sexta-feira, 20 de março de 2020

Sinto-me engolido pelo "Sétimo Reino"

       Não sei bem porquê, tenho andado a recuperar muito do que li com Dan Brown.

      Desta vez, relembro Origem (2017), cuja leitura concluí há cerca de dois anos. Recordo desde logo a epígrafe do livro: "Temos de estar dispostos a abandonar a vida que tínhamos planeado para podermos ter a vida que nos espera" (Joseph Campbell). Atendendo às mudanças drásticas dos últimos dias, até parece ajustar-se a um reconhecimento de que nada somos, quais "fracos humanos" submissos às forças do universo.
       Uma destas parece ser a do "sétimo reino", que se impõe, nomeadamente no contexto de trabalho à distância a que muitos estão votados.
       Edmond Kirsch, personagem fulcral da narrativa mencionada, assim o explicita na fase final do livro:

     "De acordo com a simulação de Edmond, a raça humana seria engolida por uma nova espécie ao longo das décadas seguintes. E o mais assustador é que aquela espécie já se encontrava a viver na Terra, desenvolvendo-se silenciosamente.
      - Obviamente - continuou a voz de Edmond -, não podia divulgar esta informação enquanto não pudesse identificar esta nova espécie. De modo que me embrenhei nos dados. Depois de incontáveis simulações, fui capaz de identificar o misterioso recém-chegado.
     O ecrã refrescou com um diagrama simples que Langdon reconheceu da escola primária, a classificação taxonómica dos seres vivos, dividida em "Seis Reinos": Animalia, Plantae, Protista, Eubacteria, Archaebacteria, Fungi.
     - Depois de ter identificadoo este florescente novo organismo, percebi que tinha formas demasiado diversas para ser denominado em espécie. Em termos taxonómicos, era demasiado amplo para ser denominado uma ordem ou mesmo um filo. - Edmond olhou diretamente para a câmara - compreendi que o nosso planeta era agora habitado por algo muito maior. Algo que só poderia ser considerado como um novo reino.
       De súbito, Langdon percebeu o que Edmond estava a descrever.
        O Sétimo Reino.
        (...)
        Era um reino formado por espécies não vivas.
    Estas espécies desprovidas de vida evoluíam praticamente da mesma forma que as vivas - tornando-se gradualmente mais complexas, adaptando-se e propagando-se para novos ambientes, algumas sobrevivendo, outras extinguindo-se. Um exemplo perfeito de modificação adaptativa darwiniana, estas novas criaturas tinham-se desenvolvido a uma velocidade estonteante e formavam agora um reino totalmente novo, o Sétimo Reino, que ocupava o seu lugar ao lado do Animalia e dos restantes.
       Recebera já o nome de
Technium."
in op. cit., Bertrand Editora, 2017, pp. 489-490

    É neste mundo de inteligência artificial que me vejo absorvido. Entre mim e os outros só as máquinas (computadores, telemóveis,...) parecem fazer ponte. Eu que seria um dos seis vejo-me no sétimo, numa dependência que não me agrada; como se o mundo não existisse lá fora. Vejo-o pelo que o universo tecnológico me dá a ver.
       Não pode ser.  
    Não quero que as janelas e varandas da casa deem lugar às janelas de um programa, de um aparelho confinado a duas placas retangulares e a um teclado. O mundo redondo que está lá fora não se enquadra com as linhas geométricas do Sétimo Reino. Este não me dá o ar nem o céu, nem o molhado da água do mar.
       Tudo por causa de um vírus que ameaçadoramente suga a vida a milhares e que teima em deixar-nos cada vez em maior recolhimento e isolamento.

      Não sei qual é a vida que nos espera. Ficar sentados à espera do que esta nos possa trazer é algo que ainda se pode procurar contrariar. Quanto mais não seja, alimenta-se a esperança de que outros e melhores dias virão - o espírito humano tem de ultrapassar os limites da crise.

quinta-feira, 19 de março de 2020

A sério?! (com e sem aspas)

      A concorrente não queria acreditar. Eu não acredito MESMO!

    A pergunta da incredulidade (com aspas, porque citada) é da concorrente, já que era crença sua o barroco ser anterior ao renascimento. 

A escolha errada no Joker, seguida  da explicação absurda (RTP1- emissão de hoje) 

      Lamento, mas creio ser de cultura geral que o último que mencionei é o primeiro de todos, abrindo portas para um período clássico tão extenso no tempo quanto nele caberem o classicismo propriamente dito, o barroco e, por fim, o neoclassicismo.
     Daí que, no diálogo com o condutor do programa - mal Vasco Palmeirim assume que o barroco é posterior -, a "stôra" (como ele a chamou) tenha demonstrado o seu desagrado. Pois é! Uns conhecimentos de literatura também ajudariam na decisão correta.
     Apetece-me dizer que esta até eu sabia.
    O pior, contudo, estava ainda para vir: diz o Vasco que o barroco é bastante posterior, "dos finais do século XVIII". Aí a concorrente lança a questão "A sério?!". E ele confirma.
     A sério?! - pergunto eu (sem aspas, mas tão incrédulo quanto a "stôra"). Insisto: a sério?!
    Resta-me infirmar uma "confirmação" dada, sem sentido nenhum. A culpa de quem constrói as respostas / as informações a dar (para não dizer que é falha dos comentários do locutor) reside, acima de tudo, em não se verificar, com alguns estudos, o que possa ser dito a propósito. Do barroco não se podia ter dito o que se disse.
      A circunstancialidade relativa do início de um movimento cultural, artístico não permite datas precisas ou rígidas, é certo; todavia, por exemplo, no caso da literatura, a crise do renascimento e o surgimento de tendências maneiristas (finais do século XVI) dão o sinal para o que virá a ser o barroco como núcleo de expressão artística e estética situada no século XVII. 
      A obra que mais marcou o barroco em Portugal intitulou-se Tratado de Agudeza y Arte de Ingenio (1642), de Baltazar Gracián - uma espécie de tratado sobre a poética, onde o autor chega a citar Camões (que poderá estar nalguma da génese barroca). É do primeiro quartel do século XVIII o tratado de teorização barroca português, de Francisco Leitão Ferreira, intitulado Nova arte de conceitos (1718-1721).
      Portanto, ou por influência espanhola ou por teorização nacional, temos o barroco português e peninsular situado, como núcleo, entre a primeira metade do século XVII e as primeiras décadas do seguinte. As compilações setecentistas da Fénix Renascida e Postilhão de Apolo são a expressão mais significativa do registo composições poéticas engenhosas seiscentistas.
        E mais não fosse, a teorização retórica sermonária ou da prédica de Padre António Vieira (1608-1697) é marca dessa estética que, tendo atingido o século XVIII, não se prolongou até ao final do mesmo (apesar do que é dito por alguns locutores), já dominado por algumas reações neoclássicas.

        Quando eu dizia que era bom que a RTP apostasse em linguistas, para abordar o bom uso da língua, talvez tivesse de assumir que é necessário abrir mais o leque, abarcando as humanidades em geral, para lá caberem referências de literatura, cultura, história que inviabilizem a comunicação de barbaridades.

domingo, 15 de março de 2020

Beleza natural em tempos críticos

       Apartado do mundo, por uma ameaça que anda por aí à solta, fui ao encontro  do sol, do céu, do mar...

      Quando quase tudo se recolhe, pelo frio e pelo crescente escurecer, vou ao encontro do resto de sol que paira no céu enevoado, a ameaçar chuva.
        Registo, progressivamente, o momento:

Quando ainda o céu fogueava com o sol ensombrado (Foto I - VO)

Quando as nuvens ensombravam a luz do fim de tarde (Foto II - VO)

Quando a luz deu lugar a uma nuvem de ameaçadora chuva (Foto III - VO)

       Hoje, ver o sol ocultando-se numa e noutra nuvem foi como participar num jogo de esconde-esconde, até que, cansado e rendido, esse companheiro do dia se deixou cair num leito oceânico que foi, é e sempre será vida.
        No meio de tanto sinal de desgraça e de arautos do fim do mundo, prefiro as cores e o silêncio naturais, tão multiformes e plásticos, como de pintura feita a traço e guache, à espera de que toda a miséria e todo o infortúnio sequem, para renovação da felicidade na humanidade.
        É tanto  o discurso sinistro, trágico que é imperativo fugir da deprimência. Em tempos críticos, são necessárias alguma serenidade, alguma racionalidade (quem sabe uma nota de sorriso, uma gargalhada), até para poder tomar-se decisões o mais sensatamente possível. Para alarmismo e dramatismo, já bastam os vividos por quem realmente sofre ou trata do problema que o Covid-19 trouxe a todos. A todos, e bem para lá de qualquer país ou de alguém que ache que cantar o hino nacional vale para animar quem quer que seja. Pedissem-me para bater palmas a quem cuida dos que sofrem e fá-lo-ia pela segunda vez, numa varanda para a rua e numa noite como muitas as que têm vindo a invadir o espírito e a vida dos seres humanos. Ainda assim, há que combatê-la(s), ir em frente, na busca da luz que mitigue ou neutralize o medo.

    E, no entanto, ele move-se (o sol); ela também (a terra). Possamos nós acompanhar e testemunhar esses movimentos.

sábado, 14 de março de 2020

Já vi ou li isto algures…

      E agora que alguma da nossa vida fica como suspensa, revisita-se uma leitura.

     Chega aquele momento em que te lembras de ter lido uma passagem de um livro de ficção tão cheio de realidade! Na altura, era tudo tão carregado de referências históricas, culturais e científicas que chegava a duvidar se haveria presente ou futuro para reconfirmar o que acabava de ler:
Capa do romance Inferno
de Dan Bown (2013)
     "Langdon tentou afastar da sua mente as imagens da peste, mas não conseguiu. Sempre quisera saber como fora aquela cidade [Veneza] incrível no seu auge... antes de a peste a ter enfraquecida o suficiente para poder ser conquistada pelos otomanos e depois por Napoleão... quando Veneza reinara gloriosamente como o centro comercial da Europa. Dizia-se que não havia cidade mais bonita no mundo, que a riqueza e a cultura da sua população não tinham precedentes.
      Ironicamente foi o gosto da população por luxos estrangeiros que levou à sua queda - a peste mortal viajara da China para Veneza nas ratazanas transportadas nos navios comerciais. A mesma peste que dizimou uns abismais dois terços da população da China chegou à Europa e rapidamente matou um em cada três - jovens e velhos, ricos e pobres.
       Langdon lera descrições da vida em Veneza durante os surtos da peste. Com pouca ou nenhuma terra seca onde enterrar os mortos, os cadáveres inchados flutuavam nos canais, com algumas áreas tão densamente cheias de corpos que os trabalhadores tinham de os empurrar para o mar. Não havia orações que conseguissem diminuir a ira da peste. Quando as autoridades municipais perceberam que eram as ratazanas que estavam a causar a doença, já era demasiado tarde, mas Veneza ainda decretou que todos os navios recém-chegados tinham de ancorar no mar durante quarenta dias antes de serem autorizados a descarregar. Até hoje o número quarenta - quaranta em italiano - serve como lembrete sombrio das origens da palavra quarentena."
in Inferno, Bertrand Editora 2013, pág. 360

     O passado veste-se de presente e inquieta. O excerto é tão oportuno e coincidente com o que se vive hoje! É como se o Covid-19 fosse mais um exemplo da peste que veio dos finais da Idade Média, onde não faltam as máscaras - podiam ser as do Carnaval de Veneza, que, afinal, tudo tiveram a ver com a Peste Negra:
Máscara veneziana
      Langdon explicou rapidamente que, no seu mundo de símbolos, a única forma de máscara com um bico comprido era quase sinónimo de Peste Negra -  a peste mortífera que grassou na Europa no século XIV, matando um terço da população em algumas regiões. A maior parte das pessoas acreditava que a designação da peste como "negra" era uma referência ao enegrecimento da carne das vítimas por causa da gangrena e das hemorragias subepidérmicas, mas na verdade a palavra negra era uma referência ao profundo terror que a pandemia espalhou entre a população.
       - Essa máscara com um bico comprido - disse Langdon - era usada pelos médicos que tratavam a doença na época medieval, a fim de manter a pestilência longe das suas narinas enquanto cuidavam das pessoas infetadas. Hoje em dia, só são usadas durante o Carnaval de Veneza... uma lembrança sinistra de um período sombrio na história da Itália."
idem, pág. 63

     Não vou dizer que a obra Inferno, de Dan Brown, foi premonitória face ao tempo presente; mas que há coincidências demasiadas da contemporaneidade com a época histórica mencionada... isso é inegável.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Plano de sobrevivência (em tempos de planos de contingência)

      Saturação. Necessidade de parar. Vontade de me libertar.

(Registos fotográficos da caminhada - Fotos VO)

      Porta batida para apanhar ar. Não o da casa, mas o que é mais livre na natureza e na rua.

FIM DE (MAIS) UM DIA

Hoje

Saída em fim de tarde
Uma palete de cores diversas
Instantes vários para um pôr-de-sol
Locais distintos num só caminho
Distância a deixar ver o mar

Uma neblina e uma aragem frias
Fecho de um dia com a noite a escurar
Sol pondo-se, Lua a assomar

Avenida com pontos de luz
Postes alinhados pela via

Tempo de regresso, para uns
Turno de entrada, para outros
Vaivém de todos na vida

Mar de rosas com mar picado
Espinho(s) sem lenho, sem flora

Céu camaleónico
Dourado tornado flamingo


Árvore de pé, em terra
Ondas espalhadas no oceano 

Passo(s) para casa
Entrada às escuras

Luz, lume, leito

Outro final de tarde
Noite anunciada
Amanhã prenunciado


    Pintada a tela, não foi mais preciso o pincel. Não é este o tempo da pena. Fiz do pensamento papel e fui imaginando linhas que aspiravam ser versos.
      O teclado deu a ler a criação.
  As imagens inspiraram - momentos de uma caminhada que ficou longe da estrada, por ansiar o mar e o areal; por esperar do céu a cor, um guia de luz ou as estrelas de um firmamento a descoberto, limpo, prenunciador de dias mais claros.
    Se pudesse, despendurava as nuvens ameaçadoras dessa claridade; aquecia o frio, para que deixasse de o ser; compunha o tempo à medida da existência e sobrevivência seguras, para que não fossem necessários planos de contingência.

  Não quis frases. Dão muito trabalho. Só tópicos, apontamentos, notas a fechar e a (re)abrir o ciclo.

sábado, 7 de março de 2020

Cinco Palavras de António Vieira

     Título de um novo romance de Manuel Maria, um livro à guarda do tempo na ânsia de o poder ler.

    Fossem cinco as palavras! São muitas mais, impressas em páginas que, à semelhança de outras publicações já produzidas e a julgar por outras histórias que já deram livros (também eles com títulos de cinco palavras), merecem leitura atenta.
    Um amigo lança um romance, uma amiga apresenta-o, outros amigos assistem e um rosto impõe-se aos olhos de todos e muitos mais, bem presentes, de todas as idades. Muitos vão reparando na capa, folheando o que o autor sublinha ser uma obra de ficção, com a seiva da História, da Literatura e da(s) Humanidade(s) e de uma personalidade, tão nacional como do mundo, colocada no centro da narrativa.
     Com a chancela da editora "Lugar da Palavra", a Biblioteca da Escola Secundária de Gondomar foi o ponto de encontro para sorrisos, afetos e saberes partilhados, numa fraternidade também construída com palavras ditas e escritas (tais como as do missionário jesuíta que é dado a ler).
      Padre António Vieira, orador e prosador, revive nas linhas agora escritas e expostas a um público leitor que precisa de conhecer mais do homem, do tempo e da visão do mundo seiscentista, para nele perscrutar um ideólogo do "novo mundo", um profeta, um fundador de mitos futuros feitos de fraternidade, de uma espiritualidade e de uma união de povos, etnias e línguas (das mais eruditas às vulgares). Trata-se de um pensador na vanguarda de um tempo no qual os ladrões já se multiplicavam; a cor da pele distinguia colonizadores de colonizados ou determinava a condição de dono e a de escravo; as línguas eram também confrontadas com preconceitos (como os da língua de cultura e erudição face aos linguarejares índios e negros).
     O "Pai Grande" (Payassu) foi dos primeiros a reconhecer a diferença, a tolerância nos homens e no que os define; a defender um sentido de miscigenação dos idiomas, numa legitimação tanto do culto "pulcro" como dos registos comuns do "belo" ou do "bonito", para não falar das sonoridades escutadas em todas as cores da ação missionária. A aproximação fazia-se, então, a um Quinto Império (com um Papa "angelicus" e um imperador cristão), abraçando judeus, cristãos, muçulmanos numa espécie de paraíso, a construir em vida entre os homens e não a doutrinar como prémio a alcançar depois da morte (atualidade tão inquestionável).
      Se o Homem é a língua que usa, na composição caleidoscópica de Vieira - orador, escritor, pensador, humanista, diplomata, político, "influencer" de um tempo pleno de teatralidade na vida ou de vida tão feita de teatro -, firmaram-se a multiplicidade e a multimodalidade do Português, que também é voz, face, gesto, grafia e "História de Futuro".  

     "Não é tudo isto verdade?" Eis as cinco palavras que Manuel Maria relembra, reproduz, repete, reforça para a (re)descoberta de um homem e de uma obra de tempos. Outros certamente virão (mas estes serão... Contas de um outro rosário). Ainda bem!

sexta-feira, 6 de março de 2020

Uma questão de eminência

    Seja forma de tratamento seja uma questão de altura, elevação ou superioridade, há que respeitar a base de palavra.

     Tudo a propósito de uma questão que alguém quis ver exclusivamente como resultante da formação de palavras:

     Q: Olá, Vítor. Li numa gramática que a palavra 'eminência' é derivada por sufixação. Não se trata de uma palavra base?

      R: Se me deres conta de palavras formadas a partir de 'eminência', assumirei que se trata de uma base para formar palavras derivadas ou compostas. Não se tratando disso, tenderei a assumi-la como palavra introduzida na língua portuguesa no decurso da evolução latina da forma 'eminentia' (a partir de um étimo), e que não é constituinte morfológico para novos termos.
       Assim sendo, numa perspetiva etimológica e recorrendo à história da língua, tomarei a origem do termo como vindo formado do latim, entrando diretamente na língua portuguesa por essa via e tendo sofrido processos de evolução fonética / fonológica no período do galaico-português. Não estão implicados, portanto, processos nem constituintes morfológicos. Trata-se, portanto, de um étimo ou termo etimológico. Qualquer formação, a ter existido, ocorreu no latim e não no Português.
    Na possibilidade de alguma coisa ter acontecido na nossa língua, terá sido o facto de a forma latina 'eminentia' ter sofrido mudanças ao longo do tempo por via popular e, no galaico-português, no quadro de um sistema consonântico medieval (mais complexo do que o atual) e na consequência de fenómenos como o da palatalização, ter convivido com realizações fonético-fonológicas novas relativamente ao latim vulgar (e que hoje podem ser equacionadas, por um lado, numa evolução marcada por simplificação sonora, mas, por outro, por maior complexidade na representação gráfica). O subsistema dos sons sibilantes e dos chiantes apontava, no período medieval, para realizações surdas que, correspondentemente, teriam também as sonoras, conforme se pode verificar na sistematização dada (focada nas sibilantes):

Subsistema das sibilantes (quatro sons distintos) no galaico-português

    Ora, a grafia 'ti' (seja de 'palatium' seja de 'eminentia') associar-se-ia a uma evolução que corresponderia a uma realização sonora do tipo [tsi], a qual viria a perder o elemento oclusivo inicial (daí a evolução oral de [tsja] para [sja]). 

      Mais uma exemplificação de como a plataforma da morfologia com a etimologia e a história da língua permite evitar generalizações de algumas gramáticas escolares.