domingo, 31 de maio de 2009

O (dis)sabor destes dias


Quando o trabalho excede o prazer da vida,...





FUGA


Abri a janela para sorver o ar, gasto na casa.
Cada ponto de luz era um sol longe do peito,
Numa noite feita do arejo fresco que a chuva deixou.

Meu ser é do vento,
Não das paredes que me atrofiam o mar;
Meu ser é de um sol
Que vê a lua oferecer apenas um quarto do seu absoluto;
Meu ser não quer terra,
Foge à raiz que não lhe alimenta o bater de asas;
Meu ser é de um verso aspirando a prosa,
Buscando, no rumor marinho,
A poesia de um horizonte preso ao Céu.

Condição em demanda de consequência,
Vejo-me língua à procura de sentido,
Ansiando por um grito aberto ao mundo,
Surdo à negação do possível,
Acordado pela motivação e vontade.

Vou com o ar… olho o infinito,
Numa viagem anunciada pelo
rodar à esquerda da chave na fechadura.

Gondomar, Maio 2009

..., resta esperar por melhores dias (crendo que estes ainda possam existir).

domingo, 24 de maio de 2009

Falo das mãos, falo das obras

      Na epopeia do trabalho, as mãos cumprem o lema do "pôr mãos à obra".


     Na revista Única, datada de 1 de Maio de 2009 (Dia do Trabalhador), uma série de fotografias de Ana Baião testemunha a importância das mãos, sinedocamente representativas dos obreiros que estiveram na construção de obras emblemáticas do país.
    Um registo que fez relembrar Saramago, e o Memorial do Convento, bem como o domínio da epopeia do trabalho - relevada face a uma farsa palaciana que coloca o Luís XIV português (D. João V) a construir paródica e inabilidosamente a basílica de S. Pedro de Roma, como se de um jogo de Legos se tratasse.
      Relembre-se o segmento (cap. XIV) que fala das mãos, que fala das obras:

    "Dias passados, estando Bartolomeu de Gusmão na capela real, veio o italiano falar-lhe. Trocadas as palavras de primeira circunstância, saíram por uma das portas que, debaixo das tribunas do rei e da rainha, davam para a galeria por onde se entrava no palácio. Para lá e para cá discorreram. (...) Em tom que facilmente dava a entender não ser essa a matéria importante que ali se iria tratar, disse Domenico Scarlatti ao padre, El-rei tem na sua tribuna uma cópia da basílica de S. Pedro de Roma que ontem armou na minha presença, foi para mim honra grande, Com que a mim não me distinguiu nunca, (...), Dizem-me que el-rei é grande edificador, será por causa disso este seu gosto de levantar com as suas próprias mãos a cabeça arquitectural da Santa Igreja, ainda que em escala reduzida. Muito diferente é a dimensão da basílica que está a ser construída na vila de Mafra, gigantesca fábrica que será o assombro dos séculos. Como se mostram variadas as obras das mãos do homem, são de som as minhas, Fala das mãos, Falo das obras, tão cedo nascem logo morrem, Fala das obras, Falo das mãos, que seria delas se lhes faltasse a memória e o papel em que as escrevo. Fala das mãos, falo das obras."

      Das mãos se fala a propósito da composição musical nascida de um cravo, do amor natural sinalizado com o sangue que nos alimenta, dos sonhos que nos fazem voar em direcção ao desejo, das pedras erguidas que cimentam a memória, da construção narrativa de um romance.


     Há obras que se afirmam pela sua singularidade: Memorial do Convento é exemplo disso no estilo de escrita, no conteúdo profundamente humano das histórias que propõe, na visão da justiça e da humanidade que ingredientam um Quinto Império (espiritual, cultural, humanista) que só algumas personagens têm hipótese de construir, na verdade e sinceridade que vivem e sentem.


sábado, 23 de maio de 2009

Dos ecos camilianos em Saramago

     Ainda a propósito da visita de estudo a Mafra.
     Do velho se faz novo; do antigo, o moderno - a inovação relativa.

     A sensação das palavras já lidas, a das ideias comuns, a das que se desconstruem são alguns dos reflexos desse conceito já conhecido da intertextualidade: “(...) todo o texto se constrói como mosaico de citações, todo o texto é absorção e transformação de um outro texto.”[KRISTEVA, Júlia (1974: 64) in La Révolution du langage poétique - L’Avant-garde à la fin du dix-neuvième siècle: Lautréamont et Mallarmé]

       Num encontro de amigos, há cerca de um ano, os olhos pairavam pelas lombadas de livros protegidos por capas de relevo, letra dourada e papel tipo pele de cobra. Autoria (à moda gráfica da altura, conforme consta no interior do livro): Camillo Castello Branco. Folheada uma obra intitulada Mosaico e Silva, de Curiosidades Historicas, Litterarias e Biographicas (Porto, Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, sem data), lia-se:

     "Um dia encontraram-se no paço o bispo D. Nuno da Cunha e o franciscano fr. Antonio de S. José. 
     O bispo capellão-mor disse ao frade:
     – V. Reverencia encommende a Deus S. Ma­gestade para que lhe dê successão. El-rei nosso senhor anda triste, porque a rainha nossa senhora lhe não dá filhos.
     O servo de Deus respondeu:
     – El-rei terá filhos, se quizer.
    O fradinho sahiu. E o bispo inquisidor, reflec­tindo na resposta mysteriosa de fr. Antonio, per­guntou ao marquez de Gouveia:
    – Que conceito faz da virtude d'este arrabido?
    – Tamanho, que o fiz padrinho d'um filho meu.
    – Oh! – exclamou o futuro cardial.
    Volvidos dias, tornou D. Nuno da Cunha a encontrar-se com o frade e a perguntar-lhe o sen­tido latente da sua resposta. O arrabido pôz os olhos no céo e disse:
   – Prometa el-rei a Deus fazer um convento na villa de Mafra, que logo Deus lhe dará succes­são. Dito e feito, feito quero dizer não o convento, mas o fruto desejado. No mesmo anno de 1711 deu a rainha à luz uma menina."

     Ecoavam, na mente, as palavras lidas em Saramago:


     "... D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Entre pas­sar adiante e dizer o recado há vénias complica­das, floreios de aproximação, pausas e recuos, que são as fórmulas de acesso à vizinhança do rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e expli­cado, vista a pressa que traz o bispo e conside­rando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e o inquisidor, e este diz, Aquele que além está é frei António de S. José, a quem, falando-lhe eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossa majesta­de a Deus para que lhe desse sucessão, e ele me respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele sig­nificar com tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavras enfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um con­vento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D. Nuno e fez um aceno ao arrábido.
       Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de di­zer-me sua eminência, que se eu prometer levan­tar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a ver­dade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respon­deu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim as­segurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disse­ram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha."

     Não fosse o bastante, surgia novo passo de Camilo:

    "Ora, se o leitor quer vêr que nem piedade, nem generoso estipendio explicam o prodigioso afan n'aquelles treze annos de incessante traba­lho, leia uma carta, inédita que um dom abbade benedictino escrevia a outro respondendo ao convite de irem com a côrte assistir á sagração da basilica em 22 de outubro de 1730. Esteve a carta archivada em Tibães até que o cartorio se desfez e espalhou. Lá guardavam os frades esta pagina do «jornal opposicionista» d'aquelle tem­po. Frades eram então os politicos, os obreiros clandestinos das objurgatorias á laia d'esta. Jus­tos ou injustos, imitantes dos modernos, aquelles publicistas ineditos lavraram os seus protestos diante da posteridade. Por isso ficaram, e for­mam hoje a historia. Se os atirassem aos prelos e os divulgassem ás paixões do dia, chegariam até nós sem força nem preponderancia na balança do bom e mau do seculo passado. Mas o peor para o frade, certo, não seria o descredito do seu artigo de opposição, caso algum editor lh'o es­tampasse. É bem de crêr que lh'o trasladassem para as costas a ferro em brasa, se á noticia do corregedor do bairro chegasse a seguinte carta:

     «Meu amigo e snr. V. R. me convida para esta galhofa de Mafra [...]
   «Finalmente, meu amigo, para vêr Mafra não é necessario ir a Mafra; por que ella por nossos peccados está em toda a parte do reino; pois não haverá n'elle pessoa que não tenha tomado entre dentes a Mafra, e a não traga atravessada na gar­ganta e coração... No nome de Mafra temos des­coberto o enigma. Vamos tirando a mascara. Re­pare bem que se compõe Mafra de cinco letras que todas denotam a nossa perdição. Denota o M que seremos mortos; o A – assados; o F – fundidos; o R – roubados; e o ultimo A – arras­tados. E, se assolados, roubados, fundidos, ar­rastados e mortos são os termos a que nos acha­mos reduzidos, por pratica e experiencia de jus­tiça, estamos obrigados a dizer mal de Mafra e desterral-a; pois desde o diluvio universal esteve reservada no calcanhar do mundo para ser o di­luvio universal d'este reino.
     ..............................................................................
   «Não posso, meu amigo, alcançar o odio que tem o rei aos seus vassallos, nem em que dege­nerassem para ser desherdados d'aquelle agasa­lho que mereceram aos reis seus predecessores; porque na constancia do soffrimento e lealdade dos affectos não os há mais dedicados. O certo é que este abatimento é disposição para nos fazer apostatar da lei, para o que é já princípio esta af­fectada quebra com a séde apostolica e serão os fins a mesquita de Mafra, onde por peccados nossos veremos as ceremonias da lei escripta. Deus nos dê da sua graça e tenha de sua mão para que não desesperemos da salvação e a V. R. dê luz para se retirar de vêr Mafra á qual eu não chamarei templo de Deus, mas sim espelunca de ladrões. E por não approvar o que não póde ser do agrado de Deus, não quero ir a Mafra etc.»

        E não continha mais a insolente carta do dom abbade benedictino."

      Novo eco em Saramago:


     "Fazem alto os quadrilheiros, para que desta eminência possam os trazidos apreciar o amplo panorama no meio do qual vão viver, à direita o mar onde navegam as nossas naus, senhoras do líquido elemento, em frente, para o Sul, está a famosíssima serra de Sintra, orgulho de nacio­nais, inveja de estrangeiros, que daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa, e a vila, lá em baixo na cova, é Mafra, que dizem os eruditos ser isso mesmo o que quer dizer, mas um dia se hão-de rectificar os sentidos e naquele nome será lido, letra por letra, mortos, assados, fundidos, roubados, arrastados, e não sou eu, simples quadrilheiro às ordens, quem a tal leitu­ra se vai atrever, mas sim um abade beneditino a seu tempo, e essa será a razão que tem para não vir assistir à sagração da bisarma, porém, não antecipemos, ainda há muito trabalho para aca­bar, por causa dele é que vocês vieram das lon­ges terras onde vivíeis, não façam caso da falta de concordância, que a nós ninguém nos ensinou a falar, aprendemos com os erros dos nossos pais, e, além disso, estamos em tempo de transi­ção, e agora que já viram o que vos espera, si­gam lá para adiante, que nós, ficando vocês en­tregues, vamos buscar mais."

     Quem diria: Saramago, o habitante de Lanzarote, não renegou os seus. Leu o romântico Camilo, que o inspirou naturalmente para a produção dessa obra-prima composta pela farsa palaciana, pela epopeia do trabalho bem como pelo domínio da virtuosa e virtual espiritualidade que faz dos homens mais humanos.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Morto, Assado, Fundido, Roubado, Arrastado... MAFRA

    Nova visita de estudo ao Palácio, Basílica e Convento de Mafra, com o 12º ano.

    Nunca o topónimo foi tão certeiro quanto ao sentido que um abade beneditino propôs para a palavra: morto (digo eu: de cansaço), assado (digo eu: pelo calor humano), fundido (digo eu: felizmente, com e num grupo de gente boa), roubado (digo eu: do descanso merecido), arrastado (digo eu: pela vontade de rever um espaço feito romance).

Fachada da Basílica e do Palácio de Mafra

     Certo de que não foi este o sentido para cada palavra nos tempos beneditinos, surge ele reinventado pela motivação que nos conduziu ao encontro com essa "brutidão de mármore", mandada construir pelo freirático rei (D. João V); um edifício setecentista que ecoa as palavras e as ideias contemporâneas de um autor, de um narrador, de um homem "levantado do chão" à qualidade de um Nobel.
   Uma visita excepcionalmente guiada, seguida da encenação de Memorial do Convento, ambas a convocar a leitura das páginas do livro de Saramago, pela extensão que o oral tem aí de representado.
    Tudo se faz da vontade e do sonho que alimentam a intriga da obra, numa mensagem universal. À data da publicação (1982), Bartolomeu Lourenço diz a Blimunda que serão necessárias duas mil vontades para a passarola voar; à data da leitura que compõe os nossos dias, diria que são precisas três mil.
                                                                                Capa da primeira edição da obra (1982)

     Cumpram-se as megalomanias de um homem; sacrifiquem-se os homens; inaugurem-se as obras por concluir; divorcie-se o amor natural e puro, a vida feliz e o progresso da ciência, por um lado, da absolutização do poder de um pequeno grupo, da cegueira da fé, da máscara ou farsa cortesãs, por outro. Assim se recria e questiona a História, o ciclo da vida.

   Houvesse vontade e sonho e os universos alternativos seriam possíveis: as passarolas voariam, as mãos e as pedras seriam o infinito um, o amor seria tocado pelo espírito da naturalidade e da sinceridade.

      Um dia que muitos tiveram a vontade de que tivesse sido mais (o infinito). Fica o registo para memória do tempo e das pessoas que partilharam esta experiência. Fica o sonho de um tempo diferente - condição natural a que o Homem aspira.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Uma língua universal... a música

    Houve já quem dissesse que "não se ama alguém que não ouve a mesma canção".

    Seja porque o amor se encontra na canção seja porque esta lhe abre a porta dos sentidos, a gramática que procura essa cor da vida encontra-se nos actos, nas palavras, nos sons que nos invadem - nessa zona do mapa do sentimento.

Vídeo RTP com o espectáculo de Simone no Coliseu

                IOLANDA 

Esta canção não é mais que mais que uma canção
Quem dera fosse uma declaração de amor
Romântica sem reparar na justa forma
Do que me vem de forma assim tão caudalosa
Te amo, te amo
Eternamente te amo

Se me faltares nem por isso eu morro
Se é pra morrer quero morrer contigo
Minha solidão se sente acompanhada
Por isso às vezes sei que necessito
Teu colo, teu colo
Eternamente teu colo

Quando te vi sabia que era certo
De quem me sentiria descoberto
A minha pele vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas
De amores de amores
Eternamente de amores

Se alguma vez me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania
Iolanda, Iolanda
Eternamente Iolanda

Iolanda
Eternamente Iolanda
Eternamente Iolanda

   Uma simples música pode falar mais do que qualquer língua, casando vozes numa "declaração de amor".

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Dúvida... com desafio linguístico

       Voltemos às classes de palavras.

      Q: Na consulta de várias gramáticas, já encontrei 'como' com classificações diferentes. Afinal, é um pronome ou advérbio?

      R: A classificação de uma palavra varia conforme o contexto em que ela é empregue; desde logo segundo o posicionamento que tem ao nível do sintagma.
        O caso de 'como' é polivalente: pode ser advérbio, conjunção (de diferentes naturezas), nome. Não lhe reconheço dominantemente a categoria de pronome, por ser um termo que normalmente não substitui nenhum nome ou grupo nominal - excepção para construções do tipo 'Aprecio o modo como ele escreve', com o termo a funcionar num processo de retoma anafórica relativamente ao antecedente 'o modo'.
       Comummente, no contexto de frases de tipo interrogativo, acaba por se assumir como constituinte interrogado para respostas traduzíveis por advérbios ou expressões adverbiais (ex.: Como estás? > Bem, mal, mais ou menos / Como fizeste isso? > Assim, deste modo). Nestes casos, trata-se de um advérbio interrogativo. Similarmente, o advérbio exclamativo é o que se pode encontrar em frases do tipo 'Como chove!', 'Como é difícil educar!'
         De resto, 'como' pode ser ainda uma conjunção subordinativa comparativa (ex.: A interpretação feita está clarinha como a água), causal (ex.: Como Narciso viu a sua figura, perdeu o siso), conformativa (ex.: Como fizeres, serás punido ou recompensado), completiva (ex.: O aluno perguntou ao professor como se resolvia a equação). Pode ser também um nome (ex.: 'Como' é uma palavra polivalente).

     Esta é a capacidade camaleónica das palavras: conforme a cor do contexto, o tom da classificação! Por isso, insisto em dar cor aos alunos.

Dúvidas... com desafio linguístico já conhecido

       Um pouco na sequência de uma outra questão que já apontava para este problema, recupera-se a complexidade da sintaxe.

       Q: Na frase: «Por aí, deixámo-nos fascinar por algumas raras personagens que, pela qualidade do que pensam...», «nos» tem função sintáctica de c. d. (complemento directo) ou de c.i. (complemento indirecto)?

      R: Trata-se de uma questão bastante complexa, implicando o trabalho com noções de subordinação, reflexividade, transitividade verbal e causatividade.
       Centro-me na abordagem do núcleo informacional proposto: ‘...deixámo-nos fascinar por algumas raras personagens’. Este corresponderá a uma sequência não pronominalizada do tipo ‘deixámos as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens’. Isto significa que, da sequência subordinante ‘(Nós) deixámos’, se parte para uma subordinada não finita infinitiva: ‘as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens’. No fundo, há uma oração ou frase superior (subordinante), com sujeito nulo subentendido [nós] e um predicado [deixámos X]; este último, com o núcleo verbal [deixámos] e o complemento directo X [correspondente a uma sequência frásica dependente: 'as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens']. Este não deixa de ser também ele constituído por um sujeito [as nossas próprias pessoas] e um predicado que integra um complemento oblíquo [fascinar por algumas raras personagens].
       Por esquema, dir-se-ia que:

i - Sequência superior (subordinante)
     a) Sujeito (nulo subentendido): Nós;
     b) Predicado: Deixámo-nos fascinar por algumas raras personagens;
  c) Complemento directo: ‘nos fascinar por algumas raras personagens’ (cuja realização não pronominalizada seria ‘as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens’);

ii - Sequência dependente (subordinada)
     a) Sujeito: as nossas próprias pessoas;
     b) Predicado: fascinar por algumas raras personagens;
     c) Complemento oblíquo: por algumas raras personagens.

       A partir daqui, a construção pronominalizada é explicada da seguinte forma: as sequências superiores marcadas por verbos causativos (como mandar, deixar, fazer) seguidos de uma completiva com sujeito lexicalmente marcado (neste caso, 'as nossas próprias pessoas') obrigam este último, ao assumir a forma de pronome clítico, a ligar-se ao verbo da sequência subordinante e não da dependente ou subordinada. Trata-se da chamada ‘subida de clítico’. Está aqui também parte da lógica causativa: SUJ causador (nós) + V causativo (deixámos) + CD obj/acontecimento (as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens). Desta forma, é admissível a construção pronominal com ‘-nos’, configurando-se o sujeito da subordinada como parte integrante do CD da subordinante.
      É um bom exemplo do que Tesnière, na perspectiva de uma gramática de valências, considera ser a “diátese causativa”.
        Resta dizer que '-nos', neste caso, nunca poderia ser um complemento indirecto por duas razões:
      a) a realização pronominal está marcada pela natureza da reflexividade ([nós] deixámo-nos fascinar = [nós] deixámos as nossas próprias pessoas fascinar), com comportamento de CD;
      b) numa eventual transformação da frase e do pronome para contexto de terceira pessoa, não seria utilizada a forma "lhe(s)", mas sim "-lo(s)" ['deixámo-lo(s) fascinar por...'] - o que prova que estamos perante uma realização mais próxima do acusativo (CD) e não do dativo (CI).

    Sintaxe a vários níveis de análise é um cuidado a assumir, sendo de destacar se a análise se centra ao nível matriz ou dependencial dos constituintes maiores.


segunda-feira, 18 de maio de 2009

À memória... de uma dor

   Há dias que nunca deveriam estar marcados no calendário: aqueles que, só por ironia, dão normalmente lugar à constatação da vida.

Ceifada a seiva que nos prende à vida,
Sobressalta a dor, perde o mundo a cor;
Esconde-se o sol num céu feito de nuvem;
Corre uma lágrima a rugar o rosto;

Há desamparo numa voz que grita;
Lê-se o silêncio perante o horror.
Pais e mães, por mais que chorem, enlutem,
Padecem de um sufocante desgosto.

Perder um filho: não ter o encosto
Para uma idade a lembrar o sol posto…
Apaga-se a luz,… infância ferida;
Estrada sem saída, alma perdida.

Possa o inoportuno fim dar
Tempo e doce lembrança ao verbo amar.

Gondomar, Maio 2009

     Para todas as pétalas que não possam ser flor, por lhes faltar o que as faça ser corola.

domingo, 17 de maio de 2009

Poderes da sétima arte… muito além / aquém dos livros

      A vontade de ver um filme é seguramente motivada pela obra.

    Melhor do que O Código Da Vinci, Anjos e Demónios vence quer enquanto livro quer enquanto filme. Esta foi a ordem de leitura dos romances, contrária à da publicação de ambas as obras nos Estados Unidos da América. Caso para dizer que, à data de publicação dos originais americanos e à primeira, se conseguiu algo melhor do que com a segunda, mesmo que esta última não desmereça o apreço do leitor.


   
    Com maior rapidez de acção e valorização de efeitos técnicos e cinematográficos, no filme fica, contudo, a sensação de faltar algo, particularmente para quem leu e apreciou bastante o livro. Diria que o ritmo da procura, da descoberta, da reflexão e das construções mentais para a resolução dos enigmas, a que o livro obriga, é pouco compatível com o do filme: demasiado rápido, por vezes alucinante, e limitado essencialmente ao visual.
     No final, a sensação é a de que algo mudou na história, o que aliás se confirma pela releitura da narrativa: a relação CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire) – Vaticano não surge tão bem articulada ou fundamentada, a explicação para o comportamento da figura do “camerlengo” sai menos desenvolvida, a evolução da trama centrada nos “preferitti” surge alterada (valorizando um mártir), o final do romance é substituído por um guião que menoriza a discussão ciência-religião, bem como a própria relação entre Robert -Vitória.
    Enfim, mais um filme baseado num livro… com alterações substanciais na história lida.
   O filme fica, portanto (e à semelhanças do sucedido com O Código Da Vinci), muito aquém do romance. O ritmo do cinema é mais voraz, menos envolvente na descodificação das pistas, as quais são melhor acompanhadas e representadas pelo leitor (que parece participar mais proximamente da acção prioritariamente levada a cabo por Langdon) comparativamente ao espectador.

    Mais um caso para preferir a leitura.


sábado, 16 de maio de 2009

Porque não há duas sem três...

     No Auditório Cardeal de Medeiros da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, houve oportunidade para partilhar mais uma reflexão sobre o ensino da gramática.



     Bastantes professores de Português, todos na ânsia de saber algo sobre os novos programas do ensino básico, na partilha de reflexões sobre formas e modos de ensinar, de avaliar. Muitos abordam os comunicadores nos espaços ditos de intervalo: algumas angústias, algumas dúvidas, algumas dificuldades. Traçar caminhos, ultrapassar angústias, orientar para uma formação contínua responsável e séria, constatar a necessidade de pesquisar, de estudar, de saber mais.
    À lógica de experiências e comunicações já apresentadas, regista-se e recorda-se o que foi uma síntese do meu contributo, desta feita mais prolongado no tempo de comunicação. Destaque para tópicos de conversa centrados:
a) nos novos programas e na adopção de manuais escolares;
b) no Dicionário Terminológico (entendimento, funcionalidade, aplicação ao ensino);
c) em práticas de escrita e de ensino da gramática (articulação, gestão temporal, avaliação de desempenho e algumas evidências na progressão e evolução de competências dos alunos).

     Um (re)encontro sempre atento às necessidades docentes e a partilha de convicções, crenças, pistas de trabalho acerca do que o presente anuncia como futuro, não obstante alguns imponderáveis no trajecto e a consciência de que muitas questões colocadas se centram em tópicos que não podem ser tomados como novos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Por falar em (re)lembrar... a infância inocente

      Era o tempo em que as brincadeiras, os heróis dos desenhos animados não faziam crer no que o futuro, hoje tão presente, traria.

      João e Maria
    ... título de um conto tradicional, numa versão de 'Hansel e Gretel' (este último recolhido pelos irmãos Grimm);
     ... título para a letra de uma canção composta por Sivuca e Chico Buarque.
     Era o tempo de ouvir uma canção na inocência do(s) tempo(s) vivido e imaginado.


       Sabia lá eu que a combinação do "Agora" com o "era" seria o ingrediente linguístico necessário ao jogo, à ficção, à transposição; que a coordenada da enunciação narrativa (o 'Era uma vez...', 'Havia um tempo...', 'Há muito tempo havia...') se instituiria com um pretérito imperfeito analogamente funcional (na dimensão do pretérito e/ou no plano da transposição ficcional, pela construção de mundos alternativos) a um presente assumido como a coordenada de tempo associado ao instante do imediato, da actualidade e dos actos que se radicam ao presente da fala.

        JOÃO E MARIA

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três

Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock
para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido

Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
P’ra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

        O que eu agora sei está distante, bem diferente do "agora eu era..."

        Volto à música... "o que é que a vida vai fazer de mim?"

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Relembrando Campos, na angústia

      "Esta velha angústia" data de 16/6/1934, pouco tempo antes de Pessoa falecer.

    Dizem que é um exemplo de escrita poética da terceira fase, mais intimista, própria desse heterónimo pessoano moderno e vanguardista que, depois da euforia, da dinâmica, da força e da pujança, assume a sua limitação humana, a "disforia" ou a "avaria da máquina". Nenhuma aguenta ser puxada ao excesso, ao limite, à totalidade.
       Outros intitulam essa fase como a do "engenheiro aposentado".


      Por mim, continuo a achar que também pode ser a fase de qualquer ser humano a atingir a saturação, o desconforto, a vontade de largar "as rédeas", "o volante e o pedal"; aquela em que se sente também a máquina à deriva, em descontrolo, prestes a espetar-se contra uma parede ou a dirigir-se para um declive.

      Será a realidade um modelo inspirador para a literatura ou será a literatura um modelo a considerar para a realidade? Prefiro ver na segunda hipótese um aviso "poético", para que qualquer real vivido não se torne na amargura de muitos. Também há cirurgias estéticas para as "velhas angústias".

domingo, 3 de maio de 2009

A bem da variação... e das variedades

     Um pequeno poema, é certo, para um grande poeta, um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil.

       Data de 1925, publicado num livro intitulado Pau-Brasil - Poesia (S. Paulo, Globo).


pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Oswald de Andrade, in Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século,
sel. Italo Moriconi, Rio deJaneiro, Edição Objetiva, 2001, pág. 35

     Linguisticamente falando, a variação é aqui uma questão de posição: da ênclise do Português europeu à próclise no Português do Brasil. Não deixa de ser também um motivo literário, uma afirmação de singularidade, voz(es) para uma língua que se afirma pela sua multiplicidade.

      E tudo isto logo para mim, que não fumo!

sábado, 2 de maio de 2009

Um passado bem presente a dar futuro

      Assim se exprimia o nosso Álvaro de Campos: "Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!" (Ode Triunfal)

    Afinal, por que razão não substituem o Homem por uma máquina? Querem tanta quantificação, tanto resultado, sem olhar a pessoas, a tempos e a meios!
      Denis Kaufman, sob o pseudónimo Dziga Vertov, foi o cineasta russo que nos deixou "O Homem com a máquina de filmar" ('Man with the Movie Camera', de 1929) - uma espécie de alerta sob a forma de cinema mudo, similar ao que George Orwell (em 1948 e no romance Nineteen-Eighty Four), relembraria e inspiraria com o seu "Big Brother is watching you". Ao contrário deste escritor, o totalitarismo denunciado por Vertov não é (apenas) o da política: é o do triunfo da máquina na vida do Homem ("I am the machine that reveals the world to you as only I alone am able to see it.") a ponto de o substituir.



      Eis o prazer dos que observam quando, afinal, são os observados! Oferecer aquilo que dá prazer, e faz rir, não pode deixar esquecer como se pode estar ao mesmo tempo a destruir, a anular, a alienar o que de mais humano há! Esta é a lição que uma máquina de filmar torna mais visível, ainda que para muitos tal permaneça invisível. Nem a caixa, a lembrar Pandora (abre para deixar sair o mal, fugindo de cena), parece servir de aviso: a máquina que dela sai circulará pelo mundo, captando a realidade que alguns gostarão de observar até que descubram que eles mesmos - os espectadores - estarão na sua mira.
     Na década de 20, no século XX assim se deu a ver. E nós, no século XXI, mantemo-nos esquecidos de um passado que, afinal, já nos mostrou o nosso presente a dar futuro.



    Acaba por angustiar tanta dinâmica, tanta sede, tanta ânsia... tanta cidade, tanto sinal de civilização.
       No meio de tanto cansaço, relembro e fico-me por outros versos de Campos, bem mais conscientes das limitações e fragilidades humanas:

"...
Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti de mais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim.
Decresce sensivelmente a velocidade do volante.
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim há só um vácuo, um deserto, um mar nocturno.
..."

(Ode Marítima)

      Entre a força e a máquina de tudo 'ter que fazer', sinto-me sem o tempo, sem o espaço ou sem o ego do 'querer fazer'. Não quero ser a máquina em que me estão a tornar. Até porque ela, por certo, de tanto trabalhar e forçar, não deixará de avariar.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dia do trabalhador... quero ser cigarra!

Parece desabafo... pelo "inverno no nosso coração".

De vez em quando é bom "pedir uma música para cantar", pois, assim o diz o saber popular, quem canta seus males espanta.
É ainda o desejo de recriar a fábula de La Fontaine, fazendo com que efectivamente a formiga seja "a melhor amiga da cigarra".



Porque você pediu uma canção para cantar
Como a cigarra arrebenta de tanta luz
E enche de som o ar;

Porque a formiga é a melhor amiga da cigarra,
Raízes da mesma fábula que ela arranha,
Tece e espalha no ar;

Porque ainda é inverno em nosso coração,
Essa canção é para cantar
Como a cigarra acende o Verão e ilumina o ar.

Zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi ...
zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi .


Milton Nascimento

Não há vontade nem forças para dançar!
Esperemos por melhores dias, deliciados entre a singeleza e a simplicidade, o zunido e o ciciar desses irmãos do Brasil que nos vão desvelando alguma da alegria que se dissipa.