domingo, 29 de dezembro de 2013

Ao som de Major Tom, a vida de Walter Mitty... e tudo ali tão perto!

       Hoje o filme é mais atual, ainda que inspirado numa personagem da literatura americana dos finais dos anos trinta do século passado.

     "A Vida Secreta de Walter Mitty", de James Thurber, é também o título para o filme dirigido e protagonizado pelo ator Ben Stiller - que dá corpo cinéfilo a uma personagem pertencente a um conto publicado não só na revista 'The New Yorker,' em 1939, como também em livro, três anos mais tarde.

     
    Mitty é um homem tímido, preso à vida de um cargo de direção no departamento do banco de imagens / negativos fotográficos da revista 'Life'. Ainda assim, ou talvez por isso, revela-se um sonhador inofensivo, encetando fugas imaginativas para escapar à rotina, ao tédio ou aos tentáculos que o mundo real lhe lança: formulários que se tornam pré-requisito à construção de redes sociais / virtuais e que exigem vivências incríveis; chefias e grupos empresariais que impõem relações e valores muito desfasados da dignificação e da felicidade humanas; culto do medo, da pressão, dir-se-ia mesmo da perseguição pessoal inútil, descompensada e insensata, feita por quem menos tem para dar. Perante a adversidade da possível perda de emprego e o despedimento final, a atitude de Mitty é a de quem busca uma nova forma de encarar a vida: entre cenários de aventura e fantasia, o cumprimento de um dever profissional (que só lhe garante tranquilidade pessoal, apesar de não deixar de ser uma bofetada de luva branca a quem o dirige) e a construção de um percurso próprio que lhe alimentará a coragem para conquistar o amor da companheira de trabalho Cheryl Melhoff (numa representação de Kristen Wiig). 
         Em todo o seu percurso e nos desaires vividos, Mitty acaba por receber a ajuda de quem nunca o viu (como é o caso da voz do e-Harmony, corporizada por Andy Richter), de quem sempre soube que ele existiu e o acompanhou lateralmente na vida profissional (mãe, irmã, companheiro de arquivo e o fotógrafo Sean O' Connell) ou, então, de si próprio (na estratégia de autodescoberta que empreende, no jogo de memórias, ilusões e sonhos que acabam por compor a sua própria vida).
     Assim se constrói um filme produzido no registo de uma comédia contida e na afirmação da possibilidade, da alternativa a um mundo e a uma sociedade que alguns pretendem alterar, controlar, impor, apesar de bem menos credível e desejável. Daí o público identificar-se com as fugas, os desejos, as vontades e os sonhos de Walter Mitty, ou "Major Tom" (o que se mantém fora de órbita, na perspetiva do novo superior de Mitty, numa referência a "Uma Odisseia no Espaço", filme datado de 1968 e realizado por Stanley Kubrick, no qual se dá conta do trajeto de um astronauta com receio de enfrentar o estranho e desconhecido território espacial).
      Nesta linha se entende também a recuperação da música de David Bowie, "Space Oddity", aqui apresentada no vídeo original de 1969:
     

    SPACE ODDITY

Ground control to Major Tom
Ground control to Major Tom
Take your protein pills and put your helmet on
(Ten) Ground control (Nine) to major Tom (Eight)
(Seven, Six) Commencing countdown (Five), engines on (Four)
(Three, Two) Check ignition (One) and may gods (Blastoff) love be with you

This is ground control to Major Tom, you've really made the grade
And the papers want to know whose shirts you wear
Now it's time to leave the capsule if you dare

This is Major Tom to ground control, 
I'm stepping through the door
And I'm floating in a most peculiar way
And the stars look very different today
Here am I sitting in a tin can far above the world
Planet Earth is blue and there's nothing I can do

Though I'm past one hundred thousand miles, I'm feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell my wife I love her very much, she knows
Ground control to Major Tom, your circuits dead, there's something wrong
Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me, Major Tom?
Can you...
Here am I sitting in my tin can far above the Moon
Planet Earth is blue and there's nothing I can do

       À semelhança dos gatos e do que deles diz o saber popular, este é o filme do homem das sete vidas - aquele que, apesar dos medos e no encalço da sua felicidade, termina de mão dada com o que o faz verdadeiramente feliz, e que que esteve sempre bem perto dele mesmo. Uma boa forma de terminar 2013.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Vontade de ser zambeziano

      Estreou quase há um ano, mas só hoje o vi. Mais vale tarde do que nunca.

     Trata-se do filme animado Zambézia, realizado por Wayne Thornley - uma história que tem tanto para crianças como para adultos, pelas aprendizagens e pela moralidade destacadas.


      A intriga foca o percurso de vida de Kai, um jovem falcão que sai do Catungo, onde viveu apenas com o pai (Bravo), antigo protetor e fundador dos furacões que patrulham os céus da Zambézia. Um desastre no passado, que quer esquecido, leva este último a preservar-se e a livrar o filho dos perigos que persistem para lá da fronteira que agora vigia. Chega, porém, a hora em que o jovem afirma a sua vontade e o seu espírito livre, acabando por migrar para aquele que é apresentado como o lugar mais seguro de toda a África - no reino de Madagáscar, junto a uma velha árvore que se impõe no limite da terra e no início das quedas de água.
      Mais do que Kai (o Raio Azul), que arrisca nos voos e se aventura na vida para se tornar um furacão, toda uma comunidade de aves se afirma na história, numa mensagem capaz de mostrar que há bem mais no que a aproxima do que naquilo que a separa. Inclusive para os heróis voadores vale esta lição, ao rever(ter)-se um passado que excluiu da cidade a espécie dos Marabus (por preconceito face à aparência diferente, à rudeza e à impetuosidade). Por esta razão, momentaneamente estes últimos aliaram-se ao mal, tentados que foram para um poder assente no engano, na sevícia e na traição; também eles acabam por, a tempo, reconhecer as suas fragilidades: desfazem o prejuízo provocado com a aliança feita com o vilão e juntam-se aos restantes pássaros na luta contra o mal.
    Constantemente se sublinha a ideia de que em conjunto tudo é mais fácil, numa reação clara aos individualismos que possam surgir. O coletivo sai sempre vencedor, mesmo nas situações de maior perigo, como a que é protagonizada pelo lagarto Brutus, o invasor da cidade das aves, na ânsia de controlar a cidade e encontrar a maior omoleta para a sua gula de poder.
       Não houvesse já aqui razões para se ver esta película, acresce ainda o facto de na tradução e versão portuguesas se encontrar um outro ponto de interesse: linguisticamente, está explorada a variação nas vozes de várias espécies de aves. Do português africano de Nonô, da variedade alentejana dos Marabus ou de Canja, da pronúncia nortenha do chefe dos furacões até à gíria estudantil de Canja ou o registo afetado das passaruchas (que não gostam de passarecos, só de passarões), há toda uma riqueza e versatilidade da língua motivadas para os diálogos das aves mencionadas.

       Um filme a não perder, para trabalhar com os alunos seja pela moralidade seja pelo material com valor linguístico (pela variação), que a versão portuguesa consegue motivada e sugestivamente explorar.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Excessos de um pastel

     A época natalícia é pródiga em doçuras, tantas que põem em perigo qualquer linha.

     Ora por falar em linhas, numa das que compõem as notas de rodapé de uma estação televisiva, foi dado a ler o seguinte:

Reprodução de imagem do Jornal das 8 (TVI), na emissão do presente dia

     Que me perdoe Judite de Sousa, por ver a sua imagem aqui reproduzida e por não lhe dar o destaque habitual às estrelas da TVI; hoje o motivo de atenção está mais para a legenda - a qual me faz depreciar ainda mais os excessos (não da quadra, mas da desatenção na língua).
    Lamentavel e indevidamente, alguém acentuou a palavra 'pastel', esquecendo-se que, por norma, as palavras terminadas em 'l' são agudas e não precisam de qualquer acento gráfico para marcar a sílaba tónica em que o 'l' se encontra (palavras agudas ou oxítonas). Só as palavras terminadas em 'l' que se querem graves (paroxítonas) apresentam acentuação - como, entre outras, 'amável', 'desevel', 'favel', 'bil', 'sovel', 'nel' -, contrariando a regra geral do português que não acentua graficamente as palavras graves.
      Felizmente, lá mais para o final da reportagem sobre o pastel de feijão de Torres Vedras, desapareceu o erro, para felicidade da certificação linguística do termo.

     Já basta o excesso de açúcar (outro caso de acentuação de palavra grave, em contexto de 'r' final); poupemos nos acentos gráficos indevidos, para que não se azede o que é doce.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Uma canção de Natal

       De canções de natal, muito se pode ouvir, desde as mais clássicas às mais contemporâneas.

      No mês em que morreu, fica também o apontamento de uma composição de John Lennon, dedicada a esta festividade universal, capaz de juntar gente de várias raças e diversos credos:


HAPPY CHRISTMAS (WAR IS OVER)

So this is Christmas
And what have you done?
Another year over
And a new one just begun

And so this is Christmas
I hope you have fun
The near and the dear one
The old and the young

A very merry Christmas
And a happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear

And so this is Christmas
For weak and for strong
For rich and the poor ones
The world is so wrong

And so happy Christmas
For black and for white
For yellow and red ones
Let's stop all the fight

War is over over
If you want it
War is over
Now

      E, para terminar, uma versão ao vivo e em grupo (dos The Corrs) da mesma canção:


      Fosse esta utopia aplicada da letra de canção à ação dos homens e de quem os governa, e o mundo seria bem melhor para todos: "A very merry Christmas / And a happy New Year / Let's hope it's a good one / Without any fear".

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Porque é Natal

      Cumpre-se o ciclo, marca-se o tempo...

     ... e na contínua passagem da vida - mesmo quando nela tudo esfria e se apaga -, há sempre o nascimento.
      Naquele que foi o décimo mês do ano (detetável ainda na sua etimológica designação), prepara-se o fecho de um ciclo, para que nova porta se abra (tal como janeiro o sugere, nessa aproximação a Jano - o deus romano das portas, do fecho e do início de tudo). É o tempo da terra coberta no rigor do frio e na brancura que queima e se derrete para bem do futuro. Talvez por isso tenha havido quem fez deste o tempo para nascimento do "ungido", do libertador da adversidade - em suma, do Messias.
      Entre o mal e o bem, a escassez e a fartura, o vivido e o ansiado, a natureza humana procura comungar nas diferenças e na crença de que, na união, se acha a força e a esperança de encontrar o que mais nos aproxima.
       E assim passamos...


       ... resistimos...
       ... duramos...

       No frio e na chuva deste dia, encontre-se o calor e o valor deste tempo que dará lugar a novas primaveras. Votos de um bom Natal para todos.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Cansado do inverno

    Ainda há pouco entrou e já me cansou.

    Decididamente o inverno não é a minha estação, por muito que nela tenha nascido. Nos rigores de que já deu sinais, fico ansiando pela primavera. Por isso, enquanto ela não vem, resta-me a audição dela, pelo que os The Gift têm dado a ouvir desde 2012:

A partir da atuação ao vivo dos The Gift no Jornal das 8 da TVI (7de fevereiro de 2012)

       PRIMAVERA

Sábado à noite não sou tão só
Somente só
A sós contigo assim
E sei dos teus erros
Os meus e os teus
Os teus e os meus amores que não conheci

Parasse a vida
Um passo atrás
Quis-me capaz
Dos erros renascer em ti

E se inventado o teu sorriso for
Fui inventor
Criei um paraíso assim

Algo me diz que há mais amor aqui
Lá fora só menti
Eu já fui de cool por aí
Somente só, só minto só

Hei de te amar, ou então hei de chorar por ti
Mesmo assim, quero ver-te sorrir...
E se perder, vou tentar esquecer-me de vez, conto até três
Se quiser ser feliz....

Se há tulipas
No teu jardim
Serei o chão e a água que da chuva cai
Para te fazer crescer em flor, tão viva a cor
Meu amor eu sou tudo aqui...

Sábado à noite não sou tão só
Somente só
A sós contigo assim
Não sou tão só, somente só

Hei de te amar, ou então hei de chorar por ti
Mesmo assim, quero ver-te sorrir...
E se perder vou tentar esquecer-me de vez, conto até três
Se quiser ser feliz

     Numa versão mais orquestrada, ainda que em vídeo de imagem fixa, fica o registo da mesma canção, na voz da Sónia Tavares.


      Até nos sons a primavera é melhor do que o rigor invernoso.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Chegada do inverno

     Anunciam para hoje a chegada do inverno.

   Estação que se prolonga até ao equinócio primaveril, fica entre dezembro e março a gelar, ventar e chover, esfriando e ditando a vontade de migrar como as aves.
   No recolhimento a que muitas vezes obriga, convoca memórias - as do calor desejado, as do tempo passado, as das pessoas que nem sempre estão do nosso lado. 
    Nisto tudo se revê esta composição de Tori Amos, editada no ano 1992. Vinte e um anos decorridos, há oportunidades para recriar a infância e a relação de uma criança com o pai, "withering where some snowman was".


          WINTER

Snow can wait, I forgot my mittens
Wipe my nose, get my new boots on
I get a little warm in my heart when I think of winter
I put my hand in my father's glove

I run off where the drifts get deeper
Sleeping beauty trips me with a frown
I hear a voice "You must learn to stand up for yourself
cause I can't always be around"

He says when you gonna make up your mind
When you gonna love you as much as I do
When you gonna make up your mind
Cause things are gonna change so fast
All the white horses are still in bed
I tell you that I'll always want you near
You say that things change my dear

Boys get discovered as winter melts
Flowers competing for the sun
Years go by and I'm here still waiting
Withering where some snowman was

Mirror mirror where's the crystal palace
but I only can see myself
Skating around the truth who I am
but I know, dad, the ice is getting thin

When you gonna make up your mind
When you gonna love you as much as I do
When you gonna make up your mind
Cause things are gonna change so fast
All the white horses are still in bed
I tell you that I'll always want you near
You say that things change my dear
Hair is grey and the fires are burning
So many dreams on the shelf
You say I wanted you to be proud
I always wanted that myself

When you gonna make up your mind
When you gonna love you as much as I do
When you gonna make up your mind
Cause things are gonna change so fast
All the white horses have gone ahead
I tell you that I'll always want you near
You say that things change my dear

Never change

All the white horses

   Chegado o inverno, corre a consciência de que as coisas mudam rapidamente ("things are gonna change so fast"), lamentavelmente matando alguma da magia (que resta apenas nas lembranças). Assim se processa o crescimento.

   Qual Branca de Neve, é tempo para perguntar "Mirror, mirror, where's the crystal palace?"

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Informações úteis com erro na língua

    É sempre positiva a informação antecipada, que ajuda o cliente - particularmente em época consumista como esta.

    Pena que este seja o exemplo da informação necessária na sua pior forma:


    Isto de confundir a terminação de um verbo (não separada da base verbal) com a contração de dois pronomes ('me' e 'os', separados por hífen) está a tornar-se incorreção comum na língua, já tratada de forma sistemática nesta "carruagem". Bem ensino aos meus alunos que, sempre que puderem colocar um 'nós' antes de verbo conjugado na primeira pessoa do plural, não há separação do 'mos' associado à terminação verbal.
     E, já agora, os meses do ano escrevem-se com minúscula, a não ser que estejamos com uma empresa adepta de ortografia associada ao antigo acordo (que, ainda assim, não pactuava com erros como o primeiro).
     Por fim, uma virgulazinha no final da primeira linha, a marcar a presença do vocativo, também não ficava nada, mas mesmo nada mal.

     Espero que a empresa em questão não tenha contratado um aluno meu que possa ter sido responsável por tão infeliz registo escrito. Valha apenas a utilidade da informação.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

"Branca Flor a mim basta basta"

      Assim se repetiram as palavras ouvidas de um pequeno grande livro da literatura infanto-juvenil.

     No Centro de Recursos-Biblioteca da Escola Secundária de Gondomar, os alunos do 8º ano turma 2 tiveram a oportunidade de ouvir, na voz da própria Clementina Sousa, a história de Branca Flor. Um momento de partilha - com a magia da palavra (f)alada - é sempre uma oportunidade para encantamento e imaginário feitos de fantasia e melodia.
    Entre provas, pedras negras, viagens, duelos, fugas e reencontros, um caminho para a salvação e felicidade é conquistado pela personagem Manuel - um jovem que, ao conhecer Branca Flor, constrói a sua própria vida numa possibilidade de realização pessoal e afetiva.
       Bem diziam os clássicos "Palavras, leva-as o vento" - não pelo sentido de fugacidade e volatilidade que hoje se atribui à expressão, mas pela qualidade e pelo prazer que a oralidade introduz nesse fluir fónico, nessa modulação de âmbito oratório e retórico trazida pelas horas do conto.
     Refere a escritora, na introdução ao livro produzido (algures também numa prateleira da biblioteca), que aprendeu esta narrativa da boca de Diamantino, moço de profissão que dedicava a hora do descanso e almoço a contar histórias. O mesmo viria a fazer Clementina aos seus alunos, enquanto professora; ainda o faz junto de jovens e de todos aqueles que, já não o sendo na idade, se deixam levar pelo melhor que o espírito dessa juventude ainda lhes dá.

 Clementina Sousa enquanto contava Branca Flor, a alunos e a professores  (Foto VO)

     Ora entregues ao registo de alguns pormenores da história ora rendidos ao fantástico que o conto anuncia e desvela, para os alunos envolvidos na atividade não houve tempo senão o que, sem data e sem hora, culminou numa espécie de mil e uma noites vividas no final de uma manhã, também com flores e a doçura do reconhecido e grato encontro.

Alunos e professores à escuta da Branca Flor, na voz de Clementina Sousa (Foto VO)

      Exemplares, sorridentes e à espera da resolução da história, os ouvintes não deixaram de fazer ouvir a sua voz, no final, colocando o dedo no ar ora para fazer algumas perguntas mais ora para deslindar alguns passos de uma narrativa recuperada desse cavalo do pensamento (em que Manuel e Branca Flor também galoparam), para memória de todos.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Prefiro o fim

   Preferência estranha, dirão alguns, mesmo que haja fins para todos os gostos: das finalidades às extremidades, da morte ao alvo.

   Fico-me pelo antónimo do começo. A preferência, por escura e escusa que seja é mais brilhante do que a por vezes anunciada ou publicitada. Vem tudo isto a propósito de um catálogo de tupperware (outono / inverno de 2013) que dá a ler o seguinte:


   Não há brilho nem melhoria que aguentem tamanho erro. Confundir o nome (início) com uma forma verbal de 'iniciar' (inicio) devia dar lugar a reclamação e a pedido de reembolso. Pode ser um simples acento gráfico em falta, mas, na língua portuguesa, ele é bem distintivo para as classes de palavras e para o modo de se escrever bem. 

    É por estas e por outras que digo aos meus alunos que não se pode confundir 'fábrica' com 'fabrica','média' com 'media', 'polícia' com 'policia' nem 'cópia' com 'copia'. Coitado desse réptil anfíbio parecido com a tartaruga se não levasse o devido acento !

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sexta-feira 13

     Popularmente considerado o dia do azar (ou dia aziago), a combinação sexta-feira 13 é marcante.

      Depois de doze (fecho de um ciclo, de uma totalidade, para além da associação ao número três), o treze é número infortunado. A questão é tão significativa quanto já ter dado nome a fobia: a tricaidescafobia ou o medo do número treze. No Tarot, a carta com este número representa a Morte. Comer com treze pessoas à mesa é considerado mau sinal desde a Santa Ceia (já que Jesus e Judas saíram dela para morrer) ou, quanto mais não seja, porque os jogos de copos, talheres e pratos costumam ficar-se pelos doze.
    De sexta-feira, diz-se que foi o dia em que aconteceu o dilúvio; que Cristo morreu (sexta-feira da Paixão). A tradição escandinava refere que a deusa do amor e da beleza era Friga (compare-se com Friday e Freitag, no inglês e no alemão, respetivamente), convertida a bruxa pelo cristianismo. Como vingança, ela passou a reunir-se todas as sextas com outras onze bruxas, mais o demónio, rogando todos os treze pragas aos humanos.
    Segundo ainda o cristianismo e na versão facultada por Dan Brown no romance O Código Da Vinci (2003), há um evento de má sorte associado a uma sexta-feira, com a data de 13 de outubro de 1307 - quando a Ordem dos Templários foi declarada ilegal e herética, por ação do rei Filipe IV de França, e os seus membros foram presos, torturados e executados, ao mesmo tempo, por todo o país. Assim dita o romance no seu capítulo XXXVII (pág. 195 da 9ª edição da Bertrand):

   "Ninguém sabia de certeza se os Cavaleiros tinham feito chantagem com o Vaticano ou se a Igreja tentara simplesmente comprar-lhes o silêncio, mas a verdade é que o Papa Inocêncio II emitiu de imediato uma bula sem precedentes que conferia aos Cavaleiros poderes ilimitados e os considerava «uma lei em si mesmos» - um exército autónomo, independente de quaisquer interferências de reis ou prelados, fosse ela religiosa ou política.
     Com a carta-branca que lhes fora dada pelo Vaticano, os Cavaleiros do Templo cresceram a uma velocidade espantosa, tanto em números como em poder político, adquirindo vastas propriedades numa dúzia de países. Começaram a emprestar dinheiro a reis arruinados, cobrando juros, criando assim o moderno sistema bancário e aumentando ainda mais a sua riqueza e influência.
     Por volta de 1300, a sanção do Vaticano ajudara os Templários a amassar tanto poder que o Papa Clemente V decidiu que era preciso fazer qualquer coisa. Em conluio com Filipe IV de França, maquinou um engenhoso plano para esmagar os Templários e apoderar-se dos tesouros da ordem, assumindo deste modo o controlo dos segredos com que ameaçavam o Vaticano. Numa operação militar digna da CIA, o Papa Clemente emitiu ordens seladas que deviam ser simultaneamente abertas pelos seus soldados em toda a Europa na sexta-feira 13 de Outubro de 1307.
     Na madrugada dessa sexta-feira, os selos foram quebrados e o espantoso conteúdo das ordens revelado. Na sua carta, Clemente afirmava que Deus o visitara numa visão e o avisara de que os Cavaleiros do Templo eram heréticos, culpados de prestar culto ao diabo, de homossexualidade, de profanar a cruz, de sodomia e de outros comportamentos blasfemos. E Deus pedira-lhe então que lavasse a face da Terra arrebanhando todos os Templários e torturando-os até que confessassem os seus pecados contra Ele. A maquiavélica operação de Clemente funcionou com a precisão de um relógio, nesse mesmo dia, inúmeros Cavaleiros foram presos, impiedosamente torturados e finalmente queimados na fogueira como heréticos. Os ecos da tragédia ressoavam ainda na cultura moderna: a sexta-feira 13 passou a ser para sempre considerado um dia de azar."

     À maneira de Alexandre Herculano, diria que com isto não perco nem ganho. E não me perguntem se foi mesmo assim. Se o conto, é porque mo foi dado a ler, para saber de tanto azar relacionado com este dia.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O regresso do "artista"

      Chegam tempos de saturação.

      Decididamente, tudo se revela melhor e mais interessante...

    Para começar, nada como olhar para o chão e colher umas folhas, dando-lhes um novo arranjo e nova utilidade.
    São várias as cores do tempo.











(FOTO VO)

       Depois, é tempo de compor o quadro decorativo com as peças soltas que se vão acumulando.

    Assim regresso à natureza e ao que ela nos dá, para esquecer um pouco dos dias em curso, tão cheios de nada e coisa nenhuma. Que me perdoe Irene Lisboa, por a plagiar parcialmente num dos títulos da sua obra! 










(FOTO VO)

    A minha obra foi outra, apesar de também implicar as mãos (que deviam estar a corrigir testes, mas fogem destes como o diabo da cruz).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Luz musical

     É nos momentos de maior tristeza que se lembra mais a luz como forma de superar a escuridão.

     No Capítulo I versículo 5 do Evangelho Segundo o Apóstolo S. João, lê-se

  A luz brilha na escuridão 
e a escuridão não vencerá.

    Com esta mesma citação termina o filme "A Missão", de Roland Joffé (1986). Nele ganha relevo o papel da música na evangelização e construção de um mundo que tudo tinha para ser perfeito. Ainda assim, e por decisão errada do Homem e da Igreja por este superintendida, não houve um final (completamente) feliz. Restou a música que ficou, trazida pela corrente da esperança e que fez entender a possibilidade de se sobreviver.

(Montagem com excertos do filme "Missão")

     Ela traz a luz, particularmente quando as notas marcam a harmonia que Ennio Morricone fez ouvir na banda sonora da película anunciada.

     Razão tinha Shakespeare quando, no tratamento de um "topos" clássico no seu Richard II, fazia da música porta de luz, para o combate da loucura; liberdade e forma de expressão para o que ainda faz do Homem o ser que, só, não será ninguém.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Tem- na/la: pronominalizações e variação na pessoa

      De regresso à sala de aula virtual (sem toque de campainha, nem quadro ou caneta que se gasta ao fim de meia dúzia de registos).

      Nem ao fim de semana me deixam em sossego! O senhor Ministro da Educação precisa de saber disto, para me pagar horas extraordinárias.

      Q: Professor,  como fica a pronominalização de 'O rapaz tem uma camisola nova': tem-la ou tem-na?

     R: Obviamente que é 'tem-na' - conforme foi explicado na aula -, uma vez que há um verbo terminado em 'm' (à semelhança também dos terminados em ditongo nasal), o que implica a versão do pronome com a forma 'no(s) / na(s)'.
      Só posso entender a dúvida na base de já te teres confrontado com as duas realizações ('tem-na' e 'tem-la'); mas, atenção, trata-se de construções e pronominalizações distintas.
     'Tem-na' é a construção pronominal do verbo no presente do indicativo e na terceira pessoa do singular combinado com o complemento direto feminino (como é o caso da frase exemplificada na questão); 'tem-la' corresponde à conjugação da segunda pessoa do singular no presente do indicativo, seguida da pronominalização do complemento direto feminino. 
      Ou seja, face à frase 'Tu tens uma camisola nova', é que haveria a pronominalização "(Tu) tem-la", seguindo a regra dos verbos terminados em 'r', 's' ou 'z' e adquirindo a forma 'lo(s) / la(s)', com a queda dessa mesma letra final. Daí as realizações seguintes:
      i) Tu tens uma camisola nova > Tu tem-la.
      ii) Ela fez uma camisola nova > Ela fê-la.
      iii) Vou lavar a camisola nova > Vou lavá-la.
      
      Assim, para a conjugação da terceira pessoa, há a forma 'tem-na'; para a da segunda, 'tem-la'.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Do cão que não fala e da luz que falta por dentro

     Entre Vieira e Santos Guerra, há sempre espaço para se refletir sobre o papel do professor.
       
    No Coração da Escola (2003) é título para o professor de Organização e Desenvolvimento Curricular Miguel Santos Guerra citar uma história que muito faz refletir sobre as relações do ensino-aprendizagem e das vantagens que uma plataforma interrelacional dos polos comunicativo-educativos oriente o que o autismo de cada um deles, exclusivamente em si mesmos, nunca permitirá. Reza então a história citada o seguinte:
  
     Num congresso internacional sobre a linguagem, um famoso linguista americano disse em plena conferência que, com o recurso às novas teorias de ensino das línguas, havia ensinado o próprio cão a falar. Pelo auditório ouviu-se um intenso burburinho, mas o conferencista insistiu:
    - Sim, ensinei o meu cão a falar. Tenho-o ali fora, posso mostrar-vos. 
     Fez então um sinal para que lhe trouxessem o animal.
    A agitação na sala cresceu quando viram o cachorro sobre a mesa de conferência. Dezenas de flashes dispararam e audiência esperava então pela demonstração da eficácia do ensino.
    Passou um minuto, dois minutos … e o cão agitava-se inquieto sem se ouvir qualquer sinal de fala.
    A audiência lançou o olhar para o conferencista, num ar de censura e este, então, disse:
    - Bem, eu ensinar, ensinei. Ele é que não aprendeu.

     Uns séculos antes (quatro, mais precisamente), nos seus Sermões, Padre António Vieira já havia também produzido reflexão na mesma ordem de ideias, salientando, contudo, a importância de orientar e criar as condições favoráveis à aprendizagem - esta, aliás, era grande preocupação jesuítica no processo de evangelização, também muito focada na eficácia do ensino. Atualmente, nos circuitos de processamento da informação construídos entre quem ensina e quem aprende, muito se tem falado das teorias de receção e de input, mais as de ativação e (re)produção pautadas pelo ensejo e desejo do output. E quando muito se discute entre os desfasamentos ou desníveis que elas revelam (ou a falta de linearidade ou correspondência direta e imediata entre ambas), importa centrar a reflexão na noção de intake. Interessa abordar esse ponto intermédio, de apropriação, integração e interestruturação das aprendizagens pretendidas. Neste sentido é que o ato de compreender adquire sustentabilidade cognitiva significativa, implicação na aprendizagem - afastando-se, portanto, do que é a mera produção imitativa, sem grande ou nenhum sentido.
       Muito disto pode ser revisto no pensamento de Vieira:
Imagem alusiva a Santo António, pregando aos peixes
     “O Mestre na Cadeira diz para todos; mas não ensina a todos. Diz para todos porque todos ouvem; mas não ensina a todos, porque uns aprendem e outros não. E qual é a razão desta diversidade se o Mestre é o mesmo e a doutrina a mesma? Porque para aprender não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro. Se a luz de dentro é muita, aprende-se muito; se pouca, pouca; se nenhuma, nada.” 

     Hans G. Furth, numa obra de 1981 intitulada Piaget and Knowledge. Theoretical foundations (Chicago/London, The University of Chicago Press, p. 232) e cujo registo original data de 1969 (Prentice-Hall, Universidade de Michigan), aponta para o facto de a compreensão ser "much more than to transmit outside information. To understand means to restructure the situation and transform a given problem in terms of one's internal equilibrated structure". Assim, tanto a exposição como a externalização de um dado não significam necessariamente a sua aprendizagem; representam, antes, uma condição mais ou menos neutra de contacto com esse dado, o qual requer uma outra etapa, estrategicamente preparada, de modo a se tornar conhecimento, aprendizagem significativa e sustentada.
     Richard Schmidt, por exemplo, no artigo "The Role of Consciousness in Second Language Learning" (publicado na revista Applied Linguistics, vol. 11, nº 2, Oxford University Press, 1990, pp. 129-158), depois de se referir à controversa questão da consciência / inconsciência na aprendizagem das línguas, reconhece na primeira as vantagens de conjugação de fatores como a atenção, a memória a curto prazo, controlo e automatismo, processamento em série e com paralelismo analógico. Estão aqui pontos fulcrais para qualquer aprendizagem, linguística ou não (como se nesta última não estivesse também a primeira).
       Falar de intake focaliza a questão dos efeitos do input, o instante em que os dados são integrados na base da memória (mais ou menos temporária) do aprendente, a ponto de a educação a que se encontra exposto se moldar à sua própria aprendizagem.

      Talvez não fosse mau que alguns responsáveis da educação revisitassem a literatura clássica, concluindo que respostas rápidas, imediatas e económicas não são as que alicerçam esse "entender por dentro", para não dizer que nem sempre a "luz" se encontra "ligada" (ou que frequentemente se encontra "fundida").

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Madiba livre, no paraíso.

     Talvez vá na direção do céu ou talvez tenha nele caído, para novas viagens.

    A notícia da morte de Nelson Mandela não pode dizer-se inesperada; simplesmente não era desejada (como se alguma morte o fosse). E nunca o seria, pelo Homem que foi; pelo que lutou; pelo que venceu e pelo que soube perdoar, dando oportunidade a que a liberdade para si negada se tornasse no bem possível para a liberdade de muitos mais. De homem da tribo, fez desta o nome que levou para o mundo e assim se fez Homem.
     No dia em que também se anunciou que um quarto da população portuguesa se encontra na condição ou no limiar da pobreza, o pensamento de Mandela faz todo o sentido - não há melhor tributo do que lembrar a sua palavra, a sua ideia, o seu princípio:


    Por este e por outros pensamentos mais, o exemplo multirracial, plural, atento ao próximo que Madiba representa é digno de não ter fim. Fosse ele inspirador para governantes e políticos cá neste canto à beira-mar plantado e estaríamos bem mais esperançados - o problema talvez esteja mesmo no facto de, mais do que precisarem de ser melhores políticos, terem de mostrar maior interesse pelo bem comum, maior humanidade e serem melhores homens.

     Com a partida dos bons, perdemos referências e ficamos à espera de quem (de alguma forma) as iguale no bem que fizeram. Se o paraíso for democrático, voto em Madiba e nos que, em consciência, o apoi(ar)am na luta empreendida: o de a terra poder ser mais justa.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Uma estrela que ninguém (devia) quer(er)

      Nem sempre os títulos dizem tudo dos textos.

      Mais uma razão para ler o todo, pois a parte pode ser enganadoramente brilhante. E, como diz o povo, "Nem tudo o que (re)luz é ouro". 
      Isso mesmo nos canta Áurea, que se associou à Amnistia Internacional Portugal, para, com a sua música e voz, ajudar na denúncia de uma das situações que mais fere, viola os Direitos Humanos: a do tráfico de seres humanos.
       Caso para dizer que há "false shining stars":


The Star

It's a quarter past nine
And I'm ready to depart
My heart gets colder
My soul empty and dark
It's time to draw a blank
Over my and expectations
Just play the role
Carry on with no denial

Maybe there's a chance
To step out and run away
Or maybe nothing else
Besides anguish and despair
'cause years went by
Since i multiplied my own name
So here i am now
Your fantasy
False shining star

I'll fake you love and glory
Be the star in your story
I'm all you deserve
And quietly serve
Desires and whims
That you dream

Tonight, look at me smiling
While you reign and dictate all the rules
If you could just be able
To grasp beyond what you see
But why would you care
If you have me, your possession
So here i am now
Your fantasy
False shining star

I will lie to please your fiction
Playing my role accurately
All desires with fire
All secrets with velvet
I'll be who you want me to be
But you see the point is while you lust
My heart is bleeding
I will cry, I will scream, I will roar

I will lie to please your fiction
But i'll never be yours

     Com Áurea, pode dizer-se que se está perante uma "real shining star", tanto nos arranjos discográficos como nos espetáculos de rua
      Também nas causas a que se junta. É artista de voz cheia e produção entusiasta.

      Um caso áureo, esta Áurea da música portuguesa cantada em inglês.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Filho(a) desnaturado(a)

      Bem que eu aviso os meus alunos para usarem as vírgulas nos sítios em que estas são obrigatórias.

      É para não seguir os exemplos (maus, claro), que nos surgem aos olhos, que faço tanta chamada de atenção:

Fotografia de uma carrinha à espera de vírgula (VO)

     Filho, ou filha, desnaturado(a) este(a) que, ao chamar a mãe por escrito, se esquece de colocar a vírgula do vocativo. Este é caso muito claro no português: quando se chama alguém, a marca gráfica desse chamamento é identificada pela vírgula. Daí que, a seguir à palavra 'mãe', devesse aparecer tal sinal de pontuação, tão necessário à identificação da função sintática do vocativo.

     Será que deu para perceber, minha gente (cá está a devida vírgula)? É para evitar anúncios publicitários destes que estou sempre a bater na mesma tecla: a da vírgula nos vocativos. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cápsulas defeituosas...

     Há publicidade enganosa e há publicidade com defeito. Não há (bom) produto que escape.

     Na sensibilização para as qualidades da cápsula do café Nespresso, lê-se o que não se devia:

     
     Frase infeliz para a seguinte página publicitária:


     Confundir 'contém' (singular) com 'contêm' (plural) é obra publicitária que desvirtua qualquer produto publicitado - muito mais quando um apreciador de café deprecia quem lhe maltrata a língua. Não há combinação possível entre o sujeito sintático singular ("A cápsula") e o núcleo verbal do predicado no plural - uma das propriedades típicas do sujeito é precisamente a de requerer a concordância a fazer com esse núcleo verbal.
     Segredos destes são desnecessários (tanto às cápsulas como ao café). Não há George Clooney que valha, com ou sem a companhia de Deus (na pessoa de John Malkovich)!
     Quando for comprar café Nespresso (porque gosto do café) vou pedir desconto (porque não gosto do erro).

    Não há direito. Recriando o provérbio: na melhor cápsula cai a borra.

sábado, 30 de novembro de 2013

Depois de uma noite feita de "Oh, les beaux jours" (ou "Happy Days")

        Só por ter sido trauteada, hoje a música não me sai da cabeça.

     A meio da representação de "Ah, os dias felizes" (1960-61) surgem os acordes da "Viúva Alegre" (1905), composta pelo austríaco Franz Lehár (1870-1948).
      Beckett construiu a personagem Winnie enquanto mulher que faz o balanço de um percurso de vida, composto das memórias, lembranças que o discurso e a linguagem permitem reconstituir; na encenação de Nuno Carinhas, associou-se-lhe a música e uma das composições ouvidas é a de Lehár.
      É dessa melodia que hoje não me livro:


      No dueto do tenor espanhol Plácido Domingo e da soprano porto-riquenha Ana Maria Martinez, fica esta versão da valsa que popularizou Lehár.

     Melodia para uma história de amor feita de encontros e desencontros, principalmente construída para emocionar”.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Uma noite com "Ah, os dias felizes"

      A noite foi de Beckett, para um texto desconcertante e uma representação dominantemente monologada por Emília Silvestre.

     Na reflexão feita sobre a vida e a condição humana, dois atos dão a ver uma mulher presa a uma pedra, com tanto de verticalidade na aspiração e elevação dos anseios como de horizontalidade sugestiva na laje sepulcral. No fluir do discurso, há um balanço de vida feito das lembranças que a memória ainda consegue reconstruir. Repetem-se alguns gestos - os possíveis, já que alguns vão sendo perdidos com a passagem do tempo. Espera-se (não por Godot, mas pela morte), na progressiva prisão que a monumental rocha vai moldando ao corpo, até que só há cabeça, pensamento e discurso; até que os olhos fecham e nada mais se ouve dizer.
      A isto assiste o espectador até que, no vaivém do diz ele-diz ela (um par de vultos evocados do passado), se sente invadido, observado por Winnie - como se a realidade estivesse com ela e o teatro passasse a ser vivido na plateia e nos varandins. À maneira de Beckett, representa-se a vida rotineira e banal pelo que esta tem de universal. A universalidade humana, afinal, reflete essa mesma vida sedenta de comunicar com o outro; de sentir a presença de alguém; de ver e de ser visto; de procurar ler o que não se consegue ver; de agarrar e organizar repetidamente aquilo que vai acabar por ficar invisível, mas que se vai 'saber', ainda assim, que estará sempre lá. É este, tem sido assim (como antigamente), o percurso que a Humanidade inscreve na sua vida, com a composição de sons ora alegres ora chorosos, ora pacíficos ora convulsos; com a nota de solidão (apesar das comunhões construídas); com a dimensão individual nos dilemas e receios (não obstante os laços afetivos que se mantenham, sejam estes presenciais sejam eles limitados à recordação). E no meio de tudo, há sempre o som estridente do despertador, compassando o tempo; marcando o acordar para a vida e para a construção dos atos.
     A profundidade humana surge equiparada às entranhas da terra, ligada a ela. Ambas são concretas, compostas, numa sedimentação que resiste até à ameaça do incerto, do desconhecido e do incompreensível, tornado fragmentário, nas camadas que as compõem.
     Pelo poder das palavras e do discurso produzido por Winnie, aqui e além acompanhado por Willie, ganha-se consciência da reflexão produzida: a do ser que vive na língua que usa, que o faz comunicar com os outros e consigo próprio (ocupando o tempo e o espaço que o circundam). A morte chega quando, mais enterrada na pedra, Winnie vai quebrando esse fio de pensamento e de expressão até ao momento em que não produz qualquer som para representar ou para (se) ouvir.
      "Ah, os dias felizes", numa fidelidade maior à tradução francesa de Happy Days (Oh les beaux jours), é o título para a convergência no gosto de um passado (como antigamente ou à moda antiga) e no sentido de vida voltado para um canto (mesmo que seja o lendário canto do cisne).
       A dissolução do ser faz-se, assim, na ansiada harmonia do inefável.

    "E no entanto ela move-se" é a máxima galileiana para se referir ao movimento da Terra que outros queriam negar; pode também valer para significar a progressão da vida, por mais que esta seja vivida nessa ideia de que a fração do segundo seguinte é igual à do anterior (o mestre Caeiro já nos ensinou que não, atento que estava à eterna novidade do mundo em cada instante).

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

De mais e de menos, quando é a mais ou a menos

      Há casos que se revelam tão críticos que só os trataria com exemplos muito bem escolhidos, até porque há realizações que não são fáceis de resolver nem tão simples de entender.

      Não fujo aos pedidos de ajuda, mas não se pode dar soluções (rápidas) para aprendizagens que são morosas, pois convocam uma rede de relações muito complexa e diversa no processamento a fazer (nomeadamente no ensino a promover) e nas condicionantes de realização a ativar.

     Q: Vítor, estava a preparar uma ficha de trabalho com alguns pares de palavras / expressões conflituosos. No que diz respeito a "demais", enquanto advérbio de intensidade, fiquei com dúvidas. Há frases (Ele come demais) que posso transformar, dizendo o antónimo "de menos" e, por isso, acho que o mais correto seria dizer "Ele come de mais." Quando puderes, diz qualquer coisinha.

        R: Este é, por certo, terreno crítico, de areias movediças, pelo que a ficha terá de clarificar e jogar com dados muito explícitos face a algumas realizações que possam admitir as duas formas de escrita.
       O caso da palavra 'demais' é relativamente pacífico quando configura um advérbio de intensidade (sinónimo de 'excessivamente', 'demasiado', 'muito', para modificar um adjetivo, verbo ou advérbio), como em 1; um advérbio conectivo (com o sentido de 'além disso' ou ' de resto'), como em 2; um pronome indefinido (na lógica de quantificação associada ao significado de 'os outros', 'os restantes), como em 3:

  1)   Aquele rapaz é inteligente demais! / Nunca é demais avisar dos perigos / As más notícias chegaram cedo demais.

   2) Chega de tanta brincadeira; demais, está na hora de sossegar, para toda a gente poder dormir.

   3) Alguns decidiram ir à discoteca; os demais foram ao cinema.

      O que constitui dúvida frequente é a homofonia presente no contraste do advérbio 'demais' e da locução adverbial 'de mais'. Esta última é usada em contextos permutáveis com a expressão 'a mais', numa lógica de quantificação comparativa implícita ('a mais do que o considerado normal') - daí a aproximação 'de mais' / 'de menos':

   4) Ele falou de mais (isto é, falou a mais do que é normal, focalizando um número de tópicos / assuntos ou a quantidade de tempo gasta), para compensar os dias em que falou de menos (ou seja, falou a menos).

   5) Ele comeu bolos de mais (ou seja, comeu bolos a mais, numa quantificação / pluralização  - ainda que indefinida - acima do considerado normal) e também bebeu de mais (ou seja, bebeu a mais, na lógica e no foco das quantidades consumidas).

   Quando o foco significativo é colocado em termos de intensificação e de excesso (inclusive na consideração do processo configurado no verbo), já será o advérbio 'demais' a ser utilizado, numa orientação aspetual associada a questões de duração e iteratividade. Daí a distinção, por exemplo, entre "Ele lê de mais nas férias" (para, comparativamente, se diferenciar de outros momentos em que lê de menos, perspetivando uma atividade levada a cabo num intervalo de tempo mais circunscrito e com foco num número, ainda que impreciso, de livros / obras lidos) e "Ele lê demais" (numa orientação mais focada para um entendimento do verbo 'ler' enquanto processo, sem intervalo de tempo nem quantificação definidos quanto ao número de objetos lidos e/ou de quantidade de tempo usada).
     Também é significativo o contraste "Ele viveu de mais" / "Ele viveu demais", conforme se oriente a leitura, respetivamente, para o sentido de alguém ter vivido muito tempo (foco na quantidade associada aos anos de vida - viver a mais, em contraste com viver a menos) ou para a intensidade quanto ao modo de vida adotado (independentemente do número de anos de existência).

     Há, portanto, no caso da modificação de verbos, variáveis a considerar para a seleção de 'demais' / 'de mais', com implicações semântico-pragmáticas de foco interpretativo muito distinto (nomeadamente, o da quantificação / intensificação pretendidas; o do sentido aspetual considerado na predicação).

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Oralidade no novo (?!) programa de Português do ensino secundário

    De regresso à nova proposta de programa de Português - Secundário, focalizando o domínio da oralidade e suas relações com outros que com ela convivem.

      A leitura comparativa dos três anos de escolaridade do nível / ciclo secundário fez-me levantar algumas questões, nas correspondências que procurei estabelecer na formulação das metas e dos objetivos. Depois da gramática, foquei a oralidade (na sua especificidade e nas suas articulações com outros domínios):
       Em síntese, novas tabelas de dados permitem-me verificar  mais alguns pontos críticos:

 
 
 
(Clicar nas imagens para visualização maior)

    Das questões e das constatações sublinho o seguinte: a oralidade (na súmula da compreensão e da expressão) surge num peso tão residual face à escrita, com objetivos e descritores tão desarticulados e inconsistentes entre si, que
    a) se evidencia o desaproveitamento que o tratamento / aproveitamento do oral (na sua natureza mais formal, planificada e estruturada) poderia ter de vantajoso para a própria produção escrita (enquanto passo preparatório, modelo ou ponto de partida para se trabalhar uma plataforma de integração do oral mais formalizado com a produção escrita);
    b) se secundariza a oralidade a ponto de este domínio, pela reduzida gestão de tempo atribuída, não poder aparecer implicado 
              . na resolução de questões críticas da escrita (relações fonia-grafia); 
              . no tratamento e análise da adequação pragmática dos discursos (para lá das questões de cortesia, que são praticamente as consideradas no programa) - o que resulta numa inconsistência grave pelo reducionismo a que a pragmática também está votada no domínio da gramática; 
            . no exercício de competências verbais e sociais (que mostram como ‘dizer’ é ‘fazer’ algo com os atos discursivos, sejam este diretos ou indiretos, implícitos ou explícitos) que possam ser produzidas, avaliadas e redefinidas em várias oportunidades de ativação em aula, abordagem e treino consistentes de práticas de raciocínio lógico e argumentativo;
     c) se definem objetivos e descritores cuja articulação, progressão e textualização são no mínimo dúbias quanto ao crédito que se lhes possa atribuir (exemplo: no objetivo cinco, o segundo descritor surge incompreensivelmente isolado no 11º ano, como se houvesse alguma justificação metodológico-didática ou cognitiva para os alunos de qualquer ano de escolaridade não o poderem cumprir; o descritor três desse mesmo objetivo, no 12º ano, aponta para o diferencial dos “marcadores discursivos que garantam coesão”, como se estes últimos não fossem um mecanismo de coesão e coerência previsto no 10º e 11º - sem qualquer especificação - e como se a coerência, agora, fosse questão de somenos importância e os segmentos coesos não fossem passíveis de ser avaliados como incoerentes); 
    d) se revelam relações críticas, mesmo em termos de conteúdos (exemplo: associar o princípio de cortesia ao princípio de pertinência / relevância é misturar focos de análise da interação distintos: respetivamente, ora focado na regulação dos interlocutores, por questões de educação / face e estratégia conversacional, ora orientado para mecanismos de ativação / seleção informativa ou cognitiva);
      e) aponta para a ausência de criteriação precisa nos descritores definidos para os objetivos, encarados como transversais ao ciclo (exemplo: no objetivo dois, sobre registo e tratamento da informação, aponta-se para um descritor relativo à organização da informação sem qualquer indicação de critério subjacente; no objetivo três, para planificação de intervenções orais, além de não se fazer nunca a distinção progressiva básica de discursos dialógicos / monológicos, imediatos / mediados, faz-se a progressão do descritor ‘pesquisar e selecionar informação’ para ‘pesquisar e selecionar informação diversificada’, como se este adjetivo fosse a marcada diferença para a evolução de competências – mesmo a sequencialização de tópicos, no objetivo seguinte, ao nível do 11º ano, não apresenta nenhum critério específico e/ou progressivo que apresente alguma aprendizagem significativa no processo).
     Complementarmente e pelo que pôde também ser lido no domínio tão priorizado da Educação Literária (quanto mais não seja pelo peso que lhe foi atribuído na própria gestão de tempos), registo ainda o seguinte: a listagem de conceitos implicados na abordagem do texto literário fica entre a repetição terminológica já familiar aos alunos do ensino básico (portanto, sem qualquer progressão significativa para o nível secundário – veja-se, por exemplo, a listada para a abordagem do texto dramático) e a reprodução de fragilidades comuns a programas antigos da disciplina (de que a noção de presença na ação, ao nível dos textos narrativos, é o exemplo mais evidente: mantém a confusão entre o que é a presença / ausência do narrador no discurso e a participação / não participação dele na ação, quando autores sugeridos no programa funcionalizam e ativam essa distinção de forma notória nos seus textos, como é caso de Garrett, Camilo, Herculano ou mesmo Saramago).

       Francamente, a antiguinha expressão de que a montanha pariu um rato parece-me a mais ajustada para, cada vez mais, haver a completa noção da regressão e da perda de tempo face a um trabalho (a proposta de documento) e a uma discussão estéreis.

sábado, 23 de novembro de 2013

Regresso aos modificadores

     A propósito do conhecimento (nomeadamente o gramatical), não interessa onde o ter.

    Contacto para nova frase:

     Q: Olá, Vítor, tiras-me uma dúvida, p.f.? Em "A planta é conhecida no Brasil.", "no Brasil" é Modificador do Grupo Verbal, certo?

   R: Certo. Numa frase passiva, o núcleo verbal (o verbo 'conhecer' no particípio passado) ativa a estrutura argumental de um verbo transitivo direto: alguém CONHECE alguma coisa. 
       Subjacente à realização ativa 'Alguém conhece a planta no Brasil', o segmento 'no Brasil' corresponde ao modificador do grupo verbal. O mesmo sucede na transformação passiva, cujo predicado é formado pelo verbo auxiliar ser mais o particípio passado do verbo principal (conhecer > conhecida) e, ainda, o modificador que integra o predicado (no Brasil).
        Entre os testes que evidenciam este último dado, constam os seguintes:

1) a possibilidade de o modificador integrar a resposta focalizada no processo representado pelo verbo 'conhecer':
- O que é que se passa com 'A planta'?
- É conhecida no Brasil.

2) a possibilidade de esse modificador integrar uma questão cuja resposta focalize o sujeito sintático:
- Quem é / O que é que é conhecida no Brasil?
- A planta.

3) a possibilidade de o modificador integrar uma questão do tipo sim / não, podendo a resposta negativa dar lugar a reformulação:
- É no Brasil que a planta é conhecida?
- Sim, é. / Não, não é. É na China.

      Ainda a este propósito, aconselho a consulta de apontamentos anteriores, nos quais a questão foi já abordada com outros exemplos (alguns dos quais bastante complexos no seu processamento e na sua distinção sintática).

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Viva o rigor e a excelência!

     Ou como diria o povo (de que faço parte), "No melhor pano cai a nódoa".

    Corre, via Facebook, algo que, no comum que tem, acaba por pôr cobro aos discursos ministeriais (há já muito) nada convincentes, no tema / assunto ou para o público a que se destinam. No contexto de inscrição de professores para um exame que lhes permitirá acesso à carreira, o Ministério da Educação, ou alguma das suas estruturas, parece não dar o exemplo, conforme se poderá depreender da leitura do apontamento seguinte:

(Conforme ao registo encontrado no Facebook)

      Errar é humano, é certo; mas, para quem assume um discurso de rigor e exigência necessários à profissão, parece ser o próprio "patrão" a falhar (ainda que por interposta pessoa).
      Assim, fica mais uma vez o crédito por mãos alheias. Podem os professores-corretores (e ainda bem que não fui convidado para tal) começar a cobrar a quem erra ortograficamente (ao redigir formulários indevidos).

       Fosse aluno meu e já estava a ler a palavra IDENTIFICAÇÃO dentro de um círculo vermelho, mais o pedido de escrita de duas ou três frases, nas quais o termo aparecesse bem grafado.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Uma questão de 'dor' (sem ser a dor de pensar ou a do fingidor pessoano)

    Pedem-me comentário sobre a nova filosofia desportiva introduzida por Abel Xavier no futebol.

    Perguntam-me, ainda, se dor não é um sufixo agentivo, no meio de tanto pontapé na bola e no jogo de tanta dor. Direi, desde já, que sim e não só.
    Entre risos e comentários, relembrem-se as palavras do treinador (que foi... já não é..., porque treinos destes ninguém quer!):


    O homem, não sendo linguista, até procurou teorizar um pouco sobre a formação das palavras. Tudo ao lado (claro está!), uma vez que tratou palavras derivadas como se fossem compostas; viu uma palavra (dor) onde só poderia ver um afixo (sufixo). Confundiu, logo, composição com derivação. 
    O sufixo '-dor', etimologicamente, deriva do latino '-(t)or', o que, em muitos casos, redunda num simples caso de evolução fonética apoiada na sonorização de [t] para [d] em contexto intervocálico: 'administrātor,ōris' > administrador; 'computātor,ōris' > contador; 'gubernātor,ōris' > governador; 'imperātor,ōris' > imperador. 
     A produtividade deste sufixo, entretanto, é evidente, no Português, pela sua adjunção a bases verbais, de modo a formar:
. nomes agentivos (ex.: acusador, armador, corredor, descobridor, nadador, operador, pescador, pregador, restaurador, trabalhador, vendedor) ou que implicam causatividade e processos de aspeto durativo (ex.: adestrador, afinador, polidor);
. nomes transferidos da agentividade para a designação de instrumentos de ação relacionados com causatividade (ex.: agrafador, aquecedor, elevador, espanador, regador, ventilador);
. adjetivos que denotam agentividade e/ou causatividade (ex.: admirador, enriquecedor, norteador, pensador, prosador, seguidor, sofredor).
    Caso para dizer que, à moda (inconsistente) de Abel Xavier (e só para ele), o 'amador' torna-se masoquista; persegue-se o 'salvador', para não salvar o que ninguém quer; 'doador' e 'dador' estão condenados, por doarem ou darem o que não se deseja; 'criador' é entidade maléfica, por certo. Heróis seriam, portanto, o 'traidor' e o 'torturador'. 
      Está visto que, perante tal 'treinador', qualquer um preferiria ser 'perdedor'. Daí ser treinador sem futuro.

    É na base dessa filosofia que entendo a minha predileção (face a determinadas interpretações abusivas) por um instrumento da sala de aula como o 'apagador'.