sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Do cão que não fala e da luz que falta por dentro

     Entre Vieira e Santos Guerra, há sempre espaço para se refletir sobre o papel do professor.
       
    No Coração da Escola (2003) é título para o professor de Organização e Desenvolvimento Curricular Miguel Santos Guerra citar uma história que muito faz refletir sobre as relações do ensino-aprendizagem e das vantagens que uma plataforma interrelacional dos polos comunicativo-educativos oriente o que o autismo de cada um deles, exclusivamente em si mesmos, nunca permitirá. Reza então a história citada o seguinte:
  
     Num congresso internacional sobre a linguagem, um famoso linguista americano disse em plena conferência que, com o recurso às novas teorias de ensino das línguas, havia ensinado o próprio cão a falar. Pelo auditório ouviu-se um intenso burburinho, mas o conferencista insistiu:
    - Sim, ensinei o meu cão a falar. Tenho-o ali fora, posso mostrar-vos. 
     Fez então um sinal para que lhe trouxessem o animal.
    A agitação na sala cresceu quando viram o cachorro sobre a mesa de conferência. Dezenas de flashes dispararam e audiência esperava então pela demonstração da eficácia do ensino.
    Passou um minuto, dois minutos … e o cão agitava-se inquieto sem se ouvir qualquer sinal de fala.
    A audiência lançou o olhar para o conferencista, num ar de censura e este, então, disse:
    - Bem, eu ensinar, ensinei. Ele é que não aprendeu.

     Uns séculos antes (quatro, mais precisamente), nos seus Sermões, Padre António Vieira já havia também produzido reflexão na mesma ordem de ideias, salientando, contudo, a importância de orientar e criar as condições favoráveis à aprendizagem - esta, aliás, era grande preocupação jesuítica no processo de evangelização, também muito focada na eficácia do ensino. Atualmente, nos circuitos de processamento da informação construídos entre quem ensina e quem aprende, muito se tem falado das teorias de receção e de input, mais as de ativação e (re)produção pautadas pelo ensejo e desejo do output. E quando muito se discute entre os desfasamentos ou desníveis que elas revelam (ou a falta de linearidade ou correspondência direta e imediata entre ambas), importa centrar a reflexão na noção de intake. Interessa abordar esse ponto intermédio, de apropriação, integração e interestruturação das aprendizagens pretendidas. Neste sentido é que o ato de compreender adquire sustentabilidade cognitiva significativa, implicação na aprendizagem - afastando-se, portanto, do que é a mera produção imitativa, sem grande ou nenhum sentido.
       Muito disto pode ser revisto no pensamento de Vieira:
Imagem alusiva a Santo António, pregando aos peixes
     “O Mestre na Cadeira diz para todos; mas não ensina a todos. Diz para todos porque todos ouvem; mas não ensina a todos, porque uns aprendem e outros não. E qual é a razão desta diversidade se o Mestre é o mesmo e a doutrina a mesma? Porque para aprender não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro. Se a luz de dentro é muita, aprende-se muito; se pouca, pouca; se nenhuma, nada.” 

     Hans G. Furth, numa obra de 1981 intitulada Piaget and Knowledge. Theoretical foundations (Chicago/London, The University of Chicago Press, p. 232) e cujo registo original data de 1969 (Prentice-Hall, Universidade de Michigan), aponta para o facto de a compreensão ser "much more than to transmit outside information. To understand means to restructure the situation and transform a given problem in terms of one's internal equilibrated structure". Assim, tanto a exposição como a externalização de um dado não significam necessariamente a sua aprendizagem; representam, antes, uma condição mais ou menos neutra de contacto com esse dado, o qual requer uma outra etapa, estrategicamente preparada, de modo a se tornar conhecimento, aprendizagem significativa e sustentada.
     Richard Schmidt, por exemplo, no artigo "The Role of Consciousness in Second Language Learning" (publicado na revista Applied Linguistics, vol. 11, nº 2, Oxford University Press, 1990, pp. 129-158), depois de se referir à controversa questão da consciência / inconsciência na aprendizagem das línguas, reconhece na primeira as vantagens de conjugação de fatores como a atenção, a memória a curto prazo, controlo e automatismo, processamento em série e com paralelismo analógico. Estão aqui pontos fulcrais para qualquer aprendizagem, linguística ou não (como se nesta última não estivesse também a primeira).
       Falar de intake focaliza a questão dos efeitos do input, o instante em que os dados são integrados na base da memória (mais ou menos temporária) do aprendente, a ponto de a educação a que se encontra exposto se moldar à sua própria aprendizagem.

      Talvez não fosse mau que alguns responsáveis da educação revisitassem a literatura clássica, concluindo que respostas rápidas, imediatas e económicas não são as que alicerçam esse "entender por dentro", para não dizer que nem sempre a "luz" se encontra "ligada" (ou que frequentemente se encontra "fundida").

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