quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Para outros reencontros com Pessoa(s)

Os momentos de despedida são sempre tristes, por mais que saibamos que surjam sempre hipóteses de reencontro(s).

Há referências que se vão perdendo. Vou olhando para o lado e começo a sentir que as caras já não são as mesmas; que não está quem queria que estivesse; que vão estando, alguns poucos, dos que nos vão dando alento; que aparecem outros a desafiar novas relações.

Enfim, o ciclo da vida que se regenera: entre os amigos que vão (por momentos -

-) e os que ficam.

Também acho que vale a pena. A minha alma, também pequena - grata ao exemplo que alguns me deram e alguns outros felizmente continuam a dar -, engrandece com cada sorriso, com cada palavra, com cada gesto, com cada desafio que cada aluno representa.

Vale a escola pelos alunos que tem e, ainda mais, por cada um daqueles que se vai cruzando na minha vida. Por eles, vou ganhando a força que outros fazem que vá sendo cada vez menor.

Nem tudo vale a pena, mas cada aluno faz com que a minha alma não seja tão pequena.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Outra dúvida-desafio linguístico

     Mais sintaxe...

    Q: Num conto da Sophia, há uma frase assim: " As cortinas enchiam-se de brisa". "De brisa" é um Grupo Preposicional com que função sintáctica?

   R: Partindo da centralidade do verbo 'encher' na frase, este requer uma estrutura argumental do tipo 'X encher Y de Z'.
   Na frase dada, o 'se' corresponde à marca factitiva de um argumento (do tipo 'o vento') que figuraria numa construção transitiva directa e indirecta de base ('O vento enchia as cortinas de vento'), entretanto reduzida, com a supressão do sujeito sintáctico 'O vento', numa construção transitiva apenas indirecta (> As cortinas enchiam-se de brisa'). Assume-se, então, um 'se inerente' como marca dessa redução de transitividade.
   O 'de brisa' é um grupo preposicional com a função sintáctica de complemento oblíquo (anaforizável por 'disso'; questionável por 'De que se enchiam as cortinas?').

    Entre os constituintes sintácticos e as funções por estes exercidos, é ao nível da sintaxe que a questão se coloca (para não dizer mesmo que, com a classe de palavras, se volta ao mesmo).

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dúvida-desafio linguístico (outro): modificadores

     De novo a sintaxe... e cada uma mais difícil!

    Q: Nas funções sintácticas, não é fácil perceber a diferença entre as que modificam toda a frase (por exemplo, as condicionais) e as que modificam apenas o predicado (por exemplo, as causais). Além disso, não se encontra em lado nenhum a função sintáctica das consecutivas nem das comparativas. Parece que estas últimas não podem ser consideradas modificadores, mas sim complementos; mas de que tipo?

     R: A distinção entre modificadores da frase e do predicado pode ser verificada pelos seguintes testes:
   . os primeiros não admitem o teste de interrogação (com estrutura clivada do tipo 'é que') nem o da negação, pela própria natureza disjuntiva do advérbio ou da expressão adverbial (exteriores ao predicado):
Ex.: Felizmente, tive boa nota no teste.
(a) *Foi felizmente que tive boa nota?
(b) *Não felizmente tive boa nota no teste.
   . os segundos admitem-nos, pela própria natureza adjunta do advérbio / da expressão adverbial (integram o predicado):
Ex.: Comprei um carro novo, no ano passado / No ano passado, comprei um carro novo.
(a) Foi no ano passado que comprei um carro novo?
(b) Não no ano passado mas na semana passada, comprei um carro novo.
     . os primeiros andam mais relacionados com questões de modalidade (posicionamento do sujeito locutor relativamente ao enunciado / ao conteúdo proferido).

     Alguns casos podem ser portadores de ambiguidade, mas há diferenças evidentes: na frase "Ele morreu naturalmente", o modificador do grupo verbal respeita os testes anteriores; já em "Naturalmente, ele morreu", o modificador é frásico (e obedece à lógica dos testes inicialmente expostos), revelador da atitude do locutor face ao enunciado proferido.
     Por estas mesmas razões, consideram-se as subordinadas adverbiais condicionais modificadores da frase (disjuntos, exteriores ao predicado), enquanto as causais assumem um comportamento mais semelhante aos modificadores do grupo verbal (adjuntos, internos ao predicado):

Ex. Sub. Adv. Condicional: 'Se tiveres bom resultado, dou-te uma prenda'
a) * É se tiveres bom resultado que te dou uma prenda?
b) * Não se tiveres bom resultado, dou-te uma prenda.

Ex. Sub. Adv. Causal: 'Não tiveste bom resultado porque não estudaste o suficiente'
c) É porque não estudaste o suficiente que não tiveste bom resultado?
d) Não tiveste bom resultado não porque não estudaste o suficiente, mas porque não interpretaste bem as questões.

      Quanto às comparativas e consecutivas, a dependência face à subordinante (até pela própria falta de mobilidade) é uma evidência que requer a consideração da construção sintáctica dessas subordinadas como estando mais próximas de formas de complementação. Estas devem ser entendidas enquanto fenómeno de complementação interna.. Tal como um grupo nominal admite modificadores ou complementos internos (modificador / complemento do nome) também as subordinadas comparativas/consecutivas acabam por apresentar uma forma de complementação interna aos grupos adjectivais / adverbiais (conforme os casos) por elas configuradas. São uma forma de expansão seleccionada pelo adjectivo / advérbio (enquanto núcleo que surge complementado por um grupo frásico explícita ou elipticamente contemplado).

Ex.: Ela é tão simpática que não há ninguém que não a estime. (Subordinada consecutiva)
Ex.: Ela é mais / menos simpática do que muita gente que eu conheço.
    Ela é tão simpática como muita gente que eu conheço. (Subordinadas comparativas)

     Não é por acaso que estes dois tipos de construção se integram no que se designa por construções subordinadas de graduação (admitindo que os adjectivos e os advérbios são as classes que especificamente admitem a variação em grau).

      Por aqui se vê ainda algumas das limitações do que se foi aprendendo com a gramática tradicional: não podem pertencer a uma mesma categoria sintáctica mecanismos com características tão diferenciadas (relembre-se que, na gramática tradicional, as comparativas e as consecutivas estão integradas nas subordinadas adverbiais, tal como as condicionais, as temporais e outras mais).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Dúvidas-desafios linguísticos

     Muitas têm sido as questões que me são colocadas a nível da gramática: alunos, colegas, amigos... São desafios a que vou tentando dar resposta; aproximações, em função do que vou lendo, encontrando, reflectindo; procuras que podem sempre dar lugar a caminhos errados (nada como voltar para trás) ou becos sem saída... Os leitores (se os houver) assim o dirão.

   Q: Como classificar sintacticamente (em todas as suas possibilidades) a frase ‘Mandei-o fazer o TPC’?

   R: Trata-se de uma questão algo complexa, implicando o trabalho com noções de subordinação, transitividade verbal e causatividade.
     ‘Mandei-o fazer o TPC’ corresponderá a uma sequência não pronominalizada do tipo ‘Mandei o aluno fazer o TPC’. Isto significa que, da sequência subordinante ‘(Eu) Mandei’, se parte para uma subordinada não finita infinitiva: ‘o aluno fazer o TPC’. No fundo, há uma oração ou frase superior (subordinante), com sujeito subentendido [eu] e um predicado [mandei X]; este último, com o núcleo verbal [mandei] e o complemento directo X [correspondente a uma sequência frásica dependente: o aluno fazer o TPC]. Este não deixa de ser também ele constituído por um sujeito [o aluno] e um predicado que integra outro complemento directo [fazer o teste].
     Esquematicamente, dir-se-ia que:

Sequência superior (subordinante)
Sujeito (subentendido): Eu
Predicado: Mandei-o fazer o TPC
Complemento directo: ‘o fazer o TPC’ (cuja realização não pronominalizada seria ‘o aluno fazer o TPC’)

Sequência dependente (subordinada)
Sujeito: o aluno
Predicado: fazer o TPC
Complemento directo: o TPC

     A partir daqui, a construção pronominalizada é explicada da seguinte forma: as sequências superiores marcadas por verbos causativos (como mandar, deixar, fazer) seguidos de uma completiva com sujeito lexicalmente marcado (neste caso, 'o aluno') obrigam este último, ao assumir a forma de pronome clítico, a ligar-se ao verbo da sequência subordinante e não da dependente ou subordinada. Trata-se da chamada ‘subida de clítico’ (uma das construções de elevação estudadas no Português). Está aqui também parte da lógica causativa: SUJ causador (eu) + V causativo (mandei) + CD obj/acontecimento (o aluno fazer o TPC). Desta forma, é admissível a construção pronominal com ‘o’, configurando-se o sujeito da subordinada como parte do CD da subordinante.
     Por outro lado, o verbo ‘mandar’ vê, pela subida do pronome clítico, a sua transitividade revista, numa redistribuição dos papéis semântico-sintácticos dos seus argumentos e numa reordenação dos complementos requeridos.
     É um bom exemplo do que Tesnière, na perspectiva de uma gramática de valências, considera ser a “diátese causativa”.

    Há exemplos que eu, seguramente, deixaria para serem trabalhados ao nível do ensino superior ou da formação docente. Há casos bem mais simples e/ou regulares, sistemáticos para trabalhar com os alunos.