quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Grave acentuar algumas graves

        É comum o erro de acentuação em palavras da mesma família.

       Não deixa de ser indesejável, quando poucas regras estáveis e elementares são ignoradas.Uma das mais básicas é a de não acentuar palavras graves terminadas em 'a' /'e' / 'o' seguidas ou não de 's'. Se 'autárquica' tem acento (por ser esdrúxula), o mesmo não sucede com 'autarquia' (grave); pelas mesmas razões, 'rápido' tem acentuação gráfica, mas 'rapidamente' já não: 'último' (adjetivo) não se pode confundir com 'ultimo' (forma verbal). São múltiplos estes casos da língua, muitos deles já comentados "nesta carruagem".
     Problema sério, diria, quase a justificar terapia (sem acento, por ser grave) ou abordagem terapêutica (com acento, por ser esdrúxula).

A Porquinha Terapeuta - (com agradecimento à IAA)

        Já no que ao 'terapeuta' diz respeito, volta-se a ter palavra grave, terminada em 'a', seguida ou não de 's'. Daí não ter acento gráfico.
       São tantos os locais que nos expõem ao erro que já chegamos ao ponto de frequentemente o gravar na memória, ou mesmo de grafar o impensável.
        Nos meios de comunicação social deveríamos ter o melhor dos exemplos. Lamentavelmente, não é o caso.

         Por regra, não se acentuam as palavras graves (terminadas em 'a/e/o'), exceto casos outros que escapem à dita regra. 'Terapeuta' não é exceção, por mais excecional que seja a porquinha no tratamento de quem tem medo de viajar de avião.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Troca de palavras

       Bem que se justificava uma troca de palavras com o Sr. Palmeirim!

      Até aprecio o desempenho, o espírito cómico do homem nos programas televisivos que apresenta. Já no que toca aos reparos de seriedade que constrói, nem sempre a coisa cumpre o registo da correção. É demasiado brincalhão e a troca de palavras (não no sentido de conversação, mas de permuta, substituição) acontece de modo errado. 
     Hoje, no programa Joker (RTP1), a seriedade não condisse com a verdade dos factos linguísticos (pode mesmo dizer-se que, quanto a isto, não há novidade face aos apontamentos aqui produzidos sobre o concurso).
      Perante as hipóteses de escolha, a concorrente não é feliz (inclusivamente convocando para o jogo o Acordo Ortográfico, que nada tem a ver com a opção devida). Dizer que "Quezília" é a palavra mal grafada não tem sentido. A explicação do locutor, orientada para a opção correta, não é, porém, a melhor, ao associar 'obcecado' à palavra 'obsessão', chegando mesmo a proferir que «o substantivo obsessão leva o 's', mas quando passamos a 'obcecado' é verdade... [é com 'c']». Deus meu! Qual a relação?!
     Não é por colocar os olhinhos bem arregalados que o dito se torna facto (isto para não falar mesmo daquela classificação gramatical de 'substantivo', já um tanto desajustada em termos terminológicos).
    Obsessão (nome) corresponde ao adjetivo 'obsessivo' (não obcecado), senhor Palmeirim. Obcecado (adjetivo) está para o nome 'obcecação', não 'obsessão'. São famílias de palavras distintas e, nessa medida, justifica-se que a escrita com 's' se verifique em obsessão, obsessionar, obsessivo, obsessivamente; já o 'c' surge em obcecado, obcecador, obcecação, obcecadamente, obcecante, obcecantemente.
     Sem entrar pelo critério morfológico, este contraste de palavras obsessivo / obcecado justifica-se pela etimologia latina: o primeiro advém de 'obsessio, -onis'; o segundo de 'obcaecatus' (relacionado com 'cego', do latim 'caecus, -um'). História da língua, portanto.

       Pois é, senhor Palmeirim! Não tem que saber latim; porém, não aproxime o que, ortográfica e morfologicamente, não tem razão de ser.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Modalidades

     O tempo escasseia, mas lá vai a resposta.

     Um pedido que não podia ficar sem resposta.

     Q: Bem que preciso da tua opinião. Achas que "Fomos autorizados a ver o espólio de Pessoa" é um bom exemplo para a modalidade deôntica (com sentido de permissão)? Tenho sérias dúvidas , mas é o que aparece numa sistematização do manual. Partilha lá comigo essa sapiência! Obrigada.

      R: A sapiência anda fraca e cansada, mas vamos lá a isso. 
    Tens sérias dúvidas e, no caso, tenho a certeza (mais uma modalidade - a epistémica, para qualquer das condições).
    Devo referir que a modalidade deôntica (por alguns linguistas denominada de intersujeitos) é aquela que está presente em enunciados que demonstram a relação do locutor com o seu interlocutor, com o primeiro a expressar sobre o tu / vós uma orientação, um conselho, um pedido, uma questão, uma ordem. Conforme a força e o poder representados, pode dizer-se que o valor modal se situa, neste tipo, entre a permissão e a obrigação.
      Ora, o exemplo proposto dá conta de um locutor que não age sobre o destinatário (nada lhe pede, pergunta ou permite; nada o obriga a fazer; nada o autoriza a nada). Assim sendo, não se trata de modalidade deôntica, por certo. O enunciado traduz uma situação que o eu / nós partilha ou dá a conhecer. Esta intencionalidade de quem fala / escreve não se confunde com o propósito de agir ou requerer algo do destinatário.
       Sem nada que mais o caracterize, vejo o exemplo como a expressão do locutor ou num registo de lamento (que pode ser associado à modalidade apreciativa, se acompanhada por uma entoação devida) ou numa partilha de informação / conhecimento (portanto, modalidade epistémica do certo).

      Em suma, não é um bom exemplo para ilustrar o tipo de modalidade sistematizado no manual nem para os alunos conseguirem classificar (dada a ausência de indicadores que permitam identificar a intenção de comunicação).

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Pelo centenário do nascimento

        À que foi à Grécia pela Granja,...
        
        À poeta que fez aliança com o mar, a praia, a rocha, o azul do céu e chegou ao tempo primordial e civilizacional da Antiguidade, fazendo rimar essa época com o espaço da justiça, com o canto poético em harmonia e refletida emoção, num feixe de luzes e numa paleta de claridades para a Humanidade.
      À arquiteta da palavra, do verso e da prosa que combinou a água e a luz com rochas, conchas, areais e maresias; a que fez da praia e do bosque um só palco para a escrita, qual anfiteatro com letras e sons em notas de paraíso e divindade à espera de serem desveladas.

"Mar Sonoro" de Sophia de Mello Breyner Andresen (Foto e filme VO)

     Sophia de Mello Breyner Andresen, aquela que, cem anos depois de ter nascido, continua prometida às ondas brancas e às florestas verdes, tendo na poesia a sua expressão maior de liberdade. Foi nela e por ela que atravessou "o deserto do mundo", viveu "em pleno vento", lutou "contra o abutre e a cobra" e cantou o amanhecer de abril. 
        Ansiou pelo tempo justo, de verdade e liberdade.

       ...não houve Cnossos, Delfos ou Creta que lhe dessem o berço, já que à vida veio por terras de Luso.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Esquecer o tempo... entre o tudo e o nada.

     É para amanhã, é para hoje, é para ontem...

     A urgência de tudo, porque tudo é importante e tudo é tudo!!!

     Eu, no meio de tudo, não sou nada.
     Começo a sentir que não dou para tudo.
     É tudo muito e eu sou pouco. Sinto-me nada!
     Talvez pretenda tudo, mas estou a achar que mais vale não querer nada.
     Paro com tudo, não faço nada. Fico a olhar o céu, as nuvens...
     Do sol, nada. Tudo molhado pela chuva.
     Até que ele aparece e, do nada, tudo fica diferente.


Paisagens marinhas com um toque de nuvem e sol (Fotos VO)

     As nuvens passaram, a dourada estrela deixa-se ver e torna-se tudo no momento.
     Em tudo o céu, o mar e o dia ficam melhores. Não é preciso mais nada.
     Se me disserem que isto não é nada, agora, eu grito que é tudo.
     Este deixar-se ficar no nada é bom. É tudo!
 
     Tudo começa a ser tão imenso para mim...
   
     Este pedacinho de nada foi tudo o que consegui nas últimas horas.
     De um lado para o outro, com tudo por fazer,
     Nada ou quase nada consigo resolver.
      Amanhã vou arrepender-me por não ter, por momentos, feito nada.
     Tudo me vai cair em cima.
     Nada posso já fazer, por causa do tudo que quis v(iv)er.

Sol escondido na nuvem, a brincar com o céu e o mar (Foto VO)

     Contudo, este momento de nada é bálsamo para tudo.
     Espero agora tudo cumprir para que nada fique por concluir.
     Talvez não tenha tempo para nada, mas foi um instante de tudo e nada.

     Tudo podia ser diferente!
     De nada adianta lamentar.

     Nada para já; tudo para depois...
   
     Por agora é tudo. Volto ao que hoje já devia estar pronto ontem. Por ora, nada!

domingo, 3 de novembro de 2019

Será que a Amélie vem aí?

        Dizem que a tempestade está para chegar a Portugal.

     Podia ter sido uma promessa, para afastar a anunciada intempérie; foi apenas um passeio para afastar as más energias, o cansaço e alguns sintomas doentios que persistem. E, agora, dizem que está a vir depressão! Coisa escusada! São ventos e chuvas que chegam para derrubar qualquer homem. Era bom que se dissipassem.
       A força da natureza está à vista: depois do sol tímido de um sábado e domingo, muda a cor do céu, a névoa surge, o vento esfria e o mar alteia. De longe, o branco das ondas ameaça pintar as paredes de uma capela, erguida sobre um rochedo, de costas voltadas para as fortes ondas. Em Miramar, a capela barroca do Senhor da Pedra não mira o mar; mira a terra. Impõe-se mais do que Pedro: é pedra sobre rocha, local de culto e peregrinação que, segundo um dos painéis de entrada, está erguido num espaço que terá remotamente recebido cultos pagãos de povos pré-cristãos. Persiste essa natureza natural e panteísta, pela envolvência do mar, da terra e do céu.

Capela do Senhor da Pedra, em Miramar (freguesia de Gulpilhares) - Foto VO

      Construída nos finais do século XVII (1686), a igreja é Património Mundial da UNESCO desde 1996. A sua forma hexagonal e a balaustrada exterior circundante, frequentemente rodeadas pela subida das marés, contribuem para um imaginário singular: o de um escolho santificado. A força da crença cruza-se com alguma sobrenaturalidade. Segundo os antigos, uma imagem de Cristo terá sido trazida pelo oceano: “Que num belo dia pousou sobre aquela pedra onde, mais tarde, veio a ser erguida a capela” (lê-se num outro painel, numa espécie de justificação do nome: “Senhor da Pedra”). No registo da lenda, quando os locais se preparavam para construir uma ermida ao Senhor da Pedra num terreiro conhecido por arraial, frequentemente era vista uma luz sobre os rochedos. A cada noite a luz misteriosa brilhava, pelo que os habitantes começaram a acreditar num sinal enviado do Céu. Assim, o ponto luminoso à beira-mar passou a ser o local de construção da capela. 
      O fantástico e o sobrenatural são ainda sulcados pelo espiritual e pelo religioso: na rocha, por atrás da capela, está incrustada uma marca semelhante a uma pegada de boi, que os habitantes da terra dizem ser de um animal bento (o boi que aquecia Jesus na manjedoura) que, também, por ali havia passado.

     As marcas nos penedos são uma constante nas lendas de cariz religioso. Natureza e fé são motivos para dar cor às religiões. A Amélie tem nome que (além de título para filme) dá para depressões.
      

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Halloween dos nossos dias

       Esgotado, não tenho ânimo para festas de bruxas!

     Ainda assim, não deixo passar o dia do "Trick or treat!" (a minha costela anglófona tem destas coisas). Uma imagenzinha sugestiva veio mesmo a calhar:

Imagem colhida do Facebook, para mais um Halloween.

       Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Cuidado com as bruxas high tech! Ainda podem vir de encontro a nós! Enquanto for às árvores, não há tanto problema.

      Fruto de inspiração nos nossos tempos. Já não há bruxas como antigamente (mas "que las hay las hay").