terça-feira, 9 de abril de 2013

Consequências da expansão

      A questão não é sobre História, mas dava para uma história bem maior.

     Na expansão de um nome / grupo nominal, têm sido colocadas dúvidas a título da complementação / modificação deste último. Esta não anda longe.

     Q: Na frase "Não percebo a vontade que os estudantes têm de praxar", a oração subordinada "que os estudantes têm de praxar" só se pode classificar como subordinada adjetiva relativa restritiva, uma vez que o pronome relativo "que" retoma o nome "vontade". Em termos sintáticos, a oração deveria desempenhar a função de modificador. Contudo, o nome "vontade" é de natureza epistémica, o que implica a existência de um complemento do nome. Assim, interrogo-me sobre como classificar a oração, uma vez que funciona como completiva.

    R: Respondo à questão recorrendo a vários pontos para o raciocínio exposto na questão, por considerar que há vários dados a abordar (uns para confirmar, outros para rebater):
i) a oração subordinada apontada é efetivamente uma subordinada relativa restritiva, introduzida pelo pronome relativo 'que', retomando o grupo nominal matriz ('a vontade');
ii) a função sintática desempenhada por essa subordinada, a nível interno, é a de modificador (sublinho, a nível interno, pois, a um primeiro nível - o da frase matriz -, "a vontade que os alunos têm de se praxar" funciona como complemento direto do núcleo verbal associado ao verbo 'perceber';
iii) o nome "vontade" não é de natureza epistémica (pois esta última tem a ver com o domínio ou a modalidade do conhecimento - certeza, dúvida, ideia); quando muito, trata-se de um nome associado a uma modalidade do tipo volitivo (a do desejo);
iv) não há implicação direta entre o recurso a um nome que admita complementação e a realização necessária desta última, sendo plausíveis configurações sintáticas distintas (confronte-se o sublinhado das frases "A ideia errada não foi aceite" e "A certeza aparentemente inabalável foi contestada", a apontar para a utilização de modificadores e não de complementos de nome, por mais que tenham sido utilizados grupos nominais que tipicamente selecionam complementos);
v) a oração subordinada não é completiva, já que não é introduzida por uma conjunção subordinativa completiva (mas, sim, por um pronome relativo).
    Falta dizer que os complementos de nome são, por norma, introduzidos por preposição e / ou um adjetivo que admita construção sinónima com um grupo preposicional (ex: americana = dos americanos, da América), ambos a desempenhar papel temático de agente ou objeto
     No caso de a frase ser "Não percebo a vontade de os alunos participarem nas praxes", haveria lugar a uma realização com complemento de nome no sublinhado.
      Assim, não é possível confundir uma questão de complementação (como a da frase final) com uma de retoma e restrição (como a inicialmente proposta).

     A configuração sintática, a natureza das classes de palavras implicadas e os papéis temáticos relativos aos grupos de palavras usados são dados a considerar numa plataforma de análise integrativa, quando se pretende abordar funções sintáticas (sejam estas colocadas ao nível da frase sejam elas respeitantes a funções internas).

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