quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Esse conheço eu... ou não!

      Convenhamos que a relação da poesia com a música é mais do que evidente...

      ... e um nome pode ser a ponte para mais um exemplo dessa evidência: Alexander Search. Podia ser Fernando Pessoa, sim, enquanto um dos seus heterónimos; é-o, de facto, na rádio, não numa simples declamação poética do texto, mas numa cantiga baseada no poema heteronímico.
    Trata-se do projeto musical de uma nova banda de rock eletrónico, con-cebida por Júlio Resende e onde figu-ram Salvador Sobral (hoje mais conheci-do enquanto vence-dor do último festi-val da Eurovisão) como o vocalista Benjamin Cymbra, para além de Augustus Search (composição, piano e teclados), Marvel K. (guitarra), Sgt. William Byng (eletrónica) e Mr. Tagus (bateria).
      Inspirado na poesia pessoana escrita em inglês aquando da permanência do poeta na África do Sul (Durban) nos tempos de adolescência, Alexander Search do século XXI canta o que Alexandre Search dos inícios do século XX escreveu.
     Ainda em tempos de sol, à espera da chuva que teima em não vir (a lembrar Caeiro e os versos "Nem tudo é dias de sol / E a chuva, quando falta muito, pede-se" - in Poema XXI de "O Guardador de Rebanhos"), chegam aos nossos ouvidos as palavras duplamente (re)criadas por Search (sem ter de procurar muito pela escrita):

Vídeo de apresentação de "A Day of Sun", de Alexander Search

       A DAY OF SUN

I love the things that children love
         Yet with a comprehension deep
That lifts my pining soul above
         Those in which life as yet doth sleep.

All things that simple are and bright,
         Unnoticed unto keen‑worn wit,
With a child's natural delight
         That makes me proudly weep at it.

[I love the sun with personal glee,
         The air as if I could embrace
Its wideness with my soul and be
         A drunkard by expense of gaze.]

I love the heavens with a joy
         That makes me wonder at my soul,
It is a pleasure nought can cloy,
         A thrilling I cannot control.

So stretched out here let me lie
        Before the sun that soaks me up,
And let me gloriously die
        Drinking too deep of living's cup;

Be swallowed of the sun and spread
       Over the infinite expanse,
Dissolved, like a drop of dew dead
       Lost in a super‑normal trance;

[Lost in impersonal consciousness
       And mingling in all life become
A selfless part of Force and Stress
      And have a universal home;]

And in a strange way undefined
       Lose in the one and living Whole
The limit that I call my mind,
       The bounded thing I call my soul.

                                                                            17-03-1908

in Poesia Inglesa, Fernando Pessoa 
(organização e tradução de Luísa Freire, prefácio de Teresa Rita Lopes) 
Lisboa, Livros Horizonte, 1995, p. 172

     Segundo a biografia criada pelo grupo musical, o novo Alexander Search é um(a) (P/)pessoa coletiva com muito da mensagem que o autor de Orpheu propõe nos seus textos:

     "Alexander Search é uma banda de língua inglesa que cresceu na África do Sul, mas que está radicada na Europa, mais concretamente Portugal, “paraíso à beira mar plantado” como dizia o seu maior poeta, Fernando Pessoa. A sua música mistura influências da indie-pop, música electrónica e rock. As letras foram escritas maioritariamente por Alexander Search, membro da banda que morreu tragicamente ainda jovem, mas que granjeia o respeito e admiração dos seus pares como “the greatest conquerer of the beauty of words”, o maior conquistador da beleza das palavras.
     Augustus Search é o compositor de serviço da banda, toca piano e sintetizadores e faz a direcção musical. Benjamin Cymbra é um cantor extraordinário e traz na sua voz a garra rock n’roll do passado e as angústias e esperanças do presente. O futuro “é a possibilidade de tudo”, dizia também Pessoa.
    Sgt. William Byng comanda a vertente computacional e electrónica. Marvel K. tem uma guitarrada cortante e espacial. E Mr. Tagus, ex-baterista de jazz, ainda tem na música e ‘groove’ de África uma das suas maiores riquezas.
      Alexander Search é uma banda que gosta de ousar, impaciente, à procura, sempre à procura, da quintessência. Nunca o conseguiu. Este é o disco de mais uma tentativa falhada."

     Nos homónimos, há uma convergência de som e grafia a que Música e Literatura não são estranhas face ao escritor e projeto musical representados no cruzamento interartístico aqui divulgado.

     E nesta (re)criação artística estará uma boa forma de lembrar o criador que amanhã será recordado no seu fim terreno.