sábado, 29 de outubro de 2016

Novidades... com alguma velhice!

     Fala-se de "novidade", mas só com aspas de distanciamento e não apenas de citação.

     Fica, então, a questão que propõe o novo mais do que relativo.

     Q: Vítor, numa ação de formação ouvir falar de umas subordinadas que, admito, desconheço por completo: "subordinadas proporcionais"! Procurei no Dicionário Terminológico e não vi tal coisa. Só vi as subordinadas habituais e, nestas, as comparativas. Onde é que foram inventar esta, pergunto eu? Já ouviste falar disto?

  R: Meu caro, já ouvi falar e não são invenção. Mesmo não estando no Dicionário Terminológico (que não é, certamente, documento exclusivo do ou para o ensino da gramática), posso referenciar algumas gramáticas que tratam da questão, que consideras nova (ainda que não o seja).
    Desde logo, a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 585), de Celso Cunha e Lindley Cintra, já faz referência a este tipo de subordinadas, ao abordar o que designa-va "conjunções proporcionais". Na Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Mira Mateus (Caminho, 2003, págs. 765-766), tais subordinadas são configuradas através de conectores correlativos como "(Quanto) mais / menos... (tanto) mais/menos..." ou articuladores do tipo "À medida que..." / "Enquanto...", na expressão da proporcionalidade. É o que se pode exemplificar com os sublinhados das subordinadas seguintes:

       i) Quanto menos fazes menos queres fazer.
       ii) (Quanto) Mais te esforças melhor resultado tens.
       iii) Enquanto eles estudam, mais / melhor compreendem a matéria. 
       iv) À medida que o estudo avança, melhor é a compreensão da matéria.

      São construções de graduação que estão em causa (veja-se o sublinhado no segundo termo das frases dadas, ou na subordinante), antecedidas por uma expressão de proporção. 
      Ainda que se trate de uma classificação mais conforme à Nomenclatura Gramatical Brasileira, há gramáticas portuguesas que referem especificamente o caso das comparativas correlativas [encarando-as, portanto, como um subtipo de comparativas, que admite até a inversão dos termos com articulador isolado - cf. iii e iv)]. Testes de clivagem e de inversão oracional com o articulador marcam, contudo, um diferencial significativo face às comparativas, em termos sintáticos, numa aproximação bem mais consistente com a natureza das subordinadas adverbiais.
    Já agora, deixa-me também mencionar as subordinadas conformativas (NGPC, pág. 585 / GLP, págs. 362-365), presente, por exemplo, na última vinheta da tira seguinte:


     "Segundo disse o médico,..." é a subordinada conformativa usada. Também não é propriamente nova e traduz a conformidade face ao explicitado na subordinante. É expressa por articuladores como 'conforme', 'segundo' e 'consoante', ou mesmo um 'como' parafraseável pelas formas indicadas entre parêntesis:

        v) Não concordo contigo; pensa como quiseres (conforme / da maneira que / do modo que quiseres)
       vi) Como se previa (Conforme / Da maneira que / Do modo que / Segundo se previa), a experiência falhou.

      Estes outros dois tipos de subordinadas admitem alguma inversão dos termos (cf. iii, iv e vi), particularmente nos casos com articulador / conector isolado (ou seja, não correlativo), bem distintos dos casos de comparativas com graduação de igualdade, superioridade ou inferioridade.

      Uma outra gramática que aborda estas subordinadas é a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian (vol. II, 2013, págs.2164-8 e 2159, respetivamente). Sem invenções, com exemplificação e testes distintivos relativamente às subordinadas comparativas, com que geral e criticamente são identificadas.