segunda-feira, 20 de maio de 2013

Estou aqui estou a desfolhar um livro!

     Não... não me enganei! Reitero que ainda desfolho um livro!

    Os leitores deviam ter o direito de ser reembolsados quando adquirissem livros com defeitos de edição e/ou tradução.
     O caso é mesmo irritante, para não dizer impensável.
     Ando há uns meses para concluir a leitura de um livro que comprei depois de ter visionado um filme que me marcou pela positiva. Tal como a personagem do filme (Raimund Gregorius), quis contactar com os escritos ficcionais de Amadeu do Prado - autor tão imaginário e tão poderoso quanto a vontade que se tem de encontrar e ler a obra que lhe é atribuída (Um Ourives de Palavras), pela aproximação ao que Bernardo Soares propõe no Livro do Desassossego. Adquiri, por isso, o best seller internacional Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier.
    O romance está publicado sob a chancela editorial da D. Quixote, numa tradução de João Bouza da Costa.
   Ao fim de cerca de 150 páginas, estou já cansado de encontrar contrações (de preposição e determinante) seguidas de oração infinitiva - dado que as gramáticas do Português apontam como erro sintático a evitar, mas  que o tradutor e a editora decidiram ignorar nos seguintes casos (só para exemplificar um reduzido número deles) transcritos:

   (i) * "... depois das aulas terem começado..." (> depois de as aulas terem começado...);
     (ii) * "O facto dela ter começado a chamá-lo..." (> O facto de ela ter começado a chamá-lo...);
   (iii) * "... pelo facto do pai não ser alguém..." (> pelo facto de o pai não ser alguém...");
     (iv) * "... tinha a ver com o facto dele celebrar as palavras..." (> com o facto de ele celebrar);
     (v) *"O facto do Amadeu pertencer..." ( > O facto de o Amadeu pertencer...).

     O problema mais recorrente, contudo, está mesmo na utilização incorreta do verbo 'desfolhar', quando o que se pretende é 'folhear'. Quase de cada vez que Gregorius retoma a leitura do livro e do autor que o fascinam lá vem o desfolhar para a frente e o desfolhar para trás. O homem vai mesmo ficar sem o "Diário de Prado"!
    Não fosse isto o suficiente, também acontece que Raimund "desfolha" o seu bloco de notas para encontrar números de telefone! Sem grande memória para os números, arrisca-se, pois, a ficar sem bloco e sem números telefónicos, por certo. 

      E no meio de outros problemas de escrita (retomas mal construídas, desrespeito na anteposição de pronomes em construções com 'que', falta de pontuação, por exemplo), estou quase a perder a vontade de acabar de ler o romance. E estou aqui estou a desfolhá-lo com justa causa - a do mau exemplo editorial, que ainda por cima não ficou nada barato.

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