quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Questões do outro lado do oceano (VIII)

     Para novo comentário com pergunta, nova resposta.

     Mais um caso de uma frase encarada como estranha.

     Q: Em "Quem estiver ouvindo, por favor, o diretor quer falar", um professor chama a atenção da turma. Qual é a classificação sintática da oração destacada?

       R: A oração destacada funciona como um vocativo.
      Trata-se de um chamamento, marcado por uma vírgula que assinala a separação desse segmento face à oração principal ('O diretor quer falar'), ambos mediados por uma expressão de cortesia ('por favor').
        O vocativo em questão aparece configurado sob a forma de uma oração finita, com uma construção relativa sem antecedente. No fundo, o enunciador dirige-se a alguém que obedeça à condição proposta no chamamento (alguém que esteja a ouvir), no sentido de pedir atenção para o diretor (que quer falar).

       Concluo com vocativo análogo: quem tiver dúvidas, por favor, apresente-mas. Será sempre uma boa oportunidade para pensar sobre a língua (tanto para quem as coloca como para mim, que as procuro abordar).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Mestre e pupilo em relação crítica

      Balanço do filme "Um método perigoso"?

      É um deles, atendendo ao facto de a relação de Sigmund Freud (Viggo Mortensen) e Carl Jung (Michael Fassbender) ter sido apresentada como tendo degenerado de uma parceria para uma relação de antagonismo, tanto pelas considerações científicas como pela visão das relações mais íntimas. 
     Para tal muito contribuem dois pacientes: um masculino, Otto (Vincent Cassel), e uma feminina, Sabina Spielrein (Keira Knightley). Esta última, uma jovem russa diagnosticada com comportamentos psicóticos e histéricos, é internada no Hospital Psiquiátrico de Burgholzli e tratada por Jung segundo o método psicanalítico. Mrs Spielrein evolui de forma evidente, torna-se amante de Jung; posteriormente, colega e confidente de Freud; por fim, uma psicanalista de renome.

     
    De paciente a par dos médicos que a trataram, esta foi para mim a personagem marcante, nomeadamente na problematização e no compromisso entre uma visão mais convencional (apoiada numa abordagem conflitual e traumática - Freud) e a mais inconformada / holística (recetiva aos impulsos conjugados com uma dimensão espiritual - Jung) do método. 
     De resto, pouco mais há a dizer para um filme que pretende abordar duas das figuras cimeiras do estudo da mente e se reduz a um tratamento muito genérico da questão, apoiado em querelas mestre / pupilo ou nos valores da fidelidade / infidelidade a princípios e valores sociais.

    A película foi realizada por David Cronenberg, apresenta-se como um filme de época e conta com a interpretação forte de Keira Knightley.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Explicações em rede...

    Quanto não vale estas tecnologias serem aplicadas ao ensino...

    É o que se me figura pensar quando os alunos também aqui colocam questões (isto torna-se uma concorrência virtual - espero, virtuosa, também) aos centros de explicações).

    Q.: Professor, tenho uma dúvida. Li num filme 'Aonde' e fiquei confuso. Afinal é 'Onde' ou 'Aonde'?

    R.: Tudo depende da frase em que leste 'Aonde'. Estará correto, se a expressão de lugar associada depender de um verbo que seleciona a preposição 'a'. Por exemplo: 'chegar A um destino' (> Aonde chegar?), 'ir A um lugar' (> Aonde ir?), 'regressar A um local' (> Aonde regressar?), 'voltar A um sítio' (> Aonde voltar?), 'levar A um ponto' (> Aonde levar?), entre outros. Para questionares o local / sítio / lugar mencionados nos exemplos, poderás utilizar o advérbio interrogativo contraído com a preposição 'a' (Aonde).
        Já no caso de verbos que não requerem esta preposição, o interrogativo para lugar será 'onde': comer num sítio (> onde comer?), comprar num sítio (> onde comprar?), fazer num sítio (> onde fazer?), estar num sítio (> onde estar?), ficar num sítio (> onde ficar?).

      Espero ter sido esclarecedor, na indicação de que ambos os interrogativos são admissíveis, dependendo do verbo utilizado na frase lida no filme.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Canção de Natal

    Em pleno dia natalício, nada como ter uma canção apropriada.

  Alusiva à festividade, por certo, e com a esperança de que as "luzes" surjam por razões bem mais interessantes - no mínimo, as que permitem ouvir Coldplay.

   
CHRISTMAS LIGHTS

Christmas night, another fight
Tears, we cried a flood
Got all kinds of poison in
Of poison in my blood

I took my feet to Oxford Street
Trying to right a wrong
Just walk away, those windows say
But I can't believe she's gone

When you're still waiting for the snow to fall
Doesn't really feel like Christmas at all

Up above, candles on air flicker
Oh, they flicker and they float
And I'm up here holdin' on
To all those chandeliers of hope

Like some drunken Elvis singin'
I go singin' out of tune
Sayin' how I always loved you, darlin'
And I always will

Oh, when you're still waiting for the snow to fall
It doesn't really feel like Christmas at all
Still waiting for the snow to fall
It doesn't really feel like Christmas at all

Those Christmas lights light up the street
Down where the sea and city meet
May all your troubles soon be gone
Oh, Christmas lights, keep shinin' on

Those Christmas lights light up the street
Maybe they'll bring her back to me
And then all my troubles will be gone
Oh, Christmas lights, keep shinin' on

Oh, Christmas lights, light up the street
Light up the fireworks in me
May all your troubles soon be gone
Those Christmas lights keep shinin' on


    Não é simples canção de natal.
    É desejo de uma nova "luz", que se quer nascida (para quebrar as ruas da amargura) e festejada (como a entendo!)

    Como não desejá-la, "nos candelabros da esperança"!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Mais um Natal

     Todos os anos, a 24 de dezembro celebra-se a passagem para o dia de Natal.

      Entre o tempo celebrado e o que se anuncia, há a crise, a humildade e o espírito da novidade.
   No calendário antigo, estaríamos em Fevereiro, mês da febre, do frio e da morte. Motiva-se a necessidade da mudança e a vontade movida pela esperança.


       A todos os leitores da Carruagem 23, que este seja o tempo para nascer algum sinal da ansiada esperança.

       Boas festas a todos e a todas, sem qualquer greve anunciada nestes "caminhos de ferro".

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Onde eu gostaria de estar...

        Não se trata apenas do título da canção.

     Do grupo à melodia, do espaço sugerido ao desejado, do presente ao futuro vai o intervalo da motivação. Encontro marcado com Chris Martin, Jonny Buckland, Guy Berryman e Will Champion.


      Que esta seja uma das muitas composições a encher o Dragão. Caso contrário, muitos outros motivos melódicos podem preencher "este filho da nação", tão desejoso de, por breves momentos que seja, se libertar do inferno que o persegue. 
       Os Coldplay têm imensos motivos desses para oferecer.

      Dia 18 de Maio pode vir a ser um dos momentos memoráveis, para relembrar o paraíso ... em 2012.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Cesária Évora... com 'sodade'

     Uma palavra que tanto cantou fica na memória de quem a escutou.

    'Sodade' é o sentimento e o hino para uma voz que se silenciou, aos setenta anos, na sua fonte mais genuína e autêntica: a da pessoa que fez projetar Cabo Verde para o mundo.
   Depois de um dueto com uma voz do Brasil, fica o registo deste outro divulgado há cerca de quatro anos, com mais uma voz desta feita portuguesa...
     ... Portuguesa como a língua que une todos os que a cantam, nas suas múltiplas variedades.

        
     SODADE

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra São Nicolau

Si bô 'screvê' me
'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me
'M ta 'squecê be
Até dia
Qui bô voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra São Nicolau


     Com a perda física de Cesária, o português perde também uma das maiores representantes do género musical da morna, aquele que a tornou La Diva aux Pieds Nus, embaixadora musical desse arquipélago atlântico ao Senegal encostado.

     Um dia para prantear, ao jeito de uma morna, a familiar 'Cize' (Cesária Évora), que pisou vários palcos do mundo sempre na ânsia de regresso ao seu Mindelo (de S. Vicente).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Caminho, caminhar, caminhando

    Dia após dia, o tempo vai somando e passando.

    Não há tempo para nada e nem sei se o quero. Por isso, iludo-me no caminhar.

Caminho...
num passeio de pensamentos
e na companhia da solidão.

Ouço...
o rumor do mar,
o espraiar das ondas na areia,
recuando após tanta conquista.

Sob um teto de escuridão,
há focos de luz desvelando sombras,
pessoas andando a passo largo no caminho.

Vou de encontro a elas,
sombra sem orientação,
cansando-me num percurso
e tendo ninguém a quem dar a mão.

Sou direita sem esquerda
ou esquerda sem direito a par.
Sou um só, finito,
sem vontade de contar...
Nem números, nem passos, nem história.
Um ser a não querer ser.

Caminho...
num passeio de pensamentos
de mão dada, mas com a solidão.

     Apanho com a nevoaça do mar na cara sem acompanhar ninguém.

     Um chuvisco que não vem do céu distrai-me do meu pesado pensar.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Um cortejo polémico

    A propósito de um cortejo no Porto e das reportagens feitas, lá vem o problema clássico: qual o plural de Pai Natal?

     As versões são variadas: Pais Natal, Pai Natais, Pais Natais. Questão para perguntar no que ficamos.
    A formação do plural dos nomes compostos foi sempre um ponto crítico da gramática. Não raro, gramáticas diferentes apontam para cenários distintos num mesmo caso. 
    Entre a sistematicidade de algumas regras ao nível da flexão e as orientações reconhecidas ao nível do uso, o contraste de número nos nomes compostos não escapa ainda ao processo de lexicalização a que algumas palavras foram já votadas.
    No caso de Pai Natal, uma regra da gramática tradicional aponta para uma construção do tipo 'Nome + Nome / Adjetivo', a qual é usualmente marcada com plural em ambos os termos da composição.
    Há, contudo, algumas excepções a esta regra, nomeadamente nos casos em que o primeiro termo é assumido como um hipónimo do que é perspetivado como termo nuclear (ex.: peixe-espada é um tipo de peixe; bolo-rei é um tipo de bolo; bomba-relógio é um tipo de bomba; uma notícia-bomba é um tipo de notícia). Assim, nestes últimos casos é o termo sublinhado que marca o contraste de número (> peixes-espada, bolos-rei, bombas-relógio, notícias-bomba). Daí dizer-se que se trata de nomes compostos com subordinação, quanto à natureza sintagmática, para abordar na chamada composição morfossintática (segundo o Dicionário Terminológico).

     E, assim, o dia de hoje foi dominado pelos pais natais que, no Porto, foram muitos, tendo em vista o objectivo de bater o record do guiness. Muitos até podiam ser pais; outros eram mães; outros ainda seriam mesmo filhos. Conclusão: o Pai Natal não é um tipo de pai. Quando houver mais do que um, saúdem-se os Pais Natais.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Questões do outro lado do oceano (VII)

    Regresso a outra questão vinda do outro lado do Atlântico.

    Na sequência de um apontamento anterior e do comentário aí formulado, surge o presente tomado como uma das questões estranhas na análise de língua.

Q: Em "Amemo-nos uns aos outros", qual é a classificação morfossintática de 'uns aos outros'?

R: A construção pronominal 'Amemo-nos' é um exemplo que configura a presença de um pronome pessoal recíproco ('nos'), também designado como clítico, parafraseável e/ou passível da expansão 'uns aos outros'. Neste último caso, está-se perante o que designado como construção de redobro, pelo que 'nos' e 'uns aos outros' assinalam a mesma posição argumental.
    Assim, a expressão - formada por um pronome indefinido e um nome (por conversão) mediados por uma contração da preposição 'a' com o determinante 'os' - apresenta a mesma função sintática de 'nos'. Tomado como argumento de um verbo transitivo directo [ > Alguém AMA alguém], 'nos' marca a presença do complemento direto, o qual surge, portanto, redobrado na frase sob a forma 'uns aos outros'.
    Isto mesmo pode ser concluído na leitura da Gramática da Língua Portuguesa, coordenada pela Professora Mira Mateus (no capítulo da tipologia e distribuição das expressões nominais - págs. 835 e seguintes) e publicada pela editora Caminho, que referencio para um estudo mais aprofundado da questão.

      Um verdadeiro caso complexo de análise, sem dúvida.
     

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Em busca da luz

     Foi ao passear pelo blogue 'Mariana' que reparei numa foto.

     Mais do que a foto, o título: Em busca da luz (mesmo a condizer comigo).
     Sentei-me, escrevi, reescrevi e ficou.

EM BUSCA DA LUZ

Onde está ela?
Quero sair da escuridão.
Pudera vê-la!

Acendo uma vela,
mas um sopro frio (maldição!)
apaga a emoção quente de uma tela
que tive pintada com cor de gala.
Era vida... uma sensação
tão boa e para muitos bela.

Em busca da luz...,
à procura dela...

O vento veio...

Afastou-me dela.
Fica a minha cruz:
sair da escuridão,
sem ter guia ou estrela.

Onde está ela?
Talvez não esteja de feição...
Percorro a distância...


Sou mar em praia:
depois da rebentação,
feita a aproximação,
desapareço na areia,
perco a orientação.

Onde está ela?
Apagou-se.
É noite.

A longa noite dos dias.

    Este é o rumo dos meus dias, entre percursos obrigatórios, outros sem sentido e outros ainda sem necessidade.
      De vez em quando, há um raiar tão momentâneo, tão fugaz, tão incompleto...

      E assim vou cumprindo a passagem do tempo, a cada dia acordado na busca da luz.

Será para ficar?!

     A pergunta impõe-se perante o contexto de redefinição de feriados. 

     O feriado da Imaculada Conceição (para muitos ainda o feriado tradicionalmente associado ao dia da mãe) parece que não está em perigo de se perder, contrariamente ao que tende a ser o futuro do 1 de Dezembro.
     Ainda que a situação não esteja estabilizada e a Igreja tenha de se pronunciar definitivamente quanto aos feriados de índole religiosa a cessar, tudo parece apontar que estes últimos sejam os do Corpo de Deus (em Junho) e os de Assunção de Maria (15 de Agosto).
      Talvez fique o da Imaculada Conceição, pensando-se que na base da existência de Portugal está a padroeira do país.
    Não sendo tal a acontecer, seria melhor reescrever a História: em vez de D. Afonso Henriques, na batalha de Ourique se "encomendar a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre" (capítulo XV da "Chronica do muito alto, e muito esclarecido principe D. Affonso Hemriques Primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvaõ - 1505), seria bom encontrar outro santo que pudesse ter aparecido ao monarca, para nos reservar o milagre de viver um feriado. 
    Em Portugal, o culto da padroeira foi instituído por D. João IV (filho de D. Teodósio e D. Ana Velasco), primeiro rei da dinastia da Casa de Bragança (a quarta). O monarca, perante a imagem de Nossa Senhora da Conceição, ofereceu Portugal à Mãe Imaculada de Jesus; depôs a coroa real aos pés da Rainha do Céu, que, doravante, seria também a Rainha de Portugal.
      Desde aí, os sucessores reais nunca mais usaram a coroa real, na cabeça.

     Se não for o estatuto de padroeira e fazer vingar um dia de descanso, que venha outro santo qualquer livrar-nos da canseira desta vida de trabalho, que já está a deixar-nos mais de rasto do que qualquer outra crise mais do que anunciada.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Polissemias...

     Mais um exemplo gramatical na BD da Mafalda.

   Já foram aqui utilizados alguns exemplos de como a banda desenhada reflete dados linguísticos de interesse.
     O próximo parece-me demasiado atual, em termos do contexto crítico que todos vivemos:


     Pela zona comum de significado, numa proximidade semântica que deixa antever uma origem etimológica igual, a designação do dedo e o dado informativo que serve de indicação, guia ou roteiro são um caso a considerar na abordagem da polissemia.
     O mesmo vale para o domínio químico, no qual também se utilizam indicadores (substâncias utilizadas para conhecer a natureza de um elemento quanto ao seu carácter de ácido-base ou de óxido-redutor).
     
       Diria, em síntese, que há indicadores tão ácidos que mais parecem indicaDORES.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Para quem quer saber notas

     A ansiedade dos alunos é grande.

     Os resultados de testes são sempre motivo de expectativa para alguns; para outros, nem por isso. É pelos primeiros que surgem estes versos.


SÓ UMA PISTA

Por antecipação,
o sofrimento ou a celebração
não!
Em ambos se perde a razão.
No primeiro, fica sufocada a emoção;
na segunda, vive-se a pura ilusão.

No final, resta a sensação
de que está longe a conclusão:
afinal, correu bem ou não?

Nada como ter os pés no chão.


     Houve quem ficasse desarmado com a tentativa de querer (só) saber uma pista.

     Poderei chamar a isto efeitos poéticos? Sempre seria a natureza perlocutória da poesia (se tais versos pudessem ter tal nome).

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Pode não vir bom vento, mas é possível um belo casamento

    É o que se pode dizer, face ao tradicional pensamento de que de Espanha nem bom vento nem bom casamento.

     Um espanhol (já conhecido e mencionado neste blogue) e uma lusa percorrem ruas e espaços lisboetas...
     Duas guitarras, entre elas a portuguesa.
     Uma melodia a duas vozes: as de Pablo Alborán e de Carminho.

 
    O trinado das vozes combina-se, numa proximidade ao fado português e a uma balada com toque de "salero" e "flamenco" (outro dos patrimónios imateriais da humanidade), que tomam o "perdão" como uma só palavra à espera da consequência.

       PERDÓNAME


Si alguna vez preguntas el por que
No sabré decirte la razón
Yo no la sé
Por eso y más
Perdóname

Ni una sola palabra más
No más besos al alba
Ni una sola caricia habrá
Esto se acaba aquí
No hay manera ni forma
De decir que sí


Si alguna vez
Creíste que por ti
O por tu culpa me marché
No fuiste tú
Por eso y más
Perdóname

Si alguna vez te hice sonreír
Creístes poco a poco en mi
Fui yo lo sé
Por eso y más
Perdóname


Ni una sola palabra más
No mas besos al alba
Ni una sola caricia habrá
Esto se acaba aquí
No hay manera ni forma
De decir que sí

Siento volverte loca
Darte el veneno de mi boca
Siento tener que irme así
Sin decirte adiós


Perdóname.

     Quase se diria um perdão conjunto, pelo afastamento histórico, mas com um olhar voltado para o horizonte de uma Ibéria que tem mais de proximidade nas diferenças do que separação.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Fácil?! Só por ilusão.

      Quando se vive o que não se quer, há que encontrar estratégias de sobrevivência.

     Sem balada, fado ou tango, fico-me por uma canção cheia de um "soul", de um "rythm and blues" já cantados por Ivete Sangalo, Lionel Richie ou os originais Commodors.
      Fácil como uma manhã de domingo, diz a letra.


   
      Por ora, não vejo como nem porquê. As manhãs de domingo só são fáceis na ilusão. Esta, pelo menos, não é diferente das dos últimos tempos. Daí me parecer mais certo dizer "That's why I am not easy, not easy like this sunday morning". Porém, não há nada como contrariar o real. Estratégia: a ilusão.

           EASY

Know it sounds funny
But I just can't stand the pain
Girl I'm leaving you tomorrow
Seems to me girl you know
I've done all I can
You see I beg, stole and I borrowed
Yeah!

That's why I'm easy
Oh, oh, oh, oh
I'm easy like Sunday morning
Oh, oh, oh, oh
It's why I'm easy
Oh, oh, oh, oh
Easy like Sunday morning


I wanna be high, so high
I wanna be free
To know the things I do are right
I wanna be free
Just me, oh, babe!


That's why I'm easy
Oh, oh, oh, oh
I'm easy like a Sunday morning
Oh, oh, oh, oh
It's why I'm easy
Oh, oh, oh, oh
Easy like Sunday morning


    Gosto do ritmo, da interpretação de Mike Patton, do solo de guitarra. A melodia traz um toque de animação, ainda que numa letra composta pela ideia de separação.

   Fico-me pela animação como estratégia de sobrevivência, porque, de resto, estou mais pela mensagem da designação do grupo: "faith no more".

sábado, 3 de dezembro de 2011

Que mal fiz eu a Deus para ler isto?!

    Depois do apontamento de ontem, o de hoje ainda mais é de bradar aos céus.

    Decididamente, as empresas, nos seus gabinetes de imagem e marketing, têm de colocar alguém que cuide da imagem da língua.
    Vai um homem comprar um eletrodoméstico, lê as instruções, os requisitos de segurança e o que encontra? Uma pérola das melhores na língua portuguesa:


    Uma regra básica de concordância. Tão básica, tão básica que não devia escapar.
    É por esta e por outras que passo a ler em inglês, francês ou italiano.
    Depois venham dizer-me que é preciso comprar português. Eu até queria, mas com realizações destas até me apetece comprar estrangeiro. 
     Não há imagem nem produto nacional que sobreviva.

    Caso para dizer que isto já é perseguição ou os meus olhos andam a ver de mais.
  

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma proposta para o combate ao desemprego

    Começa a ser algo cansativo tropeçarmos no erro, em tudo quanto é sítio.

    Ele é nas montras, nas estátuas, na publicidade, na televisão, no cinema...
    Cá vai mais um:


    A maior idiotice está em quem não sabe falar ou em quem escreveu a legenda. Toda a gente sabe que o verbo 'gostar' seleciona a preposição 'de', mesmo nas variedades não europeias do Português (isto para não ter de falar sobre 'ter' quando é preferível 'haver').

     Não seria de colocar linguistas em gabinetes de apoio ao bom uso da língua, tão projetada em meios de comunicação de massa? Era mais um erro escusado (como o são todos eles, aliás).
     Obrigado, VS.

Entre funções e disfunções, lá vem a sintaxe

    A propósito de um esclarecimento apresentado anteriormente, veio mais uma questão com resposta afim.

    Q: Na frase "Olha, pai, o que eu quero é ter uma vida boa", "Ter uma vida boa" não é predicativo, pois não?
     É CD, pois aquele "é" é enfático, não é?

    R: O segmento "O que eu quero é ter uma vida boa" apresenta uma configuração semelhante ao esquema proposto no apontamento do passado dia 29 de novembro.
     Para o sujeito sintático 'O que eu quero' (identificável com o termo X do esquema) há um predicado 'é ter uma vida boa' (o qual é constituído por um verbo copulativo, seguido do predicativo do sujeito: 'ter uma vida boa', o termo Y do esquema).
     'Ter uma vida boa' seria um complemento direto (CD) no caso de existir uma frase matriz apoiada num verbo transitivo direto enquanto elemento subordinante. Se a frase fosse 'Quero ter uma vida boa', então, sim, surgiria tal função sintática, conforme se prova  pelo teste da questão e da pronominalização: O que é que eu quero? > Ter uma vida boa / Quero isso.

     Creio que a questão formulada no final ainda se orientava para o reconhecimento de uma estrutura clivada, do tipo 'é que', mas (também) não se trata desse caso.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um feriado que se foi para o resto das nossas vidas

      Para que se não pense que o feriado é por causa do Dia Mundial da Sida, fica o registo para este dia que vai ser o último (apesar de ser o primeiro do mês) com o estatuto de feriado.

      Dia 1 de dezembro passa a ser dia de trabalho.
     Diz-se que deu muito trabalho quando, em 1640, os "conjurados" (tal como se designou um grupo de conspiradores nacionais que reagiu contra o domínio da coroa castelhana sobre Portugal, o que já durava desde 1580) restauraram a independência portuguesa, lançando, pela janela do Paço da Ribeira, Miguel de Vasconcelos - o secretário da duquesa de Mântua, Margarida de Sabóia, vice-rainha de Portugal em nome de Filipe IV de Espanha.
     D. João IV, o Restaurador, é aclamado rei. A casa dos duques de Bragança ascende ao trono português, mas, desde aí, a entronização nunca deu lugar à colocação da coroa portuguesa nas cabeças reais. Diz-se que esta se encontra em Mafra, no palácio real, visível aos olhares dos visitantes (era bom, era,... não fosse o exemplar feito do melhor latão dourado!).
    É certo que não há imagens reais oficiais dos monarcas da quarta dinastia com tal símbolo monárquico na cabeça, mas despromoverem a data a ponto de não ser feriado é caso para dizer (qual abade Remédios) "Não havia necessidade!"
     Habituemo-nos. 
    Parece que a data não é importante para os portugueses - talvez ainda seja para os monárquicos; mas, em regime republicano, o combate à crise torna-se prioritário e motiva a queda de algumas datas importantes (pelos vistos, nem a da República escapa). 
     Além disso, havia já quem associasse este feriado a outros motivos, outras "guerras" em que o Homem nem sempre sai vencedor.

      Fica 8 de dezembro para celebrar Portugal, pela sua padroeira, e o 10 de junho, pela associação a um poeta português de projeção universal.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

"Não evoluo; viajo"

    Estas as palavras de quem fisicamente poucas vezes fez de viajante, com exceção desse percurso que o levou de Lisboa até Durban e o fez regressar à cidade que disse ser de Ulisses.

    Deste dia já se fez nota neste blogue, por várias vezes.
   O dia fecha o mês e, há setenta e seis anos, assistiu ao fim de uma vida (ou várias, para alguém que dizia que não sabia quantas almas tinha).
    No drama de gente que representou e nas palavras de Bernardo Soares, foi a "cena viva onde passam vários actores representando várias peças". Aí fez muitas viagens, sempre na procura da ideia, do ideal, da verdade suprema que o libertava, que o fazia sentir-se um aspirante, solto face a um mundo real, sensível que o limitava, o enleava.
     Nascido no dia de Santo António (que fora Fernando de Bolhões) e no ano em que Eça de Queirós via publicado o romance Os Maias, Fernando António Pessoa Nogueira viajou para lá desta vida ao fim de quarenta e sete anos.
  Tornou-nos herdeiros de uma obra imensa, na qualidade e na quantidade; no conhecido e no desconhecido. Foi articulista, ensaísta, poeta, dramaturgo, publicitário, homem de sensibilidade múltipla, interventiva e comprometida com o avanço cultural de um país, capaz de dar sinais de modernidade, de fragmentação e desassossego naquilo que ainda era pautado pela tradição.
      "Minha pátria é a língua portuguesa", dizia, no que de mais inteligível e espiritual isso possa representar. 

"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem."

     Livro do desassossego, de Bernardo Soares 
(semi-heterónimo de Pessoa)

     Cumpriu-se a etapa de uma viagem, aquela que se vê sempre repetida com a descoberta dos percursos pessoanos (re)construidos aos olhos de novos leitores. 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Questões do outro lado do oceano (VI)

     Mais uma questão, mais um caso dito polémico ou estranho.

   Q: Em "Viver bem a vida é amar bem as mulheres", há quantas orações; qual seria a classificação delas?

   R: A frase apresentada contém três orações: uma, é a da frase matriz, nuclear, associada à predicação de dois termos (X é Y). Ora acontece que um dos termos (X) é constituído por uma segunda oração e o outro (Y) por uma terceira oração.
    'Viver bem a vida', segmento assumido como sujeito sintático da frase, apresenta a configuração de uma oração subordinada não finita infinitiva; o mesmo sucede com 'amar bem as mulheres', na posição de predicativo do sujeito.
    Esquematicamente, pode representar-se essa construção frásica da seguinte forma:


    Ao verbo copulativo 'ser' (o da frase matriz) juntam-se os verbos principais 'viver' e 'amar' (subordinados, relativamente ao elemento subordinante que a predicação de 'ser' constitui).

     Uma frase, três orações - um caso em que o tamanho nada diz da complexidade do caso.

Eunice Muñoz - a verdade da representação.

     Um grande gesto para não menor pessoa.

     A notícia da atribuição, hoje, da Grã Cruz da Ordem do Infante à atriz Eunice Muñoz merece o aplauso que tanta vez acompanhou aquela que faz setenta anos de carreira aos oitenta e três de vida.
     Entre teatro, cinema e televisão, pode dizer-se que é toda uma vida dedicada à arte de um fingimento tão singular quanto irrepetível. 
     Assim se premeiam os papéis da mulher, da mãe, da avó no palco da vida, bem como os desempenhados, com a mestria de uma artista de renome, nessa arte de autores como Eurípedes, Molière, Shakespeare, Pirandello, Racine, Tchekov, Tennessee Williams, Jean Cocteau; Garrett, Bernardo Santareno, La Féria. Com todos eles, a atriz fez carreira, e da melhor.
      Assisti já a dois espetáculos por ela representados: Dúvida (2007), O Ano do Pensamento Mágico (2009). De ambos saí com a sensação de andar nas nuvens, como se o lugar dela fosse o céu que as acolhe.
      Na televisão, as telenovelas não fazem desmerecer o valor que tem, bastando para tanto relembrar as figuras de proa da Dona Benta (em A Banqueira do Povo - 1993), de Maria Sá Couto (em Todo o Tempo do Mundo - 1999), de Guadalupe Lampreia (em Mistura Fina - 2004); ou a simples cigana que surge na adaptação do romance de Miguel de Sousa Tavares, Equador, a uma série televisiva (2008).
       Ficam por ora as palavras de um poeta (Eugénio de Andrade) na voz da homenageada:



      Para ambos os casos, que se levante o público e bata palmas a uma GRANDE SENHORA, uma das poucas referências vivas que, felizmente, Portugal tem nestes tempos tão necessitados delas.

domingo, 27 de novembro de 2011

Mais um português do e no mundo

       Declarado hoje, pela UNESCO, em Bali (Indonésia), como Património Imaterial da Humanidade, o fado é mais um exemplo do contributo idiossincrásico português; uma marca da voz, da música e das vivências humanas para o mundo.

    No VI Comité Intergovernamental da UNESCO, afirmou-se mais um sinal português composto de universalidade, pelo cruzamento com outras culturas; pelo romantismo que traz das suas origens ao sentir que faz da vida uma realidade sempre única, sensível, singular.
   A consagração da música, de um legado cultural, de um registo emotivo distribuído no tempo (e no espaço) cumpriu-se, depois de já a ter aqui mencionado.
     O nosso fado é do mundo.
     Vida, voz - poesia, som e fado do mundo.


      Não sei se é 'fatum' nacional viver tanto quanto o necessário para alimentar este género musical; porém, se nele se afirma algum do nosso papel no mundo, que se cultive a música, a poesia, a voz capazes de projetar o que há de mais tradicional e marinheiro ao mais corrido, vadio, boémio e brejeiro, para não falar do acadé-mico (que não foi contemplado, por ser indicador de uma outra candidatura a património mundial: a da universidade de Coimbra) e inovador no que a vida propõe de mais intenso.
O Fado
Quadro de José Malhoa
(1910)

      Canção da vida, da emoção, de perdas e ganhos,da alegria e da sua intensa negação, nela há prisão e libertação - solidão, saudade, nostalgia, ciúme; mágoas passadas e do presente; inspiração para a esperança e o futuro.

sábado, 26 de novembro de 2011

Mar de raios

     O dia foi de trabalho, depois de uma noite em claro e com o peso dos olhos que teimavam em fechar.

     Ainda houve tempo para ver o mar, a praia, o sol, até que se retomou o trabalho que não para.


Depois da noite
que se estendeu pela manhã;
depois da poesia e da doçura
que acerejaram um bolo
feito da grama
que nenhuma culinária deu;
depois do tempo e do encontro
com cheiro e sabor a café,
a partilha, a diálogo com pitadas de saber;
depois da sala tornada rua,
com ar livre, em movimento
a refrescar os rostos,
os ânimos, os corpos
(ansiosos de descanso
num fim de semana
encurtado,
reduzido nas horas,
preenchido por muitos instantes),
um mar de raios
compôs o sol,
que iluminou uma tarde
cuja luz
tinha o brilho
do ser e do sentir
a irradiar.

Chegou então um outro mar,
num vai e vem barrado pela praia,
pela areia alteada por um sopro suave 
que disfarçava as pegadas
e os destroços de um naufrágio
vindos de uma tempestade
só na terra acontecido.

No fim,
em plena tarde e
com a despedida,
regressou a noite...
sem escuro, sem estrelas, sem luar;
só o sol
numa estranha luz,
que se dissipava...
até que se apagou.

       Mais um sábado, de descanso para uns; de Saturno (esse titã, filho do Céu e da Terra, que mutilou o pai) para outros.

       E houve uma luz especial durante o dia, que se apagou; mas existiu.

domingo, 13 de novembro de 2011

O dia deu em chuva

     Fica o registo de que o dia deu em chuva.

     E, mesmo assim, foi dia para se viver (bem).

            DOMINGO DE CHUVA

     O domingo deu em chuva.
     Depois da noite e do vento quentes,
     veio um dia fechado, dizem
     - sem sol, de céu carregado, com chuva,
     mas aberto ao lavar da alma.
     
     Não era possível falarmos.
     Restava-nos ouvir o embate 
     duro e diluviano da chuva.
     Seguimos... por retas e curvas.
     Cumprimos o trajeto de um bom domingo,
     aguado, relampejado, trovejado...
     entre montes veiados de caminhos,

     E assim, nas horas partilhadas,

     provámos que o tempo não faz o dia.

     Na água luzente com trovão molhado,
     cumpriu-se a rota, rumo à alegria.

     Foi domingo.
     Seria fechado?
     Esteve de chuva...


     Este foi o balanço de um dia que quase tudo teve no que nunca se desejou.

    Para os tristes dias soalheiros, há sempre aqueles outros que, entre as lágrimas da alma e as do céu, recebem algum do sal da vida para o destempero dos tempos. Talvez por isso o heterónimo pessoano Alberto Caeiro veja a beleza que um dia de chuva tem, tal como um dia de sol.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Ao que os alunos me obrigam...

    A bem de quem queira saber, cá vai a resolução de um (muito) pequeno trabalhinho.

    Em véspera de teste, as dúvidas são imensas. Surgem exemplos tão complicados, a pedido dos alunos, que um professor tem que responder à letra. Depois de uma proposta de frase com três níveis de análise (a propósito de funções internas), eu tinha que me impor: trabalho prático com frases "torcidas", "torcidinhas", "torcidíssimas".
     Foi vê-los a mostrar o que podiam e, às vezes, o que não podiam. O certo é que não largaram. O problema foi a campainha, que concluiu o tempo de aula. Contudo, houve uns resistentes que aproveitaram a falta de uma professora no bloco seguinte, para desfazer o nó.
    Lá vieram os resultados, depois de muito suor, para duas frases a analisar sintaticamente.

      Primeira frase: 'Os alunos, ao estudarem Cesário Verde, não deixam de trabalhar matéria fundamental na Língua Portuguesa'
       i) Sujeito: 'Os alunos' (>Eles)
   ii) Predicado: 'ao estudarem Cesário Verde, não deixam de trabalhar matéria fundamental na Língua Portuguesa'
      iii) Modificador do predicado: 'ao estudarem Cesário Verde'
     iv) Complemento direto: matéria fundamental na Língua Portuguesa (na continuidade de um complexo verbal - 'não deixam de trabalhar X' - que podia apresentar a seguinte pronominalização do CD: 'não deixam de a trabalhar'
     Houve ainda quem quisesse saber como classificar a construção do modificador: uns avançaram que se tratava de uma subordinada não finita infinitiva (certo); outros acrescentaram que era adverbial (também); por fim, pedi que dissessem o tipo de adverbial. E aí lá pensaram mais um pouco; pedi para transformarem por uma expressão equivalente e lá vieram os 'enquanto estudam Cesário' e 'quando estudam Cesário'; lá chegou, por fim, a subordinada adverbial temporal. Ufa!

    Segunda frase: 'Por mais que se trabalhe, há de ficar sempre a sensação de que a língua portuguesa é muito difícil'
     i) Sujeito: A sensação de que a língua portuguesa é muito difícil (invertido, ora pois... e é bom de ver que a ordem normal seria 'Por mais que se trabalhe, a sensação de que a língua portuguesa é muito difícil há de ficar sempre' e que a pronominalização daria 'Por mais que se trabalhe, ela há de sempre ficar'). 
     ii) Predicado: há de ficar sempre
     iii) Modificador da frase (por não admitir o teste da interrogativa nem o da negativa: *É por mais que se trabalhe que há de ficar sempre...? / *Não por mais que se trabalhe, há de ficar sempre...): Por mais que se trabalhe,
     Então, alguém pergunta: não há um predicativo do sujeito nesta frase?
    Há, sim senhor, mas como função INTERNA, numa classificação de segundo nível. O sujeito da frase é representativo de um caso que incorpora uma sequência frásica na expansão do nome 'sensação'. Ora nessa expansão há, a um segundo nível de análise, um sujeito e um predicado subordinados (sujeito: a língua portuguesa; predicado: é muito difícil). É neste predicado subordinado que se encontra o predicativo do sujeito (também subordinado), depois do verbo copulativo 'ser'.
    Como há alunos que querem saber tudo (e ainda bem!), quiseram classificar a construção do modificador.  Viu-se que era uma subordinada adverbial finita que, em termos lógicos, se identificava com uma concessiva (depois de terem substituído o 'por mais que se trabalhe' por 'ainda que se trabalhe', 'mesmo que se trabalhe', 'embora se trabalhe'...
      Segundo Ufa!

     E foi assim que, depois disto, tive vontade de tirar férias. Trabalhar cansa! Só os alunos para me obrigarem a trabalhar tanto.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sem pipocas e com muita ilusão

      De tanto me falarem dele, decidi vê-lo.

      Refiro-me ao filme Meia-noite em Paris, uma comédia realizada por Woody Allen.
    Trata-se de um verdadeiro postal de visita à cidade do amor e da sedução, com o qual o espectador é aliciado pela cor atrativa da beleza da manhã à magia da noite; pelo som nostálgico que, por mais ouvido, não deixa de ser composto de ilusão.

Trailer do filme de Woody Allen (2011)

      De ilusão também vive a personagem principal da história: um jovem guionista e roteirista de sucesso em Hollywood (Gil Pendler, interpretado por Owen Wilson) que ambiciona ficar na cidade parisiense, escrever o seu primeiro romance, cruzar-se com o(s) tempo(s) do passado no presente.
     A suavidade com que se sai do filme é a mesma com que a película termina, na fantasia de um amor banhado a gotas de chuva e ruas molhadas (depois de um noivado acabado, com tudo o que de convencional tinha para poder dar certo, mas sem a magia que só uma paixão pode ter).
    É um filme de balanço de vida; de reconhecimento do poder cultural da meia-noite, das badaladas, da década ouro na cultura francesa (1920). Reveem-se o 'Tanque de Nenúfares, de Monet; o 'Pensador' de Rodin; o cineasta francês Jean Cocteau; a animação musical de Cole Porter, a tocar piano e o 'Let's do it - Let´s fall in love'; as escritas, as vidas e os gostos de Scott e Zelda Fitzgerald, de Ernest Hemingway, de James Joyce, de T.S. Eliot; a sensualidade de Adriana, amante de Picasso e ex de Modigliani e Braque; os rinocerontes de Dalí e os filmes surrealistas de Luis Buñuel; esse cultivador de imagens que foi Man Ray.
     Tudo isto se vê (e por vezes se antecipa) ao longo do tempo do filme; do tempo feito da ilusão cinéfila e daquela visão romântica que encara o passado como o bem perdido face ao incompreendido presente  - ideia relativizada, e bem, no filme, para que se releve o instante de cada existência -; do tempo de uma história a cruzar referências culturais com sinais de contemporaneidade.
    Um filme-viagem feito com os ingredientes da emoção e uma nota de revisão de experiência(s) de vida - da viagem que não é independente da vontade de ilusão; da viagem que se faz num presente e que também reflete muito de passado (pelo que o presente tem de reconhecível nas expectativas criadas e nos conhecimentos prévios que se querem recuperados ao calcorrear os tempos e lugares visitados).

     Não foram necessárias pipocas, porque o filme bastou para prender. Quando um filme cheira e/ou sabe a pipocas ou a chocolate não se sente a emoção de Adriana, nem se antevê o que Woody Allen projetou. É como se o tempo pudesse ser por nós controlado (ainda que, em certa medida, o possa ser pelo que nele depositamos).

Balada de luz, azul e mar

      Mais um exemplo musical das terras de Espanha.

      Na voz de Pablo Alborán, uma declaração de amor feita de luz, azul e mar.



SOLAMENTE TÚ

Regálame tu risa,
enseñame a sonar
con solo una caricia
me pierdo en este mar
Regálame tu estrella,
la que ilumina esta noche
llena de paz y de armonía,
y te entregaré mi vida

Haces que mi cielo
vuelva a tener ese azul,
pintas de colores
mis mañanas solo tú
navego entre las olas de tu voz
y tú, y tú, y tú, y solamente tú
haces que mi alma se despierte con tu luz
y tú, y tú, y tú

Enseña tus heridas y así la curará
que sepa el mundo entero
que tu voz guarda un secreto
no menciones tu nombre que en el firmamento
se mueren de celos
tus ojos son destellos
tu garganta es un misterio

No menciones tu nombre que en el firmamento
se mueren de celos
tus ojos son destellos
tu garganta es un misterio


     Com "Solamente tu", o cantor projeta-se em Portugal, depois de ter sido considerado uma revelação, em 2010, por terras espanholas. Mais um exemplo divulgado pelas redes sociais (Youtube) e que chamou a atenção de pessoas que o souberam acompanhar na sua afirmação musical.

     Uma letra, uma melodia, uma voz a navegarem no mar do amor.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Fórmula de Deus

    Concluída a leitura de A Fórmula de Deus - quarto romance de José Rodrigues dos Santos, originalmente publicado em 2006 -, registo a minha segunda aventura com a série Tomás Noronha.

     De Einstein à prova científica da existência de Deus; entre o Egipto, o Irão, Tibete e Lisboa; na conspiração internacional com a crise nuclear no Irão; na descodificação de cifras ou na relação que o protagonista mantém com a bela Ariana Pakravan (iraniana portadora duma cópia de um velho manuscrito com um título e um poema enigmáticos), de tudo isto se compõe a aventura narrativa assente numa história de amor, numa intriga de perseguições e traição, numa procura espiritual que se cruza com uma revelação mística e as mais recentes descobertas e questões científicas nos domínios da Física, da Matemática e da Cosmologia. 
      Entre a suspeita de que Albert Einstein estava a planear a construção de uma bomba atómica e a constatação de que os registos apenas davam a ler uma fórmula para provar a existência de Deus, muita informação passa, nomeadamente conhecimentos de vária ordem (científicos, teológicos, religiosos, filosóficos, linguísticos, artísticos). Entre eles contam-se:

. a Teoria de Tudo, que  recorre aos contributos da Teoria Quântica para lidar com o domínio das partículas e a noção de que estas últimas, enquanto subatómicas, podem ir de um estado de energia A para um outro (B) sem passarem pela transição desses dois estados (salto quântico), numa espécie de onda - Einstein constrói, assim, uma teoria unificadora (Teoria dos Campos Unificados ou Teoria de Tudo) que apresenta as forças fundamentais da natureza como manifestações de uma força única e que equaciona a força que faz um electrão andar em torno do núcleo como sendo a mesma que faz o sol girar em torno da terra.

. a Teoria do Caos, enquanto modelo matemático que dá conta de como pequenas alterações num estado inicial provocam alterações profundas no produto final (pequenas causas, grandes efeitos) - a metáfora do bater de asas da borboleta é um exemplo disso, pelo efeito de dominó e de onda. Neste sentido, o caos, sendo síncrono, só parece caótico (tem um comportamento determinista, obedece a padrões que o regem por regras muito bem definidas, é causal, mas é indeterminável; previsível a curto prazo e imprevisível a longo prazo).

. os Teoremas da Incompletude, demonstrativos de que um sistema lógico jamais poderá provar todas as afirmações nele contidas (o real é tão totalizador que é inexprimível, ainda que seja verdadeiro; haverá sempre mistério na sua apreensão).

        Além destes dados, registo ainda alguns dos pensamentos que mais me chamaram a atenção na leitura do romance:

"Eu sou os meus pensamentos, a minha experiência, 
os meus sentimentos. Isso sou eu. Eu sou uma consciência (...) 
e a minha consciência, esta noção que eu tenho 
da minha existência, é uma espécie de programa. Percebes? 
De uma certa forma, e literalmente, os miolos são o hardware
a consciência o software." 
(nas palavras do matemático Manuel Noronha, pai do protagonista - pág. 85).
.

"O segredo da vida não está nos átomos 
que constituem a molécula, está na sua estrutura, 
na sua organização complexa. Essa estrutura existe 
porque obedece a leis de organização espontânea da matéria. 
E, da mesma maneira que a vida é o produto 
da complexificação da vida inerte, 
a consciência é o produto da complexificação da vida. 
A complexidade da organização é que é a questão-chave, 
não é a matéria."
(nas palavras do matemático Manuel Noronha, pai do protagonista - pág. 88).

.

"Não é possível provar 
a existência de Deus, 
da mesma maneira que não é possível provar a sua não-existência. 
Nós apenas temos a capacidade 
de sentir o misterioso, 
de experimentar a sensação 
de deslumbramento pelo maravilhoso esquema que se exprime no universo" 
(numa representação das palavras de Einstein para o ministro israelita Ben Gurion - pág. 21) .

.

"A vida descreve-se em dois planos. 
Um é o plano reducionista, 
onde se encontram os átomos, as moléculas, as células, 
toda a mecânica da vida. 
O outro plano é semântico. 
A vida é uma estrutura de informação 
que se movimenta com um propósito, 
em que o conjunto é mais do que a soma das partes, 
em que o conjunto nem sequer tem consciência 
da existência e funcionalidade de cada parte que o constitui.
 [...] se analisar a tinta e o tipo de folha de um exemplar 
do Guerra e Paz constitui uma forma muito incompleta e redutora de estudar esse livro, por que diabo analisar os átomos e as forças existentes no cosmos há-de ser uma forma satisfatória de estudar o universo? Não haverá também uma semântica no universo? Não existirá igualmente uma mensagem para além dos átomos?" 
(nas palavras do matemático Manuel Noronha - págs. 319-321).

      Um livro será sempre uma busca e um encontro. Neste sentido, pode dizer-se que fiz algum caminho, Caso para dizer, que subscrevo o pensamento einsteiniano tão adequado à ciência como à leitura (como se aquela também não se fizesse desta):


       Pensamentos e interrogações que fazem sentido para um leitor das humanidades. Razão para encarar Deus como a semântica de tudo. Assim se busca o sentido das coisas (talvez numa dimensão mais poética, como a que transcende a própria realidade). Assim se enuncia essa fórmula mestra, também designada como "fórmula de Deus".

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Como será o amanhã?

      Cada vez mais tenho esta questão na mente...

      Mais do que pergunta, registo o tema da incerteza - entre as poucas certezas que vou tendo, algumas das quais perdidas (sem que deixem de o ser).
     Mais pela letra do que pela alegria do ritmo do samba, cruzo-me com o conteúdo desta cantiga:


      Queria encontrar-me com essa cigana que falou em felicidade (sempre).
      Perdi-lhe(s) o rasto.

      O AMANHÃ

A cigana leu o meu destino
Eu sonhei!
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
E eu sempre perguntei
O que será o amanhã?
Como vai ser o meu destino?
Já desfolhei o mal-me-quer
Primeiro amor de um menino...

E vai chegando o amanhecer
Leio a mensagem zodiacal
E o realejo diz
Que eu serei feliz
Sempre feliz...

Como será o amanhã?
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser
Como será?...

Como será o amanhã?
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser
Mas a cigana!...

A cigana leu o meu destino
Eu sonhei!
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
Eu sempre perguntei
O que será?
(O que será?)
O amanhã?
(O Amanhã?)
Como vai ser?
(Como vai ser?)
O meu destino?
Já desfolhei
(Já desfolhei!)
O mal-me-quer
(O mal-me-quer!)
Primeiro amor
(Primeiro amor!)
De um menino...

E vai chegando o amanhecer
Oh! Oh! Oh! Oh!
Leio a mensagem zodiacal
E o realejo diz
Que eu serei feliz
Sempre feliz...

Como será o amanhã?
(Como será?)
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser
Como será?...


    Ganhei nova certeza: a mensagem zodíaca é falsa. Resta "O meu destino será / Como Deus quiser... / Como será?"

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ciclo de Conferências de Português

       Começa um ano de trabalho(s).

      Vi hoje publicado, no Facebook, o cartaz de divulgação com o produto de uns dias de trabalho intensos e acalorados numa equipa de colegas interessada em partilhar o que se vai fazendo por estas bandas gondomarenses. O desafio lançado pelo Centro de Formação Júlio Resende começou a dar os seus passos mais visíveis.
      Chegou a bom termo a planificação feita. O cartaz do Luís Costa ficou "au point".

















Prospecto de divulgação
Centro de Formação Júlio Resende
Gondomar

      Aqui segue o programa (é só clicar sobre ele, para o ver um pouco maior)


      (Há ali um nome que está muitas vezes repetido. Espero que seja erro tipográfico!)
      Agora que tudo está prestes a começar, é bom ver o que já foi feito.

      E para o que aí vem, só me apetece dizer: no que nós nos metemos! É o que dá quando nos metemos "na língua que (nós) somos".

domingo, 4 de setembro de 2011

Questões do outro lado do oceano (V)

     E para continuar com o tratamento das questões do outro lado do oceano, há que proceder a outros voos.

      Q: O que justifica a acentuação de tu-iu-iú (tui-ui-ú é outra forma de separação silábica)?

    R: Começo por reconhecer o meu desconhecimento face ao referente para o termo apresentado, bem como à forma de pronúncia do termo (se na variedade do Português europeu há oscilação fonética, admito que muito mais haja na do Brasil). De qualquer forma, creio que se trata de uma questão associada à presença de um hiato. A indicação da segunda forma de separação silábica é a prova de que as duas últimas vogais não constituem um grupo vocálico do tipo ditongo. Daí a acentuação gráfica do último 'u', a ser pronunciado separadamente face ao ditongo anterior.
      Após alguma pesquisa, fiquei a saber que se trata de um tipo de ave, símbolo do Pantanal. A designação tem origem indígena e reflete a presença de uma onomatopeia enquanto processo implicado na própria formação da palavra.

    Mais um passo em direção ao mundo desconhecido das aves (nomeadamente das pantaneiras) e da designação musical que estas, por vezes, apresentam.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Questões do outro lado do oceano (IV)

      Porque há dúvidas que fazem sentido, mas há que distinguir os domínios.

   Quando a questão do significado interfere com a construção do sintagma, podem surgir dúvidas desta natureza.

      Q: 4) Em "Ele não é tão inteligente quanto ela", o grau é comparativo de igualdade?

      R: Para uma resposta afirmativa (em termos de sintaxe), acrescento a polaridade negativa que, semanticamente, a frase apresenta. O que acontece é a negação do grau comparativo de igualdade, mas é efectivamente este o que está configurado na frase, atentando nas marcas comprovativas desse grau (tão+Adj.+quanto / como).
      Relembro que as formas de expressão do grau comparativo dos adjectivos, na língua portuguesa, são tipicamente configuradas através de construções sintácticas, evidenciadas pelos seguintes elementos:
       a) grau comparativo de superioridade: mais + Adj. + (do) que;
       b) grau comparativo de inferioridade: menos + Adj. + (do) que;
       c) grau comparativo de igualdade: tão + Adj. + como / quanto.
     Alguns adjectivos admitem a construção do grau comparativo por via do léxico, como é o caso de algumas realizações de natureza etimológica (ex.: bom > melhor; mau > pior; grande > maior e pequeno > menor).

     Pelo exposto, creio ser razoável admitir que a expressão do grau dos adjectivos tem muito mais de sintáctico do que de morfológico (à excepção do grau superlativo absoluto sintético). Às vezes, tem algo de lexical. Quanto à dimensão semântica, não deixa de estar apoiada no que a linearidade ou o sintagma dão a ver.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Questões do outro lado do oceano (III)

     A nova pergunta, nova resposta.

     Já vamos na terceira questão apelidada de "estranha" ou "polêmica".

    Q: 3) Em "Ele fez de mim um homem à sua feição", qual é a classificação morfossintática de 'de mim' e de 'um homem'? 
        Abraço!

    R: O enunciado que propõe é revelador de uma construção em que o verbo ‘fazer’ é realizado como núcleo de uma estrutura causativa, associada ao significado da mutação, transformação (o verbo ‘fazer’ adquire aqui o significado do verbo inglês ‘to make’), com o pronome ‘ele’ a configurar o agente dessa estrutura; o grupo preposição+pronome (forma oblíqua) ‘de mim’, o objecto, ao qual se predica ainda a propriedade resultativa: ‘um homem à sua feição’. 
     ‘Fazer de X Y’ equivale a ‘Transformar X em Y’ ou mesmo ‘Tornar X Y’. A aproximação <‘fazer de X Y’- ‘tornar X Y’> tem de comum a relação predicativa final [X ser Y], que se revê nas construções transitivas predicativas. 
    Neste sentido, o grupo preposicionado ‘de mim’ corresponde sintacticamente a um complemento directo (semelhante à realização acusativa ‘me’); ‘um homem à sua feição’, ao predicativo do complemento directo. 
    A estranheza que pode surgir neste exemplo é o facto de se apresentar um complemento directo com preposição (a qual, por sua vez, selecciona a forma oblíqua do pronome pessoal); todavia, não sendo uma configuração sistemática, não se trata de uma ocorrência tão incomum, tomando em linha de conta as seguintes situações análogas: 
    a) com o complemento directo configurado na forma de pronome pessoal oblíquo tónico (ex.: “Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero”, como o diz Fernando Pessoa); 
    b) quando se pretende evitar ambiguidade entre os casos acusativo e dativo, ambos a poderem ser configurados por 'me' (ex.: Ele fez de mim um homem à sua feição Vs Ele fez-me um homem à sua feição); 
   c) quando o complemento directo é composto, com o segundo termo coordenado na forma de 'preposição + nome' (ex.: Conheço-o e à mãe / Conheço-o, aliás, conheço a ele e à mãe); 
   d) quando o verbo exprime sentimento e o complemento directo se refere a pessoa ou entidade religiosa (ex.: Amar a Deus > Amá-Lo); 
    e) quando se assinala o complemento directo em construções sintácticas invertidas (ex.: Caim matou Abel > A Abel  matou Caim).
    Além disto, convém não descurar a explicação que coloca o 'de' no foco do verbo, encarando-os como um bloco significativo, capaz de dizer que o núcleo predicativo não é 'fazer', mas sim 'fazer de'.

    Espero ter contribuído, e bem, para a partilha.