sábado, 17 de agosto de 2019

Voltando ao 'Joker'

     Já por várias vezes me referi ao 'Joker' - prova de que o vejo.

     É das poucas coisas televisivas a que vou sendo fiel (pela amplitude de conhecimentos que nele se revê), mas a verdade é a de que o programa não está isento de contínuos reparos. Cá vem mais um, a propósito da emissão de hoje:

Imagem alusiva ao programa televisivo 'Joker' (RTP1 - Foto VO)

    A imagem é a do momento em que o concorrente, para a questão formulada, seleciona a hipótese Álvaro de Campos (um heterónimo pessoano, dos mais conhecidos e versáteis, a par de Alberto Caeiro e Ricardo Reis). Nada a obstar quanto à frase "Minha pátria é a língua portuguesa" ser da autoria de Bernardo Soares - assim a encontramos num dos fragmentos do Livro do Desassossego. O aspeto crítico está mesmo em considerar Bernardo Soares um heterónimo, quando o autor Fernando Pessoa o classificou como semi-heterónimo. Assim o justificou, no último ano de vida, numa carta escrita a Adolfo Casais Monteiro (13 de janeiro de 1935):

    «O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as faculdades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual [...]»

       É no fragmento 259 que se lê a frase citada no programa televisivo:

  «Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.»

     Tão mais simples, rigoroso e certeiro seria apenas perguntar "Quem escreveu / Quem foi o autor da frase 'Minha Pátria é a língua portuguesa'?" (pelo menos, não induziria em erro, para a escolha de um dos heterónimos mais comuns).
   O ajudante de guarda-livros, o morador da Rua dos Douradores, assume um estatuto singular, distinto, privilegiado na escrita pessoana. É o narrador principal do Livro do Desassossego, pensador que não é poeta, mas assume trechos de uma prosa poética, na qual viver sonhando, sonhar imaginando e imaginar sentindo são ecos da poética do ortónimo. Foi uma "personalidade literária" (como Pessoa também o chamou), que vivia num quarto alugado e conversava sobre literatura com o criador, considerando "a vida uma estalagem" onde se demora até que "chegue a diligência do abismo" (uma angústia existencial partilhada com quem lhe deu vida).

     No prefácio ao Livro do Desassossego, Pessoa assume que Bernardo Soares foi "um indivíduo cujo aspeto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me". Daí à identidade foi um grande passo para se ter no primeiro o espelho a deixar ver alguém que está por trás de muita(s) Pessoa(s) - ser um só no seio de muitos, ou seja, um que tem em si o outro.

domingo, 11 de agosto de 2019

Direito a reclamar

        É estratégico o ato, perante publicidade (que só pode ser) enganosa.

   Quando se lê a ementa e se encontram propostas como as da direita, vindas como sugestão do chefe, apetece-me comer e beber à grande (com escrita devida do acento grave) e pedir o livro de reclamações a seguir. E já não me foco no acento gráfico (sendo já grave a con-fusão com o agudo), no nome que nunca é adjetivo ("carvão"), na abreviatura "c," como se fosse redução de 'com', na perda de nasalidade dos "ro-jões",  nem sequer na grafia incorreta da toponímia. Estou mes-mo atento às entradas e, particularmente, ao camarão.
    Ainda me dou ao trabalho de imaginar a apresentação do dito: suspenso em linha, cosido (com fio, claro está), cru. Assim seria servido, cabendo-me a obrigação de o grelhar na chapa, o fritar ou o colocar em água a ferver com sal. 
     Se aparecesse já cozido (ao lume, na cozinha, por certo), o cenário seria bem outro e, aí, sim, viria o motivo para reclamar: o anúncio é de camarão "cosido", não "cozido".
     Falsa publicidade precisa de ser denunciada. Como o cliente tem sempre razão, mediante a sugestão, a causa só podia ser ganha. Comia o "cozido" (com satisfação) e reclamava pelo que não me foi servido, conforme o escrito.
    Altura de mudar a escrita do cardápio, não?

       A homofonia é crítica, mesmo entre comensais. Chega a não ter graça nenhuma.

domingo, 4 de agosto de 2019

Fundamentalismos tecnológicos

    Num mundo altamente tecnológico...

  Porque a digitalização é preferível à impressão em papel; porque o "pensamento verde" e a sustentabilidade sublinham a importância na redução do consumo de papel; porque já é possível ler sem ser em suporte papel; porque já é possível escrever sem gastar papel; porque é preciso poupar papel (não o poupo eu, até agora, nesta repetição textual tão motivada), não se pense que tal representa a menorização do mesmo. Ele foi, é e será um companheiro do nosso dia-a-dia.

Publicidade inspirada no mais comum da vida
    
     Tão verdadeiro quanto comum ao ser humano. Daí a argumentação publicitária resultar em pleno.
    Por mim, para além do obviamente demonstrado, não resisto definitivamente a ler um jornal ou um livro também em papel. Não há monitor ou tablet que o substituam.

    ... há factos que resultam em argumentos universalmente validados. Necessidades da vida comum que não permitem fundamentalismos.

sábado, 3 de agosto de 2019

'O Rei Leão'... com reflexão de inclusão?

      O remake de 'O Rei Leão' (2019), dirigido por Jon Favreau, não faz esquecer a versão animada da Walt Disney de 1994.

      A expectativa era naturalmente grande. O resultado final é sempre condicionado pela experiência de quem viu o original (já com um quarto de século, dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff, com as melodias de Elton John e Tim Rice). O impacto foi maior então; hoje, é sempre uma versão com um visualismo mais natural / real, numa sincronia de movimentos animais e vozes humanas que captam a atenção do espectador, para além da cor das paisagens, da mensagem da intriga e do registo de vitória e felicidade finais para o que é, e sempre será, uma metáfora do ciclo da vida.

       Trailers (montagem) do remake de Jon Favreau

      Sem o efeito total de surpresa, mantém-se algum do encanto da mensagem: um hino ou a apologia dos valores da vida (feliz). Os conflitos que esta propõe, a morte que a finda ou complementa, o confronto com os medos, a sede de poder, o oportunismo e a hipocrisia que marcam a humanidade estão bem representados nesta história. Nem tudo é o virtuosismo de Simba e Nala, Mufasa e Sarabi; nem só de Pumbas, Timons e Zazus se compõe a comédia e a atitude 'Akuna Matata' (diga-se, os problemas são para esquecer), que nos fazem experienciar instantes de felicidade. Há ainda cicatrizes (como a de Scar) e hienas (mais ou menos perversas e ameaçadoras) que complicam o ciclo da existência.
       No final da película, fica sempre a sensação de que estas últimas eram escusadas. Não se perde o ciclo da virtude (pelo menos, em termos da ficção), mas é caso para perguntar se vale a pena tanta perda e tanta dor decorrentes de forças malévolas como as de Shenzi e Scar, ou do egoísmo e distanciamento que outras hienas exploram de forma hilariante, mas não menos crítica. A lição do altruísmo, da amizade, da solidariedade, do amor e da família compagina-se com a do cinismo, do perigo, da falsidade e da traição, quase como se fossem duas faces de uma só moeda.
     Quando no fim se retoma o início (com a apresentação à comunidade do sucessor de Simba), prevê-se e prenuncia-se um futuro apaziguador, mais justo, mais integrador. A diversidade animal e o equilíbrio natural afirmam a legitimidade do rei, mas é bom lembrar que as hienas não deixam de existir. É certo que afastam "Scar", mas a barriga e o apetite delas não são facilmente saciados. 

       Não sei que inclusão poderão estas hienas ter, senão a da sombra (por mais que dê valor à luz) ou a do mal (por mais que sublinhe a necessidade e a vantagem do bem). Não as desejo, senão bem longe de mim.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

De volta às homonímias

      Exemplo de um cão que sabe brincar com a homonímia.

      Assim se lê em '@algumrabisco', a fazer ver o cuidado que os donos e amigos de cães devem ter perante a inteligência do designado 'melhor amigo do homem':


      Brincadeira linguística,provocadora de algum cómico, assente no contraste etimológico 'pata', do germânico 'pauta' para o latino 'patta-', e 'pata' (de possível origem onomatopaica) enquanto feminino de 'pato'. As duas entradas lexicais dicionarizadas (correspondentes, portanto, a origens distintas) motivam a abordagem deste caso homonímico (entre muitos outros já anotados neste blogue) da língua portuguesa.

     Para não 'meter a pata na poça' (expressão idiomática vinda a propósito do sentido germânico-latino), a consulta de um dicionário é sempre o melhor procedimento para aceder às relações lexicais baseadas na representação gráfica.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Doutor de ossos não é doutor de língua

      Pudera (não é ela um osso!), mas escusava de levar-se a asserção tão à letra.

      Comentar o programa televisivo 'Joker' (RTP1) está a tornar-se um hábito.
   Desta feita, é por razões ligadas ao concorrente, não tanto a quem concebe o concurso ou a coincidências vividas por quem o acompanha. À quinta questão da emissão de hoje, o participante faz a escolha que não o liberta da condição de zero euros:

A imagem da escolha polémica: programa Joker (RTP1) hoje difundido

       Eliminadas as hipóteses do absurdo, ficam as que resistem até ser bloqueada... a errada. A cara de insatisfação / preocupação do concorrente é ainda marca da incerteza, quando a resposta já se encontrava no enunciado da instrução: assistir está para assessor (tal como acessorista está para acessórios); já 'acessor' é palavra inexistente no português.
        Devia estar na cabeça do concorrente que 'acessor' é o que dá 'acesso' a alguma coisa (neste caso, ao auxílio, à assistência). Contudo, nada há de mais errado, não sendo possível, por isso, acesso a qualquer prémio, dado o desconhecimento da língua.
       Talvez fosse necessário saber latim, e concluir que 'assessor' vem da grafia latina 'assessor, -oris'; não é preciso ser doutor de língua(s), para saber escrever bem as palavras, na lógica do falante e utilizador comum (não tão comum, se pensarmos na formação exigida a um médico) de uma língua (nomeadamente, a materna). É preciso atentar apenas em casos críticos da ortografia ou na família de palavras, o que permite ver 'assessor' a par de 'assessorar', 'assessorado', 'assessoria', 'assessorial', 'assessório' (bem distinto de 'acessório', por mais que a homofonia exista neste último caso). A morfologia é assessora válida no acesso ao conhecimento ortográfico. 

       Se *'acessor' não dá acesso a nada (por não existir), ao menos o 'assessor' assiste (no sentido de auxilia).

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Não há descanso que aguente!

     Terminado mais um ciclo de formação, diria que é tempo do descanso do(s) guerreiro(s).

     Chegar a casa e descansar são do melhor que há quando se cumpre mais um objetivo e se fecha um ciclo de formação, um projeto no qual muitas energias foram investidas para que tudo corresse pelo melhor. E assim parece ter sido, a julgar pelas reações, pelos trabalhos apresentados, pelas solicitações feitas.
        Numa sessão em que também se focou o relevo a dar ao discurso pedagógico - nomeadamente, na formulação de instruções precisas para a revisão textual que se impõe como uma das fases implicadas na pedagogia da escrita -, acaba por ser uma infeliz coincidência ouvir / ler na televisão algo que, por mais que se perceba, não deixa de ser uma questão mal construída para um concurso televisivo destinado a pessoas inteligentes / argutas / astutas. Fosse eu e diria que sabia o que queriam (sem me querer colocar garantidamente na posição destas últimas), mesmo que a pergunta não fosse a devida. Não corresponde, definitivamente, ao que é pretendido. E lá se foi o sossego!
    Contra a imagem não há argumentos (até porque a primeira resulta também em facto indesmentível, para quem quiser aceder ao programa difundido):

Imagem do programa "Joker", difundido na RTP1, pelas 21:45 
(agradecimento da foto à ARS)

        A resposta do concorrente também pode não ser feliz (perguntando o que tal será e associando 'hiato' a um buraco [o que até podia ser, num sentido de espaço / intervalo entre duas gerações, por exemplo], a uma folha [estranho!] e a uma janela [talvez... entre o exterior e o interior]); porém, quem, num concurso, faz as perguntas tem de assumir algum rigor e qualidade no que questiona, de forma a que não haja ruído face à resposta intendida. E pergunta o locutor Vasco Palmeirim: "E que hiato é este?" Na verdade pode haver mais do que um, mas o que se quer está na palavra; não é a palavra. As palavras não se classificam como hiatos ou não-hiatos. Elas contêm ou não hiatos, ou seja, e respetivamente, sequências de vogais que constituem sílabas distintas ou sequências de vogais que resultam em ditongos. Há hiato quando duas vogais se pronunciam em sílabas diferentes (como em 'raiz' - [ra][iz], 'país' - [pa][ís], 'ainda' - [a][in][da], por oposição a 'pais' [pais], 'leis' [leis] ou 'água' [á][gua]).
     Deste modo, tinha a interrogação de respeitar o seguinte enunciado: "Qual destas palavras apresenta / contém / é constituída por um hiato?"

     Uma coisa é ser; outra é ter ou ser constituída por. Um exemplo (mais um) de como os concursos mereciam alguma regulação linguística antes de irem "para o ar". Este "joker" merecia que saltasse um "palhaço" entre o concorrente e o apresentador, com riso histriónico a dizer "Asneira! Burrice! Asnice!" ou (por oposição à habitual 'resposta corretíssima')"Pergunta incorretíssima!"

terça-feira, 9 de julho de 2019

Contributos (alguns) para a escrita

        Porque a escrita é um domínio complexo, exigente, a requerer muitas entradas / saídas para a aprimorar.

      Há dias, numa consulta de algumas obras que abordassem a questão da escrita - na perspetiva da transposição didática -, encontrei  a obra de Nazaré Trigo Coimbra, A Escrita em Projeto (2009), da Edições ECOPY. Entre várias referências, aparecem citados alguns contributos de uma colega e amiga (Dulce Raquel Neves), bem como os meus (com ela partilhados), numa publicação conjunta que recupero: Sobre o Texto: aprendizagens teóricas para práticas textuais (Porto, Edições ASA, 2001). 
    De vez em quando lá volto, para dar conta de algumas indicações que continuo a achar pertinentes para o trabalho de transposição didática sobre a escrita. Em contextos de formação, resultam ainda em oportunidades de discutir, (re)ativar princípios que todos os professores de língua devem considerar, na construção e na estruturação de materiais ou instrumentos que presidem ao ensino-aprendizagem da escrita.
       E porque alguém mais também o achou, seguem-se alguns desses tópicos, citados e referenciados em obra posterior (oito anos após) à minha:

      Tópico um: explicitação dos quatro princípios discursivos associados à construção / constituição da competência textual

(págs. 83-84)

     Tópico doisexplicitação das regras textuais de coerência - da repetição (1), da progressão (2), da não-contradição (3) e da relação (4)

(págs. 85-86)

     Tópico três: Sentido operatório das tipologias textuais e das classificações tipológicas na transposição didática
(...)
 
(págs. 88-89)

(pág. 94)

       Visionadas as citações, a convergência para os trabalhos de oficina de escrita é um novo passo, com indicações precisas relativamente ao trabalho de produção escrita (textualização) e (revisão):

Alguns dos diapositivos (dezoito) de um Powerpoint ao serviço da revisão escrita

       Passaram-se já quase vinte anos. Revivalismo? Algum. Pertinência para o trabalho? Também.
      
      No final, fica a sensação de que alguma coisa deve ter sido feita há uns tempos para, hoje, se poder retomar, reafirmar, consolidar e, curiosamente, avaliar como (ainda) válido.

domingo, 7 de julho de 2019

Há um mês foi assim!

      Ainda parece que foi ontem, mas já lá vão vários dias, a fazer o mês.

    O final de tarde e a noite no Estádio Olímpico Lluís Companys eram anunciados como grandes momentos para um concerto fantástico. O mesmo já havia sucedido em Lisboa, no Estádio da Luz, nos dias 1 e 2 de junho; Barcelona prometia mais.
    Mais ou menos não interessa, porque foi verdadeiramente forte o concerto catalão. E digo-o só pelo cantor inglês ruivo e multicolormente tatuado. Zara Larsson e James Bay abriram o evento musical, mas este só aconteceu quando, pelas 21.00, num palco enorme, se apresentava uma pequena grande figura a cantar e a mudar de guitarra à medida que se fazia ouvir ao vivo, sem playbacks, com dois ecrãs laterais gigantes a projetá-lo, para todo um estádio ao rubro o poder ver, nos pormenores da movimentação e da composição na guitarra. Coro?! O público que o acompanhava e cumpria o que ele ia pedindo.
    Duas horas para muita voz, energia, música, colorido e efeitos visuais soberbos. Uma sequência musical a abrir com Castle on the Hill, não faltando o famoso I See Fire (no segundo filme da saga de 'Hobbit') e anunciando o artista que a última seria Sing. Porém, com este último convite, não havia condições de parar. Retomou-se com Shape of you, para um 'encore' com mais algumas cantigas sobejamente conhecidas e trauteadas pelos espectadores.

Vídeo com o final do concerto e a passagem para o 'encore'

    Um homem (com menos de trinta anos), uma voz (potente), uma guitarra (sempre pronta a ser trocada por uma outra) e uma caixa de loops (aos pés do cantor). Um público rendido, numa noite para uma só estrela, acompanhada, várias vezes, por pontos de luz de telemóveis balançados nas bancadas e no recinto central, repletos de gente.

    A qualidade de um artista vê-se também na forma como, ao vivo, comanda o seu público. Ed Sheeran foi rei, pondo Barcelona a cantar.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O mundo em mudança

    E as carnes, também.

    Eu a pensar que o frango era carne branca... Tão enganadinho! São estas as surpreendentes aprendizagens da vida:


   Chalaça ou piada, é mais um insólito de supermercado, entre os vários já aqui comentados, e que nem ao diabo lembra. Ainda assim, reconheça-se que um frango disfarçado de melancia ou uma melancia que se faz anunciar como frango podem sempre resultar numa operação de disfarce para missões mais secretas - por exemplo, a de quem quer assumir-se vegetariano comendo frango.

    Afinal, a diferença entre a secção de charcutaria e a frutaria nem é grande! Um bom exemplo de dieta líquida este frango melanciado ou esta melancia frangainhada (e não se queixem quanto à inexistência destes adjetivos, resultantes de uma realidade nova lá para os lados de Azeitão).

terça-feira, 2 de julho de 2019

"Isto não vai lá com Oficinas de Escrita"!!!!!!!!!

        E agora que ando a dinamizar formações sobre o tema, só me faltava ouvir esta!

    A opinião é de António Carlos Cortez, que, no programa Prós e Contras (RTP1) sobre a 'Revolução Digital na Educação', profere, por duas vezes, que as oficinas de escrita não são a solução para os problemas no ato redacional dos alunos.
        Revejam-se os momentos:

Montagem de excertos do programa 'Prós e Contras' 
(RTP1 - emissão 01.07.19)

      No meio de tanto posicionamento crítico sobre a era digital na educação - a maior parte dele a ser subscrito por mim no que à "esquizofrenia" da supremacia  tecnológica diz respeito -, o tópico da oficina de escrita tocou-me ('Quem não se sente não é filho de boa gente, dizem') e critico (reconhecendo que 'Quem critica os defeitos é porque ainda não viu as virtudes', se as houver). Discordo que 'isto não vá lá' com oficinas de escrita, se estas resultarem de projetos estruturados; de dinâmicas faseadas, progressivas e moldadas pelos pressupostos da pedagogia da escrita; de oportunidades de instrumentação sistemática da escrita (com explicitação e consciencialização de técnicas redacionais).
     Só parcialmente compreendo a ideia, no caso de o conceito de 'oficina de escrita' ser redutoramente perspetivado no âmbito da escrita lúdica e recreativa. Podendo esta última constituir uma oportunidade de indução e exposição à escrita, não é garantidamente suficiente para a aprendizagem deste domínio fundamental às disciplinas que nela se apoiam e dela fazem depender a avaliação - isto é, quase todas.
         A aprendizagem da escrita faz-se, sim e também, com oficinas de escrita, quando estas são dinamizadas na consciência da aplicação de instrumentais e de processos que a escrita requer e uma pedagogia da escrita preconiza. Planificar uma sequência de aulas que visa o ensino de mecanismos de escrita (passando pela planificação, textualização e revisão, na progressão e na retoma sucessiva das etapas); orientar o ato de escrever segundo metodologias que permitam passar de focos a nível macro (planificação, gestão de informação, conhecimentos de mundo e universos de referência, domínio lexical, coerência) para focos a nível micro (sequencialização e textualização a nível de ortografia, pontuação, sintaxe); fasear procedimentos que, uma vez revistos e consciencializados, permitam integração e articulação em desempenhos mais consistentes, não sei por que razão não pode este percurso ser designado de 'oficina de escrita' (prefiro às cozinhas, de Cassany, ou aos estaleiros, de Jolibert), quando tal significa colocar os alunos em trabalho orientado, continuado, progressivo, integrado e partilhado com os professores.
        Diria mesmo que desta forma ou trabalhando a escrita com alguns pressupostos oficinais se criam condições de ensino-aprendizagem desejáveis, porque motivacionais e capazes de implicar professores e alunos em ação / atividade conjunta, na explicitação e na consciencialização de técnicas conducentes a desempenhos mais consistentes.

        Em suma, com oficinas de escrita ou escrita com alguma oficina constroem-se oportunidades estratégicas de ensino-aprendizagem participados e implicados em percursos de maior sucesso (porque de maior condução para desempenhos crescentemente autónomos). Interessa ensinar e aprender a escrever.
  

quinta-feira, 27 de junho de 2019

De novo, a oficina de escrita

       Nova edição para uma oficina de formação.

       À semelhança do já ocorrido na Escola Secundária com EB2,3 Dr. Manuel Laranjeira (Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis), desta feita regresso à Escola Secundária com EB3 de Gondomar (Centro de Formação Júlio Resende) com "Da Oficina de Escrita à Escrita com alguma Oficina: processualidade e dinâmicas". Dezoito formandos em oportunidade de partilha de experiências, onde escrever é verbo-chave, seja para ensinar seja para aprender.

Dispositivo de apresentação da nova edição da oficina de formação

      O programa da oficina segue o já proposto anteriormente, apesar de não se poder contar com a condição de trabalho direto com os alunos e as turmas. A calendarização solicitada não se ajusta ao contexto de operacionalização junto deles. Ainda assim, ora numa perspetiva prospetiva (de planificação de intervenções a acontecer num futuro próximo) ora num posicionamento crítico face ao já experimentado, procurar-se-á abordar o conceito de oficina de escrita numa de três possibilidades: oficina como atividade extra-aula (própria de dinâmicas de clubes, de escrita recreativa e lúdica ou de atividades de complemento associadas a modalidades de apoio educativo); oficina como atividade letiva (assente numa planificação estruturada de três a cinco aulas, focada na implementação de pressupostos da pedagogia da escrita); oficina numa dimensão de projeto, aglutinando várias disciplinas numa atuação conjunta, para avaliações alternativas, orientadas para perfis de competências / de desempenhos em dinâmicas mais integradoras e transversais.

       Quinze horas de formação presencial, mais quinze de trabalho autónomo, ultimando na partilha de experiências e iniciativas inspiradoras para novas / mais práticas de implicação de alunos e professores no domínio da escrita.Novo(s) tempo(s) de muito(s) trabalho(s).

       

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Abraço (ou beijo) paternal

     Apetece-me dizer que "responde o pai".

     Depois de ler o apontamento à mãe, por que motivo não pode ser o pai a responder?

     
Apontamento no Facebook, logo após o exame de Português - 12º ano

    Filho(a), na macroestrutura textual (numa dimensão de conteúdo, de dados informacionais e de articulação lógica) , até podes tirar boa nota; porém, em termos microestruturais (particularmente os ortográficos), não te auguro um bom futuro. Até já andas a comer letras (Coitado do Fernando)! Pode ser que tires positiva! A não ser que as orientações de correção assumam que a ortografia não deve ser penalizada. Já aconteceu com algumas provas nacionais (as de aferição, por exemplo). Para teu bem, pode ser que venha a generalizar-se a outras situações de avaliação. Tem fé!
     Parabéns pela vírgula do vocativo (de que muita gente se esquece); pela escrita correta de 'mãe', 'o', 'de', 'Saiu' (com a maiúscula devida), 'Saramago' (com outra maiúscula adequada e necessária), 'que, 'ter' e 'vou' (apesar de ainda fazeres confusão com 'vô'). Até já gosto que, em vez de 'bué da fixe' tenhas utilizado 'bue da ben' (não é o desejável, mas já revela alguma progressão).
     Há frases curtas (bem melhores do que os extensíssimos exemplos de respostas só com uma frase em 10 linhas e um só ponto final, para quem se lembra dele). 
     És capaz de melhor. Pensamento positivo. 
    Nada como acreditar no melhor dos mundos, particularmente aquele em que a escrita venha a ser fonética! 
     Para já, não é.
     Abç.

     A rir se corrigem os costumes! (Não sei quem disse isto, mas tinha toda a razão!)
    

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Barcelona...

      Não é a canção de Montserrat Caballé e Freddie Mercury... é outra.

     Há dois anos Ed Sheeran cantou-a; hoje repetiu-a para todo um público (barcelonês e não só) o acompanhar:

Excerto do concerto de Ed Sheeran, em Barcelona (07-06-19)

     Uma canção da e (cantada) na cidade tem outro encanto, por certo. Tem a identidade de pertença, tem o sabor da dádiva de quem a partilha ou  a dedica, tem a cor catalã de uma noite celebrada e encantad(or)a. E quando a voz e a melodia se impõem naturalmente, sem artifícios e com a qualidade de um artista genuíno e totalmente dedicado à música e ao visual de todo o seu show, o espetáculo é fantástico.

      Foi assim hoje, ao final de um dia vivido no Estádio Olímpico Lluís Companys de Barcelona (ou de Montjuïc). Um concerto para memória futura e que fez esquecer, por momentos, as agruras do presente. 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Ganhado ou ganho... para não perder

      Chegou-me há dias uma dúvida... ou um pedido de confirmação.

    Já lá vão uns anos, quase uma década! Quem diria! E ainda se lembra de mim. Três anos de parceria, outros três de companhia e muitos mais para a vida. É isto o que ainda dá sentido a uma profissão que alguém colocou nas ruas da amargura, mas que, por certo e na grande generalidade, não foram professores nem alunos.

     Q: Boa noite, professor ! Pode esclarecer-me uma dúvida? Sempre nos ensinou que se diz, por exemplo, “tinha ganhado” e não “tinha ganho”! Após o acordo ortográfico, isso mudou?

    R: Olá. "Tinha ganhado", enquanto realização do pretérito mais-que-perfeito composto, não mudou, em termos de gramática normativa / prescritiva. Se na gramática do uso a construção "tinha ganho" é aceitável, em termos de rigor e correção formal é com a primeira que se lida. 
      Isto nada tem a ver com o acordo ortográfico, que só convenciona regras para a forma da escrita, da grafia propriamente dita; não para conteúdos de natureza gramatical.
     O contraste 'ganhado / ganho' é uma evidência do duplo particípio no verbo 'ganhar' (um verbo abundante na flexão), com a forma fraca ou regular - ganhado - e a forma forte ou irregular - ganho. Esta última, mais marcada pelo uso, é, porém, a gramaticalmente assumida para acompanhar os verbos auxiliares 'ser' / 'estar' (ser ganho / estar ganho). Com os auxiliares temporais 'ter' / 'haver', é a forma fraca que é apontada como correta em termos de formalidade, de gramática normativa (ter / haver ganhado). 
      Outra questão será o aspeto resultativo e perfetivo de uma dada situação: ter a corrida ganha (e não ganhada) significa que esta foi / está ganha. É como ter a conta paga (e não pagada), porque esta foi / está paga. Mas é bom lembrar que eu tenho pagado as minhas contas a tempo e horas (numa temporalidade que já vem de trás e, pelos vistos, não terminará tão cedo).
      Assim sendo, uma construção é a temporalidade do 'verbo auxiliar+verbo principal [no particípio passado]' (ter ganhado / ter pagado); outra é o aspeto resultativo / perfetivo de 'Ter+Grupo Nominal+Adjetivo' (ter X ganho[a] / ter X pago[a]).
      Aliás, continuando, tenho gastado algum tempo com esta explicação. Não se a explicação está gasta ou se tenho a explicação gasta. Seja como for, é sempre bom relembrar o que já foi feito, dito, ensinado.

      Portanto, mantenho o que disse e ensinei. Há mudanças que só o tempo dirá se virão a marcar a norma da língua. Não que eu queira ser muito normativo, mas há referências que, por princípio e alguma estabilidade, têm de ser assumidas, mesmo que o uso molde bastante o funcionamento da língua. E, já agora, obrigado pela lembrança deste seu humilde professor (quem sabe se, no futuro, a ficar nas suas mãos, aos seus cuidados).

terça-feira, 28 de maio de 2019

A Magda anda aí!

         Só para quem via / vê o "Sai de baixo!"

       Anunciado que está o filme baseado numa das mais cómicas séries televisivas da TV Globo (transmitida pela SIC, pelos anos 2000), o encontro com Caco Antibes (Miguel Falabella), Magda (Marisa Orth) e Ribamar (Tom Cavalcante) parece ter sido antecipado. Os insólitos de linguagem de Magda parecem inspirar a foto seguinte:


       Isto de "embriagar" obras é típico de Magda, mulher "impolerada", que quer o "triplex" do que lhe querem dar:

Trailer do filme, realizado por Cris D'Amato (2019)

       Para quem achar que não há comédia que resulte, há que ter calma: não somos deficientes visuais (por isso, não ouvimos nada)!
       "Há males que vão para Belém!"

       No caso da foto reproduzida, é caso para dizer que a obra não sobe, não "sai de baixo"!

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Depois das eleições

      Findo o ato eleitoral para o Parlamento Europeu...

      Entre palmas, palminhas, abraços, sorrisos e beijinhos, temo a evolução do que nisto vai dar, mesmo quando há colorido a mais. E a julgar por alguns locais de voto, nem sei que escreva!


(Fotografia de Cristina Carvalho, junto a uma secção de voto lisboeta)

 Circula pelos 'posts' do Facebook (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=217738442528374&set=a.109575993344620&type=3&theater); dizem que o registo fotográfico foi feito lá para os lados da capital. No mínimo, anedótico; no máximo, um aumentativo ortograficamente mal resolvido (mas lá que o grafema 'x' pode ser lido como [ks], não há dúvida nenhuma).
       Nem assim se contraria a abstenção (não muito distinta, segundo o escrevente em causa, do conceito de abstinência).

       Só falta ouvir dizer que a culpa é do Acordo Ortográfico (AO).

domingo, 26 de maio de 2019

Clarezas muito nebulosas

       Em jeito de balanço das eleições para o Parlamento Europeu.

    Muito anuviado anda o contexto eu-ropeu: a questão da imigração, da solida-riedade e do acolhi-mento de refugiados não-europeus, por vezes, mais retórica do que prática, criando divisionis-mos que se afiguram inultrapassáveis nas diversas sensibilida-des governativas; a afirmação de ideologias de extrema direita, com focos estruturais em países de referência (económica e/ou cultural), necessariamente preocupante para o ideário de liberdade europeu; os movimentos independentistas que evidenciam orientações distintas face a algum sentido de paz e de integração dos países e do continente; a regressão económica que a Europa tem revelado à medida que as décadas avançam e o alargamento / a adesão à união cresce; as desigualdades territoriais e sociais que persistem, na constatação de que os piores mercados estão alocados naquela que é a união monetária com mais sinais de crise (pelo menos para alguns dos países que dela fazem parte); um Brexit com mais dissensos do que soluções à vista; um olhar para uma Turquia tendencialmente autocrática enviesado por interesses geopolíticos, militares e económicos que pouco têm de pacíficos, tolerantes, solidários ou integradores. Tudo isto se reflete em resultados eleitorais que, em Portugal, pouco ou nada têm de claro.
     Nenhum partido pode, em consciência, declarar-se verdadeiramente vencedor, não obstante o maior número de votos nas urnas para um deles. A abstenção é de uma percentagem enorme, essa sim, mais do que clara, colocando os candidatos a deputados europeus (e os partidos que os propuseram) a responsavelmente refletir sobre a sua representatividade no que ao país diz respeito. Além disso, movimentação de votos, ora para o PAN (Pessoas, Animais e Natureza) ora para o BE (Bloco de Esquerda), para não falar da própria abstenção, é também visão estratégica de insatisfeitos, por mais que esta última possa parecer pouco consistente. Não o é, por certo, para quem vê a inconsistência de algumas cores partidárias, na ação governativa ou na oposição, deslegitimando / apagando, por exemplo, o tempo de trabalho exercido por várias profissões ditas "especiais" do funcionalismo público (tão assim que a "especialidade" se torna mais do que discutível - só retórica, mesmo).
       Porque não posso ter uma Europa a pactuar com políticas deste tipo, não contribuo para uma(s) cor(es) que, em Portugal, acha(m) ou aceita(m) que trabalhadores vejam o seu tempo de exercício profissional apagado, seja em que ofício, função, serviço ou profissão for. Voto e faço-o pelo dever de construir ou, no mínimo, expressar a escolha, o desejo de alternativas a considerar face ao mal-estar presente - que, de lá para cá ou de cá para lá (não interessa), só permite a felicidade de alguns poucos, não desse bem comum mais ajustado ao sentido mais lato de política.
      Para quem fala em vitórias claras ou expressivas, muitas são as nuvens ofuscantes. A brincadeira das guerrinhas políticas só diverte quem nelas participa. Quem assiste a este deplorável espetáculo começa a perder a paciência (já a perdi há muito)! Para quem teve derrotas, foram mais do que merecidas - boa oportunidade para repensarem as orientações políticas, tanto nacionais como internacionais. Dizer que os portugueses perceberam a mensagem com os resultados obtidos, limitada à leitura quantificada da vitória, só pode ser exercício retórico ou cegueira na afirmação de poder (vão e tão volátil, que deita por terra e no descrédito qualquer deslumbrado, mais cedo ou mais tarde). Não percebem, senhores, seja pelo que cá acontece seja pelo que a Europa dá a ver. E, pelos vistos, não são os únicos.Uma abstenção superior a sessenta e cinco por cento é a maior prova disso - lamentável não o querer ver ou, com sorrisos e alegrias inconvenientes, afirmar que não é isso o que se deve destacar. É colorido a mais, adjetivo excessivo.
       E, depois, não insistam em refletir sobre o problema da abstenção. É melhor passar aos atos que permitam diminuí-la.

      Valha, ainda assim, a pluralidade de cores que se antevê no círculo do Parlamento Europeu, a motivar negociações, compromissos plurais e de sensibilidades (esperemos) mais focadas nos valores da dignidade social e humana.

sábado, 11 de maio de 2019

Arcade - um jogo feito canção

      A julgar pelo sucedido no ano passado, espero que não se repita a morte à beira da praia.

      A qualidade da canção de Cesár Sampson, no Eurofestival de Lisboa, foi por mim destacada e elogiada. Ficou em terceiro lugar. Este ano, faço-o pela melodia de 'Arcade', a representar a Holanda. O jovem intérprete Duncan Laurence (pseudónimo artístico de Duncan de Moor) é mais um dos cantores que vingam em programas de talentos musicais (estilo The Voice) e que preenchem a representação dos diferentes países contemplados no certame. Porém, há técnica no canto, para além de a canção ter o registo do feérico na entrada suave (ao piano); do ritmar dos dedos estalando e prenunciando a impactante batida de percussão; da progressão de uma sussurrante balada ao grito interpretativo de quem vive um jogo de amor, alternadamente entrecortado pelo relaxante acorde do piano.
     E se o coro parece vir de um universo mágico, a voz de Duncan combina com ele, dando-lhe também vivacidade, força, projeção, até ao retomar do ciclo (fechando como abriu, numa pianíssima voz a contrastar com os momentos mais altos). É uma montanha russa vocálica e musical à semelhança do amor cantado:

Vídeo oficial da música da Holanda 
no Eurofestival da Canção, em Tel Aviv (2019) 

          ARCADE 


A broken heart is all that's left
I'm still fixing all the cracks
Lost a couple of pieces when
I carried it, carried it, carried it home

I'm afraid of all I am
My mind feels like a foreign land
Silence ringing inside my head
Please, carry me, carry me, carry me home

I spent all of the love I've saved
We were always a losing game
Small-town boy in a big arcade
I got addicted to a losing game

Ooh, ooh...
All I know, all I know
Loving you is a losing game

How many pennies in the slot?
Giving us nothing and take a lot
I saw the end before it begun
Still I carried, I carried, I carried on

I don't need your games, game over
Get me off this rollercoaster



        Seja jogo estratégico seja de quebra-cabeças, este "Loving you is a losing game" é viciante para a audição, talvez por causa de um amor que pode ser tão universal quanto o de um casal ou como o do Homem pela Terra.

      Oxalá vença em Tel Aviv (Israel), para fazer esquecer os efeitos cacarejantes da vencedora do ano passado.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Nesta madrugada... de há 45 anos!

         Foi esta a madrugada, há quase meio século (faltam cinco anos).

       A televisão difundia a notícia, as orientações e os cuidados para um momento histórico. Não eram ainda sete horas da manhã. Em cerca de quatro minutos, com as vozes de Fernando Balsinha e Fialho Gouveia, anunciava-se e afirmava-se a "missão cívica" do movimento das forças armadas:

Noticiário da RTP aquando da Revolução do 25 de abril de 1974

     Prosseguia a emissão com a Sinfonia nº3 de Beethoven - nada mais apropriado para tempos revolucionários (a conhecida "Eroica", frequentemente apontada como obra representativa da passagem musical da época clássica para a romântica, foi inicialmente dedicada a Napoleão Bonaparte; mais tarde, com a ascensão deste à condição de imperador, a página da dedicatória foi rasgada pelo compositor, em reação adversa ao que considerava uma traição aos ideais revolucionários franceses).
    Passados muitos anos, celebra-se a liberdade e a democracia como direitos, diria não adquiridos, mas em constante construção. Entre o muito que se conseguiu e o que esteja ainda por cumprir, cabe-nos dar, em cada dia, o passo necessário para cimentar a conquista feita, mas já por vezes ameaçada. 25 de abril também precisa de açúcar. para esquecer alguns dos momentos amargos, azedos que o sucederam
    Nos excessos e nas deformações que a liberdade democrática acarreta, a possibilidade de regulação e mudança é efetiva. O mesmo já não se podia dizer do anterior regime, despótico, ditatorial, felizmente derrubado. Deste não há só quase cinquenta anos de despedida; há muitos mais de resistência, de sobrevivência (para quem o conseguiu), de memórias que, ainda hoje, persistem e precisam de ser partilhadas, para que a consciência da libertação e/ou das atrocidades e dos silenciamentos vivenciados solidifique o bem que atualmente se tem face ao mal que algumas vozes teimam ainda em desejar / retomar nos momentos mais críticos do que foi alcançado.
      Tempo para lembrar o fim dos tempos de muitas armas, nomeadamente as cantigas. Tempo de diferença e de canto novo.

      Fica o registo de um dia que é de cravos, porque outros houve de espinhos e acúleos, com tanta gente ora à espera ora na luta contra um cinzentismo destruidor das cores bem vivas que a bandeira tem. 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Nem de propósito...

      Assim se costuma dizer (e, agora, escrevo) quando de coincidências se trata.

      Ainda há dias redigi um apontamento sobre a música de Mendelssohn, a propósito de "Sonho de uma Noite de Verão". Hoje, no programa televisivo "Joker" apresentado por Vasco Palmeirim (concurso - teste de conhecimento, no qual o concorrente responde a um conjunto de doze questões, cada uma na modalidade de escolha múltipla), alguém fez uma má escolha:

Foto  da emissão televisiva do programa "Joker" (na RTP1)

     Caso para dizer que, se tivesse ido ao Coliseu (no passado dia dezoito) ou tivesse lido o apontamento desta "Carruagem 23", o concorrente teria melhor sorte.

       Não foi feliz este "casamento" musical, a julgar pela alternativa selecionada na imagem.

domingo, 21 de abril de 2019

Ovo de Páscoa cracoviano

     Regressado a tempo para a Páscoa
"Grande Ovo do Coração (Foto VO)
     Diretamente de Cracóvia, chega o ovo pascal.
  Na praça central de Cracóvia (Rynek Glowny), encontrei uns ovos de Páscoa ('Os Grandes Ovos do Coração"), símbolo da amizade, do amor e da alegria pascal. Uma dádiva aos olhos dos transeuntes e visitantes de boa vontade na região de Koprivnica-Križevci, à semelhança de exposições análogas em galerias e praças de outras cidades do mundo (Nova Iorque, Pittsburgh, Milão, Ferrara, Roma Bruxelas, Klagenfurt, Graz, Slazburg, Viena, Brno, Bratislava, Lendava, Zagreb, entre outras). Um projeto de pintura em estilo naïve, levado a cabo pelos artistas Josip Gregurić, Đuro Jaković, Stjepan Pongrac e Zlatko Štrfiček.
      Ao Papa Emérito Bento XVI foi oferecido um destes ovos, em 2010; eu trouxe um, em registo fotográfico (claro está!), comigo. Apanhei-o de "passagem", em pleno espírito de Páscoa - esta palavra, na sua origem hebraica (Pessach), significa isso mesmo - “passagem” -, a marcar, na mais natural das religiões panteístas, o final do inverno e a chegada da primavera. Para os cristãos, a Páscoa é a festa da ressurreição de Cristo, ocorrida três dias após a sua morte na cruz - também uma "passagem" para uma nova vida.

     Seja este Ovo de Páscoa o nascimento para um novo ciclo da vida. Boa Páscoa para todos.

Transformar corações (com o livro do Senhor Green)

     Talvez um lema; quiça o objetivo da comédia Green book, vencedora do Óscar de Melhor Filme, Melhor Ator Secundário (Mahershala Ali) e Melhor Argumento Original.

    É, pelo menos, o propósito de uma das personagens - conforme se explicita numa das múltiplas situações, de inspiração factual, retratadas e vividas pelo pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali), aquando da sua tourné pelo "Deep South" (Estados Unidos).
   Numa parceria improvável a fazer lembrar Amigos Improváveis (2011), desta feita, o patrão é negro; o empregado, branco. Don Shirley e o seu motorista-segurança Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), respetivamente, são antípodas um do outro, quanto à formação, à vida que levam e à posição social que ocupam; contudo, as vivências e as aprendizagens aproximam-nos mais no que têm de semelhante do que nas diferenças que os marcam inicialmente. 
     O empregado branco e o patrão negro são a opção de partida para a desconstrução desejada. A sofisticação e o requinte do segundo contrastam com a limitação superficial e a instintividade do primeiro. Don fica chocado com o linguarejar e a latente discriminação do empregado face aos negros, não obstante a consideração neste observada pelos valores da família, pelo espírito aguerrido e pela irreverência (que acabam por proteger o pianista); Tony reconhece o talento do patrão, bem como a qualidade da sua escrita, acabando por o ajudar nas situações em que, injustamente, a segregação se evidencia, quer entre brancos quer entre negros. Na verdade, o filme aborda não só a desigualdade étnica, baseada essencialmente na questão cor, mas também a diferenciação / representação dos negros entre si - mais especificamente, dos que se encontram relativamente bem posicionados na vida (como Don) e que veem, com distanciamento e rejeição, os que nada têm senão o trabalho forçado, escravo, ou os que se ficam pela camada cultural mais elementar / popular, e vice-versa.
     O roteiro escrito por Farrelly, Brian Hayes Currie e Nick Vallelonga constitui o argumento do filme dirigido por Peter Farrelly, a convocar o livro The Negro Motorist Green Book, abreviada e informalmente conhecido por Green Book - guia turístico para viajantes afroamericanos, redigido por Victor Hugo Green, com o intuito de os auxiliar na procura de dormitórios e restaurantes amigáveis a pessoas de cor, num contexto em que o racismo e o preconceito imperavam no universo americano.

Trailer Oficial de "Green Book - Um Guia para a Vida"

     Entre o cómico de situações e a hipocrisia preconceituosa (nomeadamente a dos brancos que batem palmas ao famoso pianista negro, mas o impedem de frequentar a casa de banho ou de jantar num restaurante para brancos), o filme é uma construção, uma lição de humanidade - uma transformação dos corações e das mentes da década de sessenta nos Estados Unidos da América, inclusivamente os de Tony (que começara por colocar ao lixo dois copos usados por negros) e de Don (que toca para os seus companheiros de cultura negra no registo do jazz).

       A viagem dos protagonistas pelo "Deep South" é o confronto com a segregação dos negros; o regresso ao norte é a afirmação dos valores multiculturais e da integração multiétnica. O final, em época de nevada natalícia, é o sublinhar de um percurso assente nos valores da vida, em qualquer cor; no calor humano, amigo e familiar que permite suplantar diferenças, afastamentos, divisionismos, preconceitos. Mais do que justificados os Óscares!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

De Shakespeare a Mendelssohn

      Tempo de música (alemã) e literatura (inglesa) em português.

      SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO: o título é shakespeariano, o de uma comédia cujo início foi inspirador para um espetáculo que, não sendo teatral, se tornou música (a partir da composição do alemão Felix Mendelsshon), canto e leitura expressiva. Da combinação resultou um concerto de sonho numa noite de primavera, sem enganos, sem equívocos ou erros interpretativos, sem o registo hilariante da “comedy of errors”; antes com a melodiosa harmonia de instrumentos de sopro, cordas e percussão, a enlevar o auditório com as reconhecidas ‘Abertura’ e ‘Marcha Nupcial’, entre outras. Foi ontem, no Coliseu do Porto, em harmonia, em melodia e a convocar essa fronteira entre o sonho ou a ilusão (dos efeitos emotivos nos espectadores) e a realidade (do que foi dado a ver na execução). 
     Numa parceria com o Centro Cul-tural de Belém e a Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissio-nal, o ‘Festival Dias da Música’ veio ao Porto, tendo o espe-táculo decorrido de um grande estágio de orquestra, orien-tado pelo maestro Cesário Costa e aberto a alunos de música de Conservatórios Oficiais, de Escolas Profissionais e de Ensino Particular e Cooperativo de todo o país. Com a orquestra (setenta músicos), cerca de noventa vozes fizeram-se ouvir: as do Coro Lira, do Coro dos Meninos Cantores da Trofa, do Coro da Academia de Música de Espinho e as das solistas Ana Maria Pinto e Patrícia Quinta. 
    No seio de tantas estrelas, a jovem promissora Catarina Farias fez-se ouvir com a penetrante sonoridade do seu oboé. 
     Um casamento feliz a três: canto, execução musical, mais a leitura expressiva de Pedro Penim, como narrador, a evocar alguns segmentos traduzidos (por Maria João da Rocha Afonso e Diana Afonso) desse texto dramático inglês. Ficou, assim, enquadrada a progressão de trechos musicais e cantos com a obra literária dos finais do século XVI, recuperando esse 'drama' no qual Egeu pretende casar a filha Hérmia com Demétrio, o qual, por sua vez, ama Helena (amiga de Hérmia). Apaixonada que é a primeira por Lisandro e sem direito a escolha, segundo as leis de Atenas, é a partir de Hérmia que se revelam os primeiros desconcertos no amor (cruzados nos universos da corte, do bosque e da representação dos populares). Fugidos os amantes para um bosque (reino fantástico onde Titânia, rainha das fadas, também está em conflito com o esposo Oberon, rei dos elfos), há feitiços e peripécias dramáticas, nomeadamente as vivenciadas com os “mechanicals”, a ensaiarem, no bosque, uma peça para o casamento dos duques Teseu e Hipólita. Como “All’s well that ends well”, é o amor que acaba por prevalecer.

'Festival Dias da Música' - foto do Coliseu do Porto

     Tal como no final da obra shakespeariana – quando Oberon apela para a música como indicador de recomposição da harmonia e fim do “jangling” (fim das confusões na intriga dramática) -, também os que foram à cidade invicta encontraram na música uma porta de luz, saindo encantados nessa ilusão ou nesse sonho de que há mais para além de um mundo por vezes demasiado duro de real. Tempo, música, companhia e poesia para a vida.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Complementos sim..., mas cada um no seu galho.

         Poderemos até falar de árvores, se elas ajudarem a ver o nível de análise (ou na frase ou no grupo de palavras).

     A propósito de um exercício de um manual de décimo ano de escolaridade e depois de a professora se confrontar com a solução, veio a questão:

      Q: Nos versos camonianos "S'imaginando tanta beleza / de si, em nova glória, a alma s'esquece / que fará quando a vir...", o sublinhado é identificado, nas soluções do manual, como complemento oblíquo. Não pode ser complemento do nome?



   
       R: Pode, sim, tomada a forma verbal 'imaginar' como realização transitiva direta (ALGUÉM IMAGINAR ALGUMA COISA) e 'tanta beleza de si' como o objeto desse exercício de imaginação / idealização. Trata-se de uma leitura possível, na exploração de alguma ambiguidade sintática que o enunciado traz para um leitor menos focado em recursos estilístico-literários do nosso poeta clássico, nomeadamente inversões motivadas por efeitos rimáticos (entre outros efeitos estéticos, temáticos e estilísticos).
     Neste caso, o segmento 'de ti' é encarado como expansão de um núcleo nominal (> "beleza / de si"), pelo que, nessa medida, é face a este núcleo que se impõe determinar o nível de análise e a identificação da devida função sintática interna (ou de segundo nível). Portanto, pela dependência face a um nome (que se expande ou com modificadores ou com complementos internos), interessará saber se este último corresponde ou não aos que se pautam pela seleção de argumentos na sua estrutura lexical (diga-se, aos seguidos por complementos).
      Na tipologia típica dos nomes que selecionam complementos argumentais,  'beleza' é apontado como nominalização de qualidade, isto é, termo tipicamente associado a derivação de adjetivo denotando propriedade (ser belo > ter beleza). As entidades a que esta última se atribui constituem, por norma, os seus argumentos (ex: 'a amabilidade dos anfitriões', 'a beleza da jovem', 'a franqueza do amigo', 'a rugosidade da cortiça', 'a surdez do avô'). Segundo Ana Maria Brito (in Gramática da Língua Portuguesa (coord. Maria Helena Mira Mateus, Lisboa, Ed. Caminho, pp. 330-332), trata-se de um nome lexicalmente relacionado / derivado de um adjetivo (nome deadjetival), traduzível pela sequência 'o facto de ser p' belo > beleza', seguindo-se a este último um grupo preposicional (com valor de genitivo) tomado como complemento de nome.
       Retomando o reconhecido verso de Camões e assumida a beleza de uma entidade (por mais abstrata que seja), no plano da imaginação / idealização petrarquista, esta mesma ('beleza de si') é o resultado de uma relação predicativa ('a entidade é bela') que, por nominalização, se revê na estrutura lexical de um grupo nominal cujo núcleo é expandido por um complemento de nome ('beleza da entidade' > 'beleza dela' ou 'beleza de si').

      Outras leituras poderiam resultar da abordagem destes mesmos versos camonianos (particularmente se a ordem sintática natural fosse mais associada a > 'Se imaginando tanta beleza, em nova glória, a alma se esquece de si'). A multiplicidade de sentidos e a exploração de mecanismos literários (nomeadamente, convocando-se inversões) admitiriam outro tipo de disposições, configurações sintáticas, com implicações  diversas no significado. Nesse outro caso, outros níveis (de análise) e/ou "galhos" surgiriam (e outras funções sintáticas também).

terça-feira, 19 de março de 2019

Vantagens da leitura...?!

    Não gostaria de ter passado pela leitura disto... mas, já que o fiz, escrevo!

    Acredito que já era tempo de se ter aprendido alguma coisa com tanta apologia da leitura. Primeiro, é certo que quem não lê é mais facilmente manipulado pelo que outros digam (a tirania da ignorância sempre foi demasiado perigosa, particularmente para quem não tem acesso às fontes e passa a crer em qualquer inverdade, se não for falsidade, mentira ou erro). A Mafaldinha tem toda a razão. Segundo, não é menos verdadeira a ideia de que a leitura contribui para um melhor domínio da língua. Só que, neste último caso, a leitura tem que ser bem atenta e modelar, assente no bom exemplo do texto; focada nas realizações da língua e no modo como ela é aplicada, para que, depois, esta (também) se possa refletir noutros desempenhos adequados.
      Ora, considerando este último ponto, não é o que se passa com o que a BD dá a ler na réplica da Mafaldinha:

Recolhido da página 'Educação e Transformação'
(https://www.facebook.com/educaretransformar/photos/a.578929008813997/1160233454016880/?type=3&theater)

      Gostava de dizer que toda a gente sabe que um 'porque' atrai os pronomes (tal como um 'que' ou um 'não'): 'faz-se' > não SE faz; 'diga-se' > que SE diga;' di-lo' > porque O diz. Até a Mafaldinha o parece reconhecer em 'no que TE dizem'. Só que aquele 'porque obriga-te' desfaz toda a convicção no saber desta jovem tão contestária, bem como na força do meu gosto. Apetece-me mesmo dizer "MAFALDA! OUVE BEM O QUE DIZES!"
       Prova de que a lei da atração não é só para a Física nem só para o amor.

     Pois é, Mafaldinha, 'porque TE obriga'... é como devia ser! Tão inteligente és e não antecipas o pronome quando necessário / obrigatório. Acho que precisas de ler um pouco mais, para aprender melhor (especialmente uma gramática). Não há paciência! (Começo a perceber o olhar do Filipe, como se não acreditasse no que está a ouvir, vindo de quem vem). Qual educação, qual transformação!