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quinta-feira, 7 de março de 2019

O empréstimo e o imposto (ou vice-versa)

      Assim que revejo a minissérie Os Maias, de João Botelho (2014), lembro o presente.

     Talvez fosse de lembrar o passado. Porém, este tem características tão comuns com o presente que das duas uma: ou Eça era um visionário (antecipando no século XIX os vindouros) ou a realidade atual não consegue escapar ao que o outrora já ditou. E um pouco das duas também não é hipótese a descurar:

Excerto do 'Hotel Central' na minissérie Os Maias
de João Botelho (2014)

     Entre o empréstimo e o imposto se constrói a conversa ficcionada do Hotel Central, onde Cohen (político) é um dos mascarados e ridicularizados queirosianos; entre um e outro tem ainda e factualmente vivido muito português (se não for de dizer todo um país). Talvez desde sempre e por certo a continuar. É o que se me afigura pensar quando ouço um ministro dizer que o empréstimo feito por um banco da nossa praça não será pago com um cêntimo dos contribuintes; que serão os juros e dividendos da banca a fazê-lo daqui a trinta anos, também graças a um fundo de resolução bancária que mais parece um remédio milagreiro capaz de multiplicar milhões.
    Não sei se cá estarei para o ver nessa altura, mas creio que, muito antes, haverá um novo imposto ou uma outra forma sinónima de "contribuir" para este empréstimo bancário. Não dá para acreditar nas certezas ou afirmações de alguns governantes, quando o (des)governo se evidencia, por exemplo, no apagamento de tempo na carreira de profissionais (refiro-me, claro, a nove anos, quatro meses e dois dias - no mínimo; ao tempo de serviço docente que, por ter existido, não se quer ver como tal, a pretexto de uma dádiva de dois anos, nove meses e dezoito dias ou sob o argumento de que outros congelaram o que, agora, os "benfeitores" repõem, em versão compacta).
     O descrédito na palavra e nos atos é uma evidência presente, quanto mais no que venha a suceder daqui a três décadas (talvez não pelos mesmos, mas por outros afins na cor política ou na falta da verdade que, manifesta e retoricamente, é manipulada em detrimento de quem efetivamente trabalha e se vê espoliado de um tempo trabalhado, pago, descontado e que parece ser tratado como se virtual ou ficcionado fosse). 

     Triste de um país que se vê (des)governado assim - não há seguramente crédito no que se diz nem no que se faz (fez e se fará).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

'Amor de Perdição' em versão muda

      Na procura de materiais que se cruzam com a educação literária.

    Abordar Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, em excertos e na escolha de capítulos avulsos é do pior que um programa de ensino possa propor. Ainda assim, permite uma liberdade (relativa) de ação, confinada apenas por uma gestão que se impõe na articulação / planificação de outros conteúdos.
    A noção da globalidade da intriga desta narrativa passional romântica pode ser conseguida através do visionamento de uma versão fílmica, entre as várias que a obra em particular já inspirou - a de 1943, de António Lopes Ribeiro, a preto e branco, ainda consegue provocar alguns (sor)risos à juventude. Depois virão os propósitos da escrita e do estilo, bem como o foco de análise no registo epistolográfico (citado e marcadamente deítico, nas condições do ato de escrita) que tão relevante se torna para a comunicação dos amantes.
    Foi precisamente na busca de uma dessas versões que me cruzei com um pequeno registo de cinema mudo. Não resisti a estes cerca de dois minutos e meio! Os efeitos expressivos, no mínimo, tornam o drama camiliano numa encenação cómica:

Excerto do programa "Os Anos de Ouro do Cinema Português" 
RTP2

   É verdade que o dramalhão romântico se ajusta a alguma comicidade para os espíritos leitores mais contemporâneos. Pode mesmo dizer-se que esta versão cinematográfica atinge o pleno, com a representação das personagens entre o fantasmagórico e o draconiano.
      Imagino o que seria a totalidade desta película.

     "Adeus! Amor de Perdição. Até à eternidade!"

domingo, 20 de janeiro de 2019

Pelo andar da carruagem

       Pelo jeito que a coisa vai...

     Expressões sinónimas, por certo; mas com o termo "carruagem" há uma identidade da primeira com este blogue que a segunda expressão não tem. 
      Por mais impressiva que seja a situação, deve ser o resultado de uma visita ao Museu Nacional dos Coches (em Belém), depois de ter visto tanta carruagem, coche, berlinda, coupé, sege, liteira, cadeirinha, vitória, phaeton, landau, clarence, charabã, milords, caleça, carrinha, mala-posta... uma vasta coleção de viaturas hipomóveis usada em cortejos de gala ou eventos sociais relacionados com a arte da cavalaria e jogos equestres.
     Muitos foram os exemplares observados neste novo edifício aberto ao público há cerca de três anos, segundo o projeto arquitetado pelo brasileiro Paulo Mendes da Rocha (prémio Pritzker em 2006) em parceria com o arquiteto português Ricardo Bak Gordon.
      Enquanto a guia explicava, apaixonadamente, as características de cada um dos coches expostos e a evolução ocorrida nos transportes ao longo dos séculos, surgia a indicação do significado original da expressão "Pelo andar da carruagem": à medida que a carruagem se aproximava, os observadores locais deduziam acerca da importância, da posição ou da origem social de quem ia dentro dessa carruagem. Seja pelos materiais de construção seja pela quantidade de cavalos que a puxavam, a carruagem era um indicador de quem nela se transportava (rei, rainha, príncipes, nobre, patriarca,...).

Dos sécs. XVI ao XVIII - coches para todo o gosto (Foto VO)

      O acervo museológico contempla dos coches mais antigos do mundo, como o de Filipe II (III de Espanha) ao fundo da foto, aquando da sua viagem de Madrid para Lisboa, em 1619. A designação do transporte ('kocsi' ou 'koci') está relacionada com a cidade húngara de Kotze, origem da construção dos primeiros modelos, posteriormente exportados para Itália, bem como para todas as cortes europeias.
     O nome do Mâgnimo associa-se a vários modelos aparatosos, um dos quais no primeiro plano da foto supra à direita (Coche da Coroa). Este meio de transporte, embora destinado à realeza e às classes aristocratas, teve os seus exemplares mais faustosos usados em momentos solenes da corte, como casamentos reais, batismos de príncipes, aclamação de novos monarcas, embaixadas ao estrangeiro, deslocação de altos dignitários eclesiásticos, receção de soberanos ou figuras de alto prestígio no estrangeiro. Alguns serviram mesmo para um evento singular.

     Coche dos Oceanos - ao centro da foto, 
ladeado à esquerda pelo Coche do Embaixador 
e à direita pelo Coche da Coroação de Lisboa (Foto VO)

    O Coche dos Oceanos é uma das coqueluches do museu, pela espetacularidade ostentatória e faustosa joanina. Restaurado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, é um dos três coches do conjunto de quinze que compunham a embaixada enviada por D. João V ao Papa Clemente XI, em Roma (um pouco à imitação do que D. Manuel I fizera ao Papa Leão X, em 1514). A oito de julho de 1716, D. Rodrigo Anes de Sá e Menezes (Marquês de Fontes) fez a sua entrada pública em Roma, antecedido de um magnífico cortejo que espantou não só a população romana como os reis da Europa, que não se atreveram, nos anos seguintes, a repetir o feito. O próprio D. João V mandou que os três coches, construídos em Itália, viessem de barco para Portugal, de forma a que os olhos reais pudessem confirmar a magnificência dos veículos tão comentada em Roma.

Coche da Mesa ou da Troca das Princesas (Foto VO)

    Também dos tempos joaninos é o Coche da Mesa ou o da célebre troca das princesas, junto à fronteira do Caia, a 19 de Janeiro 1729 (de Portugal saía, para Espanha, a princesa Maria Bárbara de Bragança, filha de D. João V, para casar com o príncipe D. Fernando, futuro rei Fernando VI, de Espanha; chegava a Portugal a princesa Mariana Vitoria, filha de Filipe V, para casar com aquele que viria a ser o nosso rei D. José I) - episódio de que se faz uma narração caricatural no segmento XXII de Memorial do Convento, de José Saramago (MC, 17ª ed., Lisboa, Ed. Caminho):

     «Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra. Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles vem Mariana Vitória, da banda nossa vai Maria Bárbara, os noivos são o José de cá e o Fernando de lá, respetivamente, como se costuma dizer. Não são combinações do pé para a mão, os casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Maria Bárbara tem dezassete anos feitos, cara de lua cheia, bexigosa como foi dito, mas é uma boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa, pelo menos não caíram em cesto roto as lições do seu mestre Domenico Scarlatti, que com ela seguirá para Madrid, donde não volta. […] virá Mariana Vitória, uma garotinha de onze anos, que, apesar de pouca idade, já tem uma dolorosa experiência de vida, basta dizer que esteve para casar-se com Luís XV de França e foi por ele repudiada, palavra que parece excessiva e nada diplomática, mas que outra se há de usar se uma criança, na tenra idade de quatro anos, vai viver para a corte francesa a fim de se educar para o dito casamento, e dois anos depois é mandada para casa porque de repente deu a febre ao prometido, ou aos interesses de quem o orientava, de ter rapidamente herdeiros a coroa, necessidade que a pobrezinha, por inabilitação fisiológica, não poderia satisfazer antes de decorridos uns oito anos. Veio devolvida a coitada, magrinha e delicada, um pisco a comer, com o mal inventado pretexto de visitar os pais, rei Filipe, rainha Isabel, e pronto, ficou em Madrid, à espera de que lhe arranjassem noivo menos apressado, calhou ser o nosso José, agora com quinze anos, a fazer.» (pág. 297)
...


     «... quando D. João V atravessou o rio, no dia oito de Janeiro, para principiar a sua grande viagem, havia em Aldegalega, à sua espera, para cima de duzentas viaturas, entre estufas, caleças, seges de campo, galeras, carromatos, andas, uns que tinham vindo de Paris, outros feitos de propósito em Lisboa para a ocasião, sem falar nos coches reais, com as douradas frescas, os veludos renovados, as borlas e sanefas penteadas. Da real cavalariça, só em bestas, eram quase duas mil, não se incluindo nelas os cavalos da guarda do corpo e os dos regimentos da tropa que acompanham o cortejo. (...) João Elvas só vê cavalos, gente e viaturas, não sabe quem está dentro ou quem vai fora, mas a nós não nos custa nada imaginar que ao lado dele se foi sentar um fidalgo caridoso e amigo de bem~fazer, que os há e como esse fidalgo é daqueles que tudo sabem de corte e cargo ouçamo-lo com atenção, Olha, João Elvas, depois do tenente e dos trombetas e atabaleiros que já passaram, (...) vem agora o aposentador da corte com os seus subalternos, é ele quem tem a responsabilidade dos cómodos, aqueles seis a cavalo são correios de gabinete, levam e trazem as informações e as ordens, agora passa a berlinda com os confessores do rei, do príncipe e do infante, (...) depois aparece a berlinda com os moços do guarda-roupa (...) e outra vez não te espantes com essas duas berlindas cheias de clérigos e padres da Companhia de Jesus (...), aí tens a berlinda do estribeiro-mor, as três que vêm atrás são do corregedor da corte e dos fidalgos da casa de el-rei, segue-se a estufa do estribeiro-mor, depois os coches dos camaristas dos infantes, e agora atenção, agora é que começa a valer a pena, estes coches e estufas vazios que passam são os coches e estufas de respeito das reais pessoas, a seguir, a cavalo aparece o estribeiro-mor, enfim, chegou o momento, põe o joelho em terra, João Elvas, que estão passando el-rei e o príncipe D. José, e o infante D. António (...), e agora podes-te levantar, já passaram, já lá vão, iam também seis moços de estribeira, a cavalo, estas quatro estufas, aqui, levam a câmara de sua majestade, depois vem a sege do cirurgião (...), daí para trás é que já não há muito que ver, seis seges de reserva, sete cavalos de mão, a guarda de cavalaria com o seu capitão, e mais vinte e cinco seges que são do barbeiro de el-rei, dos copeiros, dos moços de câmara, dos arquitectos, dos capelães, dos médicos, dos boticários, dos oficiais de secretaria, dos reposteiros, dos alfaiates, das lavadeiras, do cozinheiro-mor, e do menor, e mais e mais, duas galeras que levam o guarda-roupa de el-rei e do príncipe, e, a fechar, vinte e seis cavalos de mão (...)» (pág. 300-303)

...

     «Caía a noite quando as primeiras viaturas da comitiva de D. Maria Ana começaram a entrar em Vendas Novas, mais parecendo um exército em debandada do que um cortejo real. As cavalgaduras, derreadas, mal podiam arrastar as berlindas e os coches, algumas iam-se abaixo das mãos e morriam ali mesmo, presas aos arreios. (...) Foi uma noite de grande desastre. Quisera a rainha seguir para Évora nessa mesma madrugada, mas foi-lhe representado o perigo da empresa, além de virem atrasadas muitas carruagens, o que resultaria em prejuízo da dignidade do cortejo.» (pág. 306-7)

    Depois, com o século XIX, são tantas as variedades de transporte urbano (basta lembrar a diversidade representada nos romances queirosianos, cruzando as ruas lisboetas) que uma ala do museu é praticamente ocupada com os modelos que a aristocracia, os burgueses e classe média mostravam à sociedade. Fico-me pela malaposta (dos inícios do século XIX), a poder dizer que é o transporte público mais remoto, dado o limite de transporte de dezasseis pessoas, entre a primeira e a segunda classes. Ao povo, restava-lhe o tejadilho, junto com as malas do correio (sem cinto de segurança e sem seguro, não obstante as quedas frequentes no trajeto).

     Num quatro rodas, com motor a gasóleo e muitos cavalos, fez-se o regresso a casa em cerca de quatro horas (saber que há pouco mais de um século, sem a hipótese do comboio, a viagem Lisboa-Porto ocupava mais de dia e meio).

sábado, 19 de janeiro de 2019

Aventura dos cinco

      Não se trata dos heróis infantis da Enid Blyton, não! Antes uns leitores adultos e bem queirosianos, reanimados pela Torre da Lagariça.
Rumo à Torre da Lagariça (Foto VO)
      O pretexto é a venda anunciada da Torre. Já que não pode ser comprada pelos próprios, estes vão ao encontro da que se diz ser a torre inspiradora de Eça de Queirós para a construção de A Ilustre Casa de Ramires (AICR). Já sabem que não vão encontrar lá Gonçalo Mendes Ramires nem  o projetado romance, em dois volumes, centrado no antepassado ou "avoengo" Tructesindo Mendes Ramires. O imaginário romanesco é motivo suficiente para juntar cinco amigos, fazê-los viajar pela zona norte de Portugal, dar umas gargalhadas e aproveitar um sábado chuvoso para ficar na história das respetivas memórias. Não há pretensão de escrita (pronto, talvez este singelo apontamento) nem intento genealógico e/ou político (como o de Gonçalinho); talvez o desejo de conhecer um pouco mais do país tão à mão, mas sempre tão ignorado pela sua interioridade. No final, já se sabe que haverá muitas histórias para contar e recontar, acrescentar uma piada, brincar com as palavras e as situações - um pouco como nas narrativas que o protagonista queirosiano lê, revê e reescreve à medida que com elas se cruza.
     Do Porto a Baião, entre curvas e contracurvas, procurou-se esse defensivo e sólido torreão, essa "robusta sobrevivência do Paço acastelado da falada Honra de Santa Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do século X" (AICR, Lisboa, Edições Livros do Brasil, p. 6). Falar da casa de Ramires não parecia ser muito esclarecedor na busca de orientações; em contrapartida, a "Torre da Lagariça" já era tomada pela consabida tradição da marca da defesa da linha do Douro na época da Reconquista; aquela que, mais tarde, perdido o seu interesse e significado militares - com as fronteiras mais a norte - acaba, no século XVI, nas mãos da família Pinto (senhores da Torre da Chã e do Paço de Covelas, descendente de Paio Soares Pinto, que lutara ao lado de Afonso Henriques na Batalha de Ourique).
      Com a sua fachada granítica resistente ao tempo, lá se encontrava ela: a "famosa Torre, mais velha que Portugal" ou "a antiquíssima Torre (...) com uma pouca de hera no cunhal rachado" (AICR, ibidem) no seu formato quadrado e escuro, im-ponente, forte, a contras-tar com o fantasmagórico branco de uma decadência maior no solar anexo. Tal como o dissera uma habitante local, ao seu jeito popular e familiar, esta não tem lá ninguém. Mostra-se, na sua gran-deza, como testemunho histórico-literário da "fre-guesia de S. Cipriano, concelho de Resende, distrito de Viseu... e aqui estou eu".
    Um caminho rural estreito permitiu chegar mais perto. A densa vegetação envolvente, a invadir e bloquear o que foram acessos à casa e à torre, não impediu o calcorrear do miradouro, da muralha em torno do solar, nem a observação das fenestradas paredes de pedra típica nas fortalezas ameadas.
     Persistente, a chuva convidava ao abrigo nessas portas destruídas pelo tempo, a deixarem antever o que seria o espaço solarengo hoje abandonado. A vegetação desordenada, invasiva toma conta do vazio. O que foi um jardim torna-se tão natural quanto o tempo permite. Sobrevivem ali buganvílias entrelaçadas com silvas; folhas e ramos secos, mortos a par ou sobre tufos de musgo viçoso, com verdor.
     A resiliência dos  aventureiros (mais uns do que outros) resultou em registo fotográfico. Talvez, daqui a uns anos ou décadas, a imagem venha a ser diferente. Quem sabe - seria bom que assim não fosse - ausente.
       Hoje ficou esta:

Torre da Lagariça e o solar anexo (Foto VO)

      De regresso ao Porto, os cinco, sem que a imaginação os leve "sempre a exagerar até à mentira", vivenciaram uma viagem bem real, alimentaram o corpo e o espírito com o que de bom a vida também tem, sempre com "A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades..." - por ora diria que bastava resolver o interesse em preservar um espaço, uma memória cultural e histórica, um motivo literário do interesse e da especulação imobiliários, no respeito pelo "silêncio e doçura da tarde (...), pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras" (final de AICR, pág. 362).  
   

sábado, 5 de janeiro de 2019

Apontamentos do Senhor Américo

      Continuando no registo da comédia e da sátira.

      O jogo do Senhor Américo / Apontamentos Europa América tem efeito cómico, numa crítica a um auxiliar de estudo a que muitos estudantes recorrem para, em vez de ler uma obra, poderem saber qualquer coisa (mesmo qualquer coisa) sobre esta. Não é louvável a escolha e Ricardo Araújo Pereira (RAP) sabe-o bem. Denunciou-o numa rubrica transmitida pela Rádio Comercial, há cerca de seis anos, intitulada "Mixórdia de Temáticas" - uma concorrenciazita bem humorada, com o contributo e o registo do Senhor Américo (mais económico e acessível do que os próprios resumos).
       Ainda por cima, tudo feito a propósito do romance queirosiano Os Maias:

Montagem fílmica baseada em registos da 'Mixórdia de Temáticas' (2012)

      Um apontamento que até pode dispor bem, mas que não serve o propósito do estudo, por certo. A nota de humor visa aqueles estudantes que, não gostando de ler obras literárias, também não perdem tempo com os resumos destas. E, assim, um clássico da Literatura Portuguesa é reinventado num uso de língua tão informal que, entre o dó e o riso, pouco tem de auxiliar.
    Para quem conhece o romance, é possível entender o cómico, na perspetivação crítica fundamentada; para quem ainda não o leu, o (sor)riso fica-se pelo absurdo, pelo insólito, pelos comentários paralelos - humor superficial.

      De novo, o interesse de ler o romance queirosiano impõe-se, quanto mais não seja para que se descodifique o humor convenientemente, no que tem de propósito e também de inusitado.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Palavras a Lúcia - de luz a uma forma de ver os dias

        Em trinta e dois apontamentos de vida,  se (re)descobre uma mulher.

    Numa dedicatória manuscrita, lê-se que a obra é feita de "páginas femininas". É um dado categórico, ainda que não seja facto menor o de nelas também figurarem homens que, em múltiplas vertentes, mostram formas de estar e de viver bem para lá do que seja ser-se masculino ou feminino, Acima de tudo, encontra-se o ser humano na sobrevivência e na felicidade do(s) tempo(s).
     A Drª. Lúcia carrega no nome a luminosidade, a lucidez, a “luz” de ver as coisas que nem sempre lhe são fáceis, mas com o sentido que a experiência de vida lhe trouxe (pelo vivido, pelo lido, pelo escutado, pelo visionado, pelo sonhado). A sua condição de "quase cinquentona", ao ano de 2015 (o dos registos do diário), conjuga-se com esse papel que cumpre e partilha na relação "íntima deste teclado" (pág. 95), como se as páginas folheadas pelo leitor fossem mais visionadas no monitor de um portátil do que tateada na gramagem das folhas. Mais sobressai a partilha da sua visão do mundo tão afim a todos os que se deixam pautar pela sensibilidade e pelo gosto de fazer da/na vida o que ela tem de bom (mesmo quando esta nem sempre o dá).
     Entre janeiro e abril, a escrita acontece. Lúcia foi escrevinhando, diarinhando, na sequência de alguns dias ou na suspensão de outros; entrecortando, segundo a vontade ou o tempo liberto da fatalidade da rotina. Aspetualmente marcado ora pela duração ora pela iteração, o ato de escrever é encarado como "o melhor modo de fazer as pazes comigo, de tentar descobrir o que há que me faz sair daquele mim que julgo ser eu para aquele mim anestesiado para o que vai no mundo" (pág. 11).
     9 semanas surgem contempladas, no terço inicial de um ano, com os ingredientes de surpresa, sedução e suspense, mas também os de recordações (da infância e adolescência), de algumas rotinas (as do trabalho) e regressos (às origens, a Moncorvo). Há amor e dor, há cómico e seriedade reflexiva, há apontamentos ensaísticos, há perceções da arte (cinéfila, literária) e da vida (real, imaginada), há dúvidas e curiosidades que vão sendo resolvidas, satisfeitas à medida que as interações se fazem, principalmente, com o senhor Antunes, a dona Maria do Carmo. Há perdas: umas definitivas, outras por resolver - o tempo e a vida dirão se haverá lugar para tal.
       A diferença entre estar sozinho e viver só é também explorada nas páginas deste diário, ainda que a orquídea (uma das"meninas vestidas de lilás") permita, tal como o ato de escrita, "tentar remendar o dia, atar pontas soltas" e tornar o dia(mais) feliz. A Perpetuazinha fica; nos cuidados de Lúcia ou do senhor Antunes, está lá na narrativa para não só combater a solidão mais do que septuagenária como também tornar o dia "Solitariamente feliz" (pág. 57).
      Apreciei o texto pelo discurso tanto literário quanto natural; pelo veio investigativo e detetivesco introduzido e aplicado a um ponto narrativo que alimenta a curiosidade leitora; pelas lembranças e pelo cruzamento de referências musicais, fílmicas, literárias tão geracionais como familiares; também pelos valores e pela visão de mundo da Drª. Lúcia; por fim, mas não menos importante, também por esta última ser do "FêQuêPê" (a ficção é mesmo uma boa alternativa à realidade)!
      Cerca de cem páginas (faltam cinco) que se leem muito bem e, passo a citar, "gerundivamente":

Numa página de Facebook, datada de 23 de dezembro

      Obrigado, Maria Clara Miguel ("também e sempre Zá").
   
    Ao fim da leitura da obra, reluz alguma serenidade, com os preparativos de uma viagem, de um regresso às origens (sempre diferentes do ponto de partida) e de uma conformação inevitavelmente a construir, para sobrevivência na vida e na sociedade que temos, onde se buscam afetos e "aconchegos coletivos".
     

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Dia final ou do futuro desconhecido

     Como se alguma vez o futuro fosse conhecido... ou se soubesse o que ele trará.

   Há 83 anos falecia um dos grandes nomes da Literatura Portuguesa: Fernando Pessoa. Partia a pessoa, ficava a obra de um poeta do séc. XX, hoje imortalizado numa escultura de bronze junto ao Café 'A Brasileira' (Lisboa-Chiado).
     Houve quem referisse a sua passagem por esta vida como um "rastro de luz". Hoje é bronze, brilhando em dias de sol; baço pela sombra e pelo nevoeiro que o perseguem; lavado e banhado em dias de chuva, seja ela oblíqua seja batida pelo vento que passa; sentado à espera de quem o acompanhe à mesa de uma esplanada.
      Se, primeiro, se estranha e depois entranha, não é questão que o preocupe. Há que ir ao seu encontro, procurá-lo; o contrário não acontece. Só uma vez, e ficcionalmente, tal ocorreu: em O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), de Saramago, Pessoa foi ao encontro de Ricardo Reis. Visitou-o no quarto do hotel Bragança, depois de ter sido procurado no cemitério e não ter sido encontrado. Foi o criador, ou o criativo, à procura do ser criado, já que este último pretendia homenagear o primeiro. Ambos, no final do romance, caminharão para essa eternidade que, de morte feita, faz passagem para todo um sempre, numa espécie de libertação face a uma realidade que dói, instala a crise e se mostra como labirinto da vida humana.
    Há quem ainda não lhe dê o valor já por muitos outros reconhecido (nomeadamente franceses, brasileiros, leitores do mundo que deram a ler, aos portugueses, a modernidade no pensamento e nas letras poéticas, ainda em tempos de uma ditadura que pouco mais via do que 'Deus-Pátria-Família').
      Fica o apontamento de mais um trinta de novembro.

    Lagoa Henriques criou essa presença eterna, intemporal do escritor de toda a gente e ninguém, que fez de Lisboa o seu mundo. Lisboa rima com Pessoa - dela partiu (até à África do Sul), a ela voltou para ficar e poder 'viajar' ("perder países").

sábado, 24 de novembro de 2018

Diarinhando... bom título!

      A tarde foi de apresentação de um livro especial. Entre amigos, no Centro de Recursos da Secundária de Gondomar.

    Uma capa bonita, um título inovador, uma apresentação entre o elogio fundado na qualidade estético-literária e as cores da amizade, uma obra à espera de ser lida. E a autora?


    Já figura nalguns apontamentos desta 'Carruagem', por nos ter dado Histórias para Lermos Juntos e nos ter brindado com O Tesouro. Na companhia e na amizade. Assim foi, assim continua a ser, com os ingredientes geradores de uma família de leitores que Maria Clara Miguel tem vindo a construir. No caso de alguns dos presentes (inclusivamente de alguns ausentes), mais do que leitores, por certo.
      Nada é por acaso, diria a nossa Isaura. O (re)encontro com Maria Clara Miguel aconteceu. E uma Lúcia está para se dar a conhecer. Não foi 'encontro feito poesia', porque de narrativa se trata. Mas nas máscaras de Narciso (nesse mito que se compõe do eu que também é outro, no espelho da água), o que se narra é um ato de escrita metamorfoseado em diário, em prosa poética, em fragmento reflexivo, em apontamento breve, em opinião ou gosto que se querem partilhados.
      Dizia o apresentador do livro - o colega, escritor e amigo Manuel Maria - que nas páginas lidas há suspense, surpresa e sedução. As personagens e as ações narradas convocam espiritualidade e intuição, conformes à tonalidade lilás da capa, a essa cor metafísica propícia à purificação e à cura do físico, emocional e mental. A criação artística é um dos caminhos, nessa elevação de intuição, inspiração e criação espiritual. É mistério a expressar-se pela individualidade, pela personalidade, numa relação plena com a espiritualidade.
      De tudo isto se compõe a obra hoje dada a público, páginas configurando nove semanas de um diário que Lúcia (também Isaura e/ou Maria Clara Miguel) escrevinhou - não se trata de escrever mal nem de produzir algo sem valor (bem pelo contrário); talvez fingir um registo solto, natural, com um fim diverso (mais do que determinado), entre o entretenimento criativo, a oportunidade aproveitada, a vontade sem compromisso e a necessidade de revisitar tempos, gostos, pessoas, memórias que em todos nós vivem - umas comungadas, outras só de alguns, muitas só do 'eu' plasmado num discurso por natureza calendarizado, datado à cabeça (o Homem é tempo; dá-lhe a mão e larga-o, conforme a força, a vontade e a capacidade de o acompanhar).
      Diarinhando é amálgama para um ato encarado como processo, talvez por pretender culminar numa construção de identidades e entidades fictícias que só a vida pode vir a (re)criar pelo que já deu a (re)ver ou a imaginar.

     Ao folhear o livro, parei em algumas datas (8 de fevereiro foi uma delas) e em alguns segmentos (um deles, logo a abrir: "Está aí alguém?"). Talvez seja Narciso a recriar-se, a rever-se num universo de palavras, num fluir do tempo, num espelho de interrogações, reflexões, intrigas que de vida (também) se fazem.

domingo, 4 de novembro de 2018

Barcelona medieval e 'A Catedral do Mar'

    Uma série Netflix a não perder (2017). O livro do barcelonês Ildefonso Falcones (2016) é encontro a marcar.

     "La Catedral del Mar" - 'pela Virgem' e 'Às armas'. É com estes dois lemas que se retrata a sociedade catalã do século XIV. A partir de uma pesquisa e investigação aprofundadas, o autor apresenta uma visão da prosperidade e da força da cidade nos tempos medievais. Com a história de fuga do servo Bernat (que salva o filho das mãos tiranas e brutas do senhor feudal que possuíra a esposa e faria da criança mais um escravo às suas ordens), fica a conhecer-se a vida e a singularidade de uma Barcelona encarada como espaço urbano cosmopolita, habitada por escravos, artesãos, judeus, nobres, mais a realeza que se impõe a Castela e a Mérida.
     Um bairro humilde de pescadores (Bairro de La Ribera) afirma-se pela construção popular, coletiva e colaborativa do maior templo mariano do tempo: a catedral de Santa Maria do Mar. A gloriosa edificação faz-se a par da história de Arnau (Aitor Luna), uma criança tornada adulto e cidadão que conquista a condição de homem livre. Enquanto estivador,  bastaixo (carregador de pedras), soldado e cambista, a evolução do filho de Bernat não deixa de criar invejas, forças que preconceituosamente o forçam a ver-se como servo, como fugitivo indigente cuja nobreza de carácter só no final da narrativa dará lugar ao nobre e aristocrata definitivamente reconhecido em termos sociais. 

Trailer oficial da série 'A Catedral do Mar' (2017)

   Conspirações torpes e vis, injustas expõem-no a múltiplos perigos, como a chantagem da mulher que amou e de quem teve de se separar (por ser casada); a peste negra que lhe levaria a primeira mulher e os amigos; a perversão e o ciúme interesseiro da princesa (Elionor) com quem viria a casar, por decisão de um rei que viu nesse matrimónio a oportunidade de se libertar de uma dívida enorme ao então bem-sucedido cambista; a depravação e a imoralidade de uma Inquisição, que mostrou o que de mais degradante, maquiavélico e demoníaco havia na instituição da Igreja.
     Entre a a discriminação e segregação sociais, os interesses e jogos políticos, a intolerância religiosa e o materialismo reinantes, o amor virá a resistir e a triunfar, com Arnau Estanyol a assumir a sua paixão por Mar (Michelle Jenner), uma jovem protegida que cresceu, ficou mulher e acabou sua esposa, e mãe do filho que transporta para futuro o sinal da paternidade (sinal junto ao olho direito).
    Baseado no romance histórico de Falcones, o enredo da vida de Arnau Estanyol é complexo, narrado desde as dificuldades da infância à condição de bastaixo e ao sucesso adulto do cambista. Na ausência de uma mãe (Francesca) que só vem a conhecer na pior fase da sua vida adulta, o protagonista tem na Virgem Maria a mãe celeste a quem recorre nas adversidades, aquela que o acompanhará desde os mais tenros anos, bem como ao irmão adotivo que também marcará o seu percurso. Fecha a série (com oito episódios) com a inauguração e a sagração da catedral, com Arnau, Mar e o filho num núcleo familiar com expectativas de futuro (ao contrário de um início que colocou Bernat, Francesca e Arnau em rota de fuga e dispersão).

      Na linha das séries "Os Pilares da Terra" (2010) ou "Um Mundo Sem Fim" (2012), baseadas nos romances homónimos de Ken Follett, "A Catedral do Mar" é uma produção de Ana Rubio, num projeto da 'Diagonal Televisió', em coprodução com a Televisão da Catalunha.

sábado, 3 de novembro de 2018

Tristão e Isolda - da lenda ao filme

      Diz-se lenda medieval de origem céltica; firmou-se como uma das histórias universais de amor trágico.

    Surge pelo século IX. As primeiras versões escritas são do século XII, no formato de narrativa em verso, tendo sido história difundida por trovadores e pela realeza francesa (rainha Leonor de Aquitânia) na Europa. Um século depois, foi incorporada no Ciclo Arturiano, com Tristão a assumir-se como um cavaleiro da Távola Redonda. 
    Tristão (James Franco) assiste à destruição da sua família por invasores oriundos da Irlanda, até que um nobre da Cornualha (Lord Marke, interpretado por Rufus Sewell) o protege. O reino é constantemente ameaçado pelo rei irlandês, como forma de impedir o nobre bretão de obter uma união de pares e de reinos capaz de o enfrentar (assegurar a paz das fronteiras irlandesas era um objetivo a cumprir, desde os tempos da expansão romana).
     Entre a Irlanda e a Cornualha, há, contudo, um mar que deu em amar, ou não o cruzasse Tristão, acabando por conhecer Isolda (Sophia Myles), a ela se unindo e dela se afastando até dela se separar com a morte.

Tristão e Isolda - trailer do filme de Kevin Reynolds (2006)

    A intriga fílmica, dirigida por Kevin Reynolds (2006), espelha várias questões da literatura do tempo: a herança, os vestígios e a influência romanas; a questão das relações feudais, dos códigos de honra e de lealdade, bem como da vassalagem e do amor cortês; a condição da mulher no casamento (essencialmente entendido como contrato, negócio); o adultério como consequência ou realidade associada à distorção das regras de casamento; a relação da arte com a vida cortesã (literatura, dança e música), entre outros.
     Se a versão cinéfila é ou não fiel às origens narrativas celtas é questão que, não sendo de menor interesse, não apaga o destaque temático a dar ao herói (homem sem terra, na busca e no distanciamento face ao que mais deseja - Isolda; ser em constante conflito, entre o foro público e o privado, mas sempre fiel tanto ao "senhor" que serve como à "senhor" que ama) e à heroína (mulher entregue a um amor que vai ultrapassar convenções familiares e sociais, para não falar da própria vida).

   Segundo as palavras de uma personagem do filme, o amor de Tristão não destruiu um reino (contrariamente ao assumido no momento da denúncia amorosa), não diminuiu ninguém. É expressão de elevação, de idealização; de amor mais forte do que a vida ou do que a morte.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

História que (não) se repete

     Depois da festividade do Halloween, veio o susto.

    Tremeu a terra, pela madrugada, num sismo registado na região norte e centro com a magnitude 5.2 na escala de Richter. O epicentro localizado no mar, a cerca de 480 quilómetros a oeste de Peniche, não trouxe danos pessoais nem materiais, ainda que sentido entre Braga e Lisboa.
    Há cerca de 250 anos (mais precisamente 253), a catástrofe era maior, com efeitos mais localizados na capital do reino e seus arredores. Vivia-se o reinado de D. José I e a oportunidade de ascensão política de Sebastião José de Carvalho e Melo (mais conhecido por Marquês de Pombal). O Terramoto de 1755 foi tragédia nacional com reflexos internacionais.
    Assim o diz a Literatura, particularmente em Cândido, ou o Optimismo (1759), narrativa filosófica de Voltaire, na qual se reflete e critica o axioma «Tudo está bem no melhor dos mundos possíveis» (de Leibniz), com a irónica refutação evidenciada com as terríveis lições infligidas aos protagonistas - o precetor Pangloss e o seu discípulo Cândido.
   Uma dessas lições prende-se com as vivências do terramoto, que relativizam o otimismo excessivo de Cândido, ao chegar a Lisboa no preciso dia da tragédia. A morte de Pangloss num auto de fé, por ação inquisitorial, é lição demasiado pesada para tanto "bem no melhor dos mundos", sejam estes possíveis (fictivos) sejam estes reais (factuais).
   Ora, em tempos de alguma preocupação (também com sinais sísmicos que não pacificam ninguém na atualidade), a história repete-se em dia que parece fatídico, ainda que em escala bem menor face ao que sabemos de outros séculos.
     Sem o otimismo inicial de Cândido - sou mais pela relativização do bem (por forma a não o perder por completo, na ilusão de que não existe mal nenhum) -, vou ficar-me pelo preceito final da obra: "devemos plantar o nosso jardim".
      Aproveitar alguma coisa do feriado é o desejável (já que não pode ser tudo). Não será jardim; antes um canteirozinho.

     Repete-se a história, sim, mas com narrativa e efeitos bem distintos, para um dia de má memória.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Maria Lionça na senda da ficção e da verdade

   A fronteira do fictício e do real é como a linha do horizonte: ilusão de ótica a todo o tempo renovada, procurando a terra da utopia.

   Tudo a propósito da poesia de Miguel Torga, ainda que Maria Lionça seja nome para uma personagem de um conto com título homónimo publicado em Contos da Montanha (1941). O próprio autor apresenta-a como criação, invenção, imaginação que se torna verdadeira. É como a obra do escritor: quanto mais ficcionada, criada ou mais imaginada, mais real.
     Como força materna, ela resulta numa espécie de caleidoscópio, nas múltiplas variações de luz que uma figura feminina é capaz de dar ao mundo. Neste sentido, Maria Lionça é universal(ista), fonte de energia, e (por isso) encontra-se na origem e nos ciclos renovados da vida. Fiando e tecendo, assim vai compondo a meia, com a linha ou o fio que, dedilhados, a mão já susteve entre a roca e o fuso, numa imagem de continuidade de vida.

Entrevista de Miguel Torga ("Viagem às Terras de Portugal" - Rede Manchete, 1987)

      Na vida literária, a obra também se compõe de energia, luta, força da palavra, da linguagem que traduz a própria criação e invenção. Assim a verdade interior do criador é partilhada com o seu leitor, tal como a mãe dá ao filho o que de melhor tem.
      No feminino da terra, na força telúrica que o poeta dá a ler, também se revela uma Maria Lionça. Mesmo o masculino a reflete, nomeadamente nesse negrilho plasmado em verso (não deixa de ser árvore de grande porte na expressão da criação poética). Qual Anteu, o poeta alimenta-se da força da terra e, dessa forma, dá voz à Poesia. Nesta apresentam-se marcadamente quatro linhas orientadoras: um desespero humanista, configurado no inconformismo, na luta e na revolta de um Orfeu Rebelde face ao(s) poder(es) que transcende(m) o Homem e o deixa(m) preso a uma realidade que não dá nem traz esperança, utopia ou felicidade; o telurismo como expressão da força e da energia que decorrem da vivência e da proximidade à terra; a problemática religiosa, na questionação de um Deus que, não sendo negado, é acusado de não ser humano nem próximo da racionalidade que o poeta quer sublinhada na vida humana;  o drama da criação poética, associado ao esforço, ao trabalho extenuante e contínuo dos que desejam a superação das limitações (nomeadamente os da escrita poética). 
      No cruzamento destas linhas temáticas cabe também falar de Pátria, de Nação, de Alma e Cultura de um povo - e aqui Maria Lionça também é traço de alma de um país e da sua cultura; de terra e de mar abertos ao mundo, na descoberta de caminhos que têm como destino último a Universalidade, esse princípio que nos aproxima de todos os outros, na busca infindável do que nos leva à felicidade, à utopia.
      No reconhecimento do poeta, sigam-se-lhe os trilhos da terra:

Documentário televisivo (Porto Canal) sobre o escritor Miguel Torga
      
     Nas quelhas da vida, também composta de múltiplas ruas, há caminhos a descobrir para lá da aparência e da superficialidade. É na busca do que há de mais profundo, e verdadeiro, que a aproximação ao ideal se constrói. Com esforço e com trabalho.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Viajando... de comboio?

     Não é a propósito desta carruagem, nem tão pouco de nenhum comboio. Nela, contudo, fica sem que nele se viaje... porque de tempo (acima de tudo) se trata.

     Em torno de uma narrativa epónima (de um nome apenas para três personagens, feitas de uma só), compõe-se uma viagem no tempo.
    Assim se lê "George", esse conto de Maria Judite de Carvalho que configura as três idades de uma mulher, surgida como adulta aos olhos do leitor, no início e no final da narrativa. É este o ponto de partida (e será o de chegada) para alguém que, regressando à sua aldeia de infância, se reencontra com Gi (George na sua juventude, próxima dos vinte anos). Não se trata de relembrar ou recordar o bem passado; antes um tempo que George quer ver apagado, para que não se sinta presa / condicionada (tudo o que a quarentona de sucesso parece não querer).
      O passado esfumado, qual memória que se vai esgotando, é tempo recuado em mais de vinte anos; é rosto fixado num retrato de uma mala qualquer. É uma jovem que podia ser uma filha da protagonista; porém, surge como esboço, como figura de alguém com disposição para a partida - alguém que levará uma mala velha, de cabedal, para sair do "cu de Judas" (onde fica Carlos, que, ao contrário dela, se deixa prender). A reconstrução da memória é como uma pintura: inicialmente, apenas um rosto vago sem contornos, com o sorriso dos dezoito anos (bem distinto do de Georgina); depois, um reencontro, espelhando e  revendo o que não se quer presentificado.
      O presente é o instante do regresso à vila, para vender uma casa (para que nada prenda a um tempo ou a um espaço), pois George é mulher que não se quer ver agarrada a nada (a não ser, talvez, ao "último dos seus amores"). É o momento da consciência do duplo (ou do múltiplo) e de um percurso de errância, sempre na predisposição de partir, de viajar - até porque a vida é feita de constantes partidas / viagens / percursos. É ainda o tempo de despedida do passado e de uma viagem de comboio, qual metáfora da passagem do tempo. É o agora de uma vivência que se faz em Amesterdão, com um trabalho que agrada e faz da adulta George uma pintora bem sucedida, que adora viajar; que prefere os pensamentos agradáveis (feitos de um gosto materialista e de uma propensão para um controlo do tipo quem tudo pode e tudo quer - porque tudo tem).
       O futuro é encarado no momento em que vai o "comboio a fugir de dantes". Aparece, então, um novo esboço, o de Georgina, uma idosa que se sente só (por causa desse "crime" da velhice), com necessidade de retratos (o da menininha que foi Gi, saída da vila com uma foto no fundo da mala). Vê pior, as mãos enrugadas tremem (nada pior para quem foi uma conceituada pintora) e o "mundo já não lhe pertence", aos setenta anos.
     20, 45, 70 anos - a passagem do sorriso do dia para o da noite. O 'eu' no reencontro, na descentração, com o outro 'eu' (o de outros tempos, sejam passados sejam futuros). Nenhum deles George quer. Só o presente, o instante, o momento que controla, à mesma lógica das emoções que são contidas ("uma simples lágrima no olho direito, o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar os seus problemas, não e não" / "Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro...").

       A pretensa liberdade do 'eu'. A adulta que tudo julga controlar (inclusive o tempo). A pintora que expõe, que tem sucesso e acredita poder "fechar os olhos" a tudo o que lhe desagrada. Acredita que a mala cara, leve, de rodinhas não dará lugar a uma "carteira preta, cara, talvez italiana, italiana, sim". Porém, "tudo passa", por mais que a antecipação disso incomode George - título narrativo para um presente que dura (só até chegar o futuro).
      

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, a Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Gi-George-Georgina

    Afinal, (também) Maria Judite de Carvalho.

    Na sequência da abordagem do conto "George", nada como apresentar a autora da narrativa, a partir de um pequeno documentário sobre a vida e obra daquela que, na escrita literária, se (re)viu mulher em diferentes idades e se compôs na solidão.

Documentário da RTPN (2011)

    Um visionamento que prossegue o tratamento de um pequeno texto informativo (para deteção de linhas temáticas, marcas de construção narrativa e registos de inspiração biográfica) e incide sobre uma pré-tarefa a dar continuidade / complemento à recolha de dados relativos ao trabalho anterior.
     Dos muitos dados contemplados, sublinham-se os seguintes:
"As Três Idades do Homem e Três Graças", 
de Hans Baldung Grien, 1539 (Museu do Prado)
a) consciência em movimento (interior da alma) de personagens, dimensionada no âmbito do psicológico;
b) vertente realista de retrato de uma sociedade frustrada, oprimida, isolada, marginal;
c) consciência da velhice e dos idosos (que todos seremos) no ciclo da vida;
d) técnica do monólogo interior (na expressão de uma consciência partilhada do pensamento);
e) exigência da colaboração do leitor (corresponsável na construção de imagens narrativas, por exemplo, a do espelho, no caso de 'George');
f) vivência no estrangeiro (França, Bélgica), tal como George (em Amesterdão);
g) crença mais no talento de pintora (tal como George) do que no de escritora.

      Vamos, então, a "George" (que já foi Gi e será Georgina), narrativa epónima marcada por essa consciencialização do encontro do 'eu' consigo mesmo, pela representação do que foi e do que será, numa espécie de despersonalização, distanciamento, descentração para se poder ver na memória, ao espelho ou n(um)a bola de cristal.

     Uma narrativa tão reflexiva e deambulante quanto o que Bernardo Soares fez com Pessoa (ou o último no primeiro). Porque a consciência da vida é feita de procura, numa viagem que nos faz estar atentos ao que há à volta de todos nós e que nos leva a revermos o percurso já feito e/ou a prevermos o que estará para além de nós a cada instante.

sexta-feira, 9 de março de 2018

A propósito de anáforas... bem distintas.

      Feita a devida distinção entre o mecanismo linguístico de retoma e a figura de retórica, tudo vai bem.

       O problema está mesmo quando os dois processos são confundidos.

      Q: Quando aparecem palavras repetidas ao longo de uma frase, pode dizer-se que estamos perante a figura de estilo da anáfora? Estou a considerar o seguinte exemplo: "Quando a cidade acorda, não há cidade com a paz do campo. Não há cidade com paz."

      R: Não generalizaria a questão desse mundo, particularmente no que à figura de estilo diz respeito. Em termos de coesão do segmento proposto, pode dizer-se que há uma relação anafórica na repetição do termo 'cidade', mas a questão, neste caso, fica centrada na construção de uma cadeia de referência baseada na reiteração ou repetição lexical. Os três termos não são exemplo de anáfora como figura de estilo, mas de uma repetição sinónima de retoma (do já referido) que pode eventualmente resultar sugestiva no diferencial e no destaque que esse espaço adquira no texto em que surge - ainda assim, não a anáfora como recurso estilístico, por não se tratar de repetição de palavra em frases (ou versos, no caso de um poema) ou sequências sucessivas.
     Em termos de estilo, o exemplo que propõe pode apenas ilustrar a figura de estilo da anáforana construção 'não há cidade com [...]. Não há cidade com', na medida em que persiste, em frases / orações sucessivas, uma cadência de escrita apoiada na repetição não só do vocábulo 'cidade' mas também de uma construção sintática ('não há cidade com'), colocada no início de orações principais e tomada como fator cadenciado e sucessivo de construção.
     Não tomaria, portanto, o uso do primeiro 'cidade' na relação com os seguintes como exemplo de uma figura de estilo, mas sim de um mecanismo coesivo baseado num processo referencial anafórico (enquanto mecanismo linguístico). Aproximaria o segundo 'cidade' do terceiro (no seio de toda a sua construção frásica similar) enquanto efeito estilístico, sugerido por um ritmo cadenciado de segmentos sintáticos sucessivos (seja em prosa seja em verso), familiar a uma retórica literária interessada na exploração de efeitos expressivos e significativos motivados por uma intencionalidade distinta de sentidos mais literais, denotativos e/ou imediatos.
      Lausberg, no seu Elementos de Retórica Literária, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian ([1963] 1993: 174-175), apresenta a figura de estilo como sendo do tipo "... / X... /X...", em que X é a palavra, expressão ou construção repetida em segmentos sucessivos. É este o tipo que se revê em "..., não há cidade... Não há cidade...".

      Um mesmo nome (anáfora) não quer dizer que signifique o mesmo ora quando de mecanismo linguístico se fala ora quando de processo retórico e estilístico se trata.

sábado, 3 de março de 2018

"Sempre é uma companhia"

      Citando o título de um conto de Manuel da Fonseca, publicado em O Fogo e as Cinzas (1951) ou o discurso de uma personagem.

      Em qualquer uma das circunstâncias, a referência à telefonia é um dado, para além da pressuposta inexistência dela à data do seu aparecimento. Centra-se neste facto narrativo o núcleo de uma intriga que, uma vez lida no conto mencionado, sempre me fez lembrar um episódio do filme 'O Costa do Castelo' (1943), dirigido por Arthur Duarte. A velhinha película a preto e branco traz, em registo cómico, o que oito anos depois o conto sugere, num contexto mais marcado pela visão neorealista e pelo retrato de uma ambiência de desesperança a evoluir para a expectativa da mudança e para a construção da esperança possível.
  Nesta exploração interartística (cinema e literatura), há coincidências a rever, paralelismos a construir, referências culturais a traduzir para qualquer momento que se reveja como crítico face à ausência de sinais de alegria ou de felicidade no seio dos homens.
       Assim, (re)vê-se o segmento fílmico, tomando como pré-tarefa do visionamento a construção de aproximações entre o conto e o que a tela / monitor dão a perceber:

Excerto fílmico de 'O Costa do Castelo' (versão de 1943)

        Entre os tópicos possíveis de abordagem / aproximação, registam-se os seguintes:

      a) centralidade da telefonia na alteração de comportamento das personagens (a partir do jantar de aniversário familiar a dar lugar ao baile / animação / prazer);
    b) o portador da telefonia como introdutor do fator de mudança (apologista da mudança e da tecnologia), num contacto com o mundo e na sugestão da música como fuga harmoniosa para uma realidade alternativa ao vivido;
     c) o ato explicativo associado ao funcionamento do aparelho;
    d) um contexto persecutório (associado à personagem do jovem masculino) numa aproximação, ainda que por razões diferenciadas, ao contexto de produção de O Fogo e as Cinzas (a fuga de alguém a um controlo equiparável à ditadura de Salazar, tal como no ambiente de desfavorecidos tomados pela desesperança, a dar lugar a uma esperança possível);
    e) a data da realização fílmica e a da publicação de O Fogo e as Cinzas (onde se insere "Sempre é uma companhia") compreendidas numa época associada à ditadura e ao controlo despótico de Salazar;
     f) a leitura sociopolítica do excerto fílmico equiparada à abordagem sociopolítica de uma narrativa neorrealista (com foco na questão social, na procura de uma saída feliz para uma realidade adversa).

        Mais haverá por certo, numa sugestão convocada por sinais que um tempo propõe à luz do que um par de obras dispõe e o leitor / espectador (re)compõe.

     Um caso de como as memórias do passado (vivido) se redefinem a cada momento que a motivação (da leitura e das aulas associadas) se impõe.
    

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Ainda o desassossego

      Desta vez, fico-me pelo Livro do Desassossego (que já teve versão fílmica).

    Trabalhados alguns fragmentos, fica a sensação de um Bernardo Soares que ecoa o ortónimo, bem como os heterónimos, num registo prosaico feito da poesia e do pensamento plasmados em alguns versos familiares aos olhos dos leitores pessoanos.
     Na proximidade com o criador, Bernardo Soares é um semi-heterónimo (no seio de outros dois) que muito contribuiu para a dimensão reflexiva da obra completa do criador poético; um prosador que observa e transfigura a cidade, os ambientes, o quotidiano à semelhança de Cesário; que trabalha e reflete sobre a língua (pois gosta de "palavrar"); que explora o sonho como libertação do sono da vida (ou da "salada coletiva da vida").
     É na dualidade de um Pessoa-Soares ou de um Fernando-Bernardo que o ser-sombra se compõe, como se pode depreender do documentário seguinte (a abordar um livro, que é simultaneamente vida, de desassossego):

Documentário com montagem a partir da série televisiva "Grandes Livros" (RTP-1)

     Mais do que um Vicente Guedes (aristocrata falido que ganha a vida como empregado de escritório) ou o Barão de Teive (com morte anunciada, e que decide escrever antes de se matar), Bernardo Soares é o pensador moderno na reflexão sobre o abismo da alma humana, reportando uma vivência de angústia, numa sociedade feita de desalento e numa época tão crítica quanto criativa. Nesta, a alma do escritor é "uma orquestra oculta", sem saber "que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores"; só se conhece como sinfonia e vê a infância como saudade da emoção desse momento de "grande certeza sinfónica".

       Sem sentimento político ou social, Bernardo Soares assume-se pelo alto sentido patriótico: a sua pátria é a língua portuguesa.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Quase a terminar janeiro e...

      ... vem aí mais do mesmo.

      Quem construiu o programa de 12º ano da disciplina de Português, de facto, ou gosta muito de Pessoa ou contribui definitivamente para alguma saturação: ele é ortónimo - nas construções poéticas curtas e na obra Mensagem -, mais heterónimos; junta-se o semi-heterónimo Bernardo Soares e, para fechar, volta-se, com Saramago, a um universo pessoano com O Ano da Morte do Ricardo Reis. Faltou algum doseamento, num indisfarçável propósito de ver em Pessoa toda uma literatura, porque ele é todo um conjunto de poetas em verso, contista e prosador exímio, dramaturgo de uma peça ou cena com faces / máscaras / caracterizações "em gente".
        A riqueza e diversidade do poeta modernista são enormes, por certo. Falta saber se a adesão à multifacetada obra se consegue com a insistência na leitura de tanto verso, pensamento e (re)construído, criativo universo. Por mais que a multiplicidade se verifique, não deixa de comparecer a unidade: a de um criador que ecoa nas suas criações ou a da convergência de sensibilidades várias e aglutinad(or)as no escrito. É um Pessoa que se exprime, por fingimento artístico, através de várias pessoas e estéticas ou estilos diversos, numa representação feita em um só palco, mas com a fragmentação do ser própria do artista que se confronta com múltiplas verdades.

       Um Fernando Pessoa(s) acompanha os nossos dias, até não sei quando, à espera de uma linha de fronteira que se esbata no jogo do real ficcionado ou da ficção que tem muito de real concentrado num romance.