sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Simplesmente a verdade (que nada tem de simples)

    Vem este apontamento a propósito da aula de Literatura Portuguesa de hoje.

   No contexto da leitura da obra de Fernão Lopes, tem sido este escritor objeto de algumas referências nas minhas aulas, pelos seus aspetos biográficos, bibliográficos e estilísticos, para além de uma ou outra relação com outros dominios da saber e outras formas de expressão artística.
    Com o documentário "Fernão Lopes, simplesmente a verdade", do programa "A Alma e a Gente" (da autoria do Professor José Hermano Saraiva), tiveram os alunos de anotar elementos respeitantes aos seguintes tópicos: biografia; obras do cronista em geral; Crónica de Dom João I em particular.

Montagem de imagens alusivas ao escritor Fernão Lopes

     A lição do professor foi visionada e escutada no jeito comunicativo e expressivo com que habituou o auditório dos seus programas televisivos. No fundo, pôde ser experienciada uma exposição com "o sangue da paixão humana", palavras que o estudioso usou para caracterizar o estilo do próprio cronista quatrocentista.
    O documentário consiste numa explanação dos pressupostos histórico-bi(bli)ográficos do autor medieval, bem como de alguns episódios / capítulos que podem ser lidos na já mencionada crónica. É ainda, segundo sugestão do título proposto, uma apresentação coincidente com o propósito prioritário da verdade (tão caro a Fernão Lopes, a ponto de registar no "Prólogo" que "nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mistura, deixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao povo, quaisquer contrárias cousas, da guisa que avieram").
    Num discurso acessível, de vivacidade sugestiva e empenhada numa aproximação do professor ao telespectador, revê-se também o texto lopiano pautado por marcas de uma oralidade comprometida com um leitor-ouvinte e os efeitos oratórios necessários à historiografia e à divulgação de feitos e heróis nacionais da fase final da Idade Média.

     Na próxima aula, ver-se-á o resultado da atividade, nos discursos de um minuto que vão ter de produzir a partir da tomada de notas.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Um homem de todos os credos e cores

     Há sessenta seis anos mataram quem fazia da paz uma arma.

    De tantas vezes nomeado para o Nobel da Paz (cinco), não o deixaram receber o que lhe era devido e merecido. Prova disto foi o facto de o presidente do comité assim o ter reconhecido, quando o Dalai Lama Tenzin Gyatso recebeu o galardão no ano de 1989, numa atribuição justificada, em parte, pelo tributo à memória de Mahatma Gandhi.
    Aos 79 anos tiravam Mohandas Karamchand Gandhi - mais conhecido por Mahatma ("A grande alma", no sânscrito) Gandhi - deste mundo, apesar da inspiração que representava para ideais e movimentos democráticos, anti-racistas e de apelo à não violência. Assim, o grande defensor pacifista da independência indiana face ao império britânico deixava à Humanidade o exemplo do que era a luta convicta, ativista por princípios de dignidade e simplicidade humanas, mesmo nas condições mais adversas (como as da guerra, da fome e da doença); do que era a força valente do Homem na luta contra quaisquer formas de preconceito conjugada com a bravura na recusa da violência e da submissão a usurpadores.
     Deste exemplo humano se compõe o retrato fílmico realizado por Richard Attenborough, protagonizado pelo ator Ben Kingsley (por muitos considerado uma espécie de reencarnação desta personalidade marcante e líder espiritual do século XX). Gandhi, de 1982, foi um filme da minha adolescência, para rever um herói que me foi dado a conhecer pelos livros de História do 9º ano.

Pictograma do filme Gandhi, premiado com oito óscares.

    Na sua Índia natal, o bem-sucedido advogado da África do Sul deu lugar ao homem espiritualmente identificado com os indianos pobres, de que o "khadi" foi um sinal (tecido fabricado artesanalmente e usado nas vestes, como forma de renunciar à indústria têxtil do colonizador inglês).

     No curso de uma vida e de um ideal, fica o exemplo inspirador, merecedor do epíteto de herói para a Humanidade, por ter conduzido o seu país à independência e ter feito da humildade e da verdade simples forças maiores do que a de qualquer império.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Há 69 anos... uma libertação

      Passaram muitos anos. Talvez não sejam ainda os de toda uma vida, atendendo à esperança média que dela se faz.

    Muitos foram aqueles que não sobreviveram para contar os anos hoje representados face à data de libertação dos campos de concentração nazi (graças à intervenção das tropas soviéticas em Auschwitz-Birkenau).
    Das vítimas fatalmente liquidadas àqueles que traumaticamente sobreviveram, é possível respeitar e render o justo pensamento de que nem o trabalho liberta ("Arbeit macht frei" era o que se lia à entrada de muitos campos de concentração) nem o ser humano pode ser racional, seja quando oprime ou elimina outros seja quando passa por uma experiência não escolhida, humilhante, indigna, tortuosa, aniquiladora.
  Ser um, escolher uma das figuras da tela é o que nos aproxima do grotesco e do infâme; identificarmo-nos com uma das personagens e pormo-nos na posição dela, enfrentando o insuportável, é o que nos permite a ilusão.


Imagens do filme 'A lista de Schindler', de Steven Spielberg (1993)
Compacto: https://www.dropbox.com/s/1shszj4aeyxwv6t/AlistaDeSchindlerCOMPACTO.WMV
(selecionar o endereço e clicar no selecionado com o botão esquerdo do rato - Ir para...)

      Ficção inspirada na realidade; lamento de que, no século XXI, se recuperem alguns dos discursos, das situações, dos medos, dos temperamentos humanos que mais deviam envergonhar toda a humanidade.
     Lembrança, também, para alguns Justos das Nações (o alemão Oskar Schindler, o cônsul português Aristides Sousa Mendes, o brasileiro Luís Martins de Sousa Dantas, o espanhol Ángel Sanz Briz, só para citar alguns), que souberam agir quando algumas instituições preferiram silenciar-se perante as atrocidades vividas, por uns, assistidas, por outros.

     Hoje, a lembrança de um ontem que não pode ser esquecido, mesmo quando ele nos é apresentado como crise a ultrapassar como se de um jogo se tratasse.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sintaxe cheiiiiiiiiinha de razão.

       Há quem diga que a sintaxe é o lado mais lógico da língua.

    Para mim, e a julgar pelo cartoon, é o domínio pleno da razão aplicado por alguns estudantes, a julgar pelo registo (ainda que cómico) da imagem seguinte:

     Imagem colhida entre as muitas que circulam no Facebook (cartoon adaptado de Ivan Cabral)

       Se os meus alunos me respondessem assim, teria por certo dado uma gargalhada, por mais que o assunto seja sério e sinta a desonestidade política no meu bolso.

      Ao contrário da frase do quadro, não confio nos políticos nem na pretensa honestidade deles. Assim, afasto-me da condição do idiota, mencionada pelo jovem, ainda que me sinta desse modo por me ter sido escandalosamente tirado aquilo a que tenho direito pelo trabalho prestado. Reduziram-me o salário, e com a autorização das autoridades políticas e governamentais deste país. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A propósito do Rossio e da betesga

      Surgida a expressão, cá vai a explicação, para além de mais uma ou outra versão.

    Depois de me ter referido à expressão "Meter o Rossio na betesga" no apontamento de ontem, fiquei entretanto a saber que há mais uma versão, com o mesmo significado, para os lados de Braga: "Meter a Sé na Misericórdia". Biblicamente, dir-se-ia que ambas as expressões estão para a lógica de fazer passar um camelo pelo buraco da agulha. 
      Nesta linha se compreende uma ilustração alegórica dos finais do século XVI, com um rico a tentar entrar  no céu por uma porta estreita; contudo, as bolsas de dinheiro impedem-no. Atrás dele, três homens tentam fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha. 

Gravura de Phillip Galle (1537 - 1612), a partir de Maarten van Heemskerck (1498 - 1574)

     A ideia comum é a da desproporção, a de fazer algo encarado como impossível - não cabe uma larga e extensa rua ou praça numa viela ou caminho estreito; não cabe toda uma sé numa pequena capela. Quanto ao camelo, pelos vistos terá mais possibilidades de entrar no reino dos céus - assim o disse Cristo, segundo nos narram três dos seus evangelistas (Mateus, Marcos e Lucas).

     Por aqui ficam as faces enigmáticas das palavras / expressões.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Em modo de formação...

      Dia de encontro formativo para falar de... oralidade.

     O encontro resultou de um convite para dinamizar uma sessão de formação sobre a oralidade, o papel deste domínio nas aulas de línguas e a algumas formas de a(tua)ção para o seu ensino e a sua avaliação.
      Assim, desloquei-me até à Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa do Varzim. A imponência do edifício faz-se sentir, a do nome referencial da cultura e literatura oitocentista também. A impressão foi francamente positiva, num edifício que não sofreu intervenção da Parque Escolar E. P. E.; que tem aspeto para dar e durar (contrariamente às que foram objeto de remodelação e/ou reconstrução); que deixa transparecer uma organização, um clima profissional e uma atenção à formação dignos de apontamento, até pela iniciativa desenvolvida (em termos tanto de departamento como de divulgação junto de outros docentes de escolas circundantes).

Imagem da fachada da Escola Secundária Eça de Queirós (no diploma de participação / dinamização da ação)

    Ao longo de duas horas, procurei cumprir o que anunciei como a articulação de um domínio ao serviço de outros saberes, explorando pontes que, sem descon-siderar especifici-dades do oral, contribuem para práticas de ensino-aprendizagem mais integradas (para que não se encare este último como algo mais a trabalhar e ao qual ora se resiste, pela inevitável argumentação da falta de tempo, ora se toma como menos indispensável face às exigências dominantemente escritas nas avaliações interna e externa).
    Na sequência de outras experiências formativas, de reflexões partilhadas com vários docentes, não deixaram de ser facultados materiais e instrumentos que põem em relevo a necessária atitude analítica, avaliativa das realizações fa-cultadas; a cons-trução de critérios e indicadores de de-sempenho na orien-tação dos processos de ensino-aprendizagem; a consideração de que o oral admite áreas de convergência com o escrito, de modo a que as oportunidades de trabalho criadas perspetivem ambos os domínios como as duas faces de uma mesma moeda que é a língua.
   Ainda que o encontro formativo tenha sido reduzido e pontual no tempo dispensado, fica a expectativa de que ele venha a multiplicar-se nas reflexões e nas orientações capazes de enformar futuras opções práticas. 

      Depois de ter dinamizado uma experiência com vinte horas de formação sobre este mesmo tema, senti-me, neste par de horas, como que a meter o Rossio numa betesga; ainda assim, pode ser que esta última fique sempre mais povoada com os rumores da praça.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Exemplos do nosso insucesso político

     A propósito dos receios da nossa Presidente da Assembleia da República.

    Apetece-me citar uma amiga, cujas palavras tive já oportunidade de comentar: "Não sou comentadora, mas..." (blogue Mariana).
   Depois de uma semana crítica no Parlamento - com deputados a discutirem se deve ou não haver referendo para a coadoção de crianças por casais do mesmo sexo (Tão absurda é a discussão!); com a decisão final a favor do referendo (Abominável decisão, como se o interesse das e pelas crianças não estivesse acima de odiosos jogos políticos!); com um orçamento que terá favorecido deputados com aumentos de mais de 90% nos subsídios de férias e de natal (tão intratável é o cenário que só o comentarei mais incisivamente quando tiver maior certeza sobre a questão, mais a unanimidade do interesse parlamentar, nada exemplar, para uma população constantemente estropiada nos seus direitos e no produto do seu trabalho); com o descrédito político generalizado, sem vislumbre alternativo para quem possa dirigir este país entre os que protagonizam discursos vazios, desacreditados, sem atos concretos para a mudança ou a esperança -, é certo que alguma coisa está a mudar: a língua, senhores! Até essa parece votada a sofrer as influências políticas do tempo: 


      Apetece-me dizer à Senhora Presidente que escusa de estar preocupada com a sua falta de criatividade ou falta de "espaços de energia" (aposto que a EDP, os chineses ou o próprio Mexia resolveriam o problema, se fosse necessário): em pouco mais de um minuto, criou um nome com derivações sucessivas, em várias etapas ('inconseguimento', que deve resultar de 'conseguimento', derivado por sua vez de 'conseguir'); um adjetivo relacional ('frustracional'); uma expressão neológica associada a um empréstimo muito antitético ('soft power') que, ao menos, tem em 'sagrado' um importante adjetivo (pelo menos é de peso) português. É obra!
      Obra maior é, por certo, falar um minuto sem nada de interessante ou importante dizer.

      Com tanta criatividade, não dá para perceber tanto medo! Seja lá o que tenha sido dito, é caso para ir em frente. O arquivilão Joker aplaude (por alguma espécie de reconhecimento, que suspeito compreender qual é)! Pena que não venha por aí um Batman, para nos livrar destes exemplos da comédia (mas de humor negro) dos dias correntes!

domingo, 19 de janeiro de 2014

Da trágica vivência à estratégia de sobrevivência

      Ao final de uma semana de trabalho, estou prestes a arrancar com uma outra...

    Em várias turmas houve a conjugação de reflexões apoiadas no que é a diáspora do povo judeu, o contexto da Segunda Guerra Mundial e a figura incontornável de Aristides Sousa Mendes.
    Tudo começou porque um dos quadros vicentinos do Auto da Barca do Inferno (1517) aborda a personagem Judeu. Surgem as inevitáveis questões acerca da situação final da personagem e da moralidade que subjaz à sequência dramática (mais orientada para a discriminação de que a personagem é objeto, na mentalidade dominante do século XVI e na voz preconceituosa de um Parvo, do que para as culpas próprias de um ser que parece apenas pecar pelo materialismo e por não olhar a meios para atingir o seu fim: entrar num batel, nem que seja o do arrais infernal, para contrariar a segregação terrena); de que como a atualidade não é muito distinta para quem viva na condição de minoria (étnica, religiosa ou outra).
     Tudo continuou porque, a propósito de Branca Flor e das atividades promovidas nas aulas, alguém tropeçou na referência a um ciganito (Lázaro) e na palavra 'nazi' - e desta última não se sabia o significado. Daqui para a figura de Hitler, a sua ação para com os judeus e o papel heróico que Aristides Sousa Mendes desempenhou na história desse povo foi um pequeno passo.
      Pelas referências feitas a livros e filmes (nomeadamente, O rapaz do pijama às riscas, O diário de Anne Frank, A lista de Schindler e A vida é bela), houve quem dissesse que já tinha o que fazer no fim de semana (aposto que será mais ver algum filme do que ler algum livro. Mas que seja!)
     Por mim, contribuo para a ilustração de tudo o que foi falado com uma pequena montagem de sequências filmicas (clicar no endereço abaixo da imagem, para aceder à montagem exibida):

(imagem inicial do filme 'A lista de Schindler', de Steven Spielberg)
https://www.dropbox.com/s/8me2j74n433wcld/Montagem-AlistaDeSchindlerAvida%C3%89bela.WMV
(selecionar o endereço e clicar no selecionado com o botão esquerdo do rato - ir para...)

      Perante a tragédia pressentida (já que, pela vivida, poucos são os que a podem contar), muitos foram os silêncios feitos de atenção; várias foram as questões e muitas foram as expressões reveladas a cada pormenor que ia sendo sugerido, para que se pudesse imaginar o que era viver nas condições descritas.
      
     Há páginas da História que muitos dizem que devem ser apagadas; por mim, acho que devem mais ser lembradas. E se os alunos puderem projetar-se numa das vítimas das narrativas em causa, pode ser que se aproximem das atrocidades cometidas à Humanidade de que fazem parte.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Assim o poeta viu a cidade

      A hora da morte faz-se também do canto, daquele que lembra os versos legados a quem os queira ler.

       As palavras nem sempre traduzem aquilo de que se gosta. E, por vezes, quando surgem de quem possa causar mossa, é o autor delas que sofre por aquilo que diz(disse) ou escreve(u).
       Há poetas que, um pouco à moda de A República de Platão, não são aceites na cidade (ainda que hoje ela esteja tão longe da idealização): não formulam hinos àqueles que se julgam deuses nem propõem encómios aos varões que se dizem honestos. 
      José Carlos Ary dos Santos parece ser um destes poetas, numa (so)ci(e)dade que nada tem de platónica, mas que joga com argumentos visando o mesmo fim prático: não reconhecer qualidade aos que conseguem ver o seu tempo e o que se lhes mostra adiante, numa condição humana que se suplanta.


       Nesta cidade de palavras pisadas, de homens desesperançados e desiludidos, mais sentido fazem os versos do poeta, nessa "procura da sombra de uma luz que não há".

      Trinta anos depois, poucos ainda o conhecem ou há quem não queira que seja (tão) conhecido. Por mim, traduz bem o que hoje é a cidade, a precisar de um outro abril; das letras de canção que habitaram a voz coletiva nos cantos de intervenção; das palavras e dos versos inconformados, para nos livrar do lixo (que nos circunda, governa e ameaça) e lutar contra estigmas estéreis.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Quando o que é vão rima com perceção

      Ainda hoje falei desta imagem, a propósito da forma como se veem / percecionam as coisas.

    Regresso ao tema da perceção.
    Veja-se o contraste de branco, preto e cinzas e, conforme a seleção e conjugação de pormenores, as realidades retratadas são bem opostas.
    Entre a beleza de uma dama, mirando-se ao espelho, e os contornos de uma caveira fica a escolha de quem vê. O material é o mesmo, os traços também; o que é percecionado pode variar, segundo a observação inicial. A repetição e a insistência nessa observação acabarão por criar outra possibilidade, potencialmente construída e baseada num foco distinto.
    A ilustração é do americano Charles Allan Gilbert (1873-1929) e intitula-se "Tudo é Vaidade" ("All is vanity"). Foi produzida quando o artista apenas tinha dezoito anos. Trata-se de uma ilusão de óptica, intentando o sentido crítico de como é vã a vaidade ou o apego aos valores da vida mundana. 
    Assim se compõe essa visão barroca da vida: a da passagem inevitável para a morte, a da efemeridade e volatilidade da vida.

       E, assim, beleza e horrendo se conjugam, se complementam numa só imagem - duas faces de uma mesma moeda.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Tradição no modernismo

     Já vai sendo uma tradição. E nada como a manter, para dar algum sentido aos nossos dias.

     Mais ainda quando se trata de poesia.
    É na linha do registo da modernidade, da vanguarda, da explosão enérgica e febril que vou dando voz aos versos de Álvaro de Campos.
    Para começar, a "Ode Triunfal". Quem ouve espanta-se com o fôlego com que a leio; eu digo que é a força da máquina, o excesso, a potência do arranque e a implosão, por tempos, espaços, pessoas até chegar... o Momento.

Trabalho tipográfico inspirado na Ode Triunfal (in http://teresa-lencastre-dcv.blogspot.pt/2011/04/2)

      Entre a leitura dos versos do manual e a escuta dos que nem suspeitam que existem, os alunos são as caras que deixam transparecer o insólito, o inusitado. Os risos e sorrisos são a reação natural ao falar alto, como se de um parvo se tratasse e se encontrasse com febre (assim se descreve Campos num dos seus poemas); o "surdo-mudo berrando em voz alta" (como se revê num fragmento à "Saudação a Walt Whitman", modelo poético inspirador para o heterónimo pessoano).
      Quando o fôlego se esgota e a máquina prenuncia uma avaria, chega o sono, a formulação desse desejo que é mais a constatação do que não se consegue atingir (por mais que se queira).
      Termina a sessão com a declamação de "Esta velha angústia". O tom é outro, o ritmo também. É maior o desalento, o cansaço, a exaustão... típicos do engenheiro aposentado.
     Há quem diga que Fernando Pessoa é todo ele, pela obra produzida, uma literatura; eu tomo Álvaro de Campos como todo um percurso de vida feito de vários ciclos: a infância e o crescimento influenciados por modelos e contextos que ainda o fazem sentir-se desajustado; a adolescência e o estado adulto marcados pelo sensacionismo, pela ânsia e afirmação de uma força possante, capaz de querer sentir tudo e de todas as maneiras, sem limites ("O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!"); o final pautado pelo sentido metafísico, reflexivo e desistente.

     O mais interessante de tudo é ver que, nestes momentos, a voz faz a diferença. É como se os versos ganhassem a vida que as páginas nem sempre dão. A sensação é a de que a poesia fica mais completa, qual pauta à espera das notas que marcam o som ou um outro sentido do / no escrito.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Pior cego é o que não quer ver...

     Um dos potenciais nomeados para o Óscar deste ano - baseado numa história tão verídica quanto a que os nossos olhos não desejam ver.


     Para quem espera ver um filme sobre a escravatura na América e a luta abolicionista, alguma coisa por certo encontra - quanto mais não seja uma ambiência temporal, espacial já consabidas; o confronto entre negros e brancos; o conflito dos homens do sul com homens do norte; mansões e plantações; negros bem-sucedidos, pela ação levada a cabo junto dos brancos, para referir só alguns tópoi cinéfilos.
    Desde a apresentação de "12 Anos Escravo" (realizado por Steve McQueen) nos circuitos cinematográficos, fiquei entusiasmado com um filme que perspetivava ao contrário a habitual luta / fuga de um escravo: não a da conquista da alforria e a consequente condição de homem livre, mas a da perda desta última e a agonizante adaptação às limitações extremas dos explorados; a violenta transformação por que um ser humano passa para, ao longo de mais de uma década, sobreviver numa progressiva desconstrução e numa forte, crescente ameaça ao que pudessem ser quaisquer sinais de esperança e libertação.
     A história situada nos Estados Unidos da América, no ano de 1841, é só o ponto de partida para apresentar a personagem Solomon Northup (interpretado pelo ator Chiwetel Ejiofor) - um negro livre nova iorquino, com mulher e filhos, que tudo perde ao deixar-se seduzir pelo lucro e pela fama e aceitar o convite de dois estranhos para uma digressão. Uma só noite de bebidas transforma a paradisíaca felicidade num pesadelo atroz: o promissor violinista Solomon dá lugar ao escravo Platt, tomado como um fugitivo da Georgia e transportado para uma plantação de algodão no Louisiana.


      Nos limites da sobrevivência, nesse limiar da vida que uma iminente forca poderá fazer escorregar para a morte, no tratamento do ser humano exclusivamente pelo peso e pelo valor do que produz, nas cenas intermináveis de espancamento e tortura psicológica é tanto o desejo de libertação da personagem como o da projeção revoltada e revoltosa do espectador, a não suportar a ausência de qualquer valor, de qualquer reconhecimento de honra ou dignidade na existência de quem se vê incontrolada e inesperadamente privado do que foi (e não deixou, de alguma forma, de ser), do que acredita e quer (e tende a perder).
      Inspirado em factos verídicos - apoiados nas memórias do próprio Solomon Northup -, há uma vivência desconcertante, intensamente dramática, capaz de fazer ver (na ambiência oitocentista americana e no rapto de um negro que tudo perde) escravaturas contemporâneas - nomeadamente de crianças e mulheres nas malhas do sexo; de homens, nesse flagelo de trabalhos duros, pesados para que muitas vezes são levados / atraídos, sem qualquer proteção -, redes de tráficos de órgãos e de seres humanos, perdas irreparáveis na honra e na dignidade humanas a troco de valores que trazem (pretensa) felicidade apenas aos que vivem da humilhação exercida sobre o seu semelhante, tratando-o como mera propriedade.

      Um bom filme, por certo, para um final feliz (de oportuna libertação), que não deixa de representar um forte murro no estômago para quem transponha o retrato fílmico de uma sociedade esclavagista americana do século XIX para um tempo mais atual, com uma sociedade feita de outras escravaturas e quedas / perdas na vida real.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Tudo uma questão de procurar bem

        Esta nossa capacidade de selecionar o que interessa tem muito que se lhe diga.

    Eu sempre disse que tenho uma relação algo figadal com os números. Cá está mais um caso demonstrativo da rápida importância que dou às coisas:


        Tudo uma questão de foco de atenção,... de perceção.

        É por isto que sou um homem das letras. 

domingo, 12 de janeiro de 2014

O silêncio que deixa ouvir a alma

   Realizada pela polaca Agnieszka Holland, 'Corrigindo Beethoven" (no original 'Copying Beethoven") é uma película de sentidos...

     ... sentidos seja na aceção de sentimentos seja na de sentidos físicos ligados à perceção. No aspeto visual e auditivo, destaca-se a componente plástica das imagens (da cor e dos tons dos inícios do século XIX e da natureza que tanto impressionou o compositor alemão) e a da música, numa banda sonora apostada em segmentos da Nona Sinfonia, da 'Grosse Fugue'¸ mais alguns concertos para piano e orquestra, entre outros. 
     A intriga baseia-se na apresentação do último ano de vida de um génio humanizado: Ludwig van Beethoven (interpretado por Ed Harris). Assume-se que, a partir deste, a música não mais foi a mesma e é sob a perspetiva de Anna Holtz (personagem fictícia representada por Diane Kruger) que se revisita e recria um apontamento entre o biográfico e o fictício, particularmente pelo alinhamento ficcional de uma jovem que aspira a ser compositora. Copista das partituras do mestre, chega a propor-lhe uma correção nos registos (daí a versão portuguesa do título), à luz do entendimento que faz da alma, do estilo musical e composicional daquele com quem partilha notas e melodias. Se, na vida, nem sempre o encontro se estabelece (pela irascibilidade, pela rudeza, pelo primarismo de atitudes e comportamentos de Beethoven), na música e nos ensinamentos à pupila, a construção é mais feliz, ainda que não isenta de alguns constrangimentos que a podiam colocar em risco.
     O grande momento do filme é, sem dúvida, o do dia de estreia da Sinfonia nº 9 em ré menor, concluída em 1824. À surdez de Beethoven valem as mãos e as deixas de Anna - sequência tão imaginária quanto a figura feminina e a regência da orquestra pelo próprio compositor (que, na verdade, apenas teve direito a um lugar especial no palco, junto ao maestro).


    Duas boas representações compõem um paralelismo e uma cadência próprios da sinfonia que se tornou numa das mais reconhecidas obras-primas do repertório musical ocidental, antecessora da música romântica. De salientar, ainda, a incorporação, nesta última, de parte da ode 'An die Freude' ("À Alegria"), de Friedrich Schiller, cantada por solistas e um coro no último movimento. 
   A par desta sequência, todo um primeiro plano fílmico está destinado ao protagonismo da Música, traduzido nas sonoridades, nas vibrações e nos registos codificados em pautas, que desvelam essa linguagem sempre presente na mente, na voz e nas mãos do compositor; ou nesse silêncio divinamente escutado entre duas notas.

       Um filme de 2006, que ganha essencialmente por ser escutado pelo que de criativo Beethoven deu ao mundo, nessa religião da solidão em que viveu.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Gelado glacial

      Dizem que os gelados não têm estação. Concordo. Contudo, há aqueles que são mais frios do que o inverno em curso.

     Em pleno janeiro, há gelados que esfriam qualquer um, particularmente quando não são anunciados em cones ou copos:

Lista de gelados com suplemento (Foto VO)

    Dir-se-ia que há "taças" que, nalgumas gelatarias, apresentam suplemento desnecessário. Na língua portuguesa, as palavras graves (com incidência do acento tónico na última vogal do radical de nomes / adjetivos - ex: menino, professora, sede, taça / agudo, bravo, claro, produtivo) por norma não têm acento gráfico, conforme se tem já apontado neste espaço.

      Há gelados que se tornam mais frios ao olhar de quem os procura. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Venha o terceiro

      Em dia de ano novo, começa-se o primeiro dia recuando ao passado.

      Depois do primeiro filme da saga "Hobbit", fui ver hoje o segundo - O Hobbit: a desolação de Smaug.
    Na demanda dos anões para recuperar o seu reino (Erebor), o espectador contacta com Beorn, um gigante que se transforma em urso; entra no universo da ardilosa floresta de Mirkwood e das aranhas, no reino dos perigosos elfos (humanizados por Tauriel e Legolas, que se juntam à luta contra o mal, em auxílio dos anões); assiste a uma viagem de barris que leva os anões até Laketown e ao reencontro de Bilbo com o dragão Smaug, mantido em adormecimento na Montanha Solitária.


    Assim que a Arkenstone (jóia branca) está prestes a ser capturada por Bilbo, o dragão acorda, assumindo o controle das riquezas que guarda, desde que as retirou aos anões e destruiu a cidade no sopé da montanha habitada por homens. 
    Na segunda película desta trilogia, o mago Gandalf, preocupado com o retorno do Necromante (Sauron) à Terra-Média, receia uma possível intervenção de Smaug nos planos de conquista do senhor do Mal. Cumpre, assim, o périplo - junto com os anões e o hobbit - que permitirá alcançar a vitória do Bem e da Esperança (contra a Escuridão, o Medo, a Avareza).


       Aos cenários, aos efeitos cénicos e tecnológicos, às representações, à ação contínua da intriga, não se passa indiferente. À banda sonora também não, nomeadamente à canção que fecha a sessão: "I see fire", interpretada por Ed Sheeran.


       "I See Fire"

Oh, misty eye of the mountain below
Keep careful watch of my brothers' souls
And should the sky be filled with fire and smoke
Keep watching over Durin's sons

If this is to end in fire
Then we should all burn together
Watch the flames climb high into the night
Calling out father, oh,
Stand by and we will
Watch the flames burn, oh, burn on
The mountain side high

And if we should die tonight
We should all die together
Raise a glass of wine for the last time
Calling out father, oh,
Prepare as we will
Watch the flames burn, oh, burn on
The mountain side
Desolation comes upon the sky

Now I see fire
Inside the mountain
I see fire
Burning the trees
And I see fire
Hollowing souls
I see fire
Blood in the breeze
And I hope that you remember me

Oh, should my people fall in
Surely I'll do the same
Confined in mountain halls
We got too close to the flame
Calling out father, oh,
Hold fast and we will
Watch the flames burn, oh,burn on
The mountain side
Desolation comes upon the sky

And if the night is burning
I will cover my eyes
For if the dark returns
Then my brothers will die
And as the sky is falling down
It crashed into this lonely town
And with that shadow upon the ground
I hear my people screaming out

I see fire (Oh you know I saw a city burning) (fire)
And I see fire (Feel the heat upon my skin, yeah) (fire)
And I see fire (Uh-uh-uh-uh) (fire)
And I see fire burn auburn on the mountain side

      Um bom momento, para esquecer os Sauron desta vida e acreditar que o Bem sairá vencedor, por mais anões que sejam os homens.