segunda-feira, 27 de abril de 2015

Paronímias...

    Não bastava o resultado do jogo ter sido um empate!

    O zero-zero do Benfica - Porto, neste domingo, já era resultado futebolístico duro de roer. Ainda por cima ter de ler esta barbaridade num rodapé da RTP (mais uma, entre as incontáveis que já ofereceu, algumas até num só dia) acaba por ultrapassar os limites do razoável:


     Apetece dizer que ainda sou do tempo em que se aprendia como palavras muito semelhantes na escrita (não propriamente iguais) são bem diferentes no significado. Assim se reconhecia a paronímia, chamando-se a atenção para as diferenças entre 'absorver / absolver', 'cavaleiro / cavalheiro', 'comprimento / cumprimento', 'descrição / discrição', 'despensa / dispensa', 'dirigente / diligente', 'fluvial / pluvial', 'infligir / infringir', 'perfeito / prefeito', previdência / providência', 'preposição / proposição', 'ratificar / retificar', 'transação / transição', entre outras.
    Pelos vistos, a RTP tem profissionais de comunicação a trabalhar com evidente desconhecimento do que são palavras parónimas e, ainda pior, incapacidade de distinção quanto aos contextos da sua utilização.

     Deve ser problema do corretor ou do acordo ortográfico (digam que sim, que eu até acredito)! Ou então, às tantas, será a consequente recessão de adeptos na receção da sua equipa de futebol. Exemplos do 'Bom Português', que o canal lamentavelmente nos "oferece" quase todos os dias.

sábado, 25 de abril de 2015

Um feriado sem sabor...

    Assim acontece sempre que o feriado coincide com um fim de semana.

    Por mais importante que o seja (e é-o!), este é o Dia da Liberdade.
   Celebrá-lo a um sábado sabe a pouco: já nos sentimos libertos (pelo menos, todos aqueles que, por norma, gozam o fim de semana ao sábado e ao domingo). Ainda bem que assim é: sentimento tão ajustado à libertação de um fim de uma semana de trabalho como à de um regime democrático conquistado às mãos de um despotismo que se quer passado (infelizmente, e por vezes, com sinais de presente).
    Num dia em que o país se cobriu de cravos, a flor que adornou a arma da revolução, talvez não fosse de esperar que, passado quarenta e um anos, o descrédito e a desilusão se instalassem, perante uma realidade política que não deixa reabrir a caixa de Pandora (esta só existiu para o mal, sem que lhe seja permitida a revisão narrativa, pela tónica da esperança). E, assim, o desânimo vinga, numa data que tudo teve de contrário. Hoje, o "Nevoeiro" pessoano revive-se. 
    25 de abril começa a dizer pouco, não pelo que se conquistou (que deve manter-se válido e exemplo do caminho a seguir), mas pelo que se fez da democracia.
    Por isso, fazem sentido os versos de Maria Teresa Horta, aqui transcritos a partir do que é dado a ler na sua página oficial do Facebook:

VINTE E CINCO DE ABRIL

Este é um poema
com saudade da festa

Dias de vermelho
de damasco e de riso

Das horas de alegria
e de bandeiras, de cravos
rubros postos no vestido

Este é um poema
feito de memória

Da pressa incontida
no passo corrido

De fala crescida
de prisões abertas, de escrita
liberta descobrindo o sentido

Este é um poema recordando
a mudança, da esperança
e do sonho acontecido

Com palavras 
do corpo e de lembrança

Exigindo o futuro
a promessa e o grito

Este é um poema
cantando 
a liberdade

De lágrimas costuradas
suturando o sorriso

Ousando dizer da ambiguidade
da estranheza do novo
misturado ao antigo

Este é um poema
torneando o avesso

Da luz da madrugada
de uma noz de vidro

Do voo das gaivotas
junto à pele das águas
fazendo do Tejo o seu precipício

Este é um poema
de visitar a História

Da revolução 
o ganho
e também o perdido

Da viagem e do mar
da língua portuguesa
onde na paixão me encontro comigo

Maria Teresa Horta, inédito

     De facto, este é o poema que dá a ler o dia que se quer (re)vivido; esta é a poesia que, de mão dada com a História, faz do passado mensagem de futuro, para nos libertar de um presente que mais parece o "avesso" a tornear.

     Lá virá o dia (já esteve mais longe). Assim haja força, vontade e coragem para a união dos que, em tempo de escolha, saibam novo rumo encontrar (não apenas nos que, na paixão, se encontrem consigo próprios, mas que também ao outro se consigam dar). 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

No Dia Mundial Do Livro

      Em data tão importante para os livros e para os autores, fica o apontamento do dia.

      Para começar, um pensamento em imagem:


       Depois, só algumas curiosidades. 
   Diz-se que este dia está relacionado com o dia de nascimento e, coincidentemente, de morte de um dos mais conceituados autores da literatura mundial - o dramaturgo inglês William Shakespeare -, mais o do enterro de um outro - o escritor castelhano Miguel de Cervantes Saavedra -, ambos no decurso do ano de 1616. Diz-se ainda que Dom Quixote de la Mancha, da autoria do último, chega mesmo a ser uma das obras mais vendidas (esperemos que lida, também) no mundo.
     Dos autores aos livros fica o caminho feito para a escrita e a leitura - percurso nem sempre linear. De tão sinuoso que é, tem tanto de virtuosa e virtualmente pacífico como de instigadoramente revolucionário; de atitude manifesta e pública como de ato sibilino e privado. Ainda assim, sempre com a potencialidade de (re)criar (re)encontros. Estes têm-se sucedido desde os anos 7000 e 4000 a.C., quando surgiram e se desenvolveram os primeiros registos escritos, em suportes tão diversos como pedras, ossos, tábuas de madeira, placas de argila húmida (posteriormente secas no fogo). A leveza de uma folha de papiro (ainda que em rolos com dezenas de metros) chega com o Antigo Egito e a invenção do papel, na China, torna a escrita menos pesada, em termos físicos; porém, a proliferação do livro na Grécia ou mesmo a difusão deste para lá dos limites do império romano não impedem a sua conceção como tesouro ou objeto de luxo. Manter-se-á assim em tempos de abadias, catedrais e mosteiros, principais centros de conservação de vários textos da antiguidade greco-romana.
    A imprensa de Gutenberg, no séc. XV, aumenta a quantidade de publicação e a baixa custos, mesmo assim nada acessíveis senão às classes socialmente mais favorecidas. Aparecidas as primeiras edições impressas (os chamados incunábulos), tal não significa que se tenha atingido a vulgarização do livro. Esta é uma realidade relativamente recente.
    Para fechar este apontamento, nada como um livro - o romance que mais me marcou como leitor e, até hoje, considero O LIVRO da minha vida. Talvez porque, no labirinto que a vida e a morte representam para qualquer humano, há sempre chegadas e partidas, abandonos e regressos, ecos do vivido e do imaginado como se de textos e intertextos se compusesse a existência, também feita de reflexos de uma realidade espelhada em páginas que se encontram sempre do outro lado dos olhos, tornando "o direito esquerdo e o esquerdo direito" (cap. VI, pág. 126, na 6ª edição da Caminho):

    "Deixou a janela aberta, foi abrir a outra, e, em mangas de camisa, refrescado, com um vigor súbito, começou a abrir as malas, em menos de meia hora as despejou, passou o conteúdo delas para os móveis, para os gavetões da cómoda, os sapatos na gaveta-sapateira, os fatos nos cabides do guarda-roupa, a mala preta de médico num fundo escuro de armário, e os livros numa prateleira, estes poucos que trouxera consigo, alguma latinação clássica de que já não fazia leitura regular, uns manuseados poetas ingleses, três ou quatro autores brasileiros, de portugueses não chegava a uma dezena, e no meio deles encontrava agora um que pertencia à biblioteca do Highland Brigade, esquecera-se de o entregar antes do desembarque. A estas horas, se o bibliotecário irlandês deu pela falta, grossas e gravosas acusações hão-de ter sido feitas à lusitana pátria, terra de escravos e ladrões, como disse Byron e dirá O'Brien, destas mínimas causas, locais, é que costumam gerar-se grandes e mundiais efeitos, mas eu estou inocente, juro-o, foi deslembrança, só, e nada mais. Pôs o livro na mesa-de-cabeceira para um destes dias o acabar de ler, apetecendo, é seu título The god of the labyrinth, seu autor Herbert Quain, irlandês também, por não singular coincidência, mas o nome, esse sim, é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler, Quem, repare-se, Quain, Quem, escritor que só não é desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem. O tédio da viagem e a sugestão do título o tinham atraído, um labirinto com um deus, que deus seria, que labirinto era, que deus labiríntico, e afinal saíra-lhe um simples romance policial, uma vulgar história de assassínio e investigação, o criminoso, a vítima, se pelo contrário não preexiste a vítima ao criminoso,e finalmente o detective, todos três cúmplices da morte, em verdade vos direi que o leitor de romances policiais é o único e real sobrevivente da história que estiver lendo, se não e como sobrevivente único e real que todo o leitor lê toda a história."

     Eis uma narrativa sobre uma outra: a de uma vida que não foi concluída (Pessoa não matou o heterónimo; Saramago fê-lo, num labirinto ficcional cujas fronteiras com a realidade são a todo tempo ora respeitadas ora violadas). Eis um romance que combina e cita variadíssimos textos e autores da literatura nacional e estrangeira. Há em O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), de José Saramago, um prisma literário desassossegante e desafiador, a unir muitos pontos histórico-literários evocados e conjugados num jogo plurifacetado, intertextual onde também cabem versos, linhas prosaicas na forma e no registo, discursos múltiplos. Tudo isto, além de autores tornados personagens e criações que se afiguram mais reais e próximas da vida do que os próprios criadores.

      Neste dia, registo que gostava de ter mais tempo para ler por prazer. Vai já algum tempo desde que o fiz pela última vez, com a liberdade em que o prazer se deve rever. Fico à espera de dias melhores.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Dia dos enganos...

   Começa abril e terminou a viagem que me levou aos países que só são baixos de nome.

   É Dia dos Enganos, assim o diz o calendário. Não estou enganado, não. O que era bom acabou e, agora, é tempo de recordar, nos poucos dias que restam antes de recomeçar o trabalho.
   Depois da partida, é tempo de chegada. Mario Quintana (1906-1994), jornalista e poeta brasileiro, tem a sua razão quando afirma que "viajar é trocar a roupa da alma". Leva-se na mala o que se é; regressa-se com o que se quer ser e/ou com mais vontade de (re)ver o que, por algum tempo, se deixou. E, além de tudo, chega-se por certo mais rico com o que se viveu.

Montagem fotográfica de uma viagem para recordar

  Roterdão-Amsterdão-Antuérpia-Bruges-Bruxelas foi um circuito que a Oscartur soube muito eficazmente organizar, acompanhar e (acima de tudo) fazer recordar, pelo que teve de fantástico. Foram muitos os pontos da visita, numa gestão que a todos os viajantes encheu de satisfação.

    Balanço muito positivo de uma viagem que chegou ao fim no tempo físico, mas perdurará na memória.