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terça-feira, 15 de outubro de 2024

Canhão... apontado ao erro.

       Guerra declarada, para que se escreva bem.

      Casos em que a fonética não permite percecionar bem a segmentação da palavra / expressão não permitem validar o desconhecimento de como se deve processar a escrita.
        A sistemática dificuldade em distinguir ' afim' de 'a fim (de)' é questão paradigmática. Entre o que é 'afim' (semelhante ou com afinidade) e 'a fim de' (expressão / conector de finalidade, sinónimo de 'com o objetivo / propósito de') nada há de parecido (ou afim) senão a sonoridade (uma aproximação homofónica que não resulta em homografia). 
      A fim de (ou para) se escrever bem, reconheça-se a segmentação gráfica de 'a fim', bem separada, nem sempre reconhecida na fluência da realização oral da língua. Fica ainda a nota seguinte: o adjetivo 'afim' tipicamente seleciona a preposição 'a' (ser afim a / idêntico a / semelhante a), enquanto a expressão conectiva integra 'de' (a fim de / com a finalidade de / com o propósito de / com o objetivo de). 
     Outro exemplo crítico é o exemplificado no excerto de um aviso de condomínio, no qual se anuncia um novo canhão na porta de entrada e, consequentemente, se informa a entrega das chaves novas (que, coincidentemente, também são novas chaves, porque diferentes):

Um negrito mais separado do que devia; um 'a partir' tão junto que até irrita (Foto VO)

        A confusão entre 'aparte' (fazer um comentário, um aparte) e 'à parte' (colocar alguém ou algo à parte, separado) não chegava! Com o que se dá a ler, junta-se o 'a partir de' (a indicar o ponto de que se parte, o ponto inicial de um estado ou de uma situação).
        Ler o anúncio logo de manhã, fez-me colocar imediatamente uma barra oblíqua entre os termos da expressão, separando o que ninguém (nem Deus) podia ter unido:

Qual é a diferença, qual é ela? Não é só a cor, não! 

       Um canhão novo, chaves novas (não completamente igual a 'novas chaves', mas, enfim...) e um erro que importa evitar, a bem da escrita com correção.

       Não fosse eu ficar à porta, apetecia-me não ir ao escritório onde alguém escreveu o que não devia.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Constância... já foi mais constante

       O nome da localidade anda presentemente pelas ruas da amargura.

      Cheguei a lá ir em tempos, com alunos, na senda de alguns sinais da presença camoniana, sempre em articulação com outras áreas de saber (particularmente quando o poeta não deixou de ser exemplo de homem completo nos saberes, tendo numa mão a espada e noutra a pena).
      Hoje parece não haver muita constância, estabilidade económica numa terra que apresenta sinais de fragilidade, com uma grande empresa de tupperwares em condição de insolvência. Assim o foi noticiado e (pasme-se!) legendado:

Incertezas televisivas com orientações / nivelações distintas 
(na legendagem da RTP1, captada pelo olhar atento da ARS, a quem agradeço o contributo)

       Caso para dizer que nem constância nem coerência, pelo menos no que à língua diz respeito.
   "Pairar" combinado com "sob" aponta para incompatibilidade de níveis (superior e inferior, respetivamente). Nada como 'pairar' com outra preposição, de modo a escapar à incoerência criada.

       As incertezas ou 'pairam sobre' ou 'pairam em' (uma questão de seleção a partir do verbo usado).
      

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Qual satisfação?!

     Isto de confundir nomes com formas verbais definitivamente não combina com educação.

    Ontem, num programa televisivo em que se discutia os motivos da greve de professores e se avançavam os argumentos mais diversificados, segundo as perspetivas em discussão, houve aquele momento sem qualquer hipótese de demonstrar "carinho" (para citar apenas quem se pronunciou em tais termos):

Uma imagem a fazer perder uma palavra (com agradecimento à AMT)

   Sem cara nem identificação, lá apareceu um rodapé confundindo o pretendido 'satisfaçam' (forma verbal no presente do conjuntivo) com a indesejada 'satisfação' (nome). No que toca ao domínio da língua portuguesa, não há comunidade educativa que veja as necessidades educativas satisfeitas, desconhecendo-se a ortografia (distintiva na terminação em 'am' e 'ão'), a fonética (tão marcadamente contrastiva entre sílabas tónicas e as que não o são) e a morfologia.
     É ou não é triste ler o que não se deve? Nem o programa conduzido por Carlos Daniel o merece nem Mariana Carvalho (citada) é respeitada no que diz quando se dá a ler tamanha incorreção. 
      Umas aulas de gramática impõem-se em qualquer curso de comunicação, na rádio ou na televisão.

     Uma desgraça nunca vem só, e logo num canal de televisão (RTP1) que se põe a jeito, perdendo a imagem e a razão (e assim prossegue a impunidade de quem escreve para a nação)!

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A fuga das... sílabas e dos sons (e outras coisas mais)

     Não se trata de um título de filme, mas foi um filme!

    Passada na televisão, uma nota da Presidência da República dava a ler uma fuga de informação de dados - nada que não possa a acontecer ao comum mortal que lida com dados sensíveis e os tenha armazenados numa base de dados que, inadvertida e inconscientemente, acabe "nas bocas do mundo" (lamentavelmente naquelas que mais berram aos quatro ventos).
      Pelos vistos, muito mais coisas há a fugir. Até sons e sílabas:

Uma nota de alguém que preside e, no caso, é o Presidente (foto VO)

    Verdade que o Presidente da República preside (verbo); presidente (nome), porém, tem mais sons graficamente representados (a nasalidade) e sílabas. Não é pelo tamanho que se define a qualidade do cargo, mas quem tem direito às sílabas e aos sons todos, assim seja. 
    Sei que muitas vezes já lemos o que não escrevemos; que a pressa é inimiga da perfeição. O imediato é tantas vezes vendido como fácil e eficaz que chega a assustar a facilidade que não resulta. Restam, portanto, a comunicação e a atenção como ingredientes necessários à correção. 
    E, já agora, além dos sons e das sílabas, repare-se a construção "devida a", mais a falta de uma vírgulazita aqui ou ali nos locais devidos (por ali depois do segundo travessão, por exemplo). Esta nota, por todas as razões, merecia outro(s) cuidado(s).

      No caso, talvez fosse suficiente a informação oral, para que a nota da presidência não fosse objeto de uma visibilidade pública com tanta confusão. São fugas, senhores!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Notícias rápidas não aliviam ninguém

      São mais títulos do que notícias, mas... enfim...

      A designação "Notícias ao minuto" prepara-nos para a rapidez da leitura (com chamada de atenção para o que nem sempre são factos só pelo título). Era, porém, escusada a rapidez da escrita, a fazer esquecer a acentuação devida. É o que dá para concluir do texto na imagem seguinte:

A maravilha do acento grave no 'à'; a desgraça da ausência do agudo em 'alívio'.

   Confundir 'alivio' (forma verbal) com 'alívio' (nome) é o que interessa evitar - isto porque 'copia' não é 'cópia', nem 'fabrica' é 'fábrica'; 'noticia' não é 'notícia'; 'pratica' não é 'prática', só para citar alguns casos. Estas são oposições básicas de palavras pertencentes a classes diferentes e com realização sintática distinta, com o acento agudo a marcar graficamente a distintividade.
     Mantive-me no contraste forma verbal / nome. Poderia fazer o mesmo com outras classes, como em 'celebre' (forma verbal) / 'célebre' (adjetivo); 'critica' (forma verbal) / 'crítica' (nome ou adjetivo); 'publica' (forma verbal) / 'pública' (adjetivo).

     Faz o acento diferença, por certo. Coitado do cágado (nome) se perdesse o acento e ficasse em particípio passado de verbo! Iria, garantidamente, cheirar mal.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

A propósito do 'é que'

     Retomemos a noção de construção clivada no português e o operador 'é que'.

     Já lá vai algum tempo. Pronunciei-me sobre a questão já há alguns anos. Uma nova questão permite-me recuperar esse escrito.
 
    Q: Olá, Vítor! A professora da filha de uma colega classificou como pronome relativo o "que" presente nesta frase: "Por isso é que tens de ir à escola". Sinceramente, eu não concordo; no entanto, também não sei como o classificar quanto à classe de palavras. Vejo que está associado à forma verbal "é", pelo que, para mim, é uma expressão de realce. Será que me podes dar uma ajuda, por favor? 

    R: Olá. Com a expressão 'é que', estamos perante um processo de gramati-calização, ou seja, um  processo de mu-dança linguística pelo qual uma pala-vra muda de estatu-to, passando a ser equacionada em ter-mos mais funcionais ou gramaticais. Mais do que a classifi-cação dos termos quanto à classe de palavras, estes valem pela funcionalidade de realce / destaque atribuída a um segmento discursivo-textual. 
   Assim, enquanto unidade, a expressão em causa proporciona uma funcionalidade discursiva própria, tomando-se o 'que' como um operador de uma estrutura ou construção clivada ou de clivagem (cf. M.ª Helena Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, 2003, págs. 685-694). Concordo contigo quanto a este 'que' não ser um verdadeiro pronome relativo. A sua classificação situa-se mais no plano de análise discursivo-textual, da gramática de texto, do que no da tradicional gramática da frase. Neste sentido, é no âmbito de um alto grau de gramaticalização e do estudo do que João Andrade Peres e Telmo Móia designam de construções enfáticas ou construções de foco (Áreas Críticas da Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, p. 91, nota 12) que nos devemos situar.
      Ainda que, nalguns estudos, se aborde o 'é que' como expressão em construção aparentada com as relativas livres (e daí a eventual classificação mencionada na tua questão), creio estarmos perante uma situação bem distinta no exemplo dado. Distinguiria bem os exemplos seguintes:

(i) O queijo (é que) foi comido pelos convivas.
(ii) Os convivas (é que) comeram o queijo.
(iii) O que é que a jovem comprou? (< O que comprou a jovem?)
(iv) Porque (é que) fizeram isso?
(v) Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Se i a iii podem ser encaradas como construções aparentadas com as orações relativas (com o 'que' eventualmente a destacar o constituinte retomado de uma frase - o sujeito da passiva em i e o da ativa em ii; o complemento direto em iii, depreendido como o objeto interrogado), o mesmo já não sucede em iv e v, mais associadas a sentidos pragmáticos decorrentes de atos de fala.
     Atendendo ao exemplo v, 'é que' funciona como introdutor de um ato de fala que sai realçado ou enfatizado no seu conteúdo na sequência de uma razão ou motivo a dar lugar a uma necessidade (consequente). É o que se pode depreender na relação dialógica dos enunciados A e B:

(vi) (A) - Ainda não sei ler / escrever.
       (B) - Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Num só enunciado, vi A e B poderia ter a seguinte configuração, se resultante de um só enunciador para com o seu enunciatário:

(vi a) Ainda não sabes ler / escrever. Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Face à constatação / asserção de um dado (primeira sequência de vi a), surge o conselho consequente (segunda sequência), destacado face ao ato de fala anterior (tomado como premissa para um raciocínio consequente). Responsável pelo realce / destaque atribuído ao ato consequente , 'é que' (enquanto unidade) proporciona uma funcionalidade discursiva própria, específica ao 'que', tomado como um operador do que os estudos linguísticos designam estruturas ou construções clivadas
      Em suma, a classificação deste 'que' situa-se mais no plano de análise discursivo-textual, da gramática de texto e da pragmática do que no da tradicional gramática da frase. Encaixa-se na definição proposta, no Dicionário Terminológico, para a entrada 'Marcador discursivo', onde se encontram os operadores discursivos com a função de reforço argumentativo.

      Apetece dizer que há níveis distintos de análise na língua. Convocar classificações típicas para realizações linguísticas que requerem níveis de análise mais complexos não me parece ser a prioridade de trabalho para determinado tipo de alunos e de situações de aprendizagem, onde as regularidades devem ser mais exploradas (particularmente quando o objetivo de estudo parece ser o da classificação e não o da análise de especificidades nas condições de produção discursiva). Espero ter ajudado.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

E, agora, o complemento do advérbio

         Já que perguntam, eu respondo. Espero que bem!

         Tudo a propósito da expansão (à direita) do advérbio.

        Q: Posso concluir que tudo o que vem à direita de um advérbio é o complemento do advérbio? Estas novidades...! Onde posso estudar isto?

         R: São novidades decorrentes de estudo e de aprofundamento, que merecem algumas distinções para não caber tudo no mesmo saco.
       À semelhança dos nomes e dos adjetivos, nem tudo o que surge à direita (por expansão) do advérbio é um complemento (de lembrar que grupos nominais ou grupos adjetivais também podem ser expandidos por modificadores do nome / do adjetivo). Só alguns tipos de nomes ou adjetivos (enquanto núcleos) requerem um complemento, conforme já se adiantou em apontamentos anteriores.
          Ora, no caso dos advérbios, consideram-se, entre os que selecionam complementos, os seguintes:

(i) os formados com '-mente' e que, a partir da base derivante, decorrem de adjetivos que também selecionam complemento, pela estrutura argumental (quer do adjetivo quer do advérbio)
ex. 1: o adjetivo 'independente' seleciona um complemento (independente de algo / alguém)
o advérbio 'independentemente' assume o mesmo comportamento sintático
Independentemente da tua opinião, já sei o que vou fazer.

ex. 2: o adjetivo 'relativo' implica ' ser relativo a algo / alguém' 
o advérbio 'relativamente' seleciona, de igual modo, um complemento
Relativamente ao assunto abordado, não concordo com o que foi dito. 

ex. 3: o adjetivo 'paralelo' implica uma relação com algo com que referencialmente concorre
o advérbio 'paralelamente' requer um complemento
Paralelamente à situação vivida, Bernardo Soares contrapõe a realidade sonhada. 

(ii) advérbios como fora, dentro, perto, longe, acima, abaixo que implicam uma coordenada ou referência local / espacial ou afim
ex. 1: os advérbios mencionados implicam 'perto / longe de X', 'fora / dentro de X' 
Ele permaneceu dentro da sala quando todos saíram.
Conheço muita gente que gosta de viver perto do mar.

(iii) advérbios como depois, antes expandidos por uma coordenada ou referência temporal que com eles concorrem
ex. 1: os advérbios mencionados implicam 'antes / depois de X' 
Depois da aula, foram todos conviver.
Antes do inverno, o outono também tinha sido rigoroso.

(iv) construções com advérbios de modalidade apreciativa / avaliativa que selecionam um complemento (de tipo oracional) 
Felizmente que a situação não ficou mais complicada!
Certamente que não vais fugir ao assunto!

(v) construções com advérbios como mais, menos, configurando enunciados de lógica comparativa
Ele estudou muito, mais do que os restantes alunos da turma!
Ela anda a comer muito pouco, menos do que o que deve.

(vi) construções com alguns advérbios que integram locuções conjuncionais subordinativas adverbiais (seguidas de um complemento de tipo oracional)
Sempre que chove, os guarda-chuvas saem à rua.
Ele é muito veloz, tão célere que fico cansado só de ver.

      Com os sublinhados a assumirem-se como complementos do advérbio, apresentam-se os exemplos típicos de uma função sintática interna ao grupo adverbial (que tem o advérbio como núcleo). Destacam-se, ainda, as preposições que abrem a expansão do núcleo adverbial.
     Atendendo às Aprendizagens Essenciais consideradas para o ensino secundário, ao nível do 12º ano estão contempladas (na gramática) atividades de análise sintática com explicitação de funções sintáticas internas à frase, ao grupo verbal, ao grupo nominal, ao grupo adjetival e ao grupo adverbial. É neste último grupo que deve ser abordado o complemento do advérbio, quando de tal se trata (e não do modificador do advérbio).
    Na base do acima exposto e na distinção de expansões do núcleo adverbial que não sejam complementos, pode a exercitação deste conteúdo ocorrer com tipologias de exercícios diversificadas:

a) reconhecimento da função sintática interna em exercícios de seleção (escolha múltipla)
ex. 1
Assinale a frase cujo sublinhado assume a função interna do complemento do advérbio.
a) Hoje de manhã o céu não estava nada amistoso.
b) Naturalmente, quero a chuva longe de mim.
c) O trabalho ficou concluído ontem pela noitinha.
d) Todos se portaram impecavelmente naquele dia

b) identificação da função sintática interna em exercícios de seleção (associação) distintiva (face a outros complementos e aos modificadores correspondentes)
ex. 2

c) construção compositiva da função sintática por transformação da frase ou um seu segmento
ex. 3
Reconstrua as frases propostas, substituindo os sublinhados por um advérbio seguido do seu complemento.
a) Com o calor sentido, todos ficaram no exterior da casa.
b) Graças a Deus que a turma toda se portou espetacularmente no museu.
c) Ao contrário do desfecho esperado, o final da história até foi feliz.
d) Vou tirar umas férias em conjunto com a minha família.

       Depois das propostas formuladas, interessa dizer que, para estudar esta função sintática interna, as fontes mais acessíveis são as Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian (vol. II, pp. 1583-1590), e Gramática da Língua Portuguesa, da Caminho (pp. 419-432).

    Novidades a trabalhar, por certo, mas com a sustentação que os mais recentes contributos da linguística trazem para uma categoria bastante heterogénea e complexa, pela versatilidade de posição na frase, pela variabilidade de modificação de constituintes (não só dos verbos) e pela derivação/composição do termo nuclear.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Ciclos deformativos

      Aproximam-se tempos de publicidade para o melhor (?!) dos mundos.

     Tudo é possível, nada é melhor, o céu é o limite e o que esteja para além dele também. Já se ouviram estes discursos ao longo de décadas e, agora, estão para (re)começar nessa campanha estratégica do que vão ser ciclos de formação de vários grupos editoriais. O pretenso interesse da formação conjuga-se com o inegável caminho a fazer para motivos económico-financeiros que se impõem. E tudo parece valer, desde que a adoção de projetos editoriais se venha a concretizar.
      Fica a cargo de quem participa nessas sessões formativas a verdadeira avaliação. Não é pela editora ou pelos nomes de capa surgidos (alguns a validar / certificar o impensável) que as escolhas se devem pautar. Antes pelo conteúdo. E no que ao ensino do Português diz respeito, ele chega a ser basilar.
      Começo por avaliar os ciclos formativos... ou deformativos:

Confusão de pronomes com determinantes não é bom exemplo de formação
(slide exposto numa sessão de um ciclo formativo editorial para docentes)


      Se é disto que se apresenta a professores do ensino básico e/ou secundário ou que se vai propor em novos projetos, muita atenção é necessária na hora de escolher o que possa vir a ser um material auxiliar de ensino-aprendizagem. Convém que auxilie; que não complique ou dê em erro ou área crítica, promovendo a confusão de classes de palavras básicas, para o público que se destina.
      Que sejam alunos a confundir determinantes com pronomes (possessivos ou de outra subcategoria que seja), ainda vá que não vá! Autores de projetos ou de formações para docentes a causar tal desacerto ou desconcerto é caso bem mais sério, por mais sustentados que estejam em contributos linguísticos ainda sujeitos a problematização e consensualização (no âmbito da investigação e não da linguística aplicada ao ensino).
      Tratando-se de uma formação para docentes do ensino básico e secundário, interessará ver o nome 'abraço' antecedido dos determinantes 'o seu'; conclua-se como o pronome estaria 'em vez do núcleo nome' (/ grupo nominal). Esta é a transposição típica e consensual no discurso pedagógico-didático dos ensinos básico e secundário. Outras trarão uma confusão que, por ora, não interessa muito operacionalizar, na perspetiva de uma gramática pedagógica. Deixemos certas questões para o domínio académico ou para linhas de investigação sujeitas a discussão.

      Não vá o Diabo tecê-las, vou já alertando para que, futuramente, não tenha que mandar riscar alguns manuais. (E, já agora, que não se fique com a ideia de que todos os adjetivos relacionais configuram complementos de nome, como se lê no fim, pois isso levar-nos-ia mais longe neste comentário).

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Função sintática do 'que'

         E na base do estudo vem a dúvida: o 'que' tem função sintática!!! Como chegar a ela?

       São necessárias algumas dicas, para garantir alguma eficácia de resposta. "Gostava de acertar", dizem alguns. Outros dizem que não acertam mesmo, já na desistência. Há mesmo quem diga "Não percebo!"

      Q: Não percebo muito bem como é que um 'que' pode ter função de sujeito. A de complemento direto ainda entendo, mas a de sujeito...!!!

       R: Primeiro de tudo, interessa saber o seguinte: o 'que' tem função sintática enquanto pronome relativo, não como conjunção. Esta última pode fazer parte de uma oração subordinada que, toda ela, assume uma determinada função (não o "que" conjuncional):

         i) Penso que esta matéria é fácil
           ('que': conjunção subordinativa completiva > 'que esta matéria é fácil': função de complemento direto)

    Quando se está perante o pronome relativo (a retomar um antecedente), ele sozinho desempenha uma função na oração subordinada.
    Para chegar a tal função, interessa fazer o seguinte percurso: (i) assinalar a subordinada, (ii) verificar o elemento retomado pelo 'que', (iii) reconstruir a oração subordinada com princípio-meio-fim, mais o elemento retomado, (iv) identificar a função do elemento retomado pelo 'que' nessa reconstrução (é essa a função sintática do 'que').
       Veja-se o raciocínio para um primeiro caso:

     (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O miúdo aproximou-se do cão que ladrou.'
      (ii) 'que' retoma 'o cão'
      (iii) A oração subordinada, com o elemento retomado, ficaria 'O cão ladrou'
      (iv) Como 'O cão' é o sujeito da oração subordinada, então o 'que' desempenha a função de sujeito (dessa oração subordinada; ou seja, um sujeito sintático de segundo nível de análise).

      Repare-se, agora, noutro exemplo:

      (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O exame que os alunos vão resolver pode ser fácil.'
       (ii) 'que' retoma 'O exame'
      (iii) A subordinada com o elemento retomado, ficaria 'Os alunos vão resolver o exame'
      (iv) Como 'o exame' é o complemento direto da oração subordinada' o 'que' tem essa mesma função (na subordinada, sublinho).

     Deve, portanto, considerar-se que, neste tipo de questão, está em jogo um segundo nível de análise das funções - não ao nível da oração subordinante, mas, sim, da subordinada. Por sua vez, e porque o 'que' é um pronome (relativo), este desempenha uma função nessa subordinada (que deve ser objeto de reconstrução com o elemento retomado da subordinante).

      Ler a instrução do que vai ser resolvido é demasiado importante, para todas as situações e neste caso em particular. Não se trata de classificar a oração subordinada (toda), mas apenas de uma palavra nela incluída: o "que". Caso para dizer que um 'que' (pronome relativo) pode fazer a diferença.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Nada de misturas!

        Anda por aí muita gente confundida com as interjeições.

       Entre 'chamar' e 'exclamar' há algumas diferenças e, na escrita, as interjeições são bem distintas. Enquanto palavra invariável pertencente a uma classe aberta, a interjeição traduz, exterioriza emoções. O sentido ou o valor que se lhe associa está estritamente depende do contexto de enunciação e corresponde a uma atitude, a um sentimento expressos pelo falante ou enunciador.
       Quando de chamamento / invocação se trata, o caso é claro (para quem não é nabo):

A incomodidade do repolho por ter um nabo à frente

      Nada de confundir com "Oh!", que admite vários valores interpretativos (alegria, desejo, espanto, saturação, receio, dor,...), os quais, na oralidade, aparecem marcados por traços entoacionais diferenciados.

    Para complicar a frase da imagem, sempre poderia iniciar o texto com um "Oh", típico da contrariedade sentida pelo repolho face ao que um nabo lhe esteja a causar. Porém, para chamar nabo (a alguém), tem que ser com a interjeição interpelativa "Ó".

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Cuidado em descuido

      Ao jantar, dava quase em indigestão ouvir o "Cuidado com a Língua!"

   Num programa televisivo em que o fundamentalismo contra os empréstimos já soava a algo excessivo, a propósito do mau trato da língua vem o disparate dos outros, mais o descuido de quem produz o programa:

Excerto do programa televisivo exibido na RTP1

     Isto de dizer que 'fala-se' é uma "forma reflexa do verbo falar" não lembra o diabo, para quem deve assumir a postura do cuidado que o título impõe. 
      Lá que se ouvisse "a forma da construção pronominal(izada) do verbo falar", tudo bem; agora, a forma reflexa não faz qualquer sentido, quando nem de um pronome reflexo se trata! O 'se' admite muitas realizações e configurações pronominais. No caso da frase 'Fala-se Português', é de assumir que o pronome 'se' assume a função sintática de sujeito, conforme se depreende da paráfrase 'Alguém (indeterminado) fala Português'; ou, então, conclui-se que se trata de uma marca de 'se' apassivante ("O Português é falado" < Fala-se Português").
      Reflexo não é seguramente, dado que "fala-se" não é "fala a si mesmo / próprio" (como em 'lava a sua pessoa / o seu corpo' > 'lava-se', com o 'se' a configurar o papel de objeto em identidade com o sujeito sintático).
      Também não é recíproco (pois não se trata de "fala um com o outro").

       Assim sendo, vai confiar-se em quê / quem? Na "Flor" não é, porque "murchou"; em quem fez o trabalho para a "Flor" também não, porque não a "regou" bem. Quando o cuidado resulta em descuido / erro gramatical, mais se impõe que alguém acompanhe, linguisticamente, o que se difunde.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O grau da desgraça

       E outra vez o Joker!

     De tantas vezes que escrevi sobre o programa televisivo Joker, e por más razões, haverá quem pense que tenho alguma coisa contra o programa. Não é verdade. Antes pelo contrário. Porém, continuo a achar que era escusado difundir o erro
       Hoje foi a vez de mais um, para acrescentar aos já apontados noutras ocasiões:

Programa Joker, exibido hoje na RTP1 (Foto VO)

      Isto de se concluir que 'homem' é um adjetivo pode constituir, desde logo, questão crítica quando se entende que, na maior parte das realizações do português, estamos perante um nome (tipicamente identificável pela possibilidade de ser antecedido por um determinante ou quantificador). Se é verdade que a variação em grau é uma propriedade comum nos adjetivos (ainda que não exclusiva), isso não permite concluir em definitivo que 'homem' (variando em grau) pertence à classe dos adjetivos.
      É de aceitar que a realização de frases como 'Ele é muito homem' ou 'Ele é tão homem como qualquer outro', ou mesmo 'Ele mais / menos homem do que outros que eu conheço' configura o termo sublinhado como propriedade / característica do 'ele'  - ou seja, um adjetivo, numa espécie de conversão, admitindo graduação superlativa (analítica, na primeira realização) e comparativa (nas seguintes). Já não tão aceitável é a superlativa relativa (* o mais / menos homem) ou até a superlativa absoluta sintética (? homenzíssimo).
     Seja como for, as possibilidades atrás mencionadas são as que mais se ajustam à classe dos adjetivos. Não é o caso de 'homenzarrão' nem de 'homenzinho', que, respetivamente, evidenciam a variação típica (e não criativa) do nome no grau aumentativo e no diminutivo (não é a mais produtiva para adjetivos, nestes ocorrendo apenas ocasionalmente).
      Em suma, para não chorar, a questão apresentada no programa Joker só me permite reagir em modo de filme e à Joaquin Phoenix:

Excerto do filme Joker (2019), de Todd Philips

     Depois venham dizer-me que a televisão é muito educativa e que cumpre serviço público! E pensar que pagamos para esta nódoa! Se não fosse o Palmeirim...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Coletivos... com plural

     Já lá vai o tempo de só a forma singular significar o plural - generalização a redefinir.

     Não tem que ser singular, definitivamente.

       Q: Olá, Vítor,
     Pedi a classificação da palavra "géneros" e "etnias", pensando, respetivamente, num nome comum, masculino, plural e num nome coletivo. No entanto, os dicionários só falam em nome feminino para "etnias" e, de facto, neste caso, está no plural. Ou seja, eu tinha pensado em "etnia" como «grupo de indivíduos que partilham historicamente uma unidade cultural e linguística comum e nela estão fortemente vinculados entre si» (cf. Infopédia), mas, aquando da correção, reparei que a palavra estava no plural...
          Podes ajudar-me?

      R: Olá. 'Etnia' é um caso de nome coletivo, sim, enquanto classificação semântica associada a um nome comum. Ambas as classificações não são, portanto, incompatíveis, atendendo ao facto de se conjugarem critérios distintos: 'comum' é a propriedade semântica para referência a entidades que não convocam referentes únicos (admitindo complementação, modificação restritiva e pluralização), em contraste com nome 'próprio' (completamente determinado, sem complementação ou modificação restritiva e tipicamente sem flexão quanto ao número); 'coletivo' é a propriedade semântica de quantificação ou de qualidade associada a um termo que, na forma morfológica do singular, comporta já a noção de quantidade plural, de grupo, de parte plural do todo geral ('regimento' ou 'companhia' do 'exército', por exemplo) ou de conjunto de entidades do mesmo tipo / espécie.
      Quanto ao facto de 'etnias' aparecer na forma do plural, isso não quer dizer que o nome deixe de ser coletivo; é-o, na verdade, antes de tudo configurando uma realização contável desse nome (dada a existência de diferentes etnias, tal como multidão / multidões, rebanho / rebanhos, família / famílias). Daí, no Dicionário Terminológico os contrastes básicos dos nomes serem 'nome próprio / nome comum' (ao nível da referência) e 'nome contável / não-contável' (ao nível da quantificação). Os coletivos podem ser contáveis (daí admitirem o plural quantificativo) ou não-contáveis (admitem o plural apenas para expressão de diferentes qualidades, e não propriamente quantidade).
      Portanto, 'etnias' é um nome comum [contável] coletivo.

      Entre os nomes coletivos contáveis (ex.: arquipélago, banda, cancioneiro, cardume, equipa, exército, povo) e os não contáveis (ex.: flora, fauna, rapaziada, passarada), só estes últimos não admitem a forma do plural.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Dúvidas de cariz geográfico ou morfológico?

      Uma rubrica radiofónica com alguma comédia e linguística à mistura.

      Depois de tanta gente a dizer o verbo 'tar', em vez de 'estar', só me faltava ter o genérico de uma rubrica das Manhãs da Rádio Comercial a pedir ou a aconselhar "Não tejas medo' (ainda por cima sem a preposição 'com'). Por amor da santa (seja esta lá qual for)!
      Ainda assim, lá vou ouvindo o "sábio" Amílcar (personagem interpretada por Bruno Nogueira, em modo de alentejano com grandes reflexões para a vida), não vá ele passar alguma mensagem tomada de sensatez e muita prudência
      Segue-se um excerto da reflexão de hoje, entre o geográfico e a consciência morfológica:

Excerto de 'Não Tejas Medo' (Rádio Comercial)

     Na comédia, fazem algum sentido a reflexão e o jogo acerca destes adjetivos relacionais outrora designados de gentílicos ou pátrios. Linguisticamente, numa perspetiva morfológica e/ou lexical, há pontos bem dissonantes na análise.
     Não se pense que 'espanhol' é formado na língua portuguesa, a partir de Espanha (é proveniente da reconstituição latina *hispaniōlu-, diminutivo de hispānu-, «hispano»), ou que 'rissóis' poderia alguma vez derivar de 'Rússia'. 
    Dos suecos, diga-se que a origem etimológica se encontra na forma antiga 'suécio', numa adaptação vernácula entrada no português em pleno século XVI, entretanto reduzida, conforme atestado no século XIX. Nada a ver, portanto, com o sufixo '-eco', cujo uso, no português, se associa a derivação com sentido pejorativo (como em 'jornaleco' ou 'senhoreca').
  Morfológica é a formação de 'marroquino', derivada de Marrocos e da sufixação com 'ino' (à semelhança de Argel > argelino, Tunis > tunisino, Alpes > alpino). Marreco tem origem tão obscura que, seja referência ornitológica seja sinónimo de corcunda ou matreiro, parece indecomponível. Que base derivante seria 'marr-' para se lhe acrescentar '-eco'? Há generalizações que, na certa ou na maior das probabilidades, dão erro morfológico.
    Soaria insultuoso tratar o suíço (popularmente formado a partir de 'Suíça') por suíno (proveniente do latim suīnu-, e da origem etimológica sue-, «porco»), por mais que qualquer um deles seja base, sem sufixação na língua portuguesa (quando muito, o 'suíno' tê-la-á no latim).

    Em suma, entre o que há de morfológico e o que à Morfologia não diz respeito, instala-se o cómico. Por mim, não acho é mesmo piada nenhuma ao "tejas". Como diz a letra da canção, "Sem alegria, eu confesso: tenho medo que tu me digas um dia «Meu amor, não tejas medo»".

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

TREAT!

     Mediante a disjunção, só tenho uma opção.

    A máxima do "Trick or treat!" (traduzida como "Doçuras ou travessuras") deixa-me, por vezes, confuso e indeciso na escolha, seja porque gosto de doces seja porque uma travessura também sabe bem.
    Em dia de Halloween, cruzo-me com a imagem de uma abóbora (que não é menina):

Uma "pumpkin"..., ou melhor, "trumpkin

      E na ordem da nova máxima, só me resta uma escolha:
    

    Não há "trumpalhada" que resulte doce. É azeda, amarga, áspera. Nem com o espírito do Halloween é suportável. É bruxedo a mais! Não há "treat"! Contudo, se o que resta é "trump",...

     ... venha o "treat", apesar de apetecer ser travesso ("tricky"). Porque "Trump" não é alternativa para coisa nenhuma.

terça-feira, 13 de março de 2018

Conjunções e outras coisas que tais...

   Nunca se deve negar um pedido de ajuda, mais ainda quando vem de quem nos merece consideração.

      Chegada a pergunta, preparo a resposta:

       Q: Venho por este meio pedir-lhe a seguinte ajuda para a seguinte questão:
             1.1. Identifica as frases em que a palavra sublinhada é uma conjunção.
            (A) Clio viu a confusão que tinha causado depois de ter adormecido.
          (B) Os automobilistas chegavam a Lisboa lentamente quando a confusão se instalou.
          (C) Ibn-el-Muftar alçou as mãos a Alá porque acreditava na proteção divina.
         (D) O português considerou a situação normal até chegarem os muçulmanos.
           Nos cenários de resposta, aparece como resposta as alíneas B e C. Será que a A também pode ser incluída ou é um pronome relativo?

      R: Efetivamente, em (A), 'que' é um pronome relativo, numa sequência frásica em que a palavra 'confusão' surge retomada. Tal retoma é feita ora na expansão do nome com uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva ora na articulação de duas orações: 'Clio viu a confusão' e 'Clio tinha causado confusão'. 
    Trata-se, portanto, de um 'que' anafórico, tendo como antecedente a palavra 'confusão'.
     Na medida em que esse 'que' introduz uma oração subordinada adjetiva, não poderá ser nunca considerado conjunção. Esta última, nos contextos de subordinação, é destinada, tipicamente, para introduzir orações subordinadas substantivas completivas ou subordinadas adverbiais.
        
        Na expectativa de que tenha sido esclarecedor, para o caso em concreto, fica o registo de que os cenários de resposta nem sempre erram; só não apresentam é o nível de consciência em que se deve fundar uma tomada de decisão (por mera escolha que seja).

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Para que nada se perca

     Começado o novo ano, convém saber distinguir os verbos dos nomes.

     Entre classes de palavras não devia haver confusão; menos ainda quando a morfologia se articula com elas para marcar a distinção. Ainda, assim, esta nem sempre acontece da melhor forma, como o provam o uso (popular) mais o cartoon seguinte:

Eis senão quando... a perca chega ao funeral.

     O uso, num registo mais popular, do termo "perca" para forma nominal associada ao verbo 'perder' é contrariar o princípio morfológico de derivação do verbo (deverbal) em nome (perder > perda) com manutenção da base derivante (o radical 'perd'). 
     Em termos de norma, é o termo 'perda' que se reconhece como nome resultante de um processo morfológico de derivação não-afixal (isto é, processo de formação que permite a passagem de uma forma verbal a nome, sem acrescento de afixos - apenas com a substituição da vogal temática 'e', em perder, pelo índice temático 'a', em perda).

      Fique-se, portanto, no registo do Português padrão, com a 'perca' para designação de peixe (nome) ou para conjugação verbal de 'perder' no presente do conjuntivo, inclusivamente com o valor suplementar deste último em frases de tipo imperativo. Mais do que isto, por agora, é cómico certo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Um tempo de contrastes, se de tempo for...

      No meio de tanta coisa, nem sei por onde começar.

      Esta é a reação que revelo quando há muitos pontos e tantas outras "pontas" para pegar. 
      Tudo começa quando a pergunta surge:

      Q: Colega, gostaria que me desse a sua opinião sobre a frase "Enquanto que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade": a primeira oração tem o valor de uma adverbial temporal?

   
    R: Vejo dificuldade no valor temporal, na medida em que a frase proposta reflete um contraste de entendimentos relativamente ao significado do 'luar' para duas personagens de Felizmente Há Luar! (de Sttau Monteiro).
      Ver 'enquanto' como articulador / conector temporal implicaria a aceitação da substituição dele por 'ao mesmo tempo que / durante o tempo em que' (*Ao mesmo tempo / Durante o tempo em que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade), o que não se prefigura como frase aceitável, até por se estar a referir intervalos de tempo bem distintos, no que à obra mencionada diz respeito.
      O valor de temporalidade é bem evidente em sequências do tipo:
    . Enquanto esperava, lembrava-se dos momentos que haviam passado juntos ou Ouve música enquanto estuda, demonstrativas de intervalos de tempos simultâneos e/ou coincidentes para 'esperar'-'lembrar-se' e 'ouvir'-'estudar' (processos associados a um mesmo sujeito sintático e a uma simultaneidade temporal);
    . Enquanto a crise se agudizava, o desemprego disparou, exemplificativa de como uma situação pontual ('disparar') ocorre no interior de um intervalo de tempo mais lato ('agudizar');
    . Não saio da tua beira enquanto não melhorares, evidenciadora de uma situação durativa sem limites definidos para o futuro e com o conector tomado como sinónimo da expressão 'durante o tempo em que'. Neste último exemplo, é também significativo o valor de condição implicado no enunciado (cf. 'Não saio da tua beira se não melhorares').

       "Enquanto" pode apresentar valor de comparação / contraste acumulado com o de temporalidade, por exemplo, em:

    . Enquanto ela falava ao telefone, eu preparava o jantar, com os sujeitos sintáticos das orações (subordinada / subordinante) a operarem ações distintas ('falar'-'preparar') no mesmo intervalo de tempo.

      Todavia, não é impossível considerar apenas o de contraste:
      . Enquanto D. João IV apoiava Pre. António Vieira, D. Afonso VI não o via com bons olhos.

       Um último dado prende-se com o conector usado na frase proposta: "enquanto que". Seja por analogia com "ao passo que" (no contraste) ou "ao mesmo tempo que" (na temporalidade) seja por interferência do francês ("tandis que" / "pendant que"), está usada uma forma por muitos considerada inadequada à realização padronizada do português, mais conforme à construção "Enquanto o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de esperança". É certo, porém, que há alguns poucos estudos que vão apontando para o uso deste articulador, encarado no seu valor comparativo / contrastivo (e não temporal), ainda que seja reduzido o número de gramáticas que o consideram - lembro-me apenas de uma, a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2013 - vol. II, pág. 2006. Mais uma razão para a leitura contrastiva das orações e do significado do articulador / conector.

      No que toca ao valor, pode dizer-se que 'enquanto' é muito polivalente, pelo «potencial de significado» (na expressão do linguista Michael Halliday) implicado ou decorrente de significados ajustados aos contextos e ao objectivo comunicativo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Bom Português...

     É dia 7 (que dizem ser número perfeito), mas começa mal o dia - ai começa começa! -, ao ser acordado com o erro.

     De novo, o canal público no seu melhor da escrita. Ainda nem trinta minutos tinham passado da rubrica / lição do "Bom Português" (sobre o feminino de 'profeta' e que, por repetição mais do que frequente, já todos devem saber que é 'profetisa') e pôde ler-se, numa legenda bem contrastada a preto e branco, o seguinte:

Imagem captada a partir da emissão de "Bom Dia Portugal" - RTP1

     É bíblico o enunciado de que "No princípio era o Verbo". Só que na gramática também há lugar para os nomes. E alguns destes, para além de tipicamente serem antecedidos de um determinante ("[n]o início"), distinguem-se da forma verbal por serem acentuados - enquanto esta última não o é. Assim, onde se devia ler "icio" (nome) lá apareceu o verbo, não acentuado (certo), mas nada virtuoso - porque não era o que se queria / devia escrever. 
     Tal como "Prinpio" (e não a forma verbal 'principio'), "icio" (e não "inicio") tem de apresentar acentuação gráfica para ser nome.

    Não fosse a nota de rodapé relativa a um sismo na Indonésia, diria que um outro, linguístico, ocorreu hoje no  "Bom Dia Portugal" da RTP1, (e não se pode dizer que seja pouco frequente tamanha instabilidade - diga-se agramaticalidade - com este pontapé na gramática da escrita). Mais uma asneira e das grandes, para um meio de comunicação social.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Azulejo gramatical

      Há azulejos que dizem tudo...

    Quando alguém pergunta se é possível haver um "que" a caber na coordenação explicativa, a melhor resposta a dar é um azulejo:

Um azulejo muito gramatical, coordenativo e explicativo

     Ora cá está um caso de coordenação explicativa. A possível substituição do "que" por "pois" é a prova maior. Além disso, a permuta das orações com o articulador / conector evidencia uma impossibilidade de construção, dada a agramaticalidade do resultado final (> *Que não a levarás contigo, goza a vida / *Pois não a levarás contigo, goza a vida). Reside aqui um dos indicadores distintivos da natureza coordenativa da composição frásica, conforme já apontado em posts anteriores.

      ... numa sabedoria (de vida) que se faz acompanhar da devida explicação.