terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Enterrar os mortos e cuidar dos vivos"

      Citando as palavras do Marquês do Pombal, cumprem-se os tempos.

   O sentido pragmático associado à produção do enunciado setecentista justificava-se pela emergência de medidas a tomar / aplicar, para dar resposta a uma hecatombe que a História faz lembrar e o feriado evoca.
   Passados mais de 250 anos, o Terramoto de 1755 parece um filme trágico, de que alguns documentários mostram evidências relativas ao que ninguém, por certo, gostaria de reviver:

Montagem de dois documentários televisivos (Canal 'Odisseia' e 'História') 
alusivos à efeméride histórica do Terramoto de 1755 (Lisboa)

     A sequência do terramoto-maremoto-incêndio foi demasiado dantesca para uma capital europeia e orgulhosa de sinais de protagonismo vivenciado desde os tempos dos Descobrimentos até à magnanimidade áurea de D. João V e do seu sucessor D. José I. O colapso deu-se e só não foi maior pela presença estadista - ainda que autocrática, despótica - de Sebastião José de Carvalho e Melo, que fez reconstruir a baixa lisboeta à luz do espírito racionalista do tempo. Da ira de Deus à catástrofe natural foi um longo caminho para uma argumentação que hodiernamente tem nesta última o motivo credível e a todo o tempo repetível.
      Em pleno século XXI, a lembrança dos mortos é mais afetiva e próxima de cada um do que da necessidade e do pragmatismo que se impunham ao bem (sanitário) de todos em meados do século XVIII. Cuidar dos vivos mantém-se um imperativo que, atualmente, outras tragédias fazem (re)viver - mais parecendo que, por vezes, se quer enterrar os vivos.

       Um dia para lembrar pelo que foi e pelo que é - até porque há tsunamis na vida que estão bem mais para cá e para lá de Lisboa ou dos tempos (já) vividos.