domingo, 19 de julho de 2026

Manipulações

     Não são feitas com mãos, mas com tecnologias "de ponta" (aguçada por intenções dúbias).

     A circulação de uma foto com legenda televisiva imprópria (porque manipulada por Inteligência Artificial - IA), e com impropério, dá conta de como a palavra "pauta" se aproxima bastante de uma outra, retirando-se o grafema 'a' da primeira sílaba. O certo é que o confronto com a emissão do programa difundido quinta-feira passada (dia 16) permite confirmar que de "pautas" se fala e se escreve, sem qualquer confusão possível:

A prova do que o Ministro admite: as pautas; não o que outros querem dar a ler (Foto VO) 

     Contrastada a foto mencionada (que evito expor pela leitura explícita do que nunca realmente existiu) com a agora apresentada, seja para quem se ria / ri da situação seja para quem via /vê o que não pode ser lido, fica o aviso: o assunto motivador da brincadeira não merece o tratamento dado, por um lado; lamentavelmente, atesta-se que não se pode acreditar em tudo o que se lê, por outro. Há que confirmar as fontes, e a que é necessária está ao alcance de muitos, recuando-se no tempo e verificando-se o que foi efetivamente escrito na legenda do canal televisivo "Now" (fosse outro e diria que havia matéria para a rubrica do "Polígrafo SIC", dedicada à constatação da veracidade / falsidade de notícias e conteúdos virais). 
       Tal como diria Camões, "vi claramente visto"; melhor, "li claramente lido". Despistada, portanto, qualquer intenção outra que não a do que foi escrito, apesar de a possibilidade poder ser considerada (na base de legendas insólitas já verificadas).
       Tenho pena que, na mesma emissão, ainda abordando o tema da crise dos exames nacionais e a questão da publicitação dos resultados, surja o «famigerado verbo 'meter'» (hoje tão vulgarmente utilizado, mesmo nos contextos em que para tal não deve ser convocado):  

A crise dos exames nacionais a par de uma outra bem mais alargada: 
a do uso da língua nos canais televisivos (Foto VO)

     'Pôr em risco' / 'colocar em risco' perde, com a legenda escrita, a configuração de expressão fixa, pelo recurso de "meter". Lá diz o povo, "entre marido e mulher não metas a colher", o que deve ser relativizado em contextos muito críticos. Eu digo aos alunos que não se mete no quadro, no papel,... Também embirro com 'mete em risco', pela sua coloquialidade ou familiaridade, pouco desejáveis na comunicação social. Entre as expressões e/ou as combinações mais comuns no uso (assumir, aumentar, avaliar, controlar, correr, estimar, evitar, gerir, identificar, minimizar, mitigar, reduzir o risco), o verbo 'meter' não parece ter lugar; evitá-lo-ia, portanto, para que não se 'meta' em lugares / expressões que não se deve utilizar ou se deve evitar.
     Portanto, enquadro 'meter notas em risco' em construções que evidenciam inadequação nas legendas televisivas, a tocar a impropriedade lexical (das penalizações maiores na escrita dos alunos, a par dos erros sintáticos), face ao exemplo que deveriam assumir. 
      Entre os variadíssimos exemplos que já foram contemplados neste blogue, pode já dizer-se que há matéria para demonstrar / analisar tais falhas em vários domínios linguísticos.

      E continua a questão: a da responsabilidade editorial. Não há quem verifique, sugira, corrija, cumpra o que deve ser uma obrigação na difusão correta e adequada da língua (seja lá qual for o canal). 

8 comentários:

  1. Ana Paula Vasconcelos19 de julho de 2026 às 20:21

    Tecnologia tem vários “lados”.

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    1. Tem, sim senhor(a)... particularmente os de quem a usa (sabe-se lá com que intenção)!

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  2. Hoje, mais do que nunca, é essencial ter espírito crítico... O que se descobre quando estamos atentos!

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  3. Tempos perigosos!

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    1. Ana Carvalhinho, só porque alguém os deixa ser ou, então, tem interesse em que eles assim sejam. Os "pegadores", como dizia Vieira, sempre se sustentaram enquanto a baleia sobreviveu.

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    2. Vítor Oliveira, talvez! Mas acho que a reflexão é mais profunda.

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    3. Minha cara, nem profundezas nem profundidades.
      Estou mais para a ligeireza ou para a virtude do que é ligeiro. É outra suavidade, outro equilíbrio, mais natural... e da natureza.
      Como diria Caeiro, "Muito sol para ti".

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