sábado, 28 de março de 2009

Novo Encontro - ASA


     Mais um momento para comunicar... comungar...
(Hotel Meliá, Vila Nova de Gaia)

    Algumas caras conhecidas, outras nem tanto; uns amigos (como é bom saber que eles por lá estão, a dar um sorriso e a encorajar), muitos colegas.
     A propósito do ensino da gramática, houve tempo e espaço para:
. discutir critérios de progressão relativamente ao ensino da gramática (como considerar, entre outros, o critério da frequência, por exemplo);

. esclarecer dúvidas relativamente à classificação de conectores / articuladores (e o mais importante - manipular frases, contextualizá-las, substituir por articuladores sinónimos, explorar a dimensão lógica e significativa - saiu relevado relativamente ao que possa ser uma simples classificação ou a procura de uma tabela ou um esquema que contemplem o conector em questão);

. reflectir sobre a relação de entendimentos distintos face ao ensino da gramática (talvez mais complementares do que distintos): o do conhecimento explícito autónomo, numa metodologia de carácter oficinal; o do conhecimento explícito ao serviço da dimensão funcional e significativa dos discursos;

. problematizar o ensino da gramática à luz de documentos / instrumentos que regulam a prática docente (programas, manuais, exames);

. considerar que a prática indutiva é mais legitimadora do ensino e da aprendizagem da gramática, focalizando os conhecimentos que o próprio aluno constrói (a partir de um percurso que implique uma planificação assente em: selecção e constituição de um corpus; observação / comparação / construção de generalizações; análise e problematização; treino; avaliação).

     Citando João de Barros, na Gramática de Língua Portuguesa (1540), "porque nossa tenção é fazer algum proveito aos meninos que por esta arte aprenderem, levando-os de leve a grave, e de pouco a mais" (actualizado na escrita).

     Tudo isto na sequência de um pequeno contributo a que já fiz referência, há cerca de um mês.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Constância vai sendo uma constante

      Uma visita de estudo que começa a ser uma tradição da escola, para os 10º anos de escolaridade da ESG.

     Lembro-me de, no ano lectivo 2007-2008, ter havido a feliz ideia de um conjunto de professores da Escola Secundária de Gondomar programar uma visita de estudo interdisciplinar (Biologia, Físico-Química, Português) para os 10º anos de escolaridade. Este ano lectivo, juntou-se Matemática.

       Regressámos a Constância - terra que, em tempo de Primavera, faz compreender a razão de o nosso épico quinhentista a ela se ter referido, se é que nela não viveu.

         Lá nos esperava a estátua da autoria de Lagoa Henriques, com os sinais de um homem-poeta que ainda não havia sofrido as agruras de África (preserva os dois olhos); que oferece a sua obra a quem a queira ler; que se encontra sob arcos sugestivos, a relembrar a praticamente certa vivência na Casa dos Arcos; que mantém o contacto directo com a natureza, num amor declarado a tudo o que se compagina com o "vi claramente visto".

Camões (Lagoa Henriques)

      O Jardim-Horto é espantosamente apresentado por uma colega de ofício, conhecedora da história (misturada com alguma lenda) de vida do poeta, bem como da poesia, por ela declamada a ponto de arrancar palmas do auditório. Para cada planta, há a citação de alguns versos da obra poética.

Ilha dos Amores (Lagoa Henriques)
       Junto à Casa dos Arcos, outra obra do mestre Lagoa Henriques: alusão à Ilha dos Amores. Bem foi dito aos alunos que preservassem os púdicos olhos de cenas que os pudessem chocar; mas, à semelhança da proibição de leitura do canto IX de Os Lusíadas nos tempos de Salazar, acabou por ser das peças artísticas mais observadas e com a maior atenção! Provada ficou a estratégia do fruto proibido como a que dá lugar ao que é mais apetecido. Faz lembrar o poeta, quando, nesse mesmo canto, assumia que "Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo."
       Tudo se conjugou para a busca de sentidos.
      Nem mesmo a visão geocêntrica do mundo, apresentada aos nossos olhos de herdeiros heliocêntricos, menorizou a estada numa terra que teve em José Coelho a generosidade e a dádiva reconhecidas em diferentes pontos da localidade. Mesmo junto ao Centro da Ciência Viva, lá se encontra o monumento que "espelha" a Máquina do Mundo camoniana, com os seus sete céus ou as sete esferas em torno da Terra:

A Grande Máquina do Mundo (José Coelho)

"Debaxo deste grande Firmamento,
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
Júpiter logo faz o movimento,
E Marte abaxo, bélico inimigo;
O claro Olho do Céu, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo,
Mercúrio, de eloquência soberana;
Com três rostos, debaxo vai Diana.

Em todos estes orbes, diferente
Curso verás, nuns grave e noutros leve;
Ora fogem do Centro longamente,
Ora da Terra estão caminho breve,
Bem como quis o Padre omnipotente,
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
Os quais verás que jazem mais a dentro
E tem co Mar a Terra por seu centro".
in Os Lusíadas, de Luís de Camões
(Canto X - est. 89-90)

      Se é certo que a Literatura não é cópia da realidade, muito dela tem vivido. Um homem culto como Camões não deixou de apresentar poeticamente essa cosmovisão geocêntrica, ptolomaica que vigorou ao longo de cerca de quinze séculos (sécs. II - XVII). Nem Philolau (séc. V a. C.) nem Hicetas de Siracusa (séc. IV a. C.) veriam as suas teses (da Terra enquanto esfera girando em torno de um "fogo central", a que faltava dar o nome de "sol") reconhecidas senão nos séculos XVI, com Copérnico, e XVII, com Kepler e Galileu.

     Assim se fazem as revoluções do conhecimento, sem que se desmereça o valor heróico dos que (ainda) o desconhecem. Neste sentido, a literatura acaba por ver mais longe... numa atitude modelar.

terça-feira, 24 de março de 2009

A um leitor anónimo

    Perdoe-me o leitor anónimo, pela demora, pela extensão e pela deslocação do comentário para o corpo principal deste “bloguezito”, tal como o anunciei à hora de nascimento entre os amigos, os colegas e os conhecidos - aqueles que sempre me questionaram e também sempre me ajudaram a procurar e a querer saber mais, por conhecerem as vantagens de partilharmos o que sabemos e desconhecemos. Sem pedestais, cremos na "nossa comunidade de interessados na profissão" (deve ser por isso que, sempre que nos encontramos, acabamos por falar do mesmo, por mais que o evitemos). Nesta atitude nos unimos e colhemos algum sossego, pelo menos o de sabermos que não estamos sós.

Q: Caro Mestre, a sua opinião, por favor. Entende ou não que há demasiada preocupação na questão das «terminologias» - chamava-se, agora chama-se... ui que sossego... - quando seria mais proveitosa - não é só opinião minha - a questão da didactização destes conceitos? Ou, por outra: vai mudar só a terminologia na aula de língua materna ou deveria aproveitar-se a mudança para mudar muito mais? Ou ainda por outra: o sonho da minha querida Odete Santos é para cumprir agora ou vai ficar ainda adiado? Agradeço uma resposta.


R: Algumas breves notas:
i) não sou fundamentalista, no que concerne à terminologia bem como à necessidade da sua transposição para o contexto de sala de aula; não o sou ainda relativamente aos que a possam achar factor de desassossego ou até despicienda nas aulas de língua – posição que me dá, no mínimo, alguma liberdade para compreender quem o faça (na linha de que todas as disciplinas utilizam uma terminologia própria e vêem nela um indicador da especificidade de acção e/ou saber) e entender quem o não faça (ao privilegiar estratégias de indução, de natureza mais comunicativa e funcional). Tendo para o reconhecimento de que, inevitavelmente, todos ganharíamos ao considerar um núcleo mínimo / essencial de termos, para que estes não constituam ruído em contextos mais reguladores das práticas – de que programas e exames são apenas dois exemplos;

ii) a questão da didactização dos conceitos, subscrevo-a, naturalmente; considero que esta tarefa tem, numa das suas fases (inicial ou final, conforme a metodologia a considerar), a questão da explicitação terminológica; ao nível da didáctica da gramática, quer no entendimento desta ao serviço de actividades de revisão e regulação do oral e da escrita (na sua dimensão funcional) quer no sentido dela aplicada ao dispositivo estratégico da oficina da gramática, a abordagem indutiva não desconsidera o facto de, depois da selecção e constituição de um corpus, a observação / comparação / construção de generalizações, a análise e problematização, o treino e a avaliação, se poder proceder à explicitação de termos; está na mão dos professores e da avaliação que estes fazem do contexto em que trabalham, e com as motivações daqueles com quem trabalham, o relevo a ser dado à terminologia gramatical;

iii) o pretexto de querer mudar muito não pode ser factor para impedir a mudança de algo em menor âmbito, sob pena de nunca se conseguir mudar absolutamente nada (e, num domínio estruturante como o do conhecimento explícito, a mudança terminológica teve já a virtude de pôr a reflectir e a recuperar para as aulas de Português uma área que foi durante bastante tempo preterida; quem sabe a reflexão não venha a conduzir para uma conciliação e articulação cada vez mais desejável da gramática com instruções de sentido orientadas para competências de recepção / produção oral e escrita);

iv) várias foram as indicações, as propostas, as reflexões que a Professora Odete Santos deixou a quem com ela se cruzou. Sem referência concreta “ao sonho”, fico-me
1 - pela constatação de que o modelo pedagógico-comunicativo por ela entendido não conflitua com o facto de se explicitar ou não terminologia, desde que esta surja como mais um instrumento utilizado em contextos de planificação e regulação das actividades comunicativas “organizadas de maneira sistematizada em ordem ao desenvolvimento de um processo que se define como um acto intencional e programado de aprendizagem da comunicação em língua materna” (comunicar na escola, para não ser sinónimo de conversar, implica seleccionar, orientar estrategicamente para um objectivo, por forma a estruturar e sistematizar a ponto de poder ser produtivamente reactivado);
2 - pela afirmação de que o discurso pedagógico-verbal instaurado pelas entidades interlocutivas do professor e do aluno, segundo o modelo atrás proposto, se enriquece pela abordagem indutiva da gramática (que não desconsidera uma terminologia própria da disciplina e que não reifica necessariamente o saber do professor; coloca este último, sim, num papel de construtor, planificador de actividades que promovam maior interacção e aprendizagens mais estruturadoras do próprio conhecimento explícito);
3 - pela asserção de que a “dinâmica comunitária” - assente nos conhecimentos de mundo, nos ritmos de apreensão significativa, na apropriação dos novos saberes – também se faz com, na e pela própria língua (e quanto mais dela se souber, nos diferentes domínios, mais competentes nos tornamos), numa perspectiva interaccional do ensino-aprendizagem que destaca a necessidade de fomentar, no sujeito da aprendizagem, as condições necessárias à interacção com as suas próprias experiências de “mundo” e as marcas linguísticas dos textos / discursos;
4 - pela aceitação de que a análise e sistematização pedagógicas criam nos alunos “a consciência das condicionantes impostas pelas várias componentes dos processos comunicativos”, numa aposta em modelos que façam interagir competências conscientes de recepção com o domínio de estratégias de produção;
5 - pela consciência de que um modelo pedagógico-comunicativo orientado para uma “micro-comunidade enunciativa escolar” (configurando princípios comunicativos que instituem a “macro-comunidade enunciativa”) se promove pela abertura a uma diversidade de géneros discursivos, pela activação de contextos de produção comunicativa que posicionam os alunos como agentes do processo de aprendizagem, sem que tal signifique o apagamento do papel do professor como agente de ensino (planificando e orientando os trabalhos de forma consciente – como me lembro, e bem, das reflexões da minha metodóloga de ensino do Português, que nunca se esquecia de que um sujeito nem sempre é agente; também pode e deve ser paciente!);
6 - pela vontade de que, cada vez mais, se caminhe no sentido de construir projectos de língua capazes de promover a conjugação de domínios curriculares afins (nomeadamente os de língua materna e de línguas estrangeiras) – o que vai ao encontro da correlação pretendida entre a concepção de língua / modelos de investigação em linguística que dela decorrem e os modelos pedagógico-didácticos que se lhe associam (aspecto relevado pela professora em questão, considerando a obra que produziu).

     Por todos estes sonhos, creio que andamos muitos a fazer aproximações, umas mais felizes e estruturadas do que outras. Nesse caminho, procuramos concretizar um pouco de um sonho ou utopia sócio-profissional: a socialização e a solidariedade dos sujeitos fazem-se também pelo (re) conhecimento de um objecto estruturante e estruturador do próprio pensamento, condicionador ele próprio das interacções a construir, conforme a representação que delas se faça. Quanto maior o conhecimento da língua, maiores são as fontes e o(s) poder(es) do individual no social, maior é a partilha desse(s) poder(es).

quinta-feira, 19 de março de 2009

Formação de palavras

      Voltamos à complexidade da formação de palavras.

      Q: Como considerar a formação da palavra 'perfuração' - um caso de derivação por prefixação e sufixação?

     R: Desmontando a palavra nos seus constituintes, a base é o verbo 'perfura(r)' ao qual, depois de retirado o afixo verbal do infinitivo, se acrescenta o sufixo '-ção'. Consultando um dicionário, concluir-se-á que a forma latina 'perforāre' é a que está na base da entrada no léxico português. 'Perfurar' pode ser, assim, entendida como a palavra-base. Creio não haver sistematicidade e /ou frequência na utilização do prefixo 'per-', na língua portuguesa, para se proceder à formação de novas palavras e poder entender ainda a base 'furar' como estando na origem de 'perfuração' (atendendo ao facto de 'percorrer' ser palavra que tem origem na forma latina 'percorrĕre'; 'pernoitar', em 'pernoctāre'; 'perdurar', em 'perdurāre'; 'permutar', em 'permutāre', entre vários outros casos que contemplam 'per-' como constituinte já incluído na forma latina que evolui para o português). De qualquer forma, a considerar este último cenário, na linha da consciência sincrónica que mantém alguma rede significativa entre 'perfurar' e 'furar', tratar-se-ia de uma outra fase de sequencialização na formação, conforme se lê nos passos seguintes:
        1. furar > perfurar (derivação por prefixação);
        2. perfura(r) > perfuração (derivação por sufixação).
     Ou seja, não é 'furar' que dá origem ao nome 'perfuração'; este deriva do verbo 'perfurar', pelo que é a este nível (2) que devem ser considerados os constituintes morfológicos; outros terão de ser equacionados a um nível de processualidade morfológica diferente.

    De novo o conselho: utilizar um bom dicionário, quando se trabalha formação de palavras; considerar esta última como podendo contemplar etapas ou níveis sequenciais de formação distintos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Poesia, Som e Voz(es) em Pessoa(s)

    Entre o terreno do sensível e as alturas do inteligível, entre o sentido da pluralidade colectiva e a singular unicidade, constrói-se a diversidade na unidade.

      Imaginário(s), espaço(s), voz(es) e Pessoa(s).


Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

24-10-1932
Fernando Pessoa, in Poesias de Fernando Pessoa
Edições Ática

     A conjugação perfeita da poesia, da voz, do espaço, da imagem.

terça-feira, 17 de março de 2009

Linguística na BD

       Dois exemplos da Mafaldinha...

      ... para mostrar como os Complementos do Adjectivo são funcionais... até na BD.

      Primeiro
      Segundo

      Agora, até estou interessado... (não digo em quê!);
      fico até ansioso... (também não digo por quê!).

      Tal como alguns verbos, também há adjectivos que se fazem acompanhar das preposições que introduzem a complementação destes (ansiar por > ansioso por; interessar-se por / em > interessado por / em).

segunda-feira, 16 de março de 2009

Novo desafio linguístico (... mais complementar)

     Esta é uma questão complementar à da relação 'complemento determinativo-modificador' que foi objecto de tratamento no dia 14. A conversa é como as cerejas (quando se começa a comer...).
    
    Q: E com o atributo, já se pode dizer que é sempre substituído por modificador (restritivo)?


  R: Também não há linearidade na transposição das terminologias (a da Nomenclatura Gramatical Portuguesa e a do Dicionário Terminológico). Aliás, considerando a resposta dada anteontem sobre a relação não linear entre ‘complemento determinativo – modificador’, retomo um exemplo (o 3) para concluir o seguinte: 
    1 – a frase ‘A decisão do presidente foi contestada por todos os partidos políticos’ pode ser transformada da seguinte forma: ‘A decisão presidencial foi contestada por todos os partidos políticos’;
   2- a substituição da sequência ‘de+N’ pelo adjectivo ‘presidencial’, além de poder ser tomada como sinónima, corresponde à manutenção da função sintáctica independentemente das configurações sintagmáticas serem ‘de+N’ ou ‘Adj’ (‘presidencial’ funciona como complemento do nome, pelas mesmas razões enunciadas na resposta já mencionada [‘decisão’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do agente da decisão]).
    Aparece, assim, um exemplo de como o adjectivo (a funcionar como atributo, na nomenclatura tradicional) assume a função sintáctica de complemento do nome.
  Nesta mesma linha de argumentação, os adjectivos abaixo considerados podem funcionar como complementos do nome ‘eleição’, ‘aquecimento’, ‘proposta’ (todos nomes derivados de verbo transitivo ou com realização transitiva):
     a) “eleição presidencial(‘presidencial’ tomado como tema: alguém elegeu o presidente);
     b) “aquecimento solar(‘solar’ é a fonte / origem: o sol aquece qualquer coisa);
     c) “proposta estudantil(‘estudantil’ é o agente: os estudantes fizeram uma proposta).

     O mesmo já não sucede, por exemplo, com as sequências seguintes:

       d) “paisagem fabulosa
     e) “crise económica
     f) “comida deliciosa
     g) “vinho branco
     h) “imposto municipal

    Os nomes que antecedem os adjectivos não são derivados de verbos transitivos nem pertencem ao grupo daqueles que apresentam uma estrutura argumental que requer complementação (confronte, de novo, a resposta de anteontem); os adjectivos restringem a referência desse nome (por razões de qualificação, de classificação ou relação). Antigos atributos que funcionam como modificadores (restritivos).

   De novo impõe-se o trabalho da sintaxe numa interface com a semântica e até a morfologia - exemplo de uma gramática de corpo inteiro, para que a língua não resulte mutilada.

domingo, 15 de março de 2009

Novo desafio linguístico: ser ou não ser modificador

     Voltamos à sintaxe e de como não se pode transpor directamente etiquetas gramaticais antigas para a nova (já com bastantes anos, afinal) terminologia.

    Q: Posso concluir que os antigos ‘complementos determinativos’ dão lugar a modificadores na nova terminologia gramatical?

     R: Não há uma transposição directa entre as duas designações. Admitindo que, nas frases seguintes (1-5), o itálico correspondia a um complemento determinativo segundo a Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1947, a terminologia contemplada no Dicionário Terminológico (2008) aponta para designações distintas, as quais figuram entre parêntesis (1’-5’):

1) O pai do João comprou um carro novo.
(1’: ' do João' é complemento do nome [‘pai’ - nome de parentesco])
2) Para sobremesa, pedi bolo de chocolate.
(2’: 'de chocolate' é modificador restritivo)
3) A decisão do presidente foi contestada por todos os partidos políticos.
(3’: 'do presidente' é complemento do nome [‘decisão’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do agente da decisão])
4) A viagem de comboio foi uma experiência agradável.
(4’: 'de comboio' é modificador restritivo)
5) O professor de Português a) pediu muita atenção na construção do texto b).
(5a’: 'de Português' é modificador restritivo; 5b’: 'do texto' é complemento do nome [‘construção’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do tema da construção])

     Na verdade, a configuração ‘de+N’ interna ao Grupo Nominal destacado corresponde a comportamentos sintácticos distintos: num caso, ‘de+N’ é um complemento requerido pelo núcleo nominal (‘pai’, em 1; ‘decisão’, em 3; ‘construção’, em 5b); noutro caso, trata-se de um modificador, pois o núcleo nominal (‘bolo’, em 2; ‘viagem’, em 4; ‘professor’, em 5a) não pede, na sua estrutura argumental, nenhuma forma de complementação .
     Tipicamente, os nomes que pedem complementos (podendo estes últimos estar ou não realizados nas frases, à semelhança do que acontece com os complementos dos verbos) são os seguintes:
- nomes formados a partir de verbos transitivos (se o verbo transitivo de base tem uma estrutura argumental que requer complementos, o nome que deriva desse verbo admite a mesma propriedade, solicitando o agente, tema, possuidor associado ao nome – caso de ‘decisão’ <Alguém DECIDIR Algo>, por exemplo);
- nomes de parentesco (caso de ‘pai’, ‘filho’, ‘irmão’);
- nomes icónicos (caso de 'fotografia', 'imagem', 'retrato');
- nomes epistémicos (caso de 'hipótese', 'ideia', 'obrigação', 'dever');
- nomes relacionados com adjectivos simétricos (caso de 'diferença' / 'semelhança' [formados a partir de 'diferente / semelhante']);
- nomes com sentido colectivo parafraseáveis com o verbo ‘ter’ (caso de 'vizinhança' [formado a partir da sequência parafrásica 'X tem vizinhos']).
      Nenhum destes casos é o de 'bolo', 'viagem' ou ' professor', razão pela qual estes últimos estão seguidos de um modificador que lhes restringe a referência (modificador restritivo).

     A este propósito, confronte-se a Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Maria Helena Mira Mateus (2003: 330-344 e 376-383).

sábado, 14 de março de 2009

Poesia, o Mar e Tu

        Perguntava-me uma amiga o que seria da vida sem beleza. 


        Partilhou uma música: o mar e tu.



        Surgiram, então, uns versos.

          O MAR E EU

A mim chegas por insistente conquista,

De mim te afastas sem qualquer temor;
A mim regressas por natureza… teimosia;
Sem mim ficas, por um salmourado amor.

Vejo-te orla dispersa, nesse branco
De azul estendido até ao horizonte,
Ao céu pedindo humildemente a cor.

Banhas meus pés, lembrando-me pecador.
Rendo-me aos caprichos do envolvente areal.

Por te ver, fecho os olhos e sorvo teu rumor.
Sem te ouvir, inspiro, recordo esse volátil sal,
Pescado numa lágrima em perdição.

Na pena fico, cheirando-te, vendo-te, ouvindo-te
Sem que haja concha ou búzio na minha mão.

VO
Espinho
Março 2009
    É esta a vida. Quanto à beleza...

Mais um desafio linguístico... com uma pitada de literatura

       A questão de um amigo e companheiro de "lutas" e de "causas". Só por isto se entende tamanha adjectivação (e antecipada!) à resposta.

    Q: Já há dias que ando para vir aqui comentar esta questão, e faço-o hoje porque ontem, numa aula com alunos de 8º ano, apareciam num texto - informativo/histórico - expressões como estas: «a situação descrita», ou «tudo isto provocou», entre outras idênticas e que remetiam sempre para a esquerda do texto. Não usei qualquer metalinguagem, simplesmente explorámos o texto para ver a que se referiam estas e outras expressões. E é bom que os professores de Português tenham consciência de que muitos alunos têm dificuldades de compreensão de leitura a este nível. Mas com treino a situação muda e no final da aula já se moviam no interior do texto com assinalável mestria. A minha pergunta é a seguinte: estas expressões não podem ser classificadas como 'deixis textual'? Creio ter visto isto em algum lado. Agradeço ao Vítor a resposta, sempre sábia, e deixo aqui o voto no sentido de que este blogue possa tornar-se num ponto de encontro de quem se interessa por didáctica da nossa língua.
      Tenho outras questões sobre didactização dos deícticos, mas ficam para outra altura...
Vilas-Boas

     R: A designação “deixis textual” é uma subespecificação do conceito de deixis, sendo esta última comummente considerada ao nível da indiciação da produção do discurso bem como das condições contextuais que pautam essa produção (o ‘eu’/’tu’ implicados na produção, além do tempo e espaço a estes associados).
      Por analogia a este último entendimento, vários autores referem-se, por sua vez, a “deixis textual” quando encaram o texto como entidade na qual se constroem também coordenadas de localização, sem que haja a necessidade de radicar o discurso lido a marcas de um contexto situacional exterior ao texto.
       Charaudeau e Maingueneau (no Dictionnaire d’Analyse du Discours, 2002:160) tratam os deícticos textuais como os que se referem a espaços e momentos do texto, configurados em marcas do tipo “no capítulo anterior”, “acima / abaixo / atrás mencionado” - um pouco na linha dos organizadores textuais; ou seja, tendo como localizador não o tempo / espaço da enunciação, mas o(s) do texto em que aparecem as palavras / expressões deícticas. A partir daqui constrói-se um outro entendimento: o dos “deícticos textuais” que, constituindo-se como pontos de referência alternativos ao da enunciação, permitem por si mesmos calcular as indicações de tempo / espaço em função dessa referência alternativa mediada e construída textualmente, numa espécie de encenação ou representação da enunciação.
      Por exemplo, no início do Memorial do Convento, de José Saramago, a expressão “esta noite” permite representar uma situação deíctica a que se liga um narrador que, aparentemente, se coloca na época de D. João V, a dos factos narrados (sabe-se, porém, a excepcionalidade deste narrador, com uma capacidade de se movimentar em vários tempos, interseccionando os da narrativa, da narração representada e da própria produção autoral); essa mesma situação é recuperada, logo a seguir, com “até hoje”. Não obstante o jogo anafórico que esta expressão temporal possa assumir, enquanto retoma da expressão anterior, prevalece a natureza deíctica. A ideia de ambas as expressões está para a localização segundo as coordenadas temporais de uma situação de enunciação representada, com um narrador a pretender, no capítulo inicial, marcar explicitamente a sua presença num tempo e num discurso de mundividência barroca, afinal os da localização do que é narrado.
      É mais neste sentido, pelo que tenho lido e discutido, que entendo a “deixis textual”: aquela que evidencia marcadores que apontam para a mediação do próprio texto, numa simulação, representação de condições de produção análogas às ocorrentes em discursos radicados a um contexto situacional mais imediato.
      Os exemplos mencionados, até pelo género discursivo considerado (informativo / histórico), parecem-me estar mais para a consideração do que vulgarmente se designa por "anafóricos" (aos quais Karl Bühler, nos anos trinta do século passado, se referia também como exemplos de 'deixis textual').

      Sem sapiência; só com a amizade e a partilha de saberes e experiências que já têm longa data. Já lá vão quase duas décadas: numa sala da ESG, a ouvir-te falar de Simbolismo, até que lá veio o trabalhinho... pois é assim que se aprende contigo. E, para variar, lá fui eu dar a voz na leitura de um poema.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Poesia, Som e Pessoa(s)

      Pessoa com Eugénio de Andrade na abertura... vozes poéticas para uma dimensão nova do "Império".

      Relembrei uma aula, feita de múltiplas vozes, poesia, som e Pessoa.


               O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a Terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa ([1934] 2004), in Mensagem
(Mar Português), 4ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim


         Num poema de evidente progressão na leitura de um império decaído (o material, o sensível, o consciente), é interessante ver como uma voz portuguesa, em terras do Brasil, consegue fazer cumprir um novo sentido de Portugal, o de que "nos deu sinal". Daí o refrão identificar-se com a segunda estrofe: a que apresenta a imagem da evolução (orla branca > ilha > continente > fim do mundo > terra inteira).
         O regresso à segunda estrofe de Pessoa é como que uma resposta a "Senhor, falta cumprir-se Portugal!". Do sentido expressivo direto ao apelo (diretivo) indireto, compõe-se a vontade de um fazer ('Faça-se cumprir') para um império inteligível, essencial, espiritual, cultural - sem tempo, sem espaço, imaterial, mas sobrevivente pelo que faz unir os povos (a língua e a cultura).
          E chamou-se a isto, a esta troca de artistas entre Portugal e Brasil, "Projecto Atlântico" - o oceano, o mar baptismal do "Quinto Império".

     Entre euforias e disforias, há um toque de alma que algumas vozes fazem elevar até esse inteligível a que Pessoa aspirou e do qual "nos deu sinal".

domingo, 8 de março de 2009

Mais dúvidas-desafios linguísticos

     Chega a vez da Pragmática e da Linguística textual (porque mais vale tarde do que nunca).

   Q: Os deícticos estão sempre relacionados com o tempo e o espaço do 'eu'. Por exemplo, um advérbio de lugar como 'aqui' tem a ver com o contexto. É disso que se trata, de ler em contexto?

    R: Trata-se de ler em contexto e não só. Também de construir discurso em contexto e de situar esse discurso num contexto específico de produção, evidenciando as características / condições / coordenadas (pessoais, temporais e espaciais) com ela relacionadas.
      Os deícticos são marcas demonstrativas da produção de um discurso, apontando para a existência de elementos relacionados com esse mesmo contexto de produção (intervenientes, tempo e lugar); estes aparecem configurados no discurso, no sentido de mostrar, evidenciar tudo o que diga respeito à produção deste último, considerando-o como produto de um acto enunciativo ou um acto de fala de um ‘eu’, orientado para um ‘tu’, num determinado ‘aqui’ e ‘agora’. Assim, os deícticos são sinais que mostram aquele que produz o discurso (o ‘eu’), aquele a quem ele é dirigido (o ‘tu’), o espaço a que se refere esse contexto de produção (o ‘aqui’ vs o ‘lá’) bem como o tempo (o ‘agora’ vs o ‘então’).
      Por exemplo, em “Aqui faz-se tudo o que se quer”, o advérbio ‘aqui’ marca uma referência espacial deíctica de produção de um discurso, associada a um ‘eu’ enunciador que não aparece explicitado, mas subentendido pelo ‘aqui’; em “Ontem houve teste”, ‘Ontem’ marca uma referência temporal deíctica de anterioridade relativamente a um ‘agora’ ou um ‘hoje’ associado à enunciação (da responsabilidade de um ‘eu’). Logo, nem todas as condições deícticas de produção de discurso precisam de estar explicitadas; podem ser construídas a partir de marcas de referência concorrentes configuradas no discurso.
       Será, assim, desejável trabalhar os deícticos, numa primeira fase, com textos caracterizados pela interacção ‘eu-tu’, pela interlocução e pela dependência directa e imediata face a um contexto de comunicação directa (diálogos, cartas, diários, textos dramáticos, textos publicitários), como forma de passar claramente a ideia de que os primeiros se referenciam em função de uma realidade extralinguística de produção discursiva reflectida no próprio discurso. Há muitas marcas a considerar neste campo: pronomes pessoais, determinantes e pronomes demonstrativos, possessivos, advérbios de lugar e tempo, tempos verbais, lexemas como ‘vir/ir’, ‘chegar/partir’ (pela orientação face à proximidade ou afastamento do ‘eu’/’tu’), ‘eis’ (advérbio mostrativo), entre outras.
       É preciso ter algum cuidado no que à distinção de deíctico e anafórico diz respeito, até porque, nalguns casos, as marcas parecem ser as mesmas e nalguns textos até se sobrepõem. Por norma, enquanto os deícticos são marcas que remetem para as condições de produção do discurso (ditas extralinguísticas, exofóricas: o contexto situacional, temporal e pessoal relacionado com a produção do discurso), os anafóricos remetem para o contexto presente no interior do próprio texto / discurso (dito intralinguístico, endofórico), explorando situações de retoma textual.
       Um exemplo desta proximidade dos deícticos / anafóricos é o seguinte: no poema “Isto” de Pessoa, este demonstrativo assume-se como deíctico (apresenta, desde logo, uma marca de referência associada à produção de um discurso previsivelmente relacionado com um ‘eu’ - o sujeito poético); num texto narrativo é possível ver o ‘isto’ como um anafórico quando, por exemplo, se possa ler o seguinte: “A rainha chorava a morte do seu rei, num pesar que a consumia e a impedia também de viver. Isto entristecia cada vez mais os súbditos do reino”; para complicar a questão, o “Isto” de Pessoa, enquanto título que é, entende-se também como elemento catafórico (pela disposição gráfica no texto, é um segmento que abre, antecipa a referência / o eixo temático que vai ser explicitado na composição poética).

      Se o Homem é complexo (e, por vezes, complicado), se nem tudo na vida é preto ou branco (há cinzentos e para várias tonalidades), por que motivo há-de a língua ser o contrário?

sábado, 7 de março de 2009

Outra dúvida-desafio linguístico (iii)

      Nova preocupação em classificar verbos de acordo com critérios sintácticos.

      Q: Como classificar o verbo 'andar' nas frases
      1 - Eles andam tristes.
      2 - Eles andam depressa.
      Em 1, o verbo é predicativo (copulativo), certo?
      Em 2, o verbo é intransitivo, certo?


    R: O verbo ‘andar’, em ambas as frases, pode apresentar comportamentos sintáctico-semânticos distintos.
     Se o interpretar como verbo de movimento nos dois cenários, aparecem realizações intransitivas do verbo ‘andar’, que se encontra modificado por ‘tristes’ (um adjectivo com valor de advérbio, sinónimo de ‘andam tristemente’) ou por ‘depressa’ (um advérbio).
      Há, porém, a possibilidade de se interpretar a primeira frase como tendo uma ocorrência de ‘andar’ não como verbo de movimento, mas como realização muito próxima de um verbo copulativo, tomando-se ‘andar’ na acepção de caracterizar alguém / algo com a qualidade, o estado, a condição de X (andam tristes = estão tristes). Neste último caso, “tristes” funciona como predicativo do sujeito.
   Só uma contextualização mais precisa em função da realização do enunciado, da intencionalidade comunicativa visada ou da configuração co-textual permitirá entender qual das interpretações se associa a 1.

     Uma boa razão para se trabalhar a gramática em contexto.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Poesia, Som e Fado

      Há poesia que não é para ler...


      É som para escutar...
      Música para embalar
      E vida para compreender.


       Sentidos.
      Estas as palavras e a música de Custódio Castelo e Jorge Fernando, numa voz tão singular quanto o que é cantado.

Adeus ó minha gente
Vou fazer-me à dura estrada
Minh'alma ardentemente
Quer erguer-se e está prostrada;
Longe está meu horizonte
Uma luz resta-me ao longe
Qual fogueira em alto monte

Adeus ó minha gente

A quem vejo arrependidos
As mãos que me negaram

Já mas deram como amigos;
Mas dentro de mim arde

Um sossego abrasador
Do Alentejo em fim de tarde

Adeus ó minha gente

Venham ver-me à despedida
Nasci no lado errado

No lado errado da vida;
Partindo fico ausente

Nem memória vou guardar
Ai adeus ó minha gente


    As ausências, os desencontros da e na vida sempre foram expressão para um 'fatum' que só os portugueses conseguem interpretar musicalmente - daí a poesia, o som e o fado, para não falar da vida.
  

quinta-feira, 5 de março de 2009

Outra dúvida-desafio linguístico (ii)

        Ora, agora, vamos à Morfologia (literalmente o estudo das formas)

       Q: Neste momento, precisávamos de ajuda urgente relativamente ao processo de formação de palavras.
1.desalinhar-des+alinh+a+r
desgrenhada-des+grenh+a+da
envelhecido-en+velh+e+cido
inundação-inund+a+ção
É PARASSINTETISMO?

2. desalinhar,desgrenhada,envelhecido e inundação é parassintetismo ou infixação acompanhada de sufixação?


3. impossibilidade é uma palavra derivada só por prefixação?


      R: Começo por referir que o processo de parassíntese aparece contemplado nos estudos morfológicos como um mecanismo de formação de palavras caracterizado pelo seguinte: acrescento de prefixo e sufixo simultâneos a uma base. Trata-se, no fundo, da junção de um só operador morfológico formalmente descontínuo (operador = prefixo + sufixo). Ocorre, genérica e praticamente, na formação de verbos a partir de nomes ou adjectivos e configura-se numa base (X) acompanhada de prefixos e sufixos simultâneos:

ES X EAR (ex.: ESverdEAR)
ES X EJAR (ex.: ESbracEJAR)
A X ECER (ex.: ApodrECER)
A X AR (ex.: ApadrinhAR)
EN X ECER (ex.: ENdoidECER)
ES X ECER (ex.: ESclarECER)
EN X AR (ex.: ENgordAR)
A X IZAR (ex.: AterrorIZAR)
EN X IZAR (ex.: ENcolerIZAR)

      Nenhum dos exemplos dados existe exclusivamente na forma prefixada ou sufixada; é na simultaneidade de aplicação dos afixos que a nova palavra surge. Daí a parassíntese.
      Assim, dos exemplos questionados, o ‘envelhecido’ é representativo deste processo, num percurso inicial de formação: a partir do radical ‘velh-‘ forma-se o verbo ENVELHECER; entretanto, da base ‘envelhecer’ forma-se, por sufixação sucessiva, ‘envelhecido’.
     Em ‘desalinhar’, está envolvida, num primeiro nível, a parassíntese: a partir do radical ‘linh-‘, forma-se a palavra ALINHAR; num segundo nível, a partir da palavra-base ‘alinhar’ (derivante) constrói-se, por prefixação, a derivada ‘DESalinhar’.
     O exemplo ‘desgrenhada’ (des+grenh+a+da) admite já por si a forma sufixada (grenhADO > cabelo grenhado) formada a partir da palavra-base derivante (grenha); depois, ocorre a prefixação (DES-) numa base que já é por si sufixada (com a sucessividade de afixos no final: [-a] + [-do]).
     Para ‘inundação’, a nossa consciência sincrónica admitiria que, à lógica de muitos verbos que derivam em nome com o sufixo '-ção', a considerássemos palavra derivada do verbo ‘inundar’ (com o radical ‘inund-', ao qual se acrescentaria a vogal temática do verbo da primeira conjugação ‘inundA’ e, por fim, o sufixo ‘-ÇÃO’, com o significado de resultado ou acção de V – inundA+ÇÃO). Todavia, a consulta de um dicionário etimológico propõe como entrada do termo, na língua portuguesa, a forma latina 'inundatiōne-'. Mais do que questão morfológica, a explicação do termo assenta mais em processos de alteração (evolução) fonética da própria palavra base.
     Relativamente a ‘impossibilidade’, há vários processos de análise a considerar. Sem qualquer outro tipo de indicação, e numa perspectiva sincrónica da língua, dir-se-ia também que seria formada a partir de ‘possível’. Um primeiro problema surgiria com a questão ortográfica e alguma divergência entre 'possível' e 'possibilidade' (lat: possibĭle). Numa perspectiva de análise diacrónica, a obter pela consulta de um dicionário etimológico, reconhecer-se-ia o facto de que está estabelecida a entrada da palavra latina ‘possibilitāte-’, bem como ‘impossibilitāte-’. Tal significa que não há lugar para a consideração de formação de palavra propriamente dita, sendo estas últimas assumidas como palavras-base desde logo, assim introduzidas no Português por via do Latim e com os naturais processos de evolução fonética (como é o caso da sonorização da oclusiva [t] em contexto intervocálico).
      De qualquer forma, na demonstração de processos e na perspectiva sincrónica já referida, a descrição dos processos de formação terá sempre a ver com uma palavra-base (a derivante) facultada aos alunos: se for pedido que se descreva o processo implicado na passagem de ‘possibilidade’ para ‘impossibilidade’, certamente que estes responderão tratar-se de derivação por prefixação e não se verá nisso mal maior, pela produtividade associada ao prefixo de negação.

     Por tudo isto é que, ao abordar nas aulas a questão da formação de palavras, sinto que é melhor seleccionar bem os exemplos e andar sempre com um bom dicionário à mão / ao lado. Há muitas aparências que iludem.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Outra dúvida-desafio linguístico (i)

       Novamente a sintaxe... preocupações de uma tradição que privilegiou a Morfologia e a Sintaxe.

      Q: Como se classificam os verbos em:
      1 - Ele chegou triste a casa.
      2 - Ele chegou de férias cansado.

    R: Suponho que a classificação pretendida se centre no critério da realização sintáctica. O verbo' chegar' admite múltiplas realizações. Enquanto verbo de movimento, a estrutura argumental propõe que 'alguém / algo CHEGA a um sítio ou ponto / de algum sítio ou ponto'. Em qualquer dos cenários propostos, o argumento que se posiciona no local de complemento é oblíquo (formado por grupo preposicional - 'a casa' / 'de férias' -, não pronominalizável por '-lhe'). Trata-se, portanto, de um verbo transitivo indirecto.

     Há, contudo, realizações deste mesmo verbo que são de natureza intransitiva. Não é o caso das frases dadas.

terça-feira, 3 de março de 2009

É doce morrer no mar

    Uma música, um poema, uma aula. 

   Entre a descoberta do poema e da música, ficou o cruzamento de crenças, culturas e saberes que nos aproximam.

Morrer No Mar
Iemanjá, mãe de quase todos os orixás
É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar

A noite que ele não veio foi
foi de tristeza para mim
saveiro voltou sozinho
triste noite foi para mim

É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar

Saveiro partiu de noite e foi
madrugada não voltou
o marinheiro bonito
sereia do mar levou

Nas ondas verdes do mar meu bem
ele se foi afogar
fez sua cama de noivo
no colo de Iemanjá

É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar

CAYMMI, Dorival (s.d.) – “É doce morrer no mar”
(incluído no CD Café Atlântico, 1999, de Cesária Évora).

      
      Entre as vozes do Brasil (Marisa Monte) e Cabo Verde (Cesária Évora), há sempre lugar para o Português.

      Retoma-se um momento feliz num trabalho de seminário para estágio, com a planificação de uma aula sobre o texto poético e as variedades linguísticas e culturais do Português (do Brasil).


segunda-feira, 2 de março de 2009

Encontro ASA (28/02/2009)

   Lê-se, na versão digital do Público (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367116 - última consulta em 01.03.2009, pelas 22:46)


Carlos Reis
Novos programas de língua portuguesa vão adaptar-se às tecnologias

28.02.2009 - 14h44 Lusa

Miguel Madeira (arquivo)

     O coordenador da equipa responsável pela concepção dos Novos Programas de Língua Portuguesa, Carlos Reis, considerou hoje no Porto que as alterações metodológicas, didácticas, científicas, sociais e técnicas dos últimos anos motivam "reajustamentos" nos programas e, nalguns casos, "alterações substanciais".
     A revalorização dos textos literários, enquanto "repositórios de uma cultura, de uma memória cultural e de um legado estético" e as alterações na linguagem introduzidas pelas tecnologias de informação e comunicação são dois aspectos tidos em conta nos novos programas. Carlos Reis falava no "Encontro Pedagógico" organizado pelas edições ASA para discutir os "novos programas e desafios da Língua Portuguesa".
     "Há 20 anos, as tecnologias de informação e comunicação, os textos electrónicos e o trabalho em rede praticamente não existiam. Estes programas têm isso em conta, sendo certo que todas essas ferramentas e linguagens interferiram e interferem no modo como se fala e como se escreve e a escola tem de estar atenta a isso", sublinhou.
    Segundo Carlos Reis, a escola "estar atenta" não significa "reprimir, ignorar ou proibir", mas sim "saber trabalhar com isso de forma criteriosa, ou seja, julgando, avaliando e hierarquizando as coisas". Carlos Reis presidiu ao encontro organizado pela ASA que teve como objectivo contribuir para um maior esclarecimento sobre os novos programas e sobre os possíveis modelos da sua abordagem, bem como facultar informação prática relevante sobre o Dicionário Terminológico, contemplado nesses programas.
     O ano lectivo 2010/2011 é apontado como um ano de mudança no que respeita às práticas pedagógicas inerentes à Língua Portuguesa, no seguimento da concepção de Novos Programas para a disciplina. O programa do encontro incluiu apresentações e debates subordinados aos temas "Novos Programas de Língua Portuguesa (2.º e 3.º Ciclos)", "Manuais de Língua Portuguesa e os Novos Programas", "História de uma Aula e dos Percursos a que um Texto Levou", "Do Saber a Gramática ao Saber-fazer na Língua" e "Progressão(ões) no Ensino da Gramática".
     A elevada adesão ao encontro, cerca de 500 pessoas, levou, entretanto, a organização a promover duas novas sessões: no Porto, no dia 28 de Março, no Hotel Mélia, de Gaia; em Lisboa, ainda com data e local a definir.

    O meu pequeno contributo fica registado pelo título da comunicação que fechou o encontro dinamizado, na Fundação Cupertino de Miranda, pela Asa Editores: "Progressão(ões) no Ensino da Gramática". A aposta foi da Isabel Castiajo (uma amiga que se cruzou comigo na Escola Secundária de Gondomar). Da comunicação fica aqui uma síntese.

domingo, 1 de março de 2009

Começo de tudo

     Foi neste dia que dei os primeiros passos...

     A vontade era já alguma. Hoje foi o dia.
     O pensamento corria,
     a acção não se cumpria.
     Desde aí se faz o começo.
     Imperou a lembrança, um passado que se quer presente.

     Sinais de futuro...?

     Hoje foi a hora da partida, da viagem...
     a que se fazia na carruagem 23,
     a que faz de cada dia uma etapa no itinerário a traçar,
     a que levará este rio a caprichosos mares com horizontes por desvelar.

    Lembro, então, uns versos de Herberto Helder:

"...
Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
..."
(in "Em silêncio descobri essa cidade no mapa", 

CRUZ, Gastão (2004: 355) - Quinze Poetas Portugueses do Século XX

Lisboa, Assírio & Alvim)


       Veio depois a canção... a música... sempre a música, que apazigua alguns momentos críticos e celebra os mais festivos.


       Não sei o que isto vai ser. Cada passo fará a caminhada no carreiro que surgir.