segunda-feira, 25 de julho de 2011

Questões do outro lado do oceano (I)

     Começo por agradecer o contacto e pedir desculpa pelo atraso na resposta: o tempo nem sempre nos dá a disponibilidade desejada.

    Entre tantas questões de interesse, nada como começar pela primeira.

    Q: Olá. 
     Sou do RJ. Ministro aulas de Língua Portuguesa para turmas pré-militares, pré-vestibulares e de concursos públicos variados.        
      Compartilho com pessoas pela net (além de meus amigos, professores de Português) algumas questões gramaticais 'estranhas' ou polêmicas. Meu objetivo é sempre, até morrer, pensar a língua.        
        Lá vão, pois, algumas questões 'estranhas' (tenha a bondade de comentar, responder e/ou afins):          
        1) Em "Ali não é bom lugar, José", qual é a classificação do sujeito da frase? 

      R: Inclinar-me-ia para admitir duas situações distintas, conforme a descrição da realização:      
      i) ‘Ali’ é encarado como a designação / referência a um local, distribucionalmente equiparado a ‘O campo’, ‘A cidade’, ‘O país’, ‘A zona’, ‘A área’, pelo que se trataria de uma palavra a funcionar como sujeito simples da frase (argumento externo ao predicado, que contrastaria com um sujeito composto do tipo ‘Ali e Aqui não são bons lugares’) - por mais que seja originalmente um advérbio, 'ali' é morfossintacticamente recategorizado, convertido em nome e a funcionar como sujeito sintáctico;
      ii) ‘Ali’ é tomado como uma circunstância de lugar mencionada numa frase com sujeito nulo (esta última estaria próxima da construção sintáctica equivalente ao inglês ‘It is not a good place over there, José’ ou ‘That is not a good place over there, José’), pelo que ‘ali’ corresponderia a um advérbio a funcionar como modificador de lugar. O sujeito nulo seria, no presente caso, subtipificado como sujeito nulo expletivo.
       A propósito dos tipos e subtipos de sujeito, remeto para a sistematização seguinte:

in CARDOSO, Ana et al. (2011: 276) - Com Textos 11, Porto, Edições ASA II

       Uma resposta mais definitiva só faria sentido numa maior contextualização da frase.

      Outras questões virão, para respostas que, se não forem oportunas, se desejam convenientemente partilhadas. Não há oceano que separe aqueles que queiram pensar (sobre) a língua.

sábado, 23 de julho de 2011

Dia de luto para a música

    Foi hoje anunciada a morte de Amy Winehouse.

    Pouco há a dizer para circunstâncias em que a morte acontece quase mais por opção do que por inevitabilidade.
   O certo é que a música está de luto e, assim, me lembrei de registar o título de uma das suas canções: "Back to Black": pelo preto de um passado que, tendo cor, já só tem lugar na memória que o tempo acabará por fazer dissipar; pelo preto de um luto que, culturalmente, muitos assumem como cor de tristeza e pesar; pelo preto que se fazia rever numa voz que nos relembrava o soul, o jazz, o som da motown (que a cultura negra soube enriquecer).

     
BACK TO BLACK

He left no time to regret
Kept his dick wet with his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry, get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked, I'll go back to black

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
I go back to us

I love you much
It's not enough, you love blow and I love puff
And life is like a pipe
And I'm a tiny penny rolling up the walls inside

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to

Black, black, black, black
Black, black, black...
I go back to
I go back to

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to ... black

     Há músicas que se revelam autênticas situações prenunciadoras.
    As reacções de pesar podem não ser tão fortes quanto a tragédia e o horror que marcam os mais recentes dias do povo norueguês; mas a tristeza é inevitável, por se ver uma só vida fatalmente desaparecida (e destruída) aos 27 anos, quando muito ainda podia revelar (pelas potencialidades que anunciava na sobriedade).

     Mais do que "Love is a losing game", ficou esquecida a ideia de que a vida também pode ser um jogo falhado (particularmente quando há algo que, segundo o título de uma outra das suas canções, é "Stronger than me").

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Morrer de amor

       Há quem lhe chame  "petit-mort"...

       Só que os nomes nada são, se os actos nunca os tiverem feito sentir - de modo a tornarem-se estados em tudo tão diferentes da tristeza.
      O jogo da ficção institui-se e o mundo alternativo constrói-se com as condições de uma realidade-sonho, (não a de uma infância retomada; antes, a dos adultos cometida).

...
agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor

abençoa-te para sempre,
e é assim que eu morro, corajosa,
a escrever um livro de amor
sem chorar
...

                                                                      Valter Hugo Mãe
                                                                      in O Resto Da Minha Alegria
                                                                      Porto, Cadernos do Campo Alegre, 2003

      Aproveitando a capa do livro, com ilustração de Adriana Calcanhotto, tanto relógio pessoal faz com que este livro de amor seja passagem para uma felicidade universal e intemporal.

     .... mas que o poeta assume claramente como "la joie de la vie".

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Vi um Homem-Livro

      Só por ironia a maiúscula se impõe, perante tanta simplicidade e tanto valor.

     Numa entrevista de Judite de Sousa, no Jornal da TVI, alguém assumiu que a arte existe para que os homens não desperdicem a vida; que a felicidade é constituída por "momentos epifânicos de puro egoísmo" para distribuir e compensar por aqueles que nos causam tristeza; que a morte é uma possibilidade e a inevitabilidade do que é perecível (nomeadamente o Homem), mas que não impede o sentido da completude.
   É este o "tsunami literário", conforme Saramago o qualificou, quando aquele em 2006 recebeu o prémio a que este deu nome.
   Chamo-o de um Homem-Livro, pelo que me despertou quando o ouvi na ESG a falar para jovens, enquanto jovem poeta - o caminho pelo qual encetou o seu percurso de escritor, numa espécie de "refúgio seguro". Qual bombeiro das palavras, apelava ao fogo da criação e ao sentimento, ao olhar diferente, mas natural, que põem cor na vida e na razão.
    Chamo-o também assim pelo que foi o cumprimento de mão e as parcas palavras trocadas assim que mo apresentaram, aquando do II Encontro de Linguística de Gondomar. De novo, ouvi-o depois falar da sua criação, do leitor que foi e de como isso o tem marcado de cada vez que escreve; e de como se devia alimentar a poesia de um jovem estudante da ESG, que escrevera algo num poema que o tocou pelas palavras e ideias singulares.
    Chamo-o ainda por o ter ouvido numa entrevista televisiva, ficando preso ao que ouvia, tal como quando leio um romance e, por mais que me chamem para ir jantar / almoçar, acabo sempre por trair a mesa.
   
    
   Chamo-o, por fim, pelo que deve ser um Homem que se impõe numa cumplicidade afectiva com qualquer ser humano, na simplicidade e no sentido genuíno, mas polido, em tudo o que diz.
   Diz-se (e vê-se) que, em Paraty, Valter Hugo Mãe chorou, fez chorar e que o aplaudiram com lágrimas nos olhos. Houve também quem se lhe declarasse e lhe propusesse casamento. E com um sorriso nos lábios e um rubor envergonhado, falou dos apelos do(s) amor(es) da forma mais natural e tangível que os olhos, os ouvidos e o tacto podem ter.

    Há homens que nascem, merecidamente, bafejados pelo que há de mais superior no sentir e de mais elevado no viver (mesmo que escrevam apenas com minúsculas).

terça-feira, 19 de julho de 2011

Na teia das sensações e dos sentimentos

      A questão não é nova, nem creio que seja produtiva para avaliar seja o que for, em termos de um exame de Português. Mas é assim que os alunos também não tiram bons resultados.

      Um dado crítico ou uma situação problemática esta que põe os examinandos em posição frágil. Já assim aconteceu há uns anos quando, a propósito de um excerto de uma outra obra, se formulavam instruções sobre sensações e se recusava qualquer cenário de resposta que tocasse o plano do sentimento.
     Este ano, repete-se a instrução, desta feita na base de um poema de Álvaro de Campos. Fosse este o caso para um texto da fase sensacionista e não haveria tanto problema; contudo, com uma composição marcada pela angústia, pela dimensão do tédio e da força da consciência que enleia o sujeito poético, a questão é mais complexa.
    Questiono-me se a avaliação, testagem e classificação de alunos, em Português, se situe no reconhecimento e numa instrução apoiada na referência a sensações (questão 1 do Grupo I do exame da 1ª fase do exame 639 - Português, 12º ano), restringindo-a a um sentido físico (conforme se configura em cenário de resposta previsto e sublinhado pelo GAVE); duvido que ela seja objectivo prioritário (da disciplina), meta (do ciclo) ou finalidade (do currículo) no que toca à avaliação / classificação de alunos em exames do ensino secundário. É verdade que a propriedade lexical e a adequação de registos são áreas de relevado interesse nas competências produtivas de uma língua; sei qual o grau de penalização a atribuir a quem não as respeita; contudo, no que toca à precisão e distintividade de palavras como ‘sensação’ e ‘sentimento’, a questão é mais delicada do que estabilizada. 
    A verdade é que, pela consulta de vários dicionários, deparo com outras possibilidades de resposta sustentadas no que qualquer falante pode encontrar em entradas de dicionário (confronte-se o comentário que hoje mesmo produzi, para uma aluna, a este propósito). Qualquer falante assumiria que há também sensação de movimento, de paz, de tranquilidade, de angústia, apoiada em sentimento - o que, aliás, é palavra-chave para o trabalho poético de um Álvaro de Campos menos sensacionista, mais angustiada e existencialmente dominado pelo sentimento e pela consciência singular e diferenciadora face 'ao outro' que vive na inconsciência desejada.
      Há, por certo, quem contra-argumente esta posição, numa perspectiva que, até certo nível, faz sentido o contraste de termos; há quem imponha a diferenciação, quase numa atitude tão dogmática quanto discutível.
      É óbvio que os diferentes significados e acepções de uma palavra não têm o mesmo valor, mantendo-se a posição de que são pouquíssimos os sinónimos directos (se é que os chega a haver) numa língua. E precisamente por isto, encontro aqui mais uma razão suficiente para uma atitude moderada, capaz de integrar o que não possa chocar o comum dos falantes ou associar o que não impeça o sentido último de uma comunicação, seja ela oral seja escrita.
      Sensação e sentimentos já são há muito discutidos, pelo menos há três séculos (se não for há mais). Se no domínio da percepção, a primeira se prende a um processo de captação da realidade física apoiada num ou vários sentidos (pergunto-me, mesmo, por que motivo não se utiliza a expressão ‘sentido físico’ – o que realmente se pretende – para bem do sucesso dos alunos e para a eliminação de algum factor de ambiguidade que os expõe a uma complexidade e objectividade dúbias), resta-me saber se possa, deva ou tenha que ficar apenas com esse entendimento a ponto de considerar derivação inusitada ou extrapolação tudo o que vá no sentido do sentimento. Que sincronização é essa que permite falar na fronteira de uma etapa para outra, numa distinção tão rigorosa?
    Poderia apoiar-me em experiências de vida tão sintomáticas e familiares quanto as de alguém ter a sensação de ‘cócegas’ num membro que já não possui (nem realidade física nem sentido); as de alguém ver e ouvir coisas que não pode ou que o não são (quantas vezes o grito é de imediato associado ao perigo e nada tem a ver com isso); as de se aplicar o termo sensação a uma realidade que não o é (poderá ter sido, quando muito) por ser evocada e /ou pertencer ao plano do ficcional. Ora, aqui cabe o poema de Álvaro de Campos, no qual o sujeito poético diz ver e ouvir algo junto a uma casa que se encontra “defronte de si” e “dos seus sonhos” (conclusão: será que ela existe?).
    Certo ainda é o dado de, físico ou não, a própria sensação não deixar de ser uma construção. Na confluência dos sentidos e da apreensão do real vivido ou do real evocado, é curioso que António Damásio (para me situar num português) fale da sensação somática e de como esta e os sentidos (mais individual ou confluentemente) permitem a criação de imagens. O mesmo cientista define os sentimentos como uma variedade de imagem que produz estados corporais sentidos, mesmo que não conscientes. Na criação da mente e na interacção do corpo e do cérebro, reconhece o estudioso a interconectividade, a intersecção do que designa como “sentimentos primordiais”, ou expressões espontâneas do estado do corpo vivo, que antecedem qualquer outro tipo de sentimentos. Admito que possa estar a ver mal, mas situo aqui as sensações, nomeadamente as de medo, de prazer, de dor, de sofrimento. Qual a fronteira face aos sentimentos? Damásio aponta mesmo a metáfora da “arena do corpo vivo” como a fonte de um conhecimento em que sensações, emoções e sentimentos são processos distinguíveis (e lá vem a concessiva), embora façam parte de um ciclo muito apertado. Tão apertado, digo eu (ousadia a minha), que não justifica penalizar os alunos face a uma fronteira tão ténue, a mesma que o autor assume como uma passagem da percepção ao desencadear da emoção numa interposição de etapas que pode ser muito breve e não consciente.
       Um pequeno excerto de um programa televisivo intitulado "El cerebro, teatro de las emociones" (TVE) dá conta de como o cientista português une o que se tende a dividir:


     Neste sentido, entendo esta questão distintiva das palavras como filosófica: como uma possibilidade de, no seio das várias ciências e numa perspectiva epistemológica, reflectir, discutir, encontrar caminhos para uma estabilização (se é que ela é necessária, neste caso) de conceitos. Por certo não será ao nível do que, neste momento, é o meu campo de interesse: o da avaliação dos alunos de secundário. A minha “guerra”, se assim a posso metaforicamente designar, é a de continuar a não perceber por que motivo, entre tanta coisa a poder ser testada, se consideram minudências que, à partida, servem para declaradamente pôr professores e alunos socialmente em jogo.

    Este é um exemplo de uma teia que talvez um texto teça, na qual muitos alunos e professores ficaram enredados. Tudo tão escusado, não fosse um aranhiço propósito que desencadeia a reflexão seguinte: "A quem irá servir, dar proveito ou privilegiar?" Tenho a sensação de que esta interrogação pode trazer alguma incomodidade (ou será sentimento?!).

domingo, 17 de julho de 2011

Notícias para o povo ler

     Passada a tormenta, a bonança ainda vem longe.
     
    Ao folhear um jornal de há dois dias, retomei um tópico que tem vindo a ser mais do que discutido nos últimos dias: os resultados dos exames.
     Em termos de balanço, lia-se o seguinte num dos artigos noticiosos do dia:


     A cor, vem a questão negra da situação; a preto, e como título principal, nomeia-se a disciplina que nem tem tido os piores resultados nos últimos anos, mas notícia é notícia e, portanto, quando se falha, aí vai logo para primeiro plano o que correu mal; logo abaixo, três conclusões da jornalista, as quais ascendem a uma espécie de subtítulo ou parágrafo destacado.
     Depara-se, então, com o 'alunos... já não sabiam identificar um complemento directo'.
     É verdade que não. Também não o tinham que fazer, porque o que se pretendia era mesmo a identificação de um sujeito sintáctico. E não dos mais imediatos, considerando que o contexto frásico proposto corresponde a uma questão crítica no ensino da gramática.
     Quanto a isto, basta relembrar a instrução:
     
     GRUPO II
     2.2. "Indique a função sintáctica desempenhada pela expressão «a indiferença e a hostilidade» (linha 27)."

     A remissão para o texto implicava um segmento "... até que vinham a indiferença e a hostilidade...", no qual existe um fenómeno de inversão entre o sujeito e o predicado (subordinados). Naturalmente, a função de sujeito seria determinada pela pronominalização admissível ( > vinham elas), pois não seria possível a de complemento directo ( >*vinham-nas), ou pela regra da concordância tipicamente desencadeada pelo sujeito ( > vinha a indiferença).
     Trata-se de um caso de enunciado subordinado com características de um caso de construção inacusativa, ou seja, de uma oração (subordinada) cujo núcleo verbal ou predicador não requer complementação acusativa.
   Curioso é o facto de alguns colegas me terem dito que abordaram estes casos em aula. Interessante é saber que os próprios alunos reconheceram a falha e que haviam trabalhado este cenário, mais os testes que permitiriam identificar a função solicitada.
   O que falha? Muita coisa. Uma delas: a tensão da situação e do imediatismo de resposta (induzida até pela tipologia de resposta curta), que poderia ser contrariada pela solicitação da aplicação de um teste comprovativo; outra, o processamento cognitivo requerido, com um foco de atenção num aspecto crítico algo distinto da percepção automatizada (porque habitual, mais recorrente)  para encontrar um complemento directo na posição pós-verbal - o que se pode revelar algo próximo da irreflexão, da inconsciência e do desconhecimento de que a localização pós-verbal de um segmento não se associa exclusivamente ao complemento directo; uma terceira, a aplicação do teste da questão ('O que é que vinha?'), certa e imediatamente relembrada pelos alunos, mas não exclusiva do complemento directo (pois essa mesma interrogação também corresponde à do sujeito sintáctico não humano).

   Assim o que parecia não o era; os testes de identificação permitiriam fazer as devidas distinções, caso tivessem sido aplicados e reconhecidos como marcantes para um conhecimento mais explícito (e consciente) da língua. Conclusão: "os alunos já não sabiam", porque o caso também não era dos mais simples; porém, disto basta dizer que eram cinco pontos a menos, não a razão plena do insucesso propagado. O caso é bem mais complexo, como o apontei anteriormente.

sábado, 16 de julho de 2011

Por Assis... com Santa Clara e São Francisco

     Podia ser em dedicação aos santos; podia ser uma questão de cortesia, com as senhoras (primeiro).

     Fico-me por saber que hoje foi dia de Santa Clara de Assis, em memória do seu nascimento nos finais do século XII (1194?).
     Há cerca de um ano bem perto estive dela, ou melhor, na sua basílica, em Assis. Trata-se de uma cidade da Úmbria, afamada pelo nome de dois santos: S. Francisco e Santa Clara. Desta última diz-se que seguiu o primeiro, tendo-lhe pedido auxílio para abraçar uma vida de acordo com as Sagradas Escrituras. Reconhecendo nela uma alma destinada às grandes realizações religiosas, Francisco prometeu ajudá-la. Entre os milagres, conta-se o facto de, num Domingo de Ramos, ela não se ter levantado para colher o ramo no altar; foi um bispo que se lhe dirigiu, ofertando-a com o tradicional ramo.
    Num universo e mentalidade medievais, é curioso como a santa mantém actualidade com a tecnologia presente: um ano antes de sua morte em 1253, Santa Clara assistiu à Celebração da Eucaristia sem necessitar de sair do seu leito (daí ser aclamada como protectora da televisão, da comunicação à distância).


     À distância está agora Assis. Só por 'tele' 'visão'.

     Assis é uma boa recordação - a de uma viagem que me levou até Itália e a vários dos seus pontos turísticos e culturais. Uma viagem de vida.

Exames: muitas vozes para... quantas nozes?

     O tema dos exames é a cada ano mais controverso, particularmente quando os resultados ficam aquém do muito trabalho desenvolvido pelos professores junto dos alunos.

    Neste apontamento, não posso deixar de assumir alguma previsibilidade face à média nacional dos resultados de Português (1ª fase) no Ensino Secundário hoje publicitada. Bastou para tanto ter conversado, durante a semana, com alguns profissionais de vários pontos do país e ter chegado a conclusões coincidentes face àquelas que fui construindo enquanto corrector de provas. 
    Entre as coincidências, houve reflexões e discussões que se orientaram para vários níveis de ac(tua)ção:
I - ao nível da elaboração dos exames:
    a) o reconhecimento da insistência numa instrução apoiada na referência a sensações (questão 1 do Grupo I), à semelhança do sucedido há um par de anos numa outra prova de exame, restringindo tal referência a um sentido físico (conforme se configurará em cenário de resposta previsto e sublinhado pelo GAVE, não obstante a consideração de outras possibilidades de resposta sustentadas no que qualquer falante pode encontrar numa entrada de dicionário: também há sensação de movimento, de paz, de tranquilidade, de angústia, apoiada em sentimento - o que, aliás, é palavra-chave para o trabalho poético de um Álvaro de Campos menos sensacionista, mais angustiada e existencialmente dominado pelo sentimento e pela consciência singular e diferenciadora face 'ao outro');
    b) a formulação de uma instrução com um grau de complexidade e abstracção capaz de constituir um interessante desafio para um óptimo leitor, inclusivamente um professor de Português (que precisa de dominar bem algumas considerações teórico-filosóficas para dar resposta à relação solicitada) - mais do que instrução para diferenciação de desempenhos de alunos, a questão 4 do Grupo I é já óptima para distinguir muito professor ou aluno de literatura no ensino superior;
    c) a orientação temática da produção escrita extensa do Grupo III (acerca da literatura), apoiada numa citação que apontava para uma questão precisa acerca da importância e da modelação que aquela permite ao conhecimento humano (ganhar-se-ia mais com uma citação mais genérica, com uma maior sustentação argumentativa nos valores, nos temas, nas apreciações / depreciações das obras que estiveram na base de experiências de leitura ao longo do ano e/ou do ciclo de escolaridade);
II - ao nível da formação (obrigatória) implementada para os docentes que exercem a função de correcção:
   a)  o sentido de rigor e de exigência propagado numa formação que focalizou a necessidade da fiabilidade e acabou por apostar mais em processos e metodologias de trabalho tendencialmente individuais e/ou de moderação à distância (só contrariada por alguns voluntários, cujas necessidades conduziram à constituição de parcerias com "amigos críticos");
   b) o trabalho de aferição de critérios menos apoiado nas provas que são objecto de avaliação / classificação em detrimento do que se faz com experiências anteriores de exames, sempre no confronto do que são propostas de classificação individual, de classificação de grupo, da classificação do professor-corrector, da classificação atribuída pelo GAVE: mantém-se a constatação da disparidade, do que pode ter levado a cotar com X ou Y, do que deve ser evitado (ainda que nem sempre consensual, face a representações diferentes das práticas e dos agentes instituintes relativamente às dos órgãos instituídos);
   c) a consciência de que não há critérios explícitos consistentes na selecção dos professores-correctores indicados pelas escolas, sendo estes chamados a exercer uma função pela qual são responsabilizados, sem qualquer tipo de feedback directo ou imediato face ao trabalho que desenvolvem ou às classificações que atribuem (o que virá a cruzar-se com o nível V das considerações abaixo listadas);
III - ao nível dos critérios facultados para correcção das provas:
   a) a permanência de descritores de desempenho pouco consistentes e esclarecedores para o exercício de classificação, atendendo aos enunciados descritivos formulados;
   b) a tipificação de cenários de resposta, sempre que questionada para poder abranger outros tópicos / outros dados / outros conhecimentos (por vezes relacionáveis e ajustáveis), é dificilmente entendida pelas estruturas de controlo numa atitude de abertura e ajustamento, preterindo-se frequentemente hipóteses que se revelam válidas (por inferências, associações, analogias);
  c) o relevo dado a um conjunto de palavras ou termos-chave cria disparidades frequentemente incompreensíveis, no que diz respeito à lógica de raciocínios utilizada por aqueles que adoptam estratégias de aproximação à resolução;
IV - ao nível da resolução das provas, a reflectir algumas práticas e/ou orientações muito pouco desejáveis:
   a) a constatação de um problema maior que, a não ser subjectivo, evidencia um grande conjunto de respostas de alunos com dificuldades em termos de estruturação discursiva, lógica, coerente e coesa; de extensão frásica; de descodificação de metalinguagem específica ao nível do conhecimento explícito da língua; de regras básicas de pontuação, acentuação e ortografia; de selecção vocabular;  
    b) o desconhecimento claro de níveis de análise distintos em termos da língua e das suas realizações literárias;
   c) o reconhecimento crescente de uma selecção de informações acríticas, listadas em respostas que se revelam desajustadas, sem qualquer tipo de relação ou implicação lógica face ao que é lido no texto e/ou solicitado nas instruções (questões de imediatismo e abordagens redutoras);
   d) a aposta necessária em mais tempo para que se processe o trabalho de pensar, reflectir e logicamente argumentar face a situações que constituam problemas para a aprendizagem dos alunos - os menus, as listas de verificação descontextualizadas, as tarefas simples e avulsas nunca fizeram ninguém aprender (quando muito ajudaram a fazer passar o tempo e a iludir o incauto de que havia uma maneira de se tornar 'chico esperto');
V - ao nível da peritagem de resultados e sua orientação para processos de reclassificação:
  a) a factualidade da classificação múltipla (com reclassificações que apontam para intervalos diferenciais de  seis ou mais valores);
    b) o incumprimento das instruções básicas de correcção (como as que se prendem com a não sinalização de erros, a indicação de cotação não diferenciada em termos de conteúdo, estruturação discursiva, correcção linguística sempre que tal é pedido);
   c) a falha / a falta de profissionalidade evidenciada pelas alíneas anteriores e pela desconsideração total dos critérios de exame - o que só posso ou quero ver enquanto sinal de insatisfação face às condições em que todo este trabalho é exigido a alguns (não a todos) que ganham exactamente o mesmo daqueles que não têm de o fazer - mas não é certamente com as classificações dos alunos que tal se pode evidenciar (ainda que o princípio de não prejudicar ninguém tenha sido seguido como princípio geral e, a priori, de forma bem intencionada).
     Em síntese, os exames estão a tornar-se, cada vez mais, um mal geral; cada vez menos fiáveis e menos legitimadores da real diferenciação entre os desempenhos essenciais dos que aprendem e/ou os dos que sobrevivem num campo de imensas areias movediças ou aranhiças teias.

      Se Camões dizia "Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha", eu acho que alguém (ou muitos alguéns) anda(m) a querer fazer de Perdigão. Pena é que alguns destes tenham de ser os alunos, num momento decisivo das suas vidas. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Alguém como tu...

       Esta é a tradução para o título "Someone like you".

   Cruzei-me com esta interpretação a solo, ao vivo e com os efeitos especiais que só poderiam comprometer e embargar (ainda) mais a voz de quem canta.



       SOMEONE LIKE YOU

 I heard that you're settled down
That you found a girl and you're married now
I heard that your dreams came true
Guess she gave you things I didn't give to you

Old friend
Why are you so shy
It ain't like you to hold back
Or hide from the light

I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn't stay away, I couldn't fight it
I hoped you'd see my face and that you'd be reminded
That for me, it isn't over

Never mind, I'll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
Don't forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in love
But sometimes it hurts instead
Sometimes it lasts in love
But sometimes it hurts instead, yeah

You'd know how the time flies
Only yesterday was the time of our lives
We were born and raised in a summery haze
Bound by the surprise of our glory days

I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn't stay away, I couldn't fight it
I hoped you'd see my face and that you'd be reminded
That for me, it isn't over yet

Never mind, I'll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
Don't forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in love
But sometimes it hurts instead, yeah

Nothing compares, no worries or cares
Regrets and mistakes they're memories made
Who would have known how bitter-sweet this would taste

Never mind, I'll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
Don't forget me, I beg, I remembered you said
Sometimes it lasts in love
But sometimes it hurts instead


     Passou no teste: canção singela, voz acompanhada de emoção, um piano e a presença britânica de um cantora com muito soul e blues, mais um ou outro momento a lembrar 'jazz'. A música não tem fronteiras, definitivamente (é como a língua).

     Letra para uma vida que segue em frente, por mais que o passado faça reviver a dor.

Estado de um país

      No dia em que Portugal entrou na zona do "lixo",...

      Na festa de S. Pedro, em Espinho, a procissão aconteceu e a missa (não campal) areal realizou-se, tendo como altar um barco de pesca.

Barco na areia (Foto - VO)

      Os pormenores do barco são mais do que oportunos: o batel parado, enterrado na areia; a bandeira na proa, ao vento, sem deixar ver o horizonte; e a mensagem final: Fé em Deus.
     O que vale é que certos homens já fizeram ver que o "lixo" português deve ser enviado para um sítio especial.


       
      Espantoso pela criatividade e pelo interesse público a dar à Moody's.

      ... comecei a entender os motivos desta embarcação - eram indícios de fim de semana para uma terça-feira de crise e de ameaça à sobrevivência. Fé nos Homens (e no que façam para reconstruir um país em autênticas areias movediças), os quais podem fazer a diferença (pois há instituições que têm muito que se lhe diga).

segunda-feira, 4 de julho de 2011

No que dá tanta preocupação: sem cara, com careta.

       É um dado comum o mau trato que alguns meios de comunicação social têm vindo a dar à nossa língua.
Rodapé  da SIC
    São muitos os episódios que, em termos de televisão (e pelos quatros canais televisivos generalistas), mostram o mau exemplo de serviço público prestado com a utilização imprópria do Português: do "*acessor" (seria por dar 'acesso' a qualquer coisa ou a alguém?) que devia ser ASSESSOR; das greves que frequentemente não acertam com as "*paralizações" de serviço, quando deviam acarretar PARALISAÇÃO (decorrente do verbo PARALISAR);  dos acidentes que obrigam a "*evacuar" pessoas (o que é terrível, pelo cheiro que deve provocar), quando interessaria que tal se fizesse aos espaços; dos 'h' que indevidamente desaparecem na expressão de duração temporal ('HÁ x tempo') ao 'ás' que, não sendo uma carta de jogar, sempre foi palavra aguda com acento gráfico grave (a marcar a contracção da preposição com o determinante artigo definido feminino: À(S)).
      Ainda que antiga (como se depreende pelo tema noticiado), a informação da imagem efectivamente diz respeito a CONCELHOS. Posso dar o conselho de que estudem melhor as palavras homófonas (que se distinguem graficamente), para que não confundam conselhos (avisos, sugestões) com concelhos (da administração geográfica).
      Nesta semana, estes mesmos canais brindaram-nos com mais do que muitos outros casos, com a mesma gravidade. 
      Um primeiro, a título da tomada de posse do novo governo constitucional, surge quando há uma voz-off em pleno telejornal da RTP, dando conta de que o Sr. Ministro da Segurança Social "*interviu" bastante no parlamento. Resta a felicidade, para o alto representante da nação, de que ele INTERVEIO e, parece, com grande frequência. Também era bom que fosse recorrente o reconhecimento de que este verbo se conjuga tal como o verbo 'vir' (por isso é que eu intervenho, para não dizer que já intervim, com comentários críticos sobre incorrecções que interessa afastar de vez dos olhos e dos ouvidos do comum dos falantes).
    Um segundo, ainda no contexto das acções governativas, ocorre quando se noticia, em rodapé, a necessidade de o Ministério das Finanças ter de actuar "*rápidamente" junto dos credores, para o país sair de uma situação crítica e de aperto financeiro. Aflitivo também é ver um acento onde não deve estar, até porque a sílaba tónica da palavra é a penúltima ([men] - palavra grave). Seria desejável que se revisse, RAPIDAMENTE, as regras gerais de acentuação - nomeadamente a que diz que as palavras graves não são, por norma, graficamente acentuadas. Até porque, a propósito do casamento do príncipe Alberto do Mónaco, ainda ontem se leu na transmissão, em directo, da TVI, que Sua Alteza Sereníssima casou "*católicamente" com Charlene. Como é possível manchar uma cerimónia tão glamorosa?! É difícil saber que os advérbios terminados em '-mente' não têm acento gráfico? Até parece pecado que não se dê CATOLICAMENTE uma resposta penitencial a quem o cometeu (para ver se fica mais... católico no Português).

     Enfim: não sei que diga mais, quando, inclusivamente, há canais que, a pretexto de familiarizar os espectadores com o Acordo Ortográfico, acabam por (supostamente) ensinar o novo e não cuidar da língua no que tem de mais estável. Ironias!

sábado, 2 de julho de 2011

No dia em que morreu a "poeta".

     Para quem diz que o feminino de poeta é "poetisa", houve uma que assim não o quis.

    Sophia de Mello Breyner Andresen assim o assumiu (também Natália Correia assim faria, de forma mais veemente): querer ser poeta, por considerar "poetisa" um sinal de menoridade no feminino. E, perante o estatuto que lhe é reconhecido, a língua passa a comportar-se de forma diferente (quanto mais não seja para esta ilustre escritora): a uma palavra que se formava, no feminino, por derivação sufixal, atribui-se, com Sophia, a possibilidade de 'poeta' ser um nome comum de dois (ou seja, cujo contraste de género se constrói em termos sintácticos, pela anteposição de determinante - o poeta / a poeta).
     Aliás, generalizou-se, de algum modo, o recurso a 'poeta' para designar a condição também feminina de todas as que são autoras ou revelam sentir poético. Até neste domínio Sophia não deixou de marcar a nossa língua, tão recriada, iluminada, espraiada e vitalizada nos versos e na prosa que produziu.

 
    Pelo dia que, há sete anos, a celebrou nessa passagem para um tempo eterno, límpido, liberto das imperfeições dos homens; o tempo em que os deuses participam se não se perderem.

     Caso para dizer que, também por ela, "nunca mais" a língua será a mesma.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Conquista de território

    É costume dizer-se "cada macaco no seu galho".

     Por vezes, o ser vivo varia e outras expressões ganham sentido e oportunidade.
    Em contexto de ser humano, também se diz "A César o que é de César", para que fique bem claro que não se deve usufruir dos bens ou dos direitos que já têm dono.
    Quando a situação implica a relação entre Homem e animal, o caso pode tornar-se crítico - conforme se pode sugerir pela foto à direita.
     A ideia de corrigir uns exames e tomar um café, sentado, numa simples esplanada é dissuasivamente transformada em "Afinal, tomo de pé": não fosse o diabo tecê-las e ainda me levava(m) uma(s) prova(s) no(s) bico(s).


O Ataque das gaivotas 
(ou as gaivotas em terra)
(Foto - VO)


     Há animais que são muito convincentes - particularmente os que andam acima de nós -, quando nos assaltam ainda à mente as imagens de Hitchcock, com o seu "The Birds" (1963).

 
       Com cenas destas, faz sentido o conhecido "Paz e Amor, bicho"!

      Ando demasiado exausto para fazer de herói. E lá fui para outro lugar.