sábado, 18 de janeiro de 2014

Assim o poeta viu a cidade

      A hora da morte faz-se também do canto, daquele que lembra os versos legados a quem os queira ler.

       As palavras nem sempre traduzem aquilo de que se gosta. E, por vezes, quando surgem de quem possa causar mossa, é o autor delas que sofre por aquilo que diz(disse) ou escreve(u).
       Há poetas que, um pouco à moda de A República de Platão, não são aceites na cidade (ainda que hoje ela esteja tão longe da idealização): não formulam hinos àqueles que se julgam deuses nem propõem encómios aos varões que se dizem honestos. 
      José Carlos Ary dos Santos parece ser um destes poetas, numa (so)ci(e)dade que nada tem de platónica, mas que joga com argumentos visando o mesmo fim prático: não reconhecer qualidade aos que conseguem ver o seu tempo e o que se lhes mostra adiante, numa condição humana que se suplanta.


       Nesta cidade de palavras pisadas, de homens desesperançados e desiludidos, mais sentido fazem os versos do poeta, nessa "procura da sombra de uma luz que não há".

      Trinta anos depois, poucos ainda o conhecem ou há quem não queira que seja (tão) conhecido. Por mim, traduz bem o que hoje é a cidade, a precisar de um outro abril; das letras de canção que habitaram a voz coletiva nos cantos de intervenção; das palavras e dos versos inconformados, para nos livrar do lixo (que nos circunda, governa e ameaça) e lutar contra estigmas estéreis.

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