segunda-feira, 26 de março de 2018

Agente ou não, faça-se a distinção

      Um perfeito exemplo de como a sintaxe requer a semântica para uma melhor classificação.

       Assim me chegou, sem mais, a questão:

     Q: Olá. Na frase ‘As tarefas foram distribuídas pelos alunos’, ‘pelos alunos’ é o complemento agente da passiva, certo?

      R: Talvez sim, talvez não. Na ausência de todo um contexto que permita enquadrar a produção da frase, antecipo dois cenários: um, com os alunos a serem os agentes e responsáveis pela distribuição; outro, com os alunos a serem beneficiários ou destinatários do ato de distribuição.
     Com o primeiro cenário, temos a frase proposta como a construção passiva obtida a partir de uma frase ativa de base (‘Os alunos distribuíram as tarefas’), na qual ‘os alunos’ seriam o sujeito-agente da ação de distribuir. Neste contexto, após as transformações típicas da frase ativa para passiva, o sujeito da ativa dá lugar ao complemento agente da passiva na voz passiva.
     O segundo cenário perspetiva a frase com significados e papéis semânticos distintos, mesmo que a frase não deixe de apresentar uma construção passiva. Pode esta última ser a configuração final de uma frase ativa do tipo ‘O professor distribuiu as tarefas pelos alunos’, a qual, uma vez transformada na passiva, apresenta uma sequência com o complemento agente da passiva omisso (‘pelo professor’), apenas com o sujeito (‘As tarefas’) e o predicado (‘foram distribuídas pelos alunos’) – este último com o auxiliar ‘ser’ (da passiva), mais o particípio passado do verbo principal (‘distribuídas’) e o respetivo complemento oblíquo.
    Dependendo da interpretação do primeiro e do segundo cenários, temos naturalmente funções sintáticas distintas. O certo é que, para existir um complemento agente da passiva, a frase tem de se encontrar na voz passiva e o agente deve ser o que pratica a ação configurada no verbo principal (no caso, ‘distribuir’) da que seria a frase original numa configuração de voz ativa.

      Um caso, portanto, em que sintaxe e semântica têm de estar de mãos dadas para desambiguizar sentidos e funções.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Religião (ou religiões) à parte...

       E voltamos à questão dos plurais de 'ão'.

       Deve ser a proximidade da Páscoa. Trouxe ao diálogo, entre dois professores, a questão do plural de 'sacristão'. Perguntavam-me, em jeito de reclamação, por que motivo tinha de ser 'sacristães', se a palavra estava relacionada com cristão, que forma o plural 'cristãos'.
       Há tempos vi, no 'Bom Português' (RTP1), que esta tinha sido a pergunta lançada aos transeuntes, muitos a tenderem precisamente para o 'sacristãos'. Eis que chegou a vez de entrevistar uma freirinha toda simpática, que, sorridente e como quem sabia do ofício, afirmava convictamente que o plural era 'sacristães'. Ora sem mais, a voz-off confirma o dado (na base da consultoria do programa) e falta saber quem o (vai) usa(r).
      Na verdade, consultando a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 182), de Lindley Cintra e Celso Cunha, podem aí ser encontrados os casos de um reduzido número de palavras que tem o plural formado em 'ães': alemão, bastião, cão, capelão, capitão (em dissemelhança com ‘capitanus’), catalão, charlatão, guardião (e muitos a preferir os ‘charlatões’ e os ‘guardiões’), escrivão, pão, sacristão, tabelião. Contudo, não deixa de ser um dado o cenário de palavras terminadas em 'ão' admitirem dois ou três plurais (um ora de natureza mais etimológica e outro ora de uma tradição mais popular: anãos, anões; corrimãos, corrimões; refrãos, refrães (que poucos dizem, preferindo os 'refrões'); verões, verãos; vilãos, vilões / aldeãos, aldeões, aldeães; anciãos, anciões, anciães; ermitãos, ermitões, ermitães; sultões, sultães, sultãos). Dicionários há, como o Houaiss, que admitem 'sacristães' e 'sacristãos'.
      Há dias, a propósito de uma reportagem, voltaram a palavra e o seu plural à baila:


    Assim sendo, pela gramática e também sustentado pela reportagem, lá respondi 'sacristães', tal como 'capelães' ou 'ermitães' (embora, neste último caso, as outras formas de plural também sejam válidas).
    Sem muita fé no que toca a palavras que não fazem parte de um uso frequente ou que não são ativadas tão regularmente,  diria que a consciência morfológica da questão está em deriva ou numa instabilidade que a sincronia procura regularizar, nos novos termos, para 'ões' (cf. camiões, aviões, corrimões, apagões e outros casos que tais).

     Não se trata de uma questão de religião nem de fé: na língua, fazem-se algumas conversões, concessões e alterações que uma gramática mais normativa entende como corrupções, mas que muitos estudiosos veem como variações, evoluções próprias de uma língua viva, sujeita a transformações. Algumas até demasiado presidenciais!

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, a Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

quarta-feira, 14 de março de 2018

"A vida seria trágica se não fosse engraçada"

     Pensamento tão certo para quem, melhor do que ninguém, sabia do que falava.

     Talvez tivesse razões para pensar ou dizer o contrário, mas optou por desfrutar do pouco que a vida lhe deu e do muito que conquistou. Aos dois ou três anos que resistiria juntou mais de cinquenta. Foi uma equação de conquista, na qual o poder da mente se impôs seja pela vontade de sobreviver seja pelos segredos que desvendou para a Humanidade, nos domínios da física, em particular, e da ciência, em geral.
    No mesmo dia em que Stephen Hawking morre, Albert Einstein celebraria 139 anos; na data em que nasceu (8 de janeiro de 1942) tinham passado 300 anos da morte de Galileu Galilei - coincidências ou intervalos de tempo que não deixam de juntar grandes nomes da ciência, para não falar de factos como os da celebração do dia do (3,141592653589793238462643383...).
     Reconhecido pelo trabalho desenvolvido e pela luta na sobrevivência, Stephen William Hawking procurou uma explicação para o Universo; também para a vida, quando lhe foi diagnosticada esclerose lateral amiotrófica (doença incurável e degenerativa motora que o aprisionou a um corpo que progressivamente deixou de controlar). 
     No filme "A Teoria de Tudo" (2014), com a excelente interpretação de Eddie Redmayne no papel do cientista britânico (o que lhe valeu o óscar de melhor ator em 2015), é possível contactar com esse surpreende percurso, simultaneamente de degenerescência e de superação:

Trailer de 'A Teoria de Tudo', filme de James Marsh (2014)

      Em cerca de duas horas, o espectador, através do papel de uma personagem de ficção, encara o modo como uma personalidade real dos nossos tempos explorou o seu trabalho científico, focando o estudo daquilo que, cada vez mais, lhe restava menos: o tempo. Limitado no corpo, mas com a cabeça no universo, o nada e o tudo se conjugaram até hoje.


    Aos 76 anos, com a mesma idade de Einstein, Hawking deixa-nos com o seu contributo acerca da natureza da gravidade e da origem do universo; da teoria da singularidade do espaço-tempo, aplicando a lógica dos buracos negros a todo o universo; do seu best-seller Uma breve história do tempo (1988); do seu exemplo de vida, inspirador para todos aqueles que reclamam do que a vida lhes não dá ou lhes tira.

     Alguém que quis ser matemático e se tornou um génio da física. RIP.

terça-feira, 13 de março de 2018

Conjunções e outras coisas que tais...

   Nunca se deve negar um pedido de ajuda, mais ainda quando vem de quem nos merece consideração.

      Chegada a pergunta, preparo a resposta:

       Q: Venho por este meio pedir-lhe a seguinte ajuda para a seguinte questão:
             1.1. Identifica as frases em que a palavra sublinhada é uma conjunção.
            (A) Clio viu a confusão que tinha causado depois de ter adormecido.
          (B) Os automobilistas chegavam a Lisboa lentamente quando a confusão se instalou.
          (C) Ibn-el-Muftar alçou as mãos a Alá porque acreditava na proteção divina.
         (D) O português considerou a situação normal até chegarem os muçulmanos.
           Nos cenários de resposta, aparece como resposta as alíneas B e C. Será que a A também pode ser incluída ou é um pronome relativo?

      R: Efetivamente, em (A), 'que' é um pronome relativo, numa sequência frásica em que a palavra 'confusão' surge retomada. Tal retoma é feita ora na expansão do nome com uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva ora na articulação de duas orações: 'Clio viu a confusão' e 'Clio tinha causado confusão'. 
    Trata-se, portanto, de um 'que' anafórico, tendo como antecedente a palavra 'confusão'.
     Na medida em que esse 'que' introduz uma oração subordinada adjetiva, não poderá ser nunca considerado conjunção. Esta última, nos contextos de subordinação, é destinada, tipicamente, para introduzir orações subordinadas substantivas completivas ou subordinadas adverbiais.
        
        Na expectativa de que tenha sido esclarecedor, para o caso em concreto, fica o registo de que os cenários de resposta nem sempre erram; só não apresentam é o nível de consciência em que se deve fundar uma tomada de decisão (por mera escolha que seja).

segunda-feira, 12 de março de 2018

Gi-George-Georgina

    Afinal, (também) Maria Judite de Carvalho.

    Na sequência da abordagem do conto "George", nada como apresentar a autora da narrativa, a partir de um pequeno documentário sobre a vida e obra daquela que, na escrita literária, se (re)viu mulher em diferentes idades e se compôs na solidão.

Documentário da RTPN (2011)

    Um visionamento que prossegue o tratamento de um pequeno texto informativo (para deteção de linhas temáticas, marcas de construção narrativa e registos de inspiração biográfica) e incide sobre uma pré-tarefa a dar continuidade / complemento à recolha de dados relativos ao trabalho anterior.
     Dos muitos dados contemplados, sublinham-se os seguintes:
"As Três Idades do Homem e Três Graças", 
de Hans Baldung Grien, 1539 (Museu do Prado)
a) consciência em movimento (interior da alma) de personagens, dimensionada no âmbito do psicológico;
b) vertente realista de retrato de uma sociedade frustrada, oprimida, isolada, marginal;
c) consciência da velhice e dos idosos (que todos seremos) no ciclo da vida;
d) técnica do monólogo interior (na expressão de uma consciência partilhada do pensamento);
e) exigência da colaboração do leitor (corresponsável na construção de imagens narrativas, por exemplo, a do espelho, no caso de 'George');
f) vivência no estrangeiro (França, Bélgica), tal como George (em Amesterdão);
g) crença mais no talento de pintora (tal como George) do que no de escritora.

      Vamos, então, a "George" (que já foi Gi e será Georgina), narrativa epónima marcada por essa consciencialização do encontro do 'eu' consigo mesmo, pela representação do que foi e do que será, numa espécie de despersonalização, distanciamento, descentração para se poder ver na memória, ao espelho ou n(um)a bola de cristal.

     Uma narrativa tão reflexiva e deambulante quanto o que Bernardo Soares fez com Pessoa (ou o último no primeiro). Porque a consciência da vida é feita de procura, numa viagem que nos faz estar atentos ao que há à volta de todos nós e que nos leva a revermos o percurso já feito e/ou a prevermos o que estará para além de nós a cada instante.

sexta-feira, 9 de março de 2018

A propósito de anáforas... bem distintas.

      Feita a devida distinção entre o mecanismo linguístico de retoma e a figura de retórica, tudo vai bem.

       O problema está mesmo quando os dois processos são confundidos.

      Q: Quando aparecem palavras repetidas ao longo de uma frase, pode dizer-se que estamos perante a figura de estilo da anáfora? Estou a considerar o seguinte exemplo: "Quando a cidade acorda, não há cidade com a paz do campo. Não há cidade com paz."

      R: Não generalizaria a questão desse mundo, particularmente no que à figura de estilo diz respeito. Em termos de coesão do segmento proposto, pode dizer-se que há uma relação anafórica na repetição do termo 'cidade', mas a questão, neste caso, fica centrada na construção de uma cadeia de referência baseada na reiteração ou repetição lexical. Os três termos não são exemplo de anáfora como figura de estilo, mas de uma repetição sinónima de retoma (do já referido) que pode eventualmente resultar sugestiva no diferencial e no destaque que esse espaço adquira no texto em que surge - ainda assim, não a anáfora como recurso estilístico, por não se tratar de repetição de palavra em frases (ou versos, no caso de um poema) ou sequências sucessivas.
     Em termos de estilo, o exemplo que propõe pode apenas ilustrar a figura de estilo da anáforana construção 'não há cidade com [...]. Não há cidade com', na medida em que persiste, em frases / orações sucessivas, uma cadência de escrita apoiada na repetição não só do vocábulo 'cidade' mas também de uma construção sintática ('não há cidade com'), colocada no início de orações principais e tomada como fator cadenciado e sucessivo de construção.
     Não tomaria, portanto, o uso do primeiro 'cidade' na relação com os seguintes como exemplo de uma figura de estilo, mas sim de um mecanismo coesivo baseado num processo referencial anafórico (enquanto mecanismo linguístico). Aproximaria o segundo 'cidade' do terceiro (no seio de toda a sua construção frásica similar) enquanto efeito estilístico, sugerido por um ritmo cadenciado de segmentos sintáticos sucessivos (seja em prosa seja em verso), familiar a uma retórica literária interessada na exploração de efeitos expressivos e significativos motivados por uma intencionalidade distinta de sentidos mais literais, denotativos e/ou imediatos.
      Lausberg, no seu Elementos de Retórica Literária, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian ([1963] 1993: 174-175), apresenta a figura de estilo como sendo do tipo "... / X... /X...", em que X é a palavra, expressão ou construção repetida em segmentos sucessivos. É este o tipo que se revê em "..., não há cidade... Não há cidade...".

      Um mesmo nome (anáfora) não quer dizer que signifique o mesmo ora quando de mecanismo linguístico se fala ora quando de processo retórico e estilístico se trata.

sábado, 3 de março de 2018

"Sempre é uma companhia"

      Citando o título de um conto de Manuel da Fonseca, publicado em O Fogo e as Cinzas (1951) ou o discurso de uma personagem.

      Em qualquer uma das circunstâncias, a referência à telefonia é um dado, para além da pressuposta inexistência dela à data do seu aparecimento. Centra-se neste facto narrativo o núcleo de uma intriga que, uma vez lida no conto mencionado, sempre me fez lembrar um episódio do filme 'O Costa do Castelo' (1943), dirigido por Arthur Duarte. A velhinha película a preto e branco traz, em registo cómico, o que oito anos depois o conto sugere, num contexto mais marcado pela visão neorealista e pelo retrato de uma ambiência de desesperança a evoluir para a expectativa da mudança e para a construção da esperança possível.
  Nesta exploração interartística (cinema e literatura), há coincidências a rever, paralelismos a construir, referências culturais a traduzir para qualquer momento que se reveja como crítico face à ausência de sinais de alegria ou de felicidade no seio dos homens.
       Assim, (re)vê-se o segmento fílmico, tomando como pré-tarefa do visionamento a construção de aproximações entre o conto e o que a tela / monitor dão a perceber:

Excerto fílmico de 'O Costa do Castelo' (versão de 1943)

        Entre os tópicos possíveis de abordagem / aproximação, registam-se os seguintes:

      a) centralidade da telefonia na alteração de comportamento das personagens (a partir do jantar de aniversário familiar a dar lugar ao baile / animação / prazer);
    b) o portador da telefonia como introdutor do fator de mudança (apologista da mudança e da tecnologia), num contacto com o mundo e na sugestão da música como fuga harmoniosa para uma realidade alternativa ao vivido;
     c) o ato explicativo associado ao funcionamento do aparelho;
    d) um contexto persecutório (associado à personagem do jovem masculino) numa aproximação, ainda que por razões diferenciadas, ao contexto de produção de O Fogo e as Cinzas (a fuga de alguém a um controlo equiparável à ditadura de Salazar, tal como no ambiente de desfavorecidos tomados pela desesperança, a dar lugar a uma esperança possível);
    e) a data da realização fílmica e a da publicação de O Fogo e as Cinzas (onde se insere "Sempre é uma companhia") compreendidas numa época associada à ditadura e ao controlo despótico de Salazar;
     f) a leitura sociopolítica do excerto fílmico equiparada à abordagem sociopolítica de uma narrativa neorrealista (com foco na questão social, na procura de uma saída feliz para uma realidade adversa).

        Mais haverá por certo, numa sugestão convocada por sinais que um tempo propõe à luz do que um par de obras dispõe e o leitor / espectador (re)compõe.

     Um caso de como as memórias do passado (vivido) se redefinem a cada momento que a motivação (da leitura e das aulas associadas) se impõe.