quinta-feira, 31 de maio de 2012

Circularidades... de um texto e de uma peça...

    "No dia seguinte ninguém morreu" - início para um romance de José Saramago (2005); início e fim para a representação de uma peça, inspirada nesse romance e encenada numa coprodução do Ítaca Teatro de Itália, da Associação Cultural Quinta Parede e da companhia Trigo Limpo.


     Uma reflexão sobre a vida, a morte, a linguagem e o amor, mais o sentido ou a falta dele na nossa existência: eis aquilo a que o espectador assistiu no Teatro Carlos Alberto, no âmbito do  FITEI, numa representação dinamizada pelos atores Ginni Bissaca, Marco Alotto e Sara Alzeta, em franca fidelidade à narrativa de Saramago (muito bem conseguida no tom e no conteúdo do texto-base).
     A celebração da vida, com requintes e prazeres, é a imagem de partida; todavia, é a morte que o Nobel português da Literatura foca como tema fulcral, nas relações que mantém com a organização da vida, dos sentimentos e da expressão de poder. Farta de ser temida e indesejada pela Humanidade, a "Senhora Foice" suspende a sua ação e, num certo país, ninguém morre. Do fervor patriótico ao grave problema o passo é curto, denunciando-se os interesses que o Estado, a Igreja e o comum dos  cidadãos revelam para com ela.
    Retomada a normalidade, é risível (porque nos rimos daquilo que nos assusta?) a ideia de a Morte anunciar uma semana antes o seu propósito, em carta de cor violeta. Como comunicar não é fácil, é desafiadora a devolução da carta à própria Morte (Bem feito! Como sairá ela disto?). 

      «Sobre a mesa há uma lista de duzentos e noventa e oito nomes, algo menos que a média do costume, cento e cinquenta e dois homens e cento e quarenta e seis mulheres, um número igual de sobrescritos e de folhas de papel de cor violeta destinados à próxima operação postal, ou falecimento-pelo-correio. A morte acrescentou à lista o nome da pessoa a quem se dirigia a carta que tinha regressado à procedência, sublinhou as palavras e pousou a caneta no porta-penas. Se tivesse nervos, poderíamos dizer que se encontra ligeiramente excitada, e não sem motivo. Havia vivido demasiado para considerar a devolução da carta como um episódio sem importância. Compreende-se facilmente, um pouco de imaginação bastará, que o posto de trabalho da morte seja porventura o mais monótono de todos quantos foram criados desde que, por exclusiva culpa de deus, caim matou a abel. Depois de tão deplorável acontecimento, que logo no princípio do mundo veio mostrar como é difícil viver em família, e até aos nossos dias, a cousa tinha vindo por aí fora, séculos, séculos e mais séculos, repetitiva, sem pausa, sem interrupções, sem soluções de continuidade, diferente nas múltiplas formas de passar da vida à não-vida, mas no fundo sempre igual a si mesma porque sempre igual foi também o resultado. Na verdade, nunca se viu que não morresse quem tivesse de morrer. E agora, insolitamente, um aviso assinado pela morte, de seu próprio punho e letra, um aviso em que se anunciava o irrevogável e improrrogável fim de uma pessoa, tinha sido devolvido à origem, a esta sala fria onde a autora e signatária da carta, sentada, envolta na melancólica mortalha que é seu uniforme histórico, com o capuz pela cabeça, medita no sucedido enquanto os ossos dos seus dedos, ou os seus dedos de ossos, tamborilam sobre o tampo da mesa.»

      E quando esta se disfarça de mulher sedutora,  promovendo maior aproximação a um violoncelista, é este último que a domina, a seduz, fazendo-a destruir a carta violeta a ele destinada - e, assim, "No dia seguinte ninguém morreu".

     Circularidades... tal como os ciclos de vida que se repetem, nas rotinas que se impõem e/ou nas novidades que dão outra perspetiva ao que o eterno tempo pode, por alguma boa e harmoniosa razão, deixar ecoar.

Sentir... sinta-se o que é!

     A sintaxe é domínio gramatical que se constitui como fonte de muitas questões, dúvidas... a esclarecer. Assim o consiga!

Q: Gostaria apenas de esclarecer o seguinte: na frase "Ela sentiu a irmã descontente", o verbo sentir pode classificar-se como transitivo-predicativo? Se assim for, na frase - "O João sentiu-se mal" - em que o "se" se pode considerar inerente ao verbo, por que motivo "mal" não pode ser considerado um predicativo do sujeito? Sentir-se mal, parece-me um estado, tal como sentir-se doente.

     R: Começo por fazer uma abordagem inicial para responder à primeira questão, até porque ela virá a ter implicações com a segunda.
   O verbo 'sentir' caracteriza-se pela propriedade da transitividade, segundo uma lógica traduzível tipicamente numa estrutura argumental do tipo 'Alguém SENTIR Alguma coisa' / 'Alguém SENTIR(-se) De algum modo'. Pela natureza transitiva do núcleo verbal se pauta a complementação selecionada: ora a de complemento direto (Sentir O QUÊ? > Senti-lo /la) ora a de complemento oblíquo (Sentir COMO? > Sentir assim).
    Atendendo à transitividade mencionada, não é compatível a consideração de 'sentir' como verbo de tipo copulativo, ou seja, que seleciona ou liga um predicativo ao sujeito. Por outro lado, em termos de aspeto gramatical, 'sentir' não é um estado (tipicamente não admitindo construção progressiva: '*Ele está a estar / ser mal / doente'), mas sim um evento (admitindo tal construção: 'Ele está a sentir-se mal / doente'). Entra na categoria dos processos associados à percepção física e/ou psicológica.
    A transitividade de 'Sentir', por seu turno, é combinável com uma relação predicativa, à semelhança de verbos transitivos predicativos (como é caso de 'avaliar', 'nomear', 'eleger', 'considerar', 'julgar' e 'achar'): além do argumento que funciona como complemento direto, segue-se uma estrutura com um predicador descritivo-identificacional, apontando para um predicativo do complemento direto. Ou seja, a frase 'Ela sentiu a irmã descontente' apresenta um predicado (sentiu a irmã descontente) constituído por um complemento direto (a irmã > a) mais o predicativo deste último. Tal acontece por, no fundo, 'sentir' acarretar, na frase dada, uma avaliação / apreciação (cf. 'Ela avaliou a irmã como descontente', 'Ela considerou a irmã descontente').

      Sendo possível um predicador na sequência ou continuidade de uma estrutura transitiva (daí os verbos transitivos predicativos), um predicativo do sujeito requer um verbo de ligação ou copulativo (para ligar uma propriedade / característica ao sujeito do enunciado).
    

terça-feira, 29 de maio de 2012

Literatura... até na procura...

    Porque há quem procure o indefinível, por mais que se (nos) apresente ao(s) sentido(s).

    Nunca serão demasiadas as palavras dos que a melhor conheceram.


     A busca de uma entidade que faz (re)ver o Homem, que é do Homem e para o Homem e para o que este e o seu mundo possam ser.

   Estudaram-na, (re)criaram-na, tornaram-na a mestra que nos ensina, sem tempo e sem espaço de aula... não mais do que a vida tem e/ou possa ter.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Homens feitos da mesma massa dos sonhos...

     Assim abriu o FITEI deste ano: Tempestade Indiana, inspirada na obra de Shakespeare e criada em três meses de residência artística na Capital Europeia da Cultura 2012 (Guimarães).

   Um nome grande e clássico, um palco mágico no Mosteiro de Santo Bento da Vitória para uma representação singular, numa miscelânea performativa a convidar uma Babel de sentidos... todos à procura de um fio de Ariadne capaz de reconhecer na atuação um texto que alguns não conheciam; outros não reconheciam; outros, ainda, lembravam de um contacto já distante ora com a obra ora com outras dramatizações do mesmo autor.
    Grandes são os desconcertos do mundo quando no plano da fantasia, do humano e da natureza tudo se encontra em ebulição. The Tempest, uma das últimas obras do dramaturgo isabelino, apresenta uma intriga de conspirações oportunistas, de traição, de vingança, de amor. Nela se contrapõe a ferocidade que habita o Homem à espiritualidade marcada pela ânsia de liberdade e pela lealdade (que também o caracterizam). 


      Num palco feito com um círculo de panos e uma tela de sombras, surge a ilha habitada por Próspero (Duque de Milão, mago poderoso) e pela filha Miranda. Aí se encontram exilados na sequência de um ato de traição política. Com o primeiro, Caliban (um inconformado nativo da ilha, tornado escravo do Duque) e Ariel (espírito servil, metamorfoseável em ar, água ou fogo) veem chegar os sobreviventes de um naufrágio: o usurpador António, irmão de Próspero, mais o cúmplice dele, Alonso (rei de Nápoles), o príncipe Ferdinand (filho do rei e que se torna noivo de Miranda). Um jogo de máscaras e personagens rocambolescas desfila para lembrar que "All's Well That Ends Well", sem desconsiderar a tragédia humana a que todos estão sujeitos.
       Pelas congeminações de Próspero, uma nova história se lê: a da denúncia da fraqueza de António; a da redenção de Alonso e a do amor entre dois jovens. A festa, o casamento de Ferdinand e Miranda permitem a reposição da ordem, e a legitimidade dela, no lugar que lhe compete. 
      A reconciliação acontece com a vingança bem-sucedida de Próspero (até o revoltado Calibã se transforma quando experiencia os efeitos inebriantes do vinho, junto com outros dois bêbados - os tradicionais 'fools' , que têm um fundo cómico feito de virtude e sinceridade).
      A representação da peça a quatro línguas (francês, inglês, sânscrito e malavalam - língua oficial da região indiana de Kerala, onde o grupo Footsbarn realizou uma digressão marcante) é decerto uma babel verbal para o espectador comum. Ariadne tem a música, a luz, os movimentos, o cenário e os adereços para compor um fio não verbal e uma atmosfera de fantasia que fez Shakespeare anunciar que "We are such stuff / As dreams are made on, and our little life / Is rounded with sleep".

       Numa vida breve e que expira num sono, há nesta peça um A Midsummer Night's Dream com algo de milagrosa humanidade, numa obra composta de originalidade e complexidade cénicas, que muitos críticos apontam como a última e maior das peças shakespearianas.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ficando pela metade... ou pelo quase

    Depois das assíntotas, tinha que vir mais esta, bem mais familiar.
    
    Q: Professor, como é que se escreve semi-recta com o acordo?

    R: A ilustração já responde à questão. Dois dados distintos estão implicados na correção: um que se prende, na grafia, com a queda das consoantes mudas c e p; outro com a utilização de hífen nos compostos. Ora, se a propósito do termo simples 'recta' ´se passou a grafar 'reta', o mesmo se diz para o segundo termo da palavra composta. Quanto ao primeiro termo, de origem culta (do latim) a significar 'meio, metade' e a revestir, ainda, as noções de 'quase', 'metade' e 'um tanto' ( > semibreve, semiconsciente, semifinal), por norma perde o hífen, com exceção das seguintes situações:

     i) quando o segundo termo começa com 'h' ( > semi-hospitalar, semi-hodierno);
   ii) quando o segundo termo inicia com a mesma vogal com que fecha o pseudoprefixo ( > semi-integral; semi-independente; semi-internato).

     No caso da questão, por não se encontrar em nenhuma das situações anteriores, retira-se o hífen e passa a ter-se a grafia 'semirreta' (eliminação do 'c', aglutinação gráfica dos termos e duplicação da letra 'r', para ser lido com o som da vibrante múltipla).

   Na mesma linha de conduta gráfica estão os casos que implicam 'anti', 'auto / hetero' 'co', 'hiper', 'intra', 'micro / macro'.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

"Staying alive"... no more

    Bee Gees: nome para um grupo que animava as discotecas da minha juventude. Dos três irmãos Gibb, Robin faleceu hoje, aos 62 anos, numa luta contra a doença do tempo: o cancro.

   Barry, o sobrevivente, vê-se assim separado de Maurice (2003) e de Robin, com os quais se dedicou à música, tendo formado um conjunto musical responsável por sucessivos sucessos em vários estilos musicais (rock psicadélico, balada, disco, música country, R&B entre outros), muito reconhecido na tonalidade de voz dos falsetes. De relevo foi também o contributo do grupo e de Robin, em particular, para êxitos compostos para outras vozes, nomeadamente as de Barbra Streisand, Diana Ross, Dionne Warwick, Celine Dion; a dos Destiny's Child; a de Dolly Parton e Kenny Rogers.
   Entre os vários número 1 do Top de vendas musical e os milhões de cópias vendidos, nove Grammys contam-se entre os prémios com que foram agraciados. "Saturday Night Fever" e "How Deep is your Love" são dois dos 'hits' dos finais da década de 70.
    Robin Gibb foi um dos irmãos que arriscaram uma carreira a solo, a nível quer do canto quer da composição.
   Entre as suas últimas composições conta-se a da sua participação no álbum The Titanic Requiem, por ocasião do centenário do naufrágio do Titanic - um trabalho de tonalidade clássica, realizado em conjunto com o filho RJ.


   "Don't Cry Alone" dá-nos a escutar a voz de Robin Gibb.

    No dia de hoje, fica o registo de que "Staying alive" é condição das obras; não do físico humano. Em tempo de morte, fica a harmonia e a magia da música feita pelo homem.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Nada COLD para muito PLAY

     Era por certo muita a chuva, mas maior era o ânimo, abrigado por uma simples capa de plástico.

    Depois do arranque de Rita Ora e de Marina and The Diamonds, chegava o grupo de luxo para o palco multicolor de Mylo Xyloto.
    Para começar, ‘Hurts like heaven’, como se a chuva pudesse magoar alguém que tenha estado no Dragão.     
    Um apontamento ainda para o que foi ‘In my place’, conquistada que estava a cidade - não só a que estava a assistir como ainda aquela que, pelas redondezas, ouvia e se deixava levar pela imaginação no que seria estar frente ao palco, vivendo a luz, a cor, o som espalhados no ar.
    E, por fim, um outro para mostrar como a cidade pode ficar no historial do grupo, a ponto de se poder dizer que é digna de ciência, do conhecimento de um ‘The Scientist’ - "Come up to Porto!", assim o disse Chris Martin, arrancando a ovação devida.


     Um momento, uma experiência... to "fix you" when "lights will guide you home".

     Um tempo de luz em plena noite de sexta-feira, com os grandes Coldplay.

Novo silêncio para antiga voz - uma don(n)a que se foi.

     Mais um óbito para o mundo da música.

     A doença da moda levou mais uma das grandes vozes negras do panorama musical: a "Rainha do Disco", conforme foi apelidada nas décadas de 70 e 80 do século passado.
    Cantora de sucessos como "Love to love you baby", "I feel love", "Hot Stuff", "Bad Girls", "Last Dance" e "She works hard for the money", Donna Summer (nome artístico para LaDonna Adrian Gaines, nascida em Boston no último dia de 1948) falece aos 63 anos, depois de ter influenciado a carreira de muitos autores, cantores e grupos musicais. Um deles, os Westlife, cantou com a diva afro-americana num dos duetos produzidos, originalmente, com Barbra Streisand: "No more tears (Enough is enough)":


    A versão feminina, mais clássica, havia juntado duas vozes portentosas: Donna Summer e Barbra Streisend.


   NO MORE TEARS (enough is enough)

It's raining, it's pouring
my lovelife is boring me to tears,
after all these years

No sunshine, no moonlight,
no stardust, no sign of romance
we don't stand a chance

I've always dreamed I 'd find the perfect lover
but he turned out to be like every other man
our love, our love

Raining (raining)
pouring (pouring)
there's nothing left for us here
and we won't waste another tear

If you've had enough,
don't put up with his stuff,
don't you do it
If you've had your fill,
get the check pay the bill,
you can do it

Tell him to just get out
nothing left to talk about
pack his raincoat show him out
just look him in the eyes and simply shout

Enough is enough is enough
I can't go on, I can't go on, no more no
enough is enough is enough
I want him out, I want him out that door now

I've always dreamed to find the perfect lover,
but he turns out to be like every other man
our love (I had no choice from the start)
our love (I've gotta listen to my heart)
our love (tearing us apart)

Goodbye mister, goodbye,
goodbye mister, goodbye sugar

No more tears
no more tears
no more tears
I've had it, you've had it, he's had it, we've had it
enough is enough is enough is enough

is enough is enough is enough is ENOUGH!!!


    Muitos milhões de discos vendidos, quarenta anos de carreira premiados com os mais altos galardões da música, voz e estilo inconfundíveis - assim fica sumariamente registado um balanço de vida que vê a sua existência física finalizada, para dar lugar ao canto que na memória perpetuará.

    Caso para dizer, em período de tanta morte em tantas boas vozes, "enough is enough".

terça-feira, 15 de maio de 2012

Nem quero acreditar!...

     Registo: estou em período de formação / deformação.

     Esclareço: o tema é o da avaliação e nisso tenho expectativas de vir a ser formado (ainda sou crente neste capítulo).
     Pena é que saia deformado, na língua, por uma plataforma cujas 'Definições' me apresentam, ao nível dos contactos, a seguinte "pérola" da língua (só para referir a primeira, que não deixa esquecer a ausência da seleção da preposição 'de' com o verbo 'precisar'; a ambiguidade sintática do 'por exemplo o Quicktime', que até parece, à primeira leitura, um tipo de som):

      Assim sendo, não pode haver formação em tudo. Formado em avaliação, deformado na morfologia e na conjugação do verbo 'haver'. 

     E ando eu a dizer aos meus alunos que 'haver', enquanto verbo principal, não tem plural ("Há um, havia dois, houve três... milhões até. Só o 'haver' auxiliar tem plural, o mesmo não se diz do principal"). Com uma musiquinha bem entoada, até o "moodle" não leva a mal.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

E tudo passa... e o que fica?

    Entre a aporia e a ataraxia de Ricardo Reis, hoje, nas aulas, falou-se de abdicação, apaziguamento, resignação, aceitação das leis fortes da vida e que o Homem não controla.

     Entende-se que a reflexão de Blimunda sobre a vida e a morte, em Memorial do Convento, não ande longe de uma estratégia de sobrevivência, tal como a filosofia epicurista pintada de algum estoicismo, no heterónimo clássico pessoano.

PASSAGEIRO

Corre o rio,
fluem as imagens,
as flores na jarra, a murchar...

Outras virão,
mais umas outras passarão
e o curso de água faz-se clepsidra, sem parar...

Sucedem-se as mortes na vida:
das que nos apartam fisicamente
às que nos apagam, nos secam enquanto somos.

Nós, girassóis,
procuramos sol;
voltamos costas à sombra;
buscamos o mar.

Nele há sempre um horizonte,
um futuro, mediado pelas ondas, com altos e baixos...
marés revoltas, ruidosas, batendo no areal da praia...
leito sereno, embalo cerúleo, deixando o nosso corpo boiar...

num tempo feito de ciclos... a navegar.



   Surgiu, então, a canção: de como a dor passada se torna apaziguamento presente, para poder haver futuro...

   
A música: não foi feita no cravo de Scarlatti, teve as notas que o compositor deu à poesia, trouxe alguma harmonia (mais ou menos momentânea) a um tempo, a um instante que de ânimo se disfarçou. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Uma lufada de ar fresco

     Num filme em que um dos protagonistas pede para apanhar ar, para respirar, há momentos de forte gargalhar.

     A comédia francesa em exibição com o título (traduzido) "Amigos improváveis" é um exemplo fílmico que faz esquecer a(s) crise(s) que possa(m) estar a ser vivida(s); que faz soltar o riso e a gargalhada, graças ao cruzamento de opostos. A receita é familiar, mas o resultado, no caso, é francamente divertido e libertador de tensões.
     Dirão alguns que é um bom momento de alienação, não fosse o caso de se assistir a uma situação com fundo verídico e, no meio do riso, se encontrar reflexões que não deixam de ser marcantes para o bem do comum cidadão (encarado nas suas diferenças e perspetivado nas potencialidades que sempre tem).
   Realizado por Eric Toledano e Olivier Nakache, o filme produzido em 2011 conta com duas grandes interpretações: a de François Cluzet (no papel de Philippe, um bem sucedido aristocrata que fica tetraplégico depois de uma queda de parapente, mas que sofre mais com a perda da mulher amada) e a de Omar Sy (Driss, um jovem dos subúrbios e com uma história de vida familiar problemática, que acaba por obter um emprego quando tudo parecia apontar para o facto de ser o candidato menos adequado à função: cuidar, a todo o tempo, de Philippe).

     
     No arranque do filme uma situação caricata dá lugar a uma analepse na narrativa. Nela se revela como um amante de música clássica acaba por contratar um fan dos Earth, Wind and Fire; como um homem de arte e estilo necessita e convive com um subsídio-dependente, que aceita um desafio, uma aposta. Esta vai fazê-lo mudar de vida. Acima de tudo, constata-se como um deficiente aprende a (re)viver, acabando por se rir da sua própria condição junto da pessoa que não o faz lembrar-se sistematicamente desta última. Na redescoberta de cada um e na adaptação feita, a ponto de ambos se revelarem influenciados pelos sinais e pelos mundos de que se apartavam, cresce o sentido feliz da história: a atitude de abertura e a predisposição para aceitar oportunidades por parte de todos os que queiram dar uma chance à realização pessoal e à felicidade.
     Na solidariedade revelada e pelas motivações / representações dos universos vivenciados por cada um, nasceu um futuro melhor. Assim se anunciou no final. Uma realidade que se quer, por certo, repetida.

     "Intouchables" - este é o título original para uma película em que, contrariamente ao que o primeiro dá a ler, tudo toca: o princípio e o fim da história (mediada por uma analepse); as personagens representadas, que se interajudam; a mensagem e o espectador; um presente que, por mais marcado que seja pelo passado, tem hipótese de futuro.