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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Podia ser melhor, para ser "bom".

      Isto de representar sílabas não é fácil.

      Em termos prosódicos, são analisados fenómenos fonéticos e fonológicos envolvendo unidades maiores do que os fonemas, como o caso da sílaba, da palavra ou da frase. No primeiro caso, está em causa uma unidade estruturada e organizada que agrupa sons na fronteira da palavra, podendo incluir um ou mais, como, por exemplo, nas sílabas das palavras [a][pren][der] ou [en][si][nar] [por][tu][guês]. 
      Os sons integrados numa sílaba podem ocorrer no seu ataque  - configurados pelas consoante(s) à esquerda do núcleo vocálico -, no núcleo vocálico (vogal ou ditongo) ou na coda da sílaba - consoante à direita do núcleo.
    Ora, no início da rubrica "Bom Português" de hoje, quando se procura verificar qual a sílaba destacada na palavra "tenhamos" (caso interessante, porque, definitivamente, resulta na leitura / na produção oral devida da palavra, quanto ao acento tónico), eis que surge o que não deve:

Há sílabas com amarelo a mais (Foto VO, a partir de emissão televisiva da RTP1)

      Leia-se convenientemente a segunda hipótese como a correta, assumindo a sílaba tónica e a natureza grave da palavra (e não a forma de a tornar esdrúxula, como muitos falantes tendem a oralizar). Até aqui tudo bem.
     O que não está correto é assumir [ten] no primeiro cenário como sílaba, como se de uma nasal se tratasse. A divisão silábica da palavra é [te][nha][mos], pelo que a primeira sílaba à esquerda não está convenientemente representada, na sua configuração gráfica. O 'n', indevidamente assinalado, é parte constituinte de um dígrafo (duas letras a representar um só som) que está para o ataque da sílaba medial [nha], e não para um som de coda da inicial.

        Quando de "Bom Português" se trata, tem de ser melhor. Haja esperança! E tudo faÇAmos para que consiGAmos, oralmente, produzir discursos corretos. TeNHAmos fé!

domingo, 14 de junho de 2026

Nobre causa em língua pobre

       Assim começou a manhã noticiosa: com nobreza e pobreza.

     A nobreza traduz-se na imagem e na ação dos dadores que generosamente dão o que têm a muitos que precisam. Solidariedade fantástica dos dadores, bem como de todos aqueles que cumprem, no seu trabalho, com uma causa que se impõe para a salvação / sobrevivência / manutenção da vida e da dignidade humanas.

Quando a imagem contradiz a legenda, num canal televisivo nacional - RTP Notícias (Foto VO)

       A pobreza encontra-se mesmo na legenda, como se houvesse brigadas contra as populações (ir de encontro a). E o curioso é que ela é imediatamente contradita pela voz da locução noticiosa, assumindo (e bem) que as brigadas vão ao encontro das populações necessitadas (ir ao encontro de).
    Já aqui se apontou, por mais de uma vez, como a simples troca das preposições / contrações dá em significados completamente contrários: respetivamente, o de esbarrar, chocar, ir contra, por um lado; o de aproximar, estar ao serviço de, por outro.

         A deriva do uso da língua (ainda mais em contexto de comunicação de massas), no que à expressão diz respeito, não pode causar incoerência nos atos: tudo vai ao encontro da causa maior; nunca de encontro a ninguém. Persista a nobreza; erradique-se a pobreza.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Um 'me' que se distingue pelo recurso à terceira pessoa... e não só!

        Chega o tempo de preparar para provas / exames / testes.

     Por vezes, o confronto com respostas indevidas leva a incertezas que, definitivamente, importa eliminar (seja qual for a fonte destas).
       
       Q: Bom dia, Vítor. 
         Preciso da tua ajuda: na imagem que envio, os pronomes "me" desempenham as funções sintáticas de CD e CI, respetivamente, ou são ambos CI?

Testes / técnicas para a distinção do 'me' são precisos(as). E não só!

          R: Olá.
       Na primeira frase destacada, o 'me' assume a função sintática de CD (complemento direto), dado que, no paradigma das diferentes pessoas gramaticais, esse pronome seria substituível por 'te' / 'o' / 'nos' / 'vos' / 'os'. A pronominalização, na terceira pessoa, por 'o(s)' é a prova da função sintática de CD. Analisando a particularidade da primeira realização frásica, é de verificar que se está perante a base nuclear verbal 'ENSINAR+ALGUÉM+A FAZER'; portanto, 'Ensiná-lo a isso' (de novo, a marca de CD na pronominalização acusativa sublinhada) e não '*Ensinar-lhe a fazer / a ler / a isso'. Trata-se de uma construção ou realização análoga a 'OBRIGAR+ALGUÉM+A FAZER' ou 'LEVAR+ALGUÉM+A FAZER' (obrigá-lo a fazer / levá-lo a fazer), também com CD.
        Não há, assim, como confundir esta realização sintática com uma outra mais próxima da estrutura argumental típica do verbo 'ensinar': ENSINAR+ALGO+A ALGUÉM. Nesta última é que seria possível a pronominalização (dativa) do CI (complemento indireto): 'ensinar-me / te / lhe / nos / vos / lhes algo.
       Na segunda frase, o 'me' funciona como CI (complemento indireto), já que a substituição, na terceira pessoa, corresponderia a 'lhe(s)' - a marca de dativo, associada a CI, com o segmento 'de tudo um pouco' (inversão de 'um pouco de tudo') a funcionar como CD.

        O teste de substituição / pronominalização é uma técnica eficaz na consciencialização do que só, aparentemente, parece igual. Contudo, nem tudo o que parece é (inclusive na gramática da língua).

quarta-feira, 18 de março de 2026

A diferença televisiva entre haver e ouvir

      A relação não é só num sentido.

      É biunívoca mesmo. Confunde-se ouvir com haver e haver com ouvir:

Imagina se houvesse! Talvez se ouvisse mais. Que desgraça! (agradecimento à recolha atenta da ARS)

       A julgar pelas legendas, a presente e outras já detetadas neste blogue, parece não haver diferença, no uso ora de um ora de outro termo.
     No meio disto tudo, já não se trata de uma questão de surdez (por não se ouvir o que há) nem de visão (por não se distinguir graficamente 'houve' de 'ouve'). 
       Homofonias à parte, é preciso não saber do que se fala nem do que se escreve, mesmo!

    É ignorância assumida quanto ao conhecimento e ao uso da língua - assim é num meio de comunicação social e de difusão do que pior existe (do que houve e não se ouve; do que se ouve e não houve).

segunda-feira, 9 de março de 2026

A liberdade no (uso do) acento gráfico

     A observação surgiu perante a estranheza do uso.

     É verdade que é mais comum ler-se a palavra sem acento gráfico. Por isso, a mensagem surgiu:

     A: Olá, Vítor!
         De quem me lembrarei, sempre que me deparar com algo como o que está abaixo?
       Guia Geral de Exames 2026: «(...) obrigatoriamente, de atestado médico de incapacidade multiúso (...)»
          É por isso que, por muitos olhos que passem no que escrevemos, nunca são demasiados.

     Tive de responder a desfazer um pouco a certeza nessa estranheza de um 'multiúso', que faz todo o sentido existir, atendendo às convenções ortográficas e de acentuação gráfica contemporâneas.

     B: Bom dia.
         As convenções ortográficas, por vezes, são complicadas. Este é um dos casos.
      Ainda que o uso comum permita a utilização consensualizada da grafia 'multiuso' (com o elemento latino 'multi' e a palavra 'uso' aglutinados), o certo é que, na escrita, há uma regra de acentuação gráfica a determinar que duas vogais juntas em situação de hiato (lidas não como ditongo, numa só emissão de som, mas como vogais diferenciadas foneticamente) fazem com que 'u' ou 'i' sejam graficamente acentuados. É o que acontece, por exemplo, com 'reúne', 'saúde', 'suíça', 'país', 'baú' entre outras palavras.
       Assim, convivem as escritas 'multiuso' e 'multiúso' na língua portuguesa: a primeira, na consciência morfológica e etimológica da (re)composição de um elemento latino com uma palavra atual; a segunda, na ativação das convenções de ortografia e acentuação gráfica. 
     Importa, portanto, que a escrita de uma ou de outra formas surjam coerente e consistentemente nos textos.

Muito uso com ou sem acento - um caso de liberdade na acentuação gráfica (montagem VO)

     Pronto: lá terão que se lembrar de mim na complexidade das relações fonético-grafológicas da nossa língua em combinação com a perspetiva morfológica e algum toque de história da língua e etimologia em deriva.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre a desgraça e a desgraceira

      Assim correm estes tempos. Tão mal!

     Primeiro, acorda-se com notícias de mais um conflito, outro ataque ou nova agressão a um país - o que começa a parecer banal, como se de um jogo estratégico se tratasse. Estratégia até pode ser (a favor de quem se sabe); porém, de jogo nada tem, pela desgraça que resulta para todos.
   Depois, não fosse isto suficiente, lá vem mais uma nota de rodapé / legenda televisiva para a desgraceira dos erros que invadem os olhos dos espectadores / leitores:

Citação de palavras, no mínimo, explosivas... pela construção errada na conjugação do verbo 'haver' 
(com agradecimento pela foto à GR)

    Triste é o desconhecimento de que o verbo 'haver' , enquanto principal, não admite conjugação no plural, inclusivamente com os verbos auxiliares que o acompanham (como é o caso de 'estar', no caso concreto do que se lê no rodapé). 
      Não menos desagradável é a expressão "estar a haver explosões". Sem 'haver', a opção 'acontecer', 'ocorrer' resultaria melhor e já sem problemas no plural de 'estão'.
      Como uma amiga o diz, e bem, "É a loucura!"

     A da guerra, a da língua e a de muitas outras situações que haverá (no singular, sim!) a considerar nos dias de hoje, para desgraça da humanidade.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Triálogos em família

     Conversações linguísticas a três.

     Pergunta o filho qual o contrário de mérito: se desmérito se demérito.
     A mãe está para o primeiro, o filho pretende o segundo. O pai aceita os dois.

Preferível o mérito ao de(s)mérito - a negação instaura a dúvida pela presença de um 's'

    Na verdade, se 'merecer' está para o antónimo 'desmerecer' (com o acrescento do prefixo 'des-'), o mesmo pode aplicar-se, morfologicamente, no par 'mérito/desmérito'.
    Numa perspetiva etimológica, recorrendo à história da língua, encontra-se a razão do 'demérito': no latim, usava-se o termo 'demeritus, -a, -um' (particípio passado de demereo, -ere, com o significado de 'ganhar, merecer, cativar').
   Ambos os termos estão registados em vários dicionários, encontrando-se 'demérito' atestado em textos portugueses desde o séc. XVI; 'desmérito' é mais evidente desde o século XIX. O primeiro está mais para o etimológico e a via erudita com o recurso ao latim (com a família de palavras a destacá-los, por exemplo, em 'demeritório'), enquanto o segundo assenta mais numa consciência morfológica da língua. 

   Se entre marido e mulher não metas a colher, bom é que entre mãe e filho não se crie sarilho. Linguisticamente, quanto a este tópico, reina a paz entre todos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O temporal que (por) aí anda!

    Ele é a Ingrid, o Joseph, a Kristin...

    É a vez de vir um(a) "L".
    Pode ser Língua. É tempestade declarada, a julgar pelo que se lê:

Temporal em Portugal e tempestade na língua - sem bonança! (foto VO)

    Até parece que a concordância se faz da direita para a esquerda (ao contrário do habitual no esquema de lateralidade de leitura europeu): o plural "vários dias" a combinar com "devem demorar"! Tudo do avesso, ao contrário, com o carro à frente dos bois.
    Isto de o singular ("trabalho de limpeza") concordar com o plural ("devem...") é tão tempestuoso que soa a raios e coriscos na sintaxe. Se ainda fosse o sujeito composto ("trabalho e limpeza"), vá que não vá! Só que limpeza dá trabalho e o trabalho de limpeza não fica atrás: DEVE demorar bastante, se for bem feito.

     O que não é bem feito é anunciar uma intempérie no país, esquecendo a sua língua, tão maltratada! Estas legendas televisivas são pérolas recorrentes na desgraça que por aí grassa (sem qualquer graça).

sábado, 24 de janeiro de 2026

Acentuar o que não se deve

       Dizem as gramáticas (sim)...
       
       Nem a palavra nem a sílaba são graficamente acentuadas. 
    Monossílabos tónicos terminados em "u" (por exemplo, "tu") não são acentuados; só os terminados em "a", "e", "o" (seguidos ou não de "s" - como  "vás", "pés", "cós"). Registe-se: nada a ver com "u"(s).
     "Recuo" (conforme o contexto frásico, ora nome ora forma verbal na primeira pessoa do singular do presente do indicativo) também não tem acento. Trata-se de uma palavra paroxítona (grave), tipicamente não acentuada, terminada com o hiato "uo" a não receber acentuação gráfica, tal como outras afins: "arguo", "atuo", "amuo", "duo", "usufruo".
        Espantosamente (ou não), leio em noticiário televisivo (da TVI) o que não devo:

Razões e lições do absurdo: sejam as de Trump sejam as de quem escreve na televisão (Foto VO)

      Se linguisticamente o erro está instalado, fica a positividade do anunciado: o disparate "trumpesco" (de querer comprar a Gronelândia ou de simplesmente tomar posse dela) parece não vir a ter lugar (Será?). Assim deve ser (ao contrário da acentuação)!
       Tanto pelo que o "trumpalhão" pretendia como pelo que se escreveu, há razões e lições que nem ao diabo lembra.

       ... o que certos utilizadores não fazem (pena)!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

De tirar o "chapéu"

     Literalmente; sem mais.

    Dizem os franceses que o acento circunflexo semelha um "petit chapeau"; os portugueses referem-se a ele como "chapeuzinho". De uma forma ou de outra, há que o retirar, quando sinaliza uma sílaba que não é a tónica. Se 'presidencial' não tem [den] como a sílaba mais forte, para quê o acento gráfico sinalizador de sílaba tónica com som fechado?

Presidente e presidencial, sem; só presidência com (com agradecimento da foto à AC)

    Não há que confundir 'presidência' com 'presidencial'. Embora da mesma família de palavras (questão morfológica), fonicamente são termos silabicamente bem distintos quanto à intensidade: a primeira é grave; a segunda, como todas as palavras terminadas em 'l', é aguda. Neste último caso, assim o ditam as regras gramaticais, não há razão para acento gráfico (ex.: mal, fatal, crucial, essencial, fundamental).  

    Ao segundo dia do ano, não me interessa se são oito, onze ou até catorze: os candidatos são presidenciais (sem acento, por certo). Votem no que vos aprouver, sempre tirando o "chapéu" ao que vos parecer mais presidencial (por respeito ou por gramática).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A começar o ano

     Se o início for indício do que aí vem, ...

     2026, à semelhança de anos anteriores, é celebrado com o primeiro banho de mar, na praia grande do Ferragudo
   No apontamento jornalístico, segundo repórter e entrevistados televisivos, o mar está espetacular, melhor do que no verão (apesar das baixas temperaturas do inverno) e não há frio ("Não está frio! Você tem frio? Eu não tenho frio nenhum. Está impecável, está espetacular!").

Legendas infelizes na televisão a abrir o novo ano (foto VO)

     Registo eu que fiquei gélido só de ler a legenda, por várias vezes acionada, ao longo da reportagem.

Muda a imagem, mantém-se o erro. Antes fosse o contrário (Foto VO)

    Alguns dirão que se trata de uma pequena falha no acento; todavia, as implicações sintáticas são mais gravosas, ao colocar-se um sujeito plural em discordância com o singular da forma verbal (mantém - singular; mantêm - plural).

    Boas energias e o bom arranque dos banhos deviam servir para o bom uso da língua. Melhores concordâncias (sintáticas), diria.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Confusão de pessoas... e não só.

     Não. Não eram muitas; uma apenas, erradamente identificada.

    Todos sabemos que, tipicamente, existem três pessoas gramaticais na conjugação verbal (primeira, segunda, terceira), numa relação com o número (singular / plural). Convém é não dizer que uma é outra, particularmente quando do "Bom Português" se trata.
     Fantástico é o facto de todos os interrogados terem assumido que a forma correta, no caso crítico indicado, é "discutirmos". Todos souberam a resposta. Então aquele grupo que afirma "Sem hífen, não há dúvida", "Tem que ser sem hífen, não há hipótese", "A sério?" (insiste a repórter), "Sim" é verdadeiramente do melhor!
     
Da foto, nada a dizer; do que se ouviu televisivamente, foi um susto! (Foto VO)

     Segue-se, então, a explicação: "A forma correta é 'discutirmos' tudo junto" (vá lá!), "Trata-se da terceira pessoa do plural..." (como é que é?!!! De novo?!), "... do infinito pessoal do verbo discutir" (infinito?!!! A sério?!). E lá vem o fecho clássico da rubrica televisiva: "Assim se escreve em Bom Português".
      Ora ainda bem que se escreve em bom português, porque, no que toca ao que se ouve ou se diz, vai muito mal. Péssimo! Não fosse 'nós' a primeira (qual terceira?!!!) pessoa do plural e o 'infinito' estar mais para o finito de conversa, quando não se consegue referir a forma / o modo verbal devidamente (pois de 'infinitivo' se trata).

      Mau momento garantido para o português, que pouco ou nada tem de bom por parte da locução. Às 6:27 da matina, até um ensonado acorda. E já não é a primeira vez que o mal acontece. Lamentável.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Que caneco!

    Também podia ser caneca, mas, no caso da expressão idiomática, prefere-se a versão masculina.

   É pelo menos assim quando alguém depara com algo inesperado ou indesejável. Quando de uma caneca se trata e nela se estampa um valente erro ortográfico, é mesmo caso para dizer "Que caneco!"

Está negativo! Está mesmo negro! É o caneco! 
(foto partilhada pela MPM, com o agradecimento devido)

    Cedilhar um 'c' acompanhado à direita por 'e' ou 'i' nem ao diabo lembra (também este último é frequentemente tratado, no Brasil e de modo informal, por 'Caneco'). É o sinal da invulgaridade, do estranho, do desequilíbrio, da disformidade. Na escrita, então, o diabo anda à solta, com cedilhas indevidas em muitas palavras. Paciência é uma delas.
     Não há pachorra! Só faltava comprarem a caneca como prenda de natal e oferecerem-ma. Acho que a ia deixar cair logo a seguir.

      Não há PACIÊNCIA! Tenho dito e bem escrito.

domingo, 16 de novembro de 2025

Um bom exemplo

     Assim gosto! Com acento e tudo.

     É tão mais comum a ausência de acento, a fazer com que a palavra seja mal pronunciada, que acaba por ser fantástico o reencontro com a boa grafia:

As qualidades do dióspiro acompanhadas da qualidade da escrita 
(na publicidade da Quinta do Pôpa - colhida do Facebook).

     Assim sendo, vou comer um dióspiro como sobremesa. É tempo deles e a satisfação de o(s) ver bem escrito(s) abriu-me o apetite. Acresce o facto de ter múltiplas vantagens para a saúde.

     Aqueles que ficam a olhar para mim incrédulos sempre que digo 'dióspiro' (com a sílaba acentuada reforçada) podem, agora, acreditar que não é mania minha?

sábado, 8 de novembro de 2025

Diminuir não é acrescentar

     Isto de colocar um 's' onde ele não existe é, no mínimo, crítico.

   Numa consciência sincrónica de procedimentos morfológicos na língua, é verdade que a negação, a inversão e/ou o contrário do que uma palavra significa se conseguem, frequentemente, com o prefixo 'des-' (alento > desalento; alinhar > desalinhar; amparo > desamparo; atento > desatento; aparecer > desaparecer; atenção > desatenção; calçar > descalçar; construção > desconstrução; crer > descrer; culpar > desculpar; dizer > desdizer; enterrar > desenterrar; encanto > desencanto; entupir > desentupir; fazer > desfazer; instalar > desinstalar; ligar > desligar; necessário > desnecessário; preocupar > despreocupar; provido > desprovido; tratar > destratar; viver > desviver), seja na formação de nomes, verbos ou adjetivos.
    O mesmo não sucede com algumas outras palavras, não obstante o uso destas em rodapé ou legenda televisivos:

Estas legendas andam uma negação completa... na língua (agradecimento à MPM, pela atenção)

    Por certo algo diminui (progressivamente); é o inverso ou o contrário de 'crescer', mas não se constrói, na verdade, com o prefixo 'des-'. Enquanto antónimo de 'crescer', 'decrescer' requer uma abordagem que não pode escapar à história da língua e à noção etimológica do termo: remonta ao latim 'decrescere', que significa "crescer menos, diminuir." Nele há um prefixo latino ('de-'), que indica "afastamento", cuja consciência corrente não está na mesma linha da consciência morfológica sincrónica.
   Neste sentido, é mais por via etimológica ou da história da língua que 'decrescer, decrescendo, decrescido, decrescente, decrescimento' se explicam; complementarmente, o conceito morfológico da família de palavras, neste caso em intersecção com a etimologia, é o que pode ser convocado para que não surjam, na escrita, erros como o assinalado na imagem.
    Enquanto afixo dos mais produtivos no português contemporâneo, “des-” convoca inevitavelmente, para o seu estudo, uma plataforma entre morfologia e etimologia, num entrecruzamento de diversos estádios da língua (com semelhanças formais e semânticas, entre ambos os afixos), na senda do que se prefigura como prefixo neolatino (“des-”) em interseção com alguns elementos formativos de origem latina ('de-', 'dis-' e 'ex').

     Se 'decrescente' se cruza com a 'descida' de algo, não se confundam as sílabas iniciais nem se misture a primeira com um prefixo que, podendo aparecer em muitas palavras portuguesas atuais, está historicamente distante de qualquer crescimento. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

De mal a pior

      De tanto se falar mal na saúde e da ministra...

      ... até a língua fica doente, com os maus usos que lhe dão.
      O último, captado em rodapé televisivo, é prova da chaga (dis)ortográfica que assoma a ira de qualquer leitor:

Algo vai mal e não é só na saúde. Ponha-se ordem sem ouvir ninguém. Basta ler! (Foto VO)

      Isto de confundir o verbo 'haver' com o 'ouvir', numa das formas mais homofónicas de ambos (houve / ouve) é erro que considero impensável. Resta a esperança de quem o cometeu nem sequer ter pensado antes de escrever.
     Por isso, relembro as sábias palavras de Bento Jesus Caraça (matemático, pedagogo, anti-fascista, nascido em 1901 e falecido em 1948):

"... se não receio o erro 
é porque estou sempre pronto a corrigi-lo."

       Cure-se o que ainda possa ter remédio. Creio que haverá tarefeiros na área da comunicação a necessitar também de regulação.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Nem com Shakespeare isto lá vai...

  O fundo escuro com o texto a branco fez-me lembrar a comédia Twelfth Night.


   Já que do dramaturgo quinhentista / seiscentista inglês se trata, evoque-se a máxima "There is no darkness but ignorance" (Ato IV, cena II), proferida pelo bobo Feste, reforçando a metáfora da ignorância como escuridão.
     Tudo a propósito de uma série documental que tem vindo a passar na RTP2, sobre a vida e obra de William Shakespeare, na perspetiva de muitos estudiosos, investigadores, atores, especialistas na obra produzida e encenada.
       Logo a abrir o programa televisivo, lê-se:

Genialidade só no autor / escritor. Quanto ao resto,... (Foto VO)

     No melhor pano, a nódoa. Gosto do programa, do tema, do autor, da obra, mas no que toca a ascender, fiquemo-nos pela ASCENSÃO (e não o que aparece grafado). Na escuridão da imagem, a ignorância ortográfica.
       Algum conhecimento etimológico faria luz ortográfica: "ascensus" do latim está para ascenso, tal como "ascensio, onis" está para ascensão. Na família de palavras, a aproximação (orto)gráfica é evidente.

     A verdade é que Shakespeare é um dos maiores da literatura. Ascendeu por certo. Evidentíssima ascensão.

domingo, 8 de junho de 2025

Eruditismos... (credo!)

    ..., já que não se trata de erudição!

    Perdoe-me o leitor por iniciar este apontamento (quase escrevia 'post') com um termo que, não estando dicionarizado, é o que me apetece escrever de momento, para reagir negativamente a algo que uma amiga me endereçou e para me referir à pretensa erudição de alguém que se encontrava a apresentar um livro, junto de um público tão sorridente, seleto e entusiasmado.
     O orador lembrou(-se) de tanta coisa interessante! Contudo, esqueceu-se de distinguir duas palavras bem diferentes na língua: folhear e desfolhar.

Como diria o abade Remédios, "não havia necessidade" 
(vídeo partilhado pela AC, com o devido agradecimento)

     Diz o senhor apresentador que "desfolhava" (por duas vezes, uma delas ainda que involuntária) o livro. E, assim, só por milagre não o destruiu! Isto de tirar ou arrancar as folhas dos livros, das revistas ou dos jornais não está com nada, muito menos quando, pelos vistos, se cruzam tantas comparações de qualidade (no âmbito da arquitetura, história, música, culinária). Já a imagem de marca da apresentação não tem salvação possível.
     Foi, portanto, um momento em ato de incultura linguística / lexical, no mínimo.

Siga-se a dica esclarecedora, com imagem, para se aprender melhor.

    Fico na expectativa de que a Livraria Lello não tenha uma baixa significativa no seu acervo bibliográfico, caso haja mais apresentações destas, com livros desfolhados. Protejam-nos! São um bem precioso, pelo saber que transmitem. Ninguém os deve desfolhar. 

   Folheemos os livros. Não há palimpsestos que resistam, nem intertextos ou intratextos, se persistirmos em os desfolhar.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Sem santos nem milagres na língua

    Não podia ser de outra forma, quando se repete o erro.

  Que dizer daquele algoritmo que vai comandando a nossa vida, ao clicar-se num produto / assunto / tema / apontamento, e tem um "agente inteligente" que não vê a ignorância perpetuada num convite que só pode ter uma resposta?!

Até pode ser o bom Portugal, mas, no que toca ao Português, vai muito mal (colhido do Facebook)

Além do país, adore-se também a língua, para que não seja incorretamente usada (colhido do Facebook)

Nem com Santo António isto lá vai! Não há santo que valha ao bom uso da língua (colhido do Facebook)

   Claro que não me sentaria - eis a resposta!
  Sentar-me-ia se houvesse a consciência de como fazer um convite corretamente. Não adianta  a referência a terras, a santos; a apresentação de carinhas larocas e comidinhas apetecíveis, de chorar por mais. Nada disso me convence. Está em causa o mau uso do português, que, no condicional ou no futuro, é mal falado ou escrito até por ministros.

E não é que insistem?! Mudam as caras e as iguarias, mas mantém-se o erro crasso (colhido do Facebook)

  O condicional pronominalizado tem, tipicamente, o pronome entre a base verbal e a sua terminação. "Sentar-te-ias" devia ser a forma a ler; não aquela que a inteligência artificial (AI) e um algoritmo infeliz não descobriram, ainda, para usar corretamente na fala e/ou na escrita. 

Nossa Senhora de Fátima nos acuda, nos salve da persistência declarada no erro (colhido do Facebook)

  Caso para dizer que não há ruralidade nem iguaria que resistam. 
  Futuro e condicional pronominalizados são deveras casos críticos da língua
  Nem com a AI isto vai lá!

    Triste daqueles que não veem nalguns registos da inteligência artificial, sublinhe-se, a artificialidade que só o espírito humano pode melhorar / corrigir / fazer vingar como virtuosa.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Assim não brinco!

       Quando está tudo preparado para...

       ... entrar na brincadeira e ter alguma diversão, eis que falha uma das regras:

Brincadeira nos seus primeiros sete passos (montagem fotográfica I, com agradecimento à PN)

Desafio dos passos finais, mais dois colocados por mim (montagem fotográfica II)

     Falo da regra da correção escrita, tanto no "*Encontras-te" (que devia estar sem hífen) como no "*autoculante" (que, numa sequência de formação de palavras, deveria sempre considerar, como base original, o que pode "colar"; ou seja, cola(r) > colante > autocolante).
        Apetece dizer: assim não brinco!

      ... ler dez vezes o mesmo erro! Como são dois erros constantes, chega-se a vinte. Removam já o autocolante do espaço público. Que brincadeira!