sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Uma noite com "Ah, os dias felizes"

      A noite foi de Beckett, para um texto desconcertante e uma representação dominantemente monologada por Emília Silvestre.

     Na reflexão feita sobre a vida e a condição humana, dois atos dão a ver uma mulher presa a uma pedra, com tanto de verticalidade na aspiração e elevação dos anseios como de horizontalidade sugestiva na laje sepulcral. No fluir do discurso, há um balanço de vida feito das lembranças que a memória ainda consegue reconstruir. Repetem-se alguns gestos - os possíveis, já que alguns vão sendo perdidos com a passagem do tempo. Espera-se (não por Godot, mas pela morte), na progressiva prisão que a monumental rocha vai moldando ao corpo, até que só há cabeça, pensamento e discurso; até que os olhos fecham e nada mais se ouve dizer.
      A isto assiste o espectador até que, no vaivém do diz ele-diz ela (um par de vultos evocados do passado), se sente invadido, observado por Winnie - como se a realidade estivesse com ela e o teatro passasse a ser vivido na plateia e nos varandins. À maneira de Beckett, representa-se a vida rotineira e banal pelo que esta tem de universal. A universalidade humana, afinal, reflete essa mesma vida sedenta de comunicar com o outro; de sentir a presença de alguém; de ver e de ser visto; de procurar ler o que não se consegue ver; de agarrar e organizar repetidamente aquilo que vai acabar por ficar invisível, mas que se vai 'saber', ainda assim, que estará sempre lá. É este, tem sido assim (como antigamente), o percurso que a Humanidade inscreve na sua vida, com a composição de sons ora alegres ora chorosos, ora pacíficos ora convulsos; com a nota de solidão (apesar das comunhões construídas); com a dimensão individual nos dilemas e receios (não obstante os laços afetivos que se mantenham, sejam estes presenciais sejam eles limitados à recordação). E no meio de tudo, há sempre o som estridente do despertador, compassando o tempo; marcando o acordar para a vida e para a construção dos atos.
     A profundidade humana surge equiparada às entranhas da terra, ligada a ela. Ambas são concretas, compostas, numa sedimentação que resiste até à ameaça do incerto, do desconhecido e do incompreensível, tornado fragmentário, nas camadas que as compõem.
     Pelo poder das palavras e do discurso produzido por Winnie, aqui e além acompanhado por Willie, ganha-se consciência da reflexão produzida: a do ser que vive na língua que usa, que o faz comunicar com os outros e consigo próprio (ocupando o tempo e o espaço que o circundam). A morte chega quando, mais enterrada na pedra, Winnie vai quebrando esse fio de pensamento e de expressão até ao momento em que não produz qualquer som para representar ou para (se) ouvir.
      "Ah, os dias felizes", numa fidelidade maior à tradução francesa de Happy Days (Oh les beaux jours), é o título para a convergência no gosto de um passado (como antigamente ou à moda antiga) e no sentido de vida voltado para um canto (mesmo que seja o lendário canto do cisne).
       A dissolução do ser faz-se, assim, na ansiada harmonia do inefável.

    "E no entanto ela move-se" é a máxima galileiana para se referir ao movimento da Terra que outros queriam negar; pode também valer para significar a progressão da vida, por mais que esta seja vivida nessa ideia de que a fração do segundo seguinte é igual à do anterior (o mestre Caeiro já nos ensinou que não, atento que estava à eterna novidade do mundo em cada instante).

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