quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quem é a Lídia?

   A pergunta, por vaga ou caricata que seja, foi-me colocada por um antigo aluno, depois de, infrutiferamente, este não ter recebido resposta da pesquisa feita na internet.

      Ainda que não saiba o propósito dela (da questão), o certo é que se trata da Lídia de Ricardo Reis.
     Imagino o que terá sido a procura, na ânsia de encontrar uma realidade corpórea, uma existência física com cabeça, tronco e membros. Isto de ver a literatura como a cópia, o depósito, o reflexo de uma realidade que é a nossa tem muito que se lhe diga, ainda que entre aquela e esta possa haver relações que não passam da dimensão fictiva mais ou menos próxima do mundo por nós vivido e/ou percecionado.
      É admissível que, no caso de Pessoa, a construção heteronímica propicie essa ilusão de que tudo se assemelha à realidade, com retrato físico, nascimento, formação, vivência, morte para alguns casos. Mas a verdade é que a multiplicação de papéis que possa existir entre o ser-autor e os seres-criações poéticas não impede a construção ficcional e recursiva destes noutras entidades que os comple(men)tam. É o caso de Lídia.
    Trata-se de uma personagem, sem existência real, criada por Fernando Pessoa para figurar como companheira nalguns poemas do heterónimo Ricardo Reis. É uma figura feminina sem voz, a quem o sujeito poético se dirige para dar conta de uma visão contida, serena e conformada do amor. 
     A característica dominante e inspiradamente clássica da poesia de Ricardo Reis compõe-se segundo influências, entre outras, das odes de um escritor romano da Antiguidade: Horácio. Também este poeta se referia, nos seus poemas, a uma entidade feminina com o nome Lídia, só que esta última tinha voz, falava nos versos produzidos. Com Ricardo Reis, Lídia mantém-se silenciosa; só é falada enquanto companheira dessa viagem que é a vida. Neste sentido, ela é uma presença no discurso poético com a função de ouvir, sem responder e sem agir, os conselhos sapientes dessa voz masculina ricardiana, crente na existência de divindades pagãs e na força de um destino superior, que as domina e que pré-determina o próprio curso ou fluir da vida. É esta lição que Lídia, à semelhança de duas outras figuras femininas evocadas (Neera e Cloe), recebe silenciosamente das palavras de Ricardo Reis.
    Contudo, a origem e a sobrevivência de Lídia estão aquém e além de Reis: se originalmente é Horácio que passa o testemunho (Lídia) ao heterónimo pessoano, essa figura feminina chega ao século XX, na literatura portuguesa, pelas mãos de Filinto Elísio e Almeida Garrett; suplanta as primeiras décadas desse século nos versos de Alexandre O'Neill, de Sophia de Mello Breyner e de Natália Correia ou mesmo na prosa de um José Saramago, que "ousou" matar Ricardo Reis (O Ano da Morte de Ricardo Reis, em 1984).

Imagem retirada do site "Design e Comunicação Visual", de Patrícia Magalhães

   Nem tudo se encontra na internet (é certo!) e, por vezes, o que há é muito duvidoso ou mesmo errado. Espero ter contribuído para se construir a "imagem da senhora" procurada.

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