domingo, 28 de abril de 2013

Vontade de transgressão

   É costume dizer-se que o fruto proibido é o mais apetecido; daí que com interdição (tal mal formulada) haja a vontade de transgressão.

     Em zona piscatória e de proteção marinha, encontra-se o seguinte aviso "plantado" no areal.


     É este um ótimo exemplar de má construção de texto.
   Talvez na prática a mensagem passe e cumpra o seu propósito. Todavia, a natureza institucional e a responsabilidade pública do organismo saem, no mínimo, comprometidas.
     Entre as fragilidades do registo, contam-se as seguintes:
     a) falta de coerência no registo enumerativo das interdições (com estruturas ora infinitivas ora nominais, para não dizer mesmo com construções frásicas finitas - de tudo um pouco, para a falta de uniformidade);
    b) ausência de acentuação no nome que abre a segunda interdição (isto de confundir o nome 'prática' com a forma verbal 'pratica'parece erro de escrevente do ensino básico); 
    c) fragilidade na coesão interfrásica da terceira interdição (a coordenação disjuntiva é estabelecida entre o grupo preposicional 'de bicicleta' e o grupo nominal 'outro veículo', quando deveria ser respeitada uma estrutura semelhante neste último termo, ainda que com preposição distinta: 'com outro veículo');
     d) não utilização de regras de pontuação, nomeadamente a utilização de vírgula em expressões adverbiais antecipadas (como a que introduz a terceira interdição), para não falar na possibilidade de haver outra antes de "excepto"); 
    e) desrespeito da concordância a manter entre o particípio passado na construção passiva e o sujeito sintático posposto na sequência frásica.
     Mais não digo, porque a ferrugem da placa revela a passagem de um tempo que não é compaginável com a aplicação de novos acordos ortográficos.

     E pensar que eu já passei ali de bicicleta. Bem me parecia que alguma coisa fundava essa minha vontade de transgressão.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Hoje, quinta, como há trinta e nove anos...

    É feriado!
Cartaz premiado e divulgado no concelho de Gondomar
(Ana Carolina Ferreira Cardoso, 9ºD, da Escola EB2,3 Marques Leitão - Valbom)

   Em tempos que fazem reviver os cânticos de resistência e de libertação; em tempos que precisam de restaurar um sentido mais coletivo e (com)partilhado de liberdade; em tempos que retornam aos instantes críticos que ameaçaram a paz, a segurança, o bem-estar e a confiança almejados, há quem fale na necessidade de regressar à revolução (não apenas à do espírito, mas à da ação).
    É a vontade de rever a saída do escuro, o sentido de tornar a encarar a esperança, a tentação de caminhar no sentido da luz que orientam os espíritos de toda a humanidade saturada de uma crise que só serve alguns, nomeadamente aqueles que se dizem ao serviço do povo.
     Para que não haja apenas retórica, para que as palavras combinem com os atos, tem que ser maior o testemunho, o desprendimento; não fazer da política um mero jogo estratégico, brincadeira de palavras sem interesse algum, capaz de apenas envaidecer o ego de quem as usa; não citar os poetas e escritores, nos pensamentos descontextualizados e colocados a jeito para legitimar interesses individualistas que só eles  souberam refletir na Humanidade; não viver à custa de uma imagem de poder que facilmente cai (facto que tantos esquecem, tentando preservá-lo a todo o custo, mais a título pessoal do que no interesse de todos aqueles que os possam ter, inicialmente e por alguma razão, reconhecido).
    Hoje são precisas palavras (outras); necessários discursos (outros); desejados políticos (bem diferentes dos que atualmente nos desiludem e desencantam); ambicionados sentidos de esperança (que alguém comprometeu para as gerações mais próximas).
     Por isto, é urgente restaurar abril, para que este traga a cor e os cravos de velhos tempos e não se fique pelo cinzentismo de outrora.
Cartaz elaborado por um aluno 
da Escola Secundária com EB3 de Gondomar,
no âmbito do protocolo da Câmara Municipal de Gondomar 
com as escolas do mesmo concelho
para a produção de cartazes alusivos à celebração do 25 de abril
     
    E na falta de melhor, toca a aproveitar o sol e o bom tempo - que o desgoverno deste país ainda não controla - chegados a todos os que os queiram aproveitar.

domingo, 21 de abril de 2013

Com versão (em piano)

     Grandes músicas de um não menor grupo literalmente nas mãos de um pianista.

     Vinte minutos seguidinhos (um meddley) para onze covers dos Coldplay - um bom fundo musical para momentos em que é preciso música para animar ou despistar o que possa não ser tão alegre.
    Hoje apetecia-me ouvir os meus favoritos e eis que dou de "ouvidos" (e não de caras) com "Life in Technicolor", "Speed of Sound", "Trouble", "Yellow", "Violet Hill", "Viva La Vida", "The Scientist", "Paradise", "The Hardest Part", "Clocks", "Fix You" e "Amazing" em versão piano.


      Convenhamos que nada se compara ao original, mas este toque de Costantino Carrara, um jovem italiano, faz lembrar o registo de composição clássica. Fica fantástico! (Prova de que o grupo é mesmo bom no que propõe).
   
     Também nada cold, para muito play... Do melhor!

sábado, 20 de abril de 2013

Comparativas... a quanto obrigas!

      Diz-se que, nos termos da comparação, há sempre quem saia a perder. Nem sempre.

    Pelo menos, enquanto houver oportunidade de perguntar e partilhar, a comparação poderá ser sempre um campo em construção.

      Q: Caro colega,
         Será que me pode esclarecer sobre a função sintática da oração subordinada comparativa? Disseram-me que esta oração não tem atribuída qualquer função sintática, penso que por não haver consenso quanto à sua classificação:Mas não encontrei ainda nada escrito sobre o assunto.
         Pode ajudar?
         Muito obrigado pela atenção.

      R: Caríssimo colega,
    O estudo das orações subordinadas comparativas é das áreas mais complexas e controversas da linguística, como o poderá verificar pela leitura do capítulo 18 da Gramática da Língua Portuguesa (Caminho, 2003, pp. 731-766), da responsabilidade das Professoras Ana Maria Brito e Gabriela Matos. Entre construções canónicas e não canónicas; entre comportamentos muito distintos face a outras construções subordinadas adverbiais (que a gramática tradicional aproxima, mas a investigação tende a distanciar); entre as relações das comparativas com processos de elipse e conexões correlativas; entre o âmbito da comparação e a natureza dos termos comparados, muito há a considerar na análise deste tipo de construção, segundo perspetivas muito diferenciadas (tantas quantas haver estudiosos que preferem, uns, aproximar as comparativas do processo de coordenação; outros, da subordinação relativa).
     Considerando o que lhe disseram acerca de as subordinadas comparativas não terem qualquer função sintática, não posso definitivamente concordar. 
   Já em apontamento anterior, tive a oportunidade de me referir a uma função sintática (interna) desempenhada por esta construção, atendendo ao aspeto de graduação a que comummente anda ligada. Vai esse meu entendimento na linha do que as já citadas investigadoras entendem como expansão de complementadores, de acordo com o núcleo que surge expandido (nome, adjetivo, advérbio). Ignacio Bosque designa mesmo como "complemento comparativo" aquele que introduz o segundo termo da comparação.
     Há, assim, funções sintáticas a considerar com estas subordinadas.
    Numa frase como “Ficou em silêncio como se antecipasse uma reação indesejável”, a locução ‘como se’ introduz o que funciona como modificador do predicado da subordinante.
   No caso de “És tão inteligente quanto / como um sábio <é>”, a seguir ao verbo copulativo surge um predicativo do sujeito (‘inteligente’), configurado por um núcleo adjetival, internamente modificado pelo advérbio (intensificador) ‘tão’ e o correlato devido (‘quanto / como’). Registe-se que há no exemplo dado uma elipse (omissão do verbo da subordinada), um processo sintático típico nas construções comparativas.
    Em “Ele trabalha mais do que descansa”, volta a encontrar-se um modificador, desta feita para todo o enunciado, numa atitude avaliativa por parte do enunciador. A modificação opera-se com o advérbio ‘mais’, internamente complementado pelo correlato ‘do que’.
    Entretanto, “Comprei um livro mais falado do que <é> lido no seio dos jovens” configura uma estrutura comparativa (sublinhada) - equiparada a uma construção relativa adjetiva restritiva - que modifica internamente o grupo nominal ‘um livro’, sendo aquela iniciada pelo advérbio ‘mais’ (complementado pelo respetivo correlato).
    “Ele é (tal / assim) como um estrangeiro <é>” tem todo um sublinhado (oração subordinada comparativa) a funcionar como predicativo do sujeito.
    Em síntese, e na linha do que propõe Ana Maria Brito e Gabriela Matos, as comparativas configuram as seguintes condições:
a) termos comparados em realizações aproximadas de estruturas de coordenação asseguram funções sintáticas afins (“Ele consultou mais jornais do que revistas” tem no sublinhado um complemento direto central, constituído por dois núcleos – “jornais” e “revistas” –, internamente apresentando um advérbio com a função de modificador, acompanhado da sua expressão correlata –“ mais… do que…”);
b) termo(s) comparado(s) nas realizações aproximadas de estruturas de subordinação relativa corresponde(m) à(s) função(ões) que essa subordinada desempenharia (“O estudo, mais prático do que <é> teórico, é bastante representativo” apresenta uma subordinada comparativa a funcionar como modificador equiparável a uma relativa não restritiva, enquanto constituinte interno ao sujeito sintático da frase-matriz).

     Creio que, pelos exemplos facultados, haverá já provas suficientes de que não há sentido na afirmação que foi apresentada e citada na questão; há caminho a fazer, mesmo nas situações em que nos são dadas respostas às dúvidas que nos assaltam. Esta será, por certo, a minha maior ajuda (dentro do que me é possível ajudar): fazer caminho.

Terrorismo linguístico

     Mudam-se os tempos, a língua compõe-se de mudanças (como viva que é) e já não se escreve nem se conjuga como outrora (por mais que esse outrora tenha muito a ver com o presente e essas mudanças estejam mais para usos errados).

    Houve já oportunidade de referir como a construção pronominal do futuro é um dos casos críticos da língua portuguesa, a par do condicional.
    Recupero esse dado, ao ter deparado com um apontamento noticioso (no jornal Expresso online) e a forma de escrita que não dignifica um jornal considerado de referência:


    A propósito das trágicas explosões ocorridas em Boston, há jornalistas que devem achar que o tratamento temático do terrorismo se deve compatibilizar com ataques sérios e graves à língua com que comunicam (conforme se lê no último período). 
    Pode atualmente não haver consciência de a conjugação do futuro e do condicional ter sido um claro caso histórico de composição, no período final do império romano: eram o resultado de uma perifrástica constituída pela forma verbal de um infinitivo mais as terminações, respetivamente, do presente e do imperfeito do verbo habere. Uma marca que hoje persiste dessa antiga composição é precisamente a possibilidade de colocação de pronomes em mesóclise (isto é, entre a forma infinitiva do verbo e a sua terminação).
   Dir-se-á (ei-lo em ação), portanto, que estamos perante um caso antigo de sintaxe transformado em morfologia, pois 'falar' no futuro será o resultado de falar (h)ei, (h)ás, (h)á, (h)emos, (h)eis, (h)ão; no condicional, falar (hav)ia, (hav)ias, (hav)ia, (hav)íamos, (hav)íeis, (hav)iam
   Assim se explica, também, a comum terminação do futuro na terceira pessoa do plural; a acentuação aguda do 'á', 'ás' frequente e erradamente confundida com casos de contração.

   Ter-se-á encaminhado o suspeito para a zona de uma rua; encaminhou-se, por certo, o autor do apontamento jornalístico para o erro. Disto deverão saber os homens e as mulheres de letras (acrescentaria, os de boa formação), nomeadamente os jornalistas em causa (no pressuposto de que o sejam, desde o redator às suas chefias, para não falar daqueles que dão a cara pela sua direção).

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Coexistência de variações gráficas

     Na escola, hoje a discussão era sobre o teste intermédio de Filosofia.

    Entre alguma polémica centrada na formulação de instruções / construção de itens (o que vejo com alguma ironia, dias depois de se ter concluído um conjunto de horas de formação a tal destinado, promovido pela estrutura que hoje publicitou um teste por si mesma construído), alguém me perguntava se era possível escrever "reincarnação" com o assinalado 'i'.
    Parecia que o objetivo era formular um pedido de esclarecimentos à estrutura ministerial em causa,  pondo em questão um aspeto de natureza ortográfica, entre outros dados a apontar como questionáveis.
      Reconheci alguma estranheza face à escrita comum de "reencarnação"; todavia, alguma precaução me fez adiantar que uma possibilidade etimológica traria algum sentido para tal cenário. Pairava na minha cabeça qualquer coisa como "incarnāre" (tornar carne) na origem de "encarnar" (e, pelos vistos, também de "incarnar").
      Só uma consulta de dicionário (com esse tipo de informação) poderia sustentar uma resposta válida.
     Pela consulta do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (da Academia das Ciências de Lisboa), bem como do Dicionário Houaïss da Língua Portuguesa, as entradas de "encarnar" e "incarnar" são tomadas como sinónimas e remetem para a origem etimológica já referida. O mesmo pode ser encontrado na entrada nominal "encarnação" / "incarnação", com a proveniência latina "incarnatĭo". A partir desta base derivante pode chegar-se à forma derivada "reencarnação / reincarnação", pelo acréscimo do prefixo 're-'. Confirma-se, pois, a coexistência de uma variante gráfica com 'i', etimologicamente motivada, para reencarnação.
      Por aqui, em termos linguísticos não há problema a considerar. Pelas competências e pelos conteúdos filosóficos associados já, por certo, não me pronuncio, deixando o assunto para quem de direito.

     Perante um teste centralmente formulado, e depois de uma formação que me levou a criticamente assumir o desajustamento do que (me) era pedido, vê-se a estrutura ministerial (proponente da formação) a avançar com exemplos que docentes da disciplina em causa tomam como críticos ou com fragilidades escusadas. Caso para perguntar se tal estrutura não se põe a jeito, a ponto de não ser capaz de testemunhar aquilo em que pretende formar.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Uma história a cinco vozes

        A passagem do tempo impõe-se também no gosto musical.

        Disso mesmo se tem consciência num pequeno vídeo ilustrativo da evolução da música - só com voz(es), um registo cronológico dos séculos e das décadas, mais uma pequena nota de introdução de cor.


       Não se pode dizer que o "meddley" esteja completo, mas também não se pode pedir tal coisa em pouco mais de quatro minutos - a deixar perpassar registos desde o "Salve Regina" (séc. XI), Pachelbel (séc. XVII), Beethoven (séc. XIX) e vários sons diferenciados dos séculos XX e XXI (entre outros, Danny Boy, Frederic Weatherly, Oscar Hammerstein, Cab Calloway, The Andrew Sisters, Johnny Cash, Ritchie Valens, Beach Boys, The Beatles, Aretha Franklin, Jackson 5, Queen, Kool & The Gang, Michael Jackson, MC Hammer, Britney Spears, Destiny's Child, The Backstreet Boys, Shakira, Beyoncé, Katy Perry, Lady Gaga, Black Eyed Peas, Justin Bieber, Rihanna, Psy).
        O resultado é conseguido pelos cinco vocalistas que formam os Pentatonix.

      Música para todos os gostos e na falta de outros grandes nomes internacionais como Bee Gees, ABBA ou mesmo U2 e Rolling Stones (era mais um minutinho e justificava-se mais o "Penta").

sábado, 13 de abril de 2013

No dia mundial do beijo

    Há festividades para todos os gostos. A deste dia é muito... nem sei que diga.

    Hoje acordei com a notícia de que se celebrava o Dia Mundial do Beijo. Nunca tinha ouvido falar em tal, mas mais vale um dia destes do que o de uma outra coisa, menos afetiva, menos intensa; menor para as relações e os sentimentos humanos.
   É bom que não se pense que é coisa fácil ou pouca. Que o digam os romanos, que tinham três termos para três tipos bem distintos de beijos: o trocado entre conhecidos, designado 'basium'; o que só podia ser dado a amigos íntimos, o 'osculum'; o dos amantes, conhecido por 'suavium'.  
   No seio de tanto beijo, lembro-me da letra e da voz de Marisa Monte numa canção que muito fala desse encontro de pele selado pelos lábios.


    BEIJA EU

Seja eu!
Seja eu!
Deixa que eu seja eu
E aceita
O que seja seu
Então deita e aceita eu...

Molha eu!
Seca eu!
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu
Anoiteça e amanheça eu...

Beija eu!
Beija eu!
Beija eu, me beija
Deixa
O que seja ser...

Então beba e receba
Meu corpo no seu
Corpo eu, no meu corpo
Deixa!
Eu me deixo
Anoiteça e amanheça...

Seja eu!
Seja eu!
Deixa que eu seja eu
E aceita
O que seja seu
Então deita e aceita eu...

Molha eu!
Seca eu!
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu
Anoiteça e amanheça eu...

Aaaaah! ah ah ah ah! ah!
Ah! ah ah ah!
Ah! ah ah ah!
Ah ah ah!...

Beija eu!
Beija eu!
Beija eu, me beija
Deixa
O que seja ser...

Então beba e receba
Meu corpo no seu
Corpo eu, no meu corpo
Deixa!
Eu me deixo
Anoiteça e amanheça...

Aaaah! Aaaaah!
Oh oh oh oh oh oh!
Oh oh oh oh oh oh!
Aaaah! Aaaaah
Oh oh oh oh oh oh!
Oh oh oh oh oh oh!
Aaaah! Aaaaah
Oh oh oh oh oh oh!...


     António Aleixo diz que o beijo mata o desejo; O'Neill fala dele como uma ave estranha; João de Deus pergunta "Que custa um beijo?". Porém, no ou com o toque do beijo, calam-se os poetas e deixa-se ouvir mais alto o sentir, o ritmo do coração.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Consequências da expansão

      A questão não é sobre História, mas dava para uma história bem maior.

     Na expansão de um nome / grupo nominal, têm sido colocadas dúvidas a título da complementação / modificação deste último. Esta não anda longe.

     Q: Na frase "Não percebo a vontade que os estudantes têm de praxar", a oração subordinada "que os estudantes têm de praxar" só se pode classificar como subordinada adjetiva relativa restritiva, uma vez que o pronome relativo "que" retoma o nome "vontade". Em termos sintáticos, a oração deveria desempenhar a função de modificador. Contudo, o nome "vontade" é de natureza epistémica, o que implica a existência de um complemento do nome. Assim, interrogo-me sobre como classificar a oração, uma vez que funciona como completiva.

    R: Respondo à questão recorrendo a vários pontos para o raciocínio exposto na questão, por considerar que há vários dados a abordar (uns para confirmar, outros para rebater):
i) a oração subordinada apontada é efetivamente uma subordinada relativa restritiva, introduzida pelo pronome relativo 'que', retomando o grupo nominal matriz ('a vontade');
ii) a função sintática desempenhada por essa subordinada, a nível interno, é a de modificador (sublinho, a nível interno, pois, a um primeiro nível - o da frase matriz -, "a vontade que os alunos têm de se praxar" funciona como complemento direto do núcleo verbal associado ao verbo 'perceber';
iii) o nome "vontade" não é de natureza epistémica (pois esta última tem a ver com o domínio ou a modalidade do conhecimento - certeza, dúvida, ideia); quando muito, trata-se de um nome associado a uma modalidade do tipo volitivo (a do desejo);
iv) não há implicação direta entre o recurso a um nome que admita complementação e a realização necessária desta última, sendo plausíveis configurações sintáticas distintas (confronte-se o sublinhado das frases "A ideia errada não foi aceite" e "A certeza aparentemente inabalável foi contestada", a apontar para a utilização de modificadores e não de complementos de nome, por mais que tenham sido utilizados grupos nominais que tipicamente selecionam complementos);
v) a oração subordinada não é completiva, já que não é introduzida por uma conjunção subordinativa completiva (mas, sim, por um pronome relativo).
    Falta dizer que os complementos de nome são, por norma, introduzidos por preposição e / ou um adjetivo que admita construção sinónima com um grupo preposicional (ex: americana = dos americanos, da América), ambos a desempenhar papel temático de agente ou objeto
     No caso de a frase ser "Não percebo a vontade de os alunos participarem nas praxes", haveria lugar a uma realização com complemento de nome no sublinhado.
      Assim, não é possível confundir uma questão de complementação (como a da frase final) com uma de retoma e restrição (como a inicialmente proposta).

     A configuração sintática, a natureza das classes de palavras implicadas e os papéis temáticos relativos aos grupos de palavras usados são dados a considerar numa plataforma de análise integrativa, quando se pretende abordar funções sintáticas (sejam estas colocadas ao nível da frase sejam elas respeitantes a funções internas).

domingo, 7 de abril de 2013

Alguém anda a precisar de óculos

    A falta de visão é questão crítica, quando se coloca ao nível dos nossos olhos.

    Mais ainda quando, em termos de publicidade, a visibilidade pública da ignorância anda a par da pretensa necessidade de fazer ver bem.


   Das duas uma: ou o preço de fábrica é tão baixo, tão baixo que não permite fazer um cartaz em condições (correto na acentuação) ou, então, quem pretende remediar a falta de visão é alguém que, por certo, não a tem. 
    Má publicidade, portanto, e pelos vistos recorrente nesta área, apesar de a modelo parecer jeitosa (pelo menos na metade e no pouco que se dá a ver).

   Em vez de mais de mil modelos À (sublinho 'À') escolha, podia haver apenas dois (... modelos À escolha, claro está!) e podia ser que se passasse a ver melhor com os dois olhinhos que Deus nos deu.
       

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Um cartaz (em azulejo) do melhor

    O saber popular também se revela na melhor das artes.

    A arte do azulejo azul e branco é das mais típicas na cultura portuguesa. Entre imagens e textos, as peças de cerâmica vidrada, usadas para revestir e/ou para dar uma nota decorativa a paredes, dão a ver episódios de vida, da História, da religião.
   No caso seguinte, o azulejo funciona como aviso, com um pormenor de escrita demasiado popular:

    Para aviso, contudo, tem muito que se lhe diga: se 'cartaz' se escreve com 'z' final, diz a regra do plural que se lhe acrescenta 's' antecedido de um 'e' (epentético), à semelhança de termos terminados em 's' ou 'r'.
     Pode ser proibido afixar CARTAZES, mas também não deviam ser autorizados erros em suportes tão artísticos.

    E assim se vê como no melhor pano cai a nódoa, que é como quem diz 'no melhor azulejo cai o erro'.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Reflexões para / sobre uma formação acerca de exames

     Na passada segunda-feira, iniciou-se mais um ciclo (o terceiro) de formação online de professores  selecionados para corrigir exames nacionais.

    Praticamente ao fim de uma semana de trabalho, acompanhada de uma atividade suplementar para a mencionada formação (analisar e discutir exemplos de itens mal construídos, identificando-se os erros neles contemplados), muitos docentes de vários pontos do país tiveram de se pronunciar sobre a má construção de exemplos numa tipologia de itens (de completamento, resposta extensa / curta, verdadeiro / falso, associação / correspondência, escolha múltipla).
     Nos mais de cento e setenta comentários produzidos no meu círculo de formação, houve varia-díssimas contribuições para a deteção de pontos críticos na construção, na validade e na fiabilidade dos itens.
   Será sempre de reconhecer que este trabalho consciencializa quem habitualmente não reflete sobre este tipo de questões, sendo ainda de sublinhar claramente que erros de construção exercem influência direta na fiabilidade de instrumentos de avaliação: os alunos podem errar não porque não dominem conhecimentos (declarativos e/ou processuais), mas porque não percebem instruções (mal elaboradas) ou encontram alguma espécie de ruído nos dados propostos nos exercícios / nas tarefas; podem mesmo não chegar a responder / resolver. Atentar nestas áreas críticas é o que de mais válido, natural e profissional existe. Enquanto professores, o confronto com este tipo de problemas (pela positiva ou pela negativa) não é incomum e constitui uma oportunidade auto e heterossupervisiva relevante  no trabalho junto de alunos e/ou pares.
    Todavia (e pode ser apenas um pressuposto meu, errado, admito-o), não o consideraria no âmbito de uma formação destinada a um público específico como o desta formação: professores-corretores de exames nacionais. Por um lado, porque há uma exposição a exemplos que, por norma, não se deverão colocar (pela exigência colocada num processo e em equipas que constroem e/ou validam as provas de exames); por outro lado, porque o trabalho para que os professores-corretores são convocados não se centra a esse nível, mas sim no da correção, eventual recorreção e reavaliação que, sublinho também, é centralmente (re)definida na sua globalidade. Assim, questões de validade e fiabilidade na produção de provas de exame estão fora da alçada destes profissionais-formandos, na medida em que se espera receber provas bem construídas. Não acontecendo isto, mais problemática se torna uma prática já de si polémica.
      O conjunto de reflexões que aqui avanço (a propósito da tarefa levada a cabo nesta formação) não pretende, de nenhum modo, pôr em causa o sentido de uma área de intervenção fundamental no exercício de um professor. Deve é, porém, ser feito em termos de uma formação contínua alargada, independentemente do contexto de correção de exames nacionais. Diria até tratar-se de um domínio obrigatório na formação de todos os professores. A questão só é apenas mais delicada, e às vezes incompreensível, para o caso de um terceiro ano de formação de profissionais - querendo eu admitir que nele está envolvido um grupo com muitos anos de prática (no mínimo dos mínimos, três), inclusivamente de acompanhamento de exames. Houve, por certo, já muitas oportunidades para se discutir questões / problemas deste tipo. Quem não o terá feito tanto continua sem o fazer e a não receber o que já vai sendo familiar para os formandos em causa (como se pode verificar pela grande maioria de intervenções apresentadas).
     Os problemas colocados todos os anos na hora da correção de exames são de outra natureza; não desta. Bastaria refletir sobre relatórios produzidos na hora de aferição de critérios e/ou de verificação de resultados para se assim concluir.
    Caso se pretenda que todo este percurso formativo seja sobre avaliação (genericamente equacionada), tomo-o como não tendo sido isso o que foi anunciado no primeiro ano de formação, quando fui selecionado para ser o que se designava como técnico especializado na prática de correção e reapreciação de provas de exame nacional. Daí o meu pressuposto (que cada vez mais tomo como errado), no quarto parágrafo, e a minha insatisfação, ao ter que me pronunciar e ao ver-me perante aspetos que ultrapassam tal enquadramento.
       Por fim, assumo-o ainda, todo este trabalho (a ser feito com alguma exigência ou esmero profissional) levanta constrangimentos de vária ordem com a prática letiva docente nas escolas (para não falar da não letiva destinada a dinâmicas de apoio discente e de coordenação de estruturas escolares que, muitas vezes, não podem ser interrompidas, a título de uma dispensa concedida à última), mais as solicitações e os requisitos de natureza diversa a ela associados. Diria mesmo tratar-se de uma sobrecarga de trabalho, ainda que me sinta muito motivado para a formação. Também é verdade que não tenho sentido esta última - muito concretamente o percurso formativo dos dois últimos anos - como determinante para melhor corrigir / reapreciar exames. Não fossem as equipas de amigos críticos e/ou de discussão nas escolas (construídas na lógica de resolução de pontos críticos), os problemas que tinha mantinha-os; as dúvidas que surgiam procurava abordá-las e/ou resolvê-las, sustentando-me/-as na formação académica e pedagógico-didática recebida noutras instâncias.

      Enfim, resta aguardar (porque há sempre essa nota de esperança, que, dizem, é a última a morrer) que as próximas tarefas / iniciativas sejam bem mais recompensadoras, para justificar a sobrecarga em que muitos professores se veem envolvidos; uma formação que não foi sentida como necessária ou que os tenha ajudado a ter melhor desempenho do que o já revelado enquanto corretores em anos transatos.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A tristeza de um dia... sem motivos para celebração.

      É melhor pensar que o fim de semana está para chegar e que pode vir o "sol".

      Há dias que bem podiam não fazer parte do calendário.
     O de hoje é, por certo, um desses, pela inutilidade que teve, pelo cinzento que trouxe, pelo mau tempo que o anunciou.
    Historicamente, também não parece haver razões para o celebrar. Nele se viu partir um homem, ou melhor, um Homem que só o tempo de alguma forma tem vindo a reconhecer a sua ação e que, mesmo assim, ainda não tem entre nós a dimensão que deveria ter.
     Há cinquenta e nove anos morria Aristides da Sousa Mendes, só, pobre, apenas com o auxílio de uma instituição que o apoiou até à última hora, quando todos o abandonaram. Do prestigiado diplomata que havia sido e da influência marcante e humanitária que tivera, restava nessa altura a derradeira solidão, arquitetada por forças políticas que acabaram por o conduzir para uma condição de infelicidade irrecuperável.


     Em 1967, uma organização estatal israelita (Yad Vasham) homenageou-o; em 1987, foi postumamente condecorado com a Ordem da Liberdade pela Presidência da República Portuguesa; em 1989, a Assembleia da República  decidiu, unânime e aclamadamente, reintegrá-lo na carreira diplomática de que foi destituído, como forma de reparar um erro humano, político; em 1994, Bordéus rendeu-lhe homenagem com o descerramento de uma estátua; em 2005, os Estados Unidos da América reconheceram-lhe a determinação, a coragem e o humanismo revelados aquando do salvamento de judeus no período da Segunda Guerra Mundial. 
    A intriga, o despotismo, a duplicidade, a deslealdade pautaram todos aqueles que o levaram à miséria final. Hoje é designado "um Justo das Nações".

      É história passada, é lembrança presente, é descrença num futuro mais justo, quando se constata a impossibilidade de se ver, na altura devida, que há valores mais válidos do que formas ideológicas capazes de se alimentarem a si mesmas.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Amores e enganos (ou enganos de amor)

       Diz-se, em inglês, que hoje é "April Fool's Day"; em português, Dia dos Enganos.

     A propósito destes últimos, e porque me cruzei com a estátua de homenagem a Amor de Perdição (narrativa de Camilo Castelo Branco, publicada no ano de 1862), lembrei-me de uma passagem onde o narrador faz um comentário acerca do amor e do engano:
Estátua de mestre Francisco Simões, 
pelos 150 anos da publicação da novela camiliana (foto VO)
 "Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor aos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas; é tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe, que está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito como a segunda o que é voar para longe."

     E não viesse isto a ser verdade, claro que tinha de surgir a singularidade dos heróis românticos: Teresa de Albuquerque é excecional neste capítulo, tal como o par Simão Botelho. Quem leu a obra assim o reconhece, pela entrega e pelo sacrifício mútuos a que foram destinados, numa espécie de Romeu e Julieta à portuguesa.

     Diferentes foram também os amores de Camilo e de Ana Plácido, pelo menos para as cores do tempo. São essas teias de amor, nesse topus literário inspirador que abraça a sua obra (e, por que não dizê-lo, a própria vida), que se reveem na estátua sita no agora Largo Amor de Perdição, junto à Cadeia da Relação (local onde a obra foi escrita).