segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Dalí e Pessoa

Relembrando Pessoa, pela diversidade que persiste na unidade; ou pela unidade que se fragmenta em múltiplas sensibilidades.

Não sei quantas almas tenho

Figura com gavetas, Salvador Dali

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

_________________________________________Fernando Pessoa,
__________________________________in Novas Poesias Inéditas,
_____________________________________Lisboa, Ed. Ática, 1973

E, perante isto, ainda há quem defenda que o que não cabe no ortónimo figura nos heterónimos; ou que o "restante" destes "faz de si"! Nem com aspas consigo entender esta 'normalização' de um Pessoa, responsável primeiro pela teoria do fingimento.

Falem, ou melhor, escrevam os alunos de 12º ano, que sobre isso tiveram de tecer sumariamente algumas considerações em pleno exame. Nem sei que diga!

1 comentários:

JMA disse...

Esta arrevezada opinião - e uma sintaxe obscura - devem ter deixado os alunos (e os professores) sem saber muito bem o que comentar.

Malhas que os exames tecem.

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