segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um filme para esquecer; um livro a rever.

         Os Maias é para ler. Sem mais.

        Há livros que não desmerecem os filmes que neles se inspiraram (lembro-me, por exemplo, de O Carteiro de Pablo Neruda, de Antonio Skármeta, e que Michael Radford dirigiu cinematograficamente). Por poucos que estes sejam, às vezes o sentido estético e artístico da tela chega a ser uma mais-valia para as páginas corridas pelas mãos e pelos olhos dos leitores.
       Outros - a maioria dos que conheço - não têm comparação possível. Os Maias, de Eça de Queirós, pertence a este último grupo, atendendo ao que pude assistir na versão fílmica de João Botelho.


    Não posso dizer que tenha alguma coisa a ver com o realizador, de quem já apreciei outros desafios cinéfilos. O certo é que, para mim, a obra é um dos maiores romances da literatura portuguesa, depois de O Ano da Morte de Ricardo Reis (de Saramago). Nisso fica logo marcada por uma elevada expectativa, para não dizer reserva face ao que a sétima arte possa trazer para uma narrativa ímpar. O próprio João Botelho entende o texto como "intocável" e, como tal, anunciou uma proximidade que qualquer leitor atento vê por vezes comprometida.
       Há aspetos muito bem conseguidos no filme: o episódio do Sarau da Trindade, o da revelação incestuosa (comicamente entrecortado pelo pormenor do chapéu de Vilaça que não aparece nem deixa que o sentido trágico do momento se adense), o da relação consciente do incesto  por parte de Carlos (ainda que numa cena demasiado prolongada, por comparação a momentos significativos da obra ora eliminados ora reduzidos); o jogo de ausência de cor (na estrutura da novela ou da concentrada analepse inicial), seguido do colorido que acompanha os dois anos de vida de Carlos em Lisboa; a caracterização e decoração de interiores; a construção de algumas personagens (nomeadamente, Ega e o avô Afonso da Maia).

Exemplo dos wallpapers disponibilizados na página oficial do filme (http://www.ardefilmes.org/osmaias/)

         Depois, há toda uma deceção: exteriores repetitivos em telões pintados por João Queiroz, sem grande apelo (particularmente os do Douro, sem a vitalidade refrescante e rejuvenescedora de Santa Olávia) nem a tonalidade de luz ou calor tão marcantes quanto desgastantes da capital; personagens que ficam muito aquém dos traços que Eça destacadamente individualizou (um Eusebiozinho tão indiferenciado, um Dâmaso tão apagado e quase sem "chique a valer", uma Maria Eduarda tão longe do retrato de "deusa", um Alencar mais tresloucado do que "catedral romântica", um Afonso da Maia jovem tão pouco convicto ou convincente, uma condessa de Gouvarinho sem sabor, nada arrebatadora ou insinuante); a ausência de momentos fulcrais do romance (como o primeiro encontro de olhares entre Carlos e Maria Eduarda, apenas mencionado no jantar do Hotel Central; o episódio de Sintra) ou a introdução de outros tão desajustados (como o de uma patética Maria Eduarda sofridamente caída numa rua de Lisboa, o de planos inusitados para as rodas das tipoias ou caleches); a presença de um narrador cuja voz monocórdica, séria e grave não deixa ecoar os sinais críticos (e, por vezes, também risíveis) que a lente de um monóculo observador e atento deixava ver / ler.

    Se as "Cenas da Vida Romântica" (próximas do subtítulo romanesco "Episódios da Vida Romântica") estão mais para o projeto queirosiano das "Cenas de Vida Portuguesa" do que para a fidelidade ao romance de 1888 (o terceiro, depois de  O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio). Procurar ter em tela o que possa ser um conjunto de pinturas tornadas cenários teatralmente ajustadas à ambiência e ao registo próprios de uma ópera até poderia revelar-se uma estratégia interartística relevante; peca por as "cenas" ficarem tão irreais e antinaturais quanto afastadas de um retrato queirosiano real(ista) e natural(ista) ainda atual aos olhos dos leitores contemporâneos.