domingo, 30 de março de 2014

Atenção aos particípios passados

    A questão dos particípios passados já mereceu alguma atenção nesta "carruagem", particularmente os verbos com duplo particípio.

    O certo, contudo, é que há verbos que admitem uma só forma (não são, portanto, verbos abundantes, para recuperar uma designação de Celso Cunha e Lindley Cintra), pelo menos no que ao português falado / escrito na variante europeia diz respeito. Por exemplo, "pegar" pode ter o particípio "pego(a)" na sua versão corrente da variedade do Brasil, mas não na europeia. Nesta última, as formas "pegado(a)" são as padronizadas (para não confundir com outros termos de significado associado a alguma indelicadeza de tratamento).
     A coexistência de formas fortes (mais reduzidas e ditas irregulares) e fracas (mais extensas e consideradas regulares) é uma realidade para uma língua em mudança, não sendo de desconsiderar a constatação de que, ao longo dos tempos, o português tem vindo a revelar algumas áreas de instabilidade: alguns verbos tendem a perder a forma regular (ex.: abrido, aceitado, elegido, expulsado, salvado), enquanto outros veem acontecer o mesmo com a irregular (ex.: concluso, fixo, liberto, pego). Casos há, mesmo, que se especializam numa realização de significado muito preciso e distintivo (cf. imprimido).
     Ainda assim, há casos estabilizados para o uso do particípio irregular - caso de abrir (> aberto), cobrir (> coberto), dizer (> dito), escrever (> escrito), fazer (> feito), pôr (> posto), ver (> visto), vir (> vindo) e respetivos derivados (à exceção de 'prover' que tem o regular 'provido'). 
    O mesmo acontece com verbos de particípio regular - é o caso de 'ouvir'. Daí que seja, no mínimo, estranho ter alguém que confunda 'ver' com 'ouvir', pondo "no mesmo saco morfológico" o que não é confundível:
     
Excerto de uma entrevista realizada no Jornal da RTP1 (janeiro de 2013)

       Não devo ter OUVIDO bem o que é hoje o alto-comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa no Brasil (e que, no passado, chegou a ser ministro ligado à área da comunicação, nomeadamente a televisiva).

       Talvez umas aulinhas de português ajudassem a falar melhor quem deveria dar o exemplo no domínio da língua - afinal, não se trata da Casa Olímpica de uma língua qualquer nem num país qualquer. No que toca aos altos dignitários da nossa classe política dominante, não estamos nada bem servidos - nem na política nem na língua.

sábado, 29 de março de 2014

Regresso ao "Unidos por Mary"

      Continuando as iniciativas que animam a vida. Juntos vamos conseguir.

     E depois da festa dos loucos anos oitenta (mais a venda de cookies, chocolates e outras doçuras) na ESG, chega a vez da "árvore da vida".

Imagem colhida e partilhada a partir de uma página do Facebook

    Hélder Silva e Paulo Lopes fabricaram e generosamente ofereceram muitas (em prata dourada) para a "nossa" querida Mary (Maria João), que vai pela terceira vez à Alemanha para (nos) fortalecer a esperança.
    Depois de uma edição bem sucedida, uma outra está já a ser preparada. Com "5 Unidos por Mary", temos todos a oportunidade de dar a mão a quem precisa de nós.
    Aos que já contribuíram, impõe-se o agradecimento pela generosa solidariedade demonstrada; aos restantes, toca a reUNIR para que a pequenina Árvore da Vida cresça cada vez mais forte.

    Quem estiver interessado basta contactar(-me), que tudo será feito para bem da reUNIÃO.

quarta-feira, 26 de março de 2014

No reino dos "se" (reflexos, recíprocos, indeterminados)

        Já tive a oportunidade de me referir à natureza camaleónica do "se".

       No que toca a classificar esta palavra, muito há a dizer, mesmo quando de um pronome se trata (para não considerar outras situações como as de conjunção ou mesmo a de realização derivada enquanto nome).

      Q: Boa tarde, colega. Quando surge depois do verbo 'lavar', posso considerar o 'se' como pronome reflexo?

           R: Boa noite, colega.
         A questão da classificação do 'se' não é limitada apenas à sua combinação com um tipo de verbos nem se pode concluir que um destes últimos determine a natureza do primeiro.
      É um dado que 'se' é um pronome reflexo (na correspondência e correferência entre o sujeito sintático  e o complemento direto da frase) em construções como as seguintes (expandíveis com a expressão 'a si mesmo[a]):

i) Ele lava-SE (a si próprio) com gel de banho, depois do treino.
ii) Ela feriu-SE (a si mesma) ao martelar o prego.
iii) Eles deixam-se (a si mesmos) levar pelas decisões do grupo.

    Pode acontecer que 'lavar-se' evidencie um caso não de reflexividade, mas de reciprocidade ('se' recíproco), parafraseável pela expressão 'um ao / com / pelo outro':

i) Os irmãos tomam banho e lavam-SE (um ao outro) juntos.
ii) Os inimigos atacam-SE (um ao outro) sempre que SE cruzam (um com o outro) na rua.
iii) Para felicidade deles, os namorados encontram-SE (um com o outro) todos os dias.

     Também pode acontecer que o verbo 'lavar' seja seguido de um típico 'se' associado a um sujeito indeterminado. Basta que, para tal, se faça a paráfrase proposta em ia):

i) Lavou-SE o casaco com todo o cuidado.
ia) (HOUVE) ALGUÉM (QUE) lavou o casaco com todo o cuidado.

    A classificação do 'se' requer, portanto, uma contextualização precisa, não sendo possível generalizações como as que possam estar pressupostas na dúvida / questão formulada.
   O caso é tão mais complexo quanto algumas construções de 'verbo+se' poderem ser ambíguas: 'encontrar-se', por exemplo, tanto admite a realização com um 'se' reflexo (em I) como dá conta de uma construção com 'se' recíproco (em II):

I) Depois de muito tempo perdidos, os jovens encontraram-SE
     (a si próprios <na sua própria identidade>).
II) Depois de muito tempo perdidos, os jovens encontraram-SE
      (um ao outro / um com o outro).

     Não fosse tudo isto suficiente para a problematização da questão, ainda há que considerar casos de 'SE' como pronome inerente (sem função sintática e encarado como parte integrante, incorporada nos próprios verbos - ex.: arrepender-se, rir-se, zangar-se, atrever-se - ou como evidência de uma redução de estrutura transitiva) ou de SE passivo (ex.: Lavam-SE carros < Carros são lavados). Eis, portanto, um reino com habitantes que, de tão parecidos, só têm a aparência.

terça-feira, 25 de março de 2014

Uma questão de técnica com alguma tática

        De novo o Acordo Ortográfico (AO), pela composição que se faz nalgumas palavras.

     A questão surge mais por causa do hífen, mas outros dados são igualmente relevantes. Tudo uma questão de treino.

       Q: Agora como se escreve 'técnico-táctico'?

    R: Atendendo isoladamente aos termos que compõem a palavra, nada a registar de alteração com 'técnico' (uma vez que se diz o som [k] da primeira sílaba, mantém-se a grafia do 'c'); o mesmo não sucede com 'tático' (que perde o grafema 'c', na lógica da eliminação das consoantes não lidas na escrita).
       A grafia da composição, na totalidade, regista a mesma utilização de hífen anterior ao AO.
       À semelhança de casos já aqui apontados, cada um dos elementos da composição apresenta autonomia léxica, com entrada dicionarizada. Não obstante a leitura do composto com a vogal de ligação típica na sílaba final da primeira base de composição, figura aqui um outro caso similar aos exemplos indicados para manter o sinal gráfico do hífen.

    Assim sendo, nada como um treino técnico-tático para haver maior familiaridade com o Acordo Ortográfico.

domingo, 23 de março de 2014

Regressou: Odysseus

      O herói ansiado chegou, no período mais crítico em que a rainha de Ítaca é feita prisioneira.

      Falo de Ulisses (ou Odysseus, no grego), personagem homérica recuperada da literatura para uma série televisiva em exibição na RTP2 - aqui revista no trailer exibido no canal francês "Arte":


       No segundo episódio, foi anunciada a chegada de um navio com uma vela idêntica à da embarcação de Ulisses. Não era o que Penélope e Telémaco desejavam, a braços com as intrigas de Leócrito para casar com a mulher de Ulisses e, assim, ascender a um trono há muito sem rei. Tratava-se apenas da chegada do poeta recitador Eucaristos, portador da notícia de que Ulisses estava vivo. A troco de uma escrava (Cléa) que quer para si e que Penélope havia entregado a Eucaristos (como recompensa das novidades recebidas), Telémaco consegue que o poeta tenha um encontro privado com a rainha. Esta é, entretanto, denunciada pela aia Eurínome: Leócrito prometera a esta última a liberdade, se ela o informasse de qualquer encontro masculino com Penélope. Crente na fidelidade da sua rainha a Ulisses, Eurínome prefere, contudo, a liberdade. Penélope é acusada na assembleia de homens e é feita prisioneira de Antinoo, que entretanto se rebelara contra Leócrito e acabou por usurpar o trono. 
      É o adivinho Tioscos que, na praia, acaba por encontrar os vestígios de um naufrágio e o corpo de um homem no areal. E assim se cumpre o reconhecimento do soberano, com o regresso deste após dez anos de viagens.

Alessio Boni e Caterina Murino nos papéis de Penélope e Ulisses

      Mantenho, ao final do quarto episódio, o registo avaliativo de uma produção muito interessante para divulgar uma história que faz parte do legado cultural mediterrânico e que tantas referências mantém com outras obras da literatura ocidental europeia.

sábado, 22 de março de 2014

Pastor rima com pensador e guardador (de rebanhos)

     Admito que depois desta e de já ter respondido a "Quem é Lídia?", é possível esperar todas as perguntas sobre Pessoa e a sua heteronímia.

    Assim me perguntava uma aluna há dias, algo apreensiva pelo facto de ainda não ter resposta para a sua dúvida. 

     Q: Professor, afinal Caeiro era ou não era pastor? Já nem sei que pense.

Imagem: adaptação de um pormenor do mural da Universidade de Lisboa 
com o heterónimo pessoano Alberto Caeiro 
(caricatura de 1958, produzida por Almada Negreiros: 1893-1970)
     R: Nem eu sei que diga, face ao que terá provocado tamanha dúvida. Entre o muito que se leia sobre o assunto (ora com reducionismos ora com ausência de leitura dos próprios versos do poeta), só posso responder que, ao jeito de Caeiro, este era o que escrevia num papel que estava no seu pensamento. No mundo fictivo e metafórico que a literatura cria, todas as possibilidades são válidas nos limites interpretativos (teorizados por Umberto Eco) que os textos / as obras dão a ler. Os versos de Caeiro mostram um ser em contacto com a Natureza, num panteísmo que pode estar na origem de tudo. Para lá disto, tudo é comparável. E porque ser como não é ser, não faz sentido a identificação; só a comparação.
    Pastor... A sê-lo, não o foi em "O Guardador de Rebanhos", por aí ter afirmado que nunca guardou rebanhos (poema I). E se é como os guardasse, tal só é comparável pelo facto de os rebanhos serem as suas ideias, os seus pensamentos feitos de sensações. Desta forma, Caeiro dá-se a ler como pensador (é o mestre heteronímico), por mais que entenda que pensar "incomoda como andar à chuva" (poema I). Na verdade, a sua recusa, por princípio, do pensamento não é levada até ao fim, por continuamente estar no exercício deste, procurando concretizar o que se lhe revela demasiado abstrato. Nesta linha estão muitas das suas comparações.
   Se foi pastor, só se considerou como tal em "O Pastor Amoroso" - a segunda parte de uma trilogia poética também composta por "O Guardador de Rebanhos" e "Poemas Inconjuntos". Nela e nos cerca de oito poemas datados de 1914 a 1930, o poeta de "O amor é uma companhia" (poema V) revela-se frequentemente pelo e no contrário do que deixa ler nas restantes duas. Nesse contrário, compõe a totalidade do que é: um místico feito de realidade (ou materialidade) apreendida graças às sensações; um simples ser na complexidade do que é; a liberdade singular de quem escreve prosa nos seus versos e que entende a poesia como a ciência das sensações. Porque "O pastor amoroso perdeu o cajado" (e nunca mais o encontrou), como o enuncia no poema VIII, resta-lhe ser a expressão da possibilidade de uma arte anunciada como moderna, numa representação livre, aberta à possibilidade significativa que nenhum outro modelo pode dar. Em síntese - um "eu" que não pode ser simples, porque é moderno; que só é aparentemente simples, por essencialmente revelar uma complexidade filosófica típica da profundidade dos mestres.
     Assim, Caeiro é um pastor mas de pensamentos, de ideias; de um conjunto de sensações fundado numa sensibilidade intensa e atenta à eterna novidade do mundo - captada por sentidos complementares ao que a visão dominantemente lhe proporciona; reforçada por pensamentos, pois, para Caeiro, "Amar é pensar" (poema VI). Daí ser "Pastor Amoroso", com o metafórico entendimento dos "rebanhos".

    Na composição deste heterónimo, apenas se antevê uma doxa mínima: a de que as coisas o são, porque reais e captadas pelos sentidos; a de que as coisas existem a cada momento, a cada instante que são percecionadas. À parte isto, Caeiro é como um pastor; a sua alma é como um pastor. É um "guardador de rebanhos", não sendo estes senão pensamentos (até porque eles são mais concretos do que estes). A todo o tempo, Caeiro é uma "qualquer cousa natural".

sexta-feira, 21 de março de 2014

No dia da poesia... Keep calm!

     É dia mundial da árvore e dia mundial da poesia (conforme indicação na XXX Conferência Geral da UNESCO, em 16 de novembro de 1999).

   Com o objetivo de promover a escrita, a leitura, a declamação e o ensino da poesia no mundo, a efeméride do dia tinha de ser lembrada pela voz do poeta. Ando muito na "onda" de Caeiro, até por causa de uma questão que me foi colocada há dias e à qual vou ter de responder brevemente. Daí que me centre na prosa dos seus versos (tal como o mestre pessoano designava o formato da sua escrita):

Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento ... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural... 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva ... 

O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica... 
Assim é e assim seja ... 
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI" 

     Parece um poema à moda de "Keep calm" (não tivesse o cartaz britânico aparecido cerca de duas décadas mais tarde, no início da II Guerra Mundial, para reforçar o estado moral inglês num cenário de desastre bélico contra os alemães). Não deixa de ser a mensagem de que preto e branco se comple(men)tam no real.

       Com a prosa dos versos caeirianos regista-se a poesia da vida (também feita daquilo que muitas vezes não se quer).

quinta-feira, 20 de março de 2014

Começada a primavera...

     Os equinócios já não são como eram (já o são desde 2008 e diz-se que, pelo menos, assim serão até 2020)...

     Foi hoje anunciado o início da primavera, que muitos querem apenas ver começada amanhã, celebrada junto com o dia da poesia.
    Até ao solstício de junho, estamos com a primavera, assim cantada por Alberto Caeiro nos seus "Poemas Inconjuntos":


      A voz do heterónimo pessoano, representada na de Pedro Lamares, assim nos fala de um tempo e de uma vida: "o que for, quando for, é que será o que é" - o aparente essencialismo absoluto, numa criativa conceção de universo sem explicações; só com a descoberta do momento, do instante, na eterna novidade das coisas.
      Como diria Caeiro, "a primavera nem sequer é uma coisa: / É uma maneira de dizer" (in "Quando tornar a vir a primavera").

      Assim seja a primavera, real, sem precisar de ninguém, feita do que surge para que seja real e certa no ato de dizer.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Relações oblíquas

    Regressado às questões sintáticas, volta o complemento oblíquo.

    Houve já aqui oportunidade de falar deste complemento, função sintática selecionada pelo verbo principal do predicado (ao contrário dos modificadores que podem ser retirados da frase, mantendo-se esta correta em termos gramaticais).

  Q: Vítor, «arrancamos umas rosas do canteiro»: do canteiro é c. oblíquo?; a estrutura argumentativa do verbo 'arrancar' é como 'tirar'?

      R: Face às questões formuladas, respondo afirmativamente a ambas.
     A estrutura argumental do verbo 'arrancar' implica três argumentos (ALGUÉM1 + ARRANCAR + ALGUMA COISA + DE ALGUM SÍTIO / LOCAL3), sendo o último o complemento oblíquo.
        Acontece o mesmo com o verbo 'tirar' quando este tem o significado sinónimo de 'retirar', 'arrancar', 'mudar de lugar', 'eliminar' (ALGUÉM 1 + TIRAR + ALGUMA COISA 2 + DE ALGUM SÍTIO / LOCAL3).

      Ajuda à identificação dessa função a seleção que o verbo faz de uma preposição, não sendo esta  constituinte da resposta à questão "A quem?" (destinada à função do complemento indireto).

sábado, 15 de março de 2014

Complemento indireto com verbos de dois argumentos

     Por mais que se caracterize o complemento indireto no contraste com o direto, nem sempre este último surge na frase.

     A propósito de uma nova questão sobre funções sintáticas:

    Q: Vítor, em «respondeste ao anúncio», 'ao anúncio' é c. indireto?, respondeste-lhe.... posso dizer? embora se responda à pessoa que o enviou e não ao anúncio... obrigado.

     R: Começo já por responder positivamente.
     Existem classes de verbos que exigem dois argumentos (o sujeito e o complemento indireto), por contraposição aos que selecionam três (sujeito, complemento direto e o indireto). Em termos de valência verbal, chama-se aos primeiros verbos bivalentes, enquanto os últimos são trivalentes.
      Entre os verbos bivalentes, contam-se os que se associam ao campo semântico dos verbos existenciais (ex. bastar, chegar, constar, faltar, ocorrer, parecer, sobrar), de posse ou pertença (ex.: pertencer) e os de perceção psicológica (ex. agradar, apetecer, convir, custar, importar, interessar, repugnar, saber bem / mal). Assim, entende-se que o elemento destacado (com maiúsculas) nas frases seguintes corresponde ao complemento indireto (caso dativo latino):

i) Basta-ME este pedacinho de pão.
ii) Pareceu-LHES desafiante aquele projeto.
iii) O livro pertence AO ALUNO ( > O livro pertence-LHE).
iv) O café sabe-ME bem.
v) O espetáculo agradou-TE bastante, não foi?
vi) A cena final do filme desagradou-ME. 

     Há ainda um outro grupo de verbos bivalentes que apresenta o complemento indireto na sua estrutura argumental: '(des)obedecer', 'resistir', 'sobreviver' e 'calhar' (no sentido de 'caber', 'ser atribuído').

vii) O cidadão cumpridor obedece às leis da sociedade ( > obedece-LHES).
viii) Calhou-NOS um tema difícil.

      Quanto ao verbo 'responder', como verbo comunicativo (ou 'dicendi'), admite a seleção natural do complemento indireto. Tal acontece tanto na realização trivalente (Alguém responder algo a alguém) como numa realização reduzida, bivalente (Alguém responder a algo / a alguém). Neste último caso, e à semelhança de outros verbos bivalentes, há sempre a particularidade de o complemento indireto poder representar uma entidade não humana - daí que no cenário proposto ("responder ao anúncio") haja uma entidade não humana, inanimada ('ao anúncio') -, podendo nela estar implicada alguma pessoa encarada como beneficiária

       Verifica-se, portanto, alguma variação nesta função sintática, tipicamente identificada pela presença da preposição 'a' e a sua substituição pelo pronome 'lhe(s)' na terceira pessoa.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Cabisbaixo: uma questão de atitude?

     Não será apenas de atitude, mas a de algum fundamento e alguma consciência de irregularidades.

      É nesta linha que respondo à questão que me foi proposta por um colega.

     Q: Boa noite, colega. Depois de ler alguns dos seus 'posts' na Carruagem 23 sobre formação de palavras, gostava que me dissesse em que processo situava, por exemplo, "cabisbaixo". É um caso de composição? 

    R: Já tive a oportunidade de me referir a casos similares, alguns dos quais foram encarados tradicionalmente como exemplos de composição (ex.: vinagre, fidalgo). Numa perspetiva de consciência sincrónica, estes são casos, por certo, críticos, na medida em que qualquer segmentação dos termos - na tentativa de identificar os termos-base que concorreriam para a composição - levantaria problemas de identificação de um dos radicais, de uma das palavras ou bases.
      Ora, o mesmo sucede com "cabisbaixo" (< cabis?+baixo), descrito por alguns dicionários como de origem duvidosa e implicando processos de aglutinação e/ou supressão de segmentos fónicos; outros apontam para uma adaptação do empréstimo do castelhano cabizbajo
  Assim, perante o grau de complexificação de análise e a assistematicidade revelada na formação, vejo este como mais um caso de palavra lexicalizada, pela natureza atípica da sua construção morfológica em termos do falante comum.

     Neste sentido, mais do que o estudo morfológico do termo, entra mais aqui uma perspetivação lexicológica, capaz de equacionar dados ou contributos mais amplos do que os facultados pela morfologia.

sábado, 8 de março de 2014

"Às senhoras do Porto..."

      Assim começa o texto da placa colocada nas traseiras da estátua de Júlio Dinis, na cidade invicta.

       A dedicatória é da iniciativa da Faculdade de Medicina da cidade e surgiu há quase noventa anos. Um ano depois, em 1926, era inaugurada e oferecida à cidade a estátua (da autoria de João Silva) que hoje ainda se encontra no Largo Prof. Abel Salazar, para recordar o médico e escritor que deu a ler vários romances na segunda metade do século XIX (A Morgadinha dos Canaviais e Uma Família Inglesa, em 1868; Os Fidalgos da Casa Mourisca, em 1871).
     Na base da coluna do monumento, vê-se ainda um pormenor associado às ambiências e dinâmicas de leitura inspiradas nas narrativas do romancista portuense:

"Às Senhoras do Porto" (Foto VO)

      A personagem feminina, dando voz à leitura, é pretexto para lembrar a efeméride do Dia (Internacional) da Mulher.

     E, assim, das senhoras do Porto se projeta este registo para as mulheres do mundo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Bem que podia ter ganhado...

     Não se ouviu o que era merecido: "And the Oscar goes to U2 and Ordinary Love".

   Por mais comum ("ordinary") que seja, o amor merece melhor. E quando é cantado pelos U2, o sentimento ganha outra harmonia e cor. 

     

      ORDINARY LOVE

The sea wants to kiss the golden shore 
The sunlight warms your skin 
All the beauty that's been lost before wants to find us again 

I can't fight you any more, it's you I'm fighting for 
The sea throws rock together but time leaves us polished stones 

We can't fall any further 
If we can't feel ordinary love 
And we cannot reach any higher, 
If we can't deal with ordinary love 

Birds fly high in the summer sky and rest on the breeze. 
The same wind will take care of you and I. 
We'll build our house in the trees. 

Your heart is on my sleeve 
Did you put it there with a magic marker? 
For years I would believe that the would couldn't wash it away 

'Cause 

We can't fall any further 
If we can't feel ordinary love 
And we cannot reach any higher 
If we can't deal with ordinary love.

Are we tough enough for ordinary love? 

      A canção não ganhou o "Oscar", mas o momento da cerimónia foi um dos vencedores, também pela evocação natural da figura de Madiba:


      Entretanto, no programa americano 'Tonight Show', apresentado por Jimmy Fallon, a música foi apresentada ao vivo, numa versão acústica, em ondas de efusiva aproximação à 'Ordinary People':


      Sem arranjos ou aplicações que subvertessem a qualidade do momento, ficou o registo do que se faz bem.
     Também na vida nem sempre vencem os melhores. O tempo faz com que estes vinguem pela qualidade do que fizeram / fazem. É uma questão clássica.

      Da banda sonora do filme "Mandela: um longo caminho para a liberdade", esta canção foi lançada pouco antes do falecimento do político sul-africano - fonte de inspiração para a banda que dedicou a música ao amigo de longos anos; fonte de inspiração também para a humanidade " 'cause can't reach any higher if we can't feel / deal with ordinary love".

quinta-feira, 6 de março de 2014

É de Luso (e nada tem a ver com água)

    Tomada a região da Lusitânia como província romana, recebeu esta o nome por causa dos habitantes guerreiros (os 'lusitani') que longamente resistiram ao povo do Lácio. 
A Hispânia Romana
     Há ainda quem se refira a um rio grego (Lousios), pela matriz cultural grega, ou a uma figura mitológica (Luso) derivada de um erro de tradução da expressão latina «lusum enim Liberi patris», na obra Naturalis Historiae (de Plínio, o Velho), tomando a palavra 'lusum' ou 'lusus' como nome próprio. Segundo o eborense latinista André de Resende, Luso seria um companheiro ou um filho do deus do vinho, Baco - leitura proposta por Camões na estrofe 22 do Canto III d'Os Lusíadas (“Esta foi Lusitânia, derivada / De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo / Filhos foram, parece, ou companheiros...").
       Atualmente, o termo luso é usado para referir tudo o que seja relativo a Portugal (daí o povo luso ou a nação lusa), nomeadamente nas palavras compostas que o integram (por exemplo, tratado luso-americano).
     No que toca à composição de palavras, a base autónoma 'luso' ganha entretanto uma configuração fónica distinta no som vocálico final, como se de uma vogal de ligação se tratasse. Ainda assim, a existência autónoma da palavra é o que justifica a grafia proposta pelo Acordo Ortográfico (AO) para os compostos com hífen. Daí ler-se neste último o seguinte (Base XV - artigo 1º):

«BASE XV
Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares 

1.º Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arcebispo-bispo, arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, afro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.»

      Pelos sublinhados da minha responsabilidade, conclui-se que será de escrever 'luso-africano', 'luso-americano', 'luso-britânico', 'luso-canadiano', 'luso-chinês', 'luso-descendente', 'luso-francês', 'luso-indiano', 'luso-venezuelano' e outros lusos mais.

       Luso, lusitano, lusíada... é português, e (para citar o slogan publicitário) o que é nacional é bom. Talvez.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Versão romantizada de uma tragédia

       Dos tempos que já lá vão, só memórias e bem longe da realidade.

       A realidade trágica está bem distante (ainda bem!); os vestígios dela são hoje programa turístico.
     "Pompeia", para além de evocar uma cidade desaparecida, é ainda título para um filme (dirigido por Paul W. S. Anderson) que procura, a par de uma intriga romantizada e algum ingrediente da vingança, traçar a cor local e epocal típica dos filmes de enquadramento histórico.
      Para iniciar, o clima de horror é sugerido desde logo por uma citação do historiador Plínio, o Jovem, numa referência aos gritos dos homens, aos lamentos das crianças e ao desespero das mulheres.
 
Fotografias das ruas antigas empedradas e das ruínas de palácios em Pompeia (VO)

     As imagens seguintes são as de um modo de vida, as de uma realidade que ainda pode ser aproximadamente antevista nos sinais e nas ruínas da atual cidade, recuperada das escavações feitas no século XVI e aprofundadas dois séculos depois. As estátuas de pedra humana encontradas testemunham algumas das vítimas da catástrofe natural - a do casal de pé a beijar-se (abrindo e fechando a película) é criação fílmica, a concorrer com as conhecidas de uma mãe a amamentar o filho, a de um cão preso a correntes, a de todos os corpos expostos ao público turista naquele que era o espaço do mercado da cidade.
    No primeiro século do primeiro milénio, a destruição da cidade pela erupção do Vesúvio é o pano de fundo para a epopeia de Milo (o "Celta", protagonizado por Kit Harrington), uma vítima e um sobrevivente do exército romano, nas terras britânicas, transformado em gladiador vencedor na arena pompiana. Aí cumpre o seu grito de vingança, acompanhado por Átticus (representado por Adewale Akinnuoye-Agbaje).


    Na senda da liberdade, as forças da natureza vencem, tudo destruindo (inclusive os que se julgam detentores de um poder manipulador e insuperável). Cercados ora pelo fogo da lava vulcânica ora pelas gigantes ondas do maremoto que fez submergir a cidade, os habitantes de Pompeia não têm salvação. O mesmo sucede ao vilão, senador de Roma (Corvus, interpretado por Kiefer Sutherland).
       Petrifica-se, ainda, o amor e a nobreza de carácter dos heróis, pois a sobrevivência não tem hipótese na história trágica recontada. 

    Resta a mensagem de que, mesmo no seio da catástrofe inevitável e da morte arrasadora, é possível agarrarmo-nos ao que é ou se torna importante aos nossos olhos (mesmo que o essencial esteja para lá deles).

terça-feira, 4 de março de 2014

Odisseia de Homero, na RTP2

       É mesmo da obra de Homero, aquilo de que aqui se trata.

Caterina Murino, representando a personagem Penélope (rainha de Ítaca)
     De novo o bom exemplo da RTP2, ao exibir uma série realizada por Stéphane Giusti e que merece a atenção do espectador, por várias razões: da obra aos atores que a dão a conhecer.
      Domingo passado foi emitido o primeiro episódio de "Odysseus", história que remonta ao século VIII a. C. e que tem no título o próprio protagonista (Odisseu ou Ulisses, como era conhecido na mitologia romana) de uma das grandes epopeias na cultura da humanidade. A obra atribuída ao escritor grego Homero é abordada nesta série, numa coprodução da RTP com uma produtora de origem francesa e uma outra italiana. Gravada na íntegra em Portugal (Serra da Arrábida), a adaptação do texto homérico conta com a participação de mais de sessenta atores nacionais (entre os quais Diogo Dória, Luís Gaspar, Nuno Lopes, entre outros).
     A cena inicial do príncipe Telémaco na praia de Ítaca à espera da comida que escasseia, da promessa que não se cumpre, daquele que não chega - há cerca de dez anos - é o ponto de partida para a representação de uma intriga escrita originalmente sob a forma de poema e que dá conta do regresso de um herói (lê-se na proposição que é a história do “herói de mil estratagemas que tanto vagueou, depois de ter destruído a cidadela sagrada de Troia, que viu cidades e conheceu costumes de muitos homens e que no mar padeceu mil tormentos, quanto lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros”). 

Fotograma a partir da exibição televisiva da série, na RTP2

     A situação de Penélope e Telémaco em Ítaca é crítica, na presunção da morte de Ulisses, sendo aqueles obrigados a lidar com um grupo de pretendentes insidiosos - os Mnesteres ou Proci -, em contínua competição pela mão de Penélope. Resta a esta última retardar os ímpetos dos que a rodeiam com sede de poder, sob o estratagema de tecer a mortalha de Laertes (pai de Ulisses) - que formula o desejo de se juntar ao filho, assim que souber da sua morte.

     Por mais certo que seja o princípio de que não se deve ajuizar as obras pelos filmes ou séries que nelas se baseiam, não deixa esta série televisiva de constituir uma boa aproximação a uma referência cultural de que alguns ainda falam / ouvem falar a propósito de outros textos.

segunda-feira, 3 de março de 2014

"À la française!" dá erro.

        Isto de escrever português "à la française" não é chique (a valer).

    Pelo facto de, na língua portuguesa, haver empréstimos de origem francófona (os galicismos ou francesismos) não vem qualquer mal ao mundo, seja na forma da língua de origem seja na do idioma que integra o termo emprestado.
     Do abajur (< abat-jour), do champanhe (< champagne), do chofer (< chauffer), do desporto (< desport), do edredom (< édredon), do sutiã (< soutien), do garçon, da lingerie, da madame ou da vitrine já todos falam com maior ou menor obediência à sonoridade francesa. Muitos outros exemplos poderia ter dado, nomeadamente o croissant.

(Foto VO)

    Contudo, dizer que o croissant é FRANCÊS, em português que se preze, levanta questões ortográficas que não admitem aproximação com a língua da francofonia. Tais questões não surgiriam caso se escrevesse " en français", com 'ai'. Porém, e como se está em Portugal, o bolo pode até ter nome francófono, mas a escrita do adjetivo é à portuguesa e sem cedilha, pelas regras já aqui abordadas nesta "carruagem".
       Não são, portanto, permitidas interferências gráficas que, no português, comprometam o 'ç' (só passível de sequência vocálica com 'a', 'o' ou 'u').

       Estou aqui estou a propor que se institua um ramo linguístico na Autoridade da Segurança Alimentar e Económica (ASAE) ou, então, a solicitar um desconto por defeito no produto (ou na sua publicitação / designação). Tudo a bem do consumidor nacional!

domingo, 2 de março de 2014

Fomos muitos, somos mais... entre iguais

     ... para os demais fica o texto do vivido e do(s) sentido(s).

     As palavras da minha colega Ivone Rebelo - amiga do seu amigo, força positiva e inspiradora dos que com ela convivem - traduzem na perfeição o que foi a especialíssima noite de sexta-feira. Por isso, pedida a autorização, partilho o balanço dessa onda que se deu a ver no mar dos "Unidos por Mary":
Fotos das mesas de sobremesas 
(DG in Mariana)
   A festa de ontem? Divertida, Carinhosa, Saborosa, Espirituosa, Reveladora. Numa palavra: Perfeita!
    Mesas bonitas, bem decoradas, entradas cheirosas, deliciosas, sopa de nabos - uma perfeição -, papas de sarabulho - uma perdição -, rojões à Norte - como só o Norte sabe fazer -, sobremesas pecaminosas, bebidas espirituosas.
   Agora juntem a tudo isto pestanas imensas e palpitantes, olhos azuis escondidos atrás de óculos estrábicos; cabeleiras estonteantes e de cores mirabolantes, lisas, encaracoladas em carapinha, ou prateadas; lenços entrelaçados que só mãos hábeis sabem cumprir , máscaras coloridas com purpurinas. A alegria dos adultos e a delícia da pequenada.
   E veio a dama antiga e o seu pajem, até o CR7 não faltou, bem como a atrevida vestida de “napita”. Mas a revelação da noite foi o homem da camisa havaiana. Meia aberta a fazer adivinhar peito farto, olhar nunca revelado, escondido em “ vidros fumados” e muitos, muitos papagaios envoltos em floresta virgem! HOT and SEXY! No dizer dos nossos alunos, À Rei! À Boss! “ O Maior”! Não Vacila!
    Rei da noite. E, no olhar da primeira mulher, D. Eva, também rainha, por momentos confundiu-se este verdadeiro exemplar do “ macho latino” com uma madona! Fenómeno só explicável pela sedosa cabeleira que transportava.
    E foi lavar muito prato e muito copo, e foi fazer sangria, e foi cozinhar, e foi servir às mesas, e foi pôr tudo direitinho, e foi muito flash, e foi muito riso com pouco siso, e foi muita amizade e foi muita conversa, e foi matar saudades, e foi abraçar amigos, e foi trabalho em equipa, e foi… e fomos todos Um SÓ!
Viva a ESG!
Feliz Carnaval!
Ivone

      Não se espante o leitor com a animação descrita: são muitos dias com perguntas silenciadas, na espera e na crença da esperança; é uma causa que precisa de todo o apoio que puder ser facultado (ver no facebook a página "Unidos por Mary"); são pessoas que dizem muito e merecedoras da humanidade que sempre demonstraram.

      Por momentos destes e por saber que há muitos a coordenar ações e a participar nas emoções: viva a ESG!