sábado, 3 de novembro de 2012

Parataxe e séries paratáticas.

     A propósito de Alberto Caeiro e de como Jacinto do Prado Coelho (Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa) vê na escrita do heterónimo "séries paratáticas".

     Q: Podes dizer-me o que são as "séries paratáticas", referidas no texto de J.P.C., sobre Alberto Caeiro (pág. 63 do manual Com Textos)?

   R: O termo 'paratática' corresponde ao adjetivo associado a 'parataxe' , designação para um tipo de construção sintática genericamente ligado à coordenação e especificamente marcado pela ausência de conexão ou elo sintático entre os elementos coordenados. 
   As "séries paratáticas" são construções coordenadas, apostadas principalmente em sequências relativamente curtas, de estrutura semelhante, justapostas. Estas marcam, de facto, o estilo de escrita do heterónimo numa aproximação ao que seja o ritmo da reflexão doseada, cumulativa, pouco elaborada em termos de complexidade linguística, numa escrita encadeada normalmente sem conjunções e/ou conectores coordenativos. 
      São, assim, construções distintas da hipotaxe (ou subordinação), num acrescentamento sucessivo de informação, segundo um ritmo algo marcado, sincopado.

Ex: 
1) O Guardador de rebanhos - I
     "...
      Não tenho ambições nem desejos.
      Ser poeta não é uma ambição minha. 
      É a minha maneira de estar sozinho
     ..." - exemplo de uma sequência paratática, que os alunos podem reconhecer pelas sequências breves, entrecortadas, coordenadas, sem grande recurso à conexão, mas que poderia ser transformada com a explicitação de elos lógico-sintáticos (Não tenho ambições nem desejos [; LOGO,] Ser poeta não é uma ambição minha. [EM VEZ DISSO,] É a minha maneira de estar sozinho").

   2) O Guardador de Rebanhos - II
    "Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..."- outro exemplo que pode ser manipulado, de modo a evitar a parataxe ("Eu não tenho filosofia [, MAS] tenho sentidos").

    A funcionalidade deste processo sintático tem tanto de relevante na economia e na construção do discurso oral como de potencial na própria produção textual. Prova disso é o texto seguinte, fortemente paratático na construção narrativa, segundo uma coerência construída pela sequência ordenada (simplesmente) de verbos e numa circularidade compatível com a leitura das rotinas do quotidiano:

Como se conjuga um empresário

      Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxugou-se. Perfumou-se. Lanchou. Escovou. Abraçou. Beijou. Saiu. Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu. Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se. Preparou-se. Examinou. Leu. Convocou. Leu. Comentou. Interrompeu. Leu. Despachou. Conferiu. Vendeu. Vendeu. Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se. Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. Depositou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se. Entregou. Sacou. Depositou. Despachou. Repreendeu. Suspendeu. Demitiu. Negou. Explorou. Desconfiou. Vigiou. Ordenou. Telefonou. Despachou. Esperou. Chegou. Vendeu. Lucrou. Lesou. Demitiu. Convocou. Elogiou. Bolinou. Estimulou. Beijou. Convidou. Saiu. Chegou. Despiu-se. Abraçou. Deitou-se. Mexeu. Gemeu. Fungou. Babou. Antecipou. Frustrou. Virou-se. Relaxou-se. Envergonhou-se. Presenteou. Saiu. Despiu-se. Dirigiu-se. Chegou. Beijou. Negou. Lamentou. Justificou-se. Dormiu. Roncou. Sonhou. Sobressaltou-se. Acordou. Preocupou-se. Temeu. Suou. Ansiou. Tentou. Despertou. Insistiu. Irritou-se. Temeu. Levantou. Apanhou. Rasgou. Engoliu. Bebeu. Rasgou. Engoliu. Bebeu. Dormiu. Dormiu. Dormiu. Acordou. Levantou-se. Aprontou-se ...
(Mino)

      Seja ao nível da construção seja em termos dos efeitos resultantes da sua adoção, a parataxe pode constituir-se num mecanismo interessante para, em termos didáticos, se explorar a explicitação lógica de segmentos, passando-se a explorar as possibilidades de articulação (e expansão) textual.

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