quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Tradição no modernismo

     Já vai sendo uma tradição. E nada como a manter, para dar algum sentido aos nossos dias.

     Mais ainda quando se trata de poesia.
    É na linha do registo da modernidade, da vanguarda, da explosão enérgica e febril que vou dando voz aos versos de Álvaro de Campos.
    Para começar, a "Ode Triunfal". Quem ouve espanta-se com o fôlego com que a leio; eu digo que é a força da máquina, o excesso, a potência do arranque e a implosão, por tempos, espaços, pessoas até chegar... o Momento.

Trabalho tipográfico inspirado na Ode Triunfal (in http://teresa-lencastre-dcv.blogspot.pt/2011/04/2)

      Entre a leitura dos versos do manual e a escuta dos que nem suspeitam que existem, os alunos são as caras que deixam transparecer o insólito, o inusitado. Os risos e sorrisos são a reação natural ao falar alto, como se de um parvo se tratasse e se encontrasse com febre (assim se descreve Campos num dos seus poemas); o "surdo-mudo berrando em voz alta" (como se revê num fragmento à "Saudação a Walt Whitman", modelo poético inspirador para o heterónimo pessoano).
      Quando o fôlego se esgota e a máquina prenuncia uma avaria, chega o sono, a formulação desse desejo que é mais a constatação do que não se consegue atingir (por mais que se queira).
      Termina a sessão com a declamação de "Esta velha angústia". O tom é outro, o ritmo também. É maior o desalento, o cansaço, a exaustão... típicos do engenheiro aposentado.
     Há quem diga que Fernando Pessoa é todo ele, pela obra produzida, uma literatura; eu tomo Álvaro de Campos como todo um percurso de vida feito de vários ciclos: a infância e o crescimento influenciados por modelos e contextos que ainda o fazem sentir-se desajustado; a adolescência e o estado adulto marcados pelo sensacionismo, pela ânsia e afirmação de uma força possante, capaz de querer sentir tudo e de todas as maneiras, sem limites ("O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!"); o final pautado pelo sentido metafísico, reflexivo e desistente.

     O mais interessante de tudo é ver que, nestes momentos, a voz faz a diferença. É como se os versos ganhassem a vida que as páginas nem sempre dão. A sensação é a de que a poesia fica mais completa, qual pauta à espera das notas que marcam o som ou um outro sentido do / no escrito.

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