sábado, 25 de abril de 2015

Um feriado sem sabor...

    Assim acontece sempre que o feriado coincide com um fim de semana.

    Por mais importante que o seja (e é-o!), este é o Dia da Liberdade.
   Celebrá-lo a um sábado sabe a pouco: já nos sentimos libertos (pelo menos, todos aqueles que, por norma, gozam o fim de semana ao sábado e ao domingo). Ainda bem que assim é: sentimento tão ajustado à libertação de um fim de uma semana de trabalho como à de um regime democrático conquistado às mãos de um despotismo que se quer passado (infelizmente, e por vezes, com sinais de presente).
    Num dia em que o país se cobriu de cravos, a flor que adornou a arma da revolução, talvez não fosse de esperar que, passado quarenta e um anos, o descrédito e a desilusão se instalassem, perante uma realidade política que não deixa reabrir a caixa de Pandora (esta só existiu para o mal, sem que lhe seja permitida a revisão narrativa, pela tónica da esperança). E, assim, o desânimo vinga, numa data que tudo teve de contrário. Hoje, o "Nevoeiro" pessoano revive-se. 
    25 de abril começa a dizer pouco, não pelo que se conquistou (que deve manter-se válido e exemplo do caminho a seguir), mas pelo que se fez da democracia.
    Por isso, fazem sentido os versos de Maria Teresa Horta, aqui transcritos a partir do que é dado a ler na sua página oficial do Facebook:

VINTE E CINCO DE ABRIL

Este é um poema
com saudade da festa

Dias de vermelho
de damasco e de riso

Das horas de alegria
e de bandeiras, de cravos
rubros postos no vestido

Este é um poema
feito de memória

Da pressa incontida
no passo corrido

De fala crescida
de prisões abertas, de escrita
liberta descobrindo o sentido

Este é um poema recordando
a mudança, da esperança
e do sonho acontecido

Com palavras 
do corpo e de lembrança

Exigindo o futuro
a promessa e o grito

Este é um poema
cantando 
a liberdade

De lágrimas costuradas
suturando o sorriso

Ousando dizer da ambiguidade
da estranheza do novo
misturado ao antigo

Este é um poema
torneando o avesso

Da luz da madrugada
de uma noz de vidro

Do voo das gaivotas
junto à pele das águas
fazendo do Tejo o seu precipício

Este é um poema
de visitar a História

Da revolução 
o ganho
e também o perdido

Da viagem e do mar
da língua portuguesa
onde na paixão me encontro comigo

Maria Teresa Horta, inédito

     De facto, este é o poema que dá a ler o dia que se quer (re)vivido; esta é a poesia que, de mão dada com a História, faz do passado mensagem de futuro, para nos libertar de um presente que mais parece o "avesso" a tornear.

     Lá virá o dia (já esteve mais longe). Assim haja força, vontade e coragem para a união dos que, em tempo de escolha, saibam novo rumo encontrar (não apenas nos que, na paixão, se encontrem consigo próprios, mas que também ao outro se consigam dar). 

Sem comentários:

Enviar um comentário