sábado, 2 de maio de 2009

Um passado bem presente a dar futuro

      Assim se exprimia o nosso Álvaro de Campos: "Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!" (Ode Triunfal)

    Afinal, por que razão não substituem o Homem por uma máquina? Querem tanta quantificação, tanto resultado, sem olhar a pessoas, a tempos e a meios!
      Denis Kaufman, sob o pseudónimo Dziga Vertov, foi o cineasta russo que nos deixou "O Homem com a máquina de filmar" ('Man with the Movie Camera', de 1929) - uma espécie de alerta sob a forma de cinema mudo, similar ao que George Orwell (em 1948 e no romance Nineteen-Eighty Four), relembraria e inspiraria com o seu "Big Brother is watching you". Ao contrário deste escritor, o totalitarismo denunciado por Vertov não é (apenas) o da política: é o do triunfo da máquina na vida do Homem ("I am the machine that reveals the world to you as only I alone am able to see it.") a ponto de o substituir.



      Eis o prazer dos que observam quando, afinal, são os observados! Oferecer aquilo que dá prazer, e faz rir, não pode deixar esquecer como se pode estar ao mesmo tempo a destruir, a anular, a alienar o que de mais humano há! Esta é a lição que uma máquina de filmar torna mais visível, ainda que para muitos tal permaneça invisível. Nem a caixa, a lembrar Pandora (abre para deixar sair o mal, fugindo de cena), parece servir de aviso: a máquina que dela sai circulará pelo mundo, captando a realidade que alguns gostarão de observar até que descubram que eles mesmos - os espectadores - estarão na sua mira.
     Na década de 20, no século XX assim se deu a ver. E nós, no século XXI, mantemo-nos esquecidos de um passado que, afinal, já nos mostrou o nosso presente a dar futuro.



    Acaba por angustiar tanta dinâmica, tanta sede, tanta ânsia... tanta cidade, tanto sinal de civilização.
       No meio de tanto cansaço, relembro e fico-me por outros versos de Campos, bem mais conscientes das limitações e fragilidades humanas:

"...
Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti de mais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim.
Decresce sensivelmente a velocidade do volante.
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim há só um vácuo, um deserto, um mar nocturno.
..."

(Ode Marítima)

      Entre a força e a máquina de tudo 'ter que fazer', sinto-me sem o tempo, sem o espaço ou sem o ego do 'querer fazer'. Não quero ser a máquina em que me estão a tornar. Até porque ela, por certo, de tanto trabalhar e forçar, não deixará de avariar.

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