sábado, 31 de dezembro de 2016

No fim... para começar

     Termina o ano com poesia.

     Carlos Drummond de Andrade, um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro, escreveu-o melhor que ninguém:

     in Poesia errante, Rio de Janeiro, Record, 1988

       Não é a primeira vez que o cito na passagem do ano (há sete anos fiz o mesmo). Palavras simples para terminar um ano e passar, qual voo de pássaro, ao início de um novo. 

        Que 2017 seja ano de voos, de música e de alegrias encontradas para todos.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

É para ouvir e escrever bem!!!!


     Acordo de manhã com o inquérito de rua da jornalista do "Bom Português, questionando a forma correta de escrever: altofalante ou altifalante? Na indecisão de alguns transeuntes, chega a hora de acertar: a voz-off assume que 'altofalante' não existe, que 'altifalante' é a forma correta e que 'alti' é um prefixo.
     Começando pelo fim, não ter consciência (morfológica) de que em [alti] está presente um termo latino usado na formação de palavras pode ser justificado pelo afastamento progressivo face às origens da nossa língua; todavia, para um programa que pretende usar e dar a conhecer o "bom português), é expectável que haja algum estudo que nunca deixaria de reconhecer, à partida e sincronicamente, a noção de altifalante como próxima de um dispositivo / aparelho que permite falar alto. Nem se pode dizer que se trate de um elemento morfológico incomum, atendendo a palavras como 'alticolúnio', 'altícomo', 'altiloquente', 'altímetro', 'altimurado', 'altipotente', 'altirrostro', altissonante' ou 'altitonante', todas a comportar o sentido comum de algo alto, elevado (traduzido na forma ora de um adjetivo ora de um advérbio).
     Apontar para um prefixo (e, por associação, situar a formação da palavra no processo da derivação) é, ainda, não ter consciência de que 'altifalante' é uma palavra composta, no mínimo, induzindo em erro o telespectador (já que de uma rubrica televisiva se trata). 'Alti' é um elemento latino usado na composição de palavras, nomeadamente na composição morfológica. Se derivação existe (e por sufixação) é apenas na formação do termo 'falante' (< fala), a que, posteriormente, se juntou o radical latino.
Um alto-falante / altifalante conforme o gosto de cada um
   Por fim, 'altifalante' é, por certo, a forma vocabular mais comum ou corrente, tanto na fala como na escrita. Nesta última, por convenção gráfica, deve ser tomada como a forma correta, perante as duas hipóteses propostas. Ainda assim, talvez não fosse mau acrescentar que, perante a admissão da realização 'alto-falante' em termos orais, a versão escrita desta última é configurada com um hífen - dado, aliás, acessível a qualquer utilizador da língua e corroborado pelas entradas de alguns dicionários ou por registos de publicações relacionadas com o tratamento de vocabulário. A consulta online do Dicionário Priberam permite encontrar tanto 'alto-falante' como 'altifalante'. O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa também contempla ambas as formas. O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves segue o mesmo exemplo, o mesmo acontecendo com o Dicionário da Porto Editora (considerando 'altifalante' a forma preferível). Assim sendo, as duas formas (alto-falante e altifalante) são legítimas, por mais que uma delas seja mais frequentemente usada pelos falantes do português.
     Se em termos de escrita não existe 'altofalante', um pequeno hífen faz a diferença, permitindo a existência gráfica para representar uma variante sonora admissível.

    Mais uma ocorrência (quase a ser treta) para se exigir maior qualidade e rigor no serviço público, quando da própria língua se trata. 

domingo, 25 de dezembro de 2016

Parece cada vez menos natal!

     É inverno, é domingo e brilha o sol.

    Pelos vistos, a tradição já não é o que era, no que ao clima diz respeito. Quanto à época festiva, parece-se cada vez mais com o que não devia ser - fruto dos tempos, que talvez possam mudar quando se der menos importância ao que nada vale. As corridas desenfreadas, as compras que nem sempre trazem felicidade e os excessos que dão em indisposições... Desencantos persistentes.
      Desejo o regresso às origens e ao (re)nascimento de um tempo mais virtuoso, tal como o poeta:

Presépio exterior, frente à Capela da Nossa Senhora da Ajuda - Espinho
(Clicar na imagem para ler o poema, de Miguel Torga) - Foto VO

      Com paz, sossego, descanso e com sol, assim recomendo este dia de natal: mais primaveril, de luz e azul (porque junto ao mar). Um natal mais natural e menos desigual.

      E relembro a canção: "A todos um bom natal..."

sábado, 24 de dezembro de 2016

É Natal... sem Compal!

    Permitam a rima, que nem saiu mal.

    Vai uma pessoa tomar café, para aquecer a manhã deste dia de noite natalícia, e depara com o que não quer. 

Exemplo de publicidade indesejada (Foto VO)

      Começo a pensar que é kharma. Ainda por cima, ler que Compal é mesmo natural chega a ser tão grave quanto o erro de acentuação.
   O acento grave marca a contração da preposição 'a' com o determinante artigo 'a(s)' e o determinante demonstrativo 'aquele/a(s)', ou o pronome demonstrativo 'aquilo'. 
      Com o verbo ser não se contrai nada, senhores! Tristeza de publicitários, gráficos e empresas que divulgam o erro. Apetece dizer que É um erro beber Compal.

     É Natal! Ninguém leva a mal, mesmo que não seja Carnaval! Não É? (Lembro-me de uma professora que dizia "Ninguém escreve 'é' com acento grave", quando deparava com tamanho erro! Mal ela sabe que o 'ninguém' está a revelar-se e a propagar-se).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Embirrações

    Reconheço que faço birra com algumas palavras ou expressões. E não são poucas as embirrações!

    Os meus alunos sabem que não suporto o verbo 'meter', particularmente quando não há condições para o utilizar (por exemplo, quando dizem para 'meter no quadro' ou para 'meter no papel' fico com cara de surpreso, ou franzo o sobrolho, por desconhecer como se pode 'meter' em superfícies planas). Eles "metem" vírgulas, "metem" respostas, "metem, metem, metem" espantosamente o que não pode ser metido e muitas vezes em locais inapropriados. Conclusão: embirrei com o verbo 'meter'.
    E quando o texto diz ou fala, por maior que seja a personificação, volto a embirrar. E o "tá (a)qui"?! Eu bem lhes pergunto se estão a falar do depilatório (Taky), mas mais me valia estar calado (porque tenho de lhes explicar a piada e fazê-los saber que há um produto homófono ao que dizem. Era tão melhor dizerem 'está aqui'! Não é por nada, mas sempre haveria a hipótese de não me aparecer o verbo 'tar'.
     Depois é a vez do '(um) bocado'. Eles ficam "um bocado tristes" (dizem) por os chamar à atenção, mas é só por o "bocado" não lhes sair da boca nem da cabeça. Pelos vistos, não só a eles.
    A propósito do início do "Comic con", há pouco tempo lia-se o seguinte, num apontamento do Porto Canal que circulou no Facebook:

'Post' do Facebook que tem "um bocado" que se lhe diga!

    Isto de mostrar "um bocado" é caso para perguntar se é coisa que se coma e / ou quantidade acompanhada de qualidade. Duvido. É triste que um meio de comunicação social (se) divulgue com o pior exemplo, em porções, pedaços. É, no mínimo, indigesto!
     Há quem sofra "um bocado"; eu prefiro sofrer pouco ou muito (menos, se for possível). Há quem ache "um bocado" feio, triste ou nojento. Eu acho execrável! Há quem chegue "um bocado" antes do tempo; eu prefiro chegar à hora, mas pode acontecer que seja um pouco antes ou depois, se ninguém ficar algo (e não "um bocado") aborrecido ou incomodado.

   Pergunto: não haverá por aí um herói ou uma heroína que nos livre destas banalidades tão indesejavelmente comuns? Só para eu não embirrar tanto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Obrigado, RAP!

     Com o agradecimento devido à OC, também, por me ter feito chegar aos olhos (porque de leitura se trata) a última crónica de Ricardo Araújo Pereira (RAP, sem que de música se fale).

        Estava eu a ler a dita cuja tão contentinho - porque de Linguística não deixa de ser (mesmo que em registo cómico) -, e eis senão quando sou abalroado pela bombástica novidade: "... já quase ninguém se chama Vítor".
       Se do "vós" pouco se pode argumentar quanto ao desuso (mais do que evidente), do Vítor nem sei que diga! Vítor Pereira, com desgosto, vai deixar de treinar e comentar futebol, para não falar de um outro que nem vai mais apitar ou arbitrar! E Vítor Oliveira (não eu), no momento também a treinar lá para os lados de Portimão, está aqui está a fugir para África! É certo que Vítor Baía já não defende as balizas do Futebol Clube do Porto, mas não deixa de ser por aí muito badalado à conta de outras eventuais aspirações. Ainda desiste! E o Chefe Vítor Sobral?! Larga a cozinha. Até Vítor Norte vai deixar o teatro, com a tragédia anunciada! Para isto, muito deve ter contribuído Vítor Gaspar, com uma subida tão brutal nos impostos que nenhum paizinho nem nenhuma mãezinha de juízo quiseram dar tal nome a um seu descendente. Resta ao Senhor Padre Vítor Melícias rezar, a bem do bom nome que já foi de Papa e de Santo.
     Segundo o RAP, estou em desuso. Estou aqui estou tal igual (como diria Mia Couto) a arcaísmo. Bem... pior seria se o meu nome fosse grafado com 'c' (em verdade vos digo que nada tem a ver com o Acordo Ortográfico). Por isso, sempre que me apresento, digo "Muito prazer, Vítor Oliveira, sem 'c' e com acento no 'i'". Sempre dá um ar de modernidade, mais fresco e desempoeirado, não sei se percebeis (cá está o vós).
      Hoje, sinto-me, portanto, "avis rara" com a crónica "Até que o vós me doa" do RAP, publicada na revista Visão:

(clicar na imagem para aumentar o texto)

    Depois disto, não vos riais, que para mim é assunto muito sério! O desuso do pronome (que mais parece majestático, face ao banalizado 'vocês') e a raridade dos "Vítores" precisam de uma comissão de trabalho e de estudo já, para não falar de uma petição imediata, visando a resolução de duas questões críticas nacionais. Pelo menos, a dos "Vítores", claro está!

     E para ir ao encontro do RAP, antes que vos vades embora (este conjuntivo do verbo 'ir' na segunda pessoa do plural é um primor!), ficai sabendo que o nosso cronista da "Boca do Inferno" (vira essa boca para lá!) muito usou e abusou do "Vítor" (ou melhor, do "Senhor Vítor"). Tantas vezes o disse que disso não fez vitória. Imaculada Conceição me valha (por o dia feriado ser dela), com uma ajudinha de São Vítor, ora pois então!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Bom Português...

     É dia 7 (que dizem ser número perfeito), mas começa mal o dia - ai começa começa! -, ao ser acordado com o erro.

     De novo, o canal público no seu melhor da escrita. Ainda nem trinta minutos tinham passado da rubrica / lição do "Bom Português" (sobre o feminino de 'profeta' e que, por repetição mais do que frequente, já todos devem saber que é 'profetisa') e pôde ler-se, numa legenda bem contrastada a preto e branco, o seguinte:

Imagem captada a partir da emissão de "Bom Dia Portugal" - RTP1

     É bíblico o enunciado de que "No princípio era o Verbo". Só que na gramática também há lugar para os nomes. E alguns destes, para além de tipicamente serem antecedidos de um determinante ("[n]o início"), distinguem-se da forma verbal por serem acentuados - enquanto esta última não o é. Assim, onde se devia ler "icio" (nome) lá apareceu o verbo, não acentuado (certo), mas nada virtuoso - porque não era o que se queria / devia escrever. 
     Tal como "Prinpio" (e não a forma verbal 'principio'), "icio" (e não "inicio") tem de apresentar acentuação gráfica para ser nome.

    Não fosse a nota de rodapé relativa a um sismo na Indonésia, diria que um outro, linguístico, ocorreu hoje no  "Bom Dia Portugal" da RTP1, (e não se pode dizer que seja pouco frequente tamanha instabilidade - diga-se agramaticalidade - com este pontapé na gramática da escrita). Mais uma asneira e das grandes, para um meio de comunicação social.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Retomado o feriado

      A rima do título reflete a alegria da reconquista de um tempo livre, há quatro anos negada.

      É como se a restauração (não da soberania portuguesa, mas do feriado) nos animasse, depois da perda (não da independência, mas de novo, do feriado). Historicamente não foi tempo de descanso; o presente, para alguns, também não o é na plenitude. Ainda assim, é feriado para bem de alguns dos que trabalham.
      Depois de muito recentemente Filipe VI de Espanha e Dona Letícia terem visitado Portugal e de ambos terem partido ontem de terras lusas, desta feita não há "conjurados" nem ninguém é lançado da janela do Palácio da Ribeira. Não há coincidências, neste capítulo. Os tempos são de diplomacia e de boas relações políticas entre a monarquia espanhola e a república portuguesa (às vezes, a conjura necessária está mais para dentro do que para estrangeiros).
     Não sendo "o dia dos milagres", assim foi romanescamente encarado quando Francisco Moita Flores, em 2015, deu a ler a história da velha Efigénia Pé de Galinha - personagem que vive o período histórico compreendido entre a perda do rei D. Sebastião e a restauração da independência face a Filipe IV de Espanha (III de Portugal). Entre 1578 e 1640 é tempo de uma jovem cobiçada ser tomada por bruxa, não fosse ela vítima de múltiplos dissabores, infortúnios que o destino coloca ao ser humano a ponto de o afastar das alegrias dos afetos e de o marcar para a vida (que mais parece morte adiada). Contrariamente, há um duque que chega a rei, por uma força e um sentido de pátria no mínimo desafiador:

      "Há uma Pátria que vai para além de um Reino. É feita com a argamassa do tempo, dos dias de maior sofrimento, que é um território de pertença sem limite, qual oceano a perder-se no horizonte. É qualquer coisa mais densa do que o chumbo e bem mais leve do que uma pena de falcão a esvoaçar pelos ventos. É maior do que um sentimento, do que uma ascendência e do que grandes conquistas e descobertas. É uma Pátria que se diz, que vive dentro de nós, que reconhece cada rua e cada praça como nossos, tão nossos que só nos conhecemos porque essa rua e essa praça existem e são marcos por onde se escoam os dias das nossas vidas. Podemos ver as montanhas e os desfiladeiros de um Reino qualquer, mas não veremos nunca a Pátria que vive dentro de nós. Dizemo-la, amamo-la, por ela poderemos morrer, e será sempre um tempo que não começa nem termina. Que habita em nós como se respira, como se ama e até como se morre. É, afinal de contas, o âmago do nosso ser. A dimensão espiritual mais sublime que dá significado à existência. É um exército de odores e de palavras, de cantares e de memórias comuns. É amor ao passado, àquilo que fomos e fome de futuro.
    Assim se explicava no dia seguinte o duque de Bragança a Luísa. Falava-lhe do amor transcendente que une gente tão diversa, apenas irmanada pela mesma fala. Porém, a jovem duquesa revelava agora as inquietações que escondera durante a noite anterior, cheia de emoções e de amor.
     - E nós o que fazemos? Faltam cinco dias e ficamos aqui? Parados? Não é preciso fazer mais nada?
      - Saber esperar é um dom divino - respondeu João.
      Levantou-se da mesa, ainda mais agitada com a resposta do marido. (...)
      - Está tudo pronto, minha querida. Tudo pronto! - suspirou enigmaticamente.
      - Tudo pronto, como?
     - Está em alerta quem deve estar e planeado o que tem de ser previsto, não existe mais nada de que nos possamos ocupar - ia terminar, hesitou e depois recomeçou: - Sabes o que há a fazer? É sermos soldados do silêncio.
      - Tenho de me calar, queres tu dizer.
     - A surpresa é a única arma de um Reino sem exército contra o maior exército do mundo. Filipe tem dezenas de milhares de soldados experimentados por anos e anos de guerra. Nós temos quarenta conjurados, alguns deles já envelhecidos, e a vontade do povo de Lisboa.
     Sentou-se devagar. Os contrastes que João lhe apresentava eram de tal modo poderosos que tudo lhe parecia uma enorme loucura.
      - Só quarenta? - foi a única coisa que conseguiu perguntar. 
      -  E a maior parte deles nunca aprendeu a arte de esgrimir, nem a manipular um mosquete.
      Agora percebia melhor as palavras do marido sobre o sentido da Pátria. (...)
      Luísa desanimou por momentos.
      - Visto assim, parece impossível.
   - É quase impossível. A janela da esperança abriu-se quando os astros se combinaram de tal forma que foi possível acreditar nessa única arma, embora eficaz, que é a surpresa. (...)
     - Falas dos astros como se tivéssemos um destino já traçado para cumprir.
      João de Bragança sorriu em discordância.
     - Soubesse eu que o nosso destino estava traçado e não teria hoje a fama de hesitante entre alguns dos amigos. É preciso ter a astúcia da raposa, a paciência da coruja e a determinação de um lobo para forçar o caminho que trilhamos - disse João, como se pensasse em voz alta.
     (...) A expressão do duque mudou. Regressava a gravidade preocupada e admitia, com algum pudor, que era grande o esforço para não seguir a excitação da duquesa. Fervia por dentro, adornado com uma máscara de serenidade. As horas tinham agora passo de caracol, os dias pareciam eternos, aquele sol mole, preguiçoso e frio tornara-se tão vagaroso como se o Verão estivesse à porta."

in O Dia dos Milagres, Casa das Letras, 2015, pp. 155-159

    Por mais ficcionais que os acontecimentos se apresentem, alguma coisa houve para um pequeno se afirmar diante de um poderoso; para os poucos quarenta enfrentarem uma força que parecia invencível.

    Talvez uma lição para a vida; para estes tempos tão dominados por forças omnipotentes que ameaçam a felicidade e a liberdade a que muitos aspiram, para poderem (sobre)viver menos enleados nas teias de interesses transnacionais.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Azulejo gramatical

      Há azulejos que dizem tudo...

    Quando alguém pergunta se é possível haver um "que" a caber na coordenação explicativa, a melhor resposta a dar é um azulejo:

Um azulejo muito gramatical, coordenativo e explicativo

     Ora cá está um caso de coordenação explicativa. A possível substituição do "que" por "pois" é a prova maior. Além disso, a permuta das orações com o articulador / conector evidencia uma impossibilidade de construção, dada a agramaticalidade do resultado final (> *Que não a levarás contigo, goza a vida / *Pois não a levarás contigo, goza a vida). Reside aqui um dos indicadores distintivos da natureza coordenativa da composição frásica, conforme já apontado em posts anteriores.

      ... numa sabedoria (de vida) que se faz acompanhar da devida explicação.

sábado, 26 de novembro de 2016

Dizem...

     É o que se ouve o dia todo! É a notícia, o tema , o assunto: a morte de Fidel Castro.

    Que foi figurante marcante; que era muito cordial e muito inteligente; que foi um líder e uma referência do século XX; que é um exemplo na História e da História; um homem de fé que conseguiu que o mundo estivesse à beira da III Guerra Mundial (grande feito!).
    Nem sei que diga, perante tanto dis-curso encomiasta. Pouco falta para ser um herói.
   Não sei bem porquê (ou talvez saiba), não o vejo como tal. Como pessoa, à semelhan-ça de qualquer ou-tra, será sempre digno de respeito na hora da última viagem - naquela  em que qualquer ser humano se vê confrontado com os seus derradeiros limites. Como político, não tem o meu apreço, por maior que seja a sua capacidade de argumentação (tão elogiada que ela também hoje foi). "Pátria ou Morte" ou "Até à Vitória Sempre" nunca deixaram de me parecer enunciados demasiado definitivos, extremados e pouco consistentes com a consciência da legitimidade da ação política. Não resultam para mim, mesmo em contexto de propaganda, pela imagem que dão de prepotência, de autoritarismo, de atos ditatoriais a justificarem qualquer fim em si mesmo. A ausência de liberdade nunca poderá ser razão ou necessidade para a luta contra desigualdades sociais - o que se revelou propósito mais retórico e seletivo do que prática para um bem coletivo comum - ou para a definição de políticas que até possam vir a tornar um país grande.
      Hoje não se ouviu falar de outra coisa. Pouco de Cuba e de como se viveu sob a alçada de alguém que, por mais carismático que fosse, fez do poder força contra os que não pensavam como ele ou como o partido único, nacional (se) impôs - nessa posição típica do orgulhosamente sós e/ou às costas de quem, longe, se faz fria e ameaçadoramente perto.

      "El comandante" morreu aos noventa anos; o seu pensamento e o seu regime não - como ele o disse "Os homens passam, os povos ficam; os homens passam, as ideias ficam." O tempo o dirá por quanto tempo perdurará tal regime, depois de muros e regimes terem caído.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Gordura é formosura...

     O princípio é dos tempos românticos, dizem uns.

  É por estas e por outras que me fico pelo passado e estou com as pessoas formosas, pelo menos com as que inteligentemente se riam e vejam o verdadeiro problema, ao lerem um 'post' como o seguinte:

Post em circulação no Facebook

    Obviamente, o problema maior está no vírus, que, pelos vistos, não tem formosura suficiente para apresentar o acento gráfico no devido sítio. Além disso, ele é tão infecioso que afeta os 'videos', que deixam de ser 'vídeos', sabe-se lá por que razão. 
     Não há paciência, mesmo que pela comédia me fique. Às vezes, chego à conclusão de que já não ando a ver ou a ler bem (deve ser do "virús", que não deixa ter "video").

    Eu digo que a gordura é um problema menor (talvez provocado por um ´Vírus' mais conforme e que não seja tão comprometedor da visão).

sábado, 19 de novembro de 2016

Política(s) e político(s) no mundo

     Como estamos de política no mundo? Mal, cada vez pior! Ainda mal!

     O problema maior parece ser mesmo o de alguns políticos que, no mundo, não veem nem ouvem o que (algum d)o povo ainda lhes quer mostrar: denúncia do exercício de um poder que só eles pensam ter, a título de controlo de um sentido de democracia a todo o tempo vaiado, sentenciado, sentido como ameaçado.
    Vaidosamente, e depois do golpe levado a cabo para a destituição da presidente Dilma Roussef, os Jogos Olímpicos e os Paralímpicos 2016, no Brasil, são declarados abertos pelo presidente em exercício, Michel Temer, entre alguns aplausos e intensas, ruidosas vaias olímpicas:

Políticos apupados no contexto do Desporto (montagem)

     Arrogantemente, o recém-eleito Donald Trump exige desculpas ao elenco de "Hamilton” -musical da Broadway a representar  a aspiração dos colonos à construção de um país -, depois de os atores, em palco, se terem dirigido ao próximo vice-presidente, Mike Pence (que assistia ao espetáculo), apelando a que a recentemente eleita presidência republicana trabalhe para o bem de todos os americanos, na sua diversidade e totalidade de cores e de crenças. O apelo é inspirador (antecedido do agradecimento pela presença e orientado para as expectativas de quem pretende ver consolidados os valores, nomeadamente fundacionais, e os direitos inalienáveis do povo da América); Trump sente-se incomodado. Assim aconteceu, com os aplausos do público espectador:

Um musical com um apelo final, para o bem da democracia

     Quando a arte (teatro) e o desporto (jogos olímpicos) denunciam os desgovernos de dois grandes do mundo (Brasil e Estados Unidos da América), talvez fosse de equacionar quais os perigos gerados por aqueles que dão ou são a cara da (suposta) democracia, para não se cair nas malhas de um crescente populismo (também decorrente do descrédito que grassa no mundo).

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Coesão... com alguma confusão

     Quando se trata de organizar a coesão, nem sempre os manuais têm razão.

     A questão coloca-se em termos de coesão frásica:

   Q: Olá, Vítor. No caderno de atividades do manual adotado na minha escola, há um exercício colocado na ficha da 'Coesão Frásica', que consiste em detetar erros de conexão. A frase dada é "Esqueci-me da chave dentro do automóvel, mas estava com pressa" e assume-se que há nela um erro por o conector não ser adequado. É um bom exemplo para coesão frásica? Não sei porquê, mas considerá-lo-ia mais na interfrásica.

     R: Viva. Concordo plenamente. O foco da coesão frásica orienta-se para mecanismos verificáveis ao nível da frase simples, nomeadamente, questões de concordância (no interior dos grupos de palavras ou entre sujeito e predicado, por exemplo), de ordenação sintagmática das palavras e de seleção de complementos pelos núcleos.
      Efetivamente, o que se encontra destacado nesse exemplo é o conector / articulador, na ligação de orações distintas - daí o âmbito interfrásico - e a lógica implicada nessa conexão de frase complexa.
    Acrescento, ainda, que só uma contextualização muito circunscrita desse exemplo inviabiliza ou torna inadequado o conector. Em termos pragmáticos, admitiria sempre a produção de um discurso que aponta para uma primeira oração de tipo constativo ('Esqueci-me da chave dentro do carro') seguida do articulador 'mas' a introduzir uma reação ou um comentário do falante relativizando / minimizando uma conclusão associada ao anteriormente proferido - isto é, 'esquecer a chave dentro do carro' aponta para a conclusão de uma situação impensável; 'ter pressa' admite uma desculpa, um cenário para uma conclusão de algo que não é (tão) impensável. Daí a lógica de contraste ou, melhor, de refutação poder ganhar algum sentido - nesta medida, o erro de conexão não existe perante um enunciado que combina dois atos de fala, a remeter para conclusões distintas, interligados por um conector com uma orientação argumentativa ajustada à contestação, objeção, refutação, .
       Face à tipologia de coesão há, portanto, um exemplo mal concebido e face ao erro indicado tenho algumas reservas, por não conhecer o contexto em que o enunciado foi / está produzido (a ponto de assumir a impossibilidade de um sentido potencial).

    Em síntese, um caso a evitar, tanto pela classificação do tipo de coesão como pela solução apontada.
      

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

'Time (not) to say goodbye'

    Anunciada a morte de Leonard Cohen, fica o registo para memória de mais um cantautor que poderia ter sido Nobel da Literatura.

     Muitos disseram preferi-lo ao recentemente galardoado Dylan. Para além da composição de letras de canção, alguns livros de poemas figuram na produção escrita de Cohen desde os anos cinquenta do século XX (Let Us Compare Mythologies, de 1956; The Spice-Box of Earth, de 1961; Flowers for Hitler, de 1964; Parasites of Heaven, de 1966; Book of Mercy, de 1984; The Book of Longing, de 2006), além de algumas narrativas de pequena dimensão (The Favourite Game, de 1963; Beautiful Losers, de 1966). Entre vários galardões que o distinguiram em vida, conta-se o 'Prémio Príncipe das Astúrias', datado de 2011, no âmbito da Literatura.
     Aos 82 anos, desaparece a presença física deste canadiano, não só projetado na música mas também reconhecido na literatura e no desenho. Um artista que priorizou a primeira das artes (música) a partir dos seus 33 anos e nos deixou sonoridades folk, baladas melódicas e um 'soft rock' em voz arrastada, rouca e sussurrada tão marcantes para a história da música do continente americano, em particular, e do mundo, em geral.
      Talvez não tenha sido sua vontade (para retomar um dos temas: 'If it be your will') fazer esta despedida (a lembrar um 'So long, Marianne'). A nós, por ora, resta-nos repetir 'Hey, That's No Way to Say Goodbye' (ainda que o tema da despedida seja por motivos mais definitivos do que a letra dá a ler):

Montagem vídeo-som 
(a partir de imagens da internet e do áudio "Hey that's no Way to Say Goodbye")

HEY, THAT'S NO WAY TO SAY GOODBYE

I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye. 


I'm not looking for another as I wander in my time,
walk me to the corner, our steps will always rhyme
you know my love goes with you as your love stays with me,
it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.


      Um tempo para relembrar Leonard Cohen, para que a memória perdure nos sons e nas letras que nos criou.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O que é nacional é bom! E do Porto melhor ainda!

     Já foi slogan publicitário para as bolachas "Nacional". Agora, é mais para escrever sobre uma música.

    Há já algum tempo que tenho vindo a ouvir, na rádio, uma canção que aprecio. Há dias, descobri que é uma jovem voz portuguesa portuense a cantar em inglês. Já não é a primeira vez que me espanto com o facto, mas isto de esperar que só o estrangeiro tem qualidade é falácia e das maiores. Particularmente quando a pessoa está mesmo próxima de nós.
   Tudo a propósito de Kika - abreviatura de Francisca Osório de Castro -, uma das mais recentes revelações da música portuguesa, ainda que conte já com cerca de três anos de reconhecimento nas playlists das rádios nacionais.
    Por ora, a coincidência do meu gosto com os tops está certeira. Nem sempre foi assim, mas é-o com Colorblind:

Vídeo oficial do single de Kika - Colorblind (2016)

It's already time to go it breaks my heart
Once again we didn't say things
I know the answer to the question in your eyes
If I could only dare to tell you

Won't you be my baby
Please stay make me whole
Cause I

Never knew 
The colour blue
Until I was losing you
I've been colorblind
I don't know what to do
Cause baby I believe that I'll be broken
Until you're mine,
Till you're mine
(no, no, no)

If I gathered up my courage with a kiss
Would you welcome the affection
Is it wrong is it right to feel like this?
Are you feeling the connection?


Maybe I've had enough
And you know I'm not that tough
Thinking about a future without you in it
I've never felt something like this
I can't take it anymore
Don't you understand?

Won't you be mine
Be mine.

     Quem não desejaria ser cego à cor, quando esta é portadora das tonalidades da tristeza e da dor? Talvez ninguém o devesse desejar, porque na alegria e na dor há que (vi)ver.

     Um belíssimo instrumental de guitarra, bateria e piano, com uma interpretação vocal interessante para uma letra típica para apaixonados.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Que TRUMPalhada!

      Não se ouve falar de outra coisa; por isso, eu escrevo, para ser diferente.

Hillary Clinton e Donald Trump sem cor
   O dia abre com a notícia do dito: Trump venceu as presidenciais norte-americanas. Alguém comentava há dias que a escolha entre Donald Trump e Hillary Clinton era sinónima de consi-deração do mal menor. Reconheço que, ainda assim, a opção não é fácil, pois entre o mal de ambos não sei o que seja menor: se a cara de pau e a presunção extremista, populista, autocrática de um ou o sorriso estratégico e pretensamente consensual da outra. Há razões, para qualquer um dos lados, que não dão confiança nem vontade de os ver à frente de um dos países que comandam o mundo.
   Fazer história e colocar uma mulher na presidência dos EUA não são razões suficientes para ignorar aquele que foi todo um percurso feito em nome de uma constante sede - quase exclusiva e, por vezes, incompreensível - de poder (desde os tempos de juventude aos de primeira dama, ou mesmo aos de democrata que enfrentou Obama). Ver um self made man a ascender ruidosamente ao topo e lembrar os ditos e feitos que lhe mancham a imagem pública são motivos de descrença no que possa existir de bom.
    O mediatismo dos Obama não chegou para que os americanos entendessem oito anos de uma promissed land que não foi vislumbrada e que Hillary não deu a (re)ver nos debates em que participou. A alternância democrática regressou, ironicamente para os republicanos e em todas as frentes (por mais divididos que estejam face à figura que os lidera).
   As sondagens falham (e há quem teimosamente insista em as validar, de alguma forma); os humanos também e ainda mais quando as hipóteses com que deparam não representam bom exemplo para ninguém. 
     Parece restar a firme vontade de mudança, por mais irracional que esta possa parecer ou por maior que seja o pesadelo de quem a possa trazer.

    Assim, no dia em que se celebra a queda do muro de Berlim, um outro pode vir a crescer (já lá se encontrando na fronteira com o México, entre Tijuana e San Diego) nas alturas, a julgar pelo que Trump anunciou, depois negou e talvez esteja para reeditar lá para os lados do México.
       

domingo, 6 de novembro de 2016

Um palhaço para levar a sério

   Tudo a propósito de "Clown".

    Cantada no original pela escocesa Emeli Sandé (do álbum "Our Version of Events", de 2012), esta cantiga é apontada como o reflexo de uma situação vivida pela cantora, quando estava para ser contratada por uma empresa e, nesse contexto, teve de participar em alguns encontros, algumas receções e se sentiu julgada / avaliada por tudo e todos. É um grito de revolta, para que não se seja mero objeto de julgamento dos outros; para que se afirme a crença nos valores próprios e para que ninguém faça do ser humano um simples palhaço:

Vídeoclip da interpretação de "Clown", 
de Emeli Sandé
        
     CLOWN

I guess it's funnier from where you're standing
'Cause from over here I miss the joke
Clear the way for my crash landing
I've done it again
Another number for your notes

I'd be smiling if I wasn't so desperate
I'd be patient if I had the time
I could stop and answer all of your questions
As soon as I find out
How I can move from the back of the line

I'll be your clown
Behind the glass
Go 'head and laugh
'Cause it's funny
I would too if I saw me
I'll be your clown
On your favorite channel
My life's a circus, circus
Round in circles
I'm selling out tonight

I'd be less angry if it was my decision
And the money was just rolling in
If I had more than my ambition
I'll have time for please
I'll have time for thank you
As soon as I win

From a distance my choice is simple
From a distance I can entertain
So you can see me
I put makeup on my face
But there's no way you can feel it
From so far away

Vídeo do "The Voice Portugal", emitido hoje à noite na RTP1

    Depois da original, vem a interpretação produzida no programa televisivo "The Voice Portugal" (no canal público da RTP1), numa versão com um trio de vozes muito sonante e harmonioso (Francisco, Márcia e Daniel), ao qual se juntou outro concorrente (Sérgio Alves), para uma batalha em que não podia haver vencedor (a qualidade de ambos - o grupo e o solista - era evidente). Acabaram os dois participantes por continuar no concurso musical, em equipas tuteladas por mentores musicais distintos. Mais do que merecido!
    Qualquer um dos registos (o primeiro mais intimista; o segundo mais projetado) é tocante, para uma mensagem que, por certo, ganhou a espetacularidade e a força merecidas para um valor humano cada vez mais premente - o de não se ser um palhaço social.

      Há vozes que merecem ser ouvidas, por maior ou menor fama que tenham, já que nos cantam a própria dignidade humana.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Enterrar os mortos e cuidar dos vivos"

      Citando as palavras do Marquês do Pombal, cumprem-se os tempos.

   O sentido pragmático associado à produção do enunciado setecentista justificava-se pela emergência de medidas a tomar / aplicar, para dar resposta a uma hecatombe que a História faz lembrar e o feriado evoca.
   Passados mais de 250 anos, o Terramoto de 1755 parece um filme trágico, de que alguns documentários mostram evidências relativas ao que ninguém, por certo, gostaria de reviver:

Montagem de dois documentários televisivos (Canal 'Odisseia' e 'História') 
alusivos à efeméride histórica do Terramoto de 1755 (Lisboa)

     A sequência do terramoto-maremoto-incêndio foi demasiado dantesca para uma capital europeia e orgulhosa de sinais de protagonismo vivenciado desde os tempos dos Descobrimentos até à magnanimidade áurea de D. João V e do seu sucessor D. José I. O colapso deu-se e só não foi maior pela presença estadista - ainda que autocrática, despótica - de Sebastião José de Carvalho e Melo, que fez reconstruir a baixa lisboeta à luz do espírito racionalista do tempo. Da ira de Deus à catástrofe natural foi um longo caminho para uma argumentação que hodiernamente tem nesta última o motivo credível e a todo o tempo repetível.
      Em pleno século XXI, a lembrança dos mortos é mais afetiva e próxima de cada um do que da necessidade e do pragmatismo que se impunham ao bem (sanitário) de todos em meados do século XVIII. Cuidar dos vivos mantém-se um imperativo que, atualmente, outras tragédias fazem (re)viver - mais parecendo que, por vezes, se quer enterrar os vivos.

       Um dia para lembrar pelo que foi e pelo que é - até porque há tsunamis na vida que estão bem mais para cá e para lá de Lisboa ou dos tempos (já) vividos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Travessuras... travessuras...!

     A escolha é óbvia: as doçuras fazem mal.

   Regressa o tempo do Halloween, num imaginário que alguns dizem anglo-americano, mas que, afinal, não deixa de ser uma herança muito europeia (céltica) - para não dizer que o primeiro se inspirou na segunda.
    Entre abóboras dentadas, bruxas, caretas de palhaço assassino, feridas e sangue falso, máscaras do "Scream", mortos-vivos, partes de corpo decepadas, teias de aranha, vampiros e zombies, ecoa o "trick or treat" em noite que, nos tempos correntes, convém que seja mais para travessuras do que para doçuras - a bem dos diabetes e outras doenças "açucaradas", nada favoráveis ao combate da obesidade.
    Desde a celebração celta do Samhain (o "fim do verão"), a noite de 31 de outubro tem vindo a ser encarada numa maior proximidade entre mortos e vivos, dizendo-se mesmo que os espíritos regressam às casas que foram suas para pedir comida. Daí a prática de alguns familiares deixarem as sobras do jantar à porta de casa. Com a instituição, pelo século VIII e pela Igreja Católica, do 'Dia de Todos os Santos' à data de 1 de novembro, paganismo e catolicismo fundiram-se numa só festividade de natureza mais para o profano (e comercial) do que religioso.
    Em meados do século XIX, tal celebração rumou da Irlanda para a América do Norte, num movimento emigratório associado ao período da Grande Fome (pelas décadas de 40 e 50), que havia dizimado muita da população europeia de então.

   Uma história de viagem que, afinal, é mais de cá para lá do que ao contrário. Logo, quando disserem  que isto é tudo uma americanice, é melhor ver a questão na perspetiva inversa, ao estilo do bom filho a casa torna.

domingo, 30 de outubro de 2016

Com ou sem hífen?

      De novo, a questão do Acordo Ortográfico (AO).

      Dúvidas que só o uso pode vir a resolver, com alguma leitura e/ou consulta do Acordo (que, por certo, não é o melhor exemplo de literatura).

      Q: 'Personagem-tipo' perde o hífen com o AO?
Personagens-tipo queirosianas
    R: Não. Voltando à base XV do AO - intitulada "Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares" -, é assumido que se emprega o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio,
    Trata-se, assim, de um composto na mesma linha de 'ano-luz' e 'turma-piloto', também grafados com hífen (justapostos e com contraste de número no primeiro termo).

       Porque 'personagem-tipo' é um tipo de personagem, tal como 'ano-luz' é um tipo de medida / distância e 'turma-piloto' é um tipo de turma. e se mantêm os acentos próprios dos termos (daí a justaposição). 

sábado, 29 de outubro de 2016

Novidades... com alguma velhice!

     Fala-se de "novidade", mas só com aspas de distanciamento e não apenas de citação.

     Fica, então, a questão que propõe o novo mais do que relativo.

     Q: Vítor, numa ação de formação ouvir falar de umas subordinadas que, admito, desconheço por completo: "subordinadas proporcionais"! Procurei no Dicionário Terminológico e não vi tal coisa. Só vi as subordinadas habituais e, nestas, as comparativas. Onde é que foram inventar esta, pergunto eu? Já ouviste falar disto?

  R: Meu caro, já ouvi falar e não são invenção. Mesmo não estando no Dicionário Terminológico (que não é, certamente, documento exclusivo do ou para o ensino da gramática), posso referenciar algumas gramáticas que tratam da questão, que consideras nova (ainda que não o seja).
    Desde logo, a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 585), de Celso Cunha e Lindley Cintra, já faz referência a este tipo de subordinadas, ao abordar o que designa-va "conjunções proporcionais". Na Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Mira Mateus (Caminho, 2003, págs. 765-766), tais subordinadas são configuradas através de conectores correlativos como "(Quanto) mais / menos... (tanto) mais/menos..." ou articuladores do tipo "À medida que..." / "Enquanto...", na expressão da proporcionalidade. É o que se pode exemplificar com os sublinhados das subordinadas seguintes:

       i) Quanto menos fazes menos queres fazer.
       ii) (Quanto) Mais te esforças melhor resultado tens.
       iii) Enquanto eles estudam, mais / melhor compreendem a matéria. 
       iv) À medida que o estudo avança, melhor é a compreensão da matéria.

      São construções de graduação que estão em causa (veja-se o sublinhado no segundo termo das frases dadas, ou na subordinante), antecedidas por uma expressão de proporção. 
      Ainda que se trate de uma classificação mais conforme à Nomenclatura Gramatical Brasileira, há gramáticas portuguesas que referem especificamente o caso das comparativas correlativas [encarando-as, portanto, como um subtipo de comparativas, que admite até a inversão dos termos com articulador isolado - cf. iii e iv)]. Testes de clivagem e de inversão oracional com o articulador marcam, contudo, um diferencial significativo face às comparativas, em termos sintáticos, numa aproximação bem mais consistente com a natureza das subordinadas adverbiais.
    Já agora, deixa-me também mencionar as subordinadas conformativas (NGPC, pág. 585 / GLP, págs. 362-365), presente, por exemplo, na última vinheta da tira seguinte:


     "Segundo disse o médico,..." é a subordinada conformativa usada. Também não é propriamente nova e traduz a conformidade face ao explicitado na subordinante. É expressa por articuladores como 'conforme', 'segundo' e 'consoante', ou mesmo um 'como' parafraseável pelas formas indicadas entre parêntesis:

        v) Não concordo contigo; pensa como quiseres (conforme / da maneira que / do modo que quiseres)
       vi) Como se previa (Conforme / Da maneira que / Do modo que / Segundo se previa), a experiência falhou.

      Estes outros dois tipos de subordinadas admitem alguma inversão dos termos (cf. iii, iv e vi), particularmente nos casos com articulador / conector isolado (ou seja, não correlativo), bem distintos dos casos de comparativas com graduação de igualdade, superioridade ou inferioridade.

      Uma outra gramática que aborda estas subordinadas é a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian (vol. II, 2013, págs.2164-8 e 2159, respetivamente). Sem invenções, com exemplificação e testes distintivos relativamente às subordinadas comparativas, com que geral e criticamente são identificadas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Provérbios...!

      São tão cultural e experiencialmente relativos quanto, às vezes, se desdizerem no que significam.

     Que o diga o "Quem espera...", a dar tanto para o "... sempre alcança" (na visão positiva) como para o "... desespera" (na versão negativa).
      Hoje apetece-me desconstruir o que a tradição impôs. Houve já quem dissesse / escrevesse que "Deus escreve torto em / por linhas direitas" (que heresia, santo Deus!) ou que "As mulheres não se medem aos palmos" (a bem de que não seja sempre o homem a representar a humanidade). Eu, por exemplo, já escrevi que "Mais vale mal acompanhado" (por razões óbvias)!
     Um pouco à semelhança de Chico Buarque, talvez o "Bom Conselho" esteja em ir contra a corrente que a nada conduz:

Chico Buarque, "Bom Conselho (1972)

BOM CONSELHO

Ouça um bom conselho 
Que eu lhe dou de graça 
Inútil dormir, que a dor não passa 
Espere sentado 
Ou você se cansa 
Está provado, quem espera nunca alcança 

Venha, meu amigo 
Deixe esse regaço 
Brinque com meu fogo, Venha se queimar 
Faça como eu digo 
Faça como eu faço 
Aja duas vezes antes de pensar 

Corro atrás do tempo 
Vim de não sei onde 
Devagar é que não se vai longe 
Eu semeio o vento 
Na minha cidade 
Vou pra rua e bebo a tempestade

      Inconformismo, cansaço, desilusão, alguma noção de perda de tempo (que não traz felicidade a ninguém) e alguma desistência, para ainda poder agir em função daquilo em que se acredita - e não do que a "ditadura da democracia" quer. Eis alguns motivos para que o silêncio se instale (ainda que este último às vezes signifique mais do que muitos discursos ou palavras, tornados ocos). Por isso é que (perdoe-me o graffiter!) tenho de reformular o provérbio:

Graffiti nas ruas de Alfama (Lisboa)

       Quem cala não deixa de querer mudar (e, por isso, nem sempre consente). E, assim, se vai construindo uma revolução silenciosa, nem que seja a de recriar a própria língua (afastando-a da sua zona de conforto ou de rotineira comunicação).

   Tenho dito, escrito e, quiçá, passado das palavras aos atos (silenciosos, antes que sejam silenciados)!

domingo, 23 de outubro de 2016

De novo o "Inferno"

       Já sobre ele escrevi várias vezes - antes, do livro; hoje, do filme.

     A leitura de "Inferno" de Dan Brown foi hoje complementada pelo visionamento da adaptação fílmica do livro à tela. Protagonizado por Tom Hanks, o enredo fílmico traduz algum do caos ameaçador que contribui para uma visão dantesca do mundo:

Trailer do filme para a obra homónima de Dan Brown

       Não é negada - se é que alguma vez o será - a constatação clássica de que o ritmo da sétima arte - com percursos bem mais curtos, para não mencionar os eliminados - em nada condiz com o do tempo de leitura. Assim se marca a produção de Ron Howard, em mais um episódio - digamos assim - da série de aventuras do simbologista Robert Langdon. Depois de O Código Da Vinci (2006) e Anjos e Demónios (2009), chega a versão cinematográfica de Inferno (2016), numa rede de relações muito próxima à referência cultural que Dante representou nessa descida literária aos infernos de A Divina Comédia - obra trecentista constituída por três partes ('Inferno', 'Purgatório' e 'Paraíso').
       Langdon acorda num hospital italiano em estado amnésico. A recuperação da memória faz-se à medida que a parceria com Sienna Brooks (Felicity Jones) dá lugar à constatação de que é preciso correr contra o relógio, de modo a desvendar os segredos que podem transformar-se numa crise global fatal. O mau da fita (sê-lo-á?!), Bertrand Zobrist, sustenta que a superpopulação conduzirá ao fim da humanidade, pelo que a sobrevivência passa por diminuir o número de habitantes planetários. Se, no livro, um vírus provoca uma mutação genética - causando esterilidade a um terço da população mundial, numa estratégia de controlo da natalidade -, na tela o perigo da exterminação da humanidade mantém-se, ao evitar-se que o vírus esterelizador se propague.
      As diferenças da escrita face às do registo cinésico da arte do cinema não se esgotam neste aspeto temático final: a descrição física das três figuras femininas da história não é coincidente; há personagens nas páginas do livro que não têm lugar na tela (caso de Christoph Brüder, um agente ao serviço da Organização Mundial da Saúde com a missão de capturar Robert Langdon e que, no fim, colabora na resolução da trama), bem como o contrário (o agente Christoph Bouchard persegue Langdon e Sienna, aliando-se a estes para obter o vírus que pretende vender no mercado negro); no liveo, o conhecimento recente de Robert Langdon relativamente à Dr.ª Elisabeth Sinksey - chefe da Organização Mundial de Saúde -, no filme, redunda num passado amoroso resolvido em favor dos percursos profissionais e em detrimento da relação sentimental.

     E nas distinções que compõem as duas expressões artísticas (o que, aliás, já se havia verificado com Anjos e Demónios), um dado ressalta: as viagens por Florença (Giardino di Boboli, Corridoro Vasari, Ponte Vecchio, Galeria Uffizi, Catedral Santa Maria del Fiore), Veneza (o Grande Canal, a Praça de S. Marcos, o Palácio do Doge) e Istambul (Hagia Sophia e a Cisterna da Basílica de Istambul) são itinerários que preenchem a visão e a imaginação tanto de quem lê como de quem vê.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Um dia depois... Dylan (um Nobel para o Bob)

    Hoje começo a escrever em inglês (em ‘American English’), da pergunta à resposta: Are these times a-changing?! The answer, my friend, is blowing in the wind / The answer is blowing in the wind!
Bob Dylan num concerto há quatro anos 
(© KI PRICE / REUTERS)
   Comoção geral. Assim parece pela frequência do tema de conversa: Bob Dylan é Nobel da Literatura.
  Para o choque de uns, a satisfação de outros, sem deixar de mencionar os que indiferentemente olham para o assunto como mais um, no meio de tantos outros provavelmente mais críticos ou interessantes (porque mais determinantes na vida de cada um).
    Interessa-me particularmente a reação que vai sendo revelada pelos que no campo literário (ora por serem conceituados escritores ora por estarem relacionados com o ensino da literatura) se vão pronunciando sobre a questão.
   Entre as argumentações produzidas (música, canções não são literatura; os autores de canções não são poetas; chegou a banalização, a relativização ou menorização da literatura face a outras artes; há tempos de mudança na produção literária ou de falta de critérios para o que é literatura), quase todas esbarram em duas evidências: uma, a de que muitos poemas acabaram por ser musicados, tornando-se o suporte textual de belíssimas letras de canção (com autores tão diversos como Camões, Florbela Espanca ou Pessoa, para me ficar por Portugal e apenas por alguns poetas mais canónicos); outra, a de que muitas letras de canção refletem autênticas pérolas poéticas (pelos mecanismos de construção sonora, sintática, semântica, estilística; pela densidade metafórica associada aos motivos / temas [re]criados; pelos efeitos pragmáticos, cultural e simbolicamente reconstruídos nos planos da intervenção, da formação, da sugestão, da criação artística, do gosto, da emoção e da ficção, numa memória tão ou mais afetivamente coletiva quanto as que são reproduzidas de cor [ou, como dizem os ingleses, “by heart”]).
   Pelo cérebro ou pelo coração, chega-se ao estético, por mais variáveis que os tempos, as contingências históricas e os gostos sejam. Neste sentido, muitas letras de canção revelam conteúdos, trabalho de linguagem e processos de (re)construção poéticos, a ecoar outros textos / outras artes / outras realizações linguísticas / outras dimensões culturais. Encarados como poetas ou não, nomes como Carlos Tê, Sérgio Godinho, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Djavan, Dorival Caymmi marcam muita da escrita musicada na língua portuguesa “d’aquém e d’além mar”, numa qualidade reconhecida como literária.
    Uma letra de canção pode constituir-se como um belo poema, se for literalmente rica, (re)ativa na leitura que dela se faça. Escrita para ser acompanhada da música, ela não fica, por norma, no papel. O poema até poderá não sair dele; contudo, na sua leitura original, não anda longe da voz que, mais ou menos silenciosa, é bem distinta da representada na leitura de uma notícia de jornal ou da linha de uma comum prosa, em ritmo diferente do verso. Isto para não falar de alguma prosa que, de tão poética, está por certo mais próxima da entoação do canto.
    Entre a poesia feita canção ou a canção redigida em jeito poético, a história literária confirma essa interação que música e literatura sempre tiveram desde as origens. A tradição oral dos bardos, a homérica ou, ainda, na história da literatura portuguesa, as compilações dos cancioneiros são o exemplo dessa convergência, registando cantigas (de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer) que são poemas produzidos para serem cantados no contexto de animação das cortes medievais.
    Por tudo isto, Bob Dylan ser o Nobel da Literatura deste ano é um dado que não me choca nem polemizo, enquanto cantautor de relevo na tradição cultural da música norte-americana, escritor de prosa poética e autor de uma obra autobiográfica. É mais conhecido como músico; ainda assim, mais influente na sua escrita do que muitos outros nomes agraciados com o mesmo prémio.
     Por mais marginais que possam ser perspetivadas no seio da obra literária, as letras de canção não deixam de ser um género de escrita entre os muitos que a literatura tem. No seu sentido mais elevado (‘stricto sensu’) ou no âmbito da paraliteratura / literatura popular (também “folk”) / infraliteratura, há sentidos estéticos de variação e variedade muito difusos, por certo; mesmo assim, literatura (no seu ‘lato sensu’), próxima que seja dessa proveniência derivante de ‘littera’ (letra) e da arte da escrita.

 Vídeo e letra de "Blowin' in the Wind", de Bob Dylan

     Parafraseando “Blowin' in the wind” (nessa metáfora dos anos sessenta do século XX, tão marcada pelo registo de protesto e intervenção, na procura da justiça social por que se lutava nesses tempos de inconformismo), apetece perguntar ‘How many roads must a man walk down / Before you can call him a ‘nobel’?


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

MCR no seu melhor

     Tempo de ondas musicais.

     E no vaivém sonoro nem sempre há ondas iguais, tal como não se repetem os instantes do tempo e o que neles se vive.
     O mesmo parece acontecer no amor, segundo a letra desta balada dos My Chemical Romance:

Vídeo oficial da música (2007)

I Don't Love You

Well, when you go
Don't ever think I'll make you try to stay
And maybe when you get back
I'll be off to find another way

And after all this time that you still owe
You're still a good-for-nothing I don't know
So take your gloves and get out
Better get out
While you can

When you go
Would you even turn to say
"I don't love you
Like I did
Yesterday"

Sometimes I cry so hard from pleading
So sick and tired of all the needless beating
But baby when they knock you
Down and out
Is where you oughta stay

And after all the blood that you still owe
Another dollar's just another blow
So fix your eyes and get up
Better get up
While you can
Whoa, whoa

Well come on, come on

When you go
Would you have the guts to say
"I don't love you
Like I loved you
Yesterday"

I don't love you
Like I loved you
Yesterday

     Um tema já quase com dez anos, do álbum The Black Parade (2007), com Gerard Way a ser vocalmente muito bem acompanhado pelos guitarristas Ray Toro, Mikey Way e Frank Iero, o teclista James Dewees e o baterista Bob Bryar.

      Uma onda rock alternativa que findou pelo ano 2013, com a desintegração do grupo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Nem tudo o que parece é!

     Um caso para considerar na sua excecionalidade.

     Assim se entende o caso proposto na questão.

   Q: Professor, posso dar conta da produtividade do sufixo '-oso' na língua portuguesa com os exemplos 'feioso' e 'rancoroso'? Obrigada pela ajuda.

     R: É verdade que ambos os exemplos indicados correspondem a palavras derivadas por sufixação e podem ser, nesse capítulo, considerados bons. 
      Contudo, a questão da produtividade é bem mais evidente com 'rancoroso', 'jeitoso', delicioso', 'famoso', 'melodioso', 'harmonioso', por exemplo, do que com 'feioso'. Este último termo é excecional, pela pontualidade e assistematicidade do processo formativo: trata-se de um adjetivo formado a partir de um outro adjetivo (feioso < feio), traduzindo alguma avaliação / intensidade de 'feio' . Ora, não se pode dizer que haja regularidade nesta formação. Estou a lembrar-me de mais dois casos (belicoso < bélico, sonoroso < sonoro) e alguns outros, poucos, existirão. 
       Bem mais sistemáticos são os adjetivos construídos a partir de nomes (denominais), que permitem obter 'amoroso < amor', 'brioso < brio', 'carinhoso < carinho', 'chuvoso < chuva', 'deleitoso < deleite', 'guloso < gula', 'harmonioso < harmonia', 'invernoso < inverno', 'numeroso < número', 'oleoso < óleo', 'perigoso < perigo', 'preguiçoso < preguiça', 'respeitoso < respeito', 'saboroso < sabor', 'talentoso < talento', 'venenoso < veneno', 'vicioso < vício', 'zeloso < zelo', entre muitos outros.
      Assim se conclui que a formação de adjetivos com o sufixo '-oso', derivados de nomes, é um processo mais típico, regular, sistemático e produtivo.

      Faria apenas lembrar, por fim, que a paráfrase 'que tem NOME' dos últimos exemplos é  distinta da associada a '-oso' de 'feioso' (* que tem feio), sendo neste último caso preferível dizer-se 'que é muito / pouco ADJETIVO' - casos distintos de realização do sufixo, portanto, com enquadramentos semânticos diversos, para lá da natureza produtiva (ou não) de cada um.