quinta-feira, 10 de maio de 2018

O Dia da Queima dos Livros

      Há cerca de um ano percorri um dos locais, na zona que foi Berlim comunista.

      Há oitenta e cinco anos desapareciam aí os livros que se revelavam opositores ao espírito alemão nazi. Corria o ano de 1933 e, em Berlim, acontecia a queima dos livros, de autores ditos 'não-alemães' (ainda que alguns deles o fossem), levada a cabo pela Liga de Estudantes Alemães Nazis, em OpernPlatz (hoje BebelPlatz). 
     Tratou-se de uma campanha de propaganda, repetida em muitas cidades alemãs, contra os que se revelavam opositores ao espírito alemão (os chamados "Undeutsch"). Nomes como os de Sigmund Freud, Karl Marx, Albert Einstein, Franz Kafka, Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Marcel Proust, Emile Zola, Máximo Gorki e Ernest Hemingway figuravam entre os que tinham obras queimadas. Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazi, assumiu que, a partir de então, nasceria o novo homem alemão, livre da influência e do intelectualismo judaicos. Por ironia, o país que tinha inventado a prensa tipográfica móvel há cerca de meio milénio assistia a uma tragédia cultural, provocada pelo nacionalismo irracional, destruidor de memórias, ideias, histórias. 

Imagem alusiva à queima de livros (Bücherverbrennung)

    Trinta e três anos depois (1966), o filme Grau de Destruição (no Brasil, Fahrenheit 451) recuperava o tópico, ao adaptar o romance homónimo de Ray Bradbury, sob a direção de François Truffaut, e ao mostrar como um regime totalitário proibia os livros e toda a forma de escrita, acusando-os de tornar as pessoas descontentes e não produtivas (a resistência ao regime era apenas feita na terra dos homens-livro, uma comunidade de pessoas que destruía os livros depois de os memorizar; a perseguição era inevitável para quem era apanhado na posse de um livro, mas o propósito de o decorar era o de o republicar quando aqueles não fossem mais proibidos).

Excerto fílmico de Grau de Destruição (ou Fahrenheit 41), de 1966

     Atualmente, frente ao prédio da Faculdade de Direito da Universidade de Humboldt fica o chamado Book Burning Memorial: uma abertura de vidro colocada no chão da praça, a permitir aos transeuntes a visão, no subsolo, de uma sala com uma grande estante de livros branca, vazia. Recorda-se, assim, o dia em que, durante a ocupação nazi, 20.000 livros foram queimados, num só dia, numa pira que consumiu obras de cientistas, filósofos, escritores e pensadores de renome. Por extensão, a ausência dos livros simboliza a falta dos milhões mortos pelo nazismo, para além dos perseguidos, torturados e humilhados por pensa-rem de modo distinto.
    Organizada pelas estruturas governamen-tais nazis e pelo Comité Geral dos Estudantes da União Nacional-Socialis-ta,  a "Queima dos Livros" foi acompanhada por reitores, professores universitários, líderes estudantis, mais os altos representantes de Hitler. Mais de trinta cidades universitárias alemãs colaboraram e fizeram estender a campanha a outros pontos do país, graças à divulgação feita pela rádio, pelas telas de várias salas de cinema e pela cobertura de imprensa. Os dias seguintes assistiram à criação de outras fogueiras, alimentadas pelos livros e documentos escritos que os soldados nazi retiraram, à força, de casas, livrarias e bibliotecas.

   Em tempos de fraca memória, interessa relembrar os perigos do fundamentalismo, dos nacionalismos exagerados, da miséria humana e dos horrores que a História deu a conhecer e que o presente teima em fazer persistir. Os livros também cumprem esse papel (que o diga Saramago, com o seu O Ano da Morte de Ricardo Reis).

terça-feira, 8 de maio de 2018

Voz, melodia e força... vencedoras?!

    Espetáculo internacional em Portugal. É a Eurovisão na canção. Em Lisboa.

    Depois da vitória de Salvador Sobral em 2017, a capital portuguesa recebe o certame musical de maior projeção musical no mundo. Realizada a primeira semifinal, diria que se trata de uma realização televisiva que não fica atrás de produções de anos anteriores - balanço de um show que bem podia ser o da final do festival. Um evento que abre o país ao mundo e a uma audiência à escala global.
     Fica o registo da que podia ser a canção vencedora:

A representação da Áustria na primeira semifinal da Eurovisão (RTP1)

      NOBODY BUT YOU

Lord I’m gonna get so high tonight
I’m gonna let the floodgates open wide
I’m in open water
This is what I need
And though I try to get you off my mind

And I get no sleep
I’m in too deep
I can’t let you leave

It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto

Lord, I’m gonna bring you back tonight

Oh you’re running circles round my mind
After your words have been my bible
How could I search for someone new?
When I really want you by my side

And I get no sleep
I’m in too deep
I can’t let you leave

It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto

Don’t make me tear my heart out
I’m shaking till I fall down
Don’t make me tear my heart out
Don’t make me tear my heart out
I’m shaking till I fall down
Don’t make me tear my heart out

It wouldn’t be right letting you go running away
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto
It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
Ain’t nobody but you


    Uma entrada musical suave (em piano) a deixar ouvir uma voz grave (a de Cesár Sampson) para uma melodia rythm & blues que cresce, faz vibrar, num enquadramento cénico e de efeito televisivos surpreendente. No apoio vocal, há uma voz portuguesa (a de Ricardo Soler) a marcar a sonoridade do gospel, do soul, junto de outras vocalistas femininas.
    O resultado é uma música de força negra, de refrão contagiante e de letra que, por mais comum no tema, sublinha a persistência no amor.

    Não pediria mais para ser espetáculo. Sem necessidade de excentricidades, revirar de olhos, cacarejos ou uma "chicken dance" para chamar a atenção, este é um exemplo digno de vencedor. Se não o for, será música que fica (como muitas outras que não chegaram a vencer e marcaram a diferença).

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A sílaba da diferença

      É (foi e esperemos que continue a ser) abril, tempo de mudanças.

      Em tempos de democracia (de cravo), interessa ver o que abril nos trouxe, por mais cinzentos e pardos que andem os dias. O que se conquistou não se pode perder. Importa da flor não perder a cor.

in https://br.pinterest.com/pin/260716265901034772/

      Certo é que ditadura rima com escravatura. Talvez tenhamos saído de uma e entrado noutra(s); talvez por isso algum tempo de amargura.

     Vivamos outras revoluções, que nos libertem e deem mais sentido ao cravo. Ou à vida, mais sabor. Este foi o dia, desde a madrugada.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Maria Lionça na senda da ficção e da verdade

   A fronteira do fictício e do real é como a linha do horizonte: ilusão de ótica a todo o tempo renovada, procurando a terra da utopia.

   Tudo a propósito da poesia de Miguel Torga, ainda que Maria Lionça seja nome para uma personagem de um conto com título homónimo publicado em Contos da Montanha (1941). O próprio autor apresenta-a como criação, invenção, imaginação que se torna verdadeira. É como a obra do escritor: quanto mais ficcionada, criada ou mais imaginada, mais real.
     Como força materna, ela resulta numa espécie de caleidoscópio, nas múltiplas variações de luz que uma figura feminina é capaz de dar ao mundo. Neste sentido, Maria Lionça é universal(ista), fonte de energia, e (por isso) encontra-se na origem e nos ciclos renovados da vida. Fiando e tecendo, assim vai compondo a meia, com a linha ou o fio que, dedilhados, a mão já susteve entre a roca e o fuso, numa imagem de continuidade de vida.

Entrevista de Miguel Torga ("Viagem às Terras de Portugal" - Rede Manchete, 1987)

      Na vida literária, a obra também se compõe de energia, luta, força da palavra, da linguagem que traduz a própria criação e invenção. Assim a verdade interior do criador é partilhada com o seu leitor, tal como a mãe dá ao filho o que de melhor tem.
      No feminino da terra, na força telúrica que o poeta dá a ler, também se revela uma Maria Lionça. Mesmo o masculino a reflete, nomeadamente nesse negrilho plasmado em verso (não deixa de ser árvore de grande porte na expressão da criação poética). Qual Anteu, o poeta alimenta-se da força da terra e, dessa forma, dá voz à Poesia. Nesta apresentam-se marcadamente quatro linhas orientadoras: um desespero humanista, configurado no inconformismo, na luta e na revolta de um Orfeu Rebelde face ao(s) poder(es) que transcende(m) o Homem e o deixa(m) preso a uma realidade que não dá nem traz esperança, utopia ou felicidade; o telurismo como expressão da força e da energia que decorrem da vivência e da proximidade à terra; a problemática religiosa, na questionação de um Deus que, não sendo negado, é acusado de não ser humano nem próximo da racionalidade que o poeta quer sublinhada na vida humana;  o drama da criação poética, associado ao esforço, ao trabalho extenuante e contínuo dos que desejam a superação das limitações (nomeadamente os da escrita poética). 
      No cruzamento destas linhas temáticas cabe também falar de Pátria, de Nação, de Alma e Cultura de um povo - e aqui Maria Lionça também é traço de alma de um país e da sua cultura; de terra e de mar abertos ao mundo, na descoberta de caminhos que têm como destino último a Universalidade, esse princípio que nos aproxima de todos os outros, na busca infindável do que nos leva à felicidade, à utopia.
      No reconhecimento do poeta, sigam-se-lhe os trilhos da terra:

Documentário televisivo (Porto Canal) sobre o escritor Miguel Torga
      
     Nas quelhas da vida, também composta de múltiplas ruas, há caminhos a descobrir para lá da aparência e da superficialidade. É na busca do que há de mais profundo, e verdadeiro, que a aproximação ao ideal se constrói. Com esforço e com trabalho.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Agente ou não, faça-se a distinção

      Um perfeito exemplo de como a sintaxe requer a semântica para uma melhor classificação.

       Assim me chegou, sem mais, a questão:

     Q: Olá. Na frase ‘As tarefas foram distribuídas pelos alunos’, ‘pelos alunos’ é o complemento agente da passiva, certo?

      R: Talvez sim, talvez não. Na ausência de todo um contexto que permita enquadrar a produção da frase, antecipo dois cenários: um, com os alunos a serem os agentes e responsáveis pela distribuição; outro, com os alunos a serem beneficiários ou destinatários do ato de distribuição.
     Com o primeiro cenário, temos a frase proposta como a construção passiva obtida a partir de uma frase ativa de base (‘Os alunos distribuíram as tarefas’), na qual ‘os alunos’ seriam o sujeito-agente da ação de distribuir. Neste contexto, após as transformações típicas da frase ativa para passiva, o sujeito da ativa dá lugar ao complemento agente da passiva na voz passiva.
     O segundo cenário perspetiva a frase com significados e papéis semânticos distintos, mesmo que a frase não deixe de apresentar uma construção passiva. Pode esta última ser a configuração final de uma frase ativa do tipo ‘O professor distribuiu as tarefas pelos alunos’, a qual, uma vez transformada na passiva, apresenta uma sequência com o complemento agente da passiva omisso (‘pelo professor’), apenas com o sujeito (‘As tarefas’) e o predicado (‘foram distribuídas pelos alunos’) – este último com o auxiliar ‘ser’ (da passiva), mais o particípio passado do verbo principal (‘distribuídas’) e o respetivo complemento oblíquo.
    Dependendo da interpretação do primeiro e do segundo cenários, temos naturalmente funções sintáticas distintas. O certo é que, para existir um complemento agente da passiva, a frase tem de se encontrar na voz passiva e o agente deve ser o que pratica a ação configurada no verbo principal (no caso, ‘distribuir’) da que seria a frase original numa configuração de voz ativa.

      Um caso, portanto, em que sintaxe e semântica têm de estar de mãos dadas para desambiguizar sentidos e funções.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Religião (ou religiões) à parte...

       E voltamos à questão dos plurais de 'ão'.

       Deve ser a proximidade da Páscoa. Trouxe ao diálogo, entre dois professores, a questão do plural de 'sacristão'. Perguntavam-me, em jeito de reclamação, por que motivo tinha de ser 'sacristães', se a palavra estava relacionada com cristão, que forma o plural 'cristãos'.
       Há tempos vi, no 'Bom Português' (RTP1), que esta tinha sido a pergunta lançada aos transeuntes, muitos a tenderem precisamente para o 'sacristãos'. Eis que chegou a vez de entrevistar uma freirinha toda simpática, que, sorridente e como quem sabia do ofício, afirmava convictamente que o plural era 'sacristães'. Ora sem mais, a voz-off confirma o dado (na base da consultoria do programa) e falta saber quem o (vai) usa(r).
      Na verdade, consultando a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 182), de Lindley Cintra e Celso Cunha, podem aí ser encontrados os casos de um reduzido número de palavras que tem o plural formado em 'ães': alemão, bastião, cão, capelão, capitão (em dissemelhança com ‘capitanus’), catalão, charlatão, guardião (e muitos a preferir os ‘charlatões’ e os ‘guardiões’), escrivão, pão, sacristão, tabelião. Contudo, não deixa de ser um dado o cenário de palavras terminadas em 'ão' admitirem dois ou três plurais (um ora de natureza mais etimológica e outro ora de uma tradição mais popular: anãos, anões; corrimãos, corrimões; refrãos, refrães (que poucos dizem, preferindo os 'refrões'); verões, verãos; vilãos, vilões / aldeãos, aldeões, aldeães; anciãos, anciões, anciães; ermitãos, ermitões, ermitães; sultões, sultães, sultãos). Dicionários há, como o Houaiss, que admitem 'sacristães' e 'sacristãos'.
      Há dias, a propósito de uma reportagem, voltaram a palavra e o seu plural à baila:


    Assim sendo, pela gramática e também sustentado pela reportagem, lá respondi 'sacristães', tal como 'capelães' ou 'ermitães' (embora, neste último caso, as outras formas de plural também sejam válidas).
    Sem muita fé no que toca a palavras que não fazem parte de um uso frequente ou que não são ativadas tão regularmente,  diria que a consciência morfológica da questão está em deriva ou numa instabilidade que a sincronia procura regularizar, nos novos termos, para 'ões' (cf. camiões, aviões, corrimões, apagões e outros casos que tais).

     Não se trata de uma questão de religião nem de fé: na língua, fazem-se algumas conversões, concessões e alterações que uma gramática mais normativa entende como corrupções, mas que muitos estudiosos veem como variações, evoluções próprias de uma língua viva, sujeita a transformações. Algumas até demasiado presidenciais!

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, a Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.