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terça-feira, 10 de junho de 2025

Tempos hodiernos, convocando grandes poetas

      Atos, discursos, história, cultura e mentalidades.

   Vê-se e ouve-se o que, incompreensivelmente, só alguns querem: em Lisboa, impede-se a realização de uma peça, com a agressão a um ator de forma fortuita e irracional; atacam-se barbaramente adeptos de um clube desportivo, após um jogo de hóquei em patins; em vários pontos do país, habitados pelos que nos procuram, verificam-se movimentações contra imigrantes; aumentam, cerca de 30%, denúncias de violência doméstica; cresce a criminalidade violenta provocada por organizações mafiosas; tornam-se mais do que evidentes manifestações progressivas de extremismos políticos e formas de populismo que comprometem a segurança e o equilíbrio social.
     A questão não é apenas nacional. Os exemplos multiplicam-se por países e continentes (na Europa, na América trumpiana, em África, no Oriente).
    Tanta desgraça de indignidade humana, tanto desconcerto do mundo quando mais se pede paz, ética, responsabilidade, segurança... a humanidade e o humanismo que nos fazem ser diferentes.
     No dia de hoje, celebrando-se um poeta, uma língua, a cultura da portugalidade, há todo um discurso que faz a diferença: a tradução de um espírito, de uma mensagem que ilumina o sorriso de muitos e o desconforto de alguns outros. 
    E, assim, se evocam grandes poetas, a sua universalidade e atualidade de pensamento, apesar da passagem e da evolução dos séculos:

"... é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redon-dilhas e vilancetes de Camões como se fossem filmes modernos feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.
    Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico como é em Sôbolos Rios que Vão, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos escritos há quase quinhentos anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender os tempos duros que atravessamos, tão em conformidade com os tempos em que ele próprio viveu.
    Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo, e sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das mil cento e duas oitavas que compõem Os Lusíadas, vinte e duas delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então. Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género. O paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado na criação de um Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que passados cinquenta anos impediam a manutenção desse mesmo império. E nesse campo, pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o Dia de Portugal seja o Dia de Camões, expressa corajosas verdades, dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.
    É bom lembrar que entre os séculos XVI e XVII três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante dezasseis anos, e no entanto os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas. Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos, e entre eles os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias. Sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, e o poder temeroso e o poder laxista.
   No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da História para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral. Mencionava "o vil interesse e sede immiga/ do dinheiro, que a tudo nos obriga", e evocava entre os vários aspectos da degradação o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado o mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer fortuna. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento. Queixava-se da falta de seriedade intelectual que resultava, depois, na prática, na degradação dos actos do dia a dia. Escreve o poeta no final do Canto VIII – "Este deprava às vezes as ciências, /Os juízos cegando e as consciências (…) Este interpreta mais do que sutilmente/Os textos; este faz e desfaz leis; / Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis…"
    Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios em que viveram. Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do Globo Terrestre. Ou, mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a Terra ao pescoço como se fosse um berloque. Os três autores perceberam bem que em dado momento é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência. Escreveu Shakespeare no acto IV do Rei Lear: "É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos."
    Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de la Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido. Por seu lado, Camões, no corpo de Os Lusíadas não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas em resultado dela, a insanidade. O desastre de Alcácer Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do canto X. Era a História, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela Literatura. No entanto, o fim de ciclo que neste caso aqui interessa não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa. Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global.
   Porque nós, agora, somos outros, deslocamo-nos à velocidade dos meteoros, e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam pelo Espaço. Mas alguma coisa desse outro fim de ciclo que se seguiu ao tempo da Renascença malograda relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a Terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque. E os cidadãos? São público que assiste a espectáculos em écrans de bolso. Por alguma razão os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas. É contra isso, e por isso, que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. (...)
    Consta que em pleno século XVII, dez por cento da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido, os portugueses os tinham trazido arrastados. E nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro, a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e de migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizava, filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.
    A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos, nos dias de hoje, um pouco por toda a parte, agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte. A pergunta é esta – Quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos, e os pilares de relação de inteligência homem/máquina entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um ser humano? (...)
     Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.
    Hoje, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?"

     Lídia Jorge, aquando da celebração do 10 de junho (Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas) deste ano, disse o que muitos querem ouvir; outros relativizam ou renegam. Enquanto estes últimos crescentemente se reveem no que a maioria não quer esquecer, os primeiros aceitam uma inevitabilidade histórica e uma razão forte para colher e viver mundo(s), aceitar a miscigenação cultural, integrar os que (re)encontram em Portugal oportunidade(s) para descobrir ou responder à questão "Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme, e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?”

    A reflexão de Camões, no final do canto I de Os Lusíadas (1572), é interrogação intemporal, buscando um sentido de vida humano, humanista, focado na segurança, na humildade, nessa pequenez e fragilidade ansiosas de uma felicidade que só o pensamento (crítico), a consciência e a espiritualidade (podem) trazer.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Já foi a 21, agora dizem que é a 20

     Seja o dia que for, é Dia Mundial da Poesia.

   Ontem, alguém me dizia "Amanhã, temos poema". As palavras, ao som de alguma "diretividade" disfarçada de constatação futurologista, ecoaram na mente como dever a cumprir.
   Hoje deu-me para isto, nuns breves minutos de final de tarde, para descomprimir:

Composição poética com Vivaldi a acompanhar

    Deus me valha, mais a generosidade dos leitores. Já da música, é do melhor barroco para a celebração do dia.

     Perdoai-o, Senhor, que ele não sabe o que faz (com tanto que há para fazer)!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Tempo de palíndromo

       A data é palíndroma: 22-20-2022.

      Do grego 'palíndromos', diz-se que é aquilo que corre em sentido inverso. Num processo de leitura, diz-se que se trata da palavra, do grupo de palavras, do verso ou número que se lê da mesma maneira da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda (ex.: 'sopapos' é um palíndromo, tal como a expressão 'amor a roma').
Imagem mais quiasmática, mas com alguma coisa palíndroma 
  Há exemplos para todos os gostos e alguns bem mais extensos, nomeada-mente no registo do português do Bra-sil: 'Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!'. 
  Desconsiderados, na escrita, os espa-ços, sinais de pon-tuação ou de acen-tuação, bem como outros de natureza gráfica, há palíndromos tematicamente muito variados: os de teor mais desportivo ('Anotaram a data da maratona'), os comestíveis e alimentícios ('ovo'), os culinários ('Eva, asse essa ave!'), os zoológicos ('arara'), os da escrita ('ata', 'Rota de redator'), os mais relacionais social e afetivamente ('ama', 'aia'), os espaciais ('salas', 'A rua Laura', 'A sacada da casa'), os auditivos e universais ('Som, só com o cosmos!'), os temporais ('Adias a data da saída', 'Após a sopa'), os de indumentária ('saias'), os vazios ('oco'), os onomásticos ('Ana'), os pronominais ('ele', 'esse'), os apelativos ('Ajudem Edu já!), os poéticos ('Ame o poema'), os dramáticos ('Amar dá drama'), os mamíferos ('mamam'), os ossados ('osso'), os agressivos ('socos', 'Ódio do doido'), os estéticos ('Ser belo: lebres'), os aniquiladores ('matam'),  os cómicos ('rir', 'Irene ri'), os libertos ('Livre do poder vil'), os tirânicos ('Ana Rita, a tirana'), os abandonados ('sós'), os ilegais ('A Daniela ama a lei? Nada!'), os dependentes ('A gorda ama a droga'), os dermatológicos ('Ele padece da pele'), os vencidos ('A torre da derrota'), os educativos ('Aula é a lua'), os internacionais ('o céu sueco', 'dogma I am god'), os profissionais ('O Cid é médico'), os mais ginastas ('Roda esse corpo, processe a dor!'), os míticos ('O mito é ótimo'), os que voam ('asa') e até os que voltam a ler ('reler') e a viver ('reviver').
   Sator arepo tenet opera rotas é apontado como o palíndromo conhecido mais antigo, redigido em latim ('lavrador diligente conhece a rota do arado') - um enunciado a traduzir uma sabedoria de vida (de quem e para quem lavra, e não só).

    Se aos números palíndromos se atribui popularmente a designação de 'capicua' (do catalão 'cap' <cabeça> e 'cua' <cauda>), hoje estamos numa delas. Tudo uma questão de combinação, do verso e seu inverso. E já, agora, registe-se que não deixamos de ter um ambigrama (com os números a refletirem o seu contrário na leitura vertical ou, como se costuma dizer, 'de pernas para o ar').

sábado, 22 de maio de 2021

Hoje, depois de ontem, com versos de séculos

     Ontem foi o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento; hoje fica a lembrança da celebração.

      A ocorrência do dia celebrado a 21 de maio, segundo proclamação da Assembleia Geral da ONU há dezanove anos (com a "Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural", onde se reconhece esta última como património comum da humanidade), deve repetir-se a cada dia pelo significado que tem para o bem-estar de todos em todos os tempos. 
    Celebrar a diversidade cultural é respeitar e defender valores fundamentais como a liberdade, a democracia, a tolerância, a igualdade, a não discriminação, o respeito pelo estado de direito, os direitos humanos, a solidariedade entre povos, o sentido de paz e de fraternidade harmoniosas.
  Enquanto imperativo ético, no respeito pela dignidade humana e pela aceitação de valores diversos e multiculturais, sublinha-se com esta efeméride a aprendizagem do que é a vivência conjunta, integrada e inclusiva; a luta contra estereótipos culturais, preconceitos e fundamentalismos, num diálogo contínuo enquanto garante de um generalizado desenvolvimento sustentável.
      Assim também o pensou Camões, como o sugere, por exemplo, "Endechas a Bárbara Escrava":

Montagem de imagens e declamação do poema camoniano "Endechas a Bárbara Escrava".

     Uma composição poética contraposta às tendências dominantes dos padrões de beleza num tempo clássico, quando os traços da pele clara e dos cabelos louros se impunham; a singularidade de uma "Pretidão de Amor", de uma negritude que, afinal, não é bárbara (por mais que desta tenha o nome próprio). Assim se marcava a diferença nessa expressão versificatória da corrente tradicional, bem distinta da medida nova (mais superlativizadora do ideal feminino dos "Ondados fios de ouro reluzente"):

Padrões de beleza camoniana bem contrastivos 
("Endechas a Bárbara Escrava" e o soneto "Ondados fios d'ouro reluzente")

    Numa versão musicada por Zeca Afonso e interpretada por Sérgio Godinho, a conhecida trova escrita em redondilha menor progride numa melodia que se vai intensificando na harmonização sonora, sem deixar de sublinhar a excecionalidade da figura retratada.

Interpretação de Sérgio Godinho, para a letra de Camões e a música de Zeca Afonso

     O canto poético quinhentista traduziu um pensamento que se mostra atual, contemporâneo, liberto de preconceitos, feito dessa universalidade revista num "Todos diferentes, todos iguais". Nada melhor para literariamente relembrar o dia que passou.

terça-feira, 31 de março de 2020

E vão passando os dias

       As línguas têm destas coisas associadas aos dias.

      Com a nova rotina dos dias, ao final de mais de uma quinzena, prossegue o tempo da quarenta.
      Na língua inglesa, há já quem conte os dias naquilo que têm de mais indiferenciado:

A indiferenciação dos dias - só com 'day' (by day)

     É todos os dias o mesmo!
    Já na língua portuguesa, excetuam-se o sábado e o domingo. De resto, fica tudo "feira" (sem segunda, nem terça, quarta, quinta ou sexta). Talvez por isso algumas pessoas teimem no passeio e nos encontros, sem distanciamentos.

      Fica a "feira" e perdem-se as horas da oração. Os nossos dias da semana parecem mais divertidos, mesmo em tempos de contenção.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

75 anos depois

      Para futura memória e para que não se repita a história.

     Na sequência do visionamento do documentário "Depois de Auschwitz", na RTP1, há memórias que se recuperam de um passado, o estudado e o vivenciado.
      Saber o que se sucedeu há 75 anos, pelos livros e registos audiovisuais, é descobrir uma forma de recuperar a liberdade e a visão da dignidade humana que, muitos anos antes, ficaram comprometidas, ao serem cometidas atrocidades impensáveis. Os testemunhos do tempo vão sendo revelados, partilhados (e, ainda assim, há quem assuma que o holocausto não existiu) e o espanto revoltado não cessa!
   Visitar Auschwitz e Birkenau, depois de já ter passado pelo campo de concentração de Sachsenaushen, é definitivamente uma outra visão dos sinais dos factos. O último impressiona; o primeiro perturba; o do meio (sem qualquer virtude) faz abominar, odiar quem tenha pensado em tal espaço com propósitos tão execráveis.

Entrada do campo de concentração de Auschwitz ("O trabalho liberta") I - Foto VO

 Entrada do campo de concentração de Auschwitz ("O trabalho liberta") II - Foto VO

 Uma janela para os muros, os postes e as redes eletrificados - Foto VO

  O muro dos fuzilamentos - Foto VO

  Os fornos de um crematório - Foto VO

  As camas de cimento e tábuas rompidas para os sobreviventes - Foto VO

       De Auschwitz, ficou-me a memória de entrada no campo, quando um grupo de judeus cobertos com o seu 'talit' branco, com a estrela azul de David, mais o 'kipá' branco na cabeça, solidéu tradicional, orava em círculo. O respeito deles e o nosso por eles impunham-se. Não foi o único povo a sofrer as atrocidades nazis, mas, na sua diáspora, tem o segundo quartel do século XX como um dos seus períodos mais negros e a Humanidade como espectadora de uma perseguição desmesurada, de um genocídio atroz. 
       Uma nota informativa, para os turistas / visitantes, dá conta de que os primeiros prisioneiros foram polacos; seguiram-se os prisioneiros de guerra soviéticos, os ciganos e inúmeros deportados de outras nacionalidades. A partir de 1942, este tornou-se no local de morte maciça nesse plano nazi de exterminar o povo judeu que se encontrava na Europa. A taxa de mortalidade era tão elevada que a única forma de identificar os corpos era através de um número do campo tatuado no corpo (antebraço, braço, perna ou peito), mesmo quando muitos homens, mulheres e crianças eram praticamente dizimados à chegada, tanto em Auschwitz como nas câmaras de gás de Birkenau. Mortos nas câmaras ou em qualquer ponto do campo, feitos cheiro nauseabundo ou pó nos crematórios, marcados de dor e humilhação insanáveis no corpo e na alma.
      Hoje, o fim chegava - há 75 anos - com o exército vermelho a libertar os prisioneiros que não haviam sido deslocados pelos alemães para o interior da Polónia. Um massacre e um morticínio que deixaram marcas aos que conseguiram sobreviver e assistiram à eliminação de inúmeros. 
     Tudo começou menos de uma década antes (seis anos apenas), com discursos de intolerância, de supremacia de raças, de desprezo por quem interessava tirar do caminho para poder usufruir daquilo que deixavam e que alguém tinha instruções de recuperar (desde os dentes de ouro a tudo o que pudesse ser aproveitado).

     Uma história que não pode ser apagada, pela intolerância que foi, pelo excesso de poder que revelou, pela desumanidade que alguns humanos foram capazes de criar e outros de aceitar ou silenciar. Demasiado pesado para não ser divulgado.

sábado, 25 de abril de 2015

Um feriado sem sabor...

    Assim acontece sempre que o feriado coincide com um fim de semana.

    Por mais importante que o seja (e é-o!), este é o Dia da Liberdade.
   Celebrá-lo a um sábado sabe a pouco: já nos sentimos libertos (pelo menos, todos aqueles que, por norma, gozam o fim de semana ao sábado e ao domingo). Ainda bem que assim é: sentimento tão ajustado à libertação de um fim de uma semana de trabalho como à de um regime democrático conquistado às mãos de um despotismo que se quer passado (infelizmente, e por vezes, com sinais de presente).
    Num dia em que o país se cobriu de cravos, a flor que adornou a arma da revolução, talvez não fosse de esperar que, passado quarenta e um anos, o descrédito e a desilusão se instalassem, perante uma realidade política que não deixa reabrir a caixa de Pandora (esta só existiu para o mal, sem que lhe seja permitida a revisão narrativa, pela tónica da esperança). E, assim, o desânimo vinga, numa data que tudo teve de contrário. Hoje, o "Nevoeiro" pessoano revive-se. 
    25 de abril começa a dizer pouco, não pelo que se conquistou (que deve manter-se válido e exemplo do caminho a seguir), mas pelo que se fez da democracia.
    Por isso, fazem sentido os versos de Maria Teresa Horta, aqui transcritos a partir do que é dado a ler na sua página oficial do Facebook:

VINTE E CINCO DE ABRIL

Este é um poema
com saudade da festa

Dias de vermelho
de damasco e de riso

Das horas de alegria
e de bandeiras, de cravos
rubros postos no vestido

Este é um poema
feito de memória

Da pressa incontida
no passo corrido

De fala crescida
de prisões abertas, de escrita
liberta descobrindo o sentido

Este é um poema recordando
a mudança, da esperança
e do sonho acontecido

Com palavras 
do corpo e de lembrança

Exigindo o futuro
a promessa e o grito

Este é um poema
cantando 
a liberdade

De lágrimas costuradas
suturando o sorriso

Ousando dizer da ambiguidade
da estranheza do novo
misturado ao antigo

Este é um poema
torneando o avesso

Da luz da madrugada
de uma noz de vidro

Do voo das gaivotas
junto à pele das águas
fazendo do Tejo o seu precipício

Este é um poema
de visitar a História

Da revolução 
o ganho
e também o perdido

Da viagem e do mar
da língua portuguesa
onde na paixão me encontro comigo

Maria Teresa Horta, inédito

     De facto, este é o poema que dá a ler o dia que se quer (re)vivido; esta é a poesia que, de mão dada com a História, faz do passado mensagem de futuro, para nos libertar de um presente que mais parece o "avesso" a tornear.

     Lá virá o dia (já esteve mais longe)! Assim haja força, vontade e coragem para a união dos que, em tempo de escolha, saibam novo rumo encontrar (não apenas nos que, na paixão, se encontrem consigo próprios, mas que também ao outro se consigam dar). 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Doze em dose tripla

     O dia fez-se do "doze", inclusive no mês e no ano.

     Tanta coincidência causa alguma estranheza, curiosidade. Há quem veja nisso sinal de qualquer coisa (não sei se boa, se má).
      É um dado que a vida humana se encontra marcada por este número: o calendário anual apresenta doze meses (o gregoriano, por contraste com o juliano, que só tinha dez meses); o povo babilónico estabeleceu a sua base numérica em torno do doze (não do dez, como o nosso sistema numérico atual); doze signos associam-se a doze casas do zodíaco; doze eram os apóstolos, bem como as tribos de Israel; havia doze portas na cidade de Jerusalém; a Bíblia refere o número dos eleitos como sendo 12 vezes 12.000 (cifra representativa da totalidade dos santos).
     Nos arcanos maiores do Tarot, XII é a carta do Enforcado - símbolo da sujeição e servidão. Suspenso pelo pé, a posição antinatural do homem é entendida como provação, malogro em toda e qualquer busca de aquisição material. A única saída parece ser da ordem do espiritual.
    O 12 é, efetivamente, o fecho de um ciclo: fim e evasão fora da matéria; tudo o que foi adquirido de material deve ser abandonado, numa espécie de renúncia forçada, de sacrifício (ofício sacro) pessoal e de desapego capaz de conduzir ao espírito.
      No abandono do material, do físico, a libertação é possível, mas pela ordem do abandono voluntário, do recuo, do castigo que se impõe como saída para uma dimensão distinta.

    Não bastasse tudo isto, diz-se ainda que 21.12.12 vai ser, segundo a civilização maia, a data do fim do mundo - o primeiro não é um doze, mas o seu inverso. 

domingo, 3 de junho de 2012

Por uma boa razão...

     O que faz mover é muitas vezes uma força espiritual, capaz de nos afirmar como humanos (melhores e maiores).

     Assim se constrói a humanidade pelo que de melhor tem.
   A ideia surgida (qual pensamento, sonho ou espírito) materializou-se, sem que o físico (motivado pela vontade) se deixasse vencer. Muitas pessoas, muitas vontades, unidas num só objetivo: a luta por uma causa, pela solidariedade, pela fraternidade para com um ser humano.


     Em Gondomar (terra tantas vezes falada e conhecida - nem sempre pelos bons motivos) há razões para acreditar em sucessos que não precisam de ser traduzidos nem reduzidos a números. E, se o forem, será pelo propósito que faz da união força, ideia, mensagem; luta por uma condição humana melhor, ânimo para uma lutadora que deve saber que há quem nela deposita fé, coragem, vontade, esperança.
     Está aqui um bom motivo para lembrar Gondomar, para agradecer a quem teve a ideia e a concretizou. Nisto, acontecido num tempo e num espaço, não deveria haver datas nem distâncias; se as há, que se saiba que também há quem as consegue contornar com o melhor dos intentos.
   Este apontamento é para elas (as entidades, as pessoas, as caras que deram cara à causa) que muitos dias trabalharam para que a manhã de hoje fosse mais brilhante, independentemente da presença do sol; e, especialmente, para quem à distância de longos quilómetros tem de saber, ver e ter - nesta força viva - a consciência de que "os homens são anjos nascidos sem asas" (e que, por vezes, as sabem construir com o que de melhor têm, para ver e voar mais alto); de que "É portanto a vontade dos homens que segura as estrelas" (no que estas possam abrilhantar, mesmo no que há de mais escuro nesta vida).
    Cumpram-se a vontade e a luta, pelo que de mais educativo e maior compromisso revelam num projeto que teve o maior dos sucessos e se quer repetido a quem foi destinado.

    Uma boa causa para ser notícia, reportagem, crónica de qualquer meio de comunicação social. Contudo, se não o for, fica esta nota para um acontecimento feito de afetos, de realização e cumprimento, de reconhecimento, de satisfação pelo conseguido - prémios tão imateriais quanto a ideia que lhes esteve/está na origem. O resto será o tempo a dizer...

domingo, 25 de dezembro de 2011

Mais um Natal

     Todos os anos, a 24 de dezembro celebra-se a passagem para o dia de Natal.

      Entre o tempo celebrado e o que se anuncia, há a crise, a humildade e o espírito da novidade.
   No calendário antigo, estaríamos em Fevereiro, mês da febre, do frio e da morte. Motiva-se a necessidade da mudança e a vontade movida pela esperança.


       A todos os leitores da Carruagem 23, que este seja o tempo para nascer algum sinal da ansiada esperança.

       Boas festas a todos e a todas, sem qualquer greve anunciada nestes "caminhos de ferro".

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Quando doze foi dez

     Está dezembro a terminar, o décimo segundo mês deste calendário gregoriano com o qual temos convivido desde que esta forma de organizar o tempo nasceu.

    Etimologicamente, tudo se prende com 'dĕcem' e 'decĕmber', o décimo mês do antigo calendário romano (segundo dizem, conforme o estabelecido por Rómulo, aquando da criação de Roma).
    Júlio César ainda viveu março como o primeiro mês do ano, concluindo-se este último com 'Januarius' e 'Februarius'. Ao introduzir-se os meses 'Unodecembris' e 'Duodecembris' no final do ano 46 a.C., arrastaram-se os outros dois para o início de 45 a.C., pelo que março se tornou o terceiro (afastando-se, assim, do inverno e encetando-se a prática da celebração das festas romanas na estação mais florida: a da marcação do equinócio).
    Com o Papa Gregório XIII, o calendário juliano sofreu as últimas mudanças: vulgarizou-se a tradição de iniciar o ano a 1 de janeiro; reduziu-se o calendário / ano anterior em dez dias; corrigiu-se a medição do ano solar (365, 2425 dias solares), com um ano bissexto de quatro em quatro anos.
    Viveu-se, assim, o final do etimológico 'dez', que se tornou doze.
   Em véspera de passsagem, fica ainda o registo da designação dos meses, a revelar tradições de variada espécie:
. Janeiro - de Jano (deus romano das portas, das passagens, dos inícios e dos fins);
. Fevereiro - de Februus (deus etrusco da morte, relacionado com a palavra 'febre'; o "mês da purificação", para os latinos, que chegou a fechar o calendário antigo);
. Março - de Marte (deus romano da guerra);
. Abril - de 'Aprilis' (associado a 'abrir', numa referência à germinação das culturas, além da relação / sugestão com 'Aprus', o nome etrusco para Vénus: deusa do amor e da paixão);
. Maio - de Maia Maiestas (deusa romana);
. Junho - de Juno (deusa romana, esposa do deus Júpiter);
. Julho - de Júlio César (ditador romano, que alterou o anteriormente chamado 'Quintilis', o quinto mês do calendário de Rómulo);
. Agosto - de Augusto (primeiro imperador romano, que mudou o anteriormente chamado 'Sextilis', o sexto mês do calendário romano antigo);
. Setembro - de 'septem' ("sete" em latim; o sétimo mês do calendário de Rómulo);
. Outubro - de 'ōcto' ("oito" em latim; o originário oitavo mês);
. Novembro - de 'nŏvem' ("nove" em latim; o nono mês);
. Dezembro - de 'dĕcem' ("dez" em latim; o décimo mês).

    Imagino-me nos tempos de Rómulo: amanhã a deixar a 'febre' para entrar em mês marcial (é verdade: o actual janeiro manteve-se mais como tempo de guerra, em vez da simples porta ou da passagem).

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

E assim se chega a mais um Natal

     Na pressa do tempo, fiz nascer um postal doméstico...

     Com um presépio que vai ganhando novas formas a cada ano, as figuras mantêm-se, na esperança de que o novo não deixe de preservar o que ainda nos une a um espírito fraterno e as memórias que dão cor à nossa existência, ao nosso ser.



A lua e as estrelas dão luz à noite;
Maria deu à luz um santo menino;

O Homem mundano, para que se afoite,
Pede a Deus, grande; lá esquece o pequenino.
E, entre as palhas, o musgo e o curral,
Dá-se a beleza que ilumina o Natal.



Presépio doméstico - III
(Dezembro, 2010)
VO

Que este seja o tempo de dar e receber,
na redescoberta das pequenas coisas
que (também) fazem os momentos grandes.

    
    
  A todos os que vão viajando "nesta carruagem", os votos de um santo e feliz Natal.