quarta-feira, 30 de abril de 2014

'Os Lusíadas' e o número da besta

     Estudos sobre numerologia e simbologia numérica associados à literatura são inúmeros e Os Lusíadas são mais um exemplo de obra a isso destinado.

     Tudo começa porque, ontem, um aluno me perguntou qual era o verso da epopeia camoniana que estava relacionado com o número da besta, o 666. Uns riam-se; outros estavam expectantes e todos esperavam ouvir a explicação de uma curiosidade que a professora de Português lhes tinha incutido, mas que, parece, o professor de Literatura estava mais destinado a responder. Não sei se é bem o caso, mas assim passou a ser.
     Hoje foi a aula para se chegar à resposta e contei com a colaboração de alguns estudantes que tentaram chegar à solução, na procura que fizeram (disseram-me) pela internet. Dois cenários surgiram: um relacionado com o Canto VII; outro com o IX. Afinal, não era o verso, porque há mais do que um. E, no final da aula, foram muitas mais as referências, todas elas contribuindo para uma leitura reveladora de alfabetos muito diversificados para o conhecimento, com os números a constituir-se como um processo de o Homem aceder e compreender a coerência do mundo, pela construção de um sentido a atribuir ao universo.
     Começados com a obra literária por excelência (a Bíblia) - na súmula de tradições, de culturas, de saberes e acontecimentos que marcam a humanidade -, orientou-se para a leitura do último livro, o 'Apocalipse' (termo grego para 'Revelação'). No fim dos tempos (críticos), anuncia-se uma mudança, um novo tempo. No capítulo 13, versículo 18, lê-se: 

“Aquele que tem sabedoria calcule o número da besta, pois é o número de um homem e seu número é seiscentos e sessenta e seis”

     A leitura de um (sentido ou tipo de) "Homem" coincide com a cosmovisão antropocêntrica que o Renascimento traz para o Mundo - refletida em Os Lusíadas, num ideário que subjaz à própria arquitetura e construção da epopeia. E na tríplice configuração do "6" não será estranha toda uma simbologia que as próprias línguas de cultura sublinharam.
      No hebraico, as letras apresentavam valores numéricos; o mesmo sucedia na antiga Grécia (séc. IV a. C.), comparecendo a letra clássica do dígamo para representar o '6' (cf. tabela à direita), numa configuração gráfica próxima do atual "S" do alfabeto. Por outro lado, é sabido que, até ao século XVII, a Europa conviveu com cálculos matemáticos baseados na numeração romana (os algarismos árabes aparecem em textos portugueses pelo século XV e só se vulgarizam um século mais tarde).
     Nesta medida, a associação da grafia latina aos números sugerirá uma relação que - à exceção dos zeros para letras que não representam algarismos romanos - conduzirá a escrita da palavra 'sol' para o número seis; o mesmo sucede com a redação do nome 'Jesus'. Caso para dizer que, ora numa orientação mais pagã ora noutra mais cristã, a "revelação" simbólica e numerológica acontece. 
     O aparecimento das cartas do Tarot pelos séculos XIV-XV trouxe também consigo a leitura de sinais, no que aos vinte e um arcanos maiores diz respeito. O número seis corresponde à carta dos Enamorados, dos Amantes e traduz o caminho da escolha (segundo o livre arbítrio), da encruzilhada e da hesitação, com risco de erro e dispersão. Ao contrário do três (carta da convergência e da unidade), o seis (3 x 2) convoca a divergência de forças (dois sentidos) - é o reflexo dessa dualidade composta de corpo Vs espírito. Desta dupla dimensão (revista no contraste 'feritas / divinitas', materialidade / espiritualidade) se compõe o conteúdo de Os Lusíadas, publicados em 1572 (ano que, na operação matemática familiar dos 'noves fora', resulta em seis). Os 8816 versos da obra, nas 1102 estâncias, foram já largamente estudados por Jorge de Sena numa perspetiva numerológica. Não o fez com o foco no número da besta, mas a possibilidade existe, atendendo aos seguintes dados:

i) a leitura do título da epopeia, segundo uma configuração alatinada e numa aproximação ao grego antigo (particularmente ao dígamo), revela a presença de três números seis, para não falar na presença do cinco e do um (que também somados resultam no número seis);

ii) o sexto verso de cada uma das três estrofes da Proposição (Canto I) - 6 6 6 - reflete um conjunto de características relacionado com a excecionalidade do humano herói lusíada, associada à força, à intemporalidade e à divinização (“Mais do que prometia a força humana”; “Se vão da lei da Morte libertando”; “A quem Neptuno e Marte obedeceram”);

iii) as oitavas somadas até ao verso 666 conduzem até ao segundo verso da estância 84 de cada canto e, no caso do canto I ("Já o raio apolíneo visitava / Os Montes Nabateios acendido, / Quando o Gama cos seus determinava / De vir por água a terra apercebido"), remete para o espaço terrestre  dos Montes Nabateios (onde o Gama está prestes a ser traiçoeiramente atacado, por influência de Baco), espaço elevado e posicionado entre a referência a um deus (Apolo) e um homem (Gama), como que prenunciando a divinização deste, assim que superar a prova que lhe está destinada;

iv) o canto VI é o do segundo consílio (convocado por Baco) - que colocará os portugueses novamente à prova, pela congeminação divina que criará uma tempestade marítima - e tem no verso 666 (estrofe 84) a marca da força a enfrentar ("Assi dizendo, os ventos, que lutavam / Como touros indómitos, bramando, / Mais e mais a tormenta acrecentavam");

v) a estância 666 é precisamente a do início do canto VII, aquela que dá conta da concretização do caminho da escolha, do objetivo da viagem - a chegada dos marinheiros à Índia (“Já se viam chegados junto à terra / Que desejada já de tantos fora, / Que entre as correntes Índicas se encerra / E o Ganges, que no Céu terreno mora. / Ora sus, gente forte, que na guerra / Quereis levar a palma vencedora: / Já sois chegados, já tendes diante / A terra de riquezas abundante”) - ou o cumprimento do feito planeado;

vi) a chegada à Índia, por mais que seja desejada, constitui uma desilusão (por ser local onde se troca a vida humana do Gama por dinheiro) só (re)compensada no canto IX com a Ilha dos Amores (num plural que conjuga a dimensão corpórea - das relações mantidas entre marinheiros e ninfas - com a espiritual - no prémio e na glória simbolicamente representados) - o segundo verso da estância 84 do canto IX (o 666) é precisamente o que explicita a união dos marinheiros e das ninfas ("Destarte, enfim, conformes já as fermosas / Ninfas cos seus amados navegantes, / Os ornam de capelas deleitosas / De louro e de ouro e flores abundantes."), na realização corpórea e espiritual dos amantes (relembre-se a carta VI do Tarot), na ascensão humana à "divinitas", depois de um percurso em busca do local onde o "bicho da terra tão pequeno" não "indigne o Céu sereno".

     Na linha do exposto, revê-se a escrita das letras numa configuração numérica simbólica, traduzindo uma mentalidade que, desde os tempos medievais, procura compreender o(s) sentido(s) oculto(s) do Universo e tentar determinar o destino humano. Não será por acaso que o verbo 'contar' (números) e 'contar' (histórias) apresentam raiz etimológica comum.
     A numerologia, com cálculos de previsões, interpretações e até  especulações transcendentes ou mágicas surge, impondo-se com a Idade Média e o Renascimento, quando a ordem universal se baseava na razão numérica (filosofia derivada de Santo Isidoro: "A razão dos números não deve ser desprezada. Na realidade em muitas passagens das Sagradas Escrituras, quanto mistério eles revelam" - in Etimologias, III, iv, i). Consagrado como fator de configuração na Criação Divina, o número assumiu-se com lugar de destaque na criação artística, em geral, e na literatura, em particular.

    Na arquitetura de Os Lusíadas não deixa, pois, de perpassar a ideia de que as relações numéricas são relevantes para o significado da obra; para a interligação da natureza com a vida humana e, consequentemente, para a expressão da arte. Nesta última, os números são mais um alfabeto para o conhecimento.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Desencontros...

      Felizmente, a necessidade vai criando mais oportunidades de encontros ou reencontros (nem que sejam no espaço ou na rede virtual).

       Ainda assim, o tema de hoje prende-se com o "desencontro".

    Q: Professor, dê-me a sua opinião sobre o nome "desencontro". É formado por sufixação?

     R: Tomando a perspetiva que, ao nível da morfologia e dos estudos sincrónicos da língua, se tem priorizado, interessará verificar como é que se forma a palavra "desencontro". Creio ser consensual que esta deriva de "encontro", sendo-lhe acrescentado o prefixo "des-". Assim, trata-se de um caso de derivação por prefixação.
      Mesmo querendo ver em "encontro" um sufixo (de natureza gramatical) que permita derivar um verbo - 'encontrar' - na forma nominal 'encontro', o facto é que esta processualidade é anterior à derivação 'encontro > desencontro'.

    Em conclusão, 'desencontro' é uma palavra derivada por prefixação, independentemente de outros processos morfológicos que tenham ocorrido em fases ou etapas anteriores.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Aborrecimentos!

      Há um provérbio que diz que a falta do amigo há de conhecer-se, mas não aborrecer.

     Aqui, faz-se por não dar a conhecer nem a falta nem o aborrecimento. Porém, de vez em quando, lá surge o tópico do aborrecido.


   Q: Na frase "Estou aborrecido contigo", qual é a função sintática de 'contigo'?

     R: Primeiro de tudo, chamo a atenção para o facto de o verbo copulativo 'estar' selecionar a utilização de um predicativo do sujeito (presente em 'aborrecido contigo'). 'Contigo', apenas, é uma expansão desta função que tem como núcleo um adjetivo ('aborrecido') e o respetivo complemento.
      Falar de um complemento do adjetivo está na mesma linha de raciocínio do verbo transitivo indireto que seleciona o seu complemento (aborrecer-se com X); do nome que se acompanha do seu complemento (aborrecimento com X). Daí o adjetivo admitir também complementação (aborrecido com X).
    Um registo final para referir que o complemento do adjetivo é uma função sintática interna (de segundo nível) comparativamente ao predicativo do sujeito (função nuclear, de primeiro nível).

      Aborrecimentos à parte, espero que este seja um esclarecimento e diálogo (de) amigos, sem os primeiros a não ser apenas no tema anunciado.

domingo, 27 de abril de 2014

Aqui vive um poeta (e não só)

    A um homem das Letras, formado em Direito e com bastante história na cultura e na política deste país.

    Ao fim de 72 anos, que tenha sido assim a entrada nessa experiência que, por um lado, anula a existência; por outro, ganha (a morte) aquele que a vive (na passagem). 

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer 
fica junto de mim, não queiras ver 
as aves pardas do anoitecer 
a revoar na minha solidão. 
O poeta que (se) lê
quando eu morrer segura a minha mão, 
põe os olhos nos meus se puder ser, 
se inda neles a luz esmorecer, 
e diz do nosso amor como se não 

tivesse de acabar, sempre a doer, 
sempre a doer de tanta perfeição 
que ao deixar de bater-me o coração 
fique por nós o teu inda a bater, 
quando eu morrer segura a minha mão. 

 in Antologia dos Sessenta Anos (2002)

     Em registo e tom completamente diferentes (mais risível, mais irónico, menos sentimental ou pungente), uma outra "morte" surge em novo soneto, escrito a pedido de Francisco José Viegas. Nele um sujeito poético coloca-se discursivamente diante de uma alma moribunda, numa coloquialidade capaz de desdramatizar e desconstruir o que possa ser trágico (qual ser que, à procura de entender o desconhecido, brinca estrategicamente com este último e o sentido que a própria vida lhe dá) e em jeito de evidente intertexto camoniano:
Retrato de Vasco Graça Moura, por Bottelho.
      mudinha e quietinha

pé ante pé há-de chegar a morte:
alminha vagabunda, enquanto ofegas
são as gotas da vida cabras cegas
na hora escapulida que te exporte.

alguém dirá que ao criador te entregas, 
terás um atavio em lenho forte
e um necrológio do melhor recorte:
azar, lampejos, erros teus, refregas.

se da outra vida algum contacto póstumo
acaso se consente então a sós tu mo
dirás depois e se gostaste ou não.

mas se não for assim não ficas mal
mudinha e quietinha. por sinal,
há gente bem pior no panteão.
in Poesia reunida , vol. I (2012)

        Entre a caracterização de culto, de poeta da renascença contemporânea (tanto pelo que estudou como pelo que escreveu ou traduziu) e os sinais da modernidade (também questionadora da tradição e da convenção canónicas), o galardoado com o Prémio Pessoa (1995) entregou-se à arte de Apolo e de Febo, da forma mais clássica, erudita e disciplinada à mais descondicionada e motivada no que a vida e a língua de hoje nos oferecem.

        Fica o registo de dois poemas inspirados nessa hora que se abre (que se lhe abriu) ao tempo sem conta nem vitalidade.

sábado, 26 de abril de 2014

Começar pelo meio

    O tópico de hoje é mais para uma questão de análise literária. Também faz parte do labor do professor de Português.

     Perante o facto, vem por vezes a dúvida. Segue-se a constatação.

    Q: Colega,
       Sempre disse e vi escrita a expressão latina "in media res" para designar o início da narração de Os Lusíadas. Recentemente, nos manuais de 9.º ano, tenho encontrado esta expressão grafada "in medias res". Se possível, gostaria de conhecer a sua opinião. Obrigada.

    R: Caríssima colega,
      Efetivamente, a expressão correta é "in mediaS res", atendendo ao facto de o adjectivo "medius, -a, -um" qualificar o nome feminino plural "res" e com este concordar na forma acusativa do feminino plural.
    Assim, se só recentemente encontrou esta forma grafada nos manuais, temo dever dizer que anteriormente havia por certo erro. Ainda assim, a consulta de uma obra de referência como, por exemplo, o Dicionário de Narratologia, de Carlos Reis e Ana Cristina Lopes (Almedina, 1994, pág. 199), afastaria qualquer um dessa falha, isto para não ter de ir ao encontro da Epistola ad Pisones, de Horácio, onde se apresenta essa técnica da narrativa épica, baseada no modo de narrar já "a meio das coisas", ou melhor, dos acontecimentos narrativos.
     Os Lusíadas, no que respeita ao seu plano narrativo da viagem (com traçado a azul, na imagem infra), inicia precisamente com os marinheiros portugueses em pleno Índico ("Já no largo Oceano navegavam / as inquietas ondas apartando" - canto I, estância 19):

A viagem de Os Lusíadas (Descoberta do caminho marítimo para a Índia) 
entre o plano da História de Portugal narrado por Vasco da Gama (final do canto IV e o canto V) 
e o da Viagem, narrada pelo Poeta-narrador (cantos I-II e VI-X)

       Tudo o que diga respeito ao ponto ou tempo narrativo anterior dessa passagem no "largo Oceano" (da partida de Belém até à navegação no Índico) vem a ser contado no plano da História de Portugal (com traçado a verde), quando precisamente Vasco da Gama assume o estatuto de narrador junto do rei de Melinde - no processo de encaixe narrativo da História de Portugal, da mais recuada (cantos III e IV) à mais próxima (final do canto IV e canto V) da existência narrativa do capitão dos navegadores.

     "In medias res" é, assim, o contrário de "Ab ovo" (expressão latina para se referir a uma narrativa que inicia desde o ponto inicial, o nascimento, por exemplo, da personagem principal ou dos acontecimentos que são objeto de relato).

sexta-feira, 25 de abril de 2014

E foi este o dia...

     Há quarenta anos, chegou a liberdade e os versos da 'poeta'.

     Celebra-se o fim de um regime ditatorial, que teve em Salazar e Marcello Caetano as caras da opressão e repressão; festeja-se a democracia conquistada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), para um povo sedento de justiça, de oportunidade e de tempo - todos mascarados, estagnados algures desde as primeiras décadas do século XX.
     E os versos surgiram, para anunciar a mudança. O título fez-se com uma simples data, o de um dia do calendário ("25 de Abril").

A palavra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, 1974
(Fotografia da exposição 40 anos do 25 de Abril, na Escola Secundária de Gondomar)

    Comemorada a revolução dos cravos (aquela em que uma mulher, na manhã desse dia, ofertou cravos a um e outro soldado, na direção do Largo Carmo, e viu essas rubras flores depositadas nos canos das armas), ficam na memória os exemplos a seguir, além dos males sofridos, indesejados - alguns teimosamente coincidentes com aquilo que se queria já bem longe dos nossos dias. Assim não é.

     Valeu a pena! Teve e tem de valer a pena, para que o azedo e a agrura dos tempos passados não se traduzam em sufoco e angústia de um povo que, na ânsia de direitos e liberdades (e da confiança e da esperança), espera (ainda) por melhores dias, depois de lhe terem comprometido algum do futuro.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A cantiga que esteve para ser arma

      A cantiga é uma arma - assim se diz das cantigas comprometidas com atos revolucionários.

    Em contexto de véspera do 25 de abril, muito se fala de "E depois do adeus" (cantada por Paulo de Carvalho), "Tourada" (por Fernando Tordo), "Grândola Vila Morena" (por Zeca Afonso). Muitas outras poderiam ser mencionadas, entre as que soaram ora nos dias anteriores ora nos que sucederam à revolução que fez vingar a democracia, pondo fim a uma ditadura de quase cinquenta anos.
     Documentado com os registos (de há quarenta anos) para memória futura, o radialista Manuel Tomás evocou-os hoje em entrevista televisiva (no Jornal 2). Tornados presente, neles se relembra como a canção "Grândola Vila Morena" esteve para ser "Venham mais cinco". A primeira, que foi a senha para a saída das forças armadas dos quartéis, só o foi pelo exercício de censura previsível sobre esta última.


         VENHAM MAIS CINCO

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D'àquém e D'àlém Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

     De um passado de que nos libertaram, seria bom que o presente não revivesse sinais dele, para bem de um futuro com esperança. 

      Começa na noite de hoje a manifestação popular em memória dos 40 anos do 25 de abril. A associação homónima, dos militares que lideraram o MFA (Movimento das Forças Armadas), fará amanhã uma cerimónia pública no histórico Largo do Carmo, homenageando Salgueiro Maia. Com eles é que o povo deveria estar, deixando orgulhosamente sós aqueles que vão mutilando o exemplo e o modelo de liberdade conquistados (pois, como diz a canção, "...há quem queira / Deitar abaixo / O que eu levantei") e que gostam da retórica que já nada significa para os governados.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

40 anos do 25 de Abril na ESG

      Depois de ontem ter sido oficialmente inaugurada...

     Chegou a vez de levar os alunos à exposição dos 40 anos do 25 de Abril (que propositadamente escrevo com a maiúscula do relevo a dar a um tempo histórico que devia ser inspirador para a atualidade que se vive). A atividade, da responsabilidade do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Escola Secundária com EB3 de Gondomar, conta com um programa que abrange colóquios, debates, participação em eventos dinamizados com a edilidade gondomarense, sarau cultural, entre outras iniciativas.
     De particular interesse em toda a exposição, os vários pormenores marcantes de uma época (moda, utensílios domésticos, louça, brinquedos, música, revistas, moedas e notas) e, em especial, a reprodução de uma sala de aula, mais uma mostra de fotografias do pessoal docente e não docente da ESG.
      Destas duas últimas, impõe-se a referência a todos os sinais de uma sala de aula que os alunos viram, na qual sentaram e contactaram com manuais únicos da então chamada escola primária; com as famigeradas provas de passagem, em folhas de papel almaço pautado; com os retratos de Marcello Caetano e Américo Tomás, mais a cruz de Cristo, na parede por cima do quadro negro; com as palmatórias, para lembrar castigos físicos. Talvez tenham achado demasiado estranho, mas todos tiveram que passar pela minha frente, junto à secretária docente, e dizer-me individualmente 'bom dia', depois de apanharem umas "reguadas", só porque tinham pensado que podiam sentar-se onde e com quem queriam; começaram a aula comigo, de pé (a ideia era cantar o hino, mas alguns estarreceram...), à espera da minha autorização para sentarem. Só faltou a cana para que pudesse apontar para o quadro ou atingir a cabeça ou a orelha de alguém mal comportado.

Depois das reguadas, todos sentadinhos e alinhados nas carteiras da escola primária

      Foram poucos os minutos de aula, para saberem que o conformismo era a regra de ouro, para os valores que sublinhavam a importância de Deus, Família e Pátria; que a educação assentava nestes valores, também presentes em conteúdos e áreas de conhecimento praticamente ensinados à mesma hora por todo o país; que a homogeneidade era princípio respeitado nas próprias turmas e escolas (só femininas ou só masculinas); que os erros, os esquecimentos e as distrações eram fatores de castigo severo; que as formas de castigo eram tão visíveis quanto as "orelhas de burro" e a observação das paredes ou recantos das salas, além de frequentemente sentidos quanto as mãos ficarem a ferver pelas "reguadas" aplicadas; que o controlo era tão assumido quanto o desejo de casar de uma professora primária depender da autorização do próprio Ministério; que o respeito era um fim em si mesmo, nos silêncios forçados e no não direito a qualquer reclamação face à figura de poder.
       Com alguma incredulidade nos olhos e nos comentários feitos, prosseguiu-se com a viagem no tempo.
   Top de preferências para jovens e mais crescidos foi sempre o conjunto de fotos, com a imagem de professores, pessoal administrativo e auxiliares de ação educativa, todos com menos quarenta anos. Ver alguns dos docentes ainda nos bancos de escola, procurar descobrir no passado traços de um presente que o tempo tem vindo a moldar de forma por vezes tão distinta; encontrar o habitual preto e branco (já amarelado e com sombras) das imagens, mais os recorrentes cavalinhos das festas e feiras, as roupas de cerimónia ou das festas de comunhão, os registos de rosto ou de corpo inteiro em poses tão estáticas e marcadas quanto os fotógrafos assim o ditavam são marcas já distantes para o ato festivo, quase singular do que era, nessa época, tirar uma foto. Hoje, no tempo das 'selfies' e do 'photoshop', parece que se está perante achados do século passado (e sem dúvida que o são), apesar de nem meio século distar do tempo retratado.

        ... o reconhecimento impõe-se, por toda a dedicação prestada e todo o trabalho concretizado. O espaço do palco e do antigo pavilhão gímnico foram animados, abertos ao público e a uma iniciativa que tem tudo para marcar a vida da escola ao longo dos próximos dias. A palavra de apreço pelo que foi feito e a quem tanto se empenhou na dinamização do evento é o mínimo que este registo pode e deve traduzir.

domingo, 20 de abril de 2014

Tele...- longe? à distância? ou tão próximo que se reduz?

     As aparências enganam, o que parece ser igual tem contornos diferenciados; não se pode colocar num mesmo saco o que é de qualidade distinta.

      Servem estas primeiras linhas como pressuposto: não se force para ser estável o que não o é; não se tenha a classificação como fim em si mesmo.

       Q: Olá, Vítor.
      Desculpa, mas aqui vai mais uma dúvida. Tenho andado a consultar várias gramáticas, nomeadamente a da Mira Mateus, mas as dúvidas permanecem. Então, quanto à formação de palavras, como posso classificar "telefone", "telemóvel" e "televisão"?

    R: O caso destas três palavras, aparentemente com um elemento comum (o radical grego 'tele'), não admite uma só possibilidade de resposta, pois está em causa a forma como este elemento morfológico erudito se foi transformando e adquirindo sentidos completamente distintos. Nesta linha, aliás, se entende que Celso Cunha e Lindley Cintra tenham resolvido a questão ao propor o processo de 'recomposição' (aquele no qual certos radicais gregos e latinos adquirem um sentido especial nas línguas modernas, distinto do etimológico), conforme se lê na Nova Gramática do Português Contemporâneo.
      Trabalhar estes casos, em termos didáticos, só faz sentido quando se acompanha o estudo morfológico de uma atividade ou tarefa que implique, por exemplo, a consulta de dicionário com informação acerca da formação da própria palavra. Além de se operar um trabalho de consulta em obras de referência, contribui-se para o que sejam procedimentos de pesquisa e análise na busca de dados ou conhecimentos especializados. A perspetiva sincrónica que o comum dos falantes detém sobre a língua colherá dados mais consistentes com tais metodologias, nomeadamente as que o possam familiarizar com a complexidade de respostas.
      A propósito de 'telefone' interessará saber que o termo entra na língua portuguesa pelos finais do século XIX, já formado e por influência do inglês 'telephone' ou mesmo do francês 'téléphone'. O que terá sido um empréstimo (anglicismo / galicismo) é, entretanto, aportuguesado no que em tudo se apresenta como uma palavra-base.
     O mesmo sucede com 'televisão', proveniente do francês 'télevision'.
   Naturalmente que estes dois casos têm um substrato grego na base formativa da palavra e que corresponde ao advérbio grego 'tele', com o significado de 'longe / à distância'. Daí haver quem defenda a classificação de palavras compostas para todas as que apresentam este elemento compositivo. Ainda assim, o que está em questão é o seguinte: não se trata de um processo de formação na língua portuguesa; antes a apropriação / adaptação de uma palavra que entra já formada no nosso idioma.
     Por outro lado, 'telemóvel' é um exemplo de como a sua formação relativamente recente acaba por ganhar contornos completamente distintos dos anteriores. A consciência da segmentação '[tele][móvel]' não é de natureza etimológica: não é um móvel longe ou à distância, mas sim um telefone móvel. Portanto, há o resultado da redução ou truncação de uma palavra [tele(fone)], à qual se junta outra. Trata-se de composição, sim, mas sem obedecer às descrições estabelecidas pelo Dicionário Terminológico (composição morfológica / morfossintática), por não caber nos mecanismos de sistematicidade associados ao estudo da morfologia.

     Mais um caso, portanto, para a discussão da especialidade, para a possibilidade de confronto de perspetivas, e que não se compagina com respostas que escapem ora à consideração de processos irregulares na formação de palavras (com cenários combinatórios desses processos) ora à existência de uma dimensão como a lexicalização (a enquadrar a explicação de casos atípicos, assistemáticos como o do 'telemóvel'). 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Tanto frenesim para uma celebração (cada vez mais adiada)

     Falta uma semana para celebrar os 40 anos do 25 de abril e são cada vez maiores os sinais da sua negação.

     Entre os objetivos que abril não atingiu estarão, por certo, os sinais que negam cada vez mais a existência de justiça social, de igualdade de direitos (práticos... porque de princípios não concretizados,de letra está toda a gente farta), de oportunidade e futuro à vista neste país. Restam algumas vozes críticas, algumas reações que procuram contrariar o rumo, que já deixou há muito de ser da maioria (porque conduzido por uma minoria desacreditada - a dos políticos). Nem já o discurso dos "afetos" é encarado senão na lógica do necessário, para se preservar uma face já sem cara.
     Quando falar do 25 de abril já é história (porque me recuso a utilizar o termo "narrativa", tão gasto por quem já faz parte de uma história muito mal contada), quase apetece começar com o típico "Era uma vez...". Não o faço por, na desesperança, estar incluído o termo contrário e ainda poder haver a vontade (sem rima com realidade) de apagar o prefixo quando houver oportunidade para tal.
      Assim, proponho outro "incipit" para os versinhos inspirados nesse feriado que virá a ser celebrado, pelo muito que tem de passado; pelo pouco que tem de presente; pelo nada que o futuro poderá evitar.


      Desculpem, os leitores, a forma perfeita da literatura (soneto) para a despretensiosa qualidade dos versos; porém, prefiro isto a cantar a grande música da "Grândola Vila Morena" com a qualidade de voz de um Zé Cabra (que apareceu e desapareceu do mundo da música, tal como deveria acontecer com muitos políticos desta terra - alguns dos quais já invadiram os nossos frágeis ouvidos com as piores das cantigas).

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Despedida de Gabo

     Noticiada ao final do dia, a despedida que há muito se anunciava.

     Para o conhecido autor de narrativas que foi o colombiano Gabriel García Márquez, Nobel da Literatura em 1982, quase se pode dizer que hoje foi o dia da Crónica de Uma Morte Anunciada (1981) - não a do assassinato da personagem Santiago Nasar, mas a que naturalmente foi chegada aos 87 anos de vida do próprio escritor. Teminou, assim, a última página vivida, porque das lidas muitos outros poderão dar contínuos e intemporais desenlaces como se aquela se mantivesse como narrativa aberta.
     Muito falado é o realismo mágico da escrita de Gabo ou Gabito, dessa fusão entre realidade e fantástico que se lê em "Surpresas de Agosto" (na coletânea Doze Contos Peregrinos, de 1992). Tudo parece passar pelo exemplo que a narrativa nos dá: refletir sobre a vida, não pelo que dela se vive, mas pelo que dela se recorda e pela forma como essa recordação é contada. Neste sentido, o autor de Cem anos de Solidão (1967) ou de O Amor nos Tempos de Cólera (1985) foi alguém que se entregou dominantemente à narrativa, da mais ficcionada àquela que nada tem de ficção (como, por exemplo, a jornalística ou periodista). É desta última que Portugal faz parte dos seus escritos, particularmente os que deram origem a três textos (duas reportagens e um ensaio) sobre o processo revolucionário de abril e o período do verão quente de 1975.
    Sobre o ofício da escrita dos contos, dizia Gabo que "é tão intenso como o de começar um romance. Porque no primeiro parágrafo de um romance tem de se definir tudo: estrutura, tom, ritmo, extensão, e por vezes até mesmo o carácter de uma ou outra personagem. (...) o conto, em contrapartida, não tem princípio nem fim: pega ou não pega." (in Doze Contos Peregrinos).
     Lembro que, pelos finais da década de oitenta do século XX, me "pegou" a história de um pequeno livro que tive a oportunidade de reler há cerca de três / quatro anos:

   "Caminhou mais de cem metros para dar a volta completa à casa e entrar pela porta da cozinha. Teve ainda a lucidez bastante para não ir pela rua, que era o trajeto mais longo, entrando na casa contígua. Poncho Lanao, a mulher e os cinco filhos não tinham dado pelo que acabava de acontecer a vinte passos da sua porta. "Ouvimos a gritaria", disse-me a mulher, "mas pensamos que era a festa do bispo." Começavam a tomar o pequeno-almoço, quando viram entrar Santiago Nasar encharcado em sangue e segurando nas mãos o cacho das suas entranhas. Poncho Lano disse-me: "O que eu nunca pude esquecer foi aquele fedor a merda." Mas Argénida Lanao, a filha mais velha, contou que Santiago Nasar caminhava com a altivez de sempre, medindo bem os passos, e que o seu rosto de sarraceno com os caracóis revoltos era mais belo do que nunca. Ao passar em frente da mesa sorriu para eles, e continuou através dos quartos até à porta de trás. "Ficamos paralisados de susto", disse-me Argénida Lanao. Minha tia Wenefrida Márquez estava a escamar um sável no quintal da sua casa, do outro lado do rio, e viu-o descer a escadaria do cais antigo, procurando com passo firme o caminho para sua casa. 
     - Santiago, meu filho - gritou -, que tens tu? 
     Santiago Nasar reconheceu-a. 
     - Mataram-me, menina Wene - disse ele. 
     Tropeçou no último degrau, mas levantou-se logo. "Teve mesmo o cuidado de sacudir com a mão a terra que tinha nas tripas", disse-me minha tia Wene. Depois, entrou em casa pela porta de trás, que estava aberta desde as seis, e desabou de bruços na cozinha."

      Eis o epílogo de uma narrativa que já no seu início anunciava estas últimas linhas de intenso mistério no trágico destino de uma personagem; mas, mais do que esta, era o facto, a ação narrada que constituía o núcleo central para todo o percurso de um narrador que quis fazer (uma) crónica e colheu as informações necessárias para o narrado. E tudo sendo sabido por antecipação, nada impediu que existisse e persistisse a fatalidade.   
   
      Entre o tanto que ainda tenho para ler (dele), houve várias experiências que pegaram e bem: nos contos, "A Sesta de terça-feira" (in Os funerais da mamã grande) e "Surpresas de Agosto" (in Doze Contos Peregrinos); nas narrativas mais extensas, Crónica de uma morte anunciadaCem anos de solidão e O Amor em tempos de cólera. Vejamos se o tempo me dará a oportunidade de cruzar com mais alguns dos seus escritos.

domingo, 13 de abril de 2014

Dois homens para um poema

    Música, corpo e voz num palco-ancoradouro com cordas caídas do teto, tornadas amarras de um cais.

    Como que olhando para o porto, um engenheiro imagina o volante e o comando de um paquete que passa... Os primeiros versos fazem-se ouvir: "Sozinho no cais deserto, a esta manhã de verão /Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido/...".


Vídeo com a declamação de Diogo Infante para alguns versos da "Ode Marítima", de Álvaro de Campos

    Metáfora para uma viagem ao interior do ser humano na recolha das sensações e na procura de “sentir tudo de todas as maneiras”. Assim surge a "Ode Marítima", de Álvaro de Campos, na representação que Diogo Infante compõe a partir da direção cénica de Natália Luiza.
    Na versatilidade de tons; no registo entre a reflexão imaginativa e a ânsia febril, maquinal, energicamente totalizadora, audaciosa e freneticamente esgotante; na selvageria em que tudo é sentido de mais para se poder continuar a sentir, houve o Campos metafísico, o Campos engenheiro sensacionista de amplo fôlego e de feroz e incoordenado grito (saudando a infração do convencional social e da escrita versificatória, marcadamente interjetiva e eufórica), o Campos nostálgico aposentado - variadas fases para uns, faces para outros. Para qualquer dos casos, uma totalidade avassaladora.
   Porque de teatro se trata, estiveram em palco as várias máscaras que o ortónimo produz(iu) e o heterónimo reproduz(iu). Porque de mar se cria o cenário, há ir e voltar da imaginação; há percursos, passagem, fluidez, movimento, deriva, fluxo e refluxo de marés, na aparente instabilidade e contradição (mais complementaridade de forças e sentidos dissonantes) que definem o ser humano na construção de uma identidade complicadamente presente a partir da sua ausência.

     No último dia do espectáculo no Teatro Nacional de São João, dois homens (Diogo Infante e João Gil) fizeram poesia - versos e música - em mais de uma hora de magia para e com um texto que Campos dedicou a Santa Rita Pintor. Poema dito nos seus mais de oitocentos versos magistralmente evocados e convocados na letra e no som, na nota e na luz que abrilhataram o ato de fazer, dizer, ser. No fim, apetece dizer como o poeta: "Eis outra vez o mundo real, tão bondoso para os nervos!"

terça-feira, 8 de abril de 2014

Notas que não valem NADA!

      No sossego do lar... e entra, pelo facebook, mensagem de uma antiga aluna.

      A introduzir a prova de que ainda se vai fazendo alguma coisa nas aulas, surge o texto: "E andam os professores a ensinar... Eheh". Segue-se a imagem, a valer mais do que mil palavras, acabadinha de ser captada da televisão:

Imagem captada e facultada por uma aluna, depois de uma emissão televisiva
     
      Felizmente, ainda há quem saiba detetar o erro.
    Perante o meu agradecimento, para a "pérola" enviada, o comentário final impõe-se: "Eu sabia que ia gostar!"
     É, de facto, um bom exemplo de como a edição televisiva (e não só) anda pelas ruas da amargura. Isto de não saber a diferença entre o tempo preciso, marcado no relógio (ex.: à uma hora, em "Encontro-me contigo no bar à uma hora"), e a expressão do tempo já passado ou com duração (ex.: há uma hora, em "Encontro-me há uma hora à tua espera") é caso para dizer que há implicações graves na comunicação.
    Apesar de os professores ensinarem, há quem tenha emprego na área da informação / comunicação (mais propriamente, na televisão) e esteja a contribuir para a má formação / educação linguística.

     Na felicidade noticiada para um bebé que se salvou numa situação de perigo, fica a revolta de ver legendas ou notas de rodapé televisivas vergonhosas, com o pior dos exemplos e a irresponsabilidade de quem as edita e publicita. E o defeito não é da Sony, por certo!