quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um exemplo de homem para uma emenda exemplar

       "Lincoln" é título de filme, estreado hoje no circuito de cinemas nacionais - no último dia de um mês que viu nascer, há cerca de 150 anos, uma emenda histórica para os Estados Unidos da América (EUA).

       No caminho para a potência que os EUA hoje são, a expansão e o crescimento vividos na primeira metade do século XIX não estiveram livres de um período de disputas intensas. Os barcos a vapor fluviais, os caminhos de ferro, as linhas telegráficas e as vantagens daí decorrentes conviveram num conflito ideológico profundo entre os estados do Sul e os do Norte. Os primeiros (sobre)viviam e sustentavam-se de um sistema apoiado na escravatura; os segundos, primavam pelo princípio de que todo o Homem era livre. A crescente aproximação geográfica promovia, progressiva e emergentemente, a discussão sobre a ideia a fazer prevalecer, na reduzida possibilidade de se estabelecer um compromisso comum. A cada novo território incorporado, à medida que o "Go West" se concretizava, crescia o campo de batalha entre as duas cosmovisões: ou tornar-se um estado de cidadãos livres ou constituir-se como estado que aceitava o trabalho escravo.
      Desde o ano de 1833, a sociedade antiesclavagista americana não se limitou a resistir ao movimento expansionista; ao invés disso, procurou promover a abolição completa da escravatura por todo o país. A questão agudizou-se com a admissão do Texas à União: o Texas fazia parte, originalmente, da república do México e, segundo a lei mexicana, a escravatura era proibida; contudo, os sulistas reclamavam o novo e extenso estado, acabando por o conseguir.
    Oponente declarado à expansão da escravidão nos Estados Unidos, o presidente Abraham Lincoln viu o Sul afastar-se da União. Acabou, assim, por dedicar grande parte do seu mandato a combater os estados separatistas (Carolina do Sul, Mississippi, Florida, Alabama, Georgia, Louisiana e Texas, também designados Estados Confederados da América, liderados por Jefferson Davis) com a conhecida "Guerra da Secessão". 
    A vitória da União nesta guerra civil acompanhou a introdução de medidas que levaram à promulgação da Proclamação de Emancipação em 1863 (a 1 de janeiro)  aprovando a Décima terceira emenda da Constituição dos Estados Unidos da América: abolia-se a escravatura em todo o território confederado ainda em Guerra Civil. Dois anos depois, e com o final da "Secessão", o sistema esclavagista, nos EUA, era ilegal.


      É este o contexto histórico que aparece retratado num filme com a assinatura do conceituado Steven Spielberg. Com doze nomeações para Óscar (melhor filme, melhor ator principal, melhor ator e atriz secundários, melhor realizador, entre outros), o décimo sexto presidente dos EUA é relembrado nas ideias e nos atos que o marcaram para a posteridade, particularmente nos quatro últimos anos (1861-185) para não dizer nos últimos quatro meses, pouco antes de ter sido assassinado por ator (às vezes, o teatro invade a vida, traindo-a no que tem de maior conquista).
    Fortemente argumentativo nos discursos apresentados, a película representa todo um jogo ardiloso de interesses e de motivações políticas necessários a uma arena que assiste e vive uma grande conquista, feita não só de perversões, concessões, estratégias mas também do lado humano, diplomata, visionário e idealista de um homem que liderou um período marcante da história. A par dele, outros também revelam o que os move - alguns, razões de foro corporativo e associativo, numa visibilidade social apostada em questões exclusivas de força e de poder; outros, escolhas e causas que lhes dão felicidade individual e que pode trazer vantagens ao mundo.

        No balanço positivo do filme, fica ainda o pensamento de como as grandes causas não deixam de ter sempre um lado mais estranho e menos aceitável - pequenos defeitos de percurso que não comprometem o todo da meta; de como a luta contra a escravatura é causa com sentido e que já havia sido pioneiramente abolida pelos portugueses (na segunda metade do século XVIII, com Marquês de Pombal) à data do pensamento de Lincoln.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Em diálogo

     Cerca de uma hora e meia para, em workshop, refletir sobre essa condição que nos permite construir aproximações e contribuir para a formação de cidadãos participativos e críticos.

     Sob o título "Promover e gerir o diálogo em sala de aula", foi dinamizada uma sessão de sensibilização ao diálogo. A iniciativa promovida pelo Centro de Formação Júlio Resende contou com a participação de professores de vários grupos disciplinares e decorreu na Escola Secundária de Gondomar.
    Um grupo de aproximada-mente trinta professores interagiu com o orientador da sessão, Tomás Magalhães Carneiro. Foi uma experiência de diálogo participado que visou os seguintes objetivos:
. reconhecer o diálogo em sala de aula como ferramenta pedagógica;
. saber promover e gerir o diálogo na sala de aula como instrumento de desenvolvimento pessoal e de cidadania;
. reconhecer o diálogo como instrumento de reflexão e participação crítica.
     Partindo da consciencialização do que possam ser condicionantes, bloqueios ao diálogo, foi solicitado um enunciado que traduzisse uma verdade absoluta (que, uma vez escrita, foi partilhada: "Eu existo", alguém disse). No percurso e na procura do que melhor pudesse rebater / refutar "uma" dessas verdades ("O que é existir?" / "Existes para os que te conhecem, não para os que te desconhecem"), simulou-se e explicitou-se todo um conjunto de constrangimentos ao funcionamento do diálogo, por um lado; reconheceram-se as "invasões" ao espaço e ao tempo de quem dialoga, mesmo quando tal sucede no pretendido auxílio à interação, por outro lado; e, ainda, refletiu-se sobre alguns processos que a problematização pode ativar, trazer para a construção do diálogo, numa espécie de exercício filosófico.
      Houve quem buscasse neste trabalho a solução para problemas; outros procuraram e promoveram o confronto de ideias - algumas delas partilhadas, a par de outras que pareciam não ter sentido. Houve tempo para todos se confrontarem com o que podem evitar ou moldar, de modo a viver situações mais participativas e participadas, independentemente de ter de se conduzir para um saber e um fazer que requerem maior estruturação.
      Colocarmo-nos na posição e no raciocínio que outros desenvolvem é aspeto relevante na interação, pela atitude de abertura criada; encarar o exercício de argumentação como oportunidade de (co)construção de sentidos e de saberes é posição que fomenta a participação e o envolvimento; apostar na moderação de falas / discursos e assumir menos o protagonismo na transmissão são opções educativas capazes de fomentar cidadãos mais compromissivos, disponíveis para uma maior abertura e maior aceitação face à diversidade e à multiplicidade.

       No tempo disponível e no momento em que surgiu, esta sessão foi um contributo positivo, uma experiência que fechou um dia de trabalho de uma forma animada e bem disposta, sem deixar de nos fazer rever nalguma situação vivida ou a (re)viver.
     

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quem mora mora em algum sítio...

       As dúvidas que se repetem são como os conhecimentos que não se ativam, por falta de rotinas.

       Houve já um apontamento a propósito de situação análoga:

       Q: Podes esclarecer-me uma dúvida?
         Aqui vai: em 'O João mora ali com os avós', 'ali' é complemento oblíquo (COb) e 'com os avós' modificador do grupo verbal (MGV), certo? Mas em 'O João mora com os avós', qual a função sintática de 'com os avós'? Não é na mesma MGV?

       R: Começo por responder positivamente a todas as questões formuladas.
       Ao me referir ao assunto (funções sintáticas de segmentos aparentemente equivalentes) numa questão semelhante, apoiei-me na noção de estrutura argumental. Ora, no caso do verbo 'morar', o que está em causa, em termos lógicos, é 'X Morar em Y', independentemente da realização frásica que se venha a analisar. Neste sentido, 'ali' é a configuração para 'em Y', a desempenhar a função sintática de complemento oblíquo, o mesmo não sucedendo com o segmento 'com os avós'. 
         O teste do par questão-resposta (com um verbo-processo genérico: 'passar') revela-o:
         
         i) O que se passa com o João e com os avós?
            Moram ali. (aceitável)
         ii) * O que se passa com o João e ali?
             * Mora com os avós. (agramatical)

        A realização da frase 'O João mora com os avós' não invalida a estrutura argumental (que não se encontra saturada quanto à seleção típica de argumentos).

      Estas são situações que, não obedecendo à regularidade de realizações, devem apenas ser equacionadas ao nível de aprofundamento do estudo da língua. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

As duas faces do espelho

    O título "The mirror has two faces" é para um filme, para uma relação com muito de diferente... nomeadamente nos desempenhos profissionais.

   Barbra Streisand e Jeff Bridges dão corpo a uma dupla de professores universitários (respetivamente, Rose Morgan e Gregory Larkin), num drama romântico americano datado de 1996. Romantismos à parte, um e outro vão-se aproximando também por motivos profissionais.
     A relação de ambos é feita de um contraste nítido de personalidades, revelado desde logo no modo como dão aulas. A capacidade comunicativa do professor Larkin não parece ser das mais motivadoras para os alunos, conforme se depreende deste excerto fílmico inicial.


        O entusiasmo e a admiração do objeto de estudo estão muito centrados no professor, no que ele vê nos seus registos e não no que estes possam dizer aos estudantes... e, pelos vistos, em quem supervisiona a aula.
        Em contrapartida, há o exemplo de Rose, que consegue galvanizar, envolver toda uma imensa plateia: pela aproximação e concretização do tema / assunto em exemplos de uma realidade bastante familiar (demasiado até!); pela solicitação e interação construídas junto dos alunos, além da movimentação criada no seio destes; pela linguagem aproximada aos estudantes, numa dessacralização do que possa ser visto como intelectual, por alguns, e que a docente torna comum e reconhecível pelo homem comum.



  A evidência da adesão do público é notória. As "dicas" surgem, de quem se apresenta em vantagem oratória, retórica, numa explicitação do que sejam condições capazes de transformar uma situação encarada como crítica.


  Descentração, aproximação, envolvimento e motivação; posicionamento na sala de aula, movimentação, contacto com os alunos; humor; maior concretização e um enquadramento menos abstrato ou teórico são algumas das propostas, na linha do que uma professora de cultura e literatura consegue dar.
      E, então, a mudança acontece, com a consequente avaliação dos efeitos:


    A predisposição para a interação, o diálogo, o envolvimento do outro na comunicação surte o efeito desejado: um compromisso com a participação e o sentido de construção conjunta. Pode discutir-se até que ponto essa construção é produtiva, estruturante e estruturadora das aprendizagens; se não se fica apenas pela legitimação de um ponto de vista, que é estratégica e retoricamente orientado para o conformismo. Ainda assim, é preferível esta situação a não ter nenhuma comunhão.

     Transformar, na consciência das vantagens daí decorrentes, é um caminho, uma opção que não resulta apenas nos filmes. Há ficções desejáveis para a realidade.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Um Mundo Sem Fim

      Título para nova série, homónima do livro do escritor inglês Ken Follett, na tradução para o Português europeu.
   
     O romance de ficção histórica, publicado em 2007, é a progressão sequencial de Os Pilares da Terra (1989),  narrativamente situado 200 anos depois, ainda na cidade de Kingsbridge e com as personagens descendentes da primeira obra.


    É o início do século XIV que aparece  representado, no período em que o rei inglês Edward II é assassinado, numa assumida oposição da rainha ao seu reinado. Abandonada que fora pelo monarca e refugiada no seu país natal (França), ela acaba por regressar ao solo inglês na companhia do amante Lord Mortimer e do filho herdeiro, este último um mero espectador inicial da situação. Chega, contudo, o momento em que este assume a sua autoridade e manda matar o companheiro da mãe, depois de saber o que ambos fizeram com o pai.
      A ambiência histórica vai ser recuperada não só por toda esta trama palaciana mas também pela construção de uma ponte em Kingsbridge (numa substituição do que foi construir uma catedral no romance anterior). O enredo incide, agora, no percurso de quatro personagens (Caris, Gwenda e os irmãos Merthin e Ralph), numa articulação constante entre os jogos de força e de poder, mais as crenças e os costumes que caracterizam a mentalidade de uma época, a medieval, prestes a viver o flagelo da Peste Negra. 


      Entre o obscurantismo e as conspirações promovidos pelos que se agarram ao poder (nomeadamente o Priorado local) e a clarividência dos que lutam pela justiça e pela afirmação da prosperidade na vida individual e/ou social (Caris, Gwenda e Merthin), ficam os ingredientes que o director da série (Michael Caton-Jones) retira da obra de Follett para nova série televisiva protagonizada, entre outros, por Charlotte Riley (Caris), Tom Weston-Jones (Merthin), Rupert Evans (Prior Godwyn) e Oliver Jackson-Cohen (Ralph).

      Depois de Os Pilares da Terra, já mencionado neste espaço e também fruto de uma adaptação de Ridley Scott a partir da obra do mesmo autor, esta é mais uma oportunidade de acompanhar a ficção situada num período histórico de relevo: o da Guerra dos Cem Anos e o do aparecimento da Peste Negra.

O impossível acontecido

       Já ouvira que era o filme mais visto na vizinha Espanha, já assistira ao "trailer" e a vontade tornou o possível real.

      Lamentavelmente o filme tem muito mais de real do que ficcional - assim se regista no final da sessão, pela inspiração num caso verídico, vivido por uma família espanhola no dia 26 de dezembro de 2004 em terras do sudeste asiático.


     Tem ainda de real, bem mais do que sugestivo ou verosímil, uma realização fílmica protagonizada por Juan Antonio Bayona a tocar o registo documental, apostado numa exploração de planos diversos, de imagens entre o idílico e o dantesco, de sonoridades associadas a efeitos de submersão na violência trágica de águas que engolem a terra e arras(t)am, afogam, emborcam tudo o que esteja no caminho.
       No drama em que as personagens se veem envolvidas, a (sobre)vivência faz-se não só do que há de mais catastrófico mas também do que existe de mais emotivo e envolvente, particularmente no que é viver a solidão no meio de tantos que vivem o desamparo, a angústia, o desespero; na luta, na crença e na conquista da (re)união familiar, quando tudo parece acontecer para que só haja desencontro. Disso Lucas (representado pelo jovem actor Tom Holland) e Henry (na pele de Ewan McGregor) são exemplo vivo, contrariando receios e fazendo escolhas que, só por mera coincidência ou acidental fortuna, acabam recompensadas; Maria (protagonizada por Naomi Watts) é símbolo de uma força espiritual que, por limitação de ação, sobrevive ao que de mais fatídico se prefigura.


       Dor física e dor emocional comple(men)tam-se nas personagens que vivem a história e nas pessoas que assistem a um enredo que as absorve, que as projeta num cenário intensamente dramático, mais do que possível a qualquer um de nós, pela voz de verdade que faz ouvir. Há momentos em que o estômago se contrai, a mente se sugestiona e incomoda pelo que é dado a ver e sentir. E tudo é tão pouco face ao vivido, numa representação tão credível que chega a causar mal-estar - que o digam alguns espectadores, que os houve, forçados a abandonar momentaneamente a sala, por causa de momentos intensos, crus, genuinamente sofridos.

       Excelente filme, realização e sonoridade muito bem conseguidas, mas sem direito a nomeação para Óscar. Esta fica na categoria de Melhor Atriz, o que se compreende, mas a de Melhor Ator Secundário não teria ficado nada mal para o jovem Tom Holland (Lucas).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Mente sem acento

      Ainda li  textos em que os advérbios terminados em 'mente' apareciam escritos com um acento grave (cf. ponto 23 das Bases analíticas do Acordo Ortográfico de 1945)...

      Já lá vão os tempos em que se grafava 'invariàvelmente', com acento grave, na base derivante e anterior ao sufixo 'mente' que provém de formas adjetivais com acento agudo: (benéfica >) benèficamente, (contígua >) contìguamente, (diária >) diàriamente, (agradável >) agradàvelmente, (heróica >) heròicamente, (só >) sòmente. Deixou esta acentuação de existir com o Decreto-lei nº 32/73 (de 6 de fevereiro).
     Hoje deparei com um anúncio, num corredor, à entrada de uma sala de aula. Lá voltava o advérbio a ter acento gráfico (e desta vez, para mal de todos os pecados, agudo). Mais um exemplar para a coleção de erros ortográficos que tem sido depositada nesta "carruagem", nomeadamente casos de derivação que dão lugar à perda de acento entre a base derivante e a palavra derivada.
    Seja lá quem tiver sido o autor de tal registo, esqueceu-se de uma regra que muitos alunos frequentemente também desconhecem e que sistematicamente relembro: os advérbios terminados em 'mente' não têm acento gráfico, pois este sufixo tem como sílaba tónica [men], tornando grave ou paroxítona (incidência fónica na penúltima sílaba) qualquer palavra que o incorpore. E diz a regra que a língua portuguesa é fónica e predominantemente de acentuação grave, pelo que não se utiliza normalmente acento gráfico nas palavras com tal tendência.
   Assim, a título de exemplo, saiba-se que o termo derivante (adjetivo na forma feminina) pode ter acento; o mesmo não acontecerá com o derivado (advérbio):


      ..., mas há quem o queira tornar agudo. Nem um nem outro. Sem acento, tão-SÓ... ou melhor, tão-SOMENTE.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Atendimento fora de horas

       Isto é o que faz não ouvir o que o professor diz na aula.

       Ainda hoje falei na questão, mas, pronto,... há quem saiba que alguém prefere "andar de comboio" a pôr-se à escuta numa sala de aula.

       Q: Professor, existe a palavra "imprimido"?! Não é "impresso"?

       R: Caríssimo aluno, existe a palavra "imprimido" e nem sempre é "impresso".
      É um facto que 'imprimir' apresenta dois particípios passados, quando significa "gravar, estampar, reproduzir em papel / tecido". À semelhança dos verbos terminados em 'ar' (da primeira conjugação) com o mesmo tipo de comportamento, a forma forte (curta, irregular) é preferencial com os auxiliares 'ser / estar' enquanto a forma fraca (extensa, regular) é mais utilizada com 'ter' e 'haver'. Assim, é possível encontrar as seguintes realizações:

i) A página já está impressa.    
   A página é impressa.

ii) A impressora tem imprimido muitas páginas.       
  Ele já havia imprimido muitas páginas quando o tinteiro acabou.
  
      Todavia, quando se trata de "imprimir um movimento / uma força", o particípio adequado é apenas o da forma regular - 'imprimido'.

iii) Uma grande velocidade foi imprimida para que tudo ficasse concluído a tempo.
     Todos têm imprimido uma forte dinâmica no trabalho a fazer.  

   Esta é uma propriedade dos chamados verbos abundantes: possuem duas ou mais formas equivalentes (de que o duplo particípio é um exemplo).


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Tudo é possível... no reino da publicidade

     Se o que interessa é chamar à atenção, assim foi.

      Pelas piores razões, é certo; mas o certo é que vi.
     E fiquei a saber genericamente algo sobre umas vitaminas que até me poderiam dar alguma da energia que vou deixando de ter.


     Como diz a personagem, esta já achou que podia fazer tudo... e na escrita publicitária assim aconteceu, também. Por exemplo, escreveu-se com minúscula logo à abertura do texto e a seguir a um sinal de pontuação forte. 

      O contraexemplo surge e a publicidade funciona. Só espero que não haja vitaminas que tenham tal efeito em quem as tomar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Escuridão cinéfila

     Em mundo altamente tecnológico, quando tudo parece estar sob controlo...

     Fica aqui o episódio que mais parece insólito, ficção.
    No meio de filmes que, por melhor que sejam, apelam à sensibilidade e mostram o lado mais triste das histórias, tenho vindo a desejar uma comédia que me faça sorrir.
     A escolha recaiu em "Guia para um final feliz" (de David O. Russell), por recomendação inclusive de quem já o viu e o toma por imperdível. O mesmo se antevê neste registo:´


     Primeira tentativa: a publicidade e os trailers dos filmes a estrear saem entrecortados por uma tela escura, a denunciar problemas na casa das máquinas; começa o filme e, após dez minutos de película, regressa a escuridão sem fim à vista, só com o som das réplicas em contínuo. O pedido de desculpa surge na voz de alguém que, acompanhado de um telemóvel, comunica com quem procura reparar o que é inusitado. A compreensão reina, enquanto se aguarda pela retoma do controlo da situação; porém, a tentativa de resolver a falha técnica sai gorada e o anúncio da devolução do dinheiro resulta na saída airosa para o que não se acredita muito como estando a acontecer. Nem parece deste tempo!
   Segunda tentativa: a publicidade corre, os trailers dão a conhecer possibilidades de outros visionamentos (alguns a tomarem o sentido do compromisso) na grande tela; uma ou outra pausa com escuro provoca o riso, na lembrança do já vivido. Revê-se o início da comédia, reencontram-se as situações e personagens e... de novo... as falas sem as imagens. Regressa o homem do telemóvel e, mais uma vez, a história da falha técnica. Reclamações seguem o reparo de que há uma semana havia sucedido o mesmo, na mesma sala, com o mesmo filme. Há quem acrescente que, na quinta-feira anterior, também ocorrera o incidente, entretanto já encarado como indecente. Ainda há quem ensaie o registo cómico, dizendo que está provado que não temos direito a ter um "guia para um final feliz". Repete-se o episódio da devolução do dinheiro.
       Não foi filme nem sequer ficção. Foi cenário para uma assumida desilusão.

     ... subsistem sinais de que ainda há muito a fazer, para nos libertar das imperfeições das máquinas (ou do Homem que as pretende controlar). Está provado que vou ter de procurar um "guia para um final feliz" num outro sítio (ainda que só de um filme se trate).

domingo, 20 de janeiro de 2013

Entre um número e um nome há a crença

     Acreditar é força que anima o ser e o faz libertar da condição de miserável.

     Les Misérables (1862), de Victor Hugo, é obra romanesca de renome e reconhecido valor romântico; "Les Misérables" (2012),  de Tom Hopper, é filme-musical que faz jus à narrativa em cinco volumes, explorando a rede de coincidências e o cruzamento de personagens que marcam e contribuem para a construção do percurso da personagem Jean Valjean.
     Do prisioneiro 24601 ao "pai" de Cosette e salvador de Marius, há um caminho feito de conflitos, lutas, perseguições e rebeliões em que a oportunidade, a crença na dignidade humana e o reconhecimento de que se pode mudar um destino sublinham o sentido potenciador da liberdade (contrariando um "Look Down", inicialmente cantado, em jeito de injustiça e de grito entre o suplicante e o determinista). Saiba disto o Homem e tem aí uma razão, se outra não houver, para se agarrar à vida, mesmo quando esta se mostra adversa à própria condição humana.
    Um passado persecutório (Jean Valjean), um destino imutável (Fantine) e a aspiração por um novo dia (Cosette e Marius) são as linhas, as forças de um tempo que une toda uma intriga feita, cinematograficamente, de vozes e músicas que o espectador reconhece, com as quais se emociona e também se espanta, vendo a cantar quem não faz da música carreira - é o caso de atores e atrizes como Hugh Jackman (Jean Valjean), Russel Crowe (oficial Javert), Eddie Redmayne (Marius), Anne Hathaway (Fantine), Amanda Seyfried (Cosette), Samantha Barks (Éponine) e Helena Bonham Carter (Madame Thénardier).


     O sentido maior prende-se, contudo, e sempre (porque repetível), com a história do Homem e como este pode fazer melhor na (sua) vida, tomando-a como momento em que seja possível contornar o que de mais infernal, vingativo e interesseiro há no mundo; como oportunidade para mudar no sentido da felicidade, libertando o ser humano do que mais desagradável, sofrido e injusto tem; como passagem na qual se recebe o que se semeou; como instante que também redime, liberta e encara o possível como mais perfeito do que o vivido.
      Ouça-se "Do you hear the people sing?"... e a mudança pode acontecer - quase como um "felizmente há luar!".
     
      Disto se compõem os heróis e os vilões (também Javert cede à força que Valjean representa - ainda que dominado por um orgulho e uma vergonha fatais -, inclusivamente os que têm de mais cómico e de sobrevivente - de que o casal Thénardier é exemplo) - razão para um épico, candidato a óscar(es). Contudo, há outros miseráveis cuja epopeia da vida é bem mais dolorosa e sem direito a simples tapete vermelho.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Depois da noite de temporal

     Quando amainou a tempestade, a meio da tarde...


      Chegou o tempo de sair, depois de tanto tempo fechado em casa. O inverno tem sido rigoroso e uns tímidos raios de sol podem ser razão forte para a saída desejada.



     DEPOIS DO TEMPORAL

     Espetado por minúscula areia,
     carregada num vento frio e fino,
     caminhava a passo resiliente,
     resguardando-me da invasão.

     Por momentos cedia ao ataque,
     ensinando o caminho ao diabo.
   
     Via, então, a praia varrida,
     como se uma mão tivesse alisado
     os sulcos do areal, agora plano.

     Na rua, o chão ainda húmido
     fazia sentir por baixo, nos pés,
     pequenas serranias - coladas
     a um piso onde havia pegadas
     que a praia perdeu. Apagadas.

     No pavimento dos transeuntes estão
     os sinais de um temporal que o mar
     mantém vivo na altiva ondulação,
     sobre as possantes pedras, a rebentar;
     a cobrir os molhes sem defensão.
 
     Regresso a terra, a casa.

     Há um sinal de trânsito que se rendeu:
     caiu desamparado. Está deitado
     com o rosto no empedrado. Emudeceu.

     O vento não tem sentidos proibidos.

     Estes são também os sinais do tempo.

     E não se pode dizer que não sejam deste tempo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Chuva com música

      Podia ser Vivaldi mais 'As Quatro Estações' (bem adequada ao clima vivido), mas a música foi outra.

    Em plena tarde chuvosa de inverno, os alunos de oitavo ano deslocaram-se até à Casa da Música, na Boavista (Porto). A visita de estudo foi organizada no âmbito da disciplina de Ciências Físico-Químicas e contou com o acompanhamento de vários outros professores de diferentes disciplinas. 
      Cinco turmas puderam assistir a um concerto ("Via Verdi"), no qual se procurava, através de uma encenação simples, aproximar os jovens não só de alguns conceitos (ária, dueto, libreto, allegro, adágio) mas também de algumas referências musicais. Basicamente, o escultor e pianista João Fígaro propõe-se concluir um busto inacabado de Giuseppe Verdi, mais a estátua de um pensador. O trio apresenta, assim, peças cantadas e inscritas nas óperas do compositor oitocentista,  explorando algumas situações de cómico.
    Cumprida esta etapa, prosseguiu-se com uma visita guiada à "Casa" projetada pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas para o evento Porto - Capital Europeia da Cultura, em 2001 (ainda que a construção só ficasse concluída quatro anos depois). A forma e a estrutura singular do edifício são apelativas e desafiadoras; os mate-riais e os pormenores de construção, marcantes; as visões da cidade, fantásticas.
     A sala Suggia, dedicada à violoncelista portuense Guilhermina Suggia (mais conhecida internacionalmente do que no país ou na sua própria cidade), é o cartão de visita-mor do edifício: uma sala de concerto toda revestida a pinho e com pormenores de folha dourada; com duas grandes janelas de vidro ondulado, a norte e a sul; com um órgão de tubos a replicar a arte barroca e um segundo de traçado romântico. Impressionante é a preocupação acústica do espaço, nomeadamente nos pormenores do tecido das cadeiras, no suporte de braços em silicone, na ondulação do vidro que se compagina com a propagação sonora em múltiplos sentidos.
      Todos os participantes deram a tarde por recompensadora, tanto pela qualidade da visita guiada como pelo que foi dado a observar, a experimentar, a concluir.

     Na condição climatérica que tudo tinha para não dar certo, a tarde foi musical, harmoniosa com o toque agradável de uma despedida também feita dos parabéns recebidos pelo comportamento dos alunos. Palmas para eles, que deixaram os professores orgulhosos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Carta da Corcunda para o Serralheiro

    Pessoa por conhecer (Editora Estampa, 1990) é o título para, em dois volumes, Teresa Rita Lopes divulgar a obra desse poeta grande do século XX; "Carta da Corcunda para o Serralheiro" é um dos muitos textos desse escritor que se recriou e viveu o drama na(s) pessoa(s) que nos deu (deram) a ver um mundo tão pleno.

    Cruzei-me recentemente com este texto - na representação "Sombras", de Ricardo Pais -, magistral e impressionantemente declamado por Emília Silvestre:


   Ainda que na voz e na recriação feminina propostas por um ortónimo que geriu várias sensibilidades heteronímicas, parece ser este o retrato monologado de uma alguém que, à janela, se sente ninguém, numa despersonalização dolorosa típica de quem se encontra à espera de mundo.
       Assim se lê no texto (não datado pelo autor), conforme a grafia da edição:

     Senhor António:

    O senhor nunca ha de ver esta carta. Nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
    O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto á janella quando o senhor passa para a officina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarella, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquella rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja d’ella mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir á rua e fallar comsigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecel-o de fallar.
   O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguem que gostasse de mim como se gosta das pessoas que teem o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e tambem tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguem.
    Eu gostava de morrer depois de lhe fallar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe fallar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
     Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quiz mal a ninguem. Alem d’isso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove annos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta edade, e doente, e sem ninguem que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me doe, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
    Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.
     Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vae ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era comsigo e nao ligava importancia em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só á janella, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguem que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a familia, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos ás avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
     Houve um dia que o senhor vinha para a officina e um gato se pegou á pancada com um cão aqui defronte da janella, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janella, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós commigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
    Tantas vezes, o senhor não imagina, andei á espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
    Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar á altura da janella... passo todo o dia a ver illustrações e revistas de modas que emprestam á minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquella saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu ás vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
     Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguem julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distrahida.
     Ainda me lembro d’aquelle dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o proprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ella mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi porisso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
    Não é por ser corcunda que estou aqui sempre á janella, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de rheumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralytica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me acceitar que o senhor não imagina. Eu ás vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janella abaixo, mas eu que figura teria a cahir da janella? Até quem me visse cahir ria e a janella é tam baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas á vela e a corcunda a sahir pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.
(…)
     - e emfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?
     O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguem. Eu estou á janella todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gosar e fallar a esta e áquella, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui á janella por tirar de lá.
    O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saude o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornaes o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e teem baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos medicos, e outros partem para as suas casas aqui e alli, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e ha artigos assignados por outros e retratos e annuncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isso o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janella de limpar o signal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da agua.
     Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus na rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vae se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
     A Margarida costureira diz que lhe fallou uma vez, que lhe fallou torto porque o senhor se metteu com ella na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque metter-se alguem comnosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguem acha que eu sou nada a não ser uma especie de gente que está para aqui a encher o vão da janella e a aborrecer tudo que me vê, valha me Deus.
    O Antonio (é o mesmo nome que o seu, mas que differença!) o Antonio da officina de automoveis disse uma vez a meu pae que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não ha direito a viver, que quem não trabalha não come e não ha direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar á janella com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralytica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir á vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
    Adeus senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
    Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
    Ahi tem e estou a chorar.
   Maria José

    Lido este “ninguém”, nele se encontra o que também Pessoa era, refletido na "batalha perdida no mapa" da vida do Barão de Teive; no desassossego de um Bernardo Soares, assumido como “ninguém”; na condição de "coitadinho" de um Frederick Wyatt; na "vida nulla" de um Vicente Guedes. Tanta heteronímia para um só ortónimo.

   Com todos eles, um sentido pleno de vida cresce no leitor que vê para lá da fragmentação, da negação e da deformidade física. Na linha de Pessoa, se "O mito é o nada que é tudo", o ninguém não deixa de se fazer ver em todo o mundo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Fica a melodia

     É de mel o dia, quando voz(es), texto e música trazem alegria.

     Revisto o espetáculo que Ivan Lins protagonizou em Guimarães, aquando da Capital Europeia da Cultura 2012, um dueto com Raquel Tavares impõe-se: "Vieste".


          VIESTE

Vieste na hora exata
Com ares de festa e luas de prata
Vieste com encantos, vieste
Com beijos silvestres colhidos prá mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas plantadas em mim

Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, prá dentro de mim
Meu amor

Vieste a hora e a tempo
Soltando meus barcos e velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro, velando por mim

Vieste de olhos fechados num dia marcado
Sagrado prá mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, prá dentro de mim


   Boa voz, belo texto, linda composição em momento grandioso do evento, dirigido pelo maestro Rui Massena e orquestrado pela Fundação Orquestra Estúdio. Estava-se em novembro, pelos 24 dias.

     Fica o registo do que terá sido, por certo, um grande momento da música em português, só pelo que a televisão ainda vai deixando rever. Fica ainda a melodia, pelo que constata e pelo que deixa sempre sugerir.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Em que pé está o Acordo?

       As resistências são algumas, os dissensos são bastantes e...

    Serve a expressão "em que pé estão as coisas?" para questionar, ou melhor, para saber o ponto de uma determinada situação, numa espécie de balanço. 
    No que ao Acordo Ortográfico (AO) diz respeito, a condição não é pacífica. Agora que se aguarda pela posição da Presidente do Brasil face ao documento, muito se discute, além do que já se debatia. E se houver algum volte-face, nada há para espantar, até por não ser novo na história dos acordos.
     Haverá quem diga que nada disto tem nem pés nem cabeça; que interessaria pôr os pés ao caminho, para que tudo ficasse mais claro. O certo é que, por ora, o AO está aí (desde 2011/2012 no sistema educativo português) e em período de moratória até 2016.
      Uma colega dizia, há dias, que isto ainda vai dar um pé de vento...
      E a pergunta surgiu: com ou sem hífen?
      Segundo o AO, este é mais um caso de composição que perde o hífen, à semelhança de muitos outros formados por Nome+Preposição+Nome.  Entram aqui os casos de 

pé de alferes 
pé de altar 
pé de amigo 
pé de atleta 
pé de banco 
pé de boi 
pé de cabra 
pé de cana 
pé de candeeiro 
pé de cantiga 
pé de cavalo 
pé de chumbo 
pé de dança 
pé de vento

       Exceção para 'pé-de-meia' - tal como em 'cor-de-rosa' (em contraste com 'cor de vinho' e 'cor de laranja') -, que mantém hífen por razões consagradas ao uso (por mais discutível ou variável que esta justificação possa ser).
      É o que dá haver expressões que acabam por já estar tão fixas que resultam em conceitos distintos dos termos que as compõem.

      ... e o tempo dirá em que pé tudo isto vai ficar.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Confusão de complementos

      O momento é o de ler o prospeto dos filmes, para escolher aquele a que vou assistir.

      Os olhos percorrem as sinopses, só para o caso de haver alguma que até revele a possibilidade de um filme interessante.
      Eis senão quando...


     ... a chuva deu em temporal!
     Quem constrói estes textos deixa algo a desejar; e no que toca a complementos, muito a desejar!
   Contando a história que há um desafio a esperar os dois protagonistas, nunca o "lhes" deveria aparecer: este é o pronome típico do complemento indireto, quando a realização frásica dá conta do verbo esperar - que seleciona um complemento direto (Alguém ESPERAR Algo ).

i) Um desafio espera um descrente produtor de cinema e um idealista realizador.
                                                     complemento direto (composto)

i') Um desafio espera-OS.

      Quase diria que qualquer aluno meu faria o que era esperado. Contudo, é melhor não pôr as mãos no fogo, pois, não vá o diabo tecê-las, e elas fiquem queimadinhas! E, assim, fiquei com uma razão para não ter escolhido esta película.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O sentimento de si...

     Podia falar do livro de António Damásio, um dos que focam o erro de Descartes e de como o clássico "Penso, logo existo" está mais para "Sinto, logo existo".

     O tema deste apontamento, contudo, é outro e vem na sequência do visionamento de "Anna Karenina", filme realizado por Joe Wright para uma obra mundialmente reconhecida.
   Quem lê o prospeto do cinema fica a saber que se trata da história de amor adaptada (por Tom Stoppard) da obra homónima de Léo Tolstói, com a intriga a desenrolar-se na Rússia dos finais do século XIX. Aí se explora a capacidade para amar, associada ao coração humano, à paixão vivida no seio de relações adúlteras, à ligação entre uma mãe e o filho sustentados por interesses e aspirações aristocratas. Todavia, o balanço do filme aponta para algo bem mais abrangente do que o romance de um dos grandes mestres da literatura russa oitocentista, no qual se denunciam triângulos amorosos, a hipocrisia de uma época e se assume a perspetiva de um dos retratos femininos mais profundos e sugestivos da escrita romanesca universal.


     Trata-se de uma película marcada por um forte pendor estético, interartístico (cruzando literatura, música, dança, pintura, teatro), por um registo densamente fragmentário na sequência fílmica, explorando analogias entre a ficção feita real e a ficção vivida num palco e nos bastidores de um teatro. Entre uma e outra, fazem-se tantas passagens quantas as portas que se abrem para se abordar o pensamento e o sentimento, a razão e a emoção, a discussão entre as convenções sociais e as liberdades individuais, os sentidos do dever, do sentir e do querer.
       A relação de Anna Karenina com o conde Vronski é apenas um ingrediente numa relação que ameaça expectativas (as de Kitty, que recusa o amor de Konstantin Levin), estabilidade e racionalidade (pretendidas por Karenin, marido de Anna), fronteiras na arte (a tela de cinema e a de um quadro como 'No alto da Montanha', de Caspar David Friedrich, ou 'Mulher com uma Sombrinha', de Monet), leituras lineares (tanto na relação livro-filme como nos percursos e buscas de felicidade na ficção-vida), visões redutoras.
        No fim, resta a fuga final de Anna (que, invadida pela incompreensão em que se vê, se entrega a uma saída que, afinal, também fora um sinal de aproximação e de entrega ao sentimento que quis viver até quando o pôde), a descoberta de Konstantin (na procura de felicidade, reencontra a possibilidade de sentir, longe do universo citadino), a entrega do político Karenin (a alguma cor emotiva, longe do limiar do teatro social, no campo e na companhia dos filhos de Anna), numa reconstrução de quadros em que o palco é invadido pela vida.

        Em Anna Karenina, livro, o início sublinha que "Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são-no cada uma à sua maneira". Pela singularidade que estas apresentem, revê-se uma "Anna Karenina", filme, com traços estéticos de romantismo artístico, de afirmação de individualidades (pois há tantos amores quantos os corações), na consciencialização de que os contrastes comple(men)tam a vida. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

A gente passa, o tempo fica... na vida

     Esta foi uma das frases sublinhadas num espectáculo com muitos ensinamentos.

     Hoje o Teatro Nacional de São João esgotou, para a última representação de "Sombras (a nossa tristeza é uma imensa alegria)" - musical teatral de que já ouvira falar (e muito bem) aquando da sua primeira temporada no Porto, em novembro de 2010. Deslocado para Lisboa, regressou à Invicta (ou Inbicta, para respeitar o registo nortenho) em 2013, para três noites que - a julgar pela última - foram surpreendentes.
     Criação de Ricardo Pais com direção musical de Mário Laginha, um conjunto de artes performativas, de sons e de imagens oferece palavras e textos de três séculos da nossa cultura: o quinhentista (com a Castro, de António Ferreira), o oitocentista (com Frei Luís de Sousa, de Garrett) e o contemporâneo (com Figurantes, de Jacinto Lucas Pires). No entremeio, ouvem-se a "Carta da Corcunda para o Serralheiro" (de Pessoa), "Ai, Margarida" (de Álvaro de Campos), "Nós, Portugueses, somos castos", "Pântano" e "Nocturno" (de Pedro Homem de Mello) entre outros textos e poetas cantados por José Manuel Barreto e Raquel Tavares. É o género musical do fado que atravessa toda a representação, como se Portugal também quase e só vivesse o fado dos mitos trágicos ou dos temas portadores da (com)paixão sofrida, impositiva, partilhada.


    A nota dissonante é trazida por um par de personagens que, numa alternativa à mitologia e ao imaginário carregados da tradição, desconstrói o fatídico e trágico em festivo e cómico. Do sofrimento à vitalidade, estes compères (apresentadores de rádio, televisão e espetáculo) revelam-se uns 'figurantes' a protagonizar a desconstrução capaz de mudar o grito de vergonha de uma Madalena de Vilhena (na sequência de um Romeiro que se associa a D. João de Portugal) na  entusiasmada ânsia de um "É ele!", mitigando o drama; a intensa e pesarosa paixão na animada e carnavalesca fantochada, só permitida pelo distanciamento; a solenidade e teatralidade da cultura séria na banalidade de um "Oh", acompanhado de um braço erguido e atirado por cima da cabeça, para trás das costas. Tudo na sequência da oferta de um ramo de gerúndios brancos a uma mulher.
    Desta forma, a realidade assume-se infinitamente maior do que o sonho, pelo que dela e na vida se queira fazer, existindo. Podem o "barco ao sabor das ondas perdidas", as "Árvores de oiro (que) andam, de rastos, partidas todas ao meio" aspirar a alguma luz - até porque as sombras, para o serem, têm de se alimentar de alguma (por pouca que seja) luminosidade.

      Ó luar da meia noite, 
     alumia cá p'ra baixo, 
     que eu perdi o meu amor 
     e às escuras não o acho.

     Revisitado o passado, afirma-se a possibilidade de um futuro que, não apagando o primeiro, abre sempre a hipótese de conciliar a tradição com os sinais de modernidade.

     Ficam as palavras, os textos, um palco pleno de significado para a vida que Ricardo Pais quis dedicar ao Paulo Eduardo Carvalho, meu companheiro (e também da Emília Silvestre), no curso de Português-Inglês  na  FLUP, lá por meados da década de oitenta. Passou tão cedo, o Paulo... não ficou neste tempo que por cá anda.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Supervisão: é super ou é visão?

    Começa hoje, na Escola Secundária de Gondomar, uma oficina de formação, na qual vou participar como formando.

     A iniciativa, dinamizada pela subdiretora da escola, conta com um conjunto de vinte formandos de várias formações académicas e/ou disciplinares, alocados no Agrupamento de Escolas de Gondomar - nº1, desde o ensino pré-escolar ao secundário.
   A pertinência do tema é abrangente. Há quem o radique (e mal) às práticas de avaliação do desempenho docente que se prefiguram para os próximos tempos. Não tem de necessariamente o ser e pelo que posso ler na proposta e no título da formação - Supervisão pedagógica: uma estratégia de desenvolvimento pessoal e organizacional - não o será por certo. Isto de ver a supervisão como um mecanismo muito próximo do espírito inspetivo, classificativo, externamente equacionado face ao percurso profissional é, no mínimo, redutor.
    Tem quase um ano um relatório da OCDE (OECD Reviews of Evaluation and Assessment in Education: Portugal 2012, da autoria de Paulo Santiago, Graham Donaldson, Anne Looney e Deborah Nusche), no qual se explicita a inexistência de práticas sistemáticas de avaliação das aprendizagens nas escolas portuguesas, considerando o foco reduzido na avaliação de práticas docentes e no desenvolvimento de processos de interação levados a cabo para a aprendizagem dos alunos. A natureza formativa da avaliação aparece encarada como estando largamente deslocada da ação educativa em detrimento da modalidade sumativa e de propósitos classificativos. 
    A observação direta do ensino e das aprendizagens em sala de aula, à exceção de algumas dinâmicas em contextos de profissionalização (estágios) e que cada vez mais se têm reduzido em termos de estruturação prática, não tem sido aposta prioritária por parte do Ministério da Educação, tanto ao nível da formação inicial como no caso da contínua. Neste último caso, as ocorrências são mais do que episódicas e não tenho conhecimento de que tenha havido alguma vantagem (além da pessoal) em se ter passado por ela.
     Terá esta oficina o propósito formativo de: 
. refletir sobre a importância dos processos supervisivos ao serviço da melhoria do desempenho profissional docente;
. compreender a relevância da supervisão pedagógica para o desenvolvimento da escola; 
. construir e implementar diferentes dispositivos de supervisão, tendo em conta a diversidade de contextos profissionais e de estruturas de gestão curricular; 
. conceber diferentes instrumentos de observação, tendo em conta o fim a que se destinam.
  Nesta abrangência (a do desenvolvimento profissional e organizacional), antevejo uma oportunidade de encarar a supervisão não tanto numa perspetiva hierárquica (super), de reprodução de processos externa e aprioristicamente definidos e controlados, mas antes na ótica da compreensão e transformação de práticas pela auto e heterorregulação, no quadro de uma negociação colaborativa e cooperativa, como se deseja numa formação interpares.

      Caso para dizer, supervisão com menos 'super' e mais 'visão'. Assim o espero.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Voltando ao quase ou à metade

      A estranheza lança a dúvida, mas o acordo é claro...

      Já houve oportunidade de falar, neste espaço, do comportamento do pseudoprefixo 'semi'.
      Os casos, contudo, surgem a cada palavra que se revele estranha aos olhos da escrita. Como diria o publicitário Fernando Pessoa (a propósito da Coca-Cola), primeiro estranha-se e depois entranha-se.
      Quanto ao Acordo Ortográfico, hoje estranham-se algumas grafias; talvez um dia entranhem. Todavia, por ora, nada como perguntar ou procurar alguma sustentação. No caso da terminologia específica das áreas disciplinares, então o cuidado impõe-se. No âmbito da geometria, há um termo para designar o conceito da região do espaço determinada por um plano. E a grafia é... SEMIESPAÇO.
      Por estranho que pareça, a ortografia é esta mesma: o pseudoprefixo terminado em vogal junta-se SEM HÍFEN ao segundo termo que começa com vogal diferente. O mesmo, aliás, sucede com
semieixo
semiembriagado
semierudito
semiescuro
semiesfera
semiespaço
semiespecializado

     ... porque I e E são vogais (na grafia) diferentes; fossem iguais, a situação seria outra.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Os valores das frases

    Iniciado o período letivo, é tempo de reconstruir as redes de trabalho, das mais reais às virtuais.

    Para além da forma como se constroem, as orações apresentam valores lógico-semânticos, que interessa explorar. Vai neste sentido a consulta seguinte:

    Q: Vítor,
     Na frase "Estamos perante as primeiras gerações de crianças e jovens que crescem, utilizando quotidianamente a internet", o segmento sublinhado corresponde a uma oração não finita gerundiva, mas qual é o seu valor? Já fiz várias tentativas: temporal, condicional, relativa,... mas não encontro uma resposta com segurança. Será que não te importas de me ajudar?

    R: Os valores semânticos relacionados com as construções gerundivas podem ser explorados pela manipulação das orações. Explicitando-se os articuladores ou conectores que possam estar em vez da oração gerundiva, consegue-se a aproximação ao valor semântico e pragmático associado à realização frásica, devidamente contextualizada. Sem este último aspeto bem estabilizado, a questão tem de se equacionar em termos de possibilidade significativa. Assim, e sem mais elementos de concreto, sistematizo algumas dessas possibilidades, que podem ser sempre exploradas no sentido de se ativar mecanismos de coesão interfrásica, como sejam os relacionados com a explicitação de conectores, bem como a exploração dos fatores de coerência (interpretativa) implicados.
        Isso mesmo pode ser observado na sistematização dada:


     Concorrentemente, exercícios gramaticais apostados no trabalho de manipulação destas estruturas podem ser encontrados em diversos materiais, à semelhança do que se expõe de seguida:
in Ana Maria Cardoso et al., Com Textos 11, Porto, Edições Asa, p. 240

     Seja na base destes exercícios de transformação seja na reconstrução / reescrita de orações com conectores (de forma a subentendê-los apenas), está aqui um trabalho relevante para a apropriação de modelos de (re)construção escrita, textual.

Noite de Reis à Lapa

    A noite foi passada na Igreja da Lapa, construção com traçado entre o período rococó e o neoclássico.
Altar da Igreja da Lapa, 
   Já por várias vezes me tinha dirigido ao local, mas a porta fechada não me havia deixado ver um local religioso de renome na cidade do Porto, afamado por ser aquele onde se encontra o coração de D. Pedro IV (ofertado à cidade pela imperatriz D. Amélia, do Brasil).
   O convite de uma amiga e boas companhias fizeram que a noite não fosse passada em solidão ou, como o povo o refere, a "pensar na morte da bezerra". O dia deve-se mais a camelos (por terem sido estes a transportar os reis magos, segundo o Novo Testamento), ao nascimento (e não à morte), a menos pensamento e a mais ação (a julgar pela suposta viagem feita por Gaspar, Belchior e Baltasar, para visitarem Jesus) - a expressão popular parece ser proveniente das tradições hebraicas, numa alusão ao facto de o filho do rei Absalão revelar afeição a uma bezerra que, uma vez sacrificada a Deus, deu lugar à lamentação e ao contínuo pensamento do jovem na morte da mesma.
   Esquecida a morte e afastado o sacrifício, a noite foi festiva, musical, com um concerto de órgão e de trompas digno das figuras majestáticas nesta noite celebradas. 
   Com árias contempladas desde o período musical do barroco até ao contemporâneo, o organista-concertista Filipe Veríssimo (Mestre Capela da Igreja da Lapa) tocou com o quarteto Trompas Lusas (José Bernardo Silva, Bruno Rafael, Nuno Costa e Hugo Sousa), recuperando temas de Gioacchino Rossini (1792-1868), Louis-Claude Daquin (1694-1772), Johann Pachelbel (1653-1706), Graham Whettam (1927-2007), Franz Lehrndorfer (1928), Giovanni Gabrieli (1555-1612), Anton Bruckner (1824-1896), Johann Sebastian Bach (1685-1750), Marcel Dupré (1886-1971), Franz Zaunschirm (1953) e Wolfgang Schumann (1927).
     No fim do concerto, o momento alto: o público acompanhou os músicos com um cântico - uma forma de 'consoar' (seja no sentido etimológico de 'soar' conjuntamente seja no de reconfortar, consolar), para quem mais do que o corpo precisa de motivação de espírito.

O maior órgão de tubos da Península Ibérica,
na Igreja da Lapa




Adeste Fideles
Laeti triumphantes
Venite, venite in Bethlehem
Natum videte
Regem angelorum
Venite adoremus
Venite adoremus
Venite adoremus Dominum





       E houve direito a"encore", e repetido.

    O regresso a casa fez-se rápido, sem estrelas, com boas lembranças das músicas que aqueceram e iluminaram esta noite.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Para lembrar

     RTP 2 lembra o espetáculo de Ivan Lins, no Multiusos de Guimarães, no passado dia 24 de novembro.

    Um concerto de Lusofonia - com Português do Brasil, de Portugal, de África - foi o que o compositor brasileiro acabou por apresentar, cantando ao lado de nomes como os de Paulo Flores, Raquel Tavares e Paulo de Carvalho.
      "Lembra de mim" foi uma das canções interpretadas com Raquel Tavares, artista de mão cheia, bem para lá da fadista que é:


       LEMBRA DE MIM

Lembra de mim!
Dos beijos que escrevi
Nos muros a giz
Os mais bonitos
Continuam por lá
Documentando
Que alguém foi feliz...

Lembra de mim!
Nós dois nas ruas
Provocando os casais
Amando mais
Do que o amor é capaz
Perto daqui
Há tempos atrás...

Lembra de mim!
A gente sempre
Se casava ao luar
Depois jogava
Os nossos corpos no mar
Tão naufragados
E exaustos de amar...

Lembra de mim!
Se existe um pouco
De prazer em sofrer
Querer te ver
Talvez eu fosse capaz
Perto daqui
Ou tarde demais...

Lembra de mim!...


     Os merecidos aplausos sublinham um momento bem sucedido, porque bem interpretado, emotivo... mágico no evento.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Recomeçaram as aulas

      Aqui e em tantas outras partes do mundo.

     Vivo o reencontro com os meus alunos na segurança e na normalidade que outros jovens, outras crianças no mundo desconhecem. É o caso das que frequentavam a Sandy Hook Elementary School, hoje, segundo algumas notícias, desviadas para um outro estabelecimento de ensino, para que a memória do sucedido seja mitigada.
     Das vítimas, algumas das quais nem tempo tiveram para ser heroínas (pelo sacrifício sofrido), já pouco se faz notícia, no apaziguamento que se impõe (por mais doloroso, retardado ou intermitente que seja). Na América, a questão prioritária centra-se, agora, na discussão política acerca do acesso generalizado ao porte de armas. Simultaneamente, é dado a conhecer como alguns professores passaram a adquiri-las, dominados pelo receio de que semelhante circunstância trágica possa ser repetida. E, por incrível que pareça, há mesmo a procura de ações de formação orientadas para o cenário da utilização de armas.
     A realidade é mesmo distinta e as necessidades são, felizmente, outras neste canto à beira-mar plantado, por mais que haja outras violências, outros problemas, outras "crises". 
     Podem acontecer episódios indesejados, pode haver contingências e contextos vários a ameaçar a promissora ação educativa nas escolas nacionais, mas dominantemente as "guerras" são de outra natureza. Desmotivações, frustrações, desvios, disrupções minam a estabilidade desejada para que ensino e aprendizagem se conjuguem. Há renegociações constantes para que surjam momentos de sorriso; outras vezes, há apenas silêncios (a dizer tudo), olhares entre o desafiante e o condescendente, palmas que se batem não para mostrar agrado, mas a necessidade de se regular o que nem sempre a voz consegue. 
      Nisto me vou revendo, numa contínua necessidade de mostrar que há regras a cumprir, palavras e gestos a evitar, pensamentos (em voz alta) a calar e que, com isso, se está também a formar alguém para uma vida nem sempre justa ou merecida.
      Penso o que não será tudo o que esteja para além disto que ainda considero normal.
      Relembro o poema de Miguel Torga:

Poema de Torga sobreposto no quadro "Sísifo", de Franz von Stuck (1920) 

     Pena haver quem dê sinais de sistematicamente (qual Sísifo provocador) querer destruir as ilusões do pomar, de impedir o logro da aventura e de fazer com que venham à tona algumas atitudes de loucura incompreensível e sem qualquer tipo de reconhecimento!

      Avancemos. Recomecemos no "caminho duro / Do futuro", para que ninguém se fique pela metade num mundo de tantos "Bichos".