá, Vítor. 
        Desculpa incomodar-te mais uma vez, mas saí há pouco de uma formação e fiquei com uma dúvida: qual a função sintática da oração subordinada substantiva completiva "Penso que ele está em casa"? Para mim, seria CD, mas afirmaram ser CO. Na minha opinião, seria CO se se tratasse de um grupo preposicional, tal como em "Penso em ti." Obrigada pela atenção.

       R: Olá.
      O caso apontado faz parte de um mecanismo, entre os muitos que constituíram um estudo linguístico ao nível da sintaxe, denominado de transitividade e possibilidades alternativas de codificação - que pode ser encontrado na obra Gramática de Valências: Teoria e Aplicação, de Mário Vilela (Coimbra, Livraria Almedina, 1992, pp. 61-64). Genericamente, considera-se que as construções do complemento direto (CD) são por vezes alternativas de outras, nas quais ganham relevo construções preposicionais associadas a um só verbo:

a) Ele pensa isso / Ele pensa nisso
b) O governo cortou os salários da função pública / O governo cortou nos salários da função pública
c) Ele atirou a bola ao colega / Ele atirou com a bola ao colega
d) Ela encontrou as amigas / Ela encontrou-se com as amigas
e) O criminoso puxou ou sacou a pistola / O criminoso puxou ou sacou da pistola
f) O jovem gozou o colega / O jovem gozou com o colega
g) Os alunos cumprem os deveres / Os alunos cumprem com os deveres.

       Assim, estes são exemplos de construções não tipificadas de complemento direto, com verbos que procuram tornar saliente o objeto direto (ainda que precedido de preposição), encarado enquanto caso acusativo. Por mais estranho que possa parecer, a verdade é que há complementos diretos introduzidos por preposição, na linha do que Maria Helena Mira Mateus et al. já sistematizaram na Gramática da Língua Portuguesa (Lisboa, Editorial Caminho, 2003, pp. 286-7). Independentemente disso, quando se ouve / lê "penso", é admissível a questão 'o quê?' (ou mesmo 'O que é que pensas?') e a pronominalização da oração subordinada pelo pronome 'isso' (Penso isso > O quê? > Que ele está em casa).
         Posto isto, concordo com o raciocínio inicialmente construído ("que ele está em casa" é uma subordinada substantiva completiva, com a função de complemento direto). Problematizo a afirmação final ("Na minha opinião, seria CO se se tratasse de um grupo preposicional, tal como em "Penso em ti."): por mais que esta seja verdadeira para o exemplo dado, não o é nas situações em que o complemento direto admite preposição. Acrescento, por fim, que o complemento oblíquo nem sempre aparece configurado com um grupo preposicional: pode sê-lo com um grupo adverbial, por exemplo, como em "Moro ali / longe / perto".

     Com isto termino. Há que escolher bem a formação, sob pena de ainda podermos sair deformados.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Dos frutos de ferro às árvores-fábrica

    Tudo a propósito da 'Ode Triunfal' de Álvaro de Campos.

Interpretação icónica por Catarina Cruz 
(in http://dcvcatarinacruz.blogspot.pt/2011/04/segunda-proposta-de-trabalho-alvaro-de.html)
     Entre tudo o que o poema possa ser, nas múltiplas inter-pretações dele feitas, a leitura de uma ode aos sinais dos tempos modernos (feitos de sensações de diferentes tem-pos) impõe-se quando o heteró-nimo pessoano se questiona sobre tudo o que ante-riormente abordou (desde a exaltação da fábrica e das máquinas à consideração de espaços e de tipos sociais pautados pelo dinamismo e pela vitalidade sociais e civilizacionais).
   Serve a interrogação para a progressão textual que introduz um novo dado significativo:


                               " (...) 
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 

                                      (...)"

     Afirma-se, então, o relevo do tempo, do "Momento" maiusculizado e repetidamente retomado, sempre feito de presente, a par das sensações a ele associados.
      Num texto de exaltação aos tempos modernos - nos quais a máquina, o motor, a fábrica, o calor, os óleos, a eletricidade e a voracidade se afirmam -, novos símbolos poéticos surgem. É o caso dos "frutos de ferro" e das "árvores-fábrica". A lógica integrativa dos primeiros nas segundas (seja pelos frutos das árvores seja pelo ferro que se revê nas fábricas) não deixa de resultar estranha aos olhos e ouvidos de alguns jovens, que julgam demasiadamente ousada e irreverente a construção destes novos conceitos artísticos.
    Não o achariam tanto se tivessem em mente a floresta de betão que algumas cidades têm, nomea-damente Roterdão, com as casas cúbicas - as Kijk-Kubus, em blocos de amarelo e cinza projetados original-mente pelo arquiteto holandês Piet Blom, nos anos setenta do século XX - no coração da urbe. São 38 habitações no total, com uma inclinação de 45º e pousadas sobre colunas hexagonais. Trata-se de um ícone arquitetónico construído acima do nível da estrada, com ruas e carros a passar por baixo, num sinal da modernidade e da reconstrução que a cidade tem vindo cumulativamente a sofrer desde os tempos da II Guerra Mundial.

      Uma ode ou canto poético lírico - em tom elevado e sublime - para um assunto de relevo e interesse para a humanidade. Assim acontece quando se fala do tempo, dessa categoria que na duração ou no instante acompanha a vida, a existência humana, por mais clássica ou modernista que seja.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Confusões... nada históricas (na língua, pelo menos)!

     Quando se procura abordar questões de História da Língua, na sua evolução fonética, dá nisto.

     Particularmente, tudo acontece porque frequentemente se confunde o domínio fonético (som) com o da grafia (escrita) e há a tendência para reproduzir erros.

   Q: A propósito dos fenómenos fonológicos de adição, a palavra 'home' é um bom exemplo para dar conta de uma paragoge do 'm' (home > homem)? Obrigado.

      R: Naturalmente, não é um bom exemplo, porque nem caso de adição (ou de inserção) se trata.
        Tomando como ponto de partida 'home' (que na forma arcaica da língua também teve a variante 'ome'), o que sucede na evolução 'home > homem' não é um caso de acrescentamento sonoro, mas a consideração de um traço de nasalidade na sequência vocálica final. Quando muito trata-se de um processo de nasalização - alteração de uma vogal / sequência vocálica final (coda silábica), a ponto de ganhar o traço nasal [~].
       Nesta medida, o 'm' é um simples grafema (letra) para registar, em termos de convenção ortográfica, a nasalidade presente no que poderia ser a representação fonética da palavra: [ˈɔmɑ̃j]

       E depois disto interessa-me dizer que da forma arcaica 'ome' para 'home(m)' também não houve nenhuma prótese (até porque o grafema 'h' não traduz nenhuma dimensão sonora como, por exemplo, no inglês, marcado pela aspiração).