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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Antes dos 70

     Na preparação do meio século de carreira.

     A voz dos Trovante, a voz de um percurso a solo pode continuar a cada vez que se cantar com o ritmo e a cadência musical familiar das canções que, coletivamente, se reconhecem. A marca deixada no cancioneiro da música portuguesa acompanha lutas grandes e pequenas, dentro e fora de portas.
    O dia nasce com a notícia da morte de Luís Represas, na discrição do que foi uma doença prolongada a pôr fim ao espetáculo ao vivo. Persistirá na memória dos que veem e ouvem as suas composições, letras e canto, mesmo estando agora "Fora de mão" (álbum de 2003):

Da voz que nos deixa à música que nos faz ouvir há décadas

    Sem querer trair a autoria inspiradora, diria que "As ruas da minha cidade abriram" não os olhos, mas os ouvidos, para se ficar a saber o que não se queria: partiu "sem deixar destino ou direção."

DA PRÓXIMA VEZ

As ruas da minha cidade 
abriram os olhos de encanto para te ver passar
As pedras calaram os passos 
e as casas abriram janelas só para te ouvir cantar
Porque há muito muito tempo não vinhas ao teu lugar
Ninguém sabia ao certo onde te procurar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Quisemos saber como estavas, 
se a vida tinha tomado bem conta de ti
Ou se a vida teve medo 
e eras tu que a levava refugiada em ti
Cada verão que passava sentíamos-te chegar
Como era possível que o sol se atrevesse a brilhar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Deves trazer tantas histórias, 
tantas que algumas ficaram caídas por aí
Outras, eu tenho a certeza, 
o teu fogo na alma queimou, deixaram de existir
Só queremos saber se és a mesma que vimos partir
Não existe mundo lá fora que te possa destruir
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

     Lembro-o por terras de Espinho, num palco junto ao casino, em concerto de verão, há mais de quinze anos. Soam muitas cantigas de sucesso, nas melodias e pelos propósitos da composição (por todos nós, por Cuba ou por Timor).

     "Se houver próxima vez não esqueças / leva contigo recordação...". Um dia, a festa será algures no universo. RIP.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Voltando a Aveiro, com Eça e/ou os Queirós

      O dia foi vivido em grupo (grande grupo), com saber, sabor e arte.

     Rumo à Veneza portuguesa, foi-se ao encontro de Eça e das pistas que a família Queirós deixou pela cidade, aquela que se diz ser "lugar das aves" (etimologicamente, 'aviarium').
      O ponto de encontro na Escola Secundária com 3º Ciclo Dr. Manuel Laranjeira refez-se, passada meia hora, na padaria / pastelaria Eça de Queirós, com alguns participantes que aí se juntaram ao convívio. A propósito, lá figura um painel azulejado, com um pequeno trecho de O Primo Basílio (1878): 

"Servia-se muito, com gula; 
depois picava um bocadinho da ponta do garfo, deixava, 
punha-se a comer côdeas de pão 
que barrava de manteiga". 

Na rua Capitão Lebre, na Pastelaria Eça de Queirós, há um painel com citação de O Primo Basílio (Foto VO)

      Na gula, coube um docinho a acompanhar o cafezinho.
   Roteiro na mão, organizado e inspirada e queirosianamente mente produzido pela professora Adélia Reis, o grupo preparou-se para a caminhada. À hora de pagar, veio a pergunta ao empregado do balcão: "Porque é que esta pastelaria tem o nome Eça de Queirós?" A resposta não tardou, apenas com algo de certeira e uma certa marca de familiaridade no trato: "Acho que o Eça morou para estes lados e a rua tem qualquer coisa a ver com ele". Não diretamente, porque na rua Capitão Lebre se localizava - nome caricato para António Tavares Lebre, figura influente local e nacional, um oficial do exército que, na primeira metade do século XX, marcou a vida social de Verdemilho (de que as romarias religiosas eram exemplo e, diz-se, alguma investigação para provar as andanças de Eça por estas paragens, nomeadamente a presença da então criança em Aveiro). 
   É nesta localidade que se situa a "Quinta da Torre", onde Eça passou alguns anos da sua meninice. Há quem o refira como o solar do avô Queirós (o conselheiro e desembargador José Joaquim de Queirós); melhor, contudo, é falar do que resta dessa propriedade: uma fachada velha e degradada do que foi um palacete brasonado, resistindo à desamparada queda final e ainda disputando, com a Torre da Lagariça, o 'locus' inspirador para A Ilustre Casa de Ramires (1900); e talvez o espaço de infância de Carlos n'Os Maias (1888) ou mesmo a memória e o retrato criativos do jacobino e liberal avô Afonso da Maia. 

Por terras de Verdemilho, na busca de vestígios da presença queirosiana (Fotos e montagem VO)

       Junto a um posto de gasolina da Prio, no limite da Avenida Europa, uma rotunda tem no seu centro um monumento ao escritor realista-naturalista, com a cabeça empalada num pilar, um brasão estilizado da família e um excerto do pensamento transcrito das Notas Contemporâneas (publicação póstuma, 1909)): "A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da Terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas". Ironia desta peça de arte: colocar a cabeça do neto como esteve quase para ser a do avô.
       Chegados a Aradas, no cemitério onde se encontra o jazigo do conselheiro José Joaquim de Queirós, percebe-se a singularidade de um monumento fúnebre, por comparação aos circundantes: a ausência de símbolos católicos, cristãos. O espírito e a atuação de quem escapou a uma pena de morte atroz (exilando-se em Inglaterra e regressando com os liberais chegados ao Mindelo) fazem com que a luta contra os miguelistas estivesse mais para os valores e ideais revolucionários, progressistas e maçónicos do que para uma tradição e um conservadorismo religiosos fortes. Fosse por reservas aos primeiros ou por convicção nos segundos, a hipótese de trasladar Eça para a terra do avô parecia requerer um outro lugar de paz, talvez um mausoléu para a nova família constituída pelo casamento, em 1886, com Emília de Castro Pamplona Resende, com quem teve quatro filhos (Alberto, António, Maria e José Maria). A  gosto ou a contragosto de alguns familiares, e da finitude da vida, tal não viria a acontecer e os restos mortais do escritor conheceram as sepulturas de Neuilly, do Alto de São João, de Santa Cruz do Douro (Baião-Tormes) e, por fim, de Santa Engrácia (Panteão Nacional).
      Nas imediações da universidade de Aveiro, a Quinta do Alboi ou dos Santos Mártires foi espaço visto e evocado a partir dos encontros e das práticas maçónicas em que o avô de Eça se viu envolvido, enquanto comandante do Batalhão de Caçadores 10. Perante a tentativa falhada de revolta em maio de 1828, o que conduziu José Joaquim de Queirós para o exílio (evitando-se a condenação à morte pelos miguelistas, com enforcamento, decapitação e exposição pública da cabeça em estacas frente às casas dos capturados), fica a Capela dos Santos Mártires como símbolo de uns mártires religiosos (S. Veríssimo, Máxima e Júlia, romeiros sacrificados nos tempos das perseguições de Diocleciano) que, por extensão, passam também a representar os condenados e revoltosos liberais ou os mártires da Liberdade.
       Após o almoço, junto à ria e no Centro Cultural e de Congressos, chegou a vez da Costa Nova e do palheiro de José Estevão, pai de Luís de Magalhães - grande amigo de Eça. Aí se ia a banhos e aí também foi tratado o casamento do escritor com D. Emília, uma vez que a família Resende também frequentava a Costa. Em carta à já esposa, quando esta e as crianças se encontravam de férias no local e Eça em Paris, refere-se o local: "(...) a Costa Nova - e eu considero esse um dos mais deliciosos pontos do globo. É verdade que estávamos lá em grande alegria e no excelente chalé Magalhães" (escrito de 1883, publicado em Eça entre os seus - Cartas íntimas). O conhecimento do espaço vinha também já das vivências aí mantidas com os avós, a ponto de, em carta a Oliveira Martins (1884), Eça assumir-se como "filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe na ria". Com previsível palheiro próprio ou não, deste último já não restam provas. Fiquemo-nos, portanto, pelo do amigo, logo à entrada, frente à atual marina.
      Última paragem em hotel de luxo: o palacete Valdemouro, hoje Hotel MS Collection Aveiro, um dos mais requintados edifícios oitocentistas da cidade onde viveu a família Queirós. Tornado hotel literário na conhecida "rua Larga" (hoje rua José Estevão), fica o que dizem ter sido morada, nomeadamente, do pai de Eça e da tia Anna Emília. Verdade ou não, nele encontram-se quartos temáticos relacionados com personagens queirosianas, uma sala de receção e de estar com múltiplos sinais da vida e obra do autor (alguns dos quais cedidos pela casa de Tormes), mais um mural com o rosto de Eça (a instalação de arte urbana "Essa é que é Eça", da autoria de Vhils, o graffiter e pintor Alexandre Farto). Entre café, água e limonada, num breve instante de repouso, cumpriu-se um momento de tertúlia inspirado na escrita, no pensamento do escritor e nas vivências na cidade. Pedidas as desculpas pela animação não preparada, mas oportuna e justificada, findou-se a interação com a sugestiva expressão "Ora essa!"

Palacete de Valdemouro, na rua José Estevão (Fotos e montagem VO)

      Fosse Sintra e não nos esqueceríamos das queijadas; sendo Aveiro, lá fomos aos ovos moles, em receita com mais de cinco séculos criada pelas freiras do Convento de Santa Joana (a padroeira) e que, nas palavras de Aquilino Ribeiro, são "Os miríficos e celestiais ovos moles, uma das melhores descobertas de Portugal, depois da Índia". Bons momentos merecem ser prolongados e recordados com um docinho.
        

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Regresso à escola (que ainda é minha) em tempo de pausa letiva!

    A propósito da participação nas X Jornadas Pedagógicas, no Agrupamento de Escolas nº1 de Gondomar.

    A convite da Diretora do Agrupamento (Dr.ª Lília Santos), tive a oportunidade de regressar àquela escola que, na minha vida profissional, quase por certo, irá abarcar o maior número de anos em exercício e identidade docente. Marca-se também aquele espaço por emoções e vivências enriquecedoras. Há treze anos que dele saí, em termos de quadro docente efetivo, mas a ele vou regressando, para trabalho como formador, sempre tomado do sentido tanto colaborativo como afetivo.
     Foi um dia preenchido por dinâmicas de formação, tendo sido dinamizados dois workshops: Do Ensino às Aprendizagens (Parte I e II): reflexões sobre práticas pedagógicas. A incidência dos trabalhos, e em jeito de sinopse, assentou em reflexões / demonstrações / simulações com foco em práticas interativas, oficinais, de consciencialização de aprendizagens e de dimensão avaliativa pedagógica (eminentemente formativa).
    Começou-se por discutir o que é aprender, a questão do paradigma das competências revisto nos documentos curriculares em curso (nomeadamente, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória [PASEO]), das relações entre competências e conhecimentos, dos pressupostos e das implicações focados na aprendizagem por competências, dos modelos de ensino orientados para as competências.
Demonstrações de participação nas X Jornadas Pedagógicas da AEG1 (montagem VO)

     Prosseguiu-se com o que possa ser associado à qualidade das aprendizagens, nessa clara orientação que configura, entre as práticas pedagógicas, a própria dimensão da avaliação. Abordou-se a necessidade de definir / selecionar critérios avaliativos, de construir descritores e de os distinguir segundo níveis de desempenho. Caminhou-se, portanto, no entendimento da avaliação para as aprendizagens (e não delas), da natureza pedagógica da própria avaliação (ao serviço da monitorização e regulação, numa perspetiva eminentemente formativa).
       Exemplificados alguns procedimentos, refletidas algumas demonstrações, partilharam-se também alguns instrumentos e dispositivos relacionados com a dinamização de projetos (por exemplo, cidadania e desenvolvimento) e a ativação de competências transversais (nomeadamente, a participação / interação orais em contexto de aula).
       
       Cerca de cinco horas formando, mais uma ou duas convivendo e lembrando momentos em que o espaço e as pessoas fizeram o afã de muitos dos meus dias (meses e anos). No final, ficam o balanço positivo e a nota de gratidão mútua, pela formação e pelo(s) (re)encontro(s) de boa memória.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bodas de ouro para um edifício (e não só)

     50 anos numa noite espetacular, com memórias revistas em escassos minutos.

     Hoje, pelas 21 horas, no Multimeios de Espinho, foi tempo de encerrar uma história que culminou em espetáculo-concerto e contou com a participação da comunidade educativa do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), nomeadamente professores, alunos, pessoal não docente (operacional e técnico-administrativo), encarregados de educação, mais as entidades parceiras que viveram os "50 anos: do Liceu ao Agrupamento" - tema aglutinador de todo um plano de atividades vivenciado desde o ano letivo 2024-2025.

Convite endereçado à Comunidade Educativa do AEML
     
       As bodas de ouro dizem respeito a um edifício construído no início da década de setenta do século passado, para nele ser alocado o Liceu Nacional de Espinho. Entrou aquele em funcionamento no dia 4 de novembro de 1975, conforme ofício redigido pela presidente do conselho diretivo provisório de então: a professora Maria do Céu Beato Oliveira Dias de Sousa. Em tempos marcados ainda pelo espírito revolucionário pós-25 de abril, tudo começou de acordo com decisão unânime assumida em reunião geral de professores (RGP). Assim se lê no documento exarado: "... encontrada uma plataforma de solução... em relação a uma decisão tomada por unanimidade numa anterior reunião sindical, segundo a qual as aulas não seriam iniciadas sem que todos os professores eventuais estivessem colocados...". Nas palavras citadas de quem viveu o momento, a construção foi como que tomada de assalto, para que se cumprisse o desígnio para que havia sido erguida.
        O programa do evento celebrativo iniciou-se com a projeção de um pequeno vídeo, a dar conta do percurso desse estabelecimento escolar que, aberto em novembro de 1975, em 1976-77, passa a ganhar um patrono com a designação "Liceu do Dr. Manuel Laranjeira". Em 1978, chegou a "Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira". Em 2011, o edifício foi objeto de reabilitação por parte da Parque Escolar (hoje, Construção Pública), segundo um projeto arquitetado por Rui Lacerda. Cumprido meio século de um estabelecimento escolar (que, na atual e requalificada escola-sede de agrupamento, apresenta apenas alguns poucos apontamentos dispersos do passado), mantém-se a missão, ainda com futuro.
     Na presen-ça da Diretora do AEML, do Presidente do Conselho Ge-ral e do Vice-  -Presidente da Câmara Muni-cipal de Espi-nho, houve oportunidade para me pro-nunciar acerca do vídeo pro-duzido e de como este pode ser injusto face a uma multiplicidade de projetos, de atividades, de rostos que têm vindo a marcar gerações e que nele não figuram. Não cabem 50 anos em menos de dez minutos e, nessa medida, impõe-se a compreensão e a generosidade de muitos poderem rever-se naquilo que foi editado; encontrarem no que fizeram / fazem interseções, comunhões (re)visitadas no que foi incluído (há impossibilidades óbvias no conceito de memória: desde a perda, ao esbatimento e à recuperação recriada). Importa ainda agradecer a todos os que, saindo, entrando ou permanecendo no agrupamento, deram ou têm vindo a dar o seu melhor a uma instituição que tem servido bem o concelho, para não dizer o país (considerando alguns dos nomes que saíram formados do "liceu", como ainda é familiar e popularmente nomeado).
       Fica aqui o registo vídeo (clicar na expressão destacada) desses menos de dez minutos para uma história que já segue caminho no sentido do século - porque, do meio já vivido, há já provas consolidadas quanto ao papel de-sempenhado na socie-dade, enquanto exem-plo de escola pública focada na qualidade educativa, na inclusão, na multi e interculturalidade, bem como no acompanhamento socialmente empenhado e implicado na ativação de competências (conhecimentos, procedimentos, atitudes e valores) formativas diversificadas.

         Comemorados e encerrados os 50 anos, rode-se a ampulheta e reveja-se a areia a cair, em nova contagem de tempo com atenção à vida e, como o diz o patrono, abrangendo no "mesmo olhar o céu e a terra". Acrescentaria o mar, pela força que detém e pelo horizonte que nos dá, nos caminhos e nas oportunidades a descobrir, a explorar e a conquistar.
        

terça-feira, 19 de maio de 2026

Um prémio nacional!

      Assim foi várias vezes repetido. Com orgulho.

    No passado dia dezasseis de março, enquanto diretor do AEML, tive a oportunidade de endereçar palavras de agradecimento na sessão solene realizada perante a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários de Lisboa, no âmbito da Semana de Formação Financeira. Anunciava-se aí a atribuição do Prémio Nacional de Ensino Secundário ao Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), na 14.ª edição do "Concurso Todos Contam". Não estive presente fisicamente, mas de modo remoto; à distância de um clique.
   Hoje, cessadas as funções de então, mas em compresença mais real e autêntica (no tempo e no espaço), sublinho e reitero o reconhecimento e o agradecimento devidos, pelo envolvimento no projeto "Desafios de Literacia Financeira - joga e aprende", avaliado como o melhor projeto nacional de ensino secundário. Um orgulho feito de dinâmicas de professores, de alunos, de encarregados de educação, galvanizados para uma educação de excelência, focada numa prioridade do projeto educativo do AEML, da educação para a cidadania, da formação de muitos jovens (desde o pré-escolar ao 12º ano) e, inclusivamente, de alguns professores.
      Destaco o trabalho de coordenação do Departamento de Ciências Sociais e Humanas, particularmente do grupo disciplinar de Economia e Contabilidade, que chamou a si e ao AEML múltiplas iniciativas envolvendo docentes, discentes e encarregados de educação; agentes locais, regionais, nacionais - todos contribuindo para o que hoje se materializa no reconhecimento público do que foi levado a cabo nesta escola pública, solidária, inclusiva, multiculturalmente diversa, apostada no trabalho de competências múltiplas e de formações diversas.

A hora de receber o cheque do prémio "Todos Contam", na presença de muitos, mas não todos. (Foto GIC)

         Se, inspirados pelo patrono Manuel Laranjeira, é de reconhecer a importância de "abarcar num mesmo olhar o céu e a terra", acrescentaria, em localidade piscatória, a energia do mar. Com esta, entrou-se na onda do tecnológico, do digital e da inteligência artificial; aproveitámos as marés de oportunidades, onde a educação financeira também foi levada a bom porto; aproveitaram-se ventos favoráveis à aprendizagem que nos une enquanto cidadãos ativos e participativos (nos orçamentos, na cidadania, na dinâmica de atividades e projetos). Na integração e articulação construídas (com língua, pensamento matemático, domínio das expressões, literacia financeira), cumpriu-se um projeto digno de consagração, cujo mérito muito enaltece o compromisso com a promoção de competências essenciais junto de jovens. Tem sido este o barco em que navegamos.
        Segundo o Administrador da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, o Dr. Diogo Alarcão, o AEML tem razões para se congratular e orgulhar: recebeu um prémio nacional, por um projeto construído no seu seio. Por isso foi reconhecido, galardoado, incentivado a prosseguir um trabalho que já havia merecido uma menção honrosa, em ano anterior, e que, este ano, evoluiu para a distinção: a melhor escola nacional no concurso "Todos Contam".

Celebração da entrega de um prémio nacional: 14ª edição do concurso "Todos Contam". (Foto GIC)

     Concretizou-se um programa de acolhimento para a receção do prémio. E na presença de todos (representante regional do Banco de Portugal, representantes da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, Presidente da Câmara Municipal de Espinho, Presidente da Junta de Anta, Diretor cessante, Diretora e Presidente do Conselho Geral do AEML, Coordenadora do Departamento de Ciências Sociais e Humanas), os docentes do grupo de Economia e Contabilidade, bem como alunos do agrupamento demonstraram o envolvimento e entusiasmo que caracteriza(ra)m os vencedores.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dar voz às mulheres

       Hoje e sempre, mesmo com uma voz masculina a abrir. 

    Um final de tarde, pelas 17:30, foi tempo de participar na palestra "Dar Voz às Mulheres", no Auditório Maria Ricardo. Em espaço com nome de mulher, foram recebidas seis ex-alunas e/ou professoras do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), numa oportunidade para recordar a passagem delas pela escola e para falar do percurso profissional que assumiram / têm assumido até hoje. Assim culminou o projeto de Cidadania da turma do 11ºF/F1 (Artes e Humanidades), intitulado "Mulheres que transformam o Mundo: Arte, Voz e Cidadania". No mural da cantina, uma exposição sublinhava o contributo feminino para o mundo; no caso português, havia lugar para as figuras singulares de Maria de Lurdes Pintassilgo (até hoje, a única mulher a desempenhar o cargo de primeiro-ministro), de Paula Rego e de Joana Vasconcelos (artistas contemporâneas de renome internacional).
     Convidaram-me para abrir o evento na qualidade de ex-diretor do agrupamento - uma presença masculina que não deixou de agradecer o convite, a iniciativa, um projeto que protagoniza mulheres nas áreas em que se destaca(ra)m: Carolina Marques (ex-aluna e deputada), Margarida Quaresma (professora aposentada e voluntária), Margarida Fonseca (jornalismo), Maria Resende (ex-aluna e jurista da APAV / Assembleia da República), Patrícia Carvalho (ex-aluna e enfermeira) e Ana Pais Oliveira (ex-aluna e artista / professora de dança).
      No âmbito das comemorações dos "50 anos: do Liceu ao Agrupamento", o evento não deixou de ser tributo aos conceitos de democracia, de cidadania e de república (femininas na língua, com a última a ser simbolicamente representada pela alegoria da Marianne portuguesa); cruzou-se com temas de referência como os dos Direitos Humanos e da Igualdade de Género; da Democracia e Participação Política das Mulheres; do Desenvolvimento Sustentável e Empoderamento Feminino; da Literacia Financeira e do Empreendedorismo Feminino; do Pluralismo e da Diversidade Cultural.
      A atualidade da sessão foi notória e notável, com a questão do género a manter-se premente enquanto tópico de discussão num mundo ainda pautado pelo domínio / poder masculino. Mesmo assim, a afirmação do foco feminino não deixou de ser uma constante, remontando aos tempos da antiguidade. O tema é transversal na cultura e na literatura - assim se pense na poetisa Safo de Lesbos (c.630-570 a. C.), na helénica Corina (quinto século a. C.), na ascensão de Cleópatra, nas figuras das proféticas sibilas, na romana Sulpícia (primeiro século a.C.), na mártir cristã Perpétua (c.182-203 d. C.); assim se leiam cantigas de amigo, obras de Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge ou se representem personagens ficticiamente inspiradoras como Matilde de Melo, Blimunda ou Lídia (clássica e moderna).
     É um facto que, no seio dos grandes feitos e heroísmos masculinos, grandes homens tiveram sempre o apoio e o amparo de não menores figuras femininas: num tempo como o reinado quinhentista de D. Manuel (o Venturoso), teve de existir uma infanta D. Maria na afirmação e expansão da cultura nacional; o século XVIII vincou o papel da poetisa e pedagoga Marquesa de Alorna, ainda com muito por divulgar e reconhecer na sua obra; a democracia e a liberdade do século XX muito devem ao pensamento ousado e feminino / feminista das três Marias (Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno), com as suas Novas Cartas Portuguesas, de 1972.
      E na geografia nortenha que nos radica, entre o Minho e o Douro, não é de esquecer o sentido da raiz, da origem, de um matriarcado que se firma nos valores fundacionais, da terra, da resistência e da tradição - simbologia de um género que sublima a mítica Geia ou Gaia.

As convidadas no Auditório Maria Ricardo do AEML, numa lição de testemunhos, vivências e conselhos 
(Foto VO)

      A par de tudo isto, três jovens estudantes conduziram uma palestra que (entre o registo da entrevista, a curiosidade juvenil perante vidas experientes, a partilha de conselhos) resultou numa oportunidade feliz de aprendizagens, de expressão de emoções, de uma lição e afirmação expectante numa mundividência outra para gerações futuras. Só para me manter no feminino.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Presença distanciada, muito comprometida

      Há que explorar as possibilidades que a tecnologia permite.

     É a presença sem estar no espaço; é o agora sem o aqui, com tempo(s), instante(s) em paralelo. Foi desta forma que, posso afirmar, estive com o Sr. Ministro da Educação Ciência e Cultura; com o Sr. Diretor do Banco de Portugal e com as altas individualidades da Conselho Nacional de Supervisão Financeira. Impossibilidades de exercício de funções e limitações na distância geográfica não podem comprometer a participação e a representação do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) num momento de orgulho singular: a atribuição do primeiro prémio nacional do ensino secundário na 14.ª edição do Concurso "Todos Contam".
     A sessão solene de anúncio dos vencedores desta edição do concurso ocorreu pelas 14h00, na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, em Lisboa, e o convite feito tanto pela Comissão de Coordenação do Plano Nacional de Formação Financeira como pelo Departamento de Ciências Sociais e Humanas do AEML tinham de dar lugar a resposta positiva.

Evidência da presença distanciada, com orgulho no AEML (Foto cedida pela CMVM)

    Num discurso de reconhecimento a quem mais diretamente levou a cabo o projeto vencedor (grupo docente de Economia e Contabilidade), a par de todos os que deram o seu contributo implicado e empenhado (e foram muitos), fica a nota audiovisual do dito:

A prova do dito: do prémio atribuído e do discurso pronunciado (excerto do vídeo público da CMVM)

     "Desafio de Literacia Financeira - joga e aprende" é o exemplo do envolvimento de muitos e de variadas competências. Articular e integrar é possível, numa conjugação de propósitos afins, levados a cabo em várias iniciativas dinamizadas no âmbito da educação e da escola públicas, implicando professores e alunos desde o pré-escolar ao ensino secundário, nas múltiplas inteligências e competências que confluíram nas áreas linguísticas, matemáticas e das expressões.

    Um momento feliz para o agrupamento e para quem faz dele entidade de referência nacional. A gratidão é o valor de ordem e a representação do AEML é um dever a cumprir, como sinal natural do orgulho e do agradecimento por (me) colocarem (com) Laranjeira, enquanto marca institucional, na senda da excelência educativa.

domingo, 15 de março de 2026

Por terras de Viriato

      Foi dia de os professores passearem, soltarem risos e conviverem.

     Apesar de alguns pingos de chuva, foi um dia bem vivido e bem "regado", com pequeno-almoço em Vouzela; visita ao Museu do Quartzo, idealizado pelo prestigiado geólogo Galopim de Carvalho e instalado num antigo local de extração de quartzo (Monte de Santa Luzia, na zona de Viseu-Dão-Lafões); almoço no familiar restaurante Zé Pataco (onde não faltaram as encomendas das morcelas, dos queijos e chouriços, mais os tupperwares das migas de entrada); prova e degustação de vinhos na Quinta de Santa Maria; passagem pelo exterior do palácio-museu Aristides Sousa Mendes.

Cartaz de divulgação da atividade promovida

As evidências do vivido: de Vouzela, Viseu, Cabanas de Viriato (Fotomontagem VO)

    Foi um roteiro diferente do traçado no ano passado, ainda que em espaços comuns, numa consolidação e expansão de aprendizagens, com focos em biologia, física, geologia, química, história. No âmbito da plantação, produção e degustação vinícola - com champanhe, branco ou tinto -, ficou o apontamento do "Ribeiro Santo" da região do Dão, com aromas de fruta e rusticidade, mais o apuramento do paladar. A apologia vinícola do norte foi mais do que sublinhada pelo guia, em detrimento daqueles outros que continuam a afirmar que o Alentejo tem mais do que se lhe diga. Um ou outro, o certo é que o nacional (é que) é bom.
    Com muita foto a evidenciar os momentos vivenciados, concretizou-se mais um convívio para criar laços, aproximar nos risos e viver aprendizagens / experiências a recordar.

    Entre referências a famílias brasonadas, percursos a recuperar traços entre o medieval e o barroco, aromas e sabores báquicos da ancestralidade à contemporaneidade, ficou um sábado bem passado, na intenção de prosseguir com viagens e (re)encontros de grupo inter e transdisciplinar para lá dos tempos de escola.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Marés de oportunidades (IV) a abrir

      Chegados à quarta versão, fecha-se um ciclo.

    Entre ventos alísios e contra-alísios, foram quatro anos de boas marés no Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), com as quatro unidades orgânicas sempre a remarem para bom porto.
    Na escola-sede, este ano (tal como em anteriores), iniciou-se o programa de atividades com a colaboração de professores(as) e alunos(as) da Escola Profissional de Música de Espinho (EPME), numa demonstração variada de composições, feita de ritmos e intensidades diversas; de produções individuais e coletivas; de harmonias conjugadas em instrumentos de percussão e de sopro.

Cinco dos instrumentistas da EPME que honraram o AEML com a sua presença e colaboração 
(Foto APV)

    Em périplo por diferentes espaços, deu para constatar a participação e a adesão de muitos jovens às dinâmicas propostas por docentes que programaram e animaram atividades motivadoras, de imersão plena em ação, em movimento(s) e sentido(s) tão múltiplos e integradores quanto entusiasmantes: com palestras, pinturas, escrita, jogos, teatro, sussurros poéticos "entubados", desafios e raciocínios práticos, confeção de alimentos, projetos eTwinning, línguas e multiculturalidade, experiências laboratoriais, exposições, plantas e plantações, argumentação, inclusão, entre tanta outra oferta mais. Os assistentes estavam também por todo o sítio, atentos a tanta vivacidade e tanto bulício. Entre a preocupação e a satisfação, ora sorriam com o "tudo à solta" ora sentiam que há dias bem mais exigentes e fatigantes. Alguns prenunciavam que amanhã também correrá bem, confidenciando haver salas por abrir que estão um espetáculo. Para além das que já vi, fica a gestão da expectativa e da novidade.
    Hoje fechou-se o programa com a divulgação de um projeto de cidadania do 10º ano, à semelhança de outro realizado com várias turmas do 12º. O Auditório Maria Ricardo esteve bem composto, com professores(as), alunos(as) e Encarregados(as) de Educação. Pode dizer-se que os temas "Literacia Financeira" e "Cidadãos de Futuro" foram uma forma de ocupação da manhã e fecho do primeiro dia em consciencialização (refletida e crítica) e em beleza.

Apresentação de projetos de Cidadania e Desenvolvimento: 12º (cima) e 10º (baixo) anos
Montagem fotográfica (VO)

     No fim, entre biscoitos e bolhachinhas, mais pipocas, houve breve porto de honra para adultos (ou a variedade sumo, não menos honrado ou honroso), com um pequeno brinde e simpático convívio. À hora dos arrumos, um delgado copo cintilante deixou-se atrair pelo chão e, sonorosamente, multiplicou-se em pedaços. Resumiu uma assistente: "Deixe lá, é festa!"

      Amanhã será outro dia. Com festa ou não, promete ser novo tempo e espaço de aprendizagens em (recre)ação com a comunidade escolar e a educativa.
     

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Uma questão de torres

       Conheço a de Pisa, a de Londres, a dos Clérigos...

    ... mais as de alguns monumentos e igrejas nacionais e não só. Não figuram nesta ilustração, encontrada no Facebook:

As torres que nos fascinam (sendo que a primeira e a última são as mais belas, para meu espanto)

     Por isso, são análogas ao que Caeiro escreve quando se refere ao Tejo: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."
     Assim sendo, devo assumir que as torres conhecidas são, para mim, as mais belas, porque as vi(vejo) e estive(estou) junto delas. As outras podem fazer pensar; podem ser grandiosas e fenomenais, mas... só me fazem pensar, pelo que possa (não) saber delas e porque as não vi.
    Das que constam no gráfico, a primeira e a última são-me familiares: a Torre Eiffel é linda! Já teve várias cores, subi ao topo dela (ora a pé ora por elevador) e até vi o "escritório" do engenheiro, mais a panorâmica de Paris.

A Torre Eiffel e a panorâmica de Paris a partir do escritório do engenheiro (montagem de fotos - VO)

       A dos livros que não li e quero ler é, por sua vez, também a maior de todas e a que conheço melhor. E está a aumentar, a julgar pelos que estão espalhados pela casa, à espera que pegue neles, os folheie, neles sublinhe as frases / os pensamentos que me espantam,  neles anote o que me faz aprender.

        Venha o tempo para que possa dedicar-me a eles e vá diminuindo a torre mais bela do gráfico.


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

       Relembrando a passagem por locais emblemáticos.

       Há cerca de um ano foi assim, tal como há sete.
      A visita turística é cada vez mais isso: turismo. Espaço para memória, sim, mas tão bem organizado e restaurado que vai apagando a realidade dolorosa que foi. Às vezes, parece que só volta a ser por um exercício de imaginação, distantes que estamos desse vivido (será?!).
       Auschwitz é cada vez mais assim: arranjadinho, limpinho, com cara nova.

Eletrocussão, gás, fuzilamento, forca, fome, doença, trabalho forçado - indignidades (foto VO)

     Birkenau mantém-se mais fiel a um tempo que não podemos querer retomar, nos sinais mais pequenos que o induzem. A grandes passos e com alguns sinais de autocracia, despotismo, autoritarismo e ditaduras contemporâneos, permanecem hoje provas naturais desse horror que não pode ser esquecido.
    
A três quilómetros de Auschwitz, Birkenau impõe-se como boca infernal no trago da vida humana (foto VO)

    Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho da União Soviética libertou o campo nazi de concentração e extermínio Auschwitz-Birkenau (um dos muitos espalhados pela Europa), na Polónia. Encontrou poucos sobreviventes, câmaras de gás destruídas, corpos defuntos e cinzas dos assassinados. Milhões de judeus, ciganos sinti e roma, portadores de deficiência, dissidentes políticos, homossexuais, indivíduos arbitrariamente declarados "criminosos" ou "antissociais", trabalhadores forçados, prisioneiros de guerra, testemunhas de Jeová e vários outros grupos considerados menores.
    Tudo começou com ódio, preconceito e antissemitismo, acabando em genocídio. Holocausto: termo de origem grega para significar "totalmente incinerado". 

     Seja este o dia pela dignidade e pelos direitos humanos, combatendo o ódio, a intolerância, totalitarismos e todas as formas de discriminação; preservando a memória na defesa dos direitos fundamentais da vida humana.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Dia ou noite... de reis e de rainhas..., com príncipes e princesas

     Há quem diga que devia ser feriado; pelo vivido hoje, não.

     Até porque, se o fosse, não teria, por princípio, acontecido o que registo.
     Não foi a noite de reis. 
   Foi a noite do dia de reis, com muitas rainhas e outros tantos muito especiais - o primeiro dia de entrega dos diplomas no Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), para os 4º, 5º e 6º anos, na Escola Básica Integrada Sá Couto (EBISC). 116 alunos(as) a receberem o aplauso e o diploma pelo sucesso de qualidade conseguido (excelência académica, mérito desportivo e reconhecimento de valores) em três das escolas do AEML. 

Um dos diplomas atribuídos (Excelência Académica), a par de outros.

       Outros dias e outros anos de escolaridade virão com o decorrer da semana; mas tudo começou com grande emoção.
     Falhou a intensidade da música, mas a dança ensaiada sem qualquer barreira, a tímida melodia, o gesto e o ritmo demonstrados, a mensagem do "Gosto de ti" (de André Sardet) e uns jovens encadeirados a dançar com quem não aparenta tais limitações foram ingredientes para um momento comovente, magnífico, a fazer acreditar que o mundo pode ser tão melhor! Todos unidos por uma t-shirt branca com um coração rubro se mostraram conquistadores de um público que assistia no respeito do silêncio, da diferença, na consciência de que estavam juntos por e para uma causa maior, independentemente das fragilidades existentes.
       As palmas pelos diplomas atribuídos não apagaram um silêncio construído em união e com coração.
     Não ouvi chamar nenhum Belchior, nem Gaspar, nem Baltazar, mas havia muitos nomes de pequenos reis e rainhas que, no ano letivo 2024-2025, trouxeram, do ouro, o brilho do orgulho sentido; da mirra, o aroma da humanidade; do incenso, o exemplo do esforço e da transcendência de todos os que procuram superar-se no estudo, no desporto, nos valores que a escola pública assume na formação integral e integrada de futuros cidadãos (respeitáveis, trabalhadores, colaborativos, inclusivos, solidários). Já o são e prometem continuar a ser.
       Hoje, no dia da adoração de reis (e por que motivo não acrescentar rainhas?), a todos os presentes, importou destacar a estrela da gratidão: aos(às) alunos(as) reconhecidos(as)  pelo mérito / sucesso de qualidade no desempenho das aprendizagens feitas; aos(às) professores(as) envolvidos(as) no acompanhamento dessas aprendizagens, representados(as) pelos(as) Diretores(as) de Turma presentes, alguns(mas) vindos(as) de outras escolas, após um dia de trabalho(s); aos assistentes técnicos e operacionais, tantas vezes a dar a mão e o coração nos corredores, no recreio e nos espaços que nem sempre são letivos. Gratidão também aos (às) Encarregados(as) de Educação e familiares das crianças e jovens que, entre esforços e cansaços, têm sabido ir além do esfumar dos dias, lembrando que a verdadeira fama requer esforço; que o sucesso só aparece antes de trabalho no dicionário; que o alimento serve não só o corpo mas também o espírito, engrandecendo todos os que sabem olhar para a esquerda, a direita, para a frente e para trás, encontrando o outro, aquele que caminha junto, em grito de apoio, de solidariedade, de inclusão (sem egoísmos e com foco no bem comum).
       Manuel Laranjeira, patrono do agrupamento, enquanto escritor, afirmava, numa carta ao amigo Luiz Pinto Ribeiro (05.03.1904), que não aspirava a "homem célebre"; que "escrevia para satisfazer uma necessidade pessoal que é dizer aos outros o que pensa da vida e dos homens" (in Cartas, Lisboa, Relógio d'Água, [1943] 1990, p.26).
    Penso da vida e dos homens... que o orgulho (bom) assenta na realização, no reconhecimento e na felicidade pessoais em prol do bem comum; que a ambição (boa) se funda no que possa fazer-se para o bem da comunidade; que o percurso a cumprir, independentemente das pedras no caminho, se quer na continuidade do bem que se viva e das aprendizagens que se querem conquistadas na vida para a felicidade todos.

      Por todos os momentos e por um especial, logo o inicial, este foi um verdadeiro dia de reis e rainhas. Com a gratidão devida a quem organizou, participou e permitiu viver um instante que fez a diferença do dia no AEML.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Renovados votos

     Está aí mais um Natal.

     Recupera-se uma foto e um texto domésticos. Constrói-se um novo postal.

Versinhos natalícios em modo reciclagem

     Renovam-se os votos: um natal luminoso, mais humano e menos conflituoso.

     Feliz Natal.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Animar... a leitura

       Fui convidado a ler, numa turma de 10º ano, um texto sobre o natal... tempo de nascer...

    A proposta da Biblioteca AEML consistia num breve momento de leitura em todas as turmas, enquanto dinâmica enquadrada na feira do livro, mais a abordagem temática do natal e do nascer. 
     Ao final de uma primeira experiência, veio a segunda e, porque não há duas sem três, lá chegou mais uma.
      Inscreveram-se as turmas que quiseram receber o(a) leitor(a). Eis que lhes surge o diretor... para ler.
     Levei comigo o livro (Quinze Poetas Portugueses do Século XX, com seleção e prefácio de Gastão Cruz), apresentei o autor (Jorge de Sena), pedi que me dissessem se o poema trazido tinha alguma coisa a ver com o natal, o nascer; mas, acima de tudo, quis que partilhassem comigo a leitura a fazer. 
     Ensaiado um esquema de animação (escrita a palavra "BRILHA" no quadro; lida em voz alta e em coro, marcando a força, a vontade e a luminosidade que importa ter neste mundo; combinado o momento em que a diriam), foi só oralizar o texto:

"Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena, in Fidelidade (1958), com voz e vídeo de VO

     No final, depois de partilharmos a voz na leitura, pronunciaram-se sobre a (in)adequação da escolha; refletiram sobre o que "nasceu" no momento viv(enc)i(a)do; explicaram aproximações e afastamentos de opiniões; concluíram que, no ato de ler, é possível a união, o gosto da emoção, o (re)nascimento do que vale na vida.
       Tiveram cinco minutos (talvez dez) de, espero, luz com a poesia.

   Também eu vivi a luz, o calor, o gosto de estar na sala de aula, com todos eles. Esqueci dores, agruras, urgências, sufocos e senti que todos merecemos experienciar momentos destes mais vezes. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Versos antigos para foto recente

        Versos velhos para foto nova.

        Foi o que deu ir ver o mar (da Granja).

Dezasseis anos depois, apliquei antigos versos a um novo olhar, feito foto (foto VO)

       Agitado que estivesse, não chegava ao fogo que o dominava.

      Regresso a casa, sem o fogo nem a força que a noite escondeu.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Um recanto de mar

       Apareceu-me, assim, à vista, diferente do habitual.

     Vejo-o normalmente de lado, ao longo da rua que percorro num ir e num voltar a casa que nem sempre de dia se faz. Haja luz e, ora à esquerda ora à direita, lá o tenho, sempre mudado conforme a ondulação e a estação. Dos dias mais agitados e salpicantes àqueles em que se mostra luzidio, num brilho prateado que se estende até ao horizonte, tomo-o por leito de forças, correntes, marés, vórtices; por motivo inspirador de energia(s) que liga melhor à vida, sempre que surgem desgastos e cansaços.
      Hoje, por instantes, tive-o de frente, quando saía de uma ruela perpendicular à estrada da marginal:

Um recanto de mar, para os lados da Granja (fotografia VO)

      Amparado pela terra, revelou-se-me como uma massa líquida de azul na forma de quilha, vogando em chão tufado de verde, aqui e ali acastanhado por algumas folhas outoniças.

       Em terra de mar, por vezes há visões perturbadoras para a ordem natural das coisas. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

São Martinho, com castanhas, sem vinho

       Não foi no dia (a 11 / 11), mas é como se fosse.

     Um dia depois, as castanhas de São Martinho chegaram-me generosamente à mão, em saquinho funcional e motivadamente decorado, bem como ao paladar, entre o faminto e o sedento.
      Nem dei conta do santo. Foi-me anunciado, é certo, mas, na azáfama do dia, ele não me valeu, com o seu manto de aconchego e conforto. Ainda assim, há quem não se esqueça de mim e me traga o "mimo" da tradição, lembrando o magusto.
       Fico-me pelo comer.

Um saquinho de castanhas que valeu pelo santo esquecido, na voragem do dia 
(Fotografia VO)

       Do vinho, nem vê-lo! É como o verão: nos dias outoniços de chuva e da depressão Cláudia recentemente chegada a Portugal, lá se vai o provérbio que ditava "Verão de São Martinho são três dias e mais um bocadinho." 

      Sim, ditava. Neste ano, nem um bocadinho, quanto mais três dias! Grato pelas castanhas que alimentaram a alma e, por momentos, fizeram esquecer as agruras do dia. (Com agradecimento à SF).

terça-feira, 4 de novembro de 2025

50 anos com Laranjeira(s)

       Primeiro dia de aulas, meio século depois.

      Quando neste dia abriram as portas do edificado construído para o então designado Liceu Nacional de Espinho, houve certamente um entusiasmo que, hoje, foi traduzido em festa e num conjunto de iniciativas que tanto serviram para lembrança como para afirmação de um presente com futuro.

A pedra oficial, porque gravada com o ofício anunciador da abertura da escola onde seria alocado
 o Liceu Nacional de Espinho em 1975 (ofício assinado pela professora Maria do Céu Beato Oliveira Dias de Sousa, 
presidente do Conselho Diretivo Provisório - Foto VO)

       O anúncio à comunidade fez-se à entrada, não fosse o facto de (ainda) se desconhecer o tema de um plano de atividades que viu a celebração do meio século da revolução de abril (em 2024-25) transformar-se nos "50 anos: do Liceu ao Agrupamento" (em 2025-26).

50 anos depois: no mesmo lugar, mas com uma escola requalificada (Foto GIC)

     Entre as várias formas de festejo (na escola-sede do agrupamento, bem como nas restantes três unidades orgânicas), regista-se a plantação de laranjeiras nos espaços escolares, nomeadamente na Escola Básica Integrada Sá Couto (EBISC): dez árvores à espera da flor e do fruto, convocando o jogo antonomásico que o sobrenome do atual patrono (Manuel Laranjeira) possa evocar.

Plantação de laranjeiras na EBISC, unidade do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira 
(montagem fotográfica VO)

     Seja este mais um sinal da identidade e pertença do agrupamento, assim homens e mulheres queiram e a natureza permita. 
       Fique em verso o que a inspiração deu:

Lembrando o lema do blogue: "Faz da palavra a flor, do ato o fruto 
e saciarás os que aspiram a mais do que este mundo oferece: realidade em demasia e luz de fantasia"

       Cumpre-se o tempo com sinais de lembranças, de homenagem que muitos (re)vivem já no caminho a fazer para o século.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

One man show e seus companheiros

    Uma boa forma de terminar o dia: com um concerto no Super Bock Arena (ou o mais familiar Pavilhão Rosa Mota, que alguns ainda lembram como Palácio de Cristal). 

      O espetáculo (porque foi concerto e porque foi fantástico) assumiu-se como festa, um dos da celebração dos vinte anos de carreira de Miguel Araújo. Um outro acontecerá em Lisboa, mas o(s) do Porto é(são) sempre o(s) "da terra" do músico, enquanto homem do Norte, bem próximo da Finisterre (só para lembrar a "Serenata do Norte").
    São vinte anos para muitas canções daquele que é hoje considerado um dos mais reconhecidos e notáveis compositores, guitarristas e intérpretes do panorama musical português. Também um comunicador nato, tanto no registo sério como no da ironia e da comédia, numa multifacetada interação com o público que reage e se compromete com o espetáculo (como, por exemplo, quando é convidado a dançar uns passos de valsa, em fila de cadeiras que nem uma volta permite). Não poderia ser de outra forma, pela qualidade e familiaridade demonstradas: é o cantor, é a banda, são as músicas (com letras partilhadas), é o cenário luminoso e colorido conjugado com os ritmos e as mensagens transmitidas,... É o espetáculo pleno de energia e força convocadas.
        
Três momentos do espetáculo que foi o concerto do Miguel Araújo (montagem fotográfica VO)

      Um balanço de vinte anos não se faz sozinho: subiram ao palco o filho; artistas e amigos de uma vida, como João Só, António Zambujo, Os Quatro e Meia, Rui Veloso, Os Azeitonas, os Kapa (e, entre todos, uns quantos médicos bem vozeados, como se houvesse necessidade de assistência ou acompanhamento do imenso público que vibrava com o repertório musical do artista, dos amigos, dos familiares, com alguma nota de Beatles e de Rolling Stones).
       Fica um breve apontamento vídeo de um concerto fora de série, num fim de outubro que fica para memória de quem experienciou o evento:

Apontamentos de um espetáculo enérgico, com música/músicos de grande qualidade

     Assisti, há uns anos, a um espetáculo transmitido na RTP1 que, pela sua diferença, me captou a atenção e me prendeu ao televisor. Estar no espetáculo, hoje, ao vivo, sem filtros, é um outro envolvimento contagiante, uma outra sinergia, regeneradora das forças que o cansaço de um dia de trabalho parece fazer esgotar. 

     Amanhã, por certo, ficará a sensação de não ter dormido tudo; porém, haverá reforçado motivo para lembrar a excecionalidade de um concerto bem português. (Com agradecimento ao MA, família e amigos - todos tão musicais!).